Epidemiologia e saúde dos povos indígenas no Brasil
Condição nutricional de um grupo de idosos indígenas no distrito sanitário leste de Roraima
Condição nutricional de um grupo de
idosos indígenas no distrito sanitário
leste de Roraima
Ana Felisa Hurtado Guerrero; Evelyne Marie Therese Mainbourg; José Camilo Hurtado Guerrero
A condição nutricional dos idosos c determinada por vários fenômenos complexos e é reflexo de fatores sócio-econômicos, geográficos/climáticos, estado da saúde (psíquico e físico), carência de uma atenção específica em saúde e falta de acesso a serviços especializados, entre outros (Chen, 1986).
O envelhecimento resulta de um processo histórico, fazendo com que o estado nutricional do idoso não dependa somente da disponibilidade de adquirir alimentos, mas também da sua capacidade funcional e das transformações do seu estilo de vida. Dessa maneira, o estado nutricional pode contribuir na instalação, duração ou melhoria de processos mórbidos e, por conseguinte, na qualidade de vida deste segmento populacional (Monsen, 1998). O efeito da nutrição sobre a causa e severidade das doenças na idade avançada, assim como seu papel como elemento etiológico de doenças crônico-degenerativas, é indiscutível (Kafatos et al., 1993; Pena et al., 1998).
Kstudos realizados em diversas regiões do Brasil vêm mostrando mudanças na situação sócio-econômica, demográfica, cultural e nutricional de algumas populações indígenas. Essas mudanças refletem-se, principalmente, nas faixas etárias mais vulneráveis (crianças e idosos), fazendo com que apresentem elevadas taxas de morbimortalidade, em geral ligadas à pobreza (Coimbra Jr. & Santos, 2000; Santos & Escobar, 2001).
Na Amazônia, há escassez de estudos que abordem a dimensão étnicoracial e suas implicações nos agravos à saúde. As minorias étnicas, como as populações indígenas, sobrevivem em situações de exclusão e desigualdades sociais que as colocam em posição de maior vulnerabilidade frente aos diversos agravos de saúde (Coimbra Jr. & Santos, 2000). A não satisfação das necessidades básicas dos idosos indígenas (alimentação, vestuário, moradia, etc.) colocam-nos em críticas condições nutricionais, agravadas pela falta de uma vigilância em saúde que resolva os problemas específicos que atingem este segmento populacional.
Segundo dados do Sistema de Informações da Atenção à Saúde Indígena - SI AS I, nas nove regiões que compõem a área Leste de Roraima, existem aproximadamente 804 idosos, representando aproximadamente 3,5% da população total (22.979). Entre os Yanomámi, a esperança de vida ao nascer (38,5 anos homens; 40,5 anos mulheres) é uma das médias mais baixas constatadas para o Brasil e a Venezuela (Early & Peter, 1990, apud Coimbra Jr. & Santos, 2000). Pesquisa realizada por Santos & Coimbra Jr. (1994), no sudoeste da Amazônia, também constatou o reduzido número de idosos entre grupos Tupí-Mondé (Gavião, Suruí, Zoró), situação que pode estar sendo influenciada pelas precárias condições de vida e desigualdades sociais que enfrentam.
Esta pesquisa teve como objetivo avaliar a condição nutricional de um grupo de idosos indígenas procedentes de diferentes etnias do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Leste de Roraima, com o intuito de contribuir para o conhecimento da problemática de saúde do idoso nessa região.
População e métodos
O DSEI Leste de Roraima situa-se no nordeste do Estado de Roraima, na região de fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. Este está composto por nove regiões (Amajari, Baixo Cotingo, Serras, Surumu, Serra da Lua, São Marcos, Taiano, Raposa e Wai-Wai), com 204 comunidades. Essas terras são habitadas por indígenas Makuxí, Wapixána, Taurepáng, Ingarikó, Patamona e Waiwái.
A pesquisa foi conduzida entre abril e junho de 2001 (período de seca). Os dados analisados fazem parte do desdobramento de um estudo transversal denominado Perfil Nutricional das Populações Indígenas do Distrito Sanitário Leste de Roraima. A população investigada foi constituída por um grupo de 68 idosos Makuxí, Wapixána, Taurepáng e outros (com exceção dos Waiwái).
As informações obtidas incluíram: idade, sexo, dosagem de hemoglobina, antropometria (peso, estatura e circunferência braquial) e percentual de gordura corporal. O diagnóstico da anemia foi realizado por meio da dosagem de hemoglobina (Hb) em um hemoglobinometro portátil (HemoCue), utilizando microcuvetas descartáveis (b-hemoglobin, Suécia/Estados Unidos). Para a definição de anemia, foram empregados os valores estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 1975) (em mulheres, inferior a 12g/dl e em homens, inferior a 13,0g/dl). O peso foi obtido em balança de plataforma, da marca Kratos, com precisão de l,25kg e capacidade máxima de 150kg. A estatura foi obtida utilizando-se um antropômetro, não dobrável, seguindo-se as técnicas recomendadas por Matsudo (2000). O estado nutricional foi estimado por meio do índice de massa corporal (IMC) utilizando-se a equação (peso em quilograma)/(estatura em metro ao quadrado). Foram empregados os pontos de corte propostos pela OMS (WHO, 1995), que recomenda a seguinte classificação para idosos (homens e mulheres): desnutrição ou peso abaixo do normal (IMC < 18,5); normal (18,5 < IMC < 25); sobrepeso (25 < IMC < 30); obesidade (IMC > 30; Grau I 30,0-34,9; Grau II 35,0-39,9 e Grau III > 40,0). A circunferência braquial (CB) foi determinada seguindo-se as recomendações de Guedes & Guedes (1998). Para tal, utilizou-se uma fita métrica flexível, com precisão de 0,1 mm e adotaramse os pontos de corte estabelecidos por Jellife (1968). A determinação do percentual de gordura corporal (PGC) foi realizada por meio da técnica Tanita Bia, utilizando-se uma balança modelo TBF-531.
A análise dos dados foi descritiva (média, desvio padrão, porcentagens) e inferencial (correlação de Spearman) (Zar, 1996).
Resultados
Idosos da etnia Makuxí (80,9%) predominaram na amostra, seguidos dos Wapixána (14,7%), Taurepáng (1,5%) e outras (2,9%). A distribuição segundo região apresentou a seguinte composição: Serras (41,2%), São Marcos (16,2%), Raposa (13,2%), Serra da Lua (10,3%), Surumu (10,3%), Amajari (5,9%) e Taiano (2,9%). Quanto ao sexo, 58,8% eram do sexo feminino e 41,2% do masculino. Média e desvio-padrão de idade para os sexos combinados foram 72,1 ±8,8 anos (73,3±9,6 para as mulheres e 70,5±7,5 para os homens). Predominância feminina foi encontrada em quase todas as faixas etárias, especialmente na mais avançada.
Algumas variáveis como peso, estatura, IMC e CB, apresentaram valores médios superiores para os homens. Já para PGC os valores
médios são mais elevados no sexo feminino (Tabela 1). Os Wapixána apresentaram os maiores valores médios de peso, IMC,
PGC e CB (Tabela 2). Os idosos indígenas da região de Surumu apresentaram os valores médios mais baixos de peso, estatura e de PGC. Os valores médios mais baixos de IMC e CB foram
encontrados na região da Raposa (Tabela 3).
Tabela 1
Tabela 2
* Taurepáng e outros não identificados.
Tabela 3
Nota: "Corresponde a 67 indivíduos (8 em Raposa).
Com relação ao estado nutricional, 2,9% dos idosos encontravam-se com desnutrição, 33,8% com sobrepeso, 1,5% com obesidade. Aqueles com valores adequados somaram 61,8%. Nas mulheres, evidenciou-se a maior prevalência de baixo peso (5,0%). Os homens mostraram uma maior prevalência de sobrepeso (42,9%) e
de obesidade (3,6%) (Tabela 4). A freqüência de valores compatíveis com má nutrição, por carência ou por excesso, esteve com os idosos mais longevos (80 e mais anos): desnutrição (10,0%) e obesidade (5,0%); enquanto que o sobrepeso foi encontrado nos idosos mais jovens, especialmente na faixa etária de 60 a 69 anos
(42,9%) (Tabela 5).
Tabela 4
Tabela 5
Do total de idosos analisados, 47,8% mostraram PGC adequados, 26,9% elevados e 25,4% baixos. Idosos de sexo feminino mostraram valores elevados (30,8%) e baixos (17,9%) de PGC, enquanto que o sexo masculino apresentou a maior freqüência de valores baixos (35,7%) e elevados (21,4%). Vale a pena ressaltar que a grande maioria dos idosos apresentou valores adequados de gordura: 51,3% nas mulheres e 42,9% nos homens. Os idosos na faixa etária de 80 e mais anos mostraram os valores mais baixos (40,0%), enquanto que na faixa etária de 60 a 69 anos apresentaram os valores mais elevados (40,7%).
Foi constatada uma associação positiva (r = 0,352), e s estatisticamente significativa (p = 0,004, teste t-student) entre IMC e PGC. A anemia apresentou uma associação negativa com IMC (r = s-0,122), mas essa associação não foi estatisticamente significativa (p = 0,338). Não obstante, a correlação de anemia com PG C (r = s-0,277) foi estatisticamente significativa (p = 0,028). Observou-se uma associação negativa entre a idade e as variáveis peso (r = s-0,306; p = 0,011), IMC (r = -0,277; p = 0,014) e estatura (r = s s
-0,169; p = 0,169) e PGC (r = 0,219; p = 0,075) (Figura 1). s
Figura 1
A media de hemoglobina foi menor nos idosos Wapixána (1 l,7g/dl) quando comparada com os Makuxí (12,8g/d 1). No tocante às regiões, os valores médios foram, em ordem crescente: Taiano (1l,60±l,2g/dl), Raposa (1 l,63±2,07g/dl), Surumu (11,72+0,80 g/dl), Amajari (1 l,82±2,19g/dl) e Serras (13,45±l,63g/dl).
A maioria dos idosos não apresentou anemia (71,1% mulheres e 55,6% homens). No sexo masculino houve uma maior porcentagem de indivíduos anêmicos (44,4%), enquanto que nas mulheres foi de 29,0%. A distribuição da severidade de anemia por faixa etária mostrou maiores porcentagens para a anemia moderada na faixa etária de 60-69 anos (10,7%) e anemia leve nos idosos de 7079
anos (30,0%) (Figura 2).
Figura 2
Discussão
Na população idosa estudada, observou-se uma predominância do sexo feminino, o que coincide com a maioria dos resultados encontrados em outros estudos realizados com idosos no Brasil nas últimas décadas (Tavares & Anjos, 1999; Veras, 1994). Contudo, esta observação não pode ser generalizada por se limitar a um grupo específico que não representa na sua totalidade a população idosa do DSEI Leste de Roraima.
Os valores médios da estatura mostraram-se bem próximos dos obtidos por Hurtado-Guerrero (2000), em uma população idosa cabocla do Amazonas (l,55±0,06m no sexo masculino e l,46±0,05m no feminino). Não obstante, foram menores que os reportados por Leite (1998), em adultos Xavánte (1,68± 0,05cm e l , 70 ± 0,02 cm no sexo masculino, l,58 ± 0 , 05 cm el , 49 ± 0,01 cm nas mulheres das faixas etárias de 60 a 69 e maiores de 70 anos, respectivamente). Estudo realizado por Faintuch et al. (1983), em uma população idosa do Cen¬ tro-Sul do país, também reportou estaturas superiores ( l , 70m nos homens e l,58m nas mulheres) àquelas obtidas na presente investigação, do mesmo modo que James & Schofield (1994), na população idosa brasileira do Nordeste e Sul.
Diversos estudos, tal como o presente, têm demonstrado que, à medida que a idade avança, tanto a estatura como o peso corporal declinam em homens e mulheres (Chumlea & Baugartner, 1989; Rossman, 1977; Steen, 1988). Pessoas idosas podem sofrer uma perda progressiva de estatura, entre 5-6cm a partir dos 65 anos, pela degeneração dos discos vertebrais (MS, 1998).
Há também evidências demonstrando que a estatura dos idosos varia fortemente de um país para outro, e que as condições ambientais e nutricionais durante a infância interagem com o potencial genético do indivíduo para determinar a estatura final. O estudo de Bannerman et al. (1997) constatou que inúmeros fatores podem influenciar os valores antropométricos em idosos maiores de 65 anos, entre os quais as diferenças geográficas ocupam um destaque especial. Portanto, a estatura do adulto é resultado de um processo histórico, relacionado com a satisfação das necessidades sócio-econômicas, assistência à saúde, saneamento e higiene, entre outras (Hurtado-Guerrero, 2000). Pode-se hipotetizar que a baixa estatura na população idosa do Amazonas não está sendo somente influenciada pelas alterações corporais durante a velhice ou devido à questão genética, senão que pode derivar das perpetuadas desigualdades sociais (especialmente carência de alimento) e das condições precárias de saúde em que ainda sobrevivem as populações desta região.
Os valores de peso encontrados no presente estudo mostraram-se próximos daqueles referidos por Hurtado-Guerrero (2000) (59,2±10,8kg no sexo masculino; 53,6±12,5kg no feminino). Contudo, foram divergentes dos reportados por Leite (1998), entre os Xavánte (68,30±2,1 lkg e 74,07±9,74kg em homens; 72,62±5,23kg e 63,83±12,57kg nas mulheres da faixa etária de 60-69 e maiores de 70 anos, respectivamente). Ao compará-los com os dados de James & Schofield (1994), evidencia-se similaridade com a população do Nordeste e divergência com a do Sul do Brasil.
Os valores mais baixos das diversas variáveis antropométricas foram observados nas regiões mais distantes, como Surumu, enquanto que em regiões mais centrais, como Amajari, foram observados valores mais elevados. Esse padrão parece estar associado à localização das comunidades indígenas em relação aos centros urbanos, embora esta seja uma questão que precise ser analisada mais detalhadamente em futuros estudos.
Embora a maioria dos idosos investigados tenha apresentado um estado nutricional adequado, alguns casos de desnutrição e de obesidade foram observados. O sexo feminino mostrou maior prevalência de baixo peso, especialmente nas pessoas mais longevas. Estudos como os de Hurtado-Guerrero (2000) e Tavares & Anjos (1999) também evidenciaram maiores freqüências de desnutrição na população idosa do sexo feminino. Por outro lado, Leite (1998), não observou baixo peso na população feminina Xavánte.
Entre os distúrbios nutricionais mais observados na população idosa, encontra-se a desnutrição protéico-calórica, geralmente relacionada com aumento da morbidade e imunossupressão (Otero et al., 2002). Segundo Ferriolli et al. (2000), o comprometimento do estado nutricional do idoso guarda relação com as funções imunológicas, com a periodicidade e ocorrência de internações e reinternações, evolução/prognóstico da enfermidade, desempenho de atividades da vida diária e qualidade de vida. Silva & Barros (2002) mostraram que a desnutrição neste segmento populacional continua sendo também um fator de risco significativamente associado a maiores porcentagens de morbidade e mortalidade até no âmbito hospitalar, e que fatores como apoio familiar e nível de escolaridade poderiam contribuir para sua prevenção. A desnutrição geralmente afeta em maior proporção mulheres idosas de países em desenvolvimento e tende a se agravar em períodos de escassez alimentar (Veras, 1994). Na mulher idosa, o gasto energético é significativamente maior que aquele das mulheres adultas jovens (Voorrips et al., 1991).
A prevalência de desnutrição detectada na população investigada pode estar influenciada por aspectos como dependência funcional e/ou comprometimento de saúde, localização geográfica e clima (os críticos períodos de seca, especialmente durante os meses de abril e maio, podem constituir fator importante na oferta de alimentos, assim como favorecer o risco de adoecer). O prazer de alimentar-se também é influenciado por fatores psicossociais. Dessa forma, a presença da família motiva o idoso a alimentar-se nas horas certas, assim como constitui um apoio fundamental no preparo dos alimentos, especialmente, para aqueles que apresentam uma saúde funcional comprometida.
A obesidade constitui uma questão a ser ressaltada, já que geralmente nos idosos indígenas são relatados casos de má nutrição, caracterizados por carência e não por excesso, o que poderia constituir um sinal de aparecimento de doenças crônico-degenerativas. Esta situação vem sendo encontrada no perfil nutricional de populações indígenas, como os Xavánte (Leite, 1998) e em grupos da América do Norte (Young, 1988).
As mudanças na composição corporal durante o envelhecimento encontram-se relacionadas com a diminuição da massa magra e aumento da gordura corporal, processo favorecido pela falta de atividade física (Hoffman, 1993). As mulheres mostraram freqüências mais elevadas de percentual dc gordura. A deposição de gordura corporal nas mulheres pode ser favorecida pela menopausa, que acelera a perda dc massa magra e massa mineral óssea, principalmente a partir dos três anos dc sua instalação (Aloia et al., 1991; Anselmo et al., 1992). A distribuição de gordura no organismo é de extrema relevância, já que é o tecido de fonte direta dc energia (Navarro & Marchini, 2000) e na desnutrição protéico energética a massa corporal magra e utilizada como fonte energética, podendo levar ao óbito quando sua perda alcança entre 30-50% (Bishop, 1984,apud Navarro & Marchini, 2000; Blackburn et al., 1997, apud Navarro & Marchini, 2000; Jensen, 1992,apud Navarro & Marchini, 2000).
O excesso dc gordura corporal favorece a instalação de doenças crônicodegenerativas (Navarro & Marchini, 2000), como hipertensão, hiperlipidemia, diabetes tipo II e mortalidade prematura, principalmente quando se excede 20% do peso corporal total (Pauliot et al., 1994,apud Navarro & Marchini, 2000).
Os homens mostraram-se com maiores freqüências de excesso de peso e menores porcentagens de gordura corporal. Frutuoso & Conde (2002), estudando uma população adulta, observaram que apesar do IMC acompanhar as variações de massa gorda, não necessariamente guardam uma relação estreita. Tal constatação permite-nos levantar a hipótese de que uma maior quantidade dc massa magra possa estar favorecendo o sobrepeso no sexo masculino. Contudo, já que não foram coletadas medidas antropométricas complementares, não se pode afirmar que esse sobrepeso seja devido a menores porcentagens de gordura corporal encontradas neste sexo.
Constatou-se uma freqüência dc 33,8% dc sobrepeso nos idosos indígenas estudados, predominando nos homens. Esse resultado é similar ao reportado por Hurtado-Guerrero (2000) em uma população idosa cabocla do Amazonas (35,8%) e por Leite (1998), entre os Xavánte. Porém, os resultados divergem daqueles encontrados para esta mesma faixa etária por Tavares & Anjos (1999), num estudo da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN) para a população brasileira.
Sobrepeso não necessariamente e sinônimo de excesso de gordura corporal. Por exemplo, em comunidades rurais este excesso pode ser devido ao aumento de massa muscular, resultado de atividade física intensa (Leite, 1998). Alguns estudos vêm questionando a idéia de que o aumento do peso pode constituir risco de instalação da obesidade, especialmente em populações idosas de zonas urbanas cm países desenvolvidos (Kuczmarski et al., 1994). Esta condição pode ser relevante em grupos de idosos que realizam pouca atividade física (Hurtado-Guerrero, 2000).
A CB mostrou valores médios superiores para o sexo masculino. No estudo de Leite (1998), foi observada uma situação contrária (30,10±l,64cm e 30,86±3,31cm nos homens; 32,12±3,57cm e 31,50±5,22cm nas mulheres de 6069 e 70 e mais anos, respectivamente). Para uma população ribeirinha na Amazônia, Hurtado-Guerrero (2000) mostrou valores médios semelhantes (27,6± 3,1 cm nos homens; 27,6±4,0cm nas mulheres). As mulheres idosas apresentam uma prega cutânea tricipital grande, embora relativamente, pequenas medidas de circunferência muscular e área muscular do braço quando comparadas com idosos do sexo masculino (Falciglia, et al., 1988).
Caballero (1992) e Bolzán & Guimarey (1995) evidenciaram que, em população rural masculina e feminina, a atividade física braçal mais vigorosa favorece o maior desenvolvimento da massa muscular, maior consumo calórico e menor área adiposa, quando comparado com trabalhadores urbanos de melhor condição sócio-econômica e com menor atividade física. Pesquisas da OM S (WHO, 1995), referem que uma perda muscular severa (medida pela circunferência do braço) pode ser um bom indicador de morbi-mortalidade em idosos (Heymsfiekl et al., 1982).
Apesar da importância epidemiológica da anemia na população indígena, estudos são ainda escassos, especialmente em idosos. A prevalência de anemia neste segmento merece especial atenção por suas implicações na saúde funcional (Arruda, 1990; Batista Filho & Ferreira, 1996; Mayer, 1991; Szarfarc & Souza, 1997). Neste estudo, observou-se maior prevalência de anemia em homens, sendo mais elevada na faixa etária de 70-79 anos. Estes resultados são similares aos encontrados em população idosa cabocla no Amazonas (Hurtado-Guerrero, 2000), mas divergentes dos reportados por Mainbourg et al. (2002), em populações indígenas do Leste de Roraima e por Leite (1998), entre os Xavánte.
É premente a realização de estudos epidemiológicos sobre a condição nutricional de idosos indígenas, ainda praticamente inexistentes. As informações resultantes serão de grande utilidade na elaboração e implementação de políticas sociais que considerem este segmento populacional, com impactos nas ações de vigilância nutricional e promoção da saúde.
Agradecimentos
Aos idosos do DSEI Leste de Roraima, a Evilene Tomaz (antropóloga), Aldacy de Souza Xavier (chefe de DSEI Yanomámi), Aldemar Marinho de Brito (CIR-Saúde), Paulo Daniel Moraes (Coordenador de Saúde do Convênio CIR/FUNASA) pela colaboração durante o desenvolvimento desta pesquisa. Ao Centro de Pesquisa Leônidas & Maria Deane/FIOCRUZ, Manaus, Amazonas, pelo apoio financeiro para realização deste estudo.
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