Esconderijo
Quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— A hipoteca está paga — repetiu o rapaz, pensativo, — Então esta é
sua única razão para continuar a trabalhar, para continuar vivo? Poder dizer
que pagou a hipoteca de uma espelunca como esta aqui?
Redlow teve um impulso de mandá-lo se foder, mas de repente a estratégia de bancar o durão não lhe pareceu mais uma boa idéia.
— Quer dizer que a vida se resume a isto, Sr. Redlow? Não existe mais nada? É por isso que vocês acham a vida uma coisa lão preciosa, e se apegam tanto a ela? É por isso que vocês, os adoradores da vida, fazem tanto esforço para continuar vivendo?... Para amontoar uma porção de trastes, e poder dizer que estão ganhando, na hora de cair fora do jogo? Sinto muito, mas não consigo entender. Não consigo mesmo.
O coração do detetive estava batendo rápido, muito rápido, martelando dolorosamente de encontro às costelas machucadas. Ele não tinha cuidado bem do coração durante todos aqueles anos... hambúrgueres demais, cigarros demais, cerveja e uísque demais. O que que aquele maluco estava tentando fazer... assustá-lo até provocar-lhe um enfarte?
— Imagino — prosseguiu o rapaz — que deve ter alguns clientes que não querem deixar registros do fato de que o contrataram, e portanto pagam em dinheiro vivo. Será que esta minha dedução está correta?
Redlow pígarreou com dificuldade e tentou fazer com que a voz não revelasse muito medo.
— Oh, claro. Alguns.
— E, para sair do jogo ganhando, o senhor certamente não depositaria esse dinheiro num banco, para evitar impostos.
O rapaz estava agora tão próximo que Redlow podia sentir o seu hálito. Por algum motivo ele esperava que aquele hálito fosse fétido, desagradável. Mas ele era adocicado... como se o rapaz tivesse estado comendo chocolates no escuro,.
— Então... então imagino que deve ter um bom pé-de-meia escondido aqui, em alguma parte da casa. Correto?
Uma onda cálida de esperança diminuiu os calafrios gelados que vinham sacudindo o corpo de Redlow nos últimos minutos. Se a questão era dinheiro, ele podia resolvê-la. Fazia sentido. Agora ele podia entender as motivações do rapaz, e a partir daí podia preparar uma estratégia para ainda estar vivo quando aquela noite chegasse ao fim,
— Sim—disse.—Tenho algum dinheiro aqui. Pode levar. Pode levar, mas vá embora. Na cozinha... na cozinha tem uma lata de lixo, forrada por dentro com um saco plástico. Levante o saco... está cheio de lixo. Por baixo dele, tem um embrulho de papel pardo, no fundo da lata. É dinheiro.
Alguma coisa áspera e fria tocou a bochecha direita do detetive na escuridão, fazendo-o encolher-se,
— É um alicate — disse o rapaz, e Redlow sentiu as pequenas mandíbulas de metal fincando-se na sua carne.
— O que que você está fazendo?...
O rapaz torceu o alicate.
Redlow soltou um grito de dor,
— Pare, pare, ai, pare com isso, porra!
O rapaz parou e afastou o alicate.
— Desculpe —- disse ele —, mas espero que entenda que se não houver dinheiro nessa lata de lixo, vou ficar chateado. Vou pensar que se mentiu para mim sobre isso deve ter mentido em todo o restante.
— O dinheiro está lá — disse Redlow, prontamente,
— Mentir é feio, senhor. Não é uma coisa direita, Gente decente não diz mentiras, Não é isso que nos ensinam?
— Vá, pode olhar — disse Redlow, em desespero, — Está lá, juro.
O rapaz afastou-se, cruzando a porta que dava para a sala de jantar. Seus passos suaves continuavam ressoando através da casa desde os ladrilhos da cozinha. Houve um ruído metálico quando o saco de lixo foi puxado para fora da lata, fazendo-a retinir de encontro ao piso.
Encharcado de suor, Redlow sentiu as gotas descerem em grossos filetes pela sua pele quando os passos do rapaz se aproximaram, de volta à sala. Seu vulto ressurgiu, uma sombra escura silhuetada de encontro ao retângulo vagamente acinzentado de uma janela,
— Como é que pode enxergar? — murmurou o detetive, angustiado ao perceber um tom levemente histérico na própria voz, num momento em que precisava manter todo o autocontrole. Oh, sim... estava ficando velho. — O que... o que você está usando? Óculos noturnos, aquelas coisas do exército? Como diabos conseguiu botar as mãos em coisas desse tipo?
Ignorando as perguntas de Redlow, o rapaz disse:
— Não preciso de muita coisa; somente um pouco de comida e umas mudas de roupas. O único dinheiro que consigo é quando adquiro uma peça para minha coleção, e mesmo assim é apenas o que ela estiver levando consigo. Às vezes não é muita coisa, apenas alguns dólares. Isto aqui vai me ajudar bastante. Puxa, se vai. Acho que vai me manter até que eu possa retornar... retornar ao lugar de onde vim. Sabe de onde vim, Sr. Redlow?
O detetive não respondeu. O rapaz tinha se agachado, abaixo do nível do peitoril da janela, e estava invisível. Redlow forçava os olhos, tentando perceber alguma coisa na escuridão, tentando perceber algum movimento ou alguma forma naquela direção.
— Sabe de onde vim, Sr. Redlow? — repetiu o rapaz.
Redlow ouviu uma peça de mobília sendo empurrada para o lado. Talvez a mesinha perto do sofá.
— Vim do Inferno — disse o rapaz. — Passei algum tempo lá. E quero voltar. Que tipo de vida tem levado, Sr. Redlow? Será que quando eu chegar de volta no Inferno vou encontrá-lo por lá?
— O que está fazendo? — disse Redlow.
— Procurando uma tomada—disse o rapaz, empurrando com violência algum outro móvel. — Ah, aqui está.
— Tomada? — disse Redlow, inquieto. — Para quê?
Um ruído arrepiante cortou a escuridão: zzzzzzrrrrrrrrr...
— O que é isso? — insistiu ele.
— Só testando.
— Testando o quê?
— O senhor tem uma porção de porcelanas, faqueiros e utensílios de cozinha lá dentro, Acho que se liga muito nesse negócio de cozinhar, não é mesmo? — O rapaz estava novamente de pé, silhuetando de encontro à moldura acinzentada da janela. — Isso de cozinhar... começou a se interessar por isso antes do seu segundo divórcio ou é uma coisa mais recente?
— O que é isso que está testando? — repetiu Redlow.
O rapaz aproximou-se.
— Tem mais dinheiro — disse Redlow, quase fora de si. Estava novamente ensopado em suor. Corria pelo seu corpo como se ele estivesse debaixo de um chuveiro entreaberto. — No quarto principal. — O garoto voltou a inclinar-se sobre ele, uma forma misteriosa, não-humana. Parecia ser mais escuro do que tudo o mais ao seu redor, uma espécie de buraco negro com formato humano, mais negro do que a própria treva. — D-d-dentro do armário — continuou o detetive. — Existe um p-p-piso de madeira... — De repente, ele notou que sua bexiga estava completamente cheia, a ponto de estourar. Tinha inchado como um balão, em apenas alguns segundos. — T-tire os sapatos e as outras coisas, e lev-v-vante as tábuas da parte de t-trás. — Ia se urinar todo, dentro de mais alguns instantes. — Tem uma caixa... trinta mil dólares. Pode levar. Leve, por favor. Leve, mas vá embora.
— Obrigado, mas o caso é que eu não preciso. O que tenho aqui já é o bastante. Mais do que bastante.
— Oh, meu Deus, Deus, me ajude—disse Redlow, e teve uma pungente certeza de que aquela era a primeira vez que se dirigia a Deus, ou mesmo que pensava nele, em décadas.
— Vamos conversar um pouco a respeito de quem o contratou, Sr. Redlow.
— Eu já lhe disse que...
— Sim, mas eu estava mentindo quando disse que acreditei.
Zzzzzzzrrrrrrr.
— O que é isso? — disse Redlow.
— Só testando.
— Testando o que, caralho?!
— Hum... funciona bem.
— O quê?! O que é isso que você tem aí?!...
— Uma faca — disse o rapaz. — Daquelas elétricas, de cortar carne.
6
Depois do jantar, Hatch e Lindsey voltaram para casa por uma rota diferente da habitual. Em vez de pegar a via expressa, optaram pela estrada da costa ao sul de Newport Beach, e vieram escutando a K-Earth 101.1 FM, cantando em voz alta velhos sucessos como New Orleans, Whispering Bells e Califórnia Dreaming. Ela nem se lembrava mais da última vez em que tinham cantado junto com o rádio, embora nos velhos tempos costumassem fazer isso o dia inteiro. Quando Jimmy tinha três anos, sabia de cor toda a letra de Pretty Woman. Aos quatro anos, era capaz de cantar Fifty Ways to Leave Your Lover sem errar uma linha sequer. Pela primeira vez em cinco anos, Lindsey conseguiu lembrar de Jimmy e continuar cantando.
Moravam em Laguna Niguel, ao sul de Laguna Beach, do lado oeste das colinas que margeiam a orla; privados da vista do mar, mas desfrutando da brisa marinha que amenizava o calor do verão e o frio do inverno. O bairro, como a maioria dos conjuntos habitacionais do sul do condado, era tão meticulosamente planejado que dava a impressão de ter sido desenhado por engenheiros militares. Mas as curvas graciosas das ruas, os postes metálicos de iluminação pintados de verde, os arranjos bem-cuidados de palmeiras, jacarandás e fícus-benjamins, e as impecáveis áreas verdes cobertas por faixas coloridas de flores — tudo era tão agradável à vista e ao espírito que aquela impressão subliminar de ordem não chegava a ser incômoda.
Sendo artista, Lindsey acreditava que as mãos dos homens e das mulheres eram tão capazes de criar coisas belas quanto a própria Natureza, e que a disciplina era algo fundamental na criação da verdadeira arte, porque a finalidade da arte era revelar os sentidos ocultos por trás do caos aparente da vida. Assim, ela era capaz de entender a intenção das pessoas que tinham urbanizado aquela área, trabalhando horas sem conta para coordenar a criação de um ambiente visual que previa até o desenho das grades de metal a serem colocadas nas tampas de esgoto.
A casa onde moravam desde a morte de Jimmy era em estilo italiano-mediterrâneo — assim como o resto da vizinhança — com quatro quartos de dormir e uma sala de leitura, coberta de estuque em cor creme, e com telhado em estilo mexicano. Dois grandes fícus ladeavam a entrada principal. As luzes de Malibu revelavam canteiros de petúnias colocados de frente para moitas de azaléias cobertas de flores vermelhas. No momento em que Hatch colocou o carro na garagem, estavam terminando os últimos compassos de You Send Me.
Enquanto Lindsey tomava banho, Hatch acendeu a lareira, que utilizava gás e troncos de madeira; e, quando ele próprio saiu do chuveiro, ela tinha acabado de servir duas doses de Baileys Irish Cream com gelo. Sentaram diante do fogo, repousando os pés sobre uma larga otomana que combinava com o sofá.
A mobília da casa era em estilo moderno com linhas suaves e tons naturais, fazendo um agradável contraste com as inúmeras peças antigas e com as pinturas de Lindsey, ao mesmo tempo em que servia como uma espécie de moldura para elas.
O sofá era imenso e confortável, ideal para longas conversas e, como ela descobriu pela primeira vez, também excelente para duas pessoas ficarem abraçadas. Para sua surpresa, os abraços logo se transformaram em beijos, daí evoluindo para carícias mais profundas, como se os dois fossem um casal de adolescentes, Deus do céu. Ela se sentiu arrebatada pela paixão, coisa que não lhe acontecia há anos.
Suas roupas foram caindo lentamente, como numa série de fusões numa cena de filme, até que os dois se viram completamente nus sem sequer entenderem o que estava se passando. E logo estavam outra vez nos braços um do outro, movendo-se juntos num ritmo suave, banhados pela luz avermelhada das chamas. O modo espontâneo e não-premeditado como eles passaram dessa suavidade inicial para um ritmo mais urgente e arquejante estabelecia um contraste flagrante com as cópulas que tinham experimentado desde a morte de Jimmy—mecânicas, e executadas como que por obrigação; Lindsey quase chegou a acreditar que aquilo não passava de um sonho, um sonho alimentado por cenas eróticas de filmes de Hollywood. Mas quando ela deslizou suas mãos pelos músculos das costas de Hatch, pelos seus ombros e seus braços, e quando ergueu os quadris para receber cada uma de suas arremetidas, e quando alcançou o orgasmo, uma, duas vezes, e sentiu-o afrouxar dentro de si perdendo a dureza do aço e deixando nela apenas o seu fluido quente, ela estava lucidamente certa de que não era um sonho. Na verdade, ela estava abrindo os olhos por fim, depois de um longo sono mergulhado na penumbra, e agora, depois daquela descarga de energias, sentia-se plenamente desperta pela primeira vez em muitos anos. O verdadeiro sonho tinha sido a vida real na última meia década; um pesadelo que felizmente chegara ao fim.
Deixando as roupas espalhadas pelo chão diante da lareira, subiram para o andar de cima, e fizeram amor mais uma vez, agora na imensa cama chinesa do seu quarto; desta vez com menos urgência e mais ternura, enquanto murmuravam palavras de carinho que pareciam reproduzir a letra e a melodia de uma canção cheia de suavidade. Agora, o ritmo mais lento permitia que ambos experimentassem melhor as texturas delicadas da pele um do outro, a maravilhosa flexibilidade dos músculos, a firmeza dos ossos, a delicadeza dos lábios e o bater sincopado dos dois corações. Quando as sucessivas ondas de êxtase cresceram e abateram-se entre os dois, na calma e no silêncio que se seguiram as palavras "Eu te amo" eram desnecessárias, mas ainda assim soavam como música aos ouvidos de ambos, e foram recebidas com carinho. Aquele dia de abril, desde o raiar das primeiras luzes da aurora até o momento em que se deixaram vencer pelo sono, tinha sido um dos melhores de toda a sua vida. Por ironia, a noite que se seguiu acabou sendo uma das piores da vida de Hatch — uma noite tão estranha, tão assustadora.
Às onze da noite Vassago tinha encerrado seu trabalho sobre Redlow e se livrara do corpo de modo satisfatório. Retornou ao Blue Skies dirigindo o Pontiac do detetive, tomou o demorado banho de chuveiro que tinha sido a razão inicial de sua ida até ali, vestiu roupas limpas e abandonou o motel com a firme intenção de nunca mais retornar àquele local. Se Redlow o tinha rastreado até ali, o motel não era mais seguro.
Dirigiu o Camaro ao longo de alguns quarteirões e o abandonou numa rua lateral, por entre enormes armazéns decadentes, num local onde podia ficar durante semanas até ser roubado ou rebocado pela polícia. Há cerca de um mês vinha usando aquele carro, roubado a uma das mulheres que acrescentara à sua coleção. Tinha trocado sua placa algumas vezes, substituindo-a por placas que roubava nos estacionamentos durante a madrugada.
Depois de voltar a pé para o motel, voltou a partir, dirigindo o Pontiac de Redlow. Não era um carro tão sexy quanto o Camaro prateado, mas achou que poderia ser-lhe útil por umas duas semanas.
Rumou para uma boate neo-punk chamada Rip It, em Huntington Beach, e chegando lá estacionou na parte mais escura. Achou uma maleta de ferramentas na mala do carro, e com uma chave de fenda e um par de alicates removeu a placa do Pontiac, trocando-a pela de um Ford cinzento e descon-juntado, parado a certa distância. Depois, levou o Pontiac até a outra extremidade do estacionamento e deixou-o ali.
Uma névoa aproximava-se, vindo do oceano, carregada com um cheiro enjoativo de maresia e morte. Palmeiras e postes telefônicos desapareciam como se aquele nevoeiro os corroesse, e as lâmpadas da iluminação pública se transformavam em manchas fantasmagóricas de luz boiando nas trevas.
Dentro, a boate estava do jeito que ele preferia. Suja, escura e invadida por um barulho ensurdecedor. Um cheiro de fumaça, suor e cerveja derramada impregnava o ar. Os músicos castigavam as cordas das guitarras com mais força do que qualquer banda que ele já tivesse ouvido, injetando pura raiva em cada acorde, retorcendo a melodia com guinchos de mutante, pisando e repisando aqueles ritmos elementares com selvageria e fúria, executando cada canção a um volume tão alto que, com o auxílio dos enormes amplificadores, o som deixava as janelas de vidro do recinto trepidando, e quase fazia sangrar os olhos de Vassago.
A multidão estava cheia de energia, e claramente sob o efeito de todo tipo de droga; muitos tinham aparência de bêbados, a maioria aparência perigosa. Quase todos usavam roupas pretas, de modo que Vassago passava quase despercebido. E ele não era o único que usava óculos escuros. Alguns dos fregueses, tanto homens quanto mulheres, eram skinheads, e alguns usavam o cabelo cortado em forma de pequenas pontas espetadas; mas nenhum deles exibia as espalhafatosas cabeleiras coloridas e das cristas-de-galo tingidas em cores vivas que tinham caracterizado os punks da primeira leva. Na pista de dança apinhada, as pessoas pareciam jogar-se umas de encontro às outras, esbarrar, apalpar-se umas às outras, mas era evidente que ninguém ali tinha assistido aulas num estúdio de Arthur Murray ou assistido Soul Train.
A madeira do balcão era cheia de riscos, manchas e nódoas. Vassago apontou com o dedo para uma fila de Corona, uma das seis marcas de cerveja em exposição nas prateleiras. Pagou e recebeu a garrafa sem que uma só palavra fosse trocada entre ele e o barman. Ficou ali parado, bebendo e examinando a multidão.
Muito poucos dos fregueses estavam conversando, tanto os que se enfileiravam ao longo do balcão quanto os que estavam sentados nas mesas ou de pé junto às paredes. A maior parte deles exibia rostos silenciosos e ar sombrio, não porque a música massacrante dificultasse o diálogo, mas porque representavam a nova onda de juventude alienada: pessoas ressentidas e desconfiadas não apenas com a sociedade em geral, mas também umas em relação às outras. Estavam convencidos de que nada importava a não ser a auto-satisfação, e que não valia a pena falar sobre nada, porque eles eram a derradeira geração de um mundo que marchava para a destruição, um mundo sem futuro.
Vassago conhecia outros bares do gênero, mas este era um dos dois únicos na região do condado de Orange e Los Angeles — a área que os executivos costumam chamar de Southland — que podiam ser considerados autênticos. Muitos dos outros atraíam pessoas que queriam apenas fazer um pouco de pose, assim como muitos dentistas e técnicos em contabilidade gostam de calçar botas de couro, jeans desbotados, camisas xadrez e chapelões, para ir nos fins de semana aos bares country e imaginar-se cowboys. No Rip It, não havia fingimento nos olhos de ninguém, e cada pessoa que passava encarava as demais com um ar de desafio, tentando decidir se estava a fim de sexo ou de violência, e qual das duas coisas aquela outra pessoa poderia lhe proporcionar. Se fosse uma questão de escolher uma ou outra coisa, a maioria teria preferido violência.
Havia uns poucos que estavam à procura de algo que transcendesse o sexo e a violência, mas sem uma idéia muito clara do que pudesse ser. Vassago poderia ter-lhes mostrado exatamente aquilo que estavam procurando.
O problema era que ele não conseguiu ver de imediato ninguém que valesse a pena adicionar à sua coleção. Ele não era um assassino vulgar, desses que saem matando pessoas pelo simples prazer de matá-las. A mera quantidade não exercia nenhuma sedução sobre ele; era a qualidade que o atraía. Considerava-se um gourmet em matéria de morte. Se tinha que provar ser digno de um retorno ao Inferno, teria que fazê-lo através de uma oferenda excepcional, uma coleção de mortes que fosse diferente de tudo, tanto pela harmonia de seu conjunto quanto pelas características de cada elemento.
Ele tinha feito uma aquisição no Rip It três meses atrás, uma garota que insistia em dizer que se chamava Neon. No carro, quando ele tentou nocauteá-la, o primeiro golpe não surtiu efeito, e ela se defendeu com tal ferocidade que aquilo chegou a lhe produzir uma euforia. Mesmo depois, no escuro subterrâneo do parque de diversões, ela lutou desesperadamente assim que recobrou a consciência, mordendo-o repetidamente até que ele quebrou-lhe a cabeça de encontro ao piso.
Agora, enquanto terminava sua cerveja, ele avistou à distância outra mulher que lhe lembrou Neon. Fisicamente as duas eram muito diferentes, mas espiritualmente eram a mesma coisa: pessoas calejadas, revoltadas por motivos que nem elas mesmas entendiam, muito vividas para a idade que tinham, e com toda a violência potencial de uma tigresa. Neon era morena, 1,60m, cabelo escuro. Esta outra era uma loura de vinte e poucos anos, cerca de l,68m. Magra, esguia. Olhos desafiantes, da mesma tonalidade azul que uma chama de gás, e ainda assim frios. Usava uma jaqueta jeans toda rasgada por cima de um suéter preto, uma minissaia preta e botas.
Numa época em que pose contava muito mais do que inteligência, ela sabia como se comportar para produzir um máximo de impacto, Caminhava com os ombros atirados para trás e a cabeça erguida de modo quase arrogante. Sua auto-suficiência intimidava tanto quanto uma couraça com pontas de aço. Embora todos os homens da boate a fitassem com olhos de desejo, nenhum deles ousava se aproximar, porque ela parecia ser capaz de castrá-los com uma só palavra ou um só olhar.
O que atraiu a atenção de Vassago, no entanto, foi a sua poderosa sexualidade. Era do tipo que sempre atrai a atenção dos homens — ele reparou que os que o ladeavam, no balcão, não tiravam os olhos dela — e muitos não se deixariam intimidar. Ela possuía uma vitalidade selvagem que fazia Neon parecer tímida, em comparação. Quando as suas defesas fossem vencidas, ela se revelaria uma mulher sensual e repulsivamente fértil; logo poderia estar gerando uma nova vida, como uma égua parideira.
Vassago concluiu que ela possuía duas fraquezas principais. A primeira era a clara convicção de ser superior a todo mundo que encontrasse, podendo portanto se considerar intocável e segura—o mesmo tipo de convicção que em tempos mais ingênuos permitia aos reis andar no meio da rua, por entre as pessoas comuns, com a certeza absoluta de que todos abririam caminho à sua passagem ou cairiam de joelhos em atitude reverente. A segunda fraqueza era sua própria fúria, que ela parecia represar dentro de si em tal quantidade que Vassago quase podia vê-la tremeluzindo através de sua pele pálida, como uma sobrecarga de eletricidade.
Ele imaginou como poderia exibi-la em seu museu de um modo que melhor simbolizasse seus defeitos. Logo teve umas boas idéias.
Ela estava junto de um grupo de seis homens e quatro mulheres, embora não parecesse estar acompanhada por ninguém em especial. Vassago estava tentando preparar uma estratégia de aproximação quando, para sua surpresa (embora não inteiramente), foi ela quem se aproximou. Ele achou que aquele encontro era inevitável. Afinal de contas, eles dois eram as duas pessoas mais perigosas que havia no interior daquela boate.
A banda anunciou um intervalo, e o nível de decibéis no interior do recinto caiu até um ponto em que não mais seria mortal para animais domésticos; nesse momento a loura se encaminhou na direção do bar. Ela enfiou seu corpo entre Vassago e outro homem, pediu uma cerveja, pagou. Recebeu a garrafa que o barman lhe estendeu e virou-se de lado, encarando Vassago por cima do gargalo da garrafa recém-aberta, e de onde se elevavam volutas de vapor gelado.
— Você é cego? — disse ela.
— Tem coisas que eu não vejo, senhorita — disse ele.
Ela fez uma cara de incredulidade.
— Senhorita?!...
Ele limitou-se a encolher os ombros.
— Por que os óculos? — continuou ela.
— Estive no inferno.
— Hum. E isso quer dizer o quê?
— O Inferno é frio. Escuro.
— E então? Por que os óculos?
— Lá a gente aprende a ver as coisas em escuridão total.
— E... é um papo furado muito interessante.
— E eu agora tenho os olhos sensíveis à luz.
— Um papo furado muito diferente.
Ele não respondeu.
Ela bebeu um pouco de cerveja, sem tirar os olhos dele. Vassago gostou do modo como os músculos de sua garganta se moviam a cada gole.
Depois de um momento, ela voltou a falar.
— Você joga sempre esse tipo de papo ou é uma coisa que inventou agora?
Ele encolheu os ombros novamente.
— Você estava me olhando — continuou ela.
— E daí?
— Tem razão. Todos esses babacas daqui ficam me olhando o tempo todo.
Vassago estava examinando seus olhos, tão azuis. Teve a idéia de que poderia extraí-los e colocá-los de novo nas órbitas, só que virados para dentro, como se ela estivesse fitando o interior do próprio crânio. Um comentário sobre o seu narcisismo.
No sonho, Hatch estava conversando com uma loura, uma loura belíssima, mas com uma expressão desdenhosa no rosto. Sua pele era suave como porcelana e seus olhos eram como gelo luzidio refletindo um céu claro de inverno. Estavam parados junto ao balcão de algum bar que ele nunca tinha visto antes. Ela o fitava por cima de uma garrafa de cerveja que segurava e levava à boca como se estivesse segurando um falo. O modo como ela aplicava a boca à garrafa e lambia devagar a abertura podia ser lido como um convite erótico... e como uma ameaça. Ele não conseguia escutar o que ela falava e distinguia apenas umas poucas palavras que ele próprio estava dizendo: "...estive no Inferno... frio, escuro... sensíveis à luz..." A loura olhava diretamente para ele, e Hatch não tinha dúvida de que era ele quem estava falando com ela, e no entanto aquela não parecia ser a sua voz. De repente, olhou os olhos dela com mais atenção e antes de perceber o que estava fazendo viu-se puxando um canivete e apertando a mola, fazendo a lâmina saltar. A mulher parecia não sentir nenhuma dor, na verdade parecia já estar morta, porque não esboçou nenhuma reação quando, num golpe rápido com a lâmina, ele arrancou o seu olho esquerdo de dentro da órbita. Segurando-o na ponta dos dedos, ele o recolocou no lugar, com a parte cega virada para fora e a íris azul para o lado de dentro...
Hatch sentou-se na cama. Não conseguia respirar. O coração batia descompassadamente. Jogou as pernas para fora da cama e conseguiu pôr-se de pé, invadido por um impulso de sair correndo... de fugir de alguma coisa. Mas tudo que conseguiu foi ficar ali, arquejante, sem saber para onde correr, sem saber onde poderia achar um abrigo, ficar em segurança.
Tinham adormecido com o abajur ligado na mesa-de-cabeceira, e uma toalha jogada por cima dele, para suavizar as luzes enquanto faziam amor. Havia iluminação bastante no quarto para ele distinguir Lindsey, deitada de lado sobre os lençóis revoltos.
Estava tão imóvel que bem poderia estar morta. Hatch teve um medo insano de tê-la assassinado. Com um canivete.
Então, ela mexeu-se e resmungou alguma coisa em pleno sono.
Ele teve um calafrio. Olhou para suas mãos, que tremiam.
Vassago ficou tão encantado com sua súbita inspiração que teve um forte impulso de arrancar os olhos da mulher ali mesmo, no bar, à vista de todos. Mas se conteve.
— E então? — disse a loura, tomando mais um gole de cerveja. — O que você quer?
— O que eu quero da vida?
— O que quer de mim.
— O que você acha?...
— Humm... acho que quer uma transa rápida — disse ela,
— Mais do que isso.
— Uma casa e um casal de filhos? — retrucou ela com sarcasmo.
Ele não respondeu logo. Aquela garota era uma caça diferente e não ia ser fácil atraí-la. Ele não queria correr o risco de dizer a coisa errada e deixá-la escapar. Pediu outra cerveja, bebeu lentamente.
Quatro músicos da banda reserva subiram no palco. Iam tocar enquanto a banda principal descansava. Logo, logo, qualquer diálogo ia ser novamente impossível. Mais do que isso: quando a música recomeçasse, o nível de energia do ambiente voltaria a se elevar e acabaria superando a energia que fluía entre ele e a loura. E ela talvez não ficasse mais acessível à sugestão de que saíssem juntos.
Finalmente, ele respondeu à pergunta que ela fizera, plantando cuidadosamente uma mentira quanto às suas intenções.
— Existe alguma pessoa que você quisesse ver morta?
— Claro. Todo mundo tem alguém assim.
— Quem é essa pessoa?
— Metade das pessoas que conheço.
— Quero dizer alguém especial.
Ela começou a perceber qual era a sugestão velada que ele estava fazendo. Deu mais um gole na cerveja e voltou a esfregar os lábios e a língua de encontro ao gargalo da garrafa.
— Hummm... isso é um jogo ou coisa parecida?
— Só se quiser assim, senhorita.
— Você é um cara estranho, sabia?
— Não é disso que você gosta?
— Talvez você seja da polícia.
— Acha mesmo?
Ela o fitou com intensidade, embora não fosse capaz de ver mais do que uma imagem difusa dos seus olhos, por trás das lentes escuras.
— Não — disse por fim. — Você não é polícia coisa nenhuma.
— Sexo não é o começo ideal.
— Ah, não é?
— O melhor couvert é a morte. Primeiro brinca-se de matar, um pouco.
Depois brinca-se de trepar. Você não pode imaginar como pode ser divertido.
Ela não respondeu.
A banda estava apanhando as guitarras, ligando os amplificadores. Ele disse:
— Essa pessoa especial, que você gostaria de ver morta... é um cara?
— Sim.
— Mora perto daqui? Dá para ir de carro?
— De carro, uns vinte minutos.
— Então vamos lá.
Os músicos estavam afinando os instrumentos, embora esse cuidado pudesse parecer supérfluo, em vista do tipo de música que iriam executar. Sabiam apenas que tinham de escolher o repertório certo e tinham que tocar bem, porque aquele era o tipo de boate onde o público não hesitaria em começar um quebra-quebra se a banda não fosse do seu agrado.
Por fim, a loura disse:
— Tenho um pouco de PCP aqui. Quer tomar um pouco?
— Pó-de-anjo? Acaba com as minhas veias.
— Está de carro?
— Vamos.
Na saída, ele abriu a porta e deixou-a passar primeiro, Ela soltou uma gargalhada.
— Puxa, você é um filho da puta muuuito estranho.
O relógio digital na cabeceira marcava 1:28 da manhã. Hatch dormira apenas umas duas horas, mas agora sentia-se totalmente desperto e sem a menor vontade de voltar para a cama.
Além do mais, estava com a boca ressecada. Sentia-se como se tivesse comido areia. Precisava beber alguma coisa.
A luz produzida pelo abajur coberto com uma toalha era bastante para ele se movimentar pelo quarto sem receio de acordar Lindsey. Ele foi até o armário e abriu silenciosamente sua gaveta; tremendo, retirou dali um suéter e o enfiou no tronco. Estava usando apenas as calças do pijama, mas sabia que vestir o paletó do pijama não seria suficiente para aquecê-lo.
Abriu a porta do quarto e saiu para o corredor. Deu uma rápida olhada na direção de Lindsey, que continuava dormindo. Estava linda naquela luz difusa, o cabelo negro espalhado sobre o travesseiro, o rosto descontraído, os lábios ligeiramente entreabertos, uma das mãos sob o queixo. Aquela visão, mais do que o suéter, o fez sentir-se aquecido. Ele pensou então nos anos que tinham perdido, deixando-se abater pelo sofrimento; e o medo residual deixado pelo pesadelo diluiu-se em meio a uma onda de remorso. Ele fechou a porta silenciosamente atrás de si.
O corredor do andar de cima estava cheio de sombras, mas alguma luz se elevava através das escadas, vinda do saguão no andar térreo. No trajeto do sofá para o quarto de dormir, eles não tinham se dado o trabalho de apagar as luzes.
Como um casal de adolescentes insaciáveis,.. Ele sorriu àquele pensamento.
Enquanto descia as escadas, voltou a lembrar do pesadelo que tivera, e seu sorriso desapareceu.
A loura. O canivete. O olho.
Tinha sido tão real.
No pé da escada ele parou, e escutou. O silêncio que reinava na casa não era normal. Ele bateu com os nós dos dedos de encontro ao balaústre da escada, só para produzir algum som. O ruído pareceu mais fraco do que seria normal. E o silêncio que se seguiu pareceu ainda mais opressivo.
— Puxa vida, você ficou assustado com esse sonho — disse ele em voz alta, e o som de sua própria voz lhe trouxe a segurança de volta.
Seus pés descalços produziram um leve ruído sobre as tábuas de carvalho que formavam o piso do saguão, e mais ainda nos ladrilhos de cerâmica da cozinha. Ele sentia a sede aumentando cada vez mais; foi até a geladeira, abriu uma lata de Pepsi, inclinou a cabeça para trás e, fechando os olhos, sorveu um grande gole.
Só que não sentiu gosto de Pepsi, e sim de cerveja.
Franzindo a testa, ele abriu os olhos e olhou para a lata de Pepsi, Mas não era mais uma lata. Era uma mini cerveja, da mesma marca que ele estava bebendo no sonho: Corona, Nem ele nem Lindsey bebiam Corona. Quando punham cerveja na geladeira, o que era uma coisa rara, era sempre Heineken, O medo começou a percorrê-lo, como vibrações sendo transmitidas através de um fio.
Então ele reparou que os ladrilhos da cozinha tinham desaparecido. Ele continuava descalço, mas agora de pé sobre um chão de cascalho. Os pedregulhos feriam as solas dos seus pés com arestas pontiagudas.
Seu coração disparou furiosamente, enquanto olhava em redor da cozinha, num impulso desesperado de convencer a si próprio de que estava em sua própria casa e que o mundo não se desviara ao longo de alguma estranha ultradimensão. Seu olhar correu ao longo dos armários de vidoeiro, pintados de branco; o granito escuro do balcão da pia; a pia metálica, a face reluzente do forno de microondas embutido... olhou para aquilo e fez um esforço mental para que o pesadelo retrocedesse. Mas o chão de cascalho permanecia. Ele ainda estava segurando uma Corona na mão direita. Virou-se na direção da pia, para passar um pouco de água fria no rosto, mas a pia havia desaparecido. Metade da cozinha tinha desaparecido, substituída pela visão de uma boate de beira de estrada, um pátio de estacionamento cheio de carros, e...
...e não havia mais cozinha alguma. Tinha sumido por completo. Ele estava a céu aberto, numa noite de abril, com uma névoa espessa refletindo o brilho vermelho de um letreiro em néon em algum ponto às suas costas. Estava caminhando ao longo de um pátio de estacionamento com chão de cascalho, com carros estacionados numa longa fila. Não estava mais descalço, e sim usando botas negras, com solas de borracha.
Ouviu a voz de uma mulher dizendo:
— Meu nome é Lisa. E o seu?
Ele virou a cabeça e viu a mulher loura. Ela vinha caminhando lado a lado com ele, ao longo do estacionamento.
Em vez de responder no mesmo instante, ele ergueu a Corona até a boca, sorveu o derradeiro gole e, ao largar a garrafa vazia no chão, disse...
— Meu nome é...
Ele tossiu, engasgado, enquanto a Pepsi derramava-se espumando da lata caída no chão, molhando seus pés descalços. O cascalho tinha desaparecido. Uma poça escura de Pepsi-Cola se espalhava sobre os ladrilhos de cerâmica da cozinha de sua casa.
Dentro do carro de Redlow, Lisa disse a Vassago para pegar a rodovia de San Diego na direção sul. Ele seguiu primeiro rumo leste, ao longo de ruas cobertas pelo denso nevoeiro, e quando alcançou a pista de acesso à rodovia Lisa havia tirado da bolsa algumas cápsulas de PCP, que eles engoliram juntamente com o resto da cerveja que ela trouxera.
PCP ou pó-de-anjo era um tranqüilizante animal que ingerido por seres humanos tinha o efeito exatamente inverso, provocando nas pessoas acessos de fúria destrutiva. Vassago pensou que seria interessante observar o efeito daquela droga em Lisa, que parecia ter uma mente semelhante à de uma serpente e para quem o conceito de moralidade parecia ser algo totalmente estranho. Ela dava a impressão de ver o mundo através de um véu de ressentimento e de ódio incessante; seu senso de poder pessoal e seu complexo de superioridade não bastavam para deixá-la a salvo de impulsos autodestrutivos, e ela era repleta de uma energia psicótica tão comprimida que parecia a ponto de explodir a qualquer instante. Vassago imaginou que com a ajuda do PCP, ela poderia atingir extremos de violência muito gratificantes, tempestades de fúria sanguinolenta cuja visão poderia deixá-la tremendamente excitado.
— Onde é que a gente está indo?—perguntou ele, depois que pegaram a rodovia rumo ao sul. Os faróis do carro penetravam com dificuldade na névoa; era como se o mundo em redor tivesse sido obliterado e eles fossem capazes de inventar qualquer paisagem à sua frente, qualquer futuro. Tudo que imaginassem poderia ganhar corpo dentro daquela névoa e surgir diante deles.
— El Toro — disse ela.
— É onde ele mora?
— Sim.
— Quem é ele?
— Precisa saber o nome?
— Não, moça. Quero saber por que quer vê-lo morto.
Ela o examinou por alguns instantes. Gradualmente, um sorriso se alargou pelos seus lábios, como uma ferida aberta na carne por uma faca que se movesse em câmera lenta. Seus dentes muito brancos pareciam ter pontas aguçadas, como os dentes de uma piranha. —Você é mesmo capaz, não é? — disse ela. — Você é capaz de ir até lá e matar o cara, só para me levar para a cama.
— Não—disse Vassago. — Só para me divertir. É como eu lhe disse...
— Primeiro brincar de matar, depois brincar de trepar—completou ela.
Vassago precisava fazer com que ela continuasse falando, e sentindo-se
à vontade.
— Ele mora em apartamento ou numa casa? — perguntou.
— Faz diferença?
— Muito mais fácil entrar numa casa, e os vizinhos ficam mais longe.
— É uma casa — disse ela.
— Por que você quer que ele morra?
— Ele estava a fim de mim, eu não estava a fim dele, e ele achou que mesmo assim podia fazer o que lhe dava na telha.
— Não deve ter sido fácil... com você.
Os olhos dela estavam mais frios do que nunca.
— Ele levou uns pontos no rosto, depois da história toda.
— Mas conseguiu o que queria?
— Era muito maior do que eu.
Ela afastou os olhos e passou a encarar a estrada à frente.
Uma brisa tinha se erguido do oeste, e o nevoeiro não estava mais se espalhando placidamente pela paisagem noturna. Ele revoluteava ao longo da rodovia como fumaça escapando de uma enorme fogueira, como se toda a orla marítima estivesse em chamas, com cidades inteiras sendo consumidas e desabando em ruínas carbonizadas.
Vassago continuou fitando o perfil da loura e pensando como seria bom poder seguir com ela até El Toro, e ver até que ponto ela podia mergulhar em sangue para se vingar de alguém. Então ele poderia convencê-la a vir até o seu esconderijo e se entregar, de livre e espontânea vontade, para sua coleção. Ela ansiava pela morte, quer soubesse disso ou não. Ela lhe ficaria grata pelos doces momentos de dor que a conduziriam ao mundo dos malditos. Com aquela pele pálida quase luminosa em contraste com as roupas negras, e cheia de um ódio tão intenso que parecia se irradiar de seu corpo, ela seria uma visão incomparável caminhando por entre a coleção de Vassago, rumo ao seu destino, e aceitando calmamente o golpe final, num sacrifício voluntário que a mandaria de volta para o Inferno.
Mas ele sabia que aquilo não passava de uma fantasia; ela não seria capaz de morrer por causa dele, mesmo sendo atraída pela morte. Morreria apenas por si mesma, quando concluísse que a morte era seu último desejo.
No momento em que ela percebesse as verdadeiras intenções dele, iria reagir violentamente. Seria muito mais difícil de dominar do que Neon e poderia produzir estragos muito maiores. Vassago preferia levar cada nova aquisição ainda viva para o interior do seu museu e extrair a vida de seus corpos sob o olhar malévolo da estátua de Lúcifer. Mas ele soube logo que desta vez, com Lisa, não poderia se permitir esse luxo. Ela não seria fácil de subjugar fisicamente, mesmo que ele a atingisse com um golpe inesperado. E se ele perdesse a vantagem proporcionada pelo ataque de surpresa, ela seria uma adversária temível.
Ele não estava preocupado com a possibilidade de se machucar. Nada podia amedrontá-lo, inclusive a dor física. Na verdade, cada pancada que ela acertasse em seu corpo, cada corte que ela abrisse na sua carne, seria apenas fonte de mais emoção, de mais prazer.
O problema é que ela era forte, e talvez fosse forte o bastante para escapar dele — e esse risco ele não poderia correr. Não achava que ela fosse denunciá-lo à polícia: ela vivia numa subcultura que via os policiais com desprezo e com sarcasmo e os evitava com ódio. Mas se ela lhe escapasse ele perderia para sempre a chance de acrescentá-la à sua coleção. E estava convencido de que aquela energia perversa que havia dentro dela poderia ser a oferenda final que garantiria sua readmissão no Inferno.
— E aí?—disse ela, ainda olhando para diante, através do nevoeiro, através do qual o Pontiac se precipitava a uma velocidade suicida.—Já está batendo?...
— Um pouco — disse ele.
— Não estou sentindo nada. — Ela abriu a bolsa e começou a remexer
no seu interior, examinando os frascos e envelopes que conduzia. — Precisa de alguma coisa para aumentar o efeito.
Enquanto ela se distraiu à procura de alguma outra cápsula, Vassago segurou o volante com a mão esquerda e enfiou a direita embaixo do seu assento, onde tinha escondido o revólver de Morton Redlow. Lisa só ergueu os olhos quando sentiu o cano do revólver encostado às suas costelas. Se ela chegou a entender o que estava acontecendo, não demonstrou surpresa. Vassago disparou duas vezes, matando-a quase instantaneamente.
Hatch usou toalhas de papel para limpar a bebida derramada no chão da cozinha. Quando finalmente se inclinou sobre a pia para lavar as mãos, ainda estava trêmulo, mas não tanto quanto instantes atrás.