Esconderijo

Dean R. Koontz · Capítulo 4 de 8 · parte 2/4

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Esconderijo

Quatro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Não sei o que houve com ela.

— Eu sei — disse a irmã Imaculada. Ela passou a mão sobre o rosto, num gesto fatigado. Seus olhos estavam tristes. — Dois anos atrás, quando ela tinha oito, encontramos um casal de pais adotivos para ela. Um casal na faixa dos trinta anos, a quem os médicos tinham informado de que nunca poderiam ter filhos. Eles se convenceram de que adotar uma criança deficiente seria algo especial, para todos eles. Bem... duas semanas depois que Regina foi viver com eles, quando estavam ainda na fase experimental de pré-adoção, a mulher engravidou. De repente, eles iam ter um bebê... e a adoção de Regina deixou de ser uma idéia tão atraente.

— E eles simplesmente a trouxeram de volta? — perguntou Lindsey.

— Depositaram-na na porta do orfanato e foram embora? Que coisa horrível.

— Não posso julgá-los — disse a irmã Imaculada. — Talvez eles tenham percebido que não teriam amor bastante para dar ao seu próprio filho e a Regina ao mesmo tempo; nesse caso, fizeram a coisa certa. Regina não merecia viver numa casa onde a cada minuto de cada dia ela iria saber que estava em segundo plano, que era menos amada do que a outra criança, que era uma espécie de intrusa. Seja como for... ela ficou arrasada com essa rejeição. Precisou de muito tempo para reconquistar a auto-estima. E acho que agora ela não está disposta a correr um novo risco.

Ficaram todos em silêncio.

O sol brilhava do lado de fora das janelas. As palmeiras ondeavam preguiçosamente. Por entre as árvores, era possível ter rápidos vislumbres de Fashion Island, o misto de shopping center e bloco de escritórios em cujo perímetro o escritório de Gujilio estava situado.

— Às vezes — prosseguiu a freira — uma única experiência negativa basta para desencorajá-los, quando são muito sensíveis. Eles simplesmente se recusam a tentar de novo. Temo que isso esteja acontecendo com Regina.

Ela veio até aqui decidida a colocar vocês à distância, e abortar a entrevista; e acho que conseguiu, de um modo muito peculiar.

— É como alguém que passou a vida inteira na cadeia — disse o padre Jiminez. — Quando ganha liberdade condicional, o sujeito fica de início todo entusiasmado, mas aí começa a perceber que a vida do lado de fora não é tão fácil quanto ele pensava. Aí, ele comete um crime qualquer, só para ser mandado de volta à prisão. A vida na prisão pode ser limitada e insatisfatória... mas é algo seguro, algo que eleja conhece.

Salvatore Gujilio voltou a circular pela sala, recolhendo os copos vazios. Continuava a ser um homem enorme sob qualquer critério de julgamento, mas mesmo depois da saída de Regina ele não dominava mais o ambiente como de início. Sua presença tinha sido definitivamente reduzida pela comparação com aquela garota franzina, de olhos cinza e nariz petulante.

— Sinto muito, muito mesmo—disse a irmã Imaculada, pousando uma mão confortadora no ombro de Lindsey. — Vamos tentar outra vez, querida.

Vamos voltar à estaca zero e colocar vocês em contato com outra criança; desta vez, garanto que vai ser a criança certa.

 

2

Lindsey e Hatch deixaram o escritório de Salvatore Gujilio às 3:10 daquela tarde de quinta-feira. Tinham combinado não fazer nenhum comentário sobre a entrevista até a hora do jantar, dando tempo a si próprios para analisar o encontro e examinar suas reações. Nenhum dos dois queria tomar uma decisão baseada em primeiras impressões, nem queriam influenciar o outro a partir delas — para depois se arrepender.

Claro que não tinham imaginado, nem de longe, que o encontro fosse transcorrer daquela forma. Lindsey estava ansiosa para falar a respeito. Partia do pressuposto de que a decisão já havia sido tomada, de que a garota tinha se encarregado de tomar a iniciativa e que não adiantaria tentar reverter a escolha dela. Mas tinham concordado em esperar, e, como Hatch não parecia disposto a quebrar o trato, ela também manteve a boca fechada.

Ela ia ao volante do seu novo carro esporte, um Mitsubishi vermelho. Hatch estava sentado ao lado, de óculos escuros, o braço direito apoiado na janela do carro, tamborilando com os dedos ao som do rock tocado pelo rádio, Please Mister Postman com The Marvelettes.

Passaram pelas últimas enormes tamareiras enfileiradas ao longo da Newport Center Drive e viraram à esquerda rumo à rodovia do Pacífico, seguindo ao longo de muros cobertos por trepadeiras, na direção do sul. Era um dia cálido de final de abril, mas não demasiado quente, e mostrava um daqueles céus intensamente azuis, que, ao se aproximar a hora do crepúsculo, vão adquirindo uma luminosidade elétrica que lembra a de alguns céus dos quadros de Maxfield Parrish. O tráfego estava fluente ao longo da rodovia, e o oceano brilhava como uma grande extensão de tecido azul debruado de ouro e prata.

Uma calma euforia se irradiava através do corpo de Lindsey, e isso já durava sete semanas. Era uma alegria pelo simples fato de estar viva, algo que as crianças geralmente experimentam mas que os adultos perdem durante o processo de crescimento. Ela também a tinha perdido, sem perceber. Mas havia sido um contato bastante imediato com a morte para lhe trazer de volta aquela joie de vivre da juventude.

Mais de dois andares abaixo do Inferno, nu por baixo do lençol que recobria seu colchão amassado e coberto de manchas, Vassago passava as horas do dia mergulhado num sono profundo. Em geral, seu sono era povoado por sonhos onde apareciam imagens de carne torturada e ossos partidos, sangue e bile, visões de crânios humanos. Às vezes ele sonhava com multidões imensas retorcendo-se em agonia num chão enlameado, sob um céu tenebroso; e ele caminhava no meio desses corpos como um príncipe infernal caminharia por entre a malta anônima dos condenados à maldição eterna.

Naquele dia, contudo, os sonhos que ocupavam sua mente eram estranhos e se destacavam apenas pela banalidade. Uma mulher de olhos escuros e cabelos escuros, ao volante de um carro vermelho, vista da posição de um observador sentado no banco dianteiro, ao lado dela. Palmeiras. Buganvílias rubras. O oceano banhado de luz.

A Harrison Antigüidades ficava no extremo sul de Laguna Beach, na rodovia do Pacífico. Estava instalada numa elegante construção de dois andares em estilo Art Déco, que produzia um interessante contraste com as peças de mobília expostas na vitrine, a maioria das quais eram dos séculos XVIII e XIX.

Glenda Dockridge, assistente de Hatch e gerente, estava ajudando Lew Booner, o faz-tudo da loja, a limpar a poeira dos móveis em exposição. Numa grande loja de antiguidades, a limpeza da poeira é uma tarefa semelhante à pintura da ponte de Golden Gate: quando se chega ao final, está na hora de retornar ao começo e fazer tudo de novo. Glenda estava de bom humor por ter acabado de fechar duas boas vendas: uma escrivaninha Napoleão III laqueada em negro, com enfeites de bronze dourado e painéis com motivos japoneses; e, para o mesmo freguês, uma mesa italiana do século XIX, em forma de polígono, com elaboradas incrustações em marchetaria. Tinha sido um excelente negócio, principalmente levando-se em conta que ela trabalhava em troca de salário e mais uma comissão sobre as vendas.

Hatch passou a examinar a correspondência do dia, responder algumas cartas e examinar um par de pedestais de roseira, do século XVIII, com incrustações de jade em forma de dragões, que tinha acabado de chegar. Enquanto isso, Lindsey ajudou Glenda e Lew a terminar a limpeza. Em seu novo estado de espírito, até aquele tipo de tarefa acabava sendo um motivo de prazer. Dava-lhe a chance de apreciar os detalhes dos móveis—as volutas do acabamento de uma lâmpada de bronze, os meticulosos entalhes da perna de uma mesa, as delicadas perfurações e pinturas à mão nas bordas de um conjunto de porcelanas inglesas do século XVIII. Enquanto pensava na história e na significação cultural de cada peça que ajudava a limpar, Lindsey percebeu que essa sua nova atitude tinha algo de zen.

Quando o sol começou a se pôr, Vassago foi despertando, sentindo a proximidade da noite. Sentou-se sobre o colchão, naquele arremedo de túmulo onde morava. Sentia-se invadido por uma sede de morte, uma ânsia incontida de matar.

A derradeira imagem que guardava de seus sonhos era a da mulher no carro vermelho. Ela não estava mais no carro, e sim num aposento que ele não conseguia enxergar direito, parada diante de uma peça de mobília chinesa, limpando-a com um pano. Ela se virava—como se ele lhe houvesse dirigido a palavra — e sorria.

Seu sorriso era tão radiante, tão cheio de vida, que Vassago tinha impulsos de esmagar seu rosto com um martelo, arrebentar seus dentes, estilhaçar sua mandíbula, tudo isso para que lhe fosse impossível tornar a sorrir de novo.

Tinha sonhado com ela duas ou três vezes durante as últimas semanas. A primeira vez, ela estava numa cadeira de rodas, rindo e chorando ao mesmo tempo.

Voltou a rebuscar na memória, mas não conseguia lembrar daquele rosto em conexão com coisa alguma. Imaginou quem poderia ser ela e por que motivo aparecia em seus sonhos.

Do lado de fora, já era noite. Ele podia senti-lo. Um enorme manto negro que trazia ao mundo uma amostra do que seria a morte, no final de todos os dias, por mais brilhantes e ensolarados.

Ele vestiu-se e deixou seu esconderijo.

Às sete horas daquela noite de início da primavera, Lindsey e Hatch estavam no Zov's, um pequeno mas bem freqüentado restaurante em Tustin. A decoração era quase toda em preto e branco, com enormes janelas e grandes espelhos. Os garçons, todos amigáveis e eficientes vestiam-se também de preto e branco, combinando com o ambiente. A comida que era servida ali era uma experiência sensorial tão rica que aquele recinto monocromático parecia recoberto de cores vivas.

O nível de ruído era alto o bastante para ser acolhedor, mas sem incomodar. Eles não precisavam erguer a voz para se dirigir um ao outro, e sentiam-se como se aquele murmúrio indistinto que perpassava pelo salão servisse como uma cortina entre sua mesa e as demais, resguardando sua privacidade. Durante os dois primeiros pratos servidos — lulas, sopa de feijão preto — falaram apenas de assuntos triviais. Mas quando foi trazido o prato principal — peixe-espada, para ambos—Lindsey não conseguiu mais se conter.

— Muito bem — disse ela —, tivemos o dia inteiro para pensar no assunto. Nenhum de nós interferiu enquanto o outro formava sua opinião. Então, vamos ver. O que achou de Regina?

— O que você achou dela?

— Você primeiro.

— Por que eu?

— E por que não? — retrucou Lindsey.

Hatch respirou fundo, hesitou apenas um instante e largou de vez:

— Fiquei louco por ela.

Lindsey sentiu-se como se fosse dar um salto no ar e fazer uns passos de dança, como fazem os personagens dos desenhos animados quando querem expressar uma felicidade incontida; a alegria e a excitação que sentiu naquele instante eram mais intensos e mais vivos do que as alegrias comuns da vida real. Ela tinha esperado aquela reação da parte de Hatch, mas não sabia o que ele iria dizer, não tinha a menor idéia, porque o encontro daquela tarde tinha sido tão... bem, a única palavra adequada seria "assustador".

— Oh, meu Deus — disse Lindsey. — Eu acho que a amo. Ela é tão

doce.

— Ela é dura de roer.

— Estava representando.

— Sim, estava representando para nós, mas por isso mesmo é dura de roer. Tem que ser. A vida não lhe deu muita chance de escolha.

— Mas ela é uma doçura.

— Muito — concordou ele. — Não estou dizendo que ela me chocou.

Eu a achei admirável, adorável.

— Tão inteligente.

— Fazendo tanta força para parecer desagradável — disse Hatch — e

aquilo só fazia torná-la ainda mais linda.

— Pobre criança. Estava com medo de ser rejeitada mais uma vez, e

resolveu assumir a ofensiva.

— Quando a ouvi se aproximando pelo corredor, imaginei que fosse

algo como...

— Godzilla! — exclamou Lindsey.

— Por aí. E o que você achou de Binky, o peixinho falante?...

— Aquele que caga na maionese? — disse ela.

Os dois dispararam na gargalhada, e algumas pessoas em redor viraram-se na sua direção, fosse devido ao riso, ou talvez porque escutaram o que Lindsey tinha dito; isso fez com que os dois rissem ainda mais.

— Ela vai ser uma complicação — disse Hatch sorrindo.

— Vai ser um amor, isso sim.

— Não é assim tão simples.

— Vai, sim, vai ser.

— Há um problema.

— Qual é?

Hatch hesitou.

— E se ela não quiser vir conosco? — disse.

O sorriso de Lindsey pareceu ter sido congelado.

— Ela vai querer — disse ela por fim. — Claro que vai.

— Pode ser que não.

— Hatch, não seja negativo.

— Só estou dizendo que devemos estar preparados para algum desapontamento.

Lindsey sacudiu a cabeça, num gesto obstinado.

— Não, não. Vai dar tudo certo. Tem que dar. Já tivemos toda a nossa cota de má sorte, de tempos ruins. Merecemos coisa melhor agora. A roda girou, e vamos formar uma família outra vez. A vida vai ser boa, vai ser linda.

O pior ficou para trás.

 

3

Naquela noite de quinta-feira, Vassago resolveu desfrutar das mordomias de um quarto de motel.

Em geral, ele usava como toalete o matagal da parte traseira do parque abandonado. Também se lavava todas as noites com o auxilio de uma garrafa de água e sabão líquido. Barbeava-se com uma navalha, um creme de barbear em aerosol e um pedaço de espelho que tinha achado no parque.

Quando chovia à noite, ele gostava de tomar banho de chuva ao ar livre, deixando a água correr sobre seu corpo. Se a chuva era acompanhada de relâmpagos, ele procurava o ponto mais alto das passagens pavimentadas, na esperança de receber as boas graças de Satã e ser levado de vez para o mundo dos mortos, graças a uma descarga fulminante de eletricidade. Mas a estação chuvosa do sul da Califórnia já estava praticamente finda e com certeza só recomeçaria em dezembro. Se durante esse período ele se tornasse merecedor de retornar ao mundo dos mortos, seu veículo de libertação do detestável mundo dos vivos teria que ser outra coisa bem diversa de um raio.

Uma vez por semana, às vezes duas, ele alugava um quarto de motel para usar o chuveiro e se arrumar com um pouco mais de cuidado do que lhe era possível nas condições primitivas do seu esconderijo, embora higiene não fosse algo importante para ele. A sujeira exercia sobre ele uma poderosa atração. O ar e a água do reino de Hades, para onde ele sonhava em retornar, eram contaminados por todos os tipos de sujeira. Mas ele tinha de transitar por entre os vivos, para poder caçá-los e assim construir a coleção que lhe traria a readmissão ao reino dos mortos; e havia certas convenções a que era preciso obedecer, a fim de não atrair uma atenção indesejável sobre sua pessoa. Entre os vivos, o que predominava era um relativo grau de limpeza.

Vassago sempre utilizava o mesmo motel, o Blue Skies, um motel sujo e malconservado na extremidade sul de Santa Ana, onde o recepcionista, um sujeito eternamente de barba por fazer, só aceitava pagamento à vista e em dinheiro; mas não pedia documentos e nunca olhava os fregueses nos olhos, como se tivesse medo do que poderia acabar vendo ou do que os outros poderiam ver. A área fervilhava de prostitutas e traficantes de drogas. Vassago era um dos poucos indivíduos que não iam ali na companhia de alguma das prostitutas. Ficava durante uma ou duas horas apenas, e isso era mais ou menos a permanência média dos outros fregueses; e passava tão despercebido quanto os outros que, grunhindo e suando, faziam a cabeceira da cama chocar-se ritmicamente de encontro à parede dos quartos vizinhos.

Ele não teria conseguido viver ali o tempo todo: tinha uma consciência aguda da presença daquelas prostitutas atracando-se com os homens em trepadas frenéticas, e aquilo o deixava cheio de raiva, ansiedade e náusea, ao testemunhar a urgência dos desejos e a intensa atividade dos vivos. Naquela atmosfera, era impossível para ele descansar e pensar com clareza, mesmo que aquele clima geral de loucura e perversão fosse algo que o atraía quando ainda fazia parte do mundo dos vivos.

Nenhum outro motel ou casa de pensão teria sido seguro. Iriam pedir-lhe algum tipo de identificação. Além disso, ele conseguia se fazer passar por um dos vivos, desde que seus encontros com eles fossem meramente casuais. Qualquer recepcionista de motel ou administrador de pensão que o encontrasse repetidamente e o observasse com um pouco mais de interesse logo iria perceber que ele era diferente, de um modo indefinível mas perturbador.

De qualquer modo, para evitar atrair as atenções sobre si, ele preferia concentrar suas atividades no parque abandonado, As autoridades que viessem à sua procura teriam mais dificuldade para encontrá-lo ali do que em qualquer outro local. Mais do que isto, o parque lhe proporcionava solidão, a calma de um cemitério e áreas de escuridão total para onde ele podia escapar durante as horas do dia, quando seus olhos excessivamente sensíveis não podiam suportar o brilho do sol.

Os motéis eram suportáveis, mas somente entre o crepúsculo e o nascer do dia.

Naquela noite agradavelmente quente de quinta-feira, ao sair da portaria do Blue Skies empunhando a chave do seu quarto, ele percebeu um carro que lhe pareceu familiar: um Pontiac parado numa área sombria do estacionamento, para lá do último quarto, e virado de frente para o escritório, em vez de na direção dos quartos, como os demais. Aquele mesmo carro estava ali no domingo passado, a última vez em que Vassago tinha utilizado o Blue Skies. Havia um homem por trás do volante, recostado, como se estivesse apenas passando o tempo enquanto esperava a chegada de alguém. Era o mesmo que estivera ali na noite de domingo, o rosto oculto pela escuridão e pelo reflexo das luzes no pára-brisa do veículo.

Vassago guiou o Camaro até a vaga número 6, quase na metade da longa estrutura em forma de L; estacionou na frente do quarto, e entrou. Levava consigo apenas uma muda de roupas — pretas, como as que estava usando.

Uma vez no interior do quarto, não acendeu as luzes. Nunca o fazia.

Durante algum tempo ficou parado com as costas apoiadas na porta, pensando no Pontiac e no homem por trás do volante. Poderia muito bem ser um vendedor de drogas que fazia seus negócios sem sair do carro. O número de traficantes que freqüentava aquela vizinhança era ainda maior do que o número de baratas que infestavam as paredes do velho motel. Mas onde estariam os fregueses dele, com seus olhares nervosos e seus maços de notas ensebadas?

Vassago jogou em cima da cama as roupas que trouxera, pôs os óculos escuros no bolso da jaqueta de couro e entrou no minúsculo banheiro. O cheiro de desinfetante displicentemente derramado aqui e ali não era suficiente para eliminar os odores biológicos que se fundiam numa desagradável mistura.

Um retângulo de luz mortiça indicava a localização de uma janela na parede, ao lado do chuveiro. Vassago abriu a porta do boxe, que produziu um som rascante ao deslizar ao longo do trilho enferrujado, e deu um passo para dentro. Se a janela fosse fixa, ou se houvesse uma barra vertical dividindo-a em duas, seu plano teria ido por água abaixo. Mas quando ele a forçou, ela girou rangendo nas dobradiças. Agarrando-se à borda, ele içou o corpo para cima, contorceu-se até passar o tronco para o lado de fora, e num instante deixava-se cair de pé sobre o piso do estreito beco de serviço situado na traseira do motel.

Fez uma pausa, o tempo suficiente para repor os óculos escuros. A uma certa distância, uma lâmpada de vapor de sódio projetava um brilho amarelado que fez seus olhos arderem como se tivessem sido atingidos por poeira bem fina. Os óculos reduziram aquele clarão a uma vaga luminosidade ambar, e ele pôde enxergar de novo.

Caminhou direto, até a extremidade do bloco; virou à direita ao chegar à esquina, e depois à direita novamente, rodeando o motel. Passou ao largo da barra menor do L formado pelo prédio e caminhou pela varanda coberta, em frente aos últimos apartamentos, até estar por trás do Pontiac.

Naquele instante, o motel estava totalmente silencioso. Ninguém entrava ou saía dos quartos.

O homem ao volante estava sentado com o braço para fora da janela. Se tivesse olhado pelo espelho retrovisor, talvez tivesse visto Vassago se aproximando, mas sua atenção estava voltada para o quarto número 6, na outra ala do prédio.

Vassago abriu a porta num repelão, e o homem, que tinha todo o seu peso apoiado sobre ela, tombou para o lado de fora. Vassago bateu-lhe no rosto, usando o cotovelo como se fosse um aríete; melhor do que um soco, mas o golpe não pegou de cheio como ele pretendia. O homem ficou tonto mas ainda consciente, e cambaleou para fora do carro, tentando atracar-se com Vassago. Era evidente que tinha muitos quilos acima de seu peso ideal, o que o tornava lento; Vassago o tornou mais lento ainda com uma joelhada no meio das pernas. O homem caiu ao chão de joelhos, como se estivesse rezando, e Vassago recuou o bastante para desferir um pontapé que o atirou para um lado. Aproximou-se e chutou-o de novo, desta vez na cabeça. O sujeito ficou ali, frio como o piso de cimento onde estava estendido.

Ouviu-se um arquejo de susto; Vassago virou-se a tempo de ver uma loura de cabelo frisado, vestindo minissaia, ao lado de um sujeito de meia-idade com um terno vagabundo e usando uma peruca barata. Estavam saindo de um dos quartos mais próximos e tinham os olhos fitos no homem caído no chão. Vassago os encarou de frente até que eles recuaram para dentro do quarto e bateram apressadamente a porta.

O homem desmaiado pesava muito, mais de cem quilos, mas Vassago conseguiu erguê-lo. Empurrou-o para dentro do carro até que ele ficou instalado no assento dianteiro, no banco da direita; a seguir, sentou-se ao volante, ligou o motor e afastou-se do Blue Skies.

Vários quarteirões mais à frente, entrou num conjunto habitacional construído há mais de trinta anos e cujas casas mostravam sinais de decadência. Antigos lauréis indianos e árvores de coral flanqueavam as calçadas, dando um ar elegante às ruas, apesar do visível declínio do lugar. Ele estacionou o Pontiac junto do meio-fio. Desligou o motor e apagou as luzes.

Como não havia nenhum poste de luz aceso nas proximidades, ele tirou os óculos escuros e revistou o homem desacordado. Num coldre atravessado por dentro do paletó, ele trazia um revólver, carregado. Vassago guardou a arma.

O estranho conduzia duas carteiras nos bolsos. A primeira e maior delas continha trezentos dólares em dinheiro, que Vassago confiscou de imediato. Também trazia cartões de crédito, fotos de pessoas desconhecidas, um recibo de lavanderia, um cartão de "Compre Dez e Leve Um de Graça" de uma loja de iogurte congelado, uma carteira de motorista que identificava o homem como sendo Morton Redlow, de Anaheim, e outras coisas miúdas. A segunda carteira era mais fina, e não era uma carteira de verdade, e sim uma capa de couro contendo em seu interior uma licença de Redlow para trabalhar como detetive particular, e outra licença para conduzir uma arma não ostensivamente.

No porta-luvas, Vassago encontrou algumas barras de doce e um romance policial de bolso. No console entre os bancos dianteiros, achou goma de mascar, balas de hortelã, mais doce, e um mapa da região do condado de Orange, editado pela Thomas Brothers.

Estudou o mapa durante algum tempo, depois ligou o motor e pôs o carro em movimento. Seguiu na direção de Anaheim, rumo ao endereço que constava da carteira de motorista de Redlow.

Quando estavam mais ou menos na metade do caminho, Redlow começou a gemer e se agitar, como se estivesse voltando a si. Segurando o volante com a mão esquerda, Vassago empunhou pelo cano o revólver e golpeou o homem na cabeça. Redlow ficou quieto novamente.

 

4

Uma das cinco crianças que dividiam com Regina a mesa do refeitório era Carl Cavanaugh, que tinha oito anos de idade e demonstrava isso o tempo inteiro. Era paraplégico e se movia em cadeira de rodas, o que já parecia ser um problema suficiente; mas ele conseguia tornar sua vida ainda pior pelo fato de ser aquilo que se poderia chamar um perfeito pestinha.

Assim que a mesa foi posta, Carl disse:

— Adoro sexta-feira à tarde, sabem por quê? — Sem dar aos demais uma chance de demonstrar desinteresse, completou: — Porque na quinta à noite o jantar é sempre feijão e sopa de ervilhas, e aí na sexta à tarde a gente peida que é uma beleza!

As outras crianças soltaram grunhidos de desagrado, Regina simplesmente o ignorou.

Pestinha ou não, Carl tinha razão: o jantar da quinta-feira, no Lar São Tomás para Crianças, era sempre sopa de ervilhas, presunto, feijão verde, batatas em molho de ervas, e como sobremesa um quadrado de geléia de frutas com creme de leite. Às vezes as freiras tomavam um cálice a mais de xerez ou simplesmente ficavam impacientes depois de tantos anos de batina; e quando elas perdiam o controle numa quinta-feira, era possível que o jantar oferecesse milho em vez de feijão verde, ou, se elas estavam realmente passando dos limites, talvez um par de biscoitos de baunilha junto com a geléia.

O cardápio daquela quinta-feira não apresentava surpresas, mas Regina não teria se importado — talvez até nem reparasse — se ele incluísse filé-mignon ou, ao contrário, bosta de vaca. Ela provavelmente não teria notado a presença de um pastel de carne em seu prato, embora certamente não ficasse incomodada se ele viesse substituindo o feijão verde: ela detestava feijão verde. Gostava de presunto. Tinha mentido ao dizer aos Harrison que era vegetariana, com a esperança de que eles vissem nessa questão de dieta um motivo a mais para rejeitá-la sem maiores delongas — melhor que fosse logo, assim de cara, do que mais tarde, quando iria doer muito mais. Enquanto ela comia, sua atenção não estava na comida nem na conversa dos outros garotos em redor da mesa, e sim no encontro daquela tarde no escritório do Sr. Gujilio.

Ela havia estragado tudo.

Alguém devia construir um dia um Museu de Cagadas Famosas, somente para que ela pudesse ter uma estátua ali num lugar de destaque, para que as pessoas viessem de todas as parte do mundo, da França, do Japão, do Chile, apenas para vê-la. Viriam garotos de escola, classes inteiras trazidas pela professora, para estudá-la e aprender o que não fazer e como não agir. Os pais iriam apontar para a estátua e fazer ameaças aos filhos: "Toda vez que vocês pensarem que estão sendo muito espertos, lembrem-se dela e pensem que vocês também podem acabar assim, uma figura ridícula e digna de pena, exposta ao riso e aos insultos de todos."

Foi somente quando já tinham transcorrido dois terços da entrevista que ela percebeu que os Harrisons eram pessoas especiais. Provavelmente nunca iriam tratá-la tão mal quanto os Infames Dotterfields, o casal que depois de aceitá-la e levá-la para casa tinha precisado de apenas duas semanas para rejeitá-la, já que iam ter seu próprio bebê — um filho de Satã, com certeza, que iria nascer para destruir o mundo inteiro, principalmente os próprios Dotterfields, queimando-os vivos com uma labareda produzida pelos seus olhinhos de porco. (Hum-hummm. Desejando a desgraça do próximo. Um pensamento é tão grave quanto uma ação. Lembre-se disto na hora da confissão, Regina.) De qualquer modo, os Harrisons eram diferentes; algo que ela tinha começado a perceber muito lentamente (que grande cagada!) e só tivera certeza quando o Sr. Harrison fez aquela piada sobre pijamas de caviar, mostrando que tinha senso de humor. Mas àquela altura ela já estava tão envolvida com a própria representação que não tinha sido mais possível parar de ser antipática (de ser idiota, de ser imbecil); não tinha achado uma maneira de apagar tudo e recomeçar do princípio. Aquela altura, provavelmente, os Harrisons estariam tomando uma bebedeira para comemorar o fato de terem escapado por um fio; ou talvez estivessem de joelhos em alguma igreja, chorando de alívio e rezando um rosário atrás do outro, agradecendo ' a Nossa Senhora por ter vindo em seu socorro e evitado que adotassem no escuro aquela garotinha estúpida. Que merda. (Puxa. Vulgaridade. Mas não tão grave quanto dizer o nome de Deus em vão. Valeria a pena mencionar no confessionário?)

Apesar de não ter o menor apetite, e apesar das piadas sem graça de Carl Cavanaugh, ela comeu todo o seu jantar, mas apenas porque as policiais de Deus— as freiras—não a deixariam levantar da mesa enquanto não deixasse o prato limpo. A fruta que acompanhava a geléia de limão era pêssego, o que bastava para transformar a sobremesa num verdadeiro suplício. Ela não conseguia entender como é que alguém era capaz de imaginar que pêssego e limão pudessem combinar. Tudo bem, todo mundo sabe que freiras não entendem mesmo de muita coisa, mas afinal ela não estava exigindo que as freiras soubessem que tipo raro de vinho se deve servir com assado de filé de ornitorrinco, pelo amor de Deus! (Desculpe, Deus.) Abacaxi e geléia de limão, tudo bem. Pêra e geléia de limão, OK. Mesmo bananas e geléia de limão não tinha nada de mais. Mas colocar pêssego numa geléia de limão era, na opinião dela, o mesmo que retirar as passas de um pudim de arroz e substituí-las por pedaços de melancia. Pelo amor de Deus! (Desculpe, Deus.) Ela conseguiu comer a sobremesa recorrendo ao truque de dizer a si mesma que poderia ser bem pior: as freiras podiam ter servido rato morto em calda de chocolate... embora não tivesse a menor idéia do motivo por que as freiras serviriam logo isso. Ainda assim, imaginar algo bem pior do que o que teria que enfrentar era um truque que sempre funcionava, uma técnica de auto-sugestão que ela já tinha usado muitas vezes antes. Daí a pouco a detestável geléia tinha sumido por inteiro, e ela estava livre para deixar o refeitório.

Depois do jantar, a maioria das crianças ia para a sala de recreação, para jogar Monopólio e outros jogos, ou então à sala de TV para assistir qualquer bobagem que fosse ao ar naquele horário; mas ela voltou para o seu quarto, como de costume. Passava a maioria das noites lendo. Mas não naquela noite. Tinha acertado que passaria aquela noite inteira se lamentando e lembrando a si mesma sua posição como a pessoa mais burra e idiota do mundo (ainda bem que estupidez não era pecado), para nunca mais esquecer de como tinha sido imbecil, e lembrar a si mesma de nunca mais fazer um papel tão ridículo.

Cruzando os corredores ladrilhados com quase a mesma rapidez de uma criança com duas pernas sadias, ela lembrou-se de como tinha cambaleado no escritório do advogado, e enrubesceu. No seu quarto, que dividia com uma garota cega chamada Winnie, ela se jogou sobre a cama, olhando para o teto, enquanto recordava o modo deliberadamente desajeitado como tinha se erguido da cadeira diante dos Harrisons. Seu rosto ficou ainda mais vermelho, e ela o cobriu com as mãos.

— Regina—disse baixinho, dentro da concha formada pelas mãos —, você é a criatura mais cagona que existe neste mundo. — Mais um item na lista para a próxima confissão; além de mentir e enganar os outros, e de dizer o nome de Deus em vão: o uso repetido de vulgaridades. — Que merda, que merda, que merda.

(Ih, vai ser uma looooonga confissão.)

 

5

Quando Redlow recuperou a consciência, havia tantas dores diferentes espalhadas pelo seu corpo que elas absorveram de imediato toda a sua atenção. Tinha uma dor de cabeça tão forte que se fosse entrevistado num comercial de TV eles teriam que abrir uma nova fábrica de aspirinas para atender ao súbito aumento da demanda. Um dos seus olhos estava inchado e quase totalmente fechado. Seus lábios estavam partidos e inchados, meio dormentes, mas davam a impressão de ter crescido. O pescoço doía, o estômago estava muito machucado, e seus testículos latejavam tanto, devido à joelhada que tinham levado, que a simples idéia de ficar de pé e andar fez com que uma onda violenta de náusea o invadisse.

Gradualmente, ele foi lembrando do que lhe acontecera. Aquele bastardo o tinha pegado de surpresa. Então, percebeu também que não estava caído no estacionamento do motel, e pela primeira vez em todo aquele episódio sentiu medo.

Não estava simplesmente sentado numa cadeira. Estava amarrado a ela. Cordas passavam pelo seu tronco e sua cintura, prendendo-o ao encosto; e também suas coxas estavam amarradas ao assento. Seus braços estavam amarrados aos braços da cadeira junto ao cotovelo e também à altura dos pulsos.

A dor tinha embotado seu raciocínio, mas agora o medo o colocou em alerta total.

Semicerrando o olho direito, que estava intacto, e tentando abrir um pouco mais o esquerdo, ele examinou a escuridão. Por um instante imaginou que estaria dentro de um dos quartos do Blue Skies; afinal, estivera lá pouco tempo atrás, numa ronda para ver se pegava alguma pista do tal garoto. Mas logo reconheceu sua própria sala de visitas. Não podia ver grande coisa. As luzes estavam todas apagadas. Mas ele vivia naquela casa há dezoito anos e podia identificar facilmente a disposição das janelas fracamente iluminadas pelas luzes de fora, as formas sombrias da mobília, sombras por entre sombras de intensidade diferente; e aquele odor sutil mas único, o odor de sua própria casa, algo que ele podia identificar com a mesma presteza com que um lobo identifica o odor de sua toca.

Só que naquela noite ele não se sentia nem um pouco lobo. Sentia-se como um coelho, tremendo de medo ao perceber que seu papel agora era o de caça, não de caçador.

Por alguns segundos chegou a pensar que estava ali sozinho, e começou a forçar as cordas. Então, uma sombra se ergueu do meio das outras sombras e veio na sua direção.

Ele não podia ver mais do que a silhueta do seu adversário, e mesmo esta parecia se dissolver por entre as silhuetas dos objetos inanimados ou parecia mudar de feição como se ele fosse uma criatura polimórfica, capaz de assumir uma enorme variedade de aparências. Ele soube de imediato que era o tal rapaz; pressentiu a diferença, a estranheza que tinha percebido nele desde a primeira vez que tinha posto os olhos sobre o bastardo, naquele domingo, quatro noites atrás, no motel Blue Skies.

— Está confortável, Sr. Redlow?

Durante os últimos três meses, desde que começara a investigar aquele rapaz estranho, Redlow tinha começado a sentir uma enorme curiosidade a respeito dele, tentando adivinhar quais eram suas intenções, quais eram seus desejos, quais eram seus pensamentos. Depois de mostrar fotografias dele a um número incalculável de pessoas, e depois de passar ele próprio longas horas examinando as mesmas fotos, ele tinha desenvolvido uma curiosidade especial em saber como seria a voz do rapaz, a voz que acompanhava aquele rosto simpático mas que por alguma razão provocava arrepios. Mas o som da voz naquele instante não correspondeu à sua expectativa; ela não era fria nem metálica como a voz de uma máquina disfarçada em ser humano, nem era o grunhido gutural de uma besta feroz. Em vez disso era uma voz doce, persuasiva, com um timbre que reverberava agradavelmente nos ouvidos.

— Sr. Redlow... está me escutando?

Mais do que qualquer coisa, foi a educação e a formalidade do seu modo de falar que desconcertaram Redlow.

— Espero que me desculpe por ter sido tão rude, senhor, mas na verdade não tive alternativa.

Nada naquela voz indicava que o rapaz pudesse estar zombando dele ou sendo sarcástico. Era apenas um rapaz que tinha sido ensinado a tratar os mais velhos com consideração e respeito, um hábito de que não conseguia se libertar mesmo em circunstâncias como aquela. O detetive foi invadido por um pânico primitivo e supersticioso, como se descobrisse estar diante de uma entidade capaz de imitar a forma dos seres humanos, mas sem nada em comum com a humanidade.

Falando com dificuldade por entre os lábios rachados, Morton Redlow disse:

— Quem é você, e que diabo quer comigo?

— Você sabe quem sou eu.

— Não tenho a menor idéia. Você me atacou por trás. Não vi nada. O

que... você é um morcego ou coisa parecida? Por que não acende a luz?

O rapaz ainda era uma sombra negra, e essa sombra moveu-se mais para perto, até ficar a apenas um ou dois metros da cadeira.

— O senhor foi contratado para me espionar.

— Fui contratado para seguir um cara chamado Kirkaby. Leonard

Kirkaby. A mulher pensa que ele tem uma amante. E tem mesmo. Ele traz a secretária dele ao Blue Skies toda quinta-feira para dar uma rapidinha.

— Estou achando isso meio difícil de acreditar, senhor. O Blue Skies é para sujeitos sem grana e prostitutas baratas, e não para homens de negócios e suas secretárias.

— Sei lá. Vai ver que gosta de lugares vagabundos. Vai ver que ele gosta de pensar que a secretária é uma prostituta barata. Quem pode saber? Mas você não é Kirkaby, tenho certeza... eu conheço a voz dele. E ele não é tão jovem assim, e além do mais é um tonei de banha. Ele não conseguiria jamais me nocautear.

O rapaz ficou quieto por algum tempo, de pé, fitando Redlow. Aí começou a andar de um lado para outro. No escuro. Sem esbarrar nos móveis. Parecia um gato inquieto, só que seus olhos não brilhavam.

Por fim, ele parou.

— Então, senhor, isso é tudo que tem para me dizer? Que tudo não passou de um engano?

Redlow sabia que sua única chance de continuar vivo era convencer o rapaz daquela mentira... de que um sujeito chamado Kirkaby estava dando umas escapadas com a secretária e que a mulher dele precisava de provas para exigir o divórcio. Ele só não sabia que tom de voz usar para tornar a história mais convincente. Ao lidar com a maioria das pessoas, Redlow era dotado de uma intuição certeira sobre o modo correto de contar uma mentira e torná-la plausível. Mas aquele garoto era diferente. Ele não devia pensar e reagir como uma pessoa normal.

Redlow decidiu bancar o durão.

— Olhe aqui, seu porra, eu gostaria muito de saber mesmo quem é você ou de poder reconhecer sua cara, porque assim que a gente se encontrasse em outra situação você ia levar um corretivo.

O rapaz ficou calado algum tempo, digerindo aquilo tudo. Depois disse:

— OK, acredito no senhor.

Redlow sentiu um enorme alívio e relaxou os músculos do corpo; mas isto fez com que seus ferimentos voltassem a doer, e ele retesou-se novamente.

— É uma pena — continuou o rapaz —, mas o senhor não serve para

minha coleção.

— Coleção?

— Não há vida bastante no senhor.

— Do que diabo está falando?

— O senhor está acabado.

A conversa estava tomando um rumo que Redlow não conseguia entender, e isso o deixava pouco à vontade.

— Desculpe, não quero ofendê-lo, mas está ficando meio velho para

esse tipo de trabalho.

E por acaso eu não sei?, pensou Redlow. Ele percebeu que, a não ser por alguns instantes, logo ao recobrar os sentidos, em momento algum ele tinha procurado forçar as cordas que o prendiam. Poucos anos atrás, ele estaria forçando-as disfarçadamente, o tempo inteiro, tentando afrouxar seus nós. Agora, estava passivo.

— O senhor é um homem musculoso, mas engordou bastante. Traz uma arma consigo, mas seus reflexos são lentos. Pela sua licença de motorista, fiquei sabendo que tem cinqüenta e quatro anos. Por que continua nesse tipo de trabalho?

— É tudo que me resta—disse Redlow; e estava alerta o bastante para se surpreender com sua própria resposta. Sua intenção tinha sido a de dizer:

"É a única coisa que sei fazer."

— Oh, claro, dá para ver isso — disse o rapaz, inclinando-se sobre ele na escuridão. — O senhor se divorciou duas vezes, não tem filhos, e no momento não vive com ninguém. Provavelmente não vive com uma mulher há vários anos. Desculpe, mas andei remexendo nas suas coisas enquanto estava desacordado, mesmo sabendo que não era uma coisa correta. Sinto muito. Eu só queria conhecer o senhor melhor, saber o que foi que o meteu nesta história.

Redlow não respondeu, porque não tinha a menor idéia sobre o rumo que as coisas estavam tomando. Tinha medo de dar a resposta errada e acender o estopim do rapaz. Aquele filho da mãe era louco, tinha que ser louco. E ninguém sabe o que pode enfurecer um psicopata de um instante para outro. Pelo jeito, o rapaz tinha sido submetido a algum tipo de análise ao longo dos anos, e agora estava querendo ele próprio analisar Redlow, por motivos que talvez nem ele mesmo soubesse explicar. Talvez fosse melhor deixá-lo falar à vontade, descontrair.

— É por causa de dinheiro, Sr. Redlow?

— Está querendo saber se eu ganho dinheiro com isto?

— Foi o que perguntei, senhor.

— Ganho o bastante.

— Mas não guia um carro novo, nem se veste muito bem.

— Não estou a fim de aparecer — disse Redlow.

— Não quero lhe ofender, mas esta casa também não vale muita coisa.

— Talvez não, mas a hipoteca está paga.

O rapaz estava parado diante dele, quase a tocá-lo, e a cada pergunta se inclinava um pouco mais para a frente, como se pudesse ver seu rosto naquela escuridão total e estivesse examinando atentamente seus tiques faciais à medida que o interrogava. Estranho. Mesmo no escuro Redlow podia sentir o rapaz mais próximo, cada vez mais próximo.

Continuar: parte 3 de 4