Esconderijo
Quatro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O terror, que por alguns minutos chegara a dominá-lo por completo, acabou cedendo algum espaço à curiosidade. Hesitante, ele tocou a borda da pia de aço inoxidável, e depois a torneira metálica, como se temesse que elas se evaporassem ao contato dos seus dedos. Tentou entender como era possível que um sonho continuasse, mesmo depois da pessoa despertar. A única explicação (uma que ele se recusava a aceitar) era insanidade.
Abriu a torneira, ajustou os jatos de água quente e água fria, molhou as mãos no sabão líquido e começou a lavar as mãos, bem devagar, enquanto olhava através da janela sobre a pia, que dava para o pátio traseiro. Só que... tinha sumido. Em vez do pátio, Hatch avistou uma rodovia. O vidro da janela tinha se transformado num pára-brisa. O asfalto, envolto num denso nevoeiro e visível apenas devido aos fachos paralelos de dois faróis, deslizava velozmente em sua direção, como se a casa estivesse se movendo a quase cem quilômetros por hora. Hatch sentiu uma presença a seu lado, onde não deveria existir nada mais além do forno da cozinha. Girando a cabeça, ele viu a loura remexendo dentro da bolsa. Percebeu que ele próprio estava segurando algona mão direita, algo mais sólido do que a espuma do sabão, e ao abaixar os olhos viu o revólver...
.. .e a cozinha eclipsou-se por completo: ele estava ao volante de um carro em disparada, ao longo de uma rodovia coberta pelo nevoeiro, apertando o cano de um revólver de encontro às costelas daquela mulher loura. Cheio de horror, ele percebeu, no momento em que ela ergueu os olhos para fitá-lo, seu dedo apertando o gatilho uma vez, duas vezes. Ela foi arremessada para o lado pelo duplo impacto, enquanto o estrondo ensurdecedor dos tiros ressoava no interior do carro.
Vassago jamais poderia ter previsto o que aconteceu.
O revólver devia estar carregado com cartuchos extremamente poderosos, porque os dois tiros atravessaram o corpo de Lisa com mais violência do que ele tinha imaginado, arremessando-a de encontro à porta do carro. Fosse porque a porta não estava bem trancada ou porque um dos tiros a atravessou por completo e atingiu o trinco, mas o fato é que a porta se abriu com o impacto. Uma poderosa rajada de vento entrou no Pontiac, com o uivo de um animal ferido, e Lisa foi sugada para fora, perdendo-se na escuridão. Ele pisou no freio e ergueu os olhos para o retrovisor; o carro rabeou para um lado e para outro, enquanto ele vislumbrava o corpo da loura rolando no asfalto e sumindo lá atrás.
Pensou em parar e voltar de ré para recolher o cadáver, mas mesmo àquela hora da madrugada havia tráfego ao longo da rodovia. Ele avistou dois pares de faróis aproximando-se lá atrás, a menos de um quilômetro de distância, duas meras manchas de luz no nevoeiro, porém mais brilhantes a cada momento que passava. Aquele dois motoristas alcançariam o local onde Lisa tinha caído antes que ele pudesse recolhê-la.
Tirando o pé do freio, pisou no acelerador e jogou o carro para a esquerda, e depois numa guinada rápida para a direita, fazendo com que a porta aberta batesse e fechasse. Ela ficou trepidando de encontro à moldura, mas não voltou a se abrir; talvez o trinco continuasse parcialmente intacto.
A visibilidade tinha caído para no máximo trinta metros à frente, mas Vassago voltou a acelerar a cem quilômetros por hora, cruzando como uma bala os turbilhões de névoa. Dois retornos após, ele deixou a rodovia e diminuiu a marcha. Pegando as ruas laterais, se afastou daquela área tão depressa quando pôde, obedecendo aos limites de velocidade; qualquer policial que o detivesse não deixaria de notar o sangue espalhado pelo assento e pelo vidro da janela do carro.
Pelo retrovisor, Hatch viu o corpo da mulher rolando, desconjuntado, sobre o asfalto da rodovia, sumindo no nevoeiro. Então, por um breve instante, viu seu próprio reflexo, do nariz até a testa. Estava usando óculos escuros... ao volante de um carro, em plena noite. Não. Ele não estava usando aquilo. Era o motorista do carro que os usava; o reflexo daquele espelho mostrava um rosto diferente do seu. Embora tivesse a sensação de estar ao volante, ele percebeu que isso não era verdade, porque mesmo naquele rápido vislumbre viu que os olhos por trás das lentes escuras eram... estranhos... perturbados... e totalmente diferentes dos seus próprios olhos. E então...
...ele estava novamente diante da pia da cozinha, arquejante, e tendo espasmos, como se quisesse vomitar. Do lado de fora da janela, via-se apenas o pátio traseiro da casa, quase indistinto em meio ao nevoeiro e à escuridão da noite.
— Hatch?...
Assustado, ele virou-se.
Lindsey estava parada no umbral da porta, vestida num roupão de banho.
— Você está bem?...
Limpando as mãos ensaboadas no suéter, ele tentou responder, mas o terror havia paralisado sua voz. Ela correu na sua direção.
— Hatch!
Ele a abraçou com força e sentiu-se aliviado ao apertá-la de encontro a si, como se precisasse apenas daquilo para que as palavras finalmente pudessem escapar.
— Eu a matei! — arquejou. — Ela foi jogada para fora do carro, oh meu Deus do céu, e o corpo dela saiu rolando pelo asfalto, como... como uma boneca quebrada.
7
A pedido de Hateh, Lindsey preparou um bule de café. O aroma familiar serviu como um antídoto para a estranheza daquela noite. Mais do que qualquer outra coisa, o cheiro de café restabeleceu um senso de normalidade que acalmou os nervos de Hatch. Beberam o café sentados na mesa onde tomavam o desjejum, na extremidade da cozinha.
Hatch insistiu em baixar a persiana, cobrindo a janela que dava para o pátio traseiro.
— Tenho a impressão... de que tem alguma coisa lá fora. Não quero que
aquilo fique olhando para nós.
Ele não conseguiu explicar o que era "aquilo".
Após terminar de contar tudo que ocorrera desde que despertou do pesadelo — a loura, o canivete, o olho arrancado—Lindsey teve uma única explicação para aquilo tudo.
— Não importa o que você sentiu naquela hora — disse ela —, mas o fato é que não podia estar totalmente acordado quando levantou da cama. Foi um momento de sonambulismo. Você só acordou de fato quando entrei na cozinha e chamei seu nome.
— Eu nunca fui sonâmbulo — disse ele.
Ela tentou brincar.
— Nunca é tarde para arranjar problemas.
— Não, não me convence.
— Então, qual é sua explicação?
— Não tenho nenhuma.
— Então foi sonambulismo.
Ele fitou a xícara de porcelana que segurava com ambas as mãos, como se fosse uma cigana tentando ler o futuro nos reflexos da luz sobre a superfície escura do líquido.
— Você já sonhou que era outra pessoa?
— Acho que sim.
Ele a fitou.
— Não se trata de "achar". Você já viu um sonho através dos olhos de alguém totalmente estranho? Lembra de algum sonho específico, que possa me contar?
— Bem... não. Mas certamente deve ter acontecido, uma vez ou outra.
Só que não lembro. Os sonhos são como fumaça... eles se desfazem tão
depressa. Não se pode lembrar um sonho por muito tempo.
— Vou lembrar deste pelo resto da minha vida—disse Hatch.
Voltaram para a cama, mas nenhum dos dois conseguiu conciliar o sono novamente. Talvez fosse por causa do café, Lindsey pensou que ele teria pedido café justamente para afugentar o sono, fugir ao pesadelo. Se era assim, bem... tinha funcionado.
Estavam deitados de rosto para cima, fitando o teto. De início, Hatch não quis desligar a lâmpada da mesinha-de-cabeceira, embora essa relutância tivesse se revelado apenas na ligeira hesitação que teve ao apertar o interruptor. Ele parecia uma criança já grande o bastante para distinguir os medos verdadeiros dos medos imaginários, mas que ainda não aprendera a evitar estes últimos; uma criança que tem medo dos monstros que podem estar escondidos debaixo da cama, mas que tem vergonha de confessá-lo. Agora, com a luz apagada e apenas o brilho distante das lâmpadas da rua atravessando a fresta por entre as cortinas, a ansiedade dele tinha contaminado Lindsey. Ela começou a imaginar que algumas das sombras no teto se moviam, com formas de morcego, de lagarto, de aranha... sombras que pareciam cheias de ameaça e de intenções malévolas.
Ficaram conversando em voz baixa, durante longo tempo, sobre nada em especial. Ambos sabiam sobre o que precisavam conversar, mas tinham medo. Era algo diferente das sombras monstruosas do teto e das ameaças escondidas debaixo da cama; era um medo real. Lesão cerebral.
Desde o dia em que despertara no hospital após a ressurreição, Hatch vinha tendo pesadelos de uma nitidez inquietante. Não acontecia todas as noites. Acontecia de ele dormir um sono tranqüilo três ou quatro noites seguidas. Mas agora estavam se tornando mais freqüentes, a cada semana, e sua intensidade também aumentava cada vez mais.
Não era sempre o mesmo sonho, mas continha elementos semelhantes. Violência. Imagens horríveis de corpos nus, apodrecidos, contorcendo-se em posições estranhas. Os sonhos sempre se desenrolavam do ponto de vista de um homem estranho, sempre a mesma figura misteriosa; como se Hatch fosse um espírito que invadisse o seu corpo, mas fosse incapaz de controlar suas ações e se limitasse a acompanhá-lo. Em geral, os sonhos começavam ou acabavam — às vezes começavam e acabavam — no mesmo cenário: um conjunto de edifícios estranhos e outras construções que ele não conseguia identificar, todas às escuras e visíveis apenas como uma série de silhuetas recortadas contra o céu noturno. Ele também via salões cavernosos e labirintos de corredores de concreto que de alguma forma ele conseguia discernir, apesar da inexistência de janelas ou de iluminação artificial. Ao contar os sonhos a Lindsey, ele sempre admitia que aquele ambiente lhe era vagamente familiar, mas nunca conseguia reconhecê-lo por completo, até porque o que conseguia enxergar era muito pouco.
Até aquela noite, eles tinham tentado se convencer de que aquilo era um problema passageiro. Hatch estava cheio de pensamento positivo, como sempre. Pesadelos não eram um problema incomum. Todo mundo tem pesadelos. Na maioria das vezes são produzidos pelo estresse. Reduza o estresse, e os pesadelos desaparecerão.
Mas eles não desapareciam. E agora tinham tomado uma nova e inquietante feição: sonambulismo.
Ou talvez ele estivesse começando a sofrer alucinações, quando acordado, com as mesmas imagens que tinham perturbado seu sono.
Um pouco antes da aurora, Hatch estendeu a mão por baixo do lençol e segurou a de Lindsey, murmurando:
— Eu vou ficar bom. Não foi nada. Foi só um sonho.
—- A primeira coisa que você vai fazer de manhã é ligar para Nyebern
— disse ela, sentindo o coração afundar como uma pedra numa poça dágua.
— Ele pediu para que o avisássemos se aparecesse qualquer sintoma de...
— Ora, isto não é sintoma de nada — disse Hatch, tentando manter um
tom jovial na voz.
— Sintomas físicos ou mentais — disse ela. Temia por ele... e por ela própria, caso houvesse algo de errado com o marido.
— Fiz todos os testes, a maioria mais de duas vezes. O resultado foi perfeito. Não tenho lesão cerebral.
— Se é assim, não tem com que se preocupar, não é mesmo? Não tem motivo para não ligar para Nyebern.
— Se houvesse alguma lesão cerebral, ela teria se manifestado desde logo — disse ele. — Lesões assim não são uma coisa residual, que só se manifesta depois de algum tempo.
Ficaram calados por um instante.
Ela não conseguia mais imaginar que criaturas ameaçadoras rastejavam ao longo das sombras no teto. Os medos imaginários tinham se evaporado no momento em que ela dissera em voz alta o nome do perigo real que teriam de enfrentar.
— E Regina? — disse ela, passado algum tempo.
Ele avaliou a questão por segundos.
— Acho que podemos levar a coisa adiante — disse por fim. —
Preencher a papelada, e tudo o mais... supondo que ela queira viver conosco, é claro.
— E... e se você tiver algum problema? Se isso aí piorar?
— Vai demorar alguns dias até que possamos deixar tudo pronto e trazê-la para casa. A essa altura, já teremos o resultado dos exames médicos e tudo o mais. Tenho certeza de que vai dar tudo certo.
— Você parece muito descontraído.
— Claro. Estresse mata.
— E se Nyebern disser que alguma coisa está errada...
— Se for realmente necessário, pedimos um adiamento ao pessoal do orfanato. A questão é: se eu disser a eles amanhã que estou tendo algum tipo de problema e não posso assinar os papéis de imediato, podem começar a mudar de idéia a nosso respeito. Podem acabar nos rejeitando, e não teremos outra chance com Regina.
Aquele tinha sido um dia perfeito, desde a reunião no escritório de Sal vatore Gujilio até a hora em que tinham feito amor diante da lareira, e depois na sua enorme cama de casal chinesa. O futuro parecera tão radiante, e os dias piores pareciam definitivamente perdidos no passado. Lindsey estava perplexa em ver como eles eram subitamente forçados a enfrentar uma nova crise.
— Oh, meu Deus... — disse ela. — Hatch, eu te amo tanto.
Dentro da escuridão, ele deslizou para junto dela e tomou-a nos braços. Durante muito tempo, mesmo depois do raiar do dia, os dois ficaram abraçados, sem dizer nada, porque tudo já havia sido dito.
Mais tarde, após tomarem um banho de chuveiro e se vestirem, os dois desceram para a cozinha e tomaram o café da manhã. Costumavam ouvir rádio todos os dias, durante o desjejum, uma estação só de notícias. Foi justamente ali que ouviram a respeito de Lisa Blaine, a mulher loura assassinada com dois tiros e atirada para fora de um carro em movimento na rodovia de San Diego, na noite anterior — exatamente na mesma hora em que Hatch, de pé naquela mesma cozinha, teve a visão do gatilho sendo puxado duas vezes e o corpo rolando pelo asfalto enquanto o carro se afastava.
8
Por motivos que não conseguia entender, Hatch se sentiu forçado a ver o trecho da rodovia onde a mulher tinha sido encontrada morta,
— Talvez me dê algum palpite — foi a única maneira como pôde explicar.
Sentou-se ao volante do seu novo Mitsubishi vermelho e partiram na direção norte pela rodovia da orla marítima. Depois rumaram para oeste, até o South Coast Plaza Shopping Mall, onde entraram na rodovia de San Diego rumo ao sul. Hatch queria chegar ao local do crime vindo na mesma direção seguida pelo assassino da noite anterior.
Por volta das 9:15, o rush já tinha decrescido consideravelmente, mas na maioria das pistas ainda havia retenções. Avançaram num ritmo irregular na direção do sul, no meio de uma nuvem de poluição causada pelos canos de descarga, da qual o ar-condicionado do carro felizmente os poupava.
O nevoeiro marinho que dominara a orla durante a noite anterior já tinha se dissipado. As árvores se agitavam suavemente na brisa da primavera, e os pássaros descreviam vertiginosas trajetórias em arco de encontro ao céu sem nuvens, intensamente azul. Não parecia de modo algum um dia em que alguém pudesse estar com o pensamento voltado para a morte.
Passaram a saída para o MacArthur Boulevar, depois o Jamboree, e a cada giro dos pneus Hatch sentia os músculos do pescoço e ombros ficarem mais tensos. Estava possuído pela estranha sensação de que de fato percorrera aquele mesmo caminho na noite passada, quando o fog tinha impedido a visão do aeroporto, dos hotéis, dos edifícios de escritórios e das colinas marrons à distância... embora na verdade tivesse passado a noite em casa.
— Eles estavam indo para El Toro — disse ele; era um detalhe que não tinha lembrado até aquela altura. Ou talvez tivesse percebido somente agora, devido a alguma espécie de sexto sentido.
— Talvez ela morasse lá... ou ele.
Franzindo a testa, Hatch respondeu:
— Não... não acho.
Enquanto avançavam devagar ao longo das pistas congestionadas, ele começou a recordar não apenas os detalhes do sonho, mas a sensação, aquela atmosfera cortante de violência prestes a explodir.
Suas mãos deslizaram no volante: estavam úmidas, Ele as secou de encontro à camisa.
— Acho que de certo modo... — disse — ...ela era tão perigosa quanto
ele. A loura.
— O que quer dizer?
— Não sei. Foi a sensação que tive na hora.
Os raios do sol se refletiam nas filas intermináveis de veículos que fluíam rumo norte e rumo sul em dois rios intermináveis feitos de aço, cromo e vidro. Do lado de fora, a temperatura andava na casa dos trinta graus, mas Hatch estava gelado.
Surgiu uma placa anunciando que a próxima saída seria a do Culver Boulevard, e Hatch inclinou-se ligeiramente mais para a frente. Segurando o volante com a mão esquerda, enfiou a direita embaixo do assento.
— Foi aqui que ele pegou a arma... retirou-a... a mulher estava procurando alguma coisa na bolsa...
Ele não teria Ficado surpreso se de fato encontrasse uma arma embaixo do assento de seu próprio carro, tão nítida era sua lembrança da maneira fluida como sonho e realidade tinham se misturado, se separado e misturado outra vez ao longo da noite anterior. E por que não agora, mesmo à luz do dia? Deu um suspiro de alívio quando constatou que o espaço embaixo do seu banco estava vazio.
— A polícia — disse Lindsey.
Hatch estivera tão mergulhado na lembrança dos acontecimentos do seu pesadelo que não entendeu de imediato o que a mulher tinha dito. Então avistou as viaturas da polícia paradas do lado da rodovia.
Havia alguns policiais curvados para a frente, examinando atentamente o asfalto e o mato rasteiro ao longo do acostamento. Era evidente que estavam ampliando as buscas, tentando descobrir algum outro indício, algo que pudesse ter caído do carro do assassino juntamente com 0 cadáver da loura, antes dele ou depois.
Hatch notou que todos os policiais usavam óculos escuros, tal como ele e Lindsey. O sol estava extremamente intenso naquela manhã.
Mas o assassino também usara óculos escuros, quando olhou no espelho retrovisor. Por que estaria usando aqueles óculos numa noite de nevoeiro tão espesso, por Deus do céu?
Óculos escuros à noite, numa noite de fog, era algo mais do que afetação ou excentricidade. Era algo... anormal.
Hatch ainda se sentia como se segurasse na mão direita uma arma imaginária, retirada de sob o assento. Mas como estavam se movendo muito mais lentamente do que o carro da noite anterior, ainda não haviam atingido o ponto onde a arma tinha sido disparada.
O tráfego àquela altura estava pára-choques com pára-choques, não porque aquela hora do rush estivesse mais congestionada do que de hábito, mas porque os motoristas diminuíam a marcha para observar o trabalho da polícia. Era o que os repórteres de rádio chamavam de "engarrafamento de curiosos".
— Ele ia pisando fundo — disse Hatch.
— Numa noite de nevoeiro.
— E de óculos escuros.
— Idiota — disse Lindsey.
— Não, não. Esse cara é esperto.
— Pois a mim parece um idiota.
— Ele não sente medo. — Hatch tentou mais uma vez colocar-se de novo na pele do homem cujo corpo tinha habitado durante o pesadelo. Não era fácil. Havia alguma coisa naquele criminoso que lhe parecia totalmente não-humana e resistia teimosamente a uma análise. — É um sujeito frio...dentro dele tudo é muito frio, e escuro. Ele não pensa como eu ou você. —Hatch lutou para encontrar palavras adequadas para descrever a sensação que lhe produzia a mente do assassino. — Sujo. — Balançou a cabeça. — Não estou querendo dizer que ele não toma banho ou coisa desse tipo. E como se... como se ele estivesse contaminado. — Deu um suspiro e desistiu.—De qualquer modo, é um sujeito totalmente sem medo. Nada pode atemorizá-lo.
Ele acredita que nada no mundo pode fazer-lhe mal. Mas no caso dele não se trata de imprudência, porque... porque de certo modo ele tem razão.
— O que quer dizer com isso? Que ele é invulnerável?
— Não. Não exatamente. Mas nada que se possa fazer tem importância para ele.
Lindsey cruzou os braços sobre o peito, aconchegando-se.
— Você faz com que ele pareça... não-humano.
Naquele momento, a busca policial se concentrava no trecho de cerca de quatrocentos metros ao sul da saída para o Culver Boulevard. Quando Hatch ultrapassou aquele ponto, o trânsito começou a fluir mais rapidamente.
A arma imaginária em sua mão direita parecia assumir consistência real a cada momento. Ele quase podia sentir o frio do aço de encontro à palma da mão.
Quando apontou o revólver fantasma para Lindsey e olhou para ela, ela fez uma careta de desagrado. Ele a viu com clareza, mas ao mesmo tempo podia ver, na memória, o rosto da loura no momento em que ela ergueu os olhos da bolsa, sem tempo sequer para esboçar uma reação de surpresa.
— Aqui. Foi justamente aqui. Dois tiros, tão depressa quanto...quanto consegui puxar o gatilho. — Hatch estava tremendo, porque a sensação de violência era mais fácil de captar do que a impressão maligna causada pelo criminoso. — Fez dois buracos enormes no corpo dela. — Ele podia ver tudo com uma clareza aterradora.—Meu Deus, foi horrível.—Estava totalmente mergulhado na cena.—O modo como a carne dela se abriu. E o som... parecia um trovão, parecia o fim do mundo. — O gosto amargo de ácido estomacal subiu até sua garganta. — Ela foi jogada para o lado, com o impacto... de encontro à porta. Morreu na hora, mas a porta se abriu. Ele não imaginava que a porta fosse se abrir. Ele queria a mulher para si, queria levá-la para fazer parte de sua coleção; mas num instante ela sumiu, desapareceu na noite, rolando no asfalto como se fosse uma coisa.
Arrebatado pela recordação do pesadelo, ele enfiou o pé no freio do mesmo modo como o assassino tinha feito.
Um carro, depois outro, depois um terceiro os ultrapassaram de ambos os lados, rabeando, com os pneus cantando no asfalto; passaram como relâmpagos de metal cromado e de vidro refletindo a luz do sol, enquanto os motoristas buzinavam com alarde, mal evitando a colisão.
Sacudindo os ombros como se quisesse se livrar daquela lembrança, Hatch acelerou outra vez, emparelhando com o fluxo do tráfego. Percebeu que as pessoas dos outros carros olhavam na sua direção.
Não se incomodou com essa curiosidade, porque agora, como se fosse um cão de caça, tinha por fim seguido a pista certa. Não que fosse exatamente uma pista olfativa que estivesse seguindo. Era algo indefinível que o atraía para a frente, talvez vibrações psíquicas, uma perturbação no éter produzida pela passagem do assassino assim como a barbatana de um tubarão corta a superfície do mar, só que o éter não tinha voltado a se fechar sobre si mesmo com a mesma presteza da água.
— Ele pensou em voltar para recolher o corpo — disse Hatch. — Mas viu que não ia adiantar, de modo que seguiu em frente. — Percebeu que sua voz soava baixa e áspera, como se estivesse contando em voz alta segredos dolorosos demais para serem revelados.
— Então — disse Lindsey — eu entrei na cozinha, e você estava lá, emitindo sons como se estivesse sufocando. E segurando a borda da pia, como se fosse arrebentá-la. Pensei que estava tendo um ataque do coração...
— Ele ia a toda velocidade — continuou Hatch, acelerando um pouco mais. — Cem, cento e vinte, mais ainda, querendo afastar-se dali antes que os carros que vinham atrás avistassem o corpo.
Lindsey percebeu que ele não estava simplesmente especulando sobre o que o criminoso tinha feito.
— Você está lembrando mais do que havia no sonho — disse. — Já passamos do ponto onde entrei na cozinha e o acordei.
— Não estou lembrando — disse ele com voz rouca.
— Então, o que é?
— Estou sentindo.
— Agora?
— Sim.
— Como?
— Não sei. De algum modo. — Ele não conseguia explicar melhor do que isto. — De algum modo — repetiu, os olhos fitando a faixa de asfalto estendida sobre aquela imensa área, e que parecia mais escura a cada instante, como se o assassino projetasse uma sombra maior do que ele próprio, uma sombra que permanecia no local horas depois de ele próprio ter passado por ali. — Cem... cento e vinte... quase cento e trinta por hora, e conseguindo enxergar no máximo trinta metros adiante. — Se houvesse tráfego mais intenso àquela hora, o assassino poderia ter provocado uma colisão de proporções aterradoras. — Ele não pegou a primeira saída da rodovia, ele queria ir mais longe ainda... foi em frente, em frente...
Quase não conseguiu reduzir a velocidade a tempo de pegar a saída para a estrada estadual 133, que se transformava na estrada do canyon rumo a Laguna Beach. No derradeiro momento ele pisou no freio e jogou o volante para o lado direito; o Mitsubishi derrapou um pouco quando entraram na estadual, mas Hatch logo reduziu a velocidade e recuperou controle total sobre o carro.
— Foi aqui que ele saiu? — disse Lindsey.
— Sim.
Hatch pegou a nova estrada que havia do lado direito.
— Ele foi para Laguna?
— Eu... não sei. Acho que não.
Ele parou num cruzamento marcado por um sinal de PARE. Pôs o carro no acostamento. A sua frente estendia-se o campo aberto, com as colinas recobertas por vegetação irregular. Se ele seguisse em frente no cruzamento, estaria rumando para Laguna Canyon, onde os projetos imobiliários ainda não tinham conseguido lotear os terrenos e construir seus conjuntos habitacionais. Quilômetros de matagal e de árvores esparsas ladeavam a estrada do canyon até Laguna Beach. Mas o criminoso também poderia ter virado para a direita ou para a esquerda. Hatch olhou em todas as direções, procurando... procurando os sinais invisíveis que o haviam guiado até ali.
Depois de um momento, Lindsey perguntou:
— Não sabe para onde ele foi depois daqui?
— O Esconderijo.
— Hã?
Hatch piscou os olhos, sem saber por que escolhera justamente aquela palavra.
— Ele voltou para seu esconderijo... debaixo da terra.
— Debaixo da terra? — Com olhos perplexos, Lindsey esquadrinhou a paisagem em redor.
— ...na escuridão.
— Você quer dizer que ele foi para um lugar subterrâneo?
— ..frio... e silencioso...
Hatch permaneceu sentado, os olhos fitos naquela encruzilhada, enquanto outros carros passavam nesta ou naquela direção. Tinha chegado ao fim da trilha. O assassino não estava ali; isso ele sabia, mas não fazia idéia de para onde o outro podia ter seguido. Não estava captando mais nada — exceto, que coisa esquisita, o gosto de chocolate de biscoitos Oreo, tão intenso como se ele tivesse acabado de morder um.
9
Em Laguna Beach, sentados à mesa do The Cottage, eles fizeram um lanche que serviu como desjejum reforçado: batatas fritas, ovos, bacon e torradas com manteiga. Desde sua morte e ressurreição, Hatch deixara de se preocupar com coisas como seu nível de colesterol ou os possíveis efeitos a longo prazo da inalação de fumaça de cigarro no ambiente. Ele imaginou que chegaria o dia em que esses pequenos perigos voltariam a parecer grandes, e ele iria novamente se preocupar em manter uma dieta rica em frutas e legumes, reclamar dos fumantes que soltavam baforadas em sua direção e abrir uma garrafa de vinho com aquela mistura de deleite e de preocupação quanto às conseqüências negativas do uso do álcool. Naquele momento, entretanto, ele estava aproveitando a vida, sem se preocupar muito com a perspectiva de voltar a perdê-la — e esse era um dos motivos pelos quais ele estava tão determinado a não permitir que os pesadelos e a morte daquela loura desconhecida pudessem jogá-lo de novo na depressão.
A comida tinha sobre ele um efeito tranqüilizante. Cada bocado de ovo mexido servia para acalmar ainda mais seus nervos.
— Muito bem — disse Lindsey, que encarava seu prato com muito menos disposição do que o marido. — Mas vamos supor que houve alguma lesão cerebral, afinal de contas, mas muito pequena. Tão insignificante que não foi acusada pelos testes. Nada sério a ponto de provocar paralisia ou problemas com a fala, coisas desse tipo. Na verdade, por um incrível golpe de sorte, por uma chance tipo uma em um bilhão, essa lesão teve um efeito estranho e, em última análise, benéfico. Ela provocou algumas novas conexões em seu tecido cerebral ou coisa que o valha... e você tornou-se paranormal.
— Bobagem.
— Porquê?
— Eu não sou paranormal.
— E que nome você dá a isso?
— E mesmo que fosse "paranormalidade", eu não diria que é algo benéfico.
Como já passava bastante da hora habitual do desjejum, o restaurante não estava muito cheio. As mesas mais próximas deles estavam vazias, e eles podiam discutir os acontecimentos daquela manhã sem o temor de que alguém pudesse escutar a conversa; ainda assim, Hatch de vez em quando relanceava um olhar desconfiado em redor.
Nos dias imediatamente após sua ressurreição, o hospital tinha fervilhado de jornalistas, e após receber alta os repórteres tinham praticamente montado um acampamento diante de sua casa. Afinal de contas, ele tinha passado mais tempo morto do que qualquer outra pessoa, o que lhe garantia muito mais do que os quinze minutos de fama que Andy Warhol preconizara para as pessoas do futuro, numa América obcecada pelo conceito de celebridade. Mas ele nada fizera para merecer essa fama. Ele não a desejava. Não tinha lutado contra a morte até vencê-la, e sim Lindsey, Nyebern e a equipe de ressurreição. Ele era um indivíduo amante da privacidade e se dava por satisfeito em ter o respeito tranqüilo dos negociantes de antigüidades que constituíam seu universo profissional. Na verdade, se a única pessoa a respeitá-lo fosse Lindsey, se ele fosse famoso apenas aos olhos dela, e pelo fato de ser um bom marido, isso seria o bastante. Assim, recusou-se terminantemente a falar com a imprensa, até convencer a todos de que o melhor a fazer seria deixá-lo em paz e ir à procura de algum bode de duas cabeças — ou equivalente — que lhe garantisse as manchetes nos jornais ou uma notícia entre dois intervalos comerciais para vender desodorante.
Agora, se ele revelasse a alguém que tinha ressuscitado com algum tipo de estranho poder que o punha em contato com a mente de um assassino psicopata... enxames de jornalistas iriam chover novamente sobre ele. E isso era uma perspectiva intolerável. Seria mais fácil enfrentar uma praga de abelhas africanas, ou uma procissão de Hare Krishnas, balançando sininhos à sua porta e com os olhos opacos de tanta transcendência espiritual.
— Se não for alguma função paranormal — insistiu Lindsey —, então que pode ser?
— Não sei.
— Isso não é resposta.
— Talvez passe. Talvez nunca mais aconteça de novo, Pode ser uma casualidade.
— Você não acredita nisso.
— Bem... pretendo acreditar.
— Temos que enfrentar isso, Hatch.
— Porquê?
— Para entender o que está havendo.
— Porquê?
— Não fique perguntando "por quê?" como uma criança de cinco anos.
— Porquê?
— Hatch, estou falando sério. Uma mulher foi assassinada. Talvez ela não seja a primeira Talvez não seja a última.
Hatch pousou o garfo sobre o prato quase vazio e bebeu um generoso gole de suco de laranja para ajudar as batatas fritas a descer.
— Tudo bem — disse ele, pousando o copo na mesa. — É uma espécie de visão paranormal, do mesmo jeito que aparece nos filmes. Mas também é mais do que isso. É algo que dá arrepios.
Ele fechou os olhos, tentando encontrar um termo de comparação. Quando a idéia finalmente lhe ocorreu, abriu os olhos de novo e olhou em redor, para ter certeza de que as mesas próximas ainda não tinham sido ocupadas.
Voltou a fitar o prato: havia ainda um resto de ovos mexidos, mas já estavam frios. Ele suspirou.
— Muito bem — disse. — Sabe aqueles casos de gêmeos idênticos, separados logo após o nascimento e criados por duas famílias totalmente diversas, a milhares de quilômetros de distância? E que, apesar disso, acabam levando vidas praticamente iguais?
— Já ouvi falar. E daí?
— Mesmo criados à distância, em ambientes totalmente distintos, eles acabam seguindo carreiras profissionais semelhantes, atingem o mesmo nível de renda, casam-se com mulheres parecidas, chegam até a dar os mesmos nomes aos seus filhos. É uma coisa incrível. E mesmo quando eles não sabem que têm um irmão gêmeo, mesmo que cada um deles pense que era filho único quando foi adotado, eles percebem a presença um do outro a quilômetros de distância, embora não saibam o quê ou quem estão sentindo.
Existe uma ligação entre eles que ninguém consegue explicar, nem mesmo os geneticistas.
— E o que tem isso a ver com você?
Ele hesitou, enquanto voltava a pegar no garfo. Preferiria recomeçar a comer, em vez de falar naquele assunto. Comer era mais tranqüilo. Mas Lindsey não ia deixar que ele escapasse com tanta facilidade. Os ovos mexidos estavam gelados àquela altura. Não iam mais servir de tranqüilizantes. Ele pousou o garfo outra vez.
— Às vezes—disse —, eu vejo através dos olhos desse sujeito, quando estou dormindo, e ultimamente isso tem acontecido até quando estou desperto. E é, sim, como essas visões paranormais que aparecem nos filmes classe Mas ao mesmo tempo também sinto essa... essa ligação, que não consigo
explicar ou descrever, não importa o quanto você insista.
— Está querendo dizer que ele pode ser seu irmão gêmeo, algo assim?
— Não, de modo algum. Acho que ele é bem mais novo do que eu... deve ter vinte, vinte e um anos. E não há nenhum laço consanguíneo. O que existe é uma espécie de vínculo, como essa coisa mística dos irmãos gêmeos, como se eu e esse cara partilhássemos alguma coisa, como se tivéssemos algo profundo em comum.
— Como o quê?
— Não sei. Gostaria de saber. — Hatch fez uma pausa e resolveu dizer a verdade por inteiro. — Ou, para ser sincero... preferiria não saber.
Mais tarde, depois que a garçonete retirou os pratos e lhes trouxe café preto bem forte, Hatch disse:
— Não existe a menor possibilidade de que eu procure a polícia e me ofereça para ajudar em alguma coisa... se é isso que você está pensando.
— É uma questão de consciência, e...
— E, de qualquer modo, não sei de nada que possa ajudá-los.
Lindsey soprou a xícara fumegante.
— Você sabe que ele estava guiando um Pontiac.
— Não sei nem sequer se pertencia a ele.
— E a quem poderia pertencer?
— Podia ser roubado.
— Você "sentiu" isso também?
— Sim. Mas não sei qual é a aparência dele, nem seu nome ou onde mora, nada que possa ser útil.
— E se mais tarde você chegar a perceber algum desses detalhes? Se ficar sabendo de algo que possa ajudar a polícia?
— Posso dar um telefonema anônimo.
— Eles levariam essa informação mais a sério se você fosse lá pessoalmente.
Hatch sentia-se agredido pela intrusão daquele psicopata desconhecido em sua vida. Essa invasão o deixava irritado, e ele temia mais a própria raiva do que o homem desconhecido, ou o lado sobrenatural da situação, ou mesmo a perspectiva de uma lesão cerebral. Ele temia ser arrastado até uma situação-limite e acabar descobrindo que o temperamento brutal de seu pai tinha passado para ele e estava ali, adormecido, esperando apenas um estímulo para se revelar.
— É um caso de homicídio — disse finalmente. — Eles levam a sério qualquer tipo de denúncia, mesmo anônima. Não vou deixar que ponham meu nome nas manchetes de jornal outra vez.
Do restaurante, eles cruzaram a cidade na direção da Harrison Antiguidades, onde Lindsey tinha um estúdio no andar de cima, além do que mantinha em casa. Quando ela estava pintando, mudanças de ambiente de vez em quando ajudavam a inspiração.
Durante o trajeto, o oceano banhado pela luz do sol era visível por entre alguns dos edifícios à sua direita. Enquanto Hatch guiava, Lindsey insistiu no mesmo ponto que vinham discutindo durante a refeição; ela sabia que o único defeito sério da personalidade de Hatch era uma certa tendência a deixar que as coisas se resolvessem por si mesmas. A morte de Jimmy tinha sido a única coisa negativa, em toda a vida, que ele não tinha sido capaz de racionalizar, minimizar e pôr de lado, E mesmo nesse caso ele procurara reprimir a dor, em vez de enfrentá-la — e por isso mesmo a dor tinha tido a chance de crescer. Se ela desse tempo a Hatch, e não seria preciso muito, ele começaria a descartar a importância do que havia acabado de acontecer-lhe.
— Você precisa ver Nyebern, mesmo assim — disse ela.
— É, parece que sim.
— Parece, não. Com certeza.
— Se houve alguma lesão cerebral, e se isso é a origem dessa minha... paranormalidade, você mesma disse que é uma lesão benigna.
— Pode ser degenerativa, ir piorando.
— Não creio — disse ele. — Tirando isso, sinto-me ótimo.
— Você não é médico.
— OK — disse ele, parando no sinal vermelho diante da passarela que conduzia à praia.—Vou ligar para ele. Mas temos uma reunião marcada com Gujilio para hoje à tarde.
— Se Nyebern não estiver muito ocupado, você pode ser atendido independentemente de horário.
O pai de Hatch tinha sido um homem tirânico, de temperamento brutal e língua ferina, que maltratava a mulher e impunha disciplina ao filho através da aplicação de doses regulares de zombaria grosseira, sarcasmo corrosivo ou de simples ameaças. Sua ira podia ser deflagrada pelo menor estímulo ou mesmo por estímulo nenhum, porque ele no fundo gostava de sentir-se enraivecido e vivia procurando pretextos para tal. Ele acreditava que seu destino era o de nunca ser feliz — e procurava confirmar isso tornando miserável a vida das pessoas que o cercavam.
Hatch temia ter herdado esse temperamento mau, quase homicida; por isso, ou talvez pelo simples fato de já ter tido problemas demais na vida, ele se condicionara deliberadamente a ser tão descontraído quanto seu pai era tenso, tão tolerante quanto seu pai era de mentalidade estreita, tão generoso quanto seu pai era ressentido, tão determinado a absorver os golpes da vida quanto seu pai era disposto a devolver todos os golpes, inclusive os imaginários. Em vista disso, ele era o homem mais gentil que Lindsey já conhecera, anos-luz à frente de todos ou como quer que isso pudesse ser medido — jardas, braças, pedaços. Às vezes, no entanto, Hatch costumava fechar os olhos a coisas desagradáveis que precisavam ser enfrentadas, por não querer correr o risco de despertar alguma emoção negativa que pudesse ser semelhante à raiva e à paranóia que ele testemunhara no pai.
O sinal passou de vermelho para verde, mas três moças iam atravessando a rua na direção da areia, carregando seus apetrechos de praia. Hatch não se limitou a esperar que elas atravessassem: acompanhou-as com um sorriso apreciativo, observando o modo como elas preenchiam seus biquínis.
— Retiro o que disse — falou Lindsey.
— O quê?
— Eu estava pensando em como você é um homem gentil, gentil até demais, mas evidentemente você é também um crápula repulsivo.
— Oh, o que é isso? Um crápula até simpático.
— Bem, vou ligar para Nyebern assim que chegarmos na loja.
Hatch conduziu o carro na encosta que subia a colina, até a parte principal da cidade, depois do velho Laguna Hotel.
— OK—disse ele.—Mas eu com certeza não vou dizer a ele que estou virando paranormal de uma hora para outra. Nyebern é um bom sujeito, mas ele não é capaz de ouvir isso e ficar quieto. Quando eu menos esperar, minha foto vai estar na capa do National Enquirer. Além do mais, não sou paranormal ou pelo menos não o sou totalmente. Na verdade, não sei o que que eu sou... além de um crápula repulsivo.
. — E o que você vai dizer-lhe?
— Vou contar-lhe alguma coisa sobre os sonhos, o bastante para ele perceber como são perturbadores e me mandar fazer todos os testes necessários. Isso é o suficiente?
— Espero que sim.
Na escuridão sepulcral do esconderijo, Vassago dormia nu, enrascado sobre si mesmo, no colchão manchado e cheio de protuberâncias. E via a luz do sol, a areia, a praia, e três garotas de biquíni que passavam à sua frente, vistas através do pára-brisa de um automóvel vermelho.
Estava sonhando e sabia que estava sonhando, o que era uma sensação estranha. Ele deixou-se levar por ela.
Viu ao mesmo tempo a mulher. Olhos escuros, cabelos escuros; a mesma mulher com quem tinha sonhado no dia anterior, quando ela estava sentada ao volante daquele mesmo carro. Ela havia aparecido em outros sonhos, e numa das vezes estava sentada numa cadeira de rodas, rindo e chorando ao mesmo tempo.
Ele a achou mais atraente do que as garotas em seus biquínis minúsculos, porque ela possuía uma vitalidade fora do comum. Era radiante. Através dos olhos daquele homem desconhecido que guiava o carro, Vassago sentia que aquela mulher já se sentira a pique de aceitar a morte, que tinha hesitado às bordas da autodestruição, fosse pela ação ou pelo simples fato de deixar-se levar...
...água; ele sentiu a presença de um espaço invadido pela água, gelada e sufocante, sentiu-se escapando por um fio...
...mas ela recusara a sepultura, e depois daquilo tinha se sentido mais cheia de vida do que nunca, mais energética, mais radiante. Ela havia enganado a morte. Renegado o demônio. Vassago a odiou por isso, porque era a serviço da morte que ele encontrara um sentido para a própria existência.
Tentou estender a mão e tocá-la, usando o corpo do homem que dirigia o carro. Mas falhou. Era apenas um sonho. Sonhos não podem ser controlados. Se tivesse podido tocá-la, faria com que ela se arrependesse de ter recusado aquela morte por afogamento, uma morte tão tranqüila.