Esconderijo

Dean R. Koontz · Capítulo 5 de 8 · parte 4/4

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Esconderijo

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Desejou que Hatch estivesse ali, para poder dividir com ele aquela irritação: Hatch tinha sobre ela um efeito calmante superior ao de uma dose de uísque.

Sua caminhada inquieta acabou por conduzi-la à janela, onde a gorda aranha negra tinha acabado de construir uma elaboradíssima teia no ângulo superior direito. Lembrando sua intenção anterior de apanhar um vidro vazio na despensa, Lindsey tomou da lente de aumento e examinou de perto a filigrana sedosa tecida pela criatura de oito pernas, e que parecia uma minúscula rede de pescador, cintilando com uma iridescência de madrepérola. Era uma armadilha tão delicada, tão atraente. Mas aquele tear vivo que a tecera era o mais típico dos predadores: com uma força desproporcional para seu tamanho, suave, e veloz. Seu corpo bulboso brilhava como uma gota de um sangue negro e espesso, e suas mandíbulas incansáveis mastigavam o ar, como que saboreando por antecipação uma presa que ainda não aparecera. A aranha e Steven Honell eram seres da mesma espécie: uma espécie totalmente estranha para ela e que permaneceria sempre além do seu entendimento, por mais que a observasse. Ambos teciam suas teias no silêncio e na solidão. Ambos tinham invadido aquela casa à sua revelia, trazendo sua carga maligna — um através das palavras de uma revista, o outro passando por uma rachadura numa janela ou na fresta sob a porta. Ambos eram venenosos, repugnantes.

Ela pousou a lente de aumento. Não podia fazer nada contra Honell, mas pelo menos podia dar um jeito naquela aranha. Apanhou dois lenços de papel numa caixinha no armário, e com um rápido movimento colheu e esmagou a aranha e a teia ao mesmo tempo.

Amarrotou aquela pequena bola e a atirou na lata de lixo. Embora ela sempre procurasse capturar as aranhas e livrar-se delas fora de casa, desta vez não lamentou o que fizera. Na verdade, se Honell estivesse presente naquele instante, quando aquela agressão mal-intencionada ainda estava tão vivida na memória de Lindsey, ela teria a tentação de dispensar-lhe um tratamento tão rápido e violento quanto o que dedicara ao animal.

Retornou ao seu banquinho, olhou mais uma vez a pintura inacabada, e de repente teve certeza de quais os melhoramentos que ela precisava. Abriu alguns tubos de tinta e espalhou ordenadamente seus pincéis. Aquela não era a primeira vez que ela conseguia extrair motivação de um golpe injusto ou de uma mágoa pueril, e ela imaginava quantos artistas de todos os tipos também não teriam produzido suas obras pela mera determinação de esfregar o resultado na cara de detratores que tinham tentado prejudicá-los ou menosprezar seu talento.

Quando já fazia uns dez ou quinze minutos que estava trabalhando no quadro, Lindsey foi acometida por um pensamento inquietante, que trouxe de volta à sua mente as preocupações em que se debatia antes de ser distraída pelo artigo da Arts American, Honell e a aranha não eram as únicas criaturas que tinham invadido sua casa sem ser convidadas. O desconhecido assassino de óculos escuros também a invadira, de certa forma, através do misterioso contato que mantinha com Hatch. E se ele tivesse consciência da presença de Hatch, assim como Hatch tinha da presença dele? Ele poderia descobrir alguma maneira de localizar Hatch e invadir de verdade a casa deles, com a intenção de fazer-lhes um mal muito maior do que poderiam temer da parte de Honell ou daquela aranha.

5

Até então, Hatch tinha visitado Jonas Nyebern em seu consultório no Hospital Geral do condado de Orange, mas naquela terça-feira sua consulta estava marcada para o centro médico de Jamboree Road, onde o médico mantinha seu consultório particular.

A sala de espera chamava a atenção, não pelo espesso carpete cinza ou pela mobília, que era em estilo padrão, mas pelas obras de arte nas paredes. 242

Hatch ficou admirado e surpreendido ao se deparar com uma coleção de excelentes quadros a óleo, todos bastante antigos, reproduzindo cenas religiosas ligadas à fé católica: a paixão de São Judas, a Crucificação, a Virgem Maria, a Anunciação, a Ressurreição, e várias outras.

O mais interessante de tudo não era o fato de que aquela coleção devia valer uma fortuna. Afinal, Nyebern era um cirurgião cardiovascular extremamente bem-sucedido e vinha de uma família de recursos financeiros bem acima da média. Mas era curioso que um membro da classe médica, uma classe que vinha tomando posições públicas francamente agnósticas nas últimas décadas, escolhesse algum tipo de arte religiosa para decorar suas paredes, ainda por cima obras tão especificamente ligadas a uma fé, e que poderiam desagradar a não-católicos ou não-crentes em geral.

Quando a enfermeira pediu a Hatch que a acompanhasse na direção da sala do médico, ele descobriu que a coleção de arte se prolongava pelo corredor que servia a todo o consultório. Ele se divertiu ao ver uma bela pintura a óleo da agonia de Cristo no Getsêmani colocada ao lado de uma balança laqueada de branco e de uma tabela que relacionava o peso ideal das pessoas em relação a altura, idade e sexo.

Depois de se pesar e de ter seu pulso e sua pressão sangüínea tirados pela enfermeira, Hatch esperou por Nyebern numa pequena sala, sentado na ponta de uma mesa de exame coberta por uma longa e larga faixa de papel higiênico especial. Numa das paredes estavam pendurados um mapa anatômico do olho humano e um quadro representando a Ascensão de Cristo, onde a habilidade do artista era enorme em conferir às imagens um aspecto tridimensional, fazendo com que as figuras parecessem vivas.

Nyebern o deixou à espera durante apenas um ou dois minutos, e entrou na sala com um largo sorriso. Enquanto apertavam as mãos, o médico

declarou:

— Não vou fazer suspense, Hatch. Os exames deram todos negativos.

Posso lhe passar um atestado de saúde perfeita.

Aquelas palavras não foram tão bem recebidas quanto seriam em outras circunstâncias. Hatch tinha esperado por alguma indicação que pudesse fornecer uma pista sobre seus pesadelos e sobre aquela conexão misteriosa entre ele e o homem que tinha assassinado apunk loura. Mas o resultado não chegou a surpreendê-lo. Ele já vinha pensando que as respostas que procurava não seriam muito fáceis de encontrar.

— Seus pesadelos—prosseguiu Nyebern—são apenas isto: pesadelos.

Nada mais.

Hatch não tinha falado nada a respeito da sua visão do assassinato da mulher que tinha sido depois descoberta, em carne e osso, junto a uma rodovia. Como tinha deixado claro a Lindsey, não estava nem um pouco disposto a aparecer novamente nas manchetes dos jornais, pelo menos não enquanto não tivesse visto do assassino o bastante para indicá-lo à polícia, o que era bem mais do que o breve vislumbre que ele tivera no espelho, na noite anterior; somente nesse caso ele não teria outra escolha a não ser enfrentar mais uma vez as luzes da mídia.

— Nenhuma pressão craniana — disse Nyebern. — Nenhum desequilíbrio eletroquímico. Nenhum sinal de deslocamento da glândula pineal... o que às vezes pode provocar pesadelos sérios e até mesmo alucinações durante a vigília.

E ele prosseguiu, indicando os exames um por um, metódico como sempre.

Enquanto escutava, Hatch percebeu que sempre via o médico como alguém mais velho do que ele era na realidade. Jonas Nyebern tinha algo envelhecido e um ar de gravidade que o fazia parecer muito mais idoso. Alto e esguio, ele mantinha os ombros encurvados e parecia inclinar-se um tanto como que para esconder a própria altura, o que lhe dava uma postura mais apropriada a um velho do que a um homem de sua idade, que era cinqüenta anos. De vez em quando, pairava sobre ele um ar de tristeza, como se fosse um homem que tivesse experimentado alguma grande tragédia.

Quando acabou de repassar os exames, Nyebern ergueu os olhos e sorriu novamente. Era um sorriso cálido, mas que não bastava para dissipar seu ar de tristeza.

— Seu problema não é físico, Hatch.

— É possível que algum detalhe tenha escapado?

— Possível é, mas acho muito pouco provável. Nós...

— Digamos uma lesão cerebral extremamente minúscula, algumas centenas de células, alguma coisa que não apareça nos exames mas que pode ter um efeito grave.

— Como eu disse, muito improvável. Acho que podemos assumir, com segurança, que se trata de um problema emocional, uma conseqüência perfeitamente explicável de todo o processo traumático por que você passou.

Vamos tentar um pouco de terapia convencional.

— Psicoterapia?

— Tem alguma objeção?

— Não.

Exceto, pensou Hatch, o fato de que não vai funcionar. Não é um problema emocional. É uma coisa concreta.

— Conheço um sujeito excelente, de primeira linha; você vai gostar dele — disse Nyebern, retirando uma caneta do bolso de sua bata branca e escrevendo o nome do psicoterapeuta numa folha de seu bloco de receitas.

— Vou discutir seu caso com ele e dizer a ele que você vai ligar em seguida.

Está bom assim?

— Claro. Está ótimo.

Gostaria de poder contar a história toda a Nyebern. Mas se o fizesse apenas o deixaria ainda mais convicto de que ele estava precisando de psicoterapia. Relutante, ele admitiu o fato de que nem um médico nem um psicanalista poderiam ajudá-lo. Seu problema era estranho demais para merecer tratamento convencional, fosse de que tipo fosse. Talvez o que ele precisava fosse um xamã. Ou um exorcista. Ele quase sentia que aquele assassino de óculos escuros era uma espécie de demônio que estava testando suas defesas para decidir se valia ou não a pena tentar possuí-lo de verdade.

Conversaram durante mais alguns minutos sobre assuntos leves.

Quando Hatch estava se preparando para deixar o consultório, apontou para o quadro da Ascensão de Cristo.

— Um belo quadro.

— Obrigado. É uma obra excepcional, não é mesmo?

— Creio que é italiano.

— Acertou.

— Começo do século XVIII?

— Acertou de novo — disse Nyebern. — Conhece bem arte sacra?

— Não tanto. Mas tive a noção de que toda esta sua coleção era italiana

e pertence toda ao mesmo período.

— Está certo. Mais um ou dois quadros, e posso considerá-la completa.

— É engraçado ver esses quadros aqui — disse Hatch, ficando de pé e

parando diante do quadro ao lado do mapa do olho humano.

— Sei o que quer dizer — disse Nyebern —, mas é que em casa já não

disponho de espaço suficiente. Lá estou guardando a minha coleção de arte

sacra moderna.

— Há muita arte assim?

— Não tanta. Os grande artistas de hoje em dia não se inclinam muito para a temática religiosa. A maior parte dessa arte é feita por artistas menores.

Mas aqui e acolá aparece um artista que está procurando alcançar sua iluminação pessoal através desse caminho e começa a pintar esses temas antigos dando-lhes uma visão contemporânea. Vou trazer essa coleção moderna aqui para o consultório, assim que terminar esta aqui e me desfizer dela.

Hatch virou-se na direção do médico, fitando-o com interesse profissional.

— Está pensando em vendê-la?

— Oh, não — disse Nyebern, voltando a guardar a caneta no bolso superior da bata. Sua mão, de dedos longos como convinha a um cirurgião, ficou pousada sobre o bolso, do lado esquerdo, como se reafirmando a verdade do que ele dizia. — Pretendo doá-la. Esta será a sexta coleção de arte religiosa que eu reúno nos últimos anos e faço doação.

Hatch tinha condições de fazer uma avaliação aproximada das obras de arte que tinha visto nas paredes do consultório e ficou assombrado pelo grau de filantropia que a afirmação singela de Nyebern implicava.

— Quem vai ser o felizardo? — perguntou.

— Bem, geralmente é alguma universidade católica, mas em duas ocasiões foi algum outro tipo de instituição ligada à Igreja.

O cirurgião estava parado diante do quadro da Ascensão, com uma expressão vaga nos olhos, como se estivesse fitando algo para além daquela pintura, para além da parede onde ela estava pendurada, para além do mais remoto horizonte. Sua mão continuava pousada sobre o bolso onde guardara a caneta.

— É muito generoso de sua parte — disse Hatch.

— Não é um ato de generosidade — disse Nyebern, com uma voz

distante que correspondia à expressão de seu olhar. — É um ato de expiação.

Uma afirmativa como aquela parecia convidar uma pergunta, embora Hatch temesse que isso pudesse significar uma intromissão na vida privada do médico.

— Expiação por que motivo?

Ainda fitando a pintura, Nyebern respondeu:

— Nunca falo sobre esse assunto.

— Oh, não quis ser indiscreto. Pensei apenas que...

— Talvez me fizesse algum bem falar um pouco. O que acha?

Hatch não respondeu — em parte porque percebeu que o médico mal estava escutando suas palavras.

— Expiação—prosseguiu Nyebern.—Primeiro... por ser filho de meu pai. E depois... por ser pai do meu filho.

Hatch não conseguia imaginar como qualquer das duas coisas podia ser vista como um pecado, mas esperou, certo de que o médico iria explicar-se. Estava começando a se sentir como o personagem do antigo poema de Coleridge, que a caminho de uma festa é abordado pelo Velho Marinheiro, o qual começa a contar-lhe uma história aterrorizante da qual precisa se libertar a fim de não perder a razão.

Com os olhos sempre fitos na pintura, Nyebern continuou:

— Quando eu tinha apenas sete anos, meu pai sofreu um surto psicótico.

Ele matou a tiros minha mãe e meu irmão. Depois de ferir a mim e a minha irmã e pensar que também estávamos mortos, ele se matou.

— Deus do céu, lamento muito—disse Hatch, e pensou no seu próprio pai e seus inesgotáveis mananciais de ódio.—Realmente sinto muito, doutor.

— Mas ainda não entendia qual seria o pecado ou a culpa que Nyebern precisava expiar.

— Certas psicoses—prosseguiu o médico—têm às vezes uma origem genética. Quando percebi sinais de comportamento sociopata em meu próprio filho, ainda muito criança, eu devia ter previsto o que estava para acontecer, devia ter tomado alguma precaução. Mas não conseguia enfrentar a realidade. Era dolorosa demais. Então, dois anos atrás, quando ele tinha dezoito anos, ele matou a irmã a facadas...

Hatch estremeceu.

— ...e depois minha esposa — concluiu Nyebern. Hatch teve o impulso de pousar a mão sobre o ombro do médico, mas conteve-se, quando percebeu que a dor de Nyebern nunca poderia ser mitigada e que estava além da capacidade de cura de um simples consolo. Embora estivesse contando uma tragédia intensamente pessoal, o médico, visivelmente, não estava buscando compaixão, nem um contato mais pessoal da parte de Hatch. De repente ele parecia fechado em si mesmo de um modo quase amedrontador. Falava sobre sua tragédia porque tinha chegado o momento de trazê-la para fora de suas trevas íntimas e examiná-la à luz mais uma vez; e ele teria falado a respeito dela com qualquer outra pessoa que estivesse ali em vez de Hatch, ou quem sabe até falaria sozinho se não houvesse mais ninguém presente.

— Quando estavam mortos — continuou Nyebern —, Jeremy pegou a mesma faca, uma faca de açougueiro, e foi até a garagem da nossa casa. Prendeu-a com a lâmina para cima, no torno da minha mesa de carpintaria; depois, ficou de pé num banco e deixou-se cair sobre a lâmina. Sangrou até morrer.

A mão direita do médico continuava pousada sobre o bolso esquerdo, mas ele não tinha mais a aparência de alguém que jurava dizer a verdade. Em vez disso, lembrava a Hatch uma pintura de Cristo com o Sagrado Coração à mostra, com sua mão delicada apontando para aquele símbolo de sacrifício e promessa de vida eterna.

Por fim, Nyebern afastou seus olhos do quadro e encarou Hatch.

— Há quem diga que o mal é apenas uma conseqüência das nossas ações, um simples resultado de nossa própria vontade. Mas acredito que o mal é isso, e muito mais. Acredito que o mal é uma força real, uma energia de essência diferente da nossa, uma presença estranha neste mundo. Acredita nisso, Hatch?

— Sim — disse Hatch imediatamente, para sua própria surpresa.

Nyebem baixou os olhos para o bloco de receitas que continuava segurando na mão esquerda. Baixando por fim a outra mão, arrancou a folha de cima e a entregou a Hatch.

— O nome dele é Foster. Dr. Gabriel Foster. Tenho certeza de que ele vai poder ajudá-lo.

— Obrigado — disse Hatch, com a voz sumida.

Nyebern abriu a porta da saleta e com um gesto cortês pediu a Hatch que fosse na frente.

Quando iam pelo corredor, ele disse:

— Hatch?...

Hatch parou e o encarou de frente.

— Desculpe — disse o médico.

— Porquê?

— Por ter explicado meu motivo para doar as pinturas.

Hatch fez um gesto com a cabeça:

—- Bem... fui eu que perguntei, não é mesmo?

— Mas eu poderia ter sido mais breve.

— É mesmo?

— Eu poderia ter dito apenas: talvez eu pense que minha única maneira de entrar no céu é comprando ingresso.

Do lado de fora do edifício, no pátio de estacionamento banhado pela luz brilhante do sol, Hatch ficou sentado por um longo tempo ao volante, observando uma vespa que sobrevoava em círculos o capo vermelho do carro, certamente imaginando tratar-se de uma flor gigantesca.

Aquele diálogo no consultório de Nyebem parecia ter sido apenas um sonho estranho, e Hatch sentiu como se estivesse emergindo de um sono profundo. Teve a sensação de que a vida trágica de Jonas Nyebern tinha uma relação direta com seus próprios problemas, mas embora fizesse o possível para descobrir uma conexão foi incapaz de encontrar qualquer resposta.

A vespa esvoaçou para a esquerda, depois para a direita, mas sempre de frente para o pára-brisa, como se pudesse avistar Hatch através do vidro e estivesse sendo misteriosamente atraída por ele. Uma vez, e outra, e outra, ela voou de encontro ao vidro, foi repelida, e tentou novamente. Um vôo, e tap. Mais um vôo, e tap. Outro vôo, tap, tap. Era uma vespa incrivelmente obstinada. Hatch imaginou se ela pertenceria a uma daquelas espécies que possuem apenas um ferrão, que se quebra no instante da ferroada, causando a morte da própria vespa. Tap, mais um vôo, tap, mais outro, tap, tap, tap. Se era uma dessas vespas, será que ela percebia qual seria o resultado de tamanha persistência? Tap, um vôo, tap, tap, tap.

Depois de atender o derradeiro paciente do dia, uma visita de rotina de uma bela paciente de trinta anos em quem ele tinha praticado um enxerto de aorta em março, Jonas Nyebern foi para sua sala privada nos fundos do consultório e fechou a porta. Sentou-se à escrivaninha, puxou um pedaço de papel da carteira e verificou um número de telefone que preferira não incluir em sua agenda eletrônica. Puxou o aparelho mais para perto e pressionou os botões sete vezes.

Depois do terceiro toque, uma secretária eletrônica atendeu, do mesmo modo como tinha atendido suas chamadas anteriores, na véspera e na manhã daquele dia:

— Aqui é Morton Redlow. Não estou no escritório agora. Depois do bip, por favor, deixe seu recado e seu número de telefone, e ligarei de volta o mais cedo possível.

Jonas esperou o bip e depois falou devagar:

— Sr. Redlow, aqui é o Dr. Nyebern. Já deixei outros recados, mas creio que combinamos que eu receberia um relatório seu na sexta-feira passada ou durante o fim de semana, ao mais tardar. Por favor, ligue para mim assim que puder. Obrigado.

Pousou o fone.

Imaginou se haveria mesmo razão para estar tão preocupado.

Imaginou se teria alguma razão para não se preocupar.

 

6

Regina estava sentada em sua carteira durante a aula de francês da irmã Mary Margaret, cansada do cheiro deixado no ar pelo pó de giz, cansada do incômodo assento de plástico rígido onde estava acomodada, e tentando aprender a dizer: Olá, eu sou americana. Pode me dizer onde fica a igreja mais próxima onde eu possa assistir à missa de domingo? Era tudo três cansativo.

Era ainda uma estudante da quinta série na Escola Elementar do São Tomás, porque continuar estudando ali era uma condição obrigatória em sua adoção. (Adoção experimental. Nada de definitivo ainda. Podia muito bem não dar certo. Os Harrisons podiam decidir que era melhor criar periquitos do que crianças, mandá-la de volta e comprar um passarinho. Por favor, Deus, faça com que eles percebam que o Senhor, na sua infinita sabedoria, programou as aves de tal modo que elas fazem muito cocô. Faça com que eles percebam que manter a gaiola limpa vai dar um trabalhão.) Quando concluísse o primeiro grau, ela iria para a Escola de segundo grau do São Tomás, porque o São Tomás estendia seus tentáculos em todas as direções. Além dos dois orfanatos e das duas escolas, a organização possuía ainda uma creche e um bazar de objetos usados. A paróquia funcionava como um conglomerado capitalista, e o padre Jiminez era um alto executivo, uma espécie de Donald Trump, com a diferença de que o padre Jiminez não andava acompanhado de modelos nem administrava cassinos, exceto os bingos das quermesses. (Meu Deus, aquela coisa a respeito das aves fazerem cocô — isso não teve intenção de crítica. Estou certa de que o Senhor teve razões para fazer as aves assim, espalhando cocô por toda parte, e é como o mistério da Santíssima Trindade, é uma dessas coisas que os pobres seres humanos não vão entender jamais. Não quis ofender, juro.) De qualquer modo, ela não se importava de freqüentar a escola do São Tomás, porque tanto as freiras quanto os professores leigos eram exigentes, e no final das contas aprendia-se uma porção de coisas, e ela adorava aprender.

Mas por volta da última aula daquela tarde de terça-feira, no entanto, ela estava de saco cheio de aprender, e se a irmã Mary Margaret lhe pedisse para dizer qualquer coisa em francês ela iria acabar confundindo a palavra que queria dizer "igreja" com a palavra que significava "esgoto", o que já lhe .acontecera antes, para gargalhada geral das outras crianças e enorme mortificação dela própria. (Querido Deus, lembre-se por favor que obriguei a mim mesma a rezar um rosário de penitência por essa bobagem, só para mostrar que não foi de propósito, foi engano mesmo.) Quando a campainha finalmente soou, ela foi a primeira a saltar do seu lugar e disparar porta afora, embora a maioria das crianças que estudavam na escola do São Tomás não pertencessem ao orfanato e não fossem deficientes em nenhum aspecto.

No trajeto até o armário onde guardava suas coisas, e dali para a porta de saída, ela ficou imaginando o tempo inteiro se o Sr. Harrison estaria à sua espera, como havia prometido. Ela se imaginou parada na calçada com uma multidão de outras crianças fervilhando ao seu redor, enquanto ficava olhando, olhando, incapaz de avistar o carro, e a multidão diminuía aos poucos; ela por fim ficava ali sozinha, e nem sinal do carro, e aí vinha o pôr-do-sol e logo depois anoitecia; a lua se erguia no céu e o seu relógio de pulso tiquetaqueava implacável rumo à meia-noite, e na manhã seguinte, quando as crianças estivessem de volta para mais um dia de aula, ela simplesmente voltaria a entrar com elas, sem dizer a ninguém que os Harrisons haviam desistido dela.

Ele estava lá. No carro vermelho. Na fila dos carros dos outros pais. Ele inclinou-se para abrir a porta por dentro quando a viu aproximar-se.

Quando ela acomodou-se com sua bolsa de livros e fechou a porta, ele perguntou:

— Teve um dia duro?

— Sim—disse ela. Sentia-se tímida, e timidez nunca tinha sido um dos seus problemas! Não era fácil essa história de fazer parte de uma família. Vai ver que nunca iria pegar o jeito.

— As freiras, não é? — disse ele.

— Sim — concordou ela.

— Elas são fogo.

— São mesmo.

— São um prego no sapato, as tais freiras.

— Exatamente — disse ela, balançando a cabeça em aprovação, imaginando se algum dia seria capaz de voltar a proferir frases inteiras.

Enquanto guiava para fora da escola, ele disse:

— Aposto que se a gente colocasse qualquer uma dessas freiras num ringue, para enfrentar um campeão dos pesos-pesados... poderia ser qualquer um, até mesmo Muhammad Ali... ela o derrubaria no primeiro assalto.

Ela não pôde deixar de sorrir a essa idéia.

— Claro!—continuou ele. — Só o Super-Homem poderia resistir a um combate com uma freira dessas. Batman? Coitado. Uma freira tamanho médio poderia limpar o chão com ele, como se fosse um pano. E poderia pegar as Tartarugas Ninjas e fazer uma sopa com elas.

— Elas são boazinhas — disse Regina; bom, eram três palavras, o que já era alguma coisa, mas mesmo assim aquilo soou de um modo totalmente pateta. Talvez fosse melhor não dizer nada; ela não tinha muita prática desses diálogos pai-e-filha.

— As freiras? — retrucou ele. — Oh, claro que são boazinhas. Se não fossem boazinhas, não seriam freiras. Seriam seguranças de chefões da Máfia, ou terroristas internacionais, ou membros do Congresso americano.

Ele não disparou na direção de casa, como um homem de negócios super atarefado; ao contrário, guiava devagar, como quem tivesse saído a passeio. Ela ainda não tinha andado de carro com ele o bastante para saber se era assim que ele guiava sempre, mas suspeitou que ele estava indo mais devagar do que o habitual, para que os dois pudessem passar um pouco mais de tempo juntos. Que bonito. Aquilo deixou sua garganta apertada, e os olhos um pouco úmidos. Que coisa incrível. Uma tulha de bosta de vaca seria capaz de manter um diálogo mais produtivo do que o que ela vinha mantendo até então, mas o pior é que agora ela ia desatar em prantos, o que seria um belo reforço para aquela relação. Claro que todo pretendente a pai adotivo espera fervorosamente receber uma garota muda, emocionalmente desequilibrada e portadora de deficiência—certo? Era a última moda em matéria de adoção. Bem, se ela começasse a chorar, sua sinusite iria retornar com força total, e daí a pouco seu nariz estaria gotejando como uma torneira mal fechada, o que sem dúvida iria torná-la mais simpática ainda. O Sr. Harrison ia deixar de lado sua intenção de ficar passeando e rumaria para casa a tal velocidade que teria que começar a pisar no freio um quilômetro antes, para não arrombar a garagem com o carro e sair através da porta traseira. (Por favor, Deus, me ajude. O Senhor deve ter notado que eu usei "bosta de vaca", e não "merda de vaca", portanto mereço um pouco de piedade.)

Ficaram conversando sobre isto ou aquilo. Na verdade, durante algum tempo, o Sr. Harrison conversou sozinho e ela limitou-se a emitir alguns grunhidos inarticulados, como se fosse uma criatura subumana levada a passear por um funcionário do Zoológico. Mas daí a algum tempo ela percebeu, para sua própria surpresa, que estava falando frases inteiras, vinha fazendo isso já há alguns quilômetros e estava se sentindo à vontade ao lado dele.

O Sr. Harrison perguntou o que ela pensava em ser quando crescesse, e "ela alugou o ouvido dele por um longo tempo, explicando-lhe que algumas pessoas chegavam a ganhar a vida escrevendo o tipo de livros que ela gostava de ler, e que ela vinha criando umas histórias por conta própria há um ou dois anos. Claro que era tudo ainda uma coisa boba, mas ela esperava ir melhorando com o tempo. Ela era inteligente para uma criança de dez anos e parecia mais velha do que era de fato, mas não podia esperar ter uma carreira como escritora profissional antes dos dezoito anos; dos dezesseis, com um pouco de sorte. Quando é que Christopher Pike tinha começado a publicar? Aos dezessete? Aos dezoito? Talvez já tivesse mesmo vinte, mas certamente não teria sido mais do que isso — de modo que esse era o limite que ela estabelecera para si mesma: tornar-se Christopher Pike II quando atingisse os vinte anos. Tinha um caderno cheio de idéias para histórias. Algumas dessas idéias eram bastante boas, mesmo descontando aquelas outras tremendamente infantis, como a tal sobre um porco inteligente vindo do espaço, uma história que achara fantástica na época, mas que agora lhe parecia irremediavelmente idiota. Ela ainda estava falando sobre as histórias que pretendia escrever quando entraram na estrada que levava à casa de Laguna Niguel; e o Sr. Harrison parecia mesmo interessado.

Talvez ainda não fosse tarde demais para entrar no ritmo de vida-em-família.

Vassago sonhava com fogo. O estalido da tampa metálica do isqueiro sendo erguida na escuridão. O ruído seco do acendedor raspando de encontro à pederneira. Uma fagulha. O vestido branco de verão de uma garota sendo envolvido pelas chamas. A Casa Assombrada ardendo como uma fornalha. Gritos enquanto aquela escuridão cuidadosamente planejada se dissolvia diante das línguas brilhantes de luz avermelhada. Tod Ledderbeck estava morto na caverna da Centopéia, e agora aquela casa de esqueletos de plástico e fantasmas de borracha enchia-se de terror verdadeiro e de morte dolorosa. Ele voltara a sonhar com aquele incêndio muitas vezes, vezes sem conta desde a noite do 12º. aniversário de Tod. Esse sonho produzia as mais belas visões e os mais belos fantasmas que passavam diante dos seus olhos durante o sono.

Mas desta vez rostos estranhos e imagens diferentes apareciam por entre as chamas. O carro vermelho, novamente. Uma garota de cabelos ruivos e com uma beleza grave, e grandes olhos cinzentos que pareciam adultos demais para sua idade. Uma pequena mão, dolorosamente retorcida, e com dois dedos faltando. Um nome, um nome que já viera antes à sua mente, um nome ecoando por entre as chamas que se retorciam, e as sombras dissolvidas pelo fogo no interior da Casa Assombrada: Regina... Regina... Regina...

A visita ao consultório do Dr. Nyebern tinha deixado Hatch um tanto deprimido. Primeiro porque os exames não haviam revelado nada que pudesse lançar alguma luz sobre suas estranhas experiências nos últimos tempos; e depois por causa do vislumbre que tivera sobre a torturada vida pessoal do cirurgião. Mas Regina era um remédio para a melancolia, se é que existia algum. Tinha todo o entusiasmo de uma criança da sua idade; a vida não conseguira abatê-la nem um pouco.

No trajeto do carro até a porta da casa, ela se moveu com mais facilidade e rapidez do que quando entrou no escritório de Salvatore Gujilio, mas o aparelho ortopédico, ainda assim, tornava seu caminhar mais ereto e um tanto solene. Uma borboleta com asas amarelo e azul a acompanhou durante o caminho, esvoaçando a poucos centímetros de sua cabeça, como se soubesse que o espírito da garota era muito parecido a ela própria, alguma coisa colorida e leve.

Ao descer, Regina dissera solenemente:

— Obrigada por me trazer, Sr. Harrison.

— Claro, foi um prazer — disse ele, com igual gravidade.

Teriam que tomar alguma providência quanto a esse detalhe do "Sr. Harrison" antes do fim do dia. Ele sentia que a formalidade era uma das defesas dela, uma forma de evitar uma aproximação excessiva, pelo receio de acabar sendo rejeitada, como tinha ocorrido durante sua primeira adoção. Mas era também um receio de dizer ou fazer a coisa errada, e destruir involuntariamente aquela perspectiva de felicidade.

Diante da porta, ele disse:

— Ou eu ou Lindsey iremos pegar você na escola todos os dias... a menos que você tenha carteira de motorista e prefira ir e vir por conta própria.

Ela ergueu os olhos para Hatch. A borboleta estava descrevendo círculos sobre sua cabeça, como se fosse uma coroa viva ou um halo. Ela disse:

— Isso é uma provocação, não é mesmo?

— Bem, sim. Creio que é.

Ela enrubesceu e olhou para o lado, como se não pudesse decidir se uma tal provocação era uma coisa boa ou má. Hatch quase podia ouvir os pensamentos dela: Ele está me provocando porque acha que sou esperta ou então porque acha que sou irremediavelmente estúpida; ou algo parecido.

Durante todo o trajeto da escola até ali, Hatch tinha percebido que Regina sofria de insegurança; ela achava que conseguia disfarçar bem, mas sempre que essa insegurança a acometia isso se evidenciava em seu rosto belo e extraordinariamente expressivo. Sempre que ele percebia essas rachaduras na autoconfiança da garota, tinha vontade de colocar os braços em torno dela, abraçá-la com força, confortá-la—o que seria exatamente a coisa mais errada a fazer, porque mostraria que seus momentos de sofrimento íntimo eram totalmente visíveis aos olhos dele. Ela forçava a si mesma a ser firme, flexível e auto-suficiente. E projetava essa imagem para o mundo, como uma espécie de armadura.

— Espero que não se incomode com umas pequenas provocações de vez em quando — disse ele, enquanto enfiava a chave na porta. — É o meu jeito. Eu bem que podia me inscrever nos Provocadores Anônimos e me livrar desse vício, mas dizem que o tratamento é muito pesado. Eles nos surram com mangueiras de jardim e nos obrigam a comer feijão-fradinho.

Ele imaginou que depois que um certo tempo tivesse passado, quando ela sentisse que era amada por eles e que fazia parte daquela família, sua autoconfiança estaria tão sólida quanto ela precisava; enquanto isto, a melhor coisa que ele poderia fazer era fingir que a via exatamente como ela queria ser vista: e com cuidado, com paciência, ajudá-la a se tornar a pessoa firme e segura que ela sonhava ser.

Quando ele abriu a porta e os dois entraram, Regina disse:

— Houve um tempo em que eu detestava feijão-fradinho, todo tipo de feijão, mas fiz um trato com Deus. Se ele me desse... uma coisa que eu queria, eu comeria feijão sem me queixar pelo resto da vida.

No saguão, fechando a porta atrás deles dois, Hatch falou:

— Puxa, isso é que é promessa. Deus deve ter ficado impressionado.

— Espero que sim — disse ela.

No sonho de Vassago, Regina movia-se banhada pela luz do sol, com uma de suas pernas apoiada num aparelho de metal; uma borboleta a sobrevoava, como se ela fosse uma flor. Uma casa flanqueada por palmeiras. Uma porta. Ela ergueu os olhos para Vassago, e seus olhos reveleram uma alma com uma vitalidade tão tremenda e um coração tão vulnerável que o coração dele próprio começou a bater acelerado, mesmo durante o sono.

Eles encontraram Lindsey no andar de cima, no quarto extra que lhe servia de estúdio de trabalho. O cavalete estava virado de costas para a porta, de modo que Hatch não podia ver a pintura. A blusa de Lindsey estava meio ensacada nos jeans, meio para fora; seu cabelo era desarrumado, havia uma mancha de tinta vermelho-ferrugem em sua bochecha esquerda, e tinha um olhar que Hatch já conhecia de muitos anos de prática: estava na derradeira fase de trabalho febril numa pintura prestes a se tornar exatamente o que ela esperava.

— Olá, querida — disse ela para Regina. — Como foi a escola?

Regina sentiu-se atrapalhada, o que sempre acontecia quando alguém a tratava com expressões de carinho.

— Bem... escola é escola, você sabe.

— Bem, você parece que gosta de lá. Estou sabendo que tem ótimas notas.

Regina encolheu os ombros diante do elogio e pareceu constrangida. Reprimindo um impulso de abraçar a garota, Hatch disse a Lindsey:

— Ela vai ser uma escritora quando crescer.

— É mesmo? — disse Lindsey. — Que maravilha. Sabia que você gostava de livros, mas não imaginei que planejasse escrever também.

— Nem eu — disse Regina, e de repente ela engrenou e foi em frente, sentindo que sua timidez inicial em relação a Lindsey já fora superada; as frases jorravam aos borbotões enquanto ela rodeava o cavalete para olhar a pintura quase pronta. —Foi só no Natal do ano passado, quando meu presente embaixo da árvore, no orfanato, eram seis livros. Não eram livros para crianças de dez anos, eram livros de verdade, porque leio coisas do segundo grau, coisa de quem tem quinze anos. Sou o que eles chamam de precoce.

Seja como for, esses livros foram o melhor presente que já ganhei, e achei que seria tão legal se um dia uma garota num orfanato ganhasse livros meus no Natal e sentisse o que senti daquela vez... não que eu vá ser uma escritora tão boa quanto Daniel Pinkwater ou Christopher Pike. Puxa vida, esses aí estão acima de tudo, na minha opinião, eles estão ao lado de Shakespeare e Judy Blume. Mas tenho umas boas histórias para contar, e nem todas são bobas quanto aquela merda do porco-vindo-do-espaço. Epa, desculpe, eu quis dizer cocô. Quer dizer, aquela droga. Aquela droga de história de porco-vindo-do-espaço. Nem todas são como essa.

Lindsey nunca permitira que Hatch—ou qualquer outra pessoa—visse um quadro seu ainda em processo de criação; ela sempre esperava para exibi-lo somente depois de ter aplicado a última pincelada. Embora o quadro em que trabalhava no momento estivesse próximo de ser concluído, ela ainda estava em pleno trabalho — de modo que Hatch ficou surpreso quando viu que Lindsey nem sequer piscou os olhos no momento em que Regina rodeou o cavalete para apreciar a pintura. Ele decidiu que nenhuma criança, só porque tinha um narizinho lindo e cheio de sardas, teria direito a um privilégio qualquer que era negado a ele, de modo que também rodeou o cavalete para dar uma olhada.

Era um quadro extraordinariamente bom. A paisagem de fundo era um espaço cheio de estrelas, e superposto a ele havia o rosto transparente de um menino, um rosto cheio de uma beleza etérea. Não era um menino qualquer. Era Jimmy. Quando ele era vivo, Lindsey o tinha utilizado como modelo algumas vezes, mas nunca depois de sua morte... até aquela data. Era um Jimmy idealizado, e com tal perfeição que seu rosto bem poderia ser o rosto de um anjo. Seus belos olhos estavam voltados para o alto, na direção de uma luz cálida que caía sobre ele, e tinham uma expressão mais profunda do que mera alegria. Era uma expressão de êxtase. Em primeiro plano, ocupando o ponto focai do quadro, flutuava uma rosa negra, não transparente como o rosto, mas reproduzida em detalhes tão minuciosos que Hatch quase podia sentir a textura aveludada de cada uma das suas pétalas lustrosas. O talo verde da haste estava úmido de orvalho, e os espinhos estavam pintados com pontas tão agudas que Hatch quase acreditou que seria capaz de furar o dedo se os tocasse. Sobre uma das pétalas negras, brilhava uma gota solitária de sangue rubro. De uma maneira misteriosa, Lindsey tinha conferido àquela rosa flutuante uma aura quase sobrenatural, de modo que ela atraía a atenção e o olhar com uma força quase magnética. E no entanto o garoto não olhava para a rosa: olhava para o alto, na direção daquele objeto radiante que somente ele podia ver, dando a idéia de que, por mais poderosa que pudesse ser a imagem daquela rosa, ela não tinha para ele o menor interesse, em comparação com a fonte daquela luz que jorrava do alto.

Do dia da morte de Jimmy até a ressurreição de Hatch, Lindsey recusara-se a procurar abrigo junto a qualquer deus capaz de criar um mundo onde existisse a morte. Lembrou do dia em que um padre lhe sugerira a prece como um meio de encontrar a resignação e a cura do sofrimento psicológico; e a resposta de Lindsey tinha sido uma rejeição curta e seca: Preces nunca funcionam. Não espere milagres, padre. Os mortos continuam mortos, e os vivos apenas esperam o instante de juntar-se a eles. Agora, alguma coisa tinha mudado nela. A rosa negra no quadro simbolizava a morte. E ainda assim ela não exercia nenhum poder sobre Jimmy. Ele tinha ido além da morte, e ela não significava mais nada para ele. Ele se elevava acima dela. E pelo simples fato de poder conceber um quadro como aquele e executá-lo de maneira tão impecável, Lindsey descobrira um modo de finalmente dizer adeus ao garoto, um adeus sem lamentações, sem amargura, um adeus cheio de amor e com uma surpreendente aceitação da necessidade de crer em algo mais do que uma vida destinada a acabar sempre num buraco frio e escuro aberto no chão.

— É tão bonito — disse Regina, com genuína admiração. — Dá um pouco de medo... não sei por quê; mas é lindo.

Hatch ergueu os olhos da pintura e encontrou o olhar de Lindsey; tentou dizer algo, mas não conseguiu falar. Desde sua ressurreição, tanto o coração dele quanto o de Lindsey haviam experimentado um processo de renascimento, percebendo o erro que tinham cometido em perder cinco anos de vida, devotados totalmente à dor. Mas, em algum nível mais profundo, ainda não aceitavam a idéia de que a vida poderia voltar a ser tão bela quanto fora antes daquela morte; na verdade, eles ainda não tinham deixado Jimmy partir. Agora, ao cruzar seu olhar com o de Lindsey, ele soube que ela finalmente aceitara a esperança mais uma vez, sem reservas ou restrições. O peso da morte de Jimmy caiu sobre Hatch naquele instante como não o fazia há muito tempo, porque se Lindsey era capaz de fazer as pazes com Deus, ele devia fazer a mesma coisa. Tentou mais uma vez dizer alguma coisa, e mais uma vez não pôde: olhou novamente para o quadro, percebeu que ia chorar, e abandonou o estúdio.

Não sabia onde estava indo. Quase sem perceber seus próprios passos, ele desceu a escada rumo ao andar térreo, entrou na saleta que tinha oferecido a Regina para servir-lhe de quarto, abriu as portas laterais e saiu para o roseiral que ficava do lado da casa.

À luz do sol de fim de tarde, as rosas eram vermelhas, brancas, amarelas, róseas e da tonalidade da pele de um pêssego; algumas eram simples botões e outras largas do tamanho de um pires, mas nenhuma delas era negra. O ar estava cheio de sua fragrância encantadora.

Com o gosto salgado das lágrimas ainda no canto da boca, Hatch estendeu as mãos para a roseira mais próxima, com a intenção de acariciar as flores, mas deteve-se a meio caminho. Com os braços assim estendidos, ele de repente sentiu como se segurasse um peso. Não havia nada pousado sobre eles, na verdade, mas ele reconhecia aquele peso; lembrava, como se .tivesse sido há apenas uma hora atrás, como estava leve o corpo de seu filho, consumido pelo câncer.

Nos derradeiros momentos antes da visita fatídica da morte, no hospital, ele retirara os fios e os tubos presos ao corpo de Jim. Erguendo o garoto da cama encharcada de suor, foi sentar-se numa cadeira perto da janela, segurando-o de encontro a si e murmurando baixinho ao seu ouvido, até que a respiração cessou de fluir através daqueles lábios pálidos e entreabertos. Até o dia de sua própria morte, Hatch lembraria com precisão o peso daquele corpo emagrecido em seus braços, os ossos pontudos com tão pouca carne para recobri-los, aquele calor terrivelmente seco que se filtrava através da pele quase translúcida pela doença, aquela fragilidade de cortar o coração.

Voltou a sentir tudo aquilo naquele instante, em seus braços estendidos, em meio ao roseiral. Erguendo os olhos para o céu de verão, ele perguntou, como se houvesse alguém que pudesse responder-lhe:

— Por quê? Ele era tão pequeno. Porra, ele era tão pequeno! Ao falar, sentiu que aquele peso era muito maior do que tinha sido no quarto do hospital: era um fardo de mil toneladas repousando nos seus braços, porque ele não queria libertar-se dele tanto quanto imaginava. Mas, nesse instante, algo estranho aconteceu—o peso em seus braços foi pouco a pouco diminuindo, e o corpo invisível de seu filho pareceu flutuar para longe de seu abraço, como se a carne tivesse se transmutado totalmente em espírito depois de todo aquele tempo, como se Jim não necessitasse mais de conforto ou de nenhum tipo de consolo. Hatch abaixou os braços.

Talvez, daquele momento em diante, a recordação doce e amarga de um filho morto pudesse se transformar na recordação doce de um filho que tinha sido amado. E talvez, dali em diante, não fosse mais uma lembrança tão pesada no seu coração.

Ele ficou parado no meio do roseiral.

O dia estava morno. A luz do entardecer banhava todas as coisas com um reflexo dourado.

O céu estava absolutamente claro — e totalmente misterioso.

Regina perguntou se podia colocar alguns dos quadros de Lindsey em seu quarto, e havia sinceridade na sua voz. Juntas, escolheram três pinturas, pegaram alguns ganchos de pendurar quadros e os penduraram no lugar escolhido pela garota, juntamente com um crucifixo de trinta centímetros de altura que ela trouxera consigo do orfanato. Enquanto trabalhavam, Lindsey perguntou:

— Que tal jantarmos uma pizza, num lugar absolutamente fantástico;

que conheço?

— Ótimo! — disse a garota. — Adoro pizza.

— A pizza de lá vem com uma camada bem espessa, um montão de queijo.

— Com pepperonil

— Cortado bem fininho, mas vem muito.

— Lingüiça?

— Claro, por que não? Mas tem certeza de que isso não vai fazer mal a uma vegetariana radical como você?

Regina corou.

— Oh.., aquilo. Eu falei tanta merda naquele dia. Ai, meu Deus! Perdão.

Quer dizer, falei tanta porralouquice. Não! Tanta bobagem.

— Tudo bem — disse Lindsey. — Todos nós dizemos bobagens mais

cedo ou mais tarde.

— Você não diz. O Sr. Harrison não diz.

— Acha mesmo? Espere só para ver.

Subindo num banco junto à parede oposta à cama, Lindsey bateu cuidadosamente um dos ganchos. Regina estava segurando a pintura; ao pegar o quadro das mãos da garota, Lindsey prosseguiu:

— Escute, você pode me fazer um favor hoje à noite, quando formos jantar?