Esconderijo

Dean R. Koontz · Capítulo 5 de 8 · parte 2/4

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Esconderijo

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

—- Falei com Nyebern hoje — disse ele a Lindsey. — Disse que está tudo bem. Tenho certeza de que os outros exames também vão dar negativos. O que quer que esteja acontecendo comigo, não tem nada a ver com lesões físicas ou mentais devido ao acidente ou à minha... morte. Estou com saúde. Estou ótimo.

— Queira Deus que sim.

— Sinto-me superbem.

— Mesmo?

— Sim, tenho certeza. — Ficou pensando como conseguia mentir à esposa com tanta naturalidade. Talvez porque fosse uma mentira sem intenção de feri-la ou de fazer-lhe mal, apenas tranqüilizá-la para que dormisse em paz.

— Te amo —- disse Lindsey.

— Também te amo.

Em poucos minutos — pouco antes da meia-noite, de acordo com o relógio na mesa-de-cabeceira—ela estava dormindo, ressonando profundamente.

Hatch não conseguia conciliar o sono, preocupado com o que o futuro lhe reservava... e quanto futuro teria pela frente. Pensou em encontrar o Dr. Nyebern com expressão sombria, deprimida, trazendo-lhe más notícias sobre alguma sombra suspeita detectada neste ou naquele lóbulo cerebral, um bloco de células mortas, uma lesão, um cisto, um tumor maligno. Alguma coisa mortal. Inoperável. E que só poderia piorar.

Sua autoconfiança se restabelecera pouco a pouco desde os acontecimentos da quinta-feira à noite e sexta de manhã, quando sonhara com o assassinato da loura e, no dia seguinte, tinha seguido a pista do assassino até a estrada 133, saindo da rodovia de San Diego. O fim de semana que se seguiu foi totalmente normal; e o dia seguinte, o da chegada de Regina, tinha sido delicioso. Então... ele vira a notícia de jornal com a entrevista de Bill Cooper e perdera o controle.

Não falara a Lindsey sobre o fato de ter visto o reflexo do estranho no espelho da saleta. Desta vez ele não poderia mais fingir que tivera um acesso de sonambulisrno e que estivera meio dormindo, meio acordado. Estava completamente desperto, o que significava que aquela imagem no espelho deveria ser algum tipo de alucinação. Uma mente sadia, sem lesões, não sofre alucinações. Hatch não desejara partilhar com ela seu próprio medo, porque sabia que com a chegada dos novos resultados dos exames, no dia seguinte, teriam bastante com que se preocupar.

Incapaz de pegar no sono, ele começou a pensar na matéria do jornal, ainda que a contragosto. Tentou afastar Bill Cooper de seus pensamentos, mas voltava a ele o tempo todo, naquela espécie de obssessão de quem experimenta com a ponta da língua um dente dolorido. Era quase como se ele estivesse sendo forçado a pensar no motorista de caminhão, como se algum enorme ímã mental estivesse puxando inexoravelmente seus pensamentos naquela direção. Daí a pouco, para seu pânico, aquela irritação inexplicável começou a crescer lentamente de dentro dele. Pior do que isso: ao mesmo tempo, a fúria e a sede de violência explodiram nele de forma tão intensa que precisou cerrar os punhos e manter os braços rígidos junto ao corpo, cerrando os dentes com toda força para não deixar escapar um uivo bestial.

Examinando as caixas de correspondência na entrada do conjunto de apartamentos, Vassago ficou sabendo que William Cooper morava no 28. Caminhou ao longo de uma alameda até alcançar a parte lateral do prédio, que era adornada com palmeiras, fícus e samambaias; o local era iluminado demais para seu gosto, mas ele logo chegou à escada de incêndio externa, que dava acesso ao segundo andar. Era um edifício longo, com dois andares apenas, e uma longa varanda que corria em toda a sua extensão, diante dos apartamentos.

Não havia ninguém à vista. Palm Court estava silencioso e em paz.

Passava alguns minutos da meia-noite, mas havia luzes acesas no apartamento de Cooper. Vassago podia escutar o som baixo de uma televisão.

A janela do lado direito da porta estava coberta com persianas. As plaquetas não estavam totalmente cerradas; ele conseguiu avistar uma cozinha iluminada apenas por uma lâmpada de baixa voltagem.

Do lado esquerdo da porta, uma janela maior dava para a sala de visitas do apartamento, fornecendo dali uma vista ampla para o pátio. As cortinas não estavam totalmente cerradas. Através da brecha entre elas, Vassago viu um homem afundado num sofá, com as pernas estendidas para a frente, diante da televisão. Sua cabeça estava inclinada para um lado, o rosto virado para a janela, e ele parecia adormecido. Um copo contendo dois dedos de um líquido dourado estava colocado ao lado de uma garrafa de uísque Jack Daniels pela metade, sobre uma mesinha do lado. Um pacote de salgadinhos de queijo havia caído de cima da mesinha, espalhando os tira-gostos amarelos por sobre o carpete verde.

Vassago olhou para a esquerda, depois para a direita, examinou o pátio em todas as direções. Ninguém.

Tentou fazer deslizar a janela da sala, mas ou estava trancada por dentro ou demasiado enferrujada. Foi para o lado direito, na direção da janela da cozinha, mas ao passar diante da porta deteve-se e, sem muita esperança, experimentou a maçaneta. A porta estava destrancada. Ele a abriu devagar, entrou e trancou-a atrás de si.

O homem no sofá — Cooper, provavelmente — nem se mexeu quando Vassago puxou com cuidado as cortinas, tapando toda visão através da janela envidraçada. Ninguém que passasse pela varanda poderia olhar para dentro.

Depois de verificar que a cozinha, a sala de jantar e a sala de visitas estavam desertas, Vassago moveu-se silenciosamente até o banheiro e os dois quartos de dormir, um dos quais não estava mobiliado e parecia funcionar como uma espécie de depósito. Comprovou que o homem sobre o sofá se encontrava sozinho.

Na cômoda do quarto ele avistou uma carteira e um molho de chaves. Na carteira havia 58 dólares, que ele recolheu, e uma carteira de motorista em nome de William X. Cooper. A fotografia da carteira era do homem na sala, alguns anos mais moço... e sóbrio.

Retornou à sala com a intenção de acordar Cooper e ter um diálogo informativo com ele. Quem é Lindsey? Onde ela mora?

Mas quando foi se aproximando do sofá uma torrente de raiva começou a brotar dentro dele, uma coisa demasiado súbita e sem motivo para que ele imaginasse ser espontânea; sentiu-se como se fosse um aparelho de rádio humano, captando emoções de outras pessoas. E o que estava recebendo naquele instante era a mesma fúria que o atacara inexplicavelmente quando admirava sua coleção, cerca de uma hora atrás. Assim como fizera antes, ele se abriu diante daquela emoção, recebeu-a, amplificou sua corrente com o auxílio de seu próprio suprimento de ódio, imaginando se começaria a receber visões, como acontecera da vez anterior. Mas desta vez, enquanto estava de pé, olhando o vulto adormecido de William Cooper, a raiva ardeu com inesperada intensidade, transformando-se numa fúria insensata, e ele perdeu completamente o autocontrole. Estendendo a mão, ele agarrou pelo gargalo a garrafa de Jack Daniels pousada na mesinha junto ao homem adormecido.

Deitado na cama, o corpo inteiramente rígido e retesado, Hatch apertava os pulsos com tanta força que mesmo suas unhas bem aparadas se enterravam na palma das mãos; ele tinha o tempo inteiro a sensação apavorante de que sua mente estava sendo invadida. Aquele acesso de raiva tinha sido semelhante ao gesto de alguém que abre uma porta apenas o bastante para espiar através da fresta, mas isso permite que alguém do outro lado se jogue contra ela, arrancando-a das dobradiças. Uma coisa sem nome estava se apossando dele, uma força sem forma e sem feições, uma coisa feita de ódio e de fúria. Era como um tufão, um tornado, algo além das dimensões meramente humanas, e ele sabia que era um vaso pequeno demais para conter toda aquela fúria que estava sendo bombeada para dentro dele. Sentiu que ia explodir, estilhaçando-se todo como se fosse, não um homem, mas um boneco de vidro.

A garrafa de uísque atingiu o lado da cabeça do homem com um impacto tão violento que soou quase como um tiro de arma de fogo. Uísque e estilhaços de vidro voaram em todas as direções, espalhando-se pelo aposento, retinindo de encontro ao aparelho de TV, a mobília, as paredes. O ar se encheu com o cheiro aveludado de malte do uísque, mas misturado a ele havia o cheiro de sangue, porque um lado do rosto de Cooper estava cortado e machucado, sangrando copiosamente.

O homem não estava mais apenas dormindo; tinha despencado num nível mais profundo de inconsciência.

Vassago ficou segurando apenas o gargalo partido, que terminava em três pontas irregulares e agudas, gotejando uísque, e lembrando aos seus olhos as presas brilhantes e peçonhentas de uma cobra. Num gesto rápido, mudou a posição de segurar o gargalo, voltando a parte quebrada para baixo; erguendo aquela arma tosca sobre a cabeça, ele desferiu um golpe brusco, soltando ao mesmo tempo um arquejo feroz, e os dentes de vidro da serpente mergulharam no rosto de William Cooper.

A raiva vulcânica que explodiu dentro de Hatch não se assemelhava a nada que eleja tivesse experimentado em toda a sua vida, era algo muito além dos acessos de raiva por que seu pai tinha passado. Na verdade, não era algo que ele pudesse ter feito surgir de dentro de si próprio, assim como ninguém seria capaz de fabricar ácido sulfúrico dentro de um recipiente de papel: o recipiente seria dissolvido pela própria substância que se propunha conter. Um fluxo de lava incandescente em alta pressão jorrou numa golfada de dentro dele, algo tão quente que ele quis gritar, e tão quente que ele sequer teve tempo de gritar. Sua consciência ardeu, crepitou e extinguiu-se, e ele tombou numa escuridão abençoadamente sem sonhos, onde já não existiam o ódio nem o terror.

Vassago percebeu que estava gritando, possuído por um júbilo selvagem, inarticulado. Depois de doze, quinze, vinte golpes, a arma de vidro estava praticamente destruída, e finalmente, num gesto relutante, ele abriu os dedos contraídos e deixou o gargalo da garrafa tombar sobre o carpete. Rosnando, ele se arremessou contra o sofá, jogando-o para o lado e fazendo o cadáver do homem tombar sobre o chão. Agarrando a mesinha, ele a arremessou contra a TV, onde Humphrey Bogart estava sentado numa sala de tribunal militar, brincando com um par de esferas de rolimã em suas mãos ásperas e falando alguma coisa sobre morangos. A TV implodiu, e Bogart transformou-se numa chuva de estilhaços brilhantes, cuja visão desencadeou em Vassago um novo frenesi destrutivo. Ele derrubou com um pontapé uma mesinha, arrancou dois quadros da parede, despedaçando o vidro e as molduras, varreu com um gesto uma porção de bibelôs de cerâmica enfileirados ao longo de uma prateleira. Pelo seu gosto, teria continuado arrebentando o apartamento de ponta a ponta, tirando cada prato de dentro dos armários da cozinha e quebrando-os no piso, reduzindo todos os copos e garrafas da casa a cacos, retirando a comida do refrigerador e jogando-a contra as paredes, agarrando as peças menores da mobília e martelando-as de encontro às outras até fazer todas elas em pedaços; mas se deteve bruscamente ao escutar o som de uma sirene, distante a princípio, mas aproximando-se cada vez mais, até que o significado daquele som conseguiu penetrar aos poucos na névoa espessa de frenesi assassino que obscurecia seus pensamentos. Correu na direção da porta, mas recuou, pensando que àquela altura devia haver pessoas no pátio ou olhando pelas janelas. Deixou a sala de visitas e foi na direção do quarto de dormir: puxando as cortinas da janela, avistou logo abaixo o teto da garagem, que corria ao longo da parte traseira do prédio. Um beco, ladeado por um muro de tijolos, ficava do lado oposto. Ele destrancou a janela, ergueu a parte inferior, esgueirou-se através da abertura, e logo deixava-se cair sobre o teto da garagem, rolando até a beirada e deixando-se cair sobre o piso de cimento, aterrissando sobre os pés, como um felino. Seus óculos escuros caíram no chão, mas ele os recolheu e os colocou novamente no rosto. Correu para a esquerda, rumo à parte traseira do prédio, ouvindo agora o som da sirene muito, muito alto, e muito próximo. Ao se aproximar do muro de três metros de altura que fechava os fundos do prédio, atirou-se contra ele, galgando-o com a mesma facilidade de uma aranha de pernas longas subindo ao longo de uma superfície irregular qualquer; e num instante tinha sumido, correndo ao longo do beco dos fundos de outro edifício, ao longo de uma garagem semelhante à que ele acabava de deixar para trás. Fugiu por entre os prédios, encontrando por puro instinto o caminho no meio daquele labirinto de becos e passagens, até emergir na mesma rua onde tinha estacionado e a apenas meio quarteirão de distância do Honda cinza-pérola. Entrou no carro, ligou o motor e afastou-se dali tão calmamente quanto pôde, suando e respirando com tanta força que logo embaçou os vidros do carro. Aspirando profundamente a mistura de odores de uísque, sangue e suor, ele sentiu-se tremendamente excitado, e tão gratificado por aquela explosão de violência que não se conteve e esmurrou várias vezes o volante, enquanto dirigia, deixando escapar gargalhadas agudas de prazer que tinham um travo de histeria.

Durante algum tempo guiou ao acaso, entrando de uma rua para outra sem nenhuma idéia de para onde seguir. Depois que passou o acesso de riso, ele orientou-se e rumou mais ou menos na direção do sul e do leste, de volta ao esconderijo.

Se William Cooper podia ter proporcionado alguma pista de como encontrar a mulher chamada Lindsey, esta pista agora estava eliminada para sempre. Vassago não se preocupou. Não sabia o que estava sucedendo com ele, e porque Cooper, ou Lindsey, ou o homem no espelho tinham sido colocados em contato com ele através de meios sobrenaturais. Sabia apenas que se confiasse no seu deus das trevas tudo aquilo mais cedo ou mais tarde iria se esclarecer.

Estava começando a imaginar se o Inferno o teria deixado retornar propositalmente, mandando-o de volta ao mundo dos vivos a fim de entrar cm contato com determinadas pessoas que o deus das trevas queria ver mortas. Talvez ele não tivesse sido raptado do Inferno, afinal de contas, mas mandado de volta à vida, numa missão de destruição cujo sentido ia agora se revelando aos poucos. Se fosse este o caso, ele estava satisfeito em se tornar o instrumento da poderosa divindade das trevas em cuja companhia ele sonhava estar novamente; e ficou a esperar com ansiedade qual a próxima tarefa que lhe seria designada.

Pouco antes do amanhecer, depois de várias horas de um sono profundo em que sua consciência pareceu totalmente obliterada, Hatch despertou e a princípio não conseguiu saber onde estava. Por um momento pareceu boiar num mar de incerteza, mas logo sentiu-se lançado de volta pelas ondas na praia da memória: estava em seu quarto de dormir, com Lindsey adormecida e respirando suavemente ao seu lado, e a luz cinzenta da manhã filtrando-se por entre as persianas como uma poeira prateada.

Ao recordar a inexplicável e monstruosa crise de fúria que o acometera durante a noite, com força paralisante, seu corpo se retesou de medo. Tentou lembrar até onde aquela fúria o impelira, em que tipo de ato violento ela havia culminado, mas sua mente estava em branco. Pareceu-lhe que tinha simplesmente desmaiado, como se aquela raiva anormalmente intensa houvesse sobrecarregado os circuitos de sua mente e derretido um ou dois fusíveis.

Tinha desmaiado... ou sofrido uma crise de amnésia? Havia uma enorme diferença entre as duas coisas. Se desmaiara, então passara a noite inteira na cama, exausto, como uma pedra que se enterra no fundo do mar. Mas se sofrerá uma crise de amnésia, ficando consciente mas sem saber o que estava fazendo, uma espécie de "branco" psicótico, sabe Deus o que poderia ter feito durante a noite.

De repente, sentiu que Lindsey poderia estar correndo um sério perigo.

Com o coração martelando de encontro às costelas, ele sentou na cama e olhou para ela. A luz do amanhecer era ainda muito débil para mostrá-la com clareza. Era apenas um vulto sombrio recortando-se de encontro aos lençóis.

Ele estendeu a mão para o interruptor da lâmpada de cabeceira, mas hesitou. Tinha medo do que poderia ver.

Eu nunca faria mal a Lindsey, nunca, pensou ele em desespero.

Mas ele lembrava muito bem que por um instante, naquela mesma noite, ele não tinha sido mais ele próprio. Sua raiva contra Cooper parecia ter aberto uma porta dentro dele, deixando penetrar ali algum monstro informe que vagava pela escuridão.

Tremendo, ele conseguiu por fim apertar o botão. A luz da lâmpada revelou que Lindsey dormia pacificamente, sorrindo, tranqüila como sempre.

Com enorme alívio, ele desligou a lâmpada — e então lembrou-se de Regina, e a onda de ansiedade ergueu-se novamente dentro dele.

Ridículo. Ele não faria mal a Regina, tampouco. Ela era apenas uma criança indefesa.

Ele não conseguia parar de tremer, pensando.

Deslizou para fora da cama sem acordar a esposa. Apanhou seu roupão de banho que estava jogado sobre uma cadeira, vestiu-o e deixou o quarto em silêncio.

Descalço, caminhou pelo corredor, onde um par de clarabóias deixava entrar largas faixas da luz do amanhecer, e seguiu até a porta do quarto de Regina. De início caminhou depressa, mas logo foi diminuindo o passo; o medo tornava suas pernas pesadas como se estivesse usando um par de botas de ferro.

Em sua mente, formou-se a imagem de uma cama de mogno escuro, com flores pintadas, coberta de sangue, os lençóis rubros e encharcados. Por alguma razão, teve a noção absurda de que iria encontrar a garota com o rosto encravado de cacos de vidro. A estranha nitidez dessa imagem o convenceu de que ele tinha, sem dúvida alguma, praticado alguma atrocidade contra ela durante um ataque de amnésia.

Quando entreabriu a porta e olhou para dentro do quarto, viu que Regina dormia tão tranqüilamente quanto Lindsey, na mesma posição em que ele a tinha visto na noite anterior, quando ele e Lindsey tinham vindo até ali dar uma espiada antes de se deitar. Nada de sangue. Nada de cacos de vidro.

Engolindo em seco, ele fechou novamente a porta e retornou pelo corredor, parando debaixo da primeira clarabóia. Ficou algum tempo ali sob o facho de luz pálida da aurora, olhando para o alto através dos vitrais, como se esperasse ver uma explicação escrita em letras enormes no próprio céu.

Nenhuma explicação apareceu. Ele permaneceu confuso e ansioso.

Pelo menos Lindsey e Regina estavam bem, não haviam sido tocadas por... por qualquer presença que tivesse entrado em contato com ele durante a noite anterior.

Lembrou-se de um velho filme de vampiros que vira muito tempo atrás, no qual um velho e encarquilhado padre advertia uma jovem mulher de que os vampiros não podem entrar numa casa a menos que sejam convidados — mas eles eram tão hábeis e persuasivos que acabavam convencendo até as pessoas mais precavidas a fazerem aquele convite fatal.

De algum modo, um vínculo qualquer se formara entre Hatch e aquele psicopata que matara a jovem punk loura chamada Lisa. Ao não reprimir o acesso de raiva que tivera contra William Cooper, Hatch fortalecera esse vínculo. Sua raiva fora a chave que abrira a porta. Cedendo à raiva, ele acabara fazendo um convite semelhante àquele contra o qual o padre havia prevenido a jovem mulher no filme. Ele não conseguia explicar por que sabia que aquilo era verdade; mas sabia, com certeza, sabia disso até a medula dos ossos. E daria tudo para entender por que era assim.

Sentiu-se perdido.

Pequeno, e impotente, e aterrorizado.

E embora Regina e Lindsey tivessem atravessado aquela noite sem sofrer nada, ele agora sabia, mais do que nunca, que elas estavam correndo grande perigo. Um perigo que aumentava a cada dia. A cada hora.

 

3

Antes do dia começar a clarear, naquela manhã de 30 de abril, Vassago tomou um banho, usando garrafas de água mineral e sabonete líquido. Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir no céu, ele já tinha se refugiado com toda segurança na parte mais oculta do seu esconderijo. Deitado no seu colchão, olhando para o alto através do poço do elevador, ele comeu devagar um pacote de biscoitos enquanto bebia cerveja morna; depois comeu mais dois pacotes de salgadinhos.

O assassinato era sempre uma coisa tremendamente satisfatória. Pressões internas enormes eram liberadas com cada golpe mortal que ele desferia. Mais do que isso: cada assassinato era um ato de rebelião contra todas as coisas tidas como sagradas, contra os mandamentos, as leis, as regras, os irritantes e ridículos sistemas de comportamento empregados pelos seres humanos para manter a ficção de que a vida era algo precioso e cheio de significado. Não. A vida era algo sem valor e sem sentido. Nada importava," a não ser as sensações e a gratificação dos desejos, algo que apenas os seres fortes e livres tinham a capacidade de entender. Depois de cada crime, Vassago se sentia tão livre quanto o vento e mais poderoso do que uma máquina de aço.

Até uma certa noite quando tinha doze anos de idade — uma noite especial, gloriosa — ele fizera parte daquelas massas escravizadas, abrindo caminho lentamente através da vida, seguindo as regras da chamada civilização, mesmo que elas não fizessem sentido aos seus olhos. Fingia amar sua mãe, seu pai, sua irmã e todos os parentes, embora não sentisse por eles mais do que o que sentiria por qualquer estranho com quem cruzasse numa rua. Em criança, quando já era grande o bastante para começar a pensar nessas coisas, imaginava se havia algo de errado com ele, se havia algum elemento faltando em sua personalidade. Via a si próprio jogando aquele jogo que eles chamavam de amor, empregando estratégias de falsa afeição e de bajulação desavergonhada, e ficava abismado em ver como os outros se deixavam convencer — porque ele conseguia perceber a insinceridade em sua própria voz, podia sentir o componente de fraude que havia em cada gesto e estava consciente da mentira escondida por trás de seus sorrisos de afeto. Então, um belo dia, ele subitamente começou a perceber um laivo de falsidade nas vozes dos outros e nos seus rostos, e só então entendeu que eles também nunca tinham conhecido nem o amor nem nenhum dos nobres sentimentos que uma pessoa civilizada, segundo eles próprios, devia cultivar: altruísmo, coragem, piedade, humildade e todo o resto daquele insuportável catecismo. Eles também estavam fingindo. Depois, concluiu que a maior parte deles, mesmo os adultos, nunca alcançara aquele grau de percepção das coisas, e permaneciam sem perceber que todo mundo era exatamente como eles próprios. Cada pessoa imaginava que era única, que algo faltava dentro dela, e que o melhor que tinha a fazer era entrar no jogo... ou deixar-se descobrir e sofrer o ostracismo, sendo vista pelos demais como algo menos que um ser humano. Deus havia tentado criar um mundo cheio de amor, e falhara, e ordenara a suas criações que fingissem ter atingido a perfeição que ele fora incapaz de lhes conferir. Percebendo essa verdade espantosa, Vassago dera o seu primeiro passo na direção da liberdade. Numa noite de verão, quando tinha apenas doze anos, finalmente entendera que para ser livre, completamente livre, tinha que agir de acordo com o que acabara de descobrir, tinha de começar a viver de modo diferente do resto da humanidade, levando em consideração apenas o seu próprio prazer. Tinha de estar disposto a exercer sobre as outras pessoas o poder que ele possuía pelo simples fato de conseguir entender a verdadeira essência deste mundo. Naquela noite, aprendeu que a capacidade de matar sem remorsos era a mais pura forma de poder, e que o exercício desse poder era o maior de todos os prazeres...

Naqueles dias, antes de morrer e ressurgir dos mortos, antes de adotar o nome do príncipe-demônio Vassago, o nome que lhe tinham dado e que usara durante toda a vida era Jeremy. Seu melhor amigo tinha sido Tod Ledderbeck, o filho do Dr. Sam Ledderbeck, um ginecologista que Jeremy, quando queria provocar Tod, chamava de "charlatão das rachas".

Naquela manhã do início de junho, a Sra. Ledderbeck levara Jeremy e Tod ao Mundo da Fantasia, o fantástico parque de diversões que, contra todas as expectativas, começava a se tornar um sério concorrente à Disneylândia. Situava-se nas colinas, poucas milhas a leste de San Juan Capistrano, um pouco fora de mão — assim como a Magic Mountain tinha sido fora de mão antes de acabar sendo rodeada pelos subúrbios de Los Angeles e, como a própria Disneylândia, parecera estar situada no meio do nada, ao ser construída no terreno de uma fazenda próxima à obscura cidade de Anaheim. O parque havia sido construído com capital japonês, o que causou preocupação àquelas pessoas que achavam que os japoneses iam acabar um dia comprando o país inteiro, e também circulavam boatos de que havia dinheiro da Máfia envolvido no negócio, o que tornava o parque ainda mais misterioso e atraente. Mas, finalmente, o que importava era que a atmosfera do local era perfeita, os brinquedos fantásticos, e a comida de lanchonete ideal para qualquer criança viciada em comida de lanchonete. O Mundo da Fantasia foi o lugar que Tod escolheu para passar o seu 12º. aniversário, na companhia de seu melhor amigo, livre da vigilância dos pais desde a manhã até as dez da noite; e Tod geralmente acabava conseguindo o que queria, porque era um bom garoto e todo mundo gostava dele; ele sabia exatamente como jogar o jogo.

A Sra. Ledderbeck os deixou em frente ao portão principal e gritou, enquanto eles saíam correndo do carro:

— Pego vocês aqui às dez horas, aqui mesmo! Quero todos dois aqui às dez em ponto!

Depois de comprar os ingressos e penetrar no parque, Tod disse:

— Onde você quer ir primeiro?

— Não sei. Onde você quer?

— Vamos no Escorpião.

— Sim!

— Vamos lá!

E os dois partiram em disparada, rumo à área norte do parque, onde ficavam os enormes trilhos do Escorpião — "A Montanha-Russa com Ferrão!", segundo os anúncios da TV —, erguendo-se em linhas sinuosas de encontro ao céu azul. O parque não estava cheio ainda, e não precisaram abrir caminho entre multidões de gente vagarosa. Seus tênis ressoavam de encontro ao asfalto, enquanto eles corriam pela alameda, e cada estalo das solas de borracha de encontro ao pavimento era como um grito de liberdade. Subiram no Escorpião, gritando e assobiando enquanto ele mergulhava com estrondo ao longo da rampa, virava de cabeça para baixo, escalava os trilhos e mergulhava novamente. Quando a corrida acabou, eles correram para a rampa de embarque e recomeçaram tudo.

Naquela época, Jeremy já amava a velocidade. Os mergulhos e as guinadas bruscas das máquinas do parque, capazes de revirar o estômago de qualquer um, eram um substituto infantil para a violência pela qual ele já ansiava de maneira obscura. Depois de duas corridas no Escorpião, e tendo ainda pela frente tantas outras engenhocas para correr, voar, disparar, subir, mergulhar e tudo o mais, Jeremy estava se sentindo eufórico.

Mas Tod estragou o dia quando eles vinham cruzando o portão de saída da montanha-russa, após sua segunda corrida. Ele passou o braço em redor dos ombros de Jeremy e disse:

— Puxa, isso é o melhor aniversário que alguém podia querer... eu e você, e ninguém mais.

Aquela amizade, como toda amizade, era falsa. Uma ilusão. Uma fraude. Jeremy odiava toda aquela falsidade açucarada, mas Tod parecia deleitar-se nela. "Meu melhor amigo... irmãos de sangue... eu e você contra o resto do mundo..."

Jeremy não sabia que hipótese o irritava mais: que Tod ficasse o tempo todo martelando na tecla de melhores amigos, imaginando que Jeremy era capaz de engolir toda aquela baboseira ou que o próprio Tod fosse idiota o bastante para achar que tudo aquilo era verdade. Em tempos mais recentes, Jeremy começara a desconfiar que certas pessoas jogavam tão bem o jogo da vida que nem chegavam a suspeitar que se tratava de um simples jogo. Eles enganavam até a si mesmos com sua conversa sobre amizade, amor e compreensão mútua. E Tod estava cada vez mais parecendo ser um desses idiotas.

Para Jeremy, ser o melhor amigo de alguém era simplesmente uma maneira de forçar essa pessoa a fazer por você coisas que de outro modo ela não faria nem em um milhão de anos. A amizade era também uma espécie de pacto de defesa mútua, uma maneira de juntar forças contra a multidão de pessoas anônimas eternamente dispostas a pisar no pescoço de qualquer um e tornar-lhe tudo o que tinha. Todo mundo sabia que amizade era apenas isso, mas ninguém se atrevia a dizer a verdade, muito menos Tod.

Mais tarde, após saírem da Casa Mal-Assombrada, seguindo para outra atração chamada o Monstro do Pântano, eles pararam junto a um quiosque que vendia sorvetes com calda de chocolate e nozes. Sentaram-se em cadeiras de plástico, diante de uma mesinha de plástico, embaixo de um guarda-sol vermelho, tendo atrás de si uma cerca viva de acácias e cascatas artificiais. Ficaram ali saboreando os sorvetes, e a princípio tudo estava perfeito, mas Tod tinha que estragar tudo.

— É ótimo vir ao parque sem os adultos, não é?—disse ele com a boca cheia de sorvete.—Agente pode tomar sorvete antes do almoço, como agora.

Ora que diabo, a gente pode almoçar sorvete, se quiser, e depois tomar sorvete de novo, e não tem ninguém por perto para ficar falando bobagens sobre perder o apetite ou ficar doente.

— É ótimo — concordou Jeremy.

— Vamos sentar aqui e tomar sorvete até vomitar.

— Vamos. Mas não vamos desperdiçar o sorvete.

— Como assim?

— Quando a gente vomitar — disse Jeremy —, é melhor não vomitar o sorvete no chão. Vamos vomitar em cima de alguém.

— Isso mesmo! — gritou Tod, pegando a deixa imediatamente. —

Alguém que mereça. Alguém que seja totalmente vomitável.

— Como aquelas garotas—disse Jeremy, indicando duas belas adolescentes que iam passando. Usavam shorts brancos e blusas leves em cores brilhantes, e estavam tão certas de sua beleza que dava vontade de vomitar, mesmo que você não tivesse comido nada e não conseguisse produzir mais do que contrações no estômago.

— Ou aqueles velhotes ali — disse Tod, apontando um casal idoso que

comprava sorvete.

— Não, eles não — disse Jeremy. — Aqueles dois têm cara de quem acabou de levar uma vomitada na cabeça.

Tod achou aquilo tão hilariante que se engasgou com o sorvete. Em alguns aspectos, Tod era um cara legal.

— Engraçado, esse sorvete — disse ele, depois que o engasgo passou.

— O quê? — perguntou Jeremy, mordendo a isca.

— Eu sei que o sorvete é feito de leite, que vem das vacas. E o chocolate é feito do cacau, que é uma planta. Mas essas nozes parecem pedaços de cérebro. Será que eles moem cérebros humanos para colocar no sorvete?

Bem, com certeza o velho Tod era um sujeito legal em muitas coisas.

Mas quando os dois estavam em plena gargalhada, e se sentindo ótimos, ele se inclinou sobre a mesa, passou a mão de leve pela cabeça de Jeremy e disse:

— Jer, eu e você vamos ser amigos para sempre, vamos ser amigos até eles nos darem de comer aos vermes, não é mesmo?

Ele acreditava. Sim, acreditava naquilo, estava enganando a si próprio. Era um cara tão estupidamente sincero que Jeremy teve vontade de vomitar nele.

Em vez disso, Jeremy disse:

— O que você vai fazer agora... me dar um beijo na boca?

Sorrindo, sem perceber a impaciência e a hostilidade na voz do outro, Tod respondeu:

— Não, vou dar um beijo na bunda de sua avó.

— Na bunda da sua avó.

— Minha avó não tem bunda.

— Não? E ela senta em cima de quê?

— Em cima da sua cara.

Saíram correndo na direção do Monstro do Pântano, fazendo piadas um com o outro durante todo o caminho. O brinquedo era desajeitado, um tanto rústico, mas exatamente por isso era mais divertido ainda. Durante algum tempo, Tod voltou a ser um sujeito legal para se divertir.

Mais tarde, no entanto, após deixarem o pavilhão da Batalha Espacial, Tod começou a se referir a eles dois como "os dois melhores pilotos de foguete do universo", o que deixava Jeremy meio constrangido, por ser uma coisa tão estúpida e infantilóide. Também o irritava porque no fundo não passava de uma maneira diferente de dizer "nós somos amiguinhos, somos coleguinhas, somos parceiros". Rumavam novamente para o Escorpião, e no momento em que ele deixou a estação, Tod dizia: "Isto aqui não é nada, é um passeio de domingo para os dois melhores pilotos de foguete do universo"; ou então estavam entrando na fila para o Mundo dos Gigantes, e Tod passava o braço nos ombros de Jeremy e dizia: "Ora essa, os dois melhores pilotos de foguete do universo podem enfrentar um gigante qualquer, não é mesmo?"

Jeremy sentia impulsos de dizer: Olhe aqui, seu babaca, a única razão de sermos amigos é meu pai e o seu trabalharem em profissões parecidas, e é só por isso que nós dois andamos juntos. Detesto essa história de passar o braço no meu ombro, então é melhor tirá-lo daí já. Vamos dar umas risadas juntos e ficar nisso, OK?

Mas não disse nada, claro — porque um bom jogador nunca admite que aquilo ali não passa de um jogo. Se você deixar que os outros jogadores percebam que você não liga a mínima para as regras e as normas, eles não vão mais deixar que você continue jogando. Vá para a prisão. Direto para a prisão. Não passe por aqui. Não se divirta.

Mais ou menos às sete da noite, após comerem todos os lanches disponíveis e estarem prontos para vomitar torrencialmente sobre alguém, se fosse o caso, Jeremy já estava tão entediado com aquela história de "pilotos do espaço" e tão furioso com a afetividade açucarada de Tod, que mal podia esperar pelas dez horas, quando a Sra. Ledderbeck viria buscá-los de carro.

Estavam na Centopéia, disparando ao longo de um dos trechos do trajeto que ficavam totalmente às escuras, quando Tod fez mais uma referência aos melhores pilotos do espaço, e Jeremy decidiu matá-lo. No instante em que aquela idéia passou como um relâmpago pela sua mente, ele soube que teria de matar seu "melhor amigo". Era exatamente aquilo. Se a vida era um jogo cujo livro de regras tinha um número de páginas incalculável, então era um jogo absolutamente sem graça—a menos que você descobrisse uma maneira de violar as regras e conseguir permanecer jogando. Qualquer jogo acabava sendo tedioso se jogado de acordo com as regras: monopólio, rummy, beisebol... Mas se você conseguia executar uma jogada proibida, trapacear nas cartas sem ser flagrado ou mudar o resultado dos dados enquanto o outro sujeito estava distraído, então um jogo tedioso podia se tornar excitante. E no jogo da vida, cometer um assassinato e sair limpo era a maior excitação que podia haver.

Quando a Centopéia parou, com um rangido estridente, na plataforma de desembarque, Jeremy disse:

— Vamos dar outra volta.

— Claro — disse Tod.

Partiram em disparada pelo corredor de saída, para dar a volta e entrar novamente. Durante o dia a afluência de pessoas tinha aumentado, e a fila de espera para cada brinquedo demorava cerca de vinte minutos.

Quando saíram do pavilhão da Centopéia, o céu já estava escuro ao leste, de um azul profundo por sobre suas cabeças, e alaranjado a oeste. O crepúsculo chegava mais cedo e durava mais tempo no Mundo da Fantasia que na parte oeste da região, porque entre o parque e o mar distante estendiam-se as cordilheiras que tapavam o sol. Aquelas cordilheiras eram agora silhuetas negras de encontro ao horizonte alaranjado, como decorações de Dia das Bruxas fora da época.

Com a aproximação da noite, o Mundo da Fantasia assumira uma outra fisionomia, muito mais festiva. Todos os brinquedos e construções estavam decorados com gambiarras de luzes coloridas. Luzes brancas em pisca-pisca davam uma aparência estonteante às arvores, enquanto um par de enormes holofotes fazia movimentos sem sincronia ao longo das encostas nevadas da Montanha do Pé-Grande, uma enorme construção artificial. O néon brilhava por toda parte, em todas as tonalidades de cor que o néon pode oferecer, e na Ilha Marciana jatos coloridos de laser eram disparados aleatoriamente na direção do céu, como se estivessem combatendo um ataque de espaçonaves. O vento trazia o cheiro de pipoca e de amendoim torrado e fazia farfalhar as longas fileiras de bandeirolas penduradas por toda parte. De cada pavilhão emergia o som de música em estilos diferentes e das épocas mais diversas, enquanto puro rock-and-roll estrondeava no dancing ao ar livre situado na extremidade sul do parque, enquanto de alguma outra direção chegavam os ecos remotos de uma orquestra executando números de swing. Pessoas riam e falavam alegremente, e nas engrenagens dos brinquedos mecânicos ouvia-se gente gritando o tempo todo no auge da excitação.

— Vamos de piloto-suicida agora — disse Jeremy, quando ele e Tod alcançaram resfolegantes o fim da fila de entrada na Centopéia.

— Isso mesmo! — disse Tod. — Piloto-suicida!

A Centopéia era basicamente uma montanha-russa em recinto fechado, como a Montanha Espacial na Disneylândia, com a diferença de que em vez de subir e descer rodeando uma área circular, ela disparava ao longo de uma série de túneis, uns iluminados, outros não. A barra de segurança, colocada à frente dos passageiros, era apertada o bastante para oferecer segurança, mas um garoto delgado e ágil podia contorcer o corpo o bastante para se esgueirar por baixo dela, primeiro a barriga, depois as pernas; em seguida saltar por cima e postar-se à sua frente, agarrando-a atrás de si ou passar os dois braços sobre ela, prendendo-se com a parte interna dos cotovelos; isso era o estilo

"piloto-suicida".

Era uma proeza estúpida e perigosa, o que Jeremy e Tod sabiam muito bem. Mas já tinham feito aquilo uma ou duas vezes, afinal de contas — se não na Centopéia, em brinquedos de outros parques. Brincar de piloto-suicida aumentava a excitação do passeio em mil por cento, especialmente naqueles túneis totalmente às escuras, onde era impossível avistar o que vinha em seguida.

— Pilotos do espaço! — gritava Tod, enquanto eles estavam a meio caminho na longa fila da Centopéia; e oferecia as mãos espalmadas para Jeremy bater um high-five em saudação, o que ele fazia, embora se sentindo como um garoto idiota. — Nenhum piloto do espaço tem medo de bancar o piloto-suicida, certo?

— Certo — dizia Jeremy.

Finalmente, os dois passaram a porta principal e entraram no pavilhão. Gritos agudos soavam na direção em que os vagões que acabavam de partir ruidosamente rumo à escuridão dos túneis.

De acordo com uma lenda — uma lenda repetida por todos os garotos que freqüentam parques de diversões com esse tipo de brinquedos — um garoto tinha morrido fazendo piloto-suicida na Centopéia, porque era alto demais. O teto dos túneis era elevado em todos os trechos bem iluminados, mas todos diziam que havia um único ponto, num dos trechos escuros, em que o teto era rebaixado— fosse porque tubos de ar-condicionado passavam naquele trecho, fosse porque os engenheiros haviam convencido o construtor a colocar ali um suporte extra, fosse porque o arquiteto era maluco, De qualquer modo, esse tal garoto alto acabou tendo a cabeça esmagada de encontro a essa parte rebaixada do teto, sem nem sequer saber o que lhe aconteceu. Sua cabeça foi pulverizada instantaneamente, e todos os idiotas desprevenidos que vinham nos vagões de trás levaram um banho de sangue, pedaços de cérebro e dentes partidos.

Jeremy não acreditava nisso nem por um instante. Um parque como o Mundo da Fantasia não tinha sido construído por arquitetos com bosta de vaca na cabeça. Eles certamente sabiam que os garotos cedo ou tarde conseguiriam passar por sob a barra de segurança, porque nada neste mundo era inteiramente à prova de garotos, e teriam tido o cuidado de manter o teto alto em toda a extensão do trajeto. A lenda também dizia que aquela parte rebaixada ainda existia do mesmo modo numa das seções do túnel, com manchas de sangue e pedaços de cérebro secos grudados na superfície... o que era totalmente idiota.

O perigo real para quem fizesse piloto-suicida, de pé no vagão, era o de cair para fora do carro quando este desse uma guinada brusca para um dos lados ou acelerasse inesperadamente. Jeremy calculava que deveria haver pelo menos seis ou oito curvas especialmente perigosas no trajeto da Centopéia, curvas onde Tod Ledderbeck poderia facilmente ser projetado do carro... com um mínimo de ajuda externa.

A fileira de vagões começou a se mover lentamente para diante, aproximando-se deles.

Jeremy não estava nem impaciente nem temeroso. À medida que iam se aproximando da plataforma de embarque, ele ficava mais excitado e ao mesmo tempo mais confiante. Suas mãos nem sequer tremiam. Não sentia o medo gerando borbulhas em sua barriga. Ele simplesmente queria fazer aquilo.

A plataforma de embarque era construída de modo a reproduzir uma caverna com imensas estalactites e estalagmites. Estranhas criaturas de olhos brilhantes chapinhavam nas águas turvas de lagoas sinistras e caranguejos mutantes e albinos se arrastavam pelas praias, erguendo enormes pinças desajeitadas na direção das pessoas na plataforma, fazendo movimentos de ameaça; mas suas patas não eram longas o bastante para poder proporcionar-lhes algum tipo de refeição.

Cada trem tinha seis vagões, e cada vagão levava duas pessoas. Os vagões eram pintados como se fossem os segmentos do corpo de uma centopéia: o primeiro deles tinha uma enorme cabeça de inseto, com mandíbulas articuladas e enormes olhos pretos multifacetados; não uma simples pintura, mas uma cabeça verdadeiramente monstruosa. O último vagão exibia um ferrão curvo que parecia pertencer mais a um escorpião do que ao traseiro de uma centopéia. Partiam dois trens de cada vez, o segundo logo atrás do primeiro, e os dois disparavam para dentro do túnel com apenas alguns segundos de intervalo; toda a operação era controlada por computador, o que eliminava qualquer risco de que os dois trens se chocassem.

Jeremy e Tod estavam entre os doze passageiros que os funcionários acomodaram no primeiro trem.

Tod queria ir no vagão da frente, mas eles não conseguiram. Aquela seria a melhor posição para fazer o piloto-suicida, porque tudo iria acontecer com eles antes de todos: cada mergulho nas trevas, cada jato de vapor gelado das aberturas nas paredes, cada investida através das portas vaivém para as luzes brilhantes. Além disso, parte do prazer em ser piloto-suicida era o exibicionismo, e o vagão da frente era o palco ideal para isso, com os passageiros dos outros cinco vagões sendo uma platéia cativa, nos trechos iluminados. Com o primeiro vagão já ocupado, eles correram para o último. Ir no último carro era a melhor alternativa, se não era possível ir no primeiro: os gritos dos passageiros que iam à frente, em cada manobra brusca e cada ziguezague dos trilhos, aumentava o suspense e estimulava a adrenalina. Na verdade, fazer piloto-suicida no meio do trem era algo que não tinha muita graça.

As barras de segurança desceram automaticamente, quando todos os doze passageiros estavam instalados a bordo. Um funcionário caminhou ao longo da plataforma, fazendo uma inspeção visual para se certificar de que estava tudo em ordem.

Jeremy estava aliviado pelo fato de não terem ficado no vagão da frente, onde teriam dez testemunhas às suas costas. Na escuridão sepulcral dos trechos não-iluminados do túnel, ele não seria capaz de enxergar sua própria mão a cinco centímetros de seus olhos, portanto era improvável que alguém pudesse vê-lo empurrar Tod para fora do vagão. Mas esta seria sua maior violação das regras em todos os tempos, e ele não estava disposto a correr riscos desnecessários. Agora, todas as possíveis testemunhas estavam numa posição segura, à frente deles, olhando para diante; e não poderiam olhar para trás facilmente, uma vez que os bancos dos vagões tinham encostos altos, para servir de apoio à cabeça durante as acelerações mais bruscas.

Quando o funcionário terminou de checar as barras de segurança, voltou-se e fez um sinal para o operador, que estava sentado diante de um painel de controle instalado numa formação rochosa à entrada do túnel.

— E lá vamos nós — disse Tod.

— Lá vamos nós — concordou Jeremy.

— Pilotos do espaço! — gritou Tod.

Jeremy trincou os dentes.

— Pilotos do espaço! — repetiu Tod.

Que diabo. Uma vez a mais ou a menos não vai fazer diferença, pensou Jeremy e berrou:

— Pilotos de espaço!

O trem não largava da plataforma com aquele balanço meio desajeitado, típico das montanhas-russas. Um tremendo jato de ar comprimido o projetava para diante em alta velocidade, como uma bala disparada através do cano de uma arma de fogo, com um whoooooshhhhl que chegava a doer nos ouvidos.

Eles sentiram-se esmagados de encontro ao encosto dos bancos, quando passaram como um relâmpago pelo operador e mergulharam na boca negra do túnel.

Escuridão total.

Naquele tempo ele tinha apenas doze anos. Ainda não havia morrido. Ainda não descera ao Inferno. Não tinha regressado. Na escuridão, ele era tão cego quanto qualquer outra pessoa, tão cego quanto Tod.

Então, eles passaram com ruído por uma porta de vaivém e penetraram num longo trecho iluminado e ascendente, de início em alta velocidade, mas diminuindo aos poucos até irem praticamente se arrastando. De ambos os lados dos trilhos, eram ameaçados por enormes lesmas esbranquiçadas do tamanho de um ser humano, que se erguiam e guinchavam em sua direção através de bocas arredondadas e cheias de dentes pontudos que giravam como as lâminas de uma máquina de triturar lixo. Aquela subida tinha a altura de um edifício de seis ou sete andares, num ângulo bastante inclinado, e durante todo o trajeto havia monstros mecânicos que piavam, balbuciavam, rosna-am e guinchavam na direção do trem; todos eram pálidos e pegajosos, com olhos brilhantes ou então olhos que não passavam de buracos escuros — o tipo de criaturas que você imaginaria que deve existir muitos quilômetros abaixo da superfície da terra... se você não tiver o menor conhecimento sobre ciência.

Continuar: parte 3 de 4