Esconderijo

Dean R. Koontz · Capítulo 5 de 8 · parte 3/4

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Esconderijo

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Essa primeira rampa ascendente era o trecho em que os pilotos-suicidas tinham que se posicionar. Havia outras rampas parecidas no restante do trajeto, mas nenhuma delas era tão extensa, nenhuma proporcionava um período tão longo de tranqüilidade para se poder executar com êxito a manobra de passar por baixo da barra de segurança.

Jeremy se contorceu, espremendo-se de encontro ao banco do vagão, mas aos poucos conseguiu puxar o corpo para cima, centímetro por centímetro; mas Tod a princípio não se moveu.

— Vamos, bunda-mole — disse Jeremy. — A gente tem que estar em posição antes da descida.

Tod parecia inseguro.

— Se nos pegarem, eles nos expulsam do parque.

— Eles não vão nos pegar.

No final da corrida, o trem atravessaria um último trecho de escuridão, onde os passageiros tinham uma chance de se acalmar um pouco antes da chegada. Naqueles últimos segundos, antes de emergirem novamente na falsa caverna de onde tinham partido, era possível se esgueirar de volta por baixo da barra de segurança e instalar-se outra vez no assento. Jeremy sabia que poderia fazê-lo; não estava preocupado com a possibilidade de ser surpreendido. E Tod também não precisava se preocupar com isso, porque àquela altura Tod estaria morto e nunca mais precisaria se preocupar com coisíssima alguma.

— Não quero ser expulso do parque porque fiz piloto-suicida — disse Tod, enquanto o trem já alcançava a metade do trajeto ascendente na rampa.

— Foi um dia tão legal, e ainda faltam umas duas horas até mamãe vir nos pegar.

Ratos albinos, mutantes, chiavam e mostravam os dentes para eles nas rochas de ambos os lados da passagem.

— OK — retrucou Jeremy, enquanto continuava a forçar o corpo por

baixo da barra de ferro. — Você é mesmo um filhinho-da-mamãe.

— Eu não sou filhinho-da-mamãe — disse Tod, em tom defensivo.

— Ora, claro que é.

— Não sou.

— Quando as aulas recomeçarem, em setembro, você vai entrar para o Clube das Jovens Donas de Casa, vai aprender a cozinhar, bordar toalhinhas de mesa, fazer arranjos de flores...

— Você é um escroto, sabia disso?

— Oooooh, você partiu meu coração — disse Jeremy, no instante em que conseguiu libertar as pernas de sob a barra de segurança, e pôr-se de cócoras sobre o assento do vagão. — Vocês garotas sabem mesmo ferir os sentimentos da gente.

— Seu... crepazóide.

O trem continuava escalando a rampa, com o clangor metálico e os rangidos típicos dos trens de montanha-russa, um som que já bastaria para fazer o coração bater mais rápido e o estômago dar voltas.

Jeremy saltou por cima da barra de segurança e ficou de pé no estreito espaço vazio à frente dela, olhando para diante. Olhou para Tod por cima do ombro. Ele continuava sentado, carrancudo, no mesmo lugar. Não estava preocupado em saber se Tod viria juntar-se a ele ou não. Decidira matá-lo, e se isso não fosse possível, ali no Mundo da Fantasia, no dia do aniversário dele, poderia fazê-lo em outro lugar, mais cedo ou mais tarde. O simples fato de estar planejando aquilo já era bastante divertido. Era como aquela canção do comercial de ketchup na TV, onde se dizia que o molho era tão espesso que parecia levar horas para sair da garrafa: ex-pec-ta-tiüiii-va... Se tivesse que esperar alguns dias ou mesmo algumas semanas por outra boa chance para matar Tod, isso tornaria o crime ainda mais divertido. Assim, ele não insistiu mais e limitou-se a olhar para Tod com uma expressão de sarcasmo. Ex-pec-ta-tiiii-va...

— Eu não estou com medo — disse Tod.

— Eu sei.

— Eu só não quero estragar o dia.

— Claro.

— Crepazóide! — disse Tod.

Jeremy retrucou:

— Piloto de foguete porra nenhuma!

O insulto teve um efeito imediato. Tod estava tão envolvido na sua ilusão de amizade que era possível atingi-lo: bastava insinuar que ele não sabia como um verdadeiro amigo devia se comportar. A expressão de seu rosto largo e franco revelou não apenas uma enorme mágoa, mas um súbito desespero que surpreendeu Jeremy. Talvez Tod entendesse de fato o que era a vida; talvez ele soubesse que ela não passava de um jogo brutal onde cada jogador se concentrava apenas no objetivo egoísta de ser o vencedor, e talvez o velho Tod vivesse assustado com isso, e estivesse apenas se agarrando a uma derradeira esperança — o conceito de amizade. Se o jogo pudesse ser jogado com um ou dois companheiros, em parceria, se o mundo inteiro estava contra o seu time, isso era algo tolerável, muito melhor do que o mundo inteiro contra ele só. Tod Ledderbeck e seu melhor amigo Jeremy, contra o resto da humanidade, era algo ligeiramente romântico e aventureiro, mas Tod Ledderbeck sozinho, certamente, era uma perspectiva que lhe provocava um desarranjo intestinal.

Sentado por trás da barra de segurança, Tod primeiro pareceu ferido, e depois assumiu uma expressão resoluta. A indecisão deu lugar à ação, e Tod começou a mexer-se rápido, espremendo-se furiosamente por baixo da barra de ferro.

— Vamos, vamos logo — disse Jeremy. — Estamos quase em cima.

Tod deslizou sob a barra, saltou por cima dela, e logo estava de pé ao lado de Jeremy, no estreito espaço destinado às pernas dos passageiros. Durante a passagem, prendeu o pé na barra, e quase caiu do vagão.

Jeremy o agarrou pelo braço e o ajudou a equilibrar-se. Aquele não era o lugar certo para Tod cair. Estavam se movendo muito devagar, e no máximo ele sofreria alguns arranhões.

Por fim estavam os dois, lado a lado, os pés plantados firmemente no assoalho do vagão, as costas apoiadas na barra de ferro e os braços curvados para trás, segurando a barra com toda força; sorriam um para o outro, enquanto o vagão alcançava a parte superior da rampa. O trem passou ruidosamente entre as portas de vaivém e penetrou em mais um trecho não iluminado. Os trilhos corriam horizontalmente agora, apenas o tempo necessário para aumentar um pouco mais a tensão dos passageiros. Ex-pec-ta-tiiii-va... Quando Jeremy não podia mais prender a respiração, o vagão da frente precipitou-se na rampa de descida, e as pessoas começaram a gritar na escuridão. Então, um após o outro, seguiram-se o segundo, o terceiro, o quarto vagão...

— Pilotos do espaço! — gritaram Jeremy e Tod em uníssono.

...e o último vagão do trem seguiu os outros naquele mergulho quase vertical, aumentando de velocidade a cada segundo. O vento passava zunindo por eles, jogando seus cabelos para trás. Então veio uma guinada brusca para a direita, quando eles menos esperavam, numa inclinação ascendente que revirou seus estômagos, depois outra curva para a direita, os trilhos inclinados fazendo o peso dos carros cair todo para um lado só, e mais rápido, mais e mais, depois um trecho em linha reta e uma nova inclinação, onde a velocidade projetou o trem mais alto do que em qualquer outro trecho, a marcha diminuindo aos poucos até chegar no alto, mais devagar, mais de-va-gaaaar... Ex-pec-ta-tiii-va... O trem cruzou novamente a borda e eles mergulharam para baixo, e mais, e mais, e maaaaaais, com tal rapidez e tal empuxo que Jeremy sentiu como se seu estômago tivesse sido arrancado e ficado lá para trás, deixando um buraco no meio de seu corpo. Ele sabia o que vinha mais adiante, mas ainda assim ficou sem respiração. O trem fez um looping completo, ficando de cabeça para baixo. Ele fincou os pés no chão com toda força e agarrou a barra de segurança atrás de si como se quisesse que sua carne se fundisse ao metal, porque sentiu como se fosse se desprender do carro, caindo verticalmente sobre o trecho por onde tinham acabado de passar e rachando a cabeça nos trilhos. Ele sabia que a força centrípeta o manteria no lugar, mesmo ele estando de pé, numa posição proibida, mas o que ele sabia não fazia diferença: o que sentimos sempre tem mais peso do que o que sabemos; a emoção importa mais do que o intelecto. De repente tinha passado o loop, irrompendo com um estrondo através de mais uma porta de vaivém, que dava acesso a mais uma subida iluminada, onde a tremenda velocidade que os conduzia seria bastante para levá-los ao topo, e depois a um novo mergulho e a nova série de manobras e guinadas bruscas.

Jeremy olhou para Tod.

O velho piloto do espaço estava ligeiramente esverdeado.

— Não vai ter mais loops — gritou Tod por sobre o clangor das rodas do trem. — O pior já passou.

Jeremy explodiu numa gargalhada. Pensou: O pior está vindo por aí, babaca. E para mim está vindo a melhor parte. Ex-pec-ta-tiii-va... Tod riu, também, mas certamente por outra razão. Quando chegaram ao topo da segunda subida, os vagões atravessaram uma terceira porta de vaivém, mergulhando-os novamente na treva — e Jeremy sentiu um arrepio, porque pensou que Tod Ledderbeck acabara de ver a luz pela última vez em sua vida. O trem sacolejava para a esquerda e para a direita, e por fim chegou ao topo, e mergulhou mais uma vez, descrevendo uma nova seqüência de quedas e parafusos.

Durante todo aquele tempo, Jeremy sentia a presença de Tod ao seu lado. Seus braços nus roçavam um no outro de vez em quando, e seus ombros se chocavam quando o vagão jogava mais bruscamente para o lado. Cada contato provocava uma descarga de intenso prazer através de Jeremy, eriçava os cabelos da sua nuca, deixava sua pele toda arrepiada. Ele sabia que naquele instante detinha um poder absoluto sobre o outro garoto, o poder da vida e da morte, e ele era diferente de todos os outros indivíduos bunda-moles do mundo, porque ele não tinha medo de usar esse poder.

Esperou por um trecho próximo ao fim da corrida, onde ele sabia que o sacolejar ondeante do vagão iria deixar os pilotos-suicidas no maior grau de instabilidade. Nessa altura, Tod estaria se sentindo mais confiante — o pior já passou — e seria mais fácil pegá-lo de surpresa. A chegada ao lugar escolhido foi anunciada por um dos truques mais inesperados da Centopéia — um giro completo em 360 graus, em alta velocidade, com os vagões inclinados para um lado, quase na horizontal; terminado esse giro, os vagões voltariam à posição normal, e entrariam numa série de seis "colinas" sucessivas, não muito altas, mas colocadas uma imediatamente após a outra, de modo que o trem iria se mover como uma minhoca, num trajeto sobe-des-ce-sobe-desce-sobe-desce, até a derradeira porta de vaivém, que daria acesso à enorme caverna onde se situavam as plataformas de embarque e desembarque.

O trem começou a se inclinar para um lado. Entraram no giro em 360 graus.

Os vagões giravam a toda velocidade, quase na horizontal. Tod tentou permanecer em posição reta, mas acabou pendendo na direção de Jeremy, que estava na parte de dentro do vagão, enquanto este se inclinava para a direita. O velho piloto do espaço estava berrando a plenos pulmões, feliz da vida, tentando aproveitar ao máximo aqueles derradeiros instantes, agora que o pior já tinha passado.

Ex-pec-ta-tiii-va...

Jeremy calculou que já haviam percorrido um terço do círculo.

Metade...

Dois terços...

Os trilhos começaram a se endireitar, os vagões diminuindo sua luta contra a gravidade.

Num salto brusco, que quase cortou a respiração de Jeremy, o trem alcançou a primeira das seis colinas e arremessou-se para o alto.

Ele largou a barra de segurança com a mão direita, a do lado oposto a Tod.

O trem mergulhou para baixo.

Ele cerrou com força o punho direito.

Mal atingiu o ponto mais baixo, o trem voltou a elevar-se bruscamente, até alcançar o topo da segunda colina.

Jeremy girou o corpo, desferindo um soco com toda a força de que era capaz, confiando em seu instinto para acertar em cheio o rosto de Tod.

O trem mergulhou.

O punho de Jeremy acertou em cheio, bem no meio do rosto do outro garoto, e ele sentiu o nariz do outro se achatando.

O trem voltou a disparar para o alto, enquanto Tod gritava, embora isso não fizesse a menor diferença em meio aos gritos histéricos dos outros passageiros.

Talvez, por uma fração de segundo, Tod pensasse que seu rosto tinha se chocado de encontro ao lendário trecho rebaixado do teto, que teria decapitado um garoto muito tempo atrás; em pânico, largaria a barra de segurança. Pelo menos era isso que Jeremy esperava, de modo que no instante em que seu soco acertou o piloto do espaço, quando o trem começou a descer a terceira inclinação, ele próprio largou a barra de ferro e agarrou seu melhor amigo, sacudindo-o de um lado para o outro, com toda força de que era capaz. Sentiu que Tod reagia e tentava agarrar seu cabelo, mas livrou a cabeça com uma sacudidela brusca, ergueu o joelho, atingindo o quadril do outro... ...o trem começou a subir a quarta ladeira...

.. .e Tod foi arremessado por sobre a borda do vagão, sumindo nas trevas, como se tivesse desaparecido no vácuo sideral, Jeremy quase tombou junto com ele, mas tateou freneticamente na escuridão até que sua mão encontrou a barra de segurança, agarrando-a...

...o vagão precipitou-se rugindo na descida seguinte...

...Jeremy acreditou ter escutado um derradeiro grito de Tod e depois um choque surdo quando ele atingiu a parede do túnel e tombou nos trilhos por onde o trem tinha acabado de passar, embora pudesse ter sido apenas sua imaginação...

.. .enquanto o trem escalava a quinta subida com um sacolejar que deixou Jeremy prestes a vomitar...

...e Tod estava morto lá atrás, na escuridão, ou talvez apenas atordoado, semiconsciente, tentando ficar de pé...

...houve o mergulho na descida e Jeremy foi sacudido para a frente e para trás, quase largou a barra de ferro, e num instante pareceu flutuar outra vez, quando o trem escalou a sexta colina...

...e se não estava morto ainda, Tod talvez estivesse começando a perceber que o segundo trem estava a caminho...

...e mais um mergulho final, e o trem disparou para diante, rumo ao derradeiro trecho horizontal do percurso.

Assim que sentiu o trem de volta em terra firme, Jeremy enfiou-se rapidamente por trás da barra de segurança, colocando primeiro a perna esquerda, depois a direita.

A última série de portas emergiu da escuridão. Por trás da última delas, estava a caverna de entrada e saída; ele não podia deixar os funcionários perceberem que ele vinha fazendo piloto-suicida.

Fez um derradeiro e frenético esforço para passar seus quadris no espaço estreito entre a barra de segurança e o banco do vagão. Na verdade, não era tão difícil; dava mais trabalho sair de sob a barra do que voltar para a posição original.

Irromperam através da porta de vaivém — wham! — até que o trem foi diminuindo gradualmente de velocidade rumo à plataforma de desembarque, cerca de trinta metros atrás do local onde haviam embarcado. Havia gente amontoada na plataforma de embarque, a maioria com os olhos fitos no trem, no momento em que este emergiu do túnel. Por um instante Jeremy temeu que alguém apontasse um dedo acusador em sua direção e gritasse: "assassino!"

No momento em que o trem parou ao lado da plataforma de desembarque, luzes vermelhas de emergência começaram a piscar em toda a caverna, indicando a direção da saída. Dos alto-falantes camuflados entre as rochas artificiais começou a brotar uma voz computadorizada:

— A Centopéia teve que fazer uma parada de emergência. Todos os

passageiros, por favor, permaneçam em seus lugares.

No momento em que o trem parou de todo, a barra de segurança destravou automaticamente, e Jeremy ficou de pé e, apoiando a mão na parte lateral do carro, saltou para a plataforma.

— Por favor... todos os passageiros permaneçam em seus lugares até

que os funcionários os conduzam para a saída...

Os funcionários uniformizados que havia na plataforma trocavam olhares irresolutos, sem entender o que tinha acontecido.

— Todos os passageiros, favor permanecer em seus lugares...

Da plataforma, Jeremy olhou para trás na direção do túnel, por onde tinha acabado de sair. O segundo trem estava justamente cruzando a porta de vaivém.

— As demais pessoas queiram se encaminhar com calma até a saída

mais próxima...

O trem que se aproximava, contudo, não deslizava sobre os trilhos como o outro; movia-se de um modo curiosamente irregular, balançando, como se fosse descarrilar de um instante para o outro.

Com um sobressalto, Jeremy avistou aquilo que estava preso às rodas dianteiras do trem, erguendo-as dos trilhos. Outras pessoas na plataforma deviam ter visto o mesmo, ao mesmo tempo, porque no mesmo instante começaram a gritar, não os gritos previsíveis de puxa-vida-que-loucura-que-acabamos-de-passar que se ouviam em todo o restante do parque, mas gritos de horror e de náusea.

— Todos os passageiros, favor permanecer em seus lugares...

O trem veio balançando e sacolejando até se deter na plataforma. Alguma coisa pendia da enorme boca de inseto que decorava a frente do primeiro vagão, alguma coisa agarrada entre as mandíbulas. Eram os restos mortais do velho piloto do espaço... e um lanche suculento para um monstro de boca enorme como a Centopéia.

— As demais pessoas queiram se encaminhar com calma até a saída mais próxima...

— Não olhe, garoto—disse um funcionário, em tom paternal, pegando

Jeremy pelos ombros e virando-o de costas para aquela visão terrível.— Pelo amor de Deus... vá embora daqui, rápido.

Àquela altura, os funcionários tinham se refeito do choque o suficiente para começarem a guiar a multidão para as portas de saída, indicadas por setas luminosas e vermelhas. Percebendo que estava trêmulo de excitação, sorrindo como um idiota, e demasiado eufórico para poder desempenhar o papel de inconsolável-melhor-amigo-do-finado, ele se juntou à multidão que se espremia em pânico rumo à saída, aos empurrões e cotoveladas.

Uma vez ao ar livre, ele viu que lá fora, em plena noite, as luzes coloridas continuavam piscando e os fachos de laser voltavam a se entrecruzar na direção do céu, e arco-íris de néon cintilavam em todas as direções: milhares de pessoas circulavam por entre os brinquedos, em busca de diversão, ignorando que a Morte caminhava por entre eles. Jeremy afastou-se correndo da Centopéia. Abrindo caminho por entre a multidão, evitando habilmente um esbarrão depois do outro, ele não tinha a menor idéia de para onde estava indo. Sabia apenas que precisava correr até pôr uma boa distância entre ele e o corpo destroçado de Tod Ledderbeck.

Por fim, parou junto do lago artificial, onde alguns flutuadores hovercraft zumbiam, levando e trazendo passageiros para a Ilha Marciana. Sentia-se como se ele próprio estivesse em Marte ou em algum outro planeta remoto onde a gravidade fosse menor do que a da Terra. Sentia-se leve, a ponto de flutuar, de sair boiando pelo espaço afora.

Sentou-se num banco de concreto, com as costas viradas para o lago, fitando uma passarela bordejada de flores por onde fluía uma torrente incessante de pessoas, e por fim liberou a gargalhada que vinha reprimindo dentro de si, como alguém que tampa a boca de uma garrafa de Pepsi e a agita vigorosamente. Algumas pessoas olharam para ele, e um casal chegou a se deter para perguntar se ele tinha se perdido de seus pais. A crise de riso era tão intensa que ele soluçava, e lágrimas corriam pelo seu rosto. As pessoas pensavam que ele estava chorando — um garoto de doze anos que tinha perdido de vista os pais e era delicado demais para poder suportar isso. Semelhante mal-entendido fez com que ele gargalhasse mais ainda.

Quando a risada foi amainando, ele se inclinou para diante, olhando os pés calçados de tênis, e começou a preparar o discurso que devia apresentar à Sra. Ledderbeck quando ela viesse buscá-los às dez horas — supondo que até aquela altura as autoridades do parque não tivessem identificado o corpo e contactado a família. Eram oito horas ainda. "Ele queria brincar de piloto-suicida", ensaiou ele baixinho, fitando os tênis, "e eu tentei fazer com que desistisse, mas ele não me dava atenção, me chamou de bunda-mole quando eu disse que não iria com ele. Desculpe, Sra. Ledderbeck, Dr. Ledderbeck, mas ele falava assim de vez em quando. Ele achava que falando assim parecia mais adulto." Até aí estava bom, mas ele ia precisar de um pouco mais de tremor na voz: "Eu não queria fazer o piloto-suicida, de modo que ele foi sozinho na Centopéia. Fiquei esperando na saída, e quando aquelas pessoas vieram correndo, e falando de um garoto todo despedaçado e sangrando, eu achei que tinha de ser ele... e eu... não sei, acho que me deu um branco. Eu não lembro mais nada."

Os funcionários da plataforma não iriam lembrar se Tod tinha embarcado sozinho ou com outro garoto; eles lidavam com milhares de passageiros por dia, e não iriam recordar quem estava sozinho, e quem estava acompanhado de quem. "Lamento tanto, Sra. Ledderbeck, eu devia ter insistido para que ele não fizesse aquilo... Devia ter ficado ao lado dele e feito alguma coisa para impedi-lo. Eu me sinto tão estúpido, tão... tão incompetente. Como é que pude deixar que Tod fosse sozinho na Centopéia? Que espécie de melhor amigo sou eu?"

Nada mau. Precisava de um pouco mais de ensaio, e precisava ter cuidado para não exagerar na dramatização. Umas lágrimas, uma voz entrecortada. Mas nada de muitos soluços, nada de espernear.

Tinha certeza de que iria se sair bem.

Ele agora era um Mestre do Jogo.

Quando terminou de organizar mentalmente sua versão da história, olhou em redor e percebeu que estava com fome. Estava literalmente faminto, trêmulo. Foi até um quiosque-lanchonete e pegou um enorme hot-dog com tudo a que tinha direito — cebola, molho, chili, mostarda, ketchup — e o devorou, juntamente com um Crush. A fome continuava. Pediu um "sanduíche de sorvete", onde dois biscoitos de aveia e chocolate serviam como as fatias de pão.

O lado mais visível da fome passou, mas ele ainda se sentia um tanto trêmulo por dentro. Não era medo, Era um tremor delicioso, como aquele que ele experimentava no passado sempre que olhava para uma garota e pensava em estar com ela; mas era algo indescritivelmente melhor do que aquilo. E também parecia um pouco com a sensação que ele experimentava ao longo da espinha quando passava por baixo da grade de proteção e ficava de pé na borda de um penhasco arenoso no parque de Laguna Beach, olhando lá para baixo, onde as ondas se chocavam de encontro aos rochedos, e sentia a terra cedendo devagarinho debaixo dos dedos de seus pés, debaixo do peito do pé, atingindo a metade do pé,,, enquanto ele mantinha-se alie esperava, esperava, imaginando se aquele solo traiçoeiro iria ceder subitamente e precipitá-lo lá embaixo nas rochas, antes que ele tivesse tempo de saltar para trás e agarrar a grade de proteção; mas ele esperava... e esperava...

Mas esta nova sensação era melhor do que estas duas, combinadas. E crescia a cada minuto, em vez de diminuir, uma sensação de calor interno que a morte de Tod, em vez de apaziguar, tinha estimulado.

Aquele desejo obscuro transformou-se numa necessidade imperiosa.

Ele saiu a andar pelo parque, em busca de algo que pudesse satisfazê-lo.

Estava um pouco surpreendido com o fato de o Mundo da Fantasia continuar funcionando normalmente, como se nada tivesse acontecido na Centopéia. Tinha esperado que o parque inteiro cessasse de funcionar, e não apenas um brinquedo. Agora, ele percebia que o dinheiro era mais importante do que as lamentações pela morte de um cliente. E mesmo que as pessoas que tinham visto o corpo de Tod estivessem espalhando a notícia, isso provavelmente seria encarado como apenas mais uma versão da velha lenda. O nível de alacrídade do parque não tinha diminuído nem um pouco.

Por uma vez ele se atreveu a passar nas imediações da Centopéia, embora ficasse a uma certa distância: ele não achava que seria capaz de disfarçar sua euforia pelo que tinha feito, e seu orgulho pelo novo status que tinha adquirido. Mestre do Jogo. Agora havia correntes esticadas em barras de ferro em redor de todo o pavilhão, para impedir a aproximação de quem quer que fosse. Na porta de entrada, havia uma placa anunciando FECHADO PARA CONSERTO. Certamente não estariam tentando consertar o velho Tod. O piloto do espaço estava além do alcance da técnica. Não havia nenhuma ambulância à vista, mas eles deviam pelo menos ter pensado que iriam precisar de uma; também não se via nenhum rabecão ou carros de polícia. Estranho.

Então lembrou-se de uma reportagem de TV que tinha visto certa vez sobre o Mundo da Fantasia: catacumbas intermináveis formadas por túneis de serviço subterrâneos, armazéns, centros de segurança e de operação computadorizada dos brinquedos... tudo como na Disneylândia. Para não chocar os fregueses e evitar a curiosidade da multidão, eles provavelmente estariam agora utilizando os túneis para trazer os policiais e os encarregados de transporte do corpo até o necrotério ou a delegacia.

Aquele tremor dentro de Jeremy tornou-se mais intenso. Aquele desejo. Aquele impulso incontrolável.

Ele era um Mestre do Jogo. Ninguém poderia fazer-lhe mal.

Bem que poderia dar aos policiais e aos papa-defuntos um pouco mais de ocupação, mantê-los em atividade.

Continuou andando, os olhos alerta, em busca de uma oportunidade. Acabou por encontrá-la quando menos esperava, ao entrar no mictório público masculino.

Um homem jovem, cerca de trinta anos, estava parado diante de uma pia, examinando-se no espelho, penteando sua espessa cabeleira loura, que reluzia de brilhantina. Tinha colocado sobre o tampo da pia uma porção de objetos pessoais: carteira, chaves do carro, um pequeno spray de perfumar o hálito, um pacote meio vazio de goma de mascar Dentyne (esse sujeito devia ter uma paranóia de mau hálito) e um isqueiro.

Foi o isqueiro que chamou imediatamente a atenção de Jeremy. Não era um simples isqueiro Bic, de plástico, descartável, e sim um daqueles isqueiros de aço, em forma de uma pequena fatia de pão, com uma parte superior armada sobre dobradiça, que quando puxada para fora revelava uma pedra circular e uma mecha. A luz da lâmpada fluorescente do teto, refletida na superfície cheia de curvas do isqueiro, dava-lhe um ar sobrenatural, possuído por uma radiação estranha, e que atraía o olhar de Jeremy como um farol.

Ele hesitou um momento, depois foi na direção do mictório. Quando terminou e subiu o fecho da calça, o homem louro continuava diante do espelho, dando os últimos retoques.

Jeremy sempre lavava as mãos depois de usar o banheiro, porque isso era o que as pessoas educadas faziam. Esta era uma das regras que os bons jogadores costumavam seguir.

Foi até a pia ao lado daquela onde estava o outro. Enquanto ensaboava devagar as mãos com a espuma do sabonete líquido, não conseguia tirar os olhos do isqueiro a apenas alguns centímetros de distância. Disse a si mesmo que era melhor afastar o olhar dali. O sujeito ia acabar percebendo que ele estava pensando em furtar aquela maldita coisa. Mas aqueles suaves contornos prateados continuavam magnetizando sua atenção. Ainda olhando para ele, enquanto esfregava as mãos na espuma, ele imaginou que quase podia ouvir os estalidos de um fogo devorador.

Recolocando a carteira no bolso de trás, mas deixando os demais objetos em cima da pia, o homem louro deu as costas ao espelho e foi na direção dos mictórios. Quando Jeremy estava a ponto de dar um bote sobre o isqueiro, um homem e seu filho pequeno entraram juntos no banheiro; podiam ter estragado tudo, mas entraram dentro de um dos reservados e fecharam a porta. Jeremy percebeu que aquilo era um sinal. Vá, e faça — dizia aquele sinal. Vamos logo, pegue, faça isso agora, já. Jeremy deu uma rápida olhadela na direção do homem que urinava sem pressa, pegou o isqueiro, girou nos calcanhares e saiu do banheiro, sem enxugar as mãos. Ninguém veio atrás dele.

Segurando o isqueiro com força na mão direita, ele saiu pelo parque, à procura do combustível mais adequado. Aquele desejo dentro dele era agora tão intenso que os tremores se propagavam pelo seu púbis e seu ventre e ao longo da espinha, terminando mais uma vez em suas mãos, e também nas pernas, que de tanta excitação pareciam fraquejar.

Um impulso... incontrolável.

Ao comer o último salgadinho, Vassago enrolou cuidadosamente o saco plástico vazio, formando um tubo muito fino, deu-lhe um nó sobre si mesmo até reduzir seu tamanho o máximo possível e o jogou num saco plástico de lixo que mantinha ao lado do isopor com as bebidas. Limpeza era uma das regras primordiais no mundo dos vivos.

Gostava de mergulhar nas recordações daquela noite especial, oito anos atrás, quando tinha apenas doze e se transformara para sempre; mas agora estava cansado e precisava dormir. Talvez sonhasse com aquela mulher chamada Lindsey. Talvez tivesse alguma outra visão, e essa visão pudesse lhe fornecer uma conexão que o levasse a ela, porque de alguma forma ela parecia fazer parte do seu destino; ele estava sendo arrastado na direção dela por forças que não entendia por completo, mas que respeitava. Na próxima vez não iria cometer o erro que havia cometido com Cooper. Não iria deixar que o impulso o dominasse. Primeiro faria perguntas. Quando tivesse recebido todas as respostas, e só então, faria um belo festival de sangue e mandaria outra alma se juntar às multidões infinitas que já haviam deixado este mundo insuportável.

 

4

Na terça de manhã, Lindsey ficou em casa para trabalhar um pouco em seu estúdio, enquanto Hatch levava Regina para a escola e dali seguia para um encontro com o encarregado de liquidação de um espólio na parte norte de Tustin, que estava recebendo ofertas para uma coleção de antigos vasos e faianças Wedgwood. Depois, ele teria uma consulta com o Dr. Nyebern para receber o resultado dos exames que tinha feito no sábado anterior. Quando ele pegasse Regina na saída e voltasse para casa, no final da tarde, Lindsey esperava ter concluído a tela em que vinha trabalhando há cerca de um mês. Esse, pelo menos, era o seu plano — mas o destino, alguns gnomos travessos e sua própria mente acabaram conspirando para sabotá-lo. Antes de mais nada, a cafeteira entrou em pane, e Lindsey teve que remexer na máquina durante uma hora até conseguir localizar e resolver o problema. Ela levava jeito para consertar eletrodomésticos, e por sorte não era um defeito demasiado sério. O fato é que Lindsey não conseguia encarar um dia de trabalho sem uma boa dose de cafeína para lhe dar um impulso inicial. Sabia que o café não lhe fazia muito bem à saúde; mas sabia também que cianureto e solução de bateria também não lhe fariam o menor bem... e ela não bebia nenhum dos dois, o que era uma prova de seu autocontrole em termos de hábitos alimentares. Deus do céu — ela era firme como uma rocha!

Quando ela finalmente conseguiu subir para seu estúdio conduzindo uma caneca de louça e uma garrafa térmica cheia, a luz que entrava pelas janelas viradas para o norte era absolutamente ideal para seus planos. Ali, tinha tudo de que precisava: tintas, pincéis, espátulas. Tinha seu armário de utilidades. Tinha seu banco graduável, seu cavalete, seu aparelho de som com pilhas de CDs de Garth Brooks, Glenn Miller e Van Halen — o que de certa forma lhe parecia a música de fundo adequada para uma artista cujo estilo era uma mistura de neoclassicismo e surrealismo. Ela só não tinha duas coisas: interesse pelo trabalho que estava finalizando e capacidade de se concentrar.

Sua atenção foi desviada várias vezes por uma lustrosa aranha negra que explorava o canto superior direito na janela mais próxima. Ela não gostava de aranhas, mas a idéia de matá-las também lhe causava repugnância. Decidiu que a apanharia dentro de um vidro, para soltá-la no jardim depois. A aranha foi subindo de cabeça para baixo ao longo da moldura superior da janela, até atingir o canto superior esquerdo, mas logo perdeu o interesse por aquele território e marchou de volta para o canto direito, onde flexionou e exercitou as longas pernas, parecendo encontrar naquele recanto alguma qualidade agradável que só as aranhas seriam capazes de apreciar devidamente.

Lindsey voltou a atenção para a pintura. Estava quase pronta, e era um dos seus melhores quadros, necessitando apenas de uns poucos retoques.

Mas ela hesitava em abrir tubos de tinta e empunhar o pincel, porque levava suas preocupações tão a sério quanto levava sua arte. Estava preocupada com a saúde de Hatch, é claro — tanto sua saúde física quanto a saúde mental. Estava preocupada, também, com o estranho homem que tinha assassinado aquela loura e sobre a misteriosa conexão que tinha se estabelecido entre esse psicopata assassino e seu marido.

A aranha começou a descer ao longo da janela, até se refugiar no canto direito do peitoril. Depois de examiná-lo, aparentemente, com todo o equipamento sensorial dos aracnídeos, chegou à conclusão, mais uma vez, de que ele também não lhe agradava... e retornou ao ângulo superior direito.

Como tantas outras pessoas, Lindsey achava que poderes paranormais eram um assunto ideal para filmes de terror ou, na vida real, para charlatanismo. No entanto, ela havia de imediato sugerido a clarividência como uma explicação para o que tinha acontecido com Hatch. E batera ainda mais nessa tecla, quando Hatch declarou que não tinha nada de paranormal.

Agora, desviando a atenção da aranha e voltando a fitar seu quadro inacabado, cheia de frustração, ela percebia por que motivo tinha defendido com tanto entusiasmo uma explicação paranormal para aqueles fatos quando, na sexta-feira, ela e Hatch tinham seguido a pista do assassino até a estrada de Laguna Canyon. Se Hatch tivesse se tornado paranormal, cedo ou tarde ele começaria a captar impressões emitidas por todo tipo de pessoas, e portanto o laço que o unia ao assassino não seria o único. Mas se ele não era paranormal, se o laço que o unia àquele monstro era mais profundo e infinitamente mais estranho do que uma mera percepção extra-sensorial, como o próprio Hatch insistia... então os dois estavam enterrados até os joelhos em algo desconhecido. E o desconhecido era algo muito mais aterrorizante do que uma coisa que se podia descrever e definir.

Além disso, se o elo entre eles era mais misterioso e mais íntimo do que a simples captação psíquica, as conseqüências para Hatch poderiam ser psicologicamente catastróficas. Que tipo de trauma mental poderia resultar do fato de se ver, mesmo temporariamente, dentro da mente de um assassino . brutal? Será que esse elo entre os dois era alguma forma de contaminação, como seria algum tipo de elo biológico? Se fosse assim, talvez o vírus da loucura pudesse ser transmitido através do éter e infectar Hatch.

Não. Isso era ridículo. Não o seu marido. Ele era um homem confiável, equilibrado, delicado, um ser humano tão sadio quanto qualquer outro que já tivesse caminhado sobre a Terra.

A aranha tinha tomado posse do ângulo superior direito da janela e estava começando a fazer uma teia.

Lindsey lembrou o acesso de raiva de Hatch na noite anterior, quando ele viu a notícia no jornal a respeito de Bill Cooper. As contorções de fúria no seu rosto. O brilho febril dos seus olhos. Ela nunca tinha visto Hatch daquela maneira. O pai dele, sim; mas nunca ele. Embora ela soubesse do temor de Hatch quanto a ter herdado algum dos traços negativos de seu pai, ela nunca tivera nenhuma indicação disso. E talvez não o tivesse visto também na noite anterior; talvez o que presenciara fosse apenas uma parte da brutalidade do próprio assassino, refluindo sobre Hatch através daquele canal que parecia existir entre os dois...

Não. Ela não tinha nada a temer vindo de Hatch. Ele era um homem bom, a melhor pessoa que ela já tinha conhecido. Ele era um poço de bondade, um poço tão cheio que toda a loucura de um assassino como aquele podia ser derramada dentro dele e acabaria se diluindo sem produzir nenhum efeito.

Um fio brilhante e sedoso começou a fluir do abdômen da aranha, enquanto o aracnídeo se atarefava naquele recanto da janela que tinha escolhido para sua toca. Lindsey abriu uma gaveta no seu armário de utilidades e, apanhando uma pequena lente de aumento, começou a observar mais de perto o trabalho da tecedeira. Suas pernas compridas eram cobertas de centenas de pêlos minúsculos que seria impossível enxergar sem a lente. Seus olhos assustadores, multifacetados, pareciam olhar em todas as direções ao mesmo tempo, e sua mandíbula irregular movia-se continuamente, como que saboreando por antecipação a primeira mosca viva a cair na rede que estava armando.

Embora Lindsey reconhecesse que aquela criatura fazia parte da natureza tanto quanto ela, e que nela não havia maldade, ainda assim teve uma reação de repulsa. Aquela era uma parte da natureza para a qual, se dependesse de sua vontade, não queria voltar sua atenção: a parte que envolvia a caça e a morte violenta, com seres que devoravam com avidez outros seres vivos. Lindsey pousou a lente de aumento no peitoril da janela e desceu as escadas em busca de um vidro vazio na despensa. Decidiu capturar logo aaranha e retirá-la do seu estúdio antes que ela se instalasse mais comodamente.

Ao chegar no pé da escada, avistou através da janela o carro do correio e foi apanhar a correspondência na caixa colocada no portão de entrada: algumas contas, a cota mínima diária de duas propagandas por mala direta e o número mais recente de Arts American.

Estava num daqueles momentos em que qualquer coisa é um bom pretexto para não trabalhar, o que nela era pouco comum, uma vez que adorava seu trabalho. Esquecendo que tinha descido as escadas em busca de um vidro para capturar a aranha, ela voltou a subir para o estúdio levando a correspondência consigo e sentou-se numa velha poltrona colocada a um canto, depois de encher uma caneca de café, e abriu o Arts American.

Percebeu o artigo a seu respeito no momento em que seus olhos bateram sobre o sumário da revista. Ficou surpresa. A revista já falara antes sobre seu trabalho, mas ela sempre sabia com antecedência que uma matéria estava prestes a ser publicada. Em geral o redator tinha duas ou três perguntas para lhe fazer, mesmo que não se tratasse de uma entrevista propriamente dita.

Então ela viu quem assinava o artigo e franziu a testa. S. Steven Honell. Percebeu de imediato que ia ser vítima de um esquartejamento público.

Honell era um novelista cuja obra de ficção era bem comentada pela imprensa e que ocasionalmente também escrevia artigos sobre artes plásticas. Era um homem na casa dos sessenta e ainda solteiro. Sendo um indivíduo fleumático, tinha decidido ainda na juventude abrir mão das vantagens de ter uma esposa e uma família, em benefício de seu trabalho literário. Para escrever bem, dizia ele, um homem deve ter a tendência para a solidão, como se dá com os monges. Em isolamento, um homem é forçado a encarar a si mesmo mais direta e mais honestamente do que é possível na balbúrdia de uma vida repleta de outras pessoas, e ao encarar a si mesmo ele pode atingir a essência profunda dos corações de todos os seres humanos. Assim, ele tinha vivido num admirável isolamento, primeiro no norte da Califórnia, depois no Novo México. Em tempos mais recentes, havia se estabelecido na faixa ocidental da parte urbanizada do condado de Orange, no fim do Silverado Canyon, uma região que consistia de uma série de colinas cobertas de mato e ravinas onde se alternavam carvalhos da Califórnia e casas rústicas de madeira.

Em setembro do ano anterior, Lindsey e Hatch tinham ido a um restaurante nessa parte do Silverado Canyon, um local que servia drinques fortes e uma excelente carne. Haviam comido numa das mesas situadas no bar, cujas paredes eram recobertas de tábuas de pinho, com colunas de calcário servindo de apoio ao teto. Um homem de cabelos brancos, parecendo ligeiramente embriagado, estava sentado ao balcão, conversando em voz alta e deitando ralação sobre literatura, arte e política. Tinha opiniões firmes e as expressava numa linguagem extremamente cáustica. Pelo modo tolerante com que o barman e os fregueses o escutavam, Lindsey percebeu que se tratava de um freqüentador habitual da casa e uma espécie de figura folclórica do local, um desses indivíduos que contam muitas histórias e sobre o qual se contam mais ainda.

Então Lindsey o reconheceu: era S. Steven Honell. Ela lera alguns dos seus escritos e havia gostado. Admirava seu desprendimento e a devoção com que se entregava a sua arte, porque ela teria sido incapaz de abrir mão do amor, do casamento e dos filhos para se dedicar à pintura, mesmo considerando que o desenvolvimento de seu talento criador era tão importante quanto o alimento que comia ou a água que bebia. Ouvindo Honell falar, ela desejou ter escolhido outro lugar para jantar com Hatch naquele dia, porque nunca mais seria capaz de ler alguma coisa escrita por aquele homem sem lembrar algumas das suas declarações maldosas sobre o trabalho ou a personalidade de seus contemporâneos no mundo das letras. A cada drinque que bebia ele se tornava mais amargo, mais sarcástico, mais entregue a seus próprios impulsos negativos; e muito mais loquaz. A bebida revelava que por trás da imagem lendária de homem taciturno o que havia era um indivíduo vulgar e tagarela; uma pessoa que quisesse fazê-lo calar a boca iria precisar de uma seringa de veterinário cheia de Demerol ou então de uma Magnum 357. Lindsey passou a comer mais depressa, decidida a dispensar a sobremesa e afastar-se da proximidade de Honell o mais depressa possível.

Então, ele a reconheceu. Por diversas vezes a fitou por sobre o ombro, piscando os olhos úmidos, e finalmente ergueu-se e aproximou-se da mesa deles, com passos vacilantes.

— Desculpe, mas... você não é Lindsey Sparling, a pintora?

Ela sabia que Honell escrevia de vez em quando sobre artes plásticas, mas não imaginara que ele fosse capaz de reconhecê-la.

— Sim, sou eu mesma—respondeu, esperando que ele não começasse a dizer que gostava de seus quadros e esperando também que ele -não se apresentasse.

— Gosto muito dos seus quadros — disse ele. — Não vou aborrecê-la dizendo mais do que isto.

Mas no momento em que ela se descontraiu e agradeceu, ele se apresentou; e ela teve que dizer que ela também admirava o trabalho dele, o que era verdade, embora a partir daquele dia passasse a enxergá-lo por um ângulo totalmente diferente do anterior. Ele não lhe parecia mais um homem que tinha sacrificado a possibilidade de ter uma família em troca da possibilidade de se dedicar à sua arte: parecia apenas um homem incapaz de dar amor. No seu isolamento, ele devia ter encontrado maior inspiração para criar, mas ao mesmo tempo tivera mais tempo para admirar a si mesmo e se satisfazer na contemplação de sua superioridade sobre os seus semelhantes. Ela tentou fazer com que sua antipatia não se tornasse evidente demais: elogiou com vivacidade os seus romances, mas ele pareceu sentir sua rejeição, pois logo em seguida encerrou a conversa e retornou ao seu lugar no balcão.

Durante o resto da noite, ele não voltou a olhar na sua direção. E parou de discursar para as outras pessoas em redor: dali em diante, sua atenção se concentrou prioritariamente no conteúdo de seu copo.

Agora, sentada na poltrona em seu estúdio, segurando o Arts American e fitando o nome de Honell no cabeçalho do artigo, ela sentiu o seu estômago se contrair. Ela tinha vislumbrado aquele homem num momento de embriaguez, um momento em que ele desnudara sua verdadeira personalidade muito mais do que lhe convinha. Pior ainda: ela era uma pessoa de certo renome, uma pessoa que convivia num círculo social dentro do qual cedo ou tarde entraria em contato com pessoas que também conheciam Honell. Para ele, ela representava agora uma ameaça. E uma maneira de neutralizá-la seria publicar um artigo bem escrito, mas injusto, criticando seu trabalho: assim, qualquer coisa que ela pudesse dizer contra ele depois seria atribuída ao ressentimento e não seria levada a sério. Ela sabia o que esperar daquele artigo no Arts American; e Honell não a surpreendeu. Ela nunca tinha lido antes um artigo tão mal-intencionado e ao mesmo tempo tão hábil, colocado de forma a afastar qualquer sombra de suspeita sobre animosidade pessoal por parte do crítico.

Quando terminou, ela fechou a revista e a colocou suavemente sobre a mesinha ao lado da poltrona. Não a atirou de encontro à parede oposta porque sabia que esse tipo de reação teria alegrado Honell, se ele pudesse observá-la.

Então ela disse:

— Ora, que vá para o inferno.

Apanhou a revista e atirou-a na parede, com toda força de que foi capaz. Ela bateu na parede com ruído e caiu ao chão.

A pintura era algo importante para ela. Era algo que envolvia seu intelecto, sua emoção, seu talento e sua habilidade técnica, e mesmo naquelas ocasiões em que um quadro não ficava tão bom quanto ela havia esperado, essa criação não se dava sem esforço. Havia sempre uma dose de tensão misturada em cada uma delas. E havia um componente de auto-revelação que muitas vezes ultrapassava os limites da prudência. Euforia e angústia em doses equivalentes. Um crítico tinha todo o direito de não gostar da obra de um artista, desde que seu julgamento se baseasse numa análise cuidadosa e na compreensão do que o artista estava tentando alcançar. Mas aquilo não era uma crítica legítima. Era um ataque doentio. Sua pintura era algo importante, e Honell havia espalhado sujeira sobre ela

Cheia de energia fornecida pela irritação, Lindsey ficou de pé e começou a andar de um lado para o outro. Sabia que ficar enraivecida era dar a vitória a Honell; essa era justamente a reação que ele pretendia extrair dela, com aquelas críticas impiedosas. Mas ela não conseguia evitar.

Continuar: parte 4 de 4