Esconderijo
— Sei que é meio confuso para…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Loffman estava com setenta anos, mas em seus melhores sonhos ele tinha outra vez dezoito, era atlético e ágil, forte e satisfeito. Seus sonhos nunca eram sonhos eróticos, com mulheres de seios grandes abrindo as pernas numa atitude convidativa. Também não eram sonhos de poder onde ele corresse, saltasse ou escalasse penhascos, metido em perigosas aventuras. A ação era sempre banal: um passeio descansado à beira do mar no fim da tarde, descalço, com a sensação da areia molhada entre os dedos dos pés, a espuma das ondas cintilando cheia de reflexos à luz púrpura do pôr-do-sol; ou simplesmente sentado na grama à sombra de uma palmeira, numa tarde de verão, olhando um beija-flor sugar o néctar das flores brilhantes de um arbusto. O simples fato de ser jovem novamente parecia um milagre suficiente para manter o encanto do sonho e torná-lo interessante.
Naquele exato momento ele tinha dezoito anos, estava sentado num balanço na varanda da casa de Santa Ana, onde ele nascera e fora criado. Estava apenas balançando-se distraidamente e descascando uma maçã, nada mais do que isso, mas era um sonho maravilhoso, rico de perfumes e texturas, mais sensual do que se ele tivesse se imaginado num harém, cercado por beldades seminuas.
— Acorde, Sr. Loffman.
Ele tentou ignorar aquela voz porque queria continuar sozinho ali no terraço. Manteve os olhos fitos na tira de casca vermelha que estava cortando da maçã.
— Acorde, velho preguiçoso.
Ele estava fazendo o possível para não partir a casca e retirá-la numa tira contínua.
— Tomou uma pílula para dormir, ou o quê?
Para o desagrado de Loffman, o terraço, o balanço, a maçã e a faca se dissolveram na escuridão. A escuridão do seu quarto.
Despertou de vez, com um sobressalto, e percebeu que havia um intruso ali. Uma figura espectral, apenas visível, de pé ao lado da cama.
Embora ele nunca tivesse sido vítima de nenhum crime e vivesse numa área tão tranqüila quanto era possível encontrar numa época violenta, a idade instilara em Loffman um certo sentimento de vulnerabilidade. Em vista disso, ele mantinha um revólver carregado junto da lâmpada, ao lado da cama. Estendeu a mão para pegá-lo, o coração martelando forte enquanto sua mão deslizava sobre o tampo de mármore do baú francês do século XVIII que lhe servia de mesa-de-cabeceira. A arma tinha sumido.
— Sinto muito, senhor -— disse o intruso. — Não quero assustá-lo.
Fique calmo, por favor. Se é a arma que está procurando, eu a vi assim que entrei no quarto. Está comigo agora.
O estranho não poderia ter visto a arma sem acender a luz; e a luz teria acordado Loffman bem antes. Ele tinha certeza disso, de modo que continuou procurando o revólver.
Do meio da escuridão, alguma coisa fria e metálica foi pressionada com força em sua garganta. Ele teve um movimento de recuo, mas aquilo o acompanhou, numa pressão insistente, como se aquele fantasma diante dele pudesse vê-lo claramente no escuro. Ele sentiu-se gelar um instante depois, quando percebeu o que era aquilo. O cano do revólver... encostado ao seu pomo-de-adão, e agora sendo movido com habilidade, enfiando-se embaixo do seu queixo.
— Se eu puxar o gatilho, senhor, seus miolos vão se espalhar pela cabeceira da cama. Mas não preciso feri-lo. A dor vai ser desnecessária, na medida em que o senhor cooperar. Quero apenas que me responda uma pergunta importante.
Se Robert Loffman tivesse dezoito anos de idade, como nos seus melhores sonhos, não valorizaria seus anos restantes de vida como fazia aos setenta, mesmo que eles agora fossem bem mais escassos. Ele estava disposto a se aterrar à vida com a tenacidade de um carrapato. Responderia qualquer pergunta, faria qualquer coisa para salvar a própria pele, não importa o quanto isso pudesse afetar seu orgulho e sua dignidade. Tentou transmitir tudo isto ao fantasma que pressionava o revólver de encontro ao seu queixo, mas por algum motivo tudo que conseguiu foi produzir uma algaravia de sílabas e sons que não pareciam conter nenhuma mensagem inteligível.
— Sim, senhor — disse o estranho, ainda assim —, entendo e aprecio sua atitude. Agora... corrija-me se eu estiver errado; mas imagino que o negócio de antiguidades, sendo relativamente pequeno em comparação com outros, é uma comunidade bastante reduzida aqui em Laguna. Vocês todos conhecem uns aos outros, encontram-se socialmente, tornam-se amigos. , Negócio de antiguidades? Loffman quase acreditou que ainda dormia e que seu sonho tinha se transformado num pesadelo absurdo. Por que motivo alguém iria invadir sua casa durante a madrugada e ameaçá-lo com uma arma para conversar sobre o negócio de antiguidades?
— Claro — disse. — Nós... nós nos conhecemos, alguns são amigos uns dos outros, mas alguns deles não passam de ladrões. — Estava gaguejando e falando sem parar, na esperança de que seu medo mais que evidente servisse como garantia de que dizia a verdade, não importa se aquilo era um sonho ou a realidade. — Não são mais do que trapaceiros munidos de uma caixa registradora, e se você tem um mínimo de respeito por si mesmo não e torna amigo dessa gente.
— Conhece o Sr. Harrison, da "Harrison Antigüidades"?
— Oh, sim, conheço muito bem. É um homem de boa reputação, totalmente confiável... um bom sujeito.
— Já esteve na casa dele?
— Na casa dele? Oh, sim... três ou quatro vezes, e ele também já me visitou.
— Então o senhor deve ter a resposta para a pergunta importante a que me referi, senhor. Pode me dar o endereço do Sr. Harrison e me ensinar como posso chegar lá?
Loffman sentiu seu corpo relaxar um pouco com o alívio que sentiu ao constatar que podia fornecer ao intruso a informação que ele desejava. Passou muito de leve pela sua mente a idéia de que com isso poderia estar colocando Harrison em perigo. Mas talvez aquilo tudo não fosse mais que um pesadelo, afinal, e a revelação daquele detalhe não iria fazer nenhum mal. Ele disse o endereço e explicou detalhadamente como se fazia para chegar lá.
— Obrigado, senhor. Foi muito gentil. Como eu disse antes, causar-lhe dor seria desnecessário. Mas vou machucá-lo um pouco assim mesmo... acontece que eu gosto disso.
Então, aquilo era mesmo um pesadelo.
Vassago passou devagar em frente à casa dos Harrisons em Laguna Niguel. Depois de circular o quarteirão, passou novamente.
A casa exercia sobre ele uma poderosa atração, Era semelhante em estilo a todas as outras casas da rua, mas havia nela alguma coisa de diferente, algo tão indescritível e ao mesmo tempo tão fundamental que ela bem poderia ser uma estrutura isolada, erguendo-se do meio de uma planície vazia. As janelas estavam escuras, e os spots que iluminavam o jardim deviam ter sido desligados por um mecanismo automático, mas ainda que ela tivesse todas as luzes acesas ela não teria chamado tanto a atenção de Vassago, como um farol brilhante.
Ao passar diante da casa pela segunda vez, sentiu aquela imensa força gravitacional a atraí-lo. O seu destino imutável incluía aquela casa e a mulher cheia de vida que ali morava.
Nada do que ele via sugeria a possibilidade de alguma armadilha. Havia um carro vermelho parado diante da casa, em vez de na garagem, mas ele não viu nada de ameaçador nisso. Ainda assim, decidiu rodear o quarteirão pela terceira vez, para poder observar melhor.
Quando virou a esquina, uma mariposa prateada cruzou diante do facho de luz de seus faróis, retratando sua luz e brilhando fugazmente como uma brasa que escapasse de uma enorme fogueira. Ele lembrou-se do morcego que surgira das trevas naquele posto de gasolina, abocanhando silenciosamente uma mariposa em pleno vôo, engolindo-a viva.
Muito tempo depois da meia-noite, Hatch conseguiu adormecer. Seu sono era como uma mina profunda, onde veios de sonhos fluíam como filões reluzentes de mineral, ao longo das paredes escuras. Nenhum daqueles sonhos era agradável, mas nenhum era grotesco o bastante para despertá-lo. Naquele instante, ele se via parado na borda de uma ravina com uma encosta tão íngreme que não poderia ser escalada. Mesmo se o ângulo se inclinasse a ponto de permiti-lo, ainda assim ninguém poderia subir por ali, porque sua superfície era composta de uma curiosa espécie de argila branca, que se partia e se esfarelava traiçoeiramente. A argila emitia um brilho suave, e essa era a única luz que Hatch conseguia distinguir, porque o céu sobre sua cabeça era negro e sem lua, profundo mas sem estrelas. Hatch movia-se inquieto de uma extremidade a outra daquela longa ravina, indo e voltando, cheio de apreensão mas sem saber ao certo qual o motivo.
Então ele percebia algo que fazia os cabelos de sua nuca se eriçarem de medo. Aquele depósito de argila não era composto, como a maioria deles, de rocha e das conchas de milhões de criaturas marinhas. Era formada de esqueletos humanos, fragmentados e compactados, mas perfeitamente reconhecíveis aqui e acolá, onde os ossos articulados de um dedo tinham resistido intactos à compressão ou onde o que de início parecia a toca de um animal miúdo revelava-se afinal uma órbita vazia num crânio. Ele percebia, ao mesmo tempo, que o céu não estava vazio, que alguma coisa se movia nele, um vulto tão negro que se fundia à própria escuridão dos espaços, com asas coriáceas agitando-se devagar. Ele não podia ver a criatura, mas sentia que o olhar dela estava pousado sobre si e pressentia naquele olhar uma fome que nunca poderia ser saciada.
No meio do seu sono inquieto, Hatch virava-se de um lado para outro, balbuciando sons confusos de encontro ao travesseiro.
Vassago olhou o relógio no painel do carro. Antes mesmo de conferir a hora, sentiu instintivamente que faltava menos de uma hora para o sol nascer.
Ele não estava mais certo de que teria tempo bastante para invadir a casa, matar o marido e conduzir a mulher para seu esconderijo, tudo isso antes que o sol surgisse. Não queria correr o risco de ser surpreendido pela luz solar. Embora ele certamente não fosse se encarquilhar e se desfazer em poeira, como os mortos-vivos dos filmes de terror — a questão não era tão grave assim —, seus olhos eram tão sensíveis que os óculos escuros não proporcionariam proteção suficiente contra a luz do sol. A aurora iria deixá-lo praticamente cego, afetando de forma radical sua capacidade de dirigir e chamando sobre ele a atenção de qualquer policial que percebesse seu modo hesitante e incerto de guiar o carro. E, naquelas condições, ele teria dificuldade em se livrar do guarda.
Mais importante ainda: ele poderia perder a mulher. Depois de aparecer com tal freqüência em seus sonhos, ela acabara se tornando um objeto de intenso desejo. Antes, ele tinha visto aquisições de tal qualidade que se convencera imediatamente de que ela iria completar sua coleção e garantir sua imediata readmissão ao mundo selvagem de escuridão eterna e de ódio que era seu lugar — mas ele havia se equivocado. Mas nenhuma daquelas outras aparecera em seus sonhos. Esta mulher seria a jóia definitiva para completar sua coroa. Era preciso evitar qualquer tentativa prematura de tomar posse dela. Não podia perdê-la antes de extrair-lhe a vida diante da estátua de Lúcifer e depois instalar seu corpo frio numa posição que lhe parecesse simbólica de seus pecados e de suas fraquezas.
Ao passar pela terceira vez em frente à casa, ele pensou que seria melhor retornar de vez para seu esconderijo e voltar ali na noite seguinte, logo depois do pôr-do-sol. Mas esse plano também não o atraía. O fato de saber-se tão próximo dela o excitava, e ele detestava a idéia de separar-se dela novamente. Sentia seu sangue sendo atraído por ela, como as marés pela Lua.
Precisava de um lugar para se esconder perto dela. Talvez um recanto secreto daquela própria casa. Um local onde ela dificilmente pudesse encontrá-lo e onde ele pudesse se abrigar durante as horas luminosas e hostis do dia prestes a começar.
Regina foi despertada por um ruído, um thump-thump abafado, seguido por um longo rangido. Ainda pouco acostumada a sua nova casa, ela sempre acordava meio confusa, sem saber ao certo onde estava, sentindo apenas que não estava em seu velho quarto no orfanato. Tateou à procura da lâmpada de cabeceira, apertou o comutador e franziu os olhos por alguns instantes diante da luz, antes de se orientar e perceber que aqueles sons que a tinham acordado haviam sido sons furtivos, que cessaram imediatamente no instante em que ela acendeu a luz.
Ela desligou a lâmpada e escutou, numa escuridão agora tomada por manchas coloridas, uma vez que a lâmpada agira como um flash fotográfico diante de seus olhos, roubando temporariamente sua visão noturna. Embora o ruído não recomeçasse, ela acreditou que viera da direção do pátio traseiro. Sua cama era confortável. O quarto quase parecia invadido pelo perfume das flores pintadas na cabeceira. Emoldurada por aquelas rosas, ela se sentia mais segura ali do que em qualquer outra ocasião em sua vida.
Embora não quisesse levantar da cama, sabia também que os Harrisons estavam tendo algum tipo de problema e imaginou se aqueles barulhos furtivos teriam algo a ver com aquilo. Na véspera, enquanto voltavam da escola, assim como na noite anterior, durante & pizza e o cinema, ela sentira o tempo todo uma tensão que os dois procuravam ocultar dos seus olhos. Ela se considerava uma criatura desajeitada e achava que qualquer pessoa normal teria razões para se sentir nervosa em sua presença; mas sabia também que não era ela a causa daquela inquietação. Antes de dormir havia orado, pedindo que os problemas dos dois, se fosse mesmo o caso, não fossem de grande gravidade e pudessem ser resolvidos depressa; e lembrou a Deus sua promessa de comer todos os tipos possíveis de feijão.
Se havia alguma possibilidade de que aqueles barulhos furtivos tivessem alguma relação com o desassossego dos Harrisons, Regina achava que tinha a obrigação de verificar. Ergueu os olhos para a parede por trás da cama, onde o crucifixo estava pendurado, e suspirou. Não se pode contar com a ajuda de Jesus e da Virgem Maria para todas as coisas na vida. Eles eram pessoas ocupadas. Tinham um universo inteiro para administrar; e Deus ajuda a quem se ajuda a si mesmo.
Ela deslizou de sob os cobertores, ficou de pé e foi na direção da janela, apoiando-se na parede e nos móveis. Não estava usando o aparelho ortopédico e precisava dele para caminhar normalmente.
A janela dava para o pequeno pátio traseiro nos fundos da garagem, e era dali que o ruído estranho aparentemente tinha vindo. As sombras da casa, das árvores e dos arbustos não eram atenuadas sequer pelo brilho de uma Lua. Quanto mais Regina fitava, menos conseguia distinguir, como se a escuridão fosse uma esponja capaz de absorver sua capacidade de enxergar. Daquele jeito, era muito fácil acreditar que cada um daqueles impenetráveis bolsões de treva era uma coisa viva... e à espreita.
A janela da garagem estava destrancada, mas não tinha sido fácil abri-la. As dobradiças superiores estavam enferrujadas, e em alguns lugares a tinta havia pregado a folha da janela à moldura. Vassago acabou fazendo mais barulho do que esperava, mas não achou que tivesse sido o bastante para despertar alguém dentro da casa. Então, no momento exato em que as dobradiças giraram e a janela cedeu, uma luz apareceu numa janela do segundo andar.
Ele afastou-se da garagem imediatamente, embora a luz voltasse a se apagar no instante em que ele se moveu. Escondeu-se por trás de um arbusto coberto de flores, com dois metros de altura, próximo à cerca.
Do lugar onde estava, pôde ver quando ela apareceu na janela de obsidiana, mais visível aos olhos dele, talvez, do que se tivesse deixado a luz acesa. Era a garota que ele vira umas duas vezes nos seus sonhos—na última dessas vezes, junto de Lindsey Harrison. Tinham se fitado através da imagem de uma rosa negra que flutuava no ar, com uma gota de sangue numa de suas pétalas.
Regina.
Olhou para ela com incredulidade, e com uma excitação crescente. Pouco tempo antes perguntara a Steven Honell se os Harrisons tinham uma filha, mas o escritor dissera saber apenas de um filho que havia morrido anos atrás.
Separada de Vassago apenas pelo ar da noite e por uma vidraça, a garota parecia flutuar diante de seus olhos como se fosse uma visão. E o era na verdade: e muito mais bela do que aparecera em seus sonhos. Era dotada de uma tal vitalidade, era tão cheia de energia que ele não teria ficado surpreso se ela pudesse andar no meio das trevas com tanta segurança quanto ele próprio, embora por um motivo diferente: ela parecia ter dentro de si toda a luz de que necessitava para iluminar seu caminho através das trevas. Vassago encolheu-se mais no arbusto, convencido de que a garota tinha, tanto quanto ele, o poder de enxergar na escuridão.
Uma tela de metal cobria a parede imediatamente abaixo da janela de Regina. Ao longo dela enroscavam-se ramas exuberantes de jasmim-da-virgínia, rodeando a gelosia da janela e prosseguindo quase até o beiral. Ela parecia uma princesa aprisionada numa torre, esperando um príncipe que escalasse aquelas trepadeiras para libertá-la. Só que a torre que lhe servia de prisão era a própria vida, e o príncipe por quem ela esperava era a Morte; e o destino de que ela esperava ser salva era a maldição da existência. Vassago murmurou, baixinho, "Já estou indo buscá-la"; mas não se moveu de onde estava.
Depois de alguns minutos, ela se afastou da janela. Sumiu. No lugar onde ela estivera, via-se somente uma vidraça escura.
Vassago esperou com ansiedade que ela voltasse, para que pudesse vê-la de novo.
Regina.
Esperou cinco minutos, depois mais cinco. Mas ela não voltou à janela.
Finalmente, sabendo que a aurora estava cada vez mais próxima, retornou aos fundos da garagem. A janela, já forçada da primeira vez, desta vez abriu-se silenciosamente. A abertura era estreita, mas ele esgueirou-se para dentro, e o único ruído que emitiu foi o suave roçagar das roupas de encontro ao peitoril.
Lindsey passou a noite inteira alternando cochilos de meia hora de duração, mas o sono não a repousou. Toda vez que acordava estava com o corpo pegajoso de suor, mesmo com a temperatura amena que reinava na casa. Ao lado dela, Hatch resmungava algo, profundamente adormecido.
Perto da hora do amanhecer ela escutou um ruído no corredor e ergueu-se dos travesseiros, alerta. Depois de alguns instantes, escutou o ruído da descarga sendo acionada no banheiro dos hóspedes. Regina.
Voltou a deitar-se, estranhamente reconfortada pelo som daquela descarga. Era uma coisa tão banal — para não dizer ridícula — para produzir aquela reação. Mas eles tinham passado um tempo muito longo sem uma criança sob aquele teto. Ouvir a garota produzindo aqueles ruídos tão cotidianos era agradável, era repousante e fazia a noite parecer menos hostil. A despeito dos problemas por que passavam, a promessa de felicidade para suas vidas parecia agora mais real do que tinha sido em muitos anos.
De volta à cama, Regina imaginou por que motivo Deus teria dado intestinos e bexigas às pessoas. Será que aquele era mesmo o design ideal ou Deus tinha algo de humorista?
Ela lembrou de certa vez quando levantou da cama às três da madrugada no orfanato para fazer xixi; encontrando no trajeto até o banheiro uma freira, fez-lhe essa pergunta. A freira, irmã Sarafina, não ficara nem um pouco surpreendida. Naquela época Regina ainda era muito pequena para saber como surpreender as freiras, algo que necessitava anos de aperfeiçoamento e prática. A irmã Sarafina respondera sem pestanejar, dizendo que talvez Deus quisesse dar às pessoas um motivo para levantar da cama no meio da noite e ter uma oportunidade para pensar Nele e agradecer pela vida que Ele lhes concedera. Regina sorriu e agradeceu, mas pensou que irmã Sarafina estava cansada demais para pensar numa explicação melhor ou então não era muito inteligente. Deus era alguém com muita classe e não ia se dar todo esse trabalho só para fazer seus filhos pensarem a seu respeito enquanto estavam sentados na privada.
Satisfeita após sua visita ao banheiro, ela enfiou-se debaixo das cobertas em sua imensa cama de mogno e tentou imaginar uma explicação melhor do que a que a freira lhe fornecera anos atrás. Nenhum outro ruído estranho veio do pátio dos fundos e, antes mesmo que a luz vaga da aurora começasse a se filtrar pelas vidraças, ela adormeceu.
A garagem era ampla e tinha vagas para três carros, mas Vassago viu apenas um Chevrolet preto ali dentro. Havia janelas decorativas situadas na parte superior da porta da garagem, e por ali entrava alguma claridade dos postes de iluminação da rua. Uma breve inspeção não revelou a Vassago nenhum esconderijo onde ele pudesse ficar oculto dos Harrisons e da luz do sol, até a noite seguinte.
Então ele viu a corda que pendia do teto, sobre uma das vagas não ocupadas. Pegando na ponta, ele começou a puxá-la para baixo, muito devagar, depois com um pouco mais de força, mas sempre com um movimento firme e contínuo, até que o alçapão se abriu por completo; suas dobradiças estavam oleadas e silenciosas.
Quando a portinhola acabou de se abrir, Vassago desdobrou as três secções da escada afixada à sua parte traseira. A escada desdobrou-se na direção do chão, devagar; ele estava mais preocupado com o silêncio do que com a pressa.
Subiu por ela para o sótão da garagem. Certamente devia haver aberturas para ventilação à altura dos beirais, mas naquele instante o lugar parecia hermeticamente fechado.
Com seus olhos ultra-sensíveis, ele pôde ver um piso bem acabado, uma porção de caixas de papelão e algumas peças de mobília protegidas por encerados. Nenhuma janela. Acima dele, por entre os caibros, avistavam-se as tábuas grosseiras que formavam o teto. Em dois pontos daquele recinto retangular havia lâmpadas balançando na ponta de fios, mas ele não se deu o trabalho de acendê-las.
Cuidadosamente, silenciosamente, como se fosse um ator num filme em câmera lenta, ele se deitou no chão junto à portinhola por onde tinha entrado ali, estendeu os braços pela abertura e puxou para cima a escada dobrável, seção por seção. Com todo cuidado, voltou a prendê-la à portinhola. Recolocou esta no lugar outra vez sem produzir nenhum som além do estalido da mola que a prendeu, isolando-o de vez da garagem abaixo.
Ele arrancou os oleados que cobriam alguns móveis. Não estavam muito empoeirados. Ele os dobrou até fazer uma espécie de ninho entre duas caixas e se acomodou ali para aguardar a passagem do dia.
Regina. Lindsey. Estou chegando.
SEIS
1
Na manhã de quarta-feira, Lindsey levou Regina de carro para a escola. Quando retornou a sua casa em Laguna Niguel, Hatch estava na cozinha, sentado à mesa, limpando e oleando as duas pistolas Browning 9mm que adquirira para a segurança da casa.
Comprara aquelas armas cinco anos atrás, pouco depois de os médicos terem diagnosticado como terminal o câncer de Jimmy. Por volta daquela época, ele havia começado a se preocupar com os índices de criminalidade, embora estes nunca tivessem sido muito altos naquela parte do condado de Orange. Lindsey percebera, mas sem comentar, que não era de assaltantes que Hatch tinha medo, e sim da doença que estava levando embora seu filho. Impotente para lutar contra o câncer, ele secretamente ansiava pelo confronto com um inimigo que ele fosse capaz de combater.
As Brownings nunca tinham sido usadas, além de algumas sessões de treinamento. Ele insistira que Lindsey também praticasse, mas já fazia um ou dois anos que nenhum dos dois tocava naquelas armas.
— Acha que isso é uma boa idéia?—perguntou Lindsey, apontando as pistolas.
— Sim -— disse Hatch, com os lábios cerrados.
— Talvez devêssemos chamar a polícia.
— Já discutimos isso, e sabemos que não.
— Ainda acho que vale a pena tentar.
— Eles não vão nos ajudar. Eles não podem fazer nada.
Lindsey sabia que ele estava certo. Não tinham como provar a ninguém que estavam em perigo.
— Além do mais — disse ele, mantendo os olhos fitos na escova com (que limpava a parte interna do cano —, quando comecei a limpar isto aqui, liguei a TV para me distrair um pouco e vi o noticiário da manhã.
O aparelho de TV portátil, no ponto mais afastado do balcão da cozinha, estava desligado agora.
Lindsey não perguntou sobre o noticiário. Temia que fosse algo desagradável — e de certo modo já sabia o que era.
Erguendo os olhos da pistola, Hatch encarou-a,
— Encontraram Steven Honell na noite passada. Alguém o amarrou aos quatro cantos da sua cama e o espancou até a morte com um atiçador de lareira.
De início, Lindsey estava chocada demais para poder mover-se. Em seguida, sentiu-se demasiado fraca para continuar de pé. Puxou uma cadeira e deixou-se cair sobre ela.
Durante alguns instantes, na véspera, ela odiara Steven Honell tanto quanto já fora capaz de odiar alguém em toda a sua vida. Ou mais. Agora não sentia mais nenhuma animosidade contra ele. Somente piedade. Honell tinha sido um homem inseguro, escondendo essa insegurança até de si mesmo, sob a máscara de uma desdenhosa superioridade. Tinha sido um homem mesquinho e maldoso, talvez pior do que isso, mas agora estava morto, e a morte era uma punição grande demais para seus defeitos,
Ela cruzou os braços sobre a mesa e pousou a cabeça sobre eles. Não podia chorar por Honell, porque jamais gostara dele nem um pouco — excetuando talvez o seu talento. Se o fim daquele talento não era suficiente para trazer lágrimas aos seus olhos, pelo menos bastava para fazer pousar sobre ela um certo desespero.
— Mais cedo ou mais tarde — disse Hatch —, esse filho da puta virá à minha procura.
Lindsey conseguiu erguer um pouco a cabeça, que parecia estar pesando uma tonelada.
— Mas por quê?
— Não sei. Talvez nunca saiba, nunca venha a entender isto tudo. Mas eu e ele estamos ligados de algum modo, e cedo ou tarde ele virá.
— Deixe que a polícia cuide dele —- disse ela, sabendo muito bem que do lado das autoridades não poderia haver esperança de ajuda para eles, mas recusando-se teimosamente a abrir mão daquela esperança.
— A polícia não pode achá-lo — disse Hatch, sombrio. — Ele é como
fumaça.
— Ele não virá — disse Líndsey, esperando que isso fosse verdade.
— Talvez não amanhã. Talvez não na semana que vem ou no mês que
vem. Mas ele virá... tão certo quanto o sol nasce todo dia. E nós vamos estar prontos para recebê-lo.
— Vamos mesmo? — disse ela, em tom de dúvida.
— Claro.
— Lembre-se do que você disse na noite passada.
Ele ergueu novamente os olhos para encará-la.
— O que foi?
— Que talvez ele não seja um homem comum, que talvez ele tenha pegado uma carona com você, quando você voltou de... de outro lugar.
— Pensei que você havia desprezado essa hipótese.
— E desprezei. Não consigo acreditar nisso. Mas e você? Acredita, de fato?
Em vez de responder, Hatch continuou limpando a Browning. Ela prosseguiu:
— Se você acredita nisso, se acredita pelo menos um pouco, se acha que pode ser verdade... então de que adianta uma pistola?
Ele não respondeu.
— Balas podem deter um espírito do mal?—insistiu ela, sentindo como se o fato de ter levantado da cama e levado Regina para a escola ainda fizesse parte de um sonho que tivera, e que agora não estava diante de um dilema da vida real, e sim de um pesadelo. — Como é que uma coisa que vem do além pode ser detida com uma pistola?
— É a única coisa que eu tenho —disse Hatch.
Como muitos outros médicos, Jonas Nyebern não dava expediente no consultório nem fazia cirurgias nas quartas-feiras, Por outro lado, ele não usava aquelas tardes para velejar, jogar golfe ou jogar cartas num clube. Usava as quartas-feiras para botar em dia a burocracia do consultório ou para escrever artigos científicos e relatórios para o Projeto de Medicina de Ressuscitação, no Hospital Geral do condado de Orange.
Naquela primeira quarta-feira de maio, ele planejara passar oito ou dez horas bem atarefadas no escritório de sua casa em Spyglass Hill, onde vivia há quase dois anos, desde que perdera a família. Esperava poder concluir uma conferência que iria apresentar num congresso em San Francisco, no dia 8 de maio.
As largas janelas do aposento forrado em tábuas de teca se abriam para a Corona Del Mar e Newport Beach, lá embaixo. Ao longo de trinta quilômetros de oceano cinzento com reflexos verdes e azuis, os penhascos escuros da ilha de Santa Catalina erguiam-se de encontro ao céu, mas não podiam fazer o vasto oceano Pacífico parecer menos gigantesco ou menos imponente do que se não estivessem ali.
Jonas não se preocupava em correr as cortinas, porque a paisagem nunca o distraía. Tinha comprado aquela propriedade na esperança de que o conforto da casa e a magnificência da paisagem pudessem fazer a vida parecer bela e digna de ser vivida, a despeito de sua enorme tragédia pessoal. Mas somente o trabalho pudera lhe dar esta sensação, de modo que era no trabalho que ele mergulhava diretamente, dando apenas uma olhadela distraída pelas janelas.
Naquela manhã, ele não conseguia se concentrar nas palavras brancas sobre fundo azul, na tela de seu computador. Seus pensamentos, entretanto, não eram atraídos na direção da paisagem do Pacífico, mas para a lembrança de seu filho, Jeremy.
Naquela fatídica primavera de dois anos atrás, ele chegara em casa para descobrir Marion e Stephanie brutalmente crivadas de facadas, já além de qualquer possibilidade de socorro; e logo em seguida, tinha descoberto Jeremy inconsciente, empalado na faca presa ao torno, com a vida se esvaindo devagar pela ferida. Jonas não pensou nem por um instante na hipótese de um louco ou de um assaltante ter invadido a casa e matado sua família ao ser surpreendido. Ele soube desde o primeiro instante que o culpado era aquele rapaz de dezoito anos caído numa poça de sangue na garagem. Alguma coisa estava errada com Jeremy — havia alguma coisa faltando nele — durante toda a sua vida, e essa anormalidade só fizera se acentuar com a passagem dos anos, embora Jonas tivesse feito o possível para se convencer de que as atitudes do rapaz eram manifestações normais de rebeldia juvenil. Mas a loucura do pai de Jonas, tendo se recolhido durante uma geração, retornava agora nos genes corrompidos de Jeremy.
O rapaz sobreviveu à extração da faca e à desesperada corrida na ambulância até o Hospital Geral, que ficava a alguns minutos de distância. Mas morreu na maça, quando era empurrado ao longo do corredor do hospital.
Fazia pouco tempo que Jonas tinha convencido a direção do hospital a montar uma equipe especial de ressurreição. Em vez de usar a máquina de reciclagem sangüínea para aquecer o sangue do rapaz, eles a empregaram para resfriá-lo, fazendo com que o sangue gelado circulasse pelo seu corpo a fim de baixar drasticamente sua temperatura, reduzindo assim a deterioração das células e as lesões cerebrais, até que pudessem levar a cabo a cirurgia. O ar-condicionado foi reduzido para cerca de dez graus de temperatura; sacos de gelo moído foram empilhados ao longo do corpo do paciente, e o próprio Jonas fez a incisão, alargando a ferida para localizar e reparar as lesões que poderiam tornar inviável a reanimação.
Ele devia saber, o tempo todo, por que motivo queria salvar Jeremy, de modo tão desesperado; mas depois que tudo acabou não foi capaz de entender sua motivações com clareza e por inteiro.
Foi porque ele era meu filho, pensou algumas vezes, e eu tinha a obrigação de fazer aquilo.
Mas que tipo de obrigação paterna ele poderia ter para com o assassino de sua filha e de sua esposa?
Eu o salvei para poder perguntar-lhe por que, para extrair dele alguma explicação, dizia ele a si mesmo em outras ocasiões.
Mas ele sabia que nenhuma resposta poderia fazer sentido. Nem os filósofos nem os psicólogos—nem mesmo os próprios criminosos—tinham sido capazes, ao longo de toda a História, de fornecer uma explicação adequada para um único ato monstruoso de violência sociopática.
A única resposta possível, na verdade, era de que a espécie humana era imperfeita, trazia dentro de si uma mácula e as sementes de sua própria destruição. A Igreja chamaria a isso a herança da Serpente, algo que remontava ao Jardim do Éden e ao Pecado Original. Os cientistas iriam se referir aos mistérios da genética, da bioquímica e à atividade básica dos nucleotídeos. Talvez todos estivessem se referindo à mesma coisa, descrevendo-a com palavras diferentes. Para Jonas, essas respostas, tanto a dos teólogos quanto a dos cientistas, eram ambas insatisfatórias, na medida em que não propunham nenhuma solução, não aconselhavam nenhuma medida preventiva. Exceto a fé em Deus ou no poder da ciência.
Independente dos motivos de sua decisão, Jonas tinha conseguido salvar Jeremy. O rapaz permanecera morto durante 31 minutos; aquilo não chegava nem perto de um recorde mesmo naquela época, porque a garota do Utah já tinha sido reanimada depois de passar 66 minutos nos braços da Morte. Mas ele sofrerá uma forte hipotermia, enquanto que Jeremy tinha morrido com o corpo em temperatura normal, e isso de certa forma fazia do seu caso um recorde, num certo sentido. Ressurreição após 31 minutos de morte em temperatura normal era algo tão miraculoso quanto ressurreição depois de oitenta minutos em baixa temperatura. Assim, seu filho e Hatch Harrison eram os seus casos mais bem-sucedidos até aquela data — se é que Jeremy podia ser considerado um sucesso sob algum critério.
Durante dez meses Jeremy permaneceu em coma, sendo alimentado por via endovenosa, mas respirando normalmente e sem necessitar de nenhum outro tipo de máquina para mantê-lo vivo. Pouco tempo depois da reanimação, Jonas providenciou sua transferência do hospital para uma clínica particular de excelente qualidade.
Ao longo de todos aqueles meses, Jonas poderia ter enviado petições a um tribunal, no sentido de remover a alimentação endovenosa que mantinha Jeremy vivo. Mas nesse caso o rapaz morreria de desidratação ou inanição, e às vezes mesmo um paciente em coma poderia sofrer durante uma morte desse tipo, dependendo do seu grau de inconsciência. Jonas não queria causar-lhe esse sofrimento. Mas, de um modo mais sutil, num nível tão profundo que ele próprio não o perceberia senão muito tempo depois, ele ainda alimentava a esperança egoísta de poder extrair de Jeremy — supondo que o rapaz chegasse a recobrar a consciência — uma explicação para seu comportamento sociopata, a explicação que até aquele momento tinha escapado a todos os outros pesquisadores na história da humanidade. Talvez ele .imaginasse que teria melhores chances de entender a verdade devido à circunstância única de seu pai e seu filho terem sido indivíduos atacados por aquele tipo de loucura. O primeiro o ferira e o deixara órfão; o segundo, o deixara viúvo. Movido por essas razões, Jonas continuou pagando as contas da clínica, e todas as tardes de domingo ele ia sentar-se à cabeceira do filho, olhando aquele rosto lívido e inconsciente onde podia ver tantos traços do seu próprio rosto.
Depois de dez meses, Jeremy recuperou a consciência. Uma lesão cerebral o deixara afásico, sem poder ler ou falar. Não lembrava o próprio nome ou como tinha ido parar naquela cama de hospital. Reagiu diante do próprio rosto num espelho como se estivesse vendo um estranho, e não foi capaz de reconhecer o pai. Quando a polícia veio para interrogá-lo, não demonstrou sinais de culpa, nem de entender o motivo daquilo tudo. Tinha despertado — mas na condição de um deficiente mental, com seu intelecto severamente reduzido em relação ao que fora no passado; sua capacidade de fixar a atenção era quase nula, e ele se confundia com facilidade.
Ele se queixava, por meio de gestos, de dores nos olhos e de sensibilidade à luz. Um exame oftalmológico revelou uma curiosa — inexplicável, na verdade— degeneração das íris dos seus olhos; a membrana contrátil parecia ter sido consumida. O esfíncter das pupilas — o músculo que faz a íris se contrair, diminuindo assim a pupila e reduzindo a quantidade de luz a penetrar no olho — tinha se atrofiado quase por completo. Ao mesmo tempo, o dilator da pupila tinha encolhido, mantendo a íris totalmente aberta. E o conector entre o músculo dilator e o nervo oculomotor tinha praticamente se fundido, fazendo com que o olho não dispusesse de nenhuma maneira de reduzir a entrada de luz. Era uma condição clínica sem precedentes e de natureza degenerativa, tornando impossível a correção por meio de cirurgia. O rapaz teve que passar a usar óculos muito escuros, presos permanentemente ao seu rosto. Ainda assim, ele preferia passar as horas do dia em aposentos cujas cortinas ou persianas pudessem bloquear por completo a entrada de luz pelas janelas.
De modo curioso, Jeremy passou a ser considerado uma espécie de paciente predileto da equipe do hospital para onde foi transferido após seu despeitar na clínica. As pessoas tinham uma tendência a lamentar sua sorte, devido ao seu problema com a vista e por ele ser um rapaz tão bonito e que passara por uma tal tragédia. Além do mais, ele agora tinha o temperamento doce de uma criança tímida, como resultado de sua perda de QI; não havia mais o menor sinal de sua antiga arrogância, de seu calculismo frio e de sua permanente hostilidade.
Durante cerca de quatro meses ele andou pelos corredores, ajudou as enfermeiras a executar tarefas simples, fez tratamento com um fonoaudiólogo que não recuperou sua capacidade de falar, e passava horas seguidas, durante a noite, olhando pelas janelas; mas alimentava-se bem, o suficiente para readquirir seu peso normal, e costumava se exercitar no ginásio durante a noite, com as luzes desligadas. Aos poucos, seu corpo quase consumido foi se recuperando, e seu cabelo louro, cor de palha, recobrou o brilho que tivera antigamente.
Mas apenas dez meses atrás, quando Jonas começava a pensar onde poderia colocar Jeremy quando ele não pudesse mais se beneficiar dos tratamentos e da terapia ocupacional, o rapaz havia desaparecido. Embora nunca tivesse mostrado nenhuma inclinação para vaguear para além das dependências do hospital, uma noite ele cruzou os portões sem ser percebido e nunca mais apareceu.
Jonas tinha imaginado que a polícia não demoraria muito tempo para localizá-lo; mas para a polícia Jeremy era apenas uma pessoa desaparecida a mais, e não um suspeito de homicídio. Se o rapaz tivesse recuperado as faculdades mentais, eles poderiam tê-lo considerado uma ameaça e também um fugitivo da justiça; mas aquela aparentemente definitiva deficiência mental acabava lhe servindo como uma espécie de imunidade. Jeremy não era mais a mesma pessoa que cometera aqueles crimes. Com sua capacidade intelectual diminuída, sua incapacidade de falar e uma personalidade reduzida a um mínimo, não podia ser condenado por nenhum júri.
Uma busca a uma pessoa desaparecida era o mesmo que nada. Os efetivos policiais precisavam ser empregados no combate a problemas mais graves e mais imediatos.
A polícia acreditava que o rapaz havia simplesmente saído para andar à toa e caíra nas mãos das pessoas erradas; àquela altura, teria sido usado para qualquer propósito que essas pessoas tivessem e provavelmente já estaria morto. Mas Jonas sabia que seu filho estava vivo. E, no fundo de seu coração, sabia também que quem estava à solta no mundo não era um sorridente retardado mental, mas um rapaz gravemente perturbado... e frio, muito perigoso.
Ele conseguira enganar a todos.
Jonas não podia provar que os pretensos problemas mentais de Jeremy eram mero teatro, mas sabia que se deixara enganar. Tinha aceitado o novo Jeremy porque, no final das contas, não conseguia suportar a angústia de ter de enfrentar o Jeremy que matara Marion e Stephanie. Aprova mais rematada de sua cumplicidade com a fraude de Jeremy tinha sido o fato de não ter requisitado uma tomografia computadorizada para determinar a natureza exata da lesão sofrida pelo rapaz. Na época dissera a si mesmo que o importante era a existência da lesão, não a sua etiologia exata—uma reação estranha para um médico, mas não tão surpreendente em se tratando de um pai que se recusava a encarar de frente o monstro oculto no interior de seu filho.
E agora o monstro estava à solta. Jonas não tinha prova alguma, mas sabia. Jeremy estava vagueando pelo mundo. O antigo Jeremy.
Ao longo daqueles dez meses ele tentara localizá-lo, contratando sucessivamente três agências de detetives particulares; sentia-se responsável por qualquer crime que o rapaz viesse a cometer, uma responsabilidade moral, ainda que não jurídica. As duas primeiras agências não haviam obtido nenhum resultado, concluindo que o fato de não obterem pistas significava que não existia pista alguma. O rapaz, concluíam eles, devia estar morto.
A terceira era a agência de Morton Redlow, uma agência de um único investigador. Embora não fosse tão bem aparelhado quanto as agências maiores, Redlow possuía a determinação de um buldogue, e isso encorajou Jonas a acreditar que algum resultado viria daquela direção. E na última semana, Redlow avisara que talvez estivesse diante de uma pista concreta e que daria notícias por volta do fim de semana.
Desde então, o detetive não fizera contato e não respondera a nenhum dos recados deixados na secretária eletrônica.
Jonas deu as costas ao computador e ao texto da conferência: não conseguia se concentrar devidamente. Apanhando o telefone, discou mais uma vez o número do detetive. Do outro lado, soou a mesma mensagem da secretária eletrônica, mas ele não pôde deixar mais uma vez seu nome e seu número: a fita de gravar recados já estava cheia, e a máquina desligou automaticamente.
Jonas teve um mau pressentimento sobre a sorte do detetive. Pousando o fone, ele se ergueu da escrivaninha e foi até a janela. Seu ânimo estava tão deprimido que ele não esperava poder melhorá-lo através da mera contemplação da paisagem, mesmo uma paisagem maravilhosa como aquela; mas valia a pena tentar. Cada dia de sua vida parecia mais cheio de temores do que o dia anterior, e ele precisava de todo o ânimo positivo que conseguisse fazer brotar dentro de si, para poder dormir à noite e levantar-se de novo pela manhã.
Reflexos da luz do sol matinal desenhavam filamentos de prata nas ondas que batiam na praia, como se o oceano fosse uma imensa peça de tecido cinza-azulado, com bordados de metal, ondeando sem cessar.
Ele tentou convencer a si próprio que Redlow estava atrasado apenas na apresentação de seu relatório, ou seja, menos de uma semana; nada com que valesse a pena se preocupar. O fato de não responder aos recados da secretária eletrônica significava apenas que o detetive estaria doente ou envolvido com algum problema pessoal.
Mas no fundo ele sabia. Redlow havia encontrado Jeremy e, a despeito de todas as advertências de Jonas, tinha subestimado o rapaz.
Um iate com velas brancas estava navegando rumo ao sul, ao longo da costa. Grandes aves brancas flutuavam no céu atrás do barco, mergulhando no mar e emergindo de novo, sem dúvida abocanhando um peixe a cada mergulho. Livres e graciosas, aquelas aves eram uma bela visão... embora não para os peixes, claro. Não para eles.