Esconderijo
— Sei que é meio confuso para…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Era um pensamento inquietante, e ela voltou sua atenção para a página em branco do bloco de desenho à sua frente.
Depois que Lindsey e Regina subiram para o andar superior, Hatch foi de aposento em aposento no andar térreo, verificando portas e janelas, para ter certeza de que estavam todas bem trancadas. Tinha verificado tudo aquilo alguns minutos antes. Checar tudo outra vez era algo sem propósito. Ainda assim, ele o fez.
Quando chegou à porta de vidro na sala em forma de "L", que dava para o pátio traseiro, ele ligou as lâmpadas que iluminavam o pátio, aumentando a iluminação de toda a área. O pátio estava agora claro o bastante para que ele pudesse avistar quase tudo ali — embora uma pessoa pudesse esconder-se, agachada por trás dos arbustos que ficavam ao longo da cerca dos fundos. Ele ficou parado junto à porta, observando, esperando para ver se alguma daquelas sombras distantes se movia.
Talvez estivesse errado. Talvez o tal indivíduo nunca viesse. Nesse caso, dentro de um, dois ou três meses, Hatch poderia estar à beira de uma crise de loucura, pela tensão da espera. Quase desejou que o assassino aparecesse logo, e pudessem liquidar aquele assunto o quanto antes.
Foi até o recanto da cozinha onde tomavam café da manhã e checou as janelas. Trancadas.
Regina subiu para o seu quarto e começou a arrumar sua escrivaninha para estudar. Colocou seus livros de um lado, as canetas e sua Hi-Liter de ponta de feltro do outro, e o caderno no centro, tudo muito arrumado e em ordem.
Ao erguer a tampa da escrivaninha, pensava nos Harrisons com preocupação. Havia algo de errado com eles.
Bem, não era "algo de errado" no sentido de que eles talvez fossem ladrões ou espiões inimigos ou falsários ou assassinos ou canibais comedores de crianças. Durante algum tempo ela chegara a brincar com a idéia de escrever um romance onde uma garota—uma dessas garotas para quem nada dá certo — é adotada por um homem e uma mulher que são de fato canibais comedores de crianças, e ela descobre uma pilha de ossos humanos no porão e um arquivo de receitas na cozinha com fichas dizendo coisas como GUISADO DE GAROTA ou SOPA DE MOCINHA, com instruções tipo: "INGREDIENTES: Uma mocinha muito tenra, sem sal; uma cebola cortada; meio quilo de cenouras cortadas em cubos..." Na história a garota procura as autoridades, mas ninguém acredita nela, porque ela é conhecida por todos como uma garota muito trapalhona e que gosta de inventar histórias. Bem, mas isso era ficção, e isto aqui era a vida real, e os Harrisons pareciam perfeitamente felizes comendo sua pizza, seu espaguete e seus hambúrgueres.
Ela acendeu a luz fluorescente da escrivaninha.
Embora não houvesse nada errado com os Harrisons propriamente ditos, eles sem dúvida alguma tinham problemas, porque estavam muito tensos e fazendo o possível para disfarçar. Talvez tivessem dificuldade para fazer os pagamentos da hipoteca, e o banco estivesse querendo tomar-lhes a casa; nesse caso, talvez os três tivessem que se mudar para o antigo quarto dela no orfanato. Ou talvez eles tivessem descoberto que a Sra. Harrison tinha uma irmã de quem ela nunca tinha ouvido falar antes, uma irmã gêmea e malvada como as que de vez em quando os personagens da TV descobrem que têm. Ou vai ver que eles deviam dinheiro à Máfia e não podiam pagar, e em breve a Máfia ia raptá-los e devolvê-los com as pernas quebradas.
Regina tirou um dicionário da estante e o colocou sobre a mesa.
Caso eles tivessem mesmo um problema sério, ela esperava que fosse essa questão da Máfia, porque isso ela era capaz de enfrentar sem muito problema. Pernas quebradas acabam sarando mais cedo ou mais tarde, e os Harrisons aprenderiam uma boa lição, a de não sair pedindo dinheiro emprestado a agiotas inescrupulosos. Enquanto isso, ela cuidaria deles, certificando-se de que estavam tomando todos os remédios, verificando a temperatura de vez em quando, trazendo-lhes sorvetes com um biscoito em forma de bichinho espetado no alto e até mesmo esvaziando seus urinóis (Céus!), se fosse necessário. Ela tinha uma boa experiência de trabalhos de enfermagem, depois de passar tantos anos sendo beneficiária deles. (Meu Deus, se o problema deles sou eu, daria para arranjar um milagre aqui e mudar o problema para a Máfia, para que eu pudesse continuar aqui e ser feliz? Em troca desse milagre, não faço questão de que eles também quebrem as minhas pernas. Prometa pelo menos que vai falar com os homens da Máfia e ver o que eles acham disso.)
Quando a escrivaninha estava finalmente pronta, Regina decidiu que para começar a estudar precisava estar vestida de um modo mais confortável. Tendo trocado o uniforme da escola assim que chegara em casa, ela usava agora calças cinza e um suéter verde de mangas compridas. Pijamas e um robe ficariam mais adequados para algumas horas de estudo. Além do mais, o aparelho ortopédico já começava a incomodá-la em um ou dois lugares, e ela preferia tirá-lo até o dia seguinte.
Quando ela abriu a porta espelhada do armário embutido, viu-se face a face com um homem agachado, um homem todo vestido de preto e usando óculos escuros.
3
Ao fazer mais uma ronda pelo andar de baixo, Hatch decidiu desligar as lâmpadas e as demais luminárias. Com o jardim e todo o exterior da casa fortemente iluminados e o interior mergulhado na escuridão, ele poderia avistar um intruso sem ser visto por ele.
Terminou sua ronda na pequena saleta do telefone, onde resolvera estabelecer seu posto de sentinela. Sentado diante da escrivaninha e mergulhado na sombra, ele podia observar todo o saguão e ainda o começo da escada que levava ao andar superior. Se alguém tentasse entrar por uma das janelas da saleta ou pela porta que dava para o roseiral, ele perceberia de imediato. Se o intruso conseguisse penetrar por qualquer outra porta, Hatch o surpreenderia quando ele tentasse subir a escada, porque as lâmpadas acesas no andar de cima projetavam luz suficiente sobre os degraus. Como ele não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a saleta parecia o ponto mais estratégico.
Colocou a espingarda e a pistola em cima da escrivaninha, ao alcance. Não podia enxergá-las com facilidade com as luzes apagadas, mas poderia agarrá-las num instante, se algo acontecesse. Praticou algumas vezes, sentado na cadeira giratória, de frente para o saguão, e de repente estendendo o braço e apanhando a pistola Browning; depois, apanhando a espingarda Mossberg calibre 12. Browning. Browning. Mossberg. Browning. Mossberg. Mossberg. A cada vez, talvez porque suas reações estavam ampliadas pela adrenalina que circulava em seu sangue, sua mão direita voava na escuridão e com precisão absoluta tocava a coronha da Browning ou o cabo da Mossberg, conforme sua escolha.
Ele não ficava satisfeito com isso, porque sabia que não poderia estar alerta 24 horas por dia, sete dias por semana. Tinha que dormir, precisava se alimentar. Não tinha ido naquele dia para a loja de antiguidades e podia passar mais uns dias sem aparecer lá, mas não podia deixar Glenda e Lew cuidando de tudo indefinidamente; mais cedo ou mais tarde teria que voltar ao trabalho.
Vendo as coisas por um prisma realista, mesmo que fizesse pausas para comer e dormir ele deixaria de ser um vigia confiável muito antes de ter que voltar à loja. Manter um grau tão elevado de tensão física e mental era algo desgastante. Dentro de mais algum tempo teria que considerar a possibilidade de contratar um ou dois seguranças de alguma firma particular e não sabia quanto isto poderia custar. Mais do que isso: não sabia até que ponto tais guardas mereceriam confiança.
Mas duvidava que tivesse mesmo de tomar uma tal decisão. Aquele bastardo iria aparecer muito em breve; talvez naquela mesma noite. Num nível muito primordial, uma vaga impressão das intenções daquele homem fluía para Hatch através daquele canal sobrenatural que os unia, fosse este de que natureza fosse. Era algo como aquele brinquedo de crianças em que uma delas fala dentro do côncavo de uma lata e suas palavras são conduzidas através de um cordão retesado até outra lata, onde são reproduzidas como sons difusos e distantes, com a reprodução prejudicada pela má qualidade do material condutor, mas deixando perceber as entonações da voz. A mensagem que fluía para Hatch através daquele cordão psíquico não podia ser ouvida com clareza, mas seu sentido básico era mais do que claro: eu estou vindo... estou vindo... estou vindo...
Seria depois da meia-noite, provavelmente. Hatch sentia que o confronto entre os dois teria lugar entre a meia-noite e a aurora. Agora, eram exatamente 7:46 pelo seu relógio.
Ele tirou do bolso o chaveiro com suas chaves do carro e da casa; localizou a chave da escrivaninha, que tinha colocado ali na véspera, abriu a gaveta trancada e retirou de lá o exemplar da Arts American, chamuscado, ainda cheirando a fumaça. Deixou a chave na fechadura, com o chaveiro balançando. Segurou a revista no escuro com ambas as mãos, na esperança de que ela funcionasse como uma espécie de talismã, amplificando sua visão mágica e permitindo-lhe ver com mais nitidez qua..do, onde e como o matador apareceria.
Uma mistura de odores de fogo e destruição — alguns tão pungentes que lhe causaram náusea, outros simplesmente cheirando a cinza—se elevou daquelas páginas crestadas pelas chamas.
Vassago desligou a lâmpada fluorescente da escrivaninha. Cruzando em passos rápidos o quarto da garota, ele desligou também o comutador da lâmpada no teto.
Pôs a mão sobre a maçaneta mas hesitou, relutando em deixar a garota para trás. Ela era tão diferente, tão... vital. Ele soube, no momento em que a teve nos braços, que ela era a aquisição de alto calibre que iria completar sua coleção e garantir-lhe a recompensa eterna que ele buscava.
Sufocando seu grito e cortando-lhe a respiração com a mão enluvada, ele a agarrara e puxara de encontro a si, para dentro do armário, com seus braços possantes. Prendeu-a com tal violência que ela mal esboçou uma reação e não conseguiu sequer chutar as paredes do armário para chamar a atenção de alguém.
Quando ela desmaiou em seus braços, ele próprio experimentou uma espécie de vertigem e sentiu um impulso avassalador de matá-la ali mesmo. No armário. Por entre os montes de roupas que tinham tombado dos cabides durante a sua breve luta. Ele sentiu o cheiro de algodão recém-lavado e de goma; a fragrância suave da lã; e da garota. Quis torcer-lhe o pescoço para sentir a energia vital fugindo do corpo dela para suas mãos, e através do corpo dele para a terra dos mortos.
Foi tão difícil dominar aquele intenso desejo que ele quase acabou matando-a. Ela ficou imóvel e silenciosa. Quando ele retirou as mãos crispadas de sobre o nariz e a boca da garota, pensou que a tinha asfixiado. Mas ao colocar a orelha junto aos seus lábios entreabertos, pôde ouvir e sentir uma exalação muito leve. A mão de encontro ao peito lhe revelou o martelar sólido e vigoroso do seu coração.
Agora, fitando a garota, Vassago conseguiu dominar o instinto matador, prometendo a si próprio que antes do amanhecer esse impulso seria satisfeito. Mas, enquanto isso, ele tinha que ser um Mestre. Tinha que manter o controle.
Controle.
Abriu a porta e examinou o corredor do andar de cima, onde estava o quarto da garota. Deserto. Havia um candelabro de lâmpadas elétricas aceso na extremidade oposta, no patamar da escada, diante da porta do quarto principal; emitia demasiada luz, e ele não conseguiria suportá-la se não estivesse de óculos escuros. Ainda assim, era forçado a contrair as pálpebras.
Ele não devia matar nem a mãe nem a filha enquanto não tivesse ambas colocadas no seu museu dos mortos, onde havia sacrificado todas as outras vítimas que agora faziam parte de sua coleção. Agora ele sabia por que tinha sido atraído para Lindsey e Regina. A mãe e a filha. A cadela e a minicadela. Para reconquistar sua vaga no Inferno, ele teria que repetir o mesmo ato que lhe garantira a danação eterna da primeira vez: o assassinato de uma mãe e uma filha. Como sua própria mãe e sua irmã não poderiam ser mortas de novo, Lindsey e Regina eram as escolhidas.
Parado na porta, ele apurou o ouvido. A casa estava em silêncio.
Ele sabia que Lindsey não era a mãe natural da garota. Antes, quando os Harrisons estavam na sala de jantar e ele entrou na casa pela garagem, tivera tempo para remexer no quarto de Regina. Encontrara folhetos com o nome do orfanato impresso; a maioria deles eram programas de peças teatrais amadoras onde Regina desempenhara pequenos papéis. Ainda assim, sentira-se atraído na direção dela e de Lindsey, e o seu mestre parecia considerar que as duas eram oferendas dignas dele.
A casa estava tão silenciosa que teria que se movimentar tão suavemente quanto um gato, mas para ele isso não era difícil.
Deu uma olhada de relance para a garota sobre a cama — conseguia avistá-la melhor na escuridão do quarto do que distinguia os detalhes do corredor iluminado. Ela estava ainda inconsciente, com um dos seus cachecóis enfiado na boca e outro amarrado firmemente por cima. Vassago trouxera da garagem algumas peças de uma corda resistente e tinha amarrado as mãos e os pés da menina.
Controle.
Deixando a porta do quarto de Regina aberta atrás de si, ele caminhi ao longo do corredor, mantendo-se próximo da parede, onde as tábuas assoalho, por baixo do grosso tapete, tinham menos probabilidade de estai;
Ele conhecia o mapa de cor. Tinha examinado bem todo aquele an* enquanto os Harrisons estavam jantando.
Ao lado do quarto de Regina havia um quarto de hóspedes, às escuras. Prosseguiu rumo ao estúdio de Lindsey.
Como o candelabro estava colocado diante dele, sua sombra era projetada na direção oposta àquela em que ele ia, o que era uma sorte. Se não fosse assim, a mulher poderia olhar para o chão do corredor e perceber que alguém se aproximava.
Foi pé ante pé até a porta do estúdio e ali se deteve.
Com as costas coladas à parede, olhando para a frente, ele podia ver, através dos balaústres do corrimão da escada, o saguão do andar de baixo. Ao que tudo indicava, as luzes de baixo estavam todas apagadas.
Imaginou onde estaria o marido naquele instante. As portas do quarto principal estavam abertas, mas não havia luzes acesas ali. Vassago podia ouvir pequenos ruídos vindo do estúdio e imaginou que a mulher estaria pintando. Se o marido estivesse com ela, certamente teria pelo menos trocado algumas palavras durante todo o tempo que ele levara para vir do quarto da garota até ali.
Desejou que o homem tivesse saído para algum compromisso. Não tinha nenhuma vontade especial de matá-lo. E, naquela situação, uma luta podia ser arriscada.
Tirou do bolso do casaco o cassetete flexível de borracha, recheado de chumbo, que tomara do detetive Morton Redlow, na semana anterior. Era uma arma extremamente eficaz e produzia uma sensação agradável em sua mão. Embaixo do assento do Honda cinza-pérola, estacionado a dois quarteirões de distância, ele tinha uma pistola escondida; quase desejou tê-la trazido consigo. A arma tinha sido subtraída de Lofíman, o antiquário de Laguna Beach, antes do amanhecer daquele mesmo dia.
Mas Vassago não queria atirar na mulher nem na garota. Mesmo que apenas as ferisse, talvez elas acabassem sangrando até morrer antes que ele pudesse levá-las até o seu esconderijo e carregá-las até o seu museu subterrâneo, onde as oferendas deveriam ser feitas. E se ele usasse a pistola para tirar o marido do seu caminho, poderia arriscar apenas um tiro, dois no máximo. Disparos de arma de fogo poderiam ser ouvidos pelos vizinhos, que identificariam a origem do som. Numa área tranqüila como aquela, uma simples denúncia de disparos de arma de fogo faria com que em dois minutos a rua estivesse infestada de policiais.
O cassetete era melhor. Ele o balançou na mão direita, sopesando-o.
Com infinito cuidado, ele se inclinou na direção do umbral da porta. Colocou a cabeça e espreitou para dentro do estúdio.
Ela estava sentada num banquinho, as costas voltadas para a porta. Ele a reconheceu mesmo por trás. Seu coração começou a bater mais forte, tão forte quanto no momento em que a garota se debatera e depois desmaiara em seus braços. Lindsey estava diante da prancheta, com um lápis na mão. Atarefada, muito atarefada. O lápis emitia um rascar suave ao passar sobre o papel.
Mesmo estando decidida a manter sua atenção firmemente concentrada na folha de papel em branco diante de si, Lindsey não conseguia deixar de olhar de vez em quando para a janela. Seu bloqueio criativo cedeu apenas a partir do momento em que ela desistiu e resolveu desenhar a própria janela. A moldura de madeira, sem cortinas. A escuridão por trás da vidraça. Seu próprio rosto, como o rosto de um espectro que surge da treva para assombrar alguém. Quando ela somou a isso tudo a teia de aranha no canto superior direito, o conceito cristalizou-se em definitivo, e ela sentiu-se estimulada a prosseguir. Pensou num título... A Teia da Vida e da Morte, e em usar uma série de elementos simbólicos entrelaçando-se em todos os pontos da tela. Da tela, não. Masonite. Na verdade, por enquanto era apenas uma folha de papel, apenas um esboço, mas valia a pena continuar a explorar aquela idéia. Ela mudou a posição do bloco de desenho sobre a prancheta, colocando-o um pouco mais acima. Agora, tinha que erguer os olhos apenas um pouquinho para fitar a janela e não precisava ficar erguendo e baixando a cabeça.
Seria preciso adicionar outros elementos além do seu rosto, da janela e da teia de aranha, para dar ao quadro mais riqueza e maior profundidade. Enquanto rabiscava, ela considerou e rejeitou sucessivamente um grande número de alternativas.
E então, uma outra imagem apareceu no vidro de modo quase sobrenatural, acima de seu próprio reflexo: o rosto que Hatch tinha descrito a partir de seus pesadelos. Pálido. Cabelos negros. Óculos escuros.
Por um instante ela chegou a pensar que era uma visão paranormal, uma aparição materializada no vidro. Sua respiração prendeu-se na garganta, mas no mesmo instante ela percebeu que estava vendo um simples reflexo idêntico ao seu, e que o assassino visto por Hatch em seus sonhos estava agora dentro de sua própria casa, espreitando pelo umbral da porta, às suas costas. Ela reprimiu um impulso de gritar. No momento em que ele percebesse que tinha sido descoberto, ela perderia a pequena vantagem obtida, e num instante ele estaria sobre ela, esfaqueando-a ou estrangulando-a, acabando com ela antes mesmo que Hatch tivesse tempo de galgar as escadas. Em vez de dar o alarme, ela soltou um suspiro e balançou a cabeça, como numa reação de desagrado diante do que acabara de colocar no papel. Hatch devia já estar morto.
Ela pousou devagar o lápis, mantendo os dedos ainda sobre ele, como se fosse pegá-lo de volta a qualquer instante.
Se Hatch não estivesse morto, como aquele indivíduo poderia ter subido até o andar de cima? Mas... não. Ela não podia pensar que Hatch estava morto, porque isso significaria sentença de morte para ela própria, e para Regina. Deus do céu... Regina.
Ela estendeu a mão para a gaveta superior do armário ao lado, e um calafrio percorreu seu corpo quando seus dedos tocaram a maçaneta cromada.
Refletindo a porta às suas costas, a vidraça mostrou que o assassino não estava apenas espiando para dentro do quarto, mas parado desafiadoramente no meio do portal. Olhava para ela de modo arrogante, evidentemente saboreando com antecipação aquele momento. Apesar de tão próximo não emitia o menor ruído, e se Lindsey não tivesse avistado sua imagem na vidraça não teria como se aperceber de sua presença. Ela abriu a gaveta, pousou a mão sobre a pistola. Por trás dela, o homem cruzou o umbral.
Ela puxou a pistola de dentro da gaveta e girou sobre si própria, num único movimento, erguendo a pesada arma com ambas as mãos, apontando-a na direção dele. Ela não teria ficado totalmente surpresa se o homem não estivesse ali, e se fosse apenas uma aparição sobre a vidraça como ela havia pensado no primeiro instante. Mas ele estava lá, e já dera um passo para dentro do estúdio, quando ela apontou a Browning e disse:
— Pare aí mesmo, seu filho da puta!
Talvez ele tivesse percebido alguma fraqueza nela ou talvez simplesmente não se importasse em ser alvejado, porque no mesmo instante ele recuou um passo e sumiu no corredor, antes mesmo que ela terminasse de falar.
— Pare!
Sumiu. Lindsey o teria alvejado sem hesitação, sem remorso, mas ele se movera com incrível rapidez, como um gato saltando para um lugar seguro; se ela disparasse, o tiro teria se perdido sem direção.
Gritando por Hatch, ela saltou do banco onde estava sentada e correu para a porta, por onde acabara de sumir o último vislumbre do assassino — um sapato preto, no seu pé esquerdo. Mas estacou a meio caminho, dizendo a si mesma que talvez ele não tivesse ido a lugar nenhum e estivesse à espreita do outro lado da porta, esperando que ela cruzasse o umbral em pânico, para agarrá-la por trás, nocauteá-la com uma pancada na cabeça ou arremessá-la por sobre o corrimão da escada, nos degraus lá embaixo. Regina. Ela não podia ficar esperando. Ele devia estar indo à procura de Regina. Teve apenas um segundo de hesitação, mas sacudiu o medo para um lado e cruzou o umbral, gritando o nome de Hatch.
Olhando à direita, assim que saiu ao corredor, ela viu o homem de preto indo na direção da porta aberta do quarto de Regina, na extremidade oposta. O quarto estava às escuras, mas deveria estar com as luzes acesas... Regina estava estudando para a prova. Ela não teve tempo de apontar; seu dedo tocava o gatilho, e ela quis espalhar balas em todas as direções, na esperança de que alguma delas atingisse o assassino, Mas o quarto de Regina estava tão escuro, e a garota podia estar em qualquer ponto dele... Lindsey receou errar o alvo e atingir a menina através da porta aberta. Em vez de atirar, correu em perseguição do assassino, gritando agora o nome de Regina, em vez do de Hatch.
O homem desapareceu através da porta do quarto de Regina e trancou a porta atrás de si, uma batida estrondosa que fez a casa inteira estremecer. Lindsey chegou ali um instante mais tarde, chocando-se contra aquela barreira. Trancada. Ela ouviu Hatch gritando pelo seu nome—graças a Deus, ele estava vivo, vivo — mas não se virou para ver onde ele estava. Recuou um passo e chutou a porta com toda força, uma vez, depois outra. Ela sabia que era apenas um ferrolho comum, não muito resistente, e devia ser arrombado facilmente. Mas resistiu.
Ela se preparava para chutar novamente, quando o homem falou através da porta. Falou num tom de voz alto, mas sem ser um grito; sua voz era ameaçadora mas calma. Não havia pânico nem medo nela; era uma voz fria e objetiva, dizendo com clareza:
— Afaste-se dessa porta, se não eu mato a putinha.
Momentos antes de Lindsey começar a gritar seu nome, Hatch estava sentado à escrivaninha, na saleta do andar térreo, segurando nas mãos o exemplar da Arts American. Uma visão o atingiu naquele instante com um ruído estalante como de um curto-circuito elétrico, como se aquela revista fosse um fio elétrico desemcapado que ele segurava com as mãos nuas.
Viu Lindsey pelas costas, sentada num banquinho diante de sua prancheta no estúdio, desenhando. De repente, não era mais Lindsey. Era outra mulher, mais alta, também vista pelas costas mas não estava sentada num banco, e sim numa cadeira de balanço, num quarto diferente, numa casa estranha. Estava tricotando. Um fio brilhante se desenrolava da meada colocada numa tigela na mesinha ao seu lado. Hatch pensou nela como "mãe", embora ela não se parecesse nem um pouco com sua mãe. Baixou os olhos até sua mão direita, que segurava uma faca imensa, já suja de sangue. Aproximou-se da cadeira de balanço. Ela ainda não percebera sua presença. Hatch queria gritar e avisá-la do perigo, mas o corpo que empunhava a faca, e através de cujos olhos ele enxergava aquilo tudo, queria apenas matá-la, arrancar a vida de seu corpo e completar a tarefa que iria libertá-lo, Ele parou por trás da cadeira de balanço. Ela ainda não o escutara. Ele ergueu a faca.
Golpeou, Um grito da mulher. Outro golpe. Ela tentou erguer-se da cadeira, mas ele a rodeou, e daquele ponto de vista era como aqueles rápidos movimentos de câmara num filme, para sugerir o vôo de um pássaro ou de um morcego. Ele empurrou a mulher de volta para a cadeira e voltou a golpear com a faca. Ela ergueu as mãos para se proteger. Ele desferiu mais um golpe, e outro, e outro. E agora, como se tudo fosse um trecho recursivo de filme, ele estava de novo lá atrás, olhando-a pelas costas, parado no umbral, só que agora não era mais "a mãe" e sim Lindsey novamente, sentada diante de sua prancheta no estúdio e estendendo a mão para o armário ao lado, abrindo a gaveta... Seus olhos se ergueram dela para a vidraça escura da janela, e ele viu a própria imagem: pálido, cabelos negros, óculos escuros... e soube que ela percebera sua presença ali. Ela girou no banquinho, uma pistola na mão, o cano apontado para seu peito...
— Hatch!
Seu nome, ecoando pela casa, quebrou o encanto. Ele ficou de pé num salto, tremendo, e a revista caiu de suas mãos.
— Hatch!
Tateando na escuridão, ele encontrou a coronha da Browning e correu para fora da saleta. Ao cruzar o saguão e subir a escada, galgando os degraus de dois em dois, ele olhou para o alto, tentando perceber o que acontecia, mas nesse instante ouviu Lindsey parar de gritar seu nome e começar a chamar "Regina!" Não, Deus do céu, por favor, a menina não. Chegando ao topo da escadaria, ele ouviu o estrondo da porta sendo batida e chegou a imaginar tratar-se de um tiro. Mas o som era diferente, e ele viu de imediato, na extremidade do corredor, Lindsey jogando-se de corpo inteiro contra a porta do quarto de Regina. Correu naquela direção, enquanto ela chutava a porta repetidas vezes; ela cambaleou para trás no instante em que ele chegava, e ele conseguiu segurá-la. —Deixe-me tentar — disse, afastando-a para um lado.
— Não! — gritou Lindsey. — Ele disse para a gente se afastar, se não ele mata Regina.
Por um par de segundos Hatch ficou fitando aquela porta, literalmente travado pela frustração. Então pegou a maçaneta e tentou abaixá-la muito devagar. Mas estava trancada, de modo que ele apoiou o cano da pistola de encontro à fechadura.
— Hatch — implorou Lindsey —, ele pode matá-la.
Ele pensou na mulher loura recebendo dois balaços no peito e sendo arremessada para fora do carro em plena estrada, seu corpo rolando, rolando no asfalto até se perder para trás, no nevoeiro. Pensou na mãe sofrendo os golpes devastadores do facão enquanto largava as agulhas de tricô e lutava desesperadamente pela própria vida.
Falou:
— Ele vai matá-la de qualquer modo. Vire o rosto pra lá.
E puxou o gatilho.
Lascas de madeira e pedaços de metal voaram em todas as direções. Hatch agarrou a maçaneta e ela ficou solta em sua mão; ele atirou-a para o lado. Quando jogou o ombro contra a porta, ela rangeu e estalou, mas cedeu apenas alguns centímetros. A fechadura tinha se desintegrado, mas a maçaneta de dentro ainda estava presa ao mecanismo, e alguma coisa tinha sido colocada por baixo dela, pelo lado de dentro. Hatch empurrou o mecanismo arrebentado, mas não conseguiu deslocá-lo da posição; alguma coisa — provavelmente a cadeira de Regina — exercia pressão para cima, impedindo a maçaneta de rodar.
Hatch agarrou a Browning pelo cano, usando sua coronha como um martelo. Praguejando, bateu com toda força na haste de metal, empurrando-a para dentro centímetro por centímetro.
No momento em que a maçaneta finalmente cedeu e caiu no chão do quarto, uma vivida série de imagens passou como num lampejo pela mente de Hatch, obliterando temporariamente a visão da porta e do corredor. Eram imagens vistas pelos olhos do assassino: um ângulo esquisito, olhando para cima, na parte lateral de uma casa, sua casa... a parede do lado de fora do quarto de Regina. A janela aberta. Logo abaixo do peitoril, as ramagens fortes das trepadeiras. Uma flor alongada, quase tocando o seu rosto. A mão segurando o peitoril da janela, lascas de madeira perfurando a pele. Segurando-se ali com apenas uma mão, enquanto a outra tateava a trepadeira, procurando um ponto de apoio, um pé balançando solto no ar, um peso morto atirado sobre o ombro... Então um estalo, o som de algo que se partia... Uma súbita sensação de perigo, de que aquela teia geométrica de ramagens estava se desprendendo da parede...
Hatch foi trazido de volta à realidade por um ruído do outro lado da porta: madeira estalando e partindo-se, pregos arrancando-se um por um com um barulho ominoso, uma queda.
Então, uma nova onda de imagens psíquicas e de sensações jorrou através dele. Uma queda. Estava caindo de costas, na escuridão da noite. Não muito alto, contudo... caiu no chão, sentiu uma contração de dor. Rolou sobre si mesmo na relva. Ao lado, um vulto pequeno, encolhido, imóvel. Ele curvou-se sobre aquele vulto, remexeu um pouco... o rosto. Regina. Olhos fechados. Um cachecol atado sobre a sua boca, como uma mordaça...
— Regina! — gritou Lindsey.
Quando a realidade se recompôs diante de seus olhos, Hatch viu que estava jogando o ombro de encontro à porta mais uma vez, até sentir que ela cedia e se escancarava. Entrou, batendo com a mão na parede até localizar o interruptor. No clarão repentino que iluminou o quarto ele passou por cima da cadeira tombada, apontando a pistola numa direção, depois noutra. O quarto estava deserto, como ele já sabia pela visão que acabara de ter.
Debruçando-se na janela escancarada, ele viu sobre o gramado do pátio traseiro a confusão de treliças de madeira partidas e trepadeiras arrancadas, mas nenhum sinal do homem de óculos escuros ou de Regina.
— Merda.
Hatch voltou a cruzar rapidamente o quarto, agarrando Lindsey pelo braço, fazendo-a girar, empurrando-a através da porta até o corredor, até as escadas.
— Cuide da frente — disse ele. — Eu vou para os fundos. Ele a pegou, vamos ter que detê-lo. Vamos, vamos, logo. — Ela não resistiu; entendendo de imediato o que ele estava dizendo, desceu as escadas correndo, com Hatch em seus calcanhares. — Atire nele. Derrube-o ou atire em suas pernas, não se preocupe em ferir Regina. Ele está fugindo!
No saguão, Lindsey alcançou a porta da frente no momento em que Hatch terminava de descer as escadas. Ele girou na direção do pequeno corredor até a sala em forma de "L" na parte de trás; dali passou para a cozinha, olhando pelas janelas que davam para o pátio dos fundos. O gramado e o resto do pátio estavam bem iluminados, mas ele não avistou ninguém.
Abriu num repelão a porta que separava a cozinha da garagem, entrou, acendeu as luzes. Correu por toda a extensão da garagem até a porta, passando pelos carros, e chegou lá antes mesmo que o último dos tubos fluorescentes parassem de piscar e brilhar com firmeza.
Ele abriu a tranca, saiu para o estreito pátio lateral e olhou para a direita. Nada do assassino, nada de Regina. Naquela direção ficava a frente da casa, a rua, as casas fronteiras do lado oposto. Aquela era a parte do território que Lindsey estava investigando.
Seu coração batia tão forte que parecia expulsar cada respiração dos seus pulmões antes mesmo que o ar conseguisse penetrar neles por completo.
Ela só tem dez anos, dez anos.
Ele virou para a esquerda e correu ao longo da casa, virando a esquina ao chegar ao fim da garagem, chegando ao pátio traseiro, onde avistou o monte de destroços das treliças de madeira e das trepadeiras arrancadas. Ela é tão pequena, tão frágil. Meu Deus, por favor. Temeroso de pisar num prego e ficar temporariamente inutilizado, Hatch rodeou os destroços e correu freneticamente ao longo do pátio, remexendo nos arbustos, olhando atrás dos troncos das árvores. Não havia ninguém ali.
Chegou à parte mais afastada da garagem, quase escorregou e caiu ao virar na esquina, mas conseguiu manter o equilíbrio. Ergueu a Browning diante de si com ambas as mãos, apontando-a para a estreita passagem entre a casa e a cerca. Ninguém ali.
Ainda não ouvira nenhum ruído vindo da frente da casa, e com certeza nenhum tiro havia sido disparado, o que significava que Lindsey não estava tendo mais sorte do que ele. Se o assassino também não tinha ido naquela direção, então a única coisa que ele poderia ter feito era escalar a cerca em algum ponto, saltando para a propriedade vizinha.
Voltando as costas à parte dianteira da casa, Hatch examinou a cerca de três metros de altura que delimitava o pátio, separando-o das casas situadas a leste, oeste e sul. Construtores e agentes imobiliários do sul da Califórnia chamavam aquilo de cerca, mas na realidade tratava-se de um muro, blocos de concreto reforçados com aço e cobertos de estuque, encimados por uma fileira de tijolos e pintados de modo a combinar com as casas. A maior parte das casas naquela área tinha muros semelhantes, para garantir a privacidade de suas piscinas ou de seus churrascos. Como dizia o ditado, boas cercas fazem bons vizinhos; e cercas também transformam os vizinhos em estranhos, e tornam tremendamente fácil para um intruso qualquer saltar por cima de uma única cerca e desaparecer para sempre naquele labirinto cego.
Hatch equilibrava-se com dificuldade numa corda-bamba sobre o abismo do desespero, e a única coisa que o segurava era a esperança de que o assassino não poderia mover-se muito depressa com Regina nos braços ou atravessada sobre o ombro. Ele olhou para leste, oeste e sul, paralisado pela indecisão.
Finalmente ele foi na direção do muro traseiro, que ficava no lado sul da casa. Mas parou de súbito, arquejando e curvando-se para a frente, quando a misteriosa conexão entre ele e o homem de óculos escuros foi restabelecida.
Mais uma vez Hatch estava olhando através dos olhos do outro homem, e a despeito dos óculos a noite parecia clara como um fim de tarde. Estava dentro de um carro, por trás do volante, inclinando-se para ajeitar a garota desacordada sobre o banco ao lado, como se ela fosse um manequim. Regina tinha os pulsos amarrados à frente, pousados sobre o colo, e era mantida no lugar pelo cinto de segurança. Após ajeitar-lhe o cabelo ruivo para que cobrisse a mordaça sobre sua boca, o homem a colocou numa posição meio de lado, o rosto virado para longe da janela. As pessoas que passassem em outro carro não veriam a mordaça em sua boca. Ela pareceria estar dormindo. E sem dúvida estava tão pálida e imóvel que ele imaginou se ela não estaria morta. Não haveria sentido em levar a garota para o esconderijo, caso já estivesse morta. Poderia muito bem abrir a porta e empurrá-la para fora, abandonar aquela putinha ali mesmo. Pousou a mão sobre seu rosto. A pele era incrivelmente macia, mas parecia gelada. Pressionando a ponta dos dedos de encontro a sua garganta, ele percebeu a batida forte e regular do sangue através da carótida... tão forte! Ela estava tão viva, muito mais vital do que parecera ser naquela visão em que a borboleta esvoaçava em redor de sua cabeça. Ele nunca fizera antes uma aquisição de tamanho valor e agradecia a todos os poderes do Inferno por aquela chance. Sentiu-se excitado com a perspectiva de abrir o corpo dela e tomar nas mãos aquele coração tão jovem e tão forte, enquanto ele iria estremecer e contrair-se até imobilizar-se por completo, e durante todo esse tempo estaria fitando aqueles belos olhos cinzentos, vendo a vida esvair-se e a morte apoderando-se deles, lentamente...
O grito de raiva, angústia e terror de Hatch quebrou mais uma vez aquele tênue elo psíquico com o assassino. Ele viu-se em seu pátio novamente, a mão direita erguida diante do rosto, olhando-a com horror, como se o sangue de Regina já manchasse os seus dedos trêmulos.
Ele virou as costas para a cerca e disparou para a parte dianteira da casa, ao longo da passagem que margeava o lado leste.
Lá na frente, a não ser pelo seu próprio arquejar, tudo estava tranqüilo. Evidentemente, vários dos vizinhos não estavam em casa naquele instante. Os outros não deviam ter ouvido nada ou pelo menos nada que os fizesse sair para investigar.
A serenidade daquele local quase o fez soltar um grito de frustração. No instante em que o seu próprio mundo se desfazia em pedaços, ele percebia que aquela aparência de normalidade era exatamente isto — uma mera aparência, não uma realidade. Deus sabia o que poderia estar ocorrendo por trás das paredes de algumas daquelas casas, horrores iguais àquele que acabava de se abater sobre ele, Lindsey e Regina, horrores perpetrados não por um estranho, mas por um membro da família contra outro. A espécie humana parecia ter um talento para produzir monstros, e os próprios monstros pareciam ter um talento para se esconder por trás de máscaras convincentes de perfeita sanidade.
Quando Hatch chegou ao gramado da frente, Lindsey não podia ser vista em parte alguma. Ele avistou a porta da frente escancarada, entrou, cruzou o saguão — e a descobriu na saleta. sentada junto à escrivaninha, o fone na mão, discando.
— Você a achou? — perguntou ela.
— Não. O que está fazendo?
— Chamando a polícia.
Hatch arrebatou o receptor da mão dela e voltou a pousá-lo no gancho.
— Quando chegarem aqui, ouvirem nossa história e começarem a fazer alguma coisa, ele já terá sumido — disse ele. — Terá levado Regina para tão longe que nunca irão encontrá-la... a menos que encontrem o corpo dela por acaso, um dia.
— Mas precisamos de ajuda...
Apanhando a espingarda calibre 12 de cima da escrivaninha e empurrando-a nas mãos de Lindsey, ele disse:
— Vamos segui-lo. Ele está com ela num carro. Num Honda, eu acho.
— Sabe a placa?
— Não.
— Você viu se...
— Na verdade, não vi nada — disse ele, abrindo a gaveta, tirando , a caixa de munição da espingarda e estendendo-a para ela, desesperadamente consciente dos segundos preciosos que estavam se escoando. — Eu estou em conexão com ele, é uma coisa que vem e vai, mas acho que a ligação está muito forte agora, forte o bastante. — Ele retirou da fechadura o chaveiro que tinha deixado lá ao abrir a gaveta. — Podemos seguir nos calcanhares dele, se não deixarmos que se distancie muito de nós. — Ele partiu rumo ao saguão, completando: — Mas temos que andar depressa.
— Hatch, espere!
Ele parou e girou para encará-la, enquanto ela se aproximava.
— Você vai — disse Lindsey. — Você o segue, se acha que é possível. Eu fico aqui, espero a polícia e conto tudo a eles, para que...
Balançando a cabeça, ele disse:
— Não. Preciso de você para guiar o carro. Estas... estas visões são muito atordoantes, eu sofro uma espécie de blecaute e fico totalmente desorientado enquanto dura. Não há a menor chance de eu poder guiar um automóvel nesse estado. Vamos, leve essa espingarda e essa munição para o Mitsubishi. — Galgando os degraus da escada de dois em dois, ele gritou: — E pegue lanternas elétricas.
— Para quê?
— Não sei, mas sei que vamos precisar.
Estava mentindo. Ficara um tanto surpreso ao ouvir esse pedido feito por si próprio, mas sabia que àquela altura era o seu inconsciente que o orientava e tinha o palpite de que as lanternas seriam essenciais. Em seus pesadelos dos últimos dois meses, por diversas vezes ele se vira caminhando através de salões cavernosos e um labirinto de corredores de concreto que ele conseguia enxergar a despeito de não ver ali nenhuma janela ou iluminação artificial. Havia um túnel em particular, uma rampa descendente rumo a uma escuridão total, sumindo no desconhecido, que o enchia de pavor a ponto de seu coração bater como se fosse arrebentar. Era por isso que precisariam de lanternas... porque estavam indo para aquele lugar que até então ele tinha visto apenas em sonhos ou visões, no coração do pesadelo.
Ele terminou de subir a escada e estava entrando no quarto de Regina quando percebeu que não sabia por que motivo tinha ido até ali. Parando no umbral, ele olhou a fechadura despedaçada, a cadeira tombada no chão, depois o armário embutido com a porta aberta revelando uma confusão de roupas e cabides, depois a janela aberta por onde entrava uma brisa fraca, agitando as cortinas.
Alguma coisa... alguma coisa importante. Ali mesmo, naquele quarto, alguma coisa de que ele iria precisar.
Mas o quê?
Passou a Browning para a mão esquerda e limpou a palma úmida da mão direita nos jeans. Àquela altura o assassino tinha ligado o carro e estaria se afastando dali com Regina a toda velocidade, provavelmente já estaria perto da Crown Valley Parkway. Cada segundo era precioso.
Embora começasse a imaginar que tinha subido as escadas num impulso de pânico, e não porque precisasse de alguma coisa, Hatch decidiu deixar-se levar um pouco mais por aquela compulsão. Foi até a escrivaninha e deixou seus olhos correrem pelos livros, canetas, um caderno. A pasta de livros a um canto. Uma das pinturas de Lindsey pendurada na parede.
Vamos, vamos. Alguma coisa que ele precisava... precisava tanto das lanternas, quanto da espingarda ou a caixa de munição. Alguma coisa.
Ele virou-se, viu o crucifixo e foi na sua direção. Pisando sobre a cama, ele arrancou a cruz da parede onde estava pendurada. I
Saltando para o chão novamente, ele correu para fora do quarto e desceu as escadas, segurando a cruz com força, sua mão direita cerrada sobre ela.
Percebeu que não a segurava como se fosse um objeto de simbolismo religioso, mas como uma arma — uma machadinha ou um cutelo de açougueiro.