Esconderijo
— Sei que é meio confuso para…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Lindsey estava no seu estúdio do andar superior, entre o seu próprio quarto de dormir e o segundo quarto, o que ficava ao lado do quarto de Regina. Movendo o seu banquinho de diante do cavalete para sua prancheta, ela abriu um bloco de desenho e começou a planejar seu próximo quadro.
Sentia que era importante, naquele momento, focalizar todas as suas energias no trabalho; em parte porque a criação artística podia curar as feridas da alma, tanto quanto a apreciação das obras de arte, mas também porque apegar-se às tarefas de rotina era o único modo de tentar reagir contra as forças irracionais que pareciam estar se erguendo em torno deles, como uma inundação de águas turvas. Nada poderia acontecer de ruim na sua vida se ela continuasse pintando, bebendo café preto nas doses habituais, fazendo três refeições por dia, lavando os pratos quando estivessem sujos, escovando os dentes antes de dormir, tomando um banho de chuveiro e passando desodorante no corpo todas as manhãs. Como alguma criatura do Além poderia invadir a vida de uma pessoa organizada? Fantasmas e assombrações, duendes e monstros, nenhuma dessas criaturas poderia ter alguma espécie de poder sobre pessoas vestidas, penteadas, desodorizadas, fluorizadas, alimentadas, empregadas e motivadas para a vida.
Isso era o que ela se esforçava para acreditar. Mas quando tentou começar um desenho, não conseguiu dominar o tremor em suas mãos.
Honell estava morto.
Cooper estava morto.
De vez em quando olhava para a janela, para ver se a aranha tinha voltado. Mas não viu a sorrateira forma negra, nem o rendilhado brilhante de uma nova teia. Só a vidraça. E, além dela, os topos das árvores e o céu azul.
Depois de algum tempo, Hatch entrou no estúdio. Ele a abraçou por trás e beijou-a no rosto.
Mas o estado de espírito dele estava mais para solene do que para romântico. Trazia uma das pistolas Browning na mão e a depositou em cima do armário de utilidades.
— Leve isto consigo, se deixar o estúdio — disse. — Ele não vai aparecer durante o dia. Eu sei disso. Eu sinto. É como... como se ele fosse um vampiro, ou Deus sabe o quê. Mas um pouco de cuidado extra não pode fazer nenhum mal, especialmente se você estiver aqui sozinha.
Ela tinha suas dúvidas, mas respondeu apenas:
— Está bem.
— Vou dar uma saída. Fazer umas compras.
Que compras? — perguntou ela, girando no banquinho para encará-lo de frente.
— Não temos bastante munição.
— Pelo que vi, as duas pistolas estão com os pentes cheios.
— E também preciso comprar uma carabina.
— Hatch! Mesmo que ele venha aqui, e isso provavelmente não vai acontecer, isto... isto não é uma guerra. Se um assaltante invade uma casa, é uma questão de dar alguns tiros, não de acabar com o mundo.
O rosto de Hatch, parado diante dela, era duro e inflexível.
— Uma boa carabina é a melhor arma para defender uma residência.
Você não precisa ser um bom atirador. O tiro se espalha e atinge o alvo de qualquer forma. Sei exatamente o que preciso, é uma de cano curto, que se segura com uma mão só, como uma pistola, e...
Ela pousou a mão sobre o peito dele, fazendo-o parar.
— Hatch, você está me assustando.
— Ótimo. Se estivermos assustados vamos abrir mais os olhos. Ele não vai nos pegar desprevenidos.
— Se acha mesmo que há perigo, então não devíamos manter Regina aqui.
— Não podemos mandá-la de volta ao São Tomás — disse ele de imediato, como se já tivesse pensado na resposta.
— Só até este assunto estar resolvido.
— Não. — Hatch abanou a cabeça. — Regina é muito sensível, você sabe. Ela é frágil e tem uma tendência a interpretar qualquer coisa como um gesto de rejeição. Talvez não conseguíssemos fazer com que ela entendesse. .. e ela não nos daria jamais uma segunda chance.
— Estou certa de que...
— Além disso, teríamos que dar alguma explicação ao orfanato. E mesmo que contássemos uma mentira qualquer, que não imagino qual pudesse ser, eles saberiam que estaríamos mentindo e começariam a imaginar o motivo. Dentro de pouco tempo estariam reconsiderando sua boa impressão a nosso respeito. E se dissermos a verdade, se começarmos a falar sobre visões paranormais e ligações telepáticas com psicopatas homicidas, eles vão achar que somos malucos, e aí sim, nunca mais vamos ver essa garota.
Ele tinha pensado em tudo. Lindsey sabia que ele tinha razão. Ele a beijou de leve outra vez.
— Volto em uma hora. Duas, no máximo.
Depois que Hatch saiu, ela ficou algum tempo fitando a pistola.
Depois virou-lhe as costas num gesto irritado e apanhou o lápis. Arrancou a página rabiscada do seu bloco de desenho, descobrindo uma nova página em branco. Uma página branca, imaculada. E que permaneceu assim.
Mordendo o lábio num gesto nervoso, ela olhou para a janela. Nada de aranha. Nada de teia. Apenas a vidraça... e os topos das árvores e o céu azul.
Ela nunca tinha percebido, até aquele instante, o quanto um céu azul podia ser ameaçador.
Havia duas aberturas cobertas por tela de arame, no sótão da garagem, destinadas à ventilação. A entrada do sol era dificultada pelo telhado logo acima e pela própria espessura da tela, mas ainda assim um pouco de luz se filtrava para dentro, juntamente com fracas correntes do ar fresco da manhã. A luz não chegava a incomodar Vassago, até porque ele tinha se refugiado entre duas pilhas de caixas, e o restante da mobília em redor o protegia de uma visão direta daquelas aberturas. O ar cheirava a madeira seca e a papelão velho.
Ele tinha dificuldade para conciliar o sono, de modo que tentou relaxar imaginando que bela fogueira podia ser feita com o conteúdo daquele sótão. Sua rica imaginação o deixava visualizar sem esforço grandes lençóis de chamas rubras, espirais de fogo em tom vermelho e amarelo e o estralejar das bolhas de seiva explodindo dentro da madeira dos caibros. Papelão, papel de embrulho, revistas velhas e documentos... tudo desaparecendo por entre cortinas de fumaça, com um crepitar que lembrava os aplausos frenéticos de milhões de pessoas num teatro escuro e distante. Embora o incêndio ocorresse apenas em sua imaginação, ele chegou a apertar os olhos para protegê-los da luz vermelha das chamas.
Mas aquela fantasia incendiaria não o divertiu muito — talvez porque o sótão estaria ocupado apenas com coisas em chamas, meros objetos sem vida. Que graça podia ter aquilo?
Dezoito pessoas haviam morrido queimadas—ou pisoteadas—na Casa Assombrada, na mesma noite em que Tod Ledderbeck morrera na Centopéia. Aquilo, sim, tinha sido um incêndio de verdade.
Ele ficara imune à mais leve suspeita quanto à morte do "piloto do espaço" e a destruição da Casa Assombrada; mas os resultados de suas brincadeiras naquela noite acabaram por deixá-lo um tanto abalado. As mortes no Mundo da Fantasia ocuparam as manchetes dos jornais por cerca de duas semanas, e durante mais de um mês foram assunto obrigatório de conversas na escola. O parque foi fechado temporariamente; quando reabriu, o movimento revelou-se assustadoramente menor. Houve um novo fechamento para reformas, e após uma nova reabertura a freqüência do público continuou muito baixa, e o parque acabou indo à falência dois anos depois, sucumbindo à publicidade negativa e a uma enxurrada de processos judiciais. Alguns milhares de pessoas ficaram sem emprego. A Sra. Ledderbeck teve um esgotamento nervoso, embora para Jeremy aquilo não passasse de uma cena de teatro para fingir que gostava de Tod... a velha hipocrisia de sempre.
Mas o que mais afetou Jeremy foi outro tipo de conseqüências, estas mais pessoais. Durante a longa noite insone que se seguiu a suas aventuras no Mundo da Fantasia, ele percebeu que tinha perdido o autocontrole. Não ao matar Tod. Sabia que aquilo tinha sido certo e adequado — um Mestre do Jogo provando sua mestria. Mas depois do momento em que havia atirado Tod fora da Centopéia, ele se sentira inebriado de poder e vagueara pelo parque num estado mental semelhante ao que ele imaginava ser o de alguém que bebe meia dúzia de cervejas. Tinha ficado bêbado, intoxicado, saturado, totalmente encharcado de poder, porque invocara para si o papel da própria morte e se tornara aquilo que todos os homens temiam. A experiência não era apenas inebriante: ela viciava, criava uma dependência. Jeremy se viu querendo repetir tudo aquilo no dia seguinte, e no outro, e todos os dias pelo resto de sua vida. Queria matar gente pelo fogo novamente, e depois queria saber como seria a sensação de matar alguém com uma lâmina afiada, com um revólver, com um martelo, com as mãos nuas. Naquela noite ele atingiu uma espécie de puberdade precoce, cuja ereção se deu através de fantasias de morte, e que o levou a conhecer o orgasmo pela expectativa das mortes que ainda poderia cometer. Aturdido por aquele primeiro espasmo sexual e pelo fluido que emitiu, ele acabou entendendo, quando o dia começou a amanhecer, que um Mestre do Jogo não apenas tinha de saber matar sem medo, mas precisava aprender a controlar o desejo avassalador de matar novamente, conseqüência de matar uma vez.
Escapar impune daquele crime provava sua superioridade sobre os outros jogadores, mas ele não ficaria impune por muito tempo se saísse por aí fora de controle, alucinado, como um daqueles sujeitos que ela via na TV — sujeitos que empunhavam uma arma automática e saíam fuzilando todo mundo que encontravam pela frente num shopping. Um tal sujeito não era um Mestre. Era um idiota, e um perdedor. Um Mestre era alguém que escolhia e atacava, alguém que selecionava seus alvos com muito cuidado e os eliminava com estilo.
Agora, deitado no sótão daquela garagem, sobre uma pilha de encerados, ele pensou que um Mestre devia ser como uma aranha. Escolhendo seu campo de caça. Tecendo sua teia. Refugiando-se num canto, recolhendo suas longas pernas sob o corpo, tornando-se uma coisa minúscula... e esperando.
Havia muitas aranhas dividindo com ele o espaço daquele sótão. Mesmo na escuridão ele podia vê-las com seus olhos estranhamente sensíveis. Algumas delas eram extraordinariamente hábeis. Outras estavam vivas mas permaneciam imóveis, fingindo-se de mortas. Ele sentia uma imensa afinidade com elas. Suas irmãzinhas.
A loja de armas parecia uma fortaleza. Uma placa próxima à porta da frente advertia que o prédio estava protegido por um sistema múltiplo de alarmes e, durante a noite, por cães ferozes. Havia barras de aço diante das janelas. Hatch reparou que a porta teria quase dez centímetros de espessura; era de madeira mas provavelmente tinha um miolo de aço; e as três dobradiças que a mantinham no lugar pareciam ter sido desenhadas para uso numa batisfera destinada a mergulhar no oceano e suportar pressões de milhares de toneladas. Muitas mercadorias acessórias do comércio de armas estavam expostas em prateleiras abertas, mas os rifles, carabinas e armas curtas estavam trancados em armários com vidraças ou presos com corrente aos suportes nas paredes. Em cada um dos quatro cantos do recinto havia câmara de vídeo, por trás de vidraças à prova de bala.
A loja era mais bem protegida do que um banco. Hatch imaginou se estava vivendo numa época em que os ladrões consideravam as armas mais atraentes do que o próprio dinheiro.
Os quatro balconistas eram sujeitos simpáticos, que criavam um clima de camaradagem entre si e de descontração com os fregueses. Usavam camisas longas, por fora das calças. Talvez gostassem de se sentir à vontade. Ou talvez cada um deles estivesse usando um revólver num coldre enfiado dentro das calças, por trás.
Hatch comprou uma Mossberg calibre 12 de cano curto, empunhadura de pistola.
— A melhor arma para defender uma casa—disse o vendedor.—Com uma dessas, não se precisa de mais nada.
Hatch pensou que devia sentir-se grato por viver numa época em que o governo prometia proteger e defender seus cidadãos de perigos tão sutis quanto o excesso de rádon nos porões e as conseqüências ambientais da extinção de algum mosquito de cauda azul e um olho só. Numa época menos civilizada — na virada do século, digamos — ele sem dúvida teria que atender à porta vestindo uma cota de malhas de aço, além de manter em casa um arsenal de armas pesadas e de explosivos.
Pensou que a ironia era uma forma muito amarga de humor, algo que não lhe agradava de modo especial. E menos ainda no estado de espírito em que se encontrava.
Preencheu os formulários exigidos pelas leis federais e estaduais, pagou com cartão de crédito e deixou a loja levando a carabina, um estojo de limpeza e caixas de munição inclusive para as pistolas Browning. Por trás dele, a porta da loja se fechou com um ruído pesado, como se ele estivesse saindo de um cofre forte.
Depois de colocar as compras na mala do Mitsubishi, ele sentou ao volante, ligou o motor — e ficou paralisado, com a mão pousada sobre a alavanca de mudança. Do outro lado do pára-brisa, o pequeno pátio de estacionamento tinha desaparecido. A loja de armas não estava mais ali.
Como se um mágico tivesse proferido um poderoso encantamento, o dia ensolarado também desaparecera. Hatch se viu no meio de um longo túnel, iluminado de forma estranha. Olhou pelas janelas laterais do carro, olhou para a traseira, mas a ilusão ou alucinação — fosse aquilo o que fosse — o envolvia por todos os lados e era tão realística em seus detalhes quanto tinha sido a imagem do estacionamento segundos atrás.
Olhando para diante, ele viu uma subida íngreme em cujo centro havia trilhos metálicos de bitola estreita, como que para a passagem de um trem de dimensões reduzidas. De repente, o carro começou a se mover, como se fosse um trem subindo aquela rampa.
Hatch enterrou o pé no freio, mas sem resultado.
Ele fechou os olhos, contou até dez, ouvindo o bater descompassado de seu coração e dizendo a si mesmo para ficar calmo, sem resultado. Quando voltou a abrir os olhos, o túnel ainda estava ali.
Tateando, desligou o motor do carro e ouviu quando ele parou de funcionar. Mas o movimento continuou.
No silêncio que se seguiu ao desligar do motor, ele começou a escutar um novo som. Clickety-clack, clickety-clack, clickety-clack...
Um grito sem nada de humano elevou-se à sua esquerda e, pelo canto do olho, Hatch percebeu um movimento ameaçador. Virou a cabeça rapidamente. Para seu assombro, avistou uma figura monstruosa, uma espécie de lesma pálida da altura de uma pessoa. Aquilo se ergueu e desferiu um grito na sua direção, com uma boca cheia de dentes que giravam como as lâminas de uma máquina de triturar lixo. Um outro monstro idêntico emitia guinchos de dentro de uma espécie de nicho na parede do túnel à sua direita, e havia mais deles adiante, e depois deles outros monstros diferentes, todos gritando, grasnando, rugindo, emitindo silvos e rosnados à medida que Hatch passava diante deles.
A despeito de seu terror e sua desorientação, ele percebeu desde logo que aquelas criaturas grotescas ao longo das paredes do túnel eram formas mecânicas, não seres reais. E quando aquela idéia se fixou em sua mente, ele reconheceu por fim aquele som familiar que estava ouvindo. Clackety-clack, clackety~clack. Ele estava no interior de uma daquelas montanhas-russas em recinto fechado, embora estivesse sentado no interior de seu próprio carro, mo vendo-se em velocidade cada vez mais lenta rumo ao topo daquela subida, havendo um pouco mais adiante uma descida vertiginosa.
Hatch não tentou convencer a si próprio que aquilo não podia estar acontecendo, não tentou se beliscar para acordar ou voltar a si. Já compreendia que não tinha de acreditar naquelas experiências para que elas continuassem: uma vez iniciadas, elas prosseguiam até o fim, quer ele acreditasse ou não, de modo que o melhor a fazer era trincar os dentes e encarar o que viria.
O fato de aceitar aquilo, contudo, não queria dizer que ele o aceitasse sem medo. Na verdade, estava aterrorizado.
Durante alguns instantes pensou em abrir a porta do carro e sair. Talvez isso quebrasse o encanto. Mas não o fez, porque temia sair do carro e descobrir que não estava no estacionamento da loja de armas, e sim no meio daquele túnel... e que o carro estava se afastando dele, vazio. Perder o contato com seu Mitsubishi podia significar a ruptura definitiva com a realidade, como bater uma porta atrás de si e entregar-se para sempre àquela alucinação, sem nenhuma saída possível, nenhum caminho de volta.
O carro passou pelo derradeiro monstro mecânico. Atingiu o topo da rampa. Passou com estrondo através de uma porta de vaivém... e mergulhou na escuridão. A porta de vaivém fechou-se às suas costas. O carro avançou... avançou... avançou... E sem aviso precipitou-se quase verticalmente no interior do que pareceu a Hatch um poço sem fundo.
Hatch gritou, e com aquele grito a escuridão desapareceu. O dia ensolarado de primavera ressurgiu, brilhante, ao seu redor. O estacionamento. A loja de armas.
Suas mãos estavam crispadas em torno do volante, com tanta força que todos os seus dedos doíam.
Durante toda a manhã, Vassago passou mais tempo acordado do que dormindo. Mas quando cochilou, sonhou que estava de novo na Centopéia... naquela noite de glória.
Nos dias e noites que se seguiram às mortes no Mundo da Fantasia, ele tinha provado sem sombra de dúvida ser um Mestre, ao dominar com mão de ferro seu desejo de voltar a matar. A simples lembrança de haver matado já era suficiente para aliviar, de tempos em tempos, a pressão que ia se acumulando dentro dele. Por centenas de vezes ele voltava a saborear os detalhes sensuais de cada uma daquelas mortes, satisfazendo parcialmente aquela imperiosa necessidade. E a consciência de que poderia voltar a matar a qualquer hora que desejasse, por estar acima de qualquer suspeita, era um motivo a mais para ele não ceder sem mais nem menos àquele impulso.
Passou dois anos sem matar ninguém. Então, aos catorze anos, afogou um colega durante um acampamento de verão. O garoto era menor e mais franzino do que ele, mas lutou desesperadamente. Quando foi encontrado boiando no lago, com o rosto para baixo, não se falou de outra coisa no acampamento durante o resto do mês. A água podia ser algo tão excitante quanto o fogo.
Aos dezesseis anos, depois de tirar sua carteira de motorista, liquidou dois indivíduos a quem deu carona, um em outubro, o outro uns dois dias antes do Dia de Ação de Graças. O de novembro era apenas um estudante que ia passar o feriado em casa, mas o outro era algo especial: um predador que imaginou ter dado de cara com um garoto ingênuo e abobalhado, que seria divertido liquidar. Jeremy usou uma faca para dar cabo dos dois.
Aos dezessete, quando descobriu o satanismo, leu tudo que encontrou pela frente; ficou surpreso em ver que sua filosofia secreta já era algo codificado e posto em prática por cultos clandestinos. Claro que havia algumas formas relativamente benignas, divulgadas por indivíduos covardes que adotavam o papel de gigolôs do Mal, usando-o como um mero pretexto para o culto do hedonismo. Mas existiam também os verdadeiros adeptos da crença de que Deus tinha tentado criar o homem à Sua imagem, e falhara; de que a massa da Humanidade era equivalente a gado; de que o único sentimento digno de admiração era o egoísmo; de que o prazer era o único objetivo que valia a pena; e que o maior prazer era exercer o próprio poder sobre os outros, da maneira mais brutal.
A mais refinada expressão de poder (ele leu num daqueles livros) era quando um indivíduo exterminava as pessoas que lhe haviam dado a vida, cortando assim todos os laços do "amor familiar". O livro dizia que cada indivíduo deve rejeitar, da forma mais violenta possível, todo o conjunto hipócrita de leis, regras e sentimentos nobres através dos quais a maioria dos homens finge se guiar. Jeremy tinha levado isso ao pé da letra, e isso lhe garantira um lugar no Inferno... de onde seu pai conseguira trazê-lo de volta.
Mas em breve ele estaria lá novamente. Mais umas mortes, duas em particular, seriam capazes de lhe dar a repatriação para a terra da escuridão e dos amaldiçoados.
O sótão ia ficando cada vez mais quente à medida que o dia avançava.
Moscas gordas zumbiam de um lado para outro no abrigo estreito onde ele se encontrava. De vez em quando alguma delas se prendia para sempre num daqueles fios brilhantes mas pegajosos, tecidos por entre os caibros do teto. E aí as aranhas começavam a se mover.
Naquele espaço quente e apertado, o cochilo de Vassago foi aos poucos se tornando um sono mais profundo, com sonhos mais intensos. Fogo e água... balas e lâminas.
De cócoras num canto da garagem, Hatch estendeu a mão entre duas azaléias e ergueu a tampa da caixa de controle das luzes do jardim. Ajustou o controle automático de modo a evitar que as luzes da alameda e dos arbustos se apagassem à meia-noite, como de costume. Agora, ficariam acesas até o amanhecer.
Voltou a fechar a tampa de metal, ergueu-se e olhou para a rua calma, bem-cuidada. Tudo ali era harmonia. Cada uma das casas tinha um telhado em tonalidades de marrom, areia, pêssego, diferentes dos agressivos telhados vermelho-laranja das casas mais antigas da Califórnia. As paredes estucadas eram pintadas em cor creme ou dentro de uma gama limitada de tonalidades pastel especificadas num documento intitulado "Acordos, Convenções e Restrições" que acompanhava a escritura e a hipoteca da casa. Os gramados, de um verde intenso, tinham sido aparados recentemente; os canteiros de flores estavam arranjados com esmero, as árvores podadas. Era difícil acreditar que uma violência inominável pudesse jamais irromper do mundo exterior para dentro de uma vizinhança tão ordeira e em pleno processo de ascensão social; e era inconcebível que algo sobrenatural pudesse estar vagueando por aquelas ruas. A normalidade daquele quarteirão era algo tão sólido que ele parecia cercado de muralhas de granito encimadas por torres como as dos castelos medievais.
Ele pensou — e não era a primeira vez que pensava assim — que, se não fosse por ele, Lindsey e Regina estariam perfeitamente a salvo ali. Se a loucura tinha invadido aquela fortaleza da normalidade, é porque ele lhe abrira a porta. Talvez ele próprio estivesse louco; talvez aquelas estranhas experiências por que vinha passando não fossem algo tão grandioso quanto visões paranormais; talvez fossem simplesmente alucinações de uma mente insana. Ele era capaz de apostar tudo que tinha na própria sanidade mental; mas ao mesmo tempo não tinha certeza de que ganharia a aposta. Em todo caso, fosse ele insano ou não, era o contato através do qual a violência poderia se abater sobre eles todos, e talvez fosse melhor que sua família se afastasse durante algum tempo, pondo alguma distância entre eles até que todo aquele pesadelo tivesse passado.
Mandar Lindsey e Regina para longe parecia uma decisão sábia e prudente—exceto pelo fato de que uma vozinha lá no seu íntimo se insurgia contra essa opção. Ele tinha o pressentimento (ou seria mais do que um pressentimento?) de que o assassino não viria até ali em busca dele, e sim atraído por elas. Se ele as mandasse para outra parte, sozinhas, o monstro poderia segui-las, e Hatch ficaria sozinho em casa, à espera de um confronto que nunca chegaria a acontecer.
Muito bem; então ficariam todos juntos. Como uma família de verdade. Para vencer ou perder... juntos.
Antes de pegar o carro para levar Regina à escola, ele contornou devagar a casa, tentando descobrir algum ponto fraco nas suas defesas. O único que conseguiu encontrar foi uma janela destrancada na parte traseira da garagem. O fecho estava quebrado há algum tempo e ele vinha pensando em consertá-lo. Pegou suas ferramentas num dos armários da garagem e trabalhou no mecanismo, até que conseguiu deixar o ferrolho encaixado com segurança no prendedor.
Como dissera a Lindsey antes, ele não acreditava que o homem que aparecia em suas visões viesse naquela mesma noite, talvez nem sequer naquela semana ou dentro dos meses seguintes; mas ele viria, mais cedo ou mais tarde. Mesmo se essa visita indesejável levasse dias ou meses para acontecer, ele queria estar preparado.
2
Vassago acordou.
Sem abrir os olhos, sabia que a noite estava próxima. Podia sentir o peso opressivo do sol afastando-se do mundo, deslizando para trás das bordas do horizonte. Quando abriu os olhos, a débil luminosidade que se filtrava por entre as aberturas do sótão foi uma garantia de que as águas negras da noite estavam se erguendo, devagar.
Hatch já descobrira que não era propriamente uma tarefa fácil levar uma vida doméstica normal sabendo que a qualquer momento podia ser acometido por uma visão terrível, talvez sanguinolenta, e tão poderosa que era capaz de obliterar todo o resto da realidade enquanto durasse. Era difícil sentar na sala de jantar, sorrir, comer macarrão com queijo parmesão, fazer piadas e extrair uma risada daquela mocinha com olhos de expressão solene... e pensar ao mesmo tempo na carabina calibre 12 escondida num recanto, por trás de um painel de madeira, ou na pistola colocada sobre a geladeira da cozinha, fora do ângulo de visão de uma garota.
Ficou imaginando por onde o homem de negro poderia ter chance de entrar, se aparecesse. Durante a noite, claro. Ele só saía para atacar durante a noite. Não precisavam ficar se preocupando com a possibilidade de ele atacar Regina na saída da escola. Mas será que ele viria, num lance de ousadia, bater à porta ou tocar na campainha enquanto eles ainda estavam acordados, e com as luzes acesas, para que imaginassem que era apenas um vizinho que vinha bater papo? Ou esperaria até que estivessem dormindo, com as luzes apagadas, para tentar invadir a casa e pegá-los desprevenidos?
Hatch lamentou não ter em casa um sistema de alarme como o que tinha na loja. Quando venderam a casa antiga e mudaram para ali, logo depois da morte de Jimmy, devia ter chamado a Brinks imediatamente. Havia antiguidades valiosas em cada aposento. Mas durante muito tempo, ainda, o fato de terem perdido Jimmy os deixara indiferentes à possibilidade de perder qualquer outra coisa.
Durante todo o jantar, Lindsey se portou heroicamente. Comeu uma quantidade enorme de rigatoni, fingindo ter apetite — algo que Hatch jamais conseguiria; e preencheu cada um dos longos silêncios dele com uma conversa natural e descontraída, fazendo o possível para manter o clima de um jantar doméstico normal.
Regina era suficientemente observadora para perceber que havia alguma coisa errada. E, embora ela fosse forte o bastante para enfrentar qualquer coisa, era ao mesmo tempo contaminada por uma enorme insegurança, que poderia levá-la a crer que era ela a razão daquela tensão do casal.
Algumas horas antes, Hatch e Lindsey tinham discutido sobre o que poderiam contar à garota a respeito do problema que estavam enfrentando, sem alarmá-la mais do que o necessário. A resposta parecia ser: nada. Ela estava na companhia deles há dois dias apenas. Não os conhecia bem o bastante para poder ouvir uma história daquela natureza. Se fosse informada sobre os pesadelos de Hatch, crises de sonambulismo, a revista chamuscada e os assassinatos, ela acabaria pensando que tinha sido adotada por um casal de lunáticos.
E na verdade, naquele estágio dos acontecimentos, a garota não precisava saber de nada. Eles cuidariam dela; era isso que tinham jurado fazer.
Hatch achava difícil acreditar que apenas três dias antes o problema dos seus pesadelos recorrentes não tinha parecido suficientemente importante para fazê-los adiar o processo de adoção. Mas há três dias nem Honell nem Cooper estavam mortos, e poderes sobrenaturais pareciam apenas o assunto para filmes de terror para adolescentes e reportagens do National Enquirer.
Durante o jantar ele ouviu um ruído na cozinha. Um estalido, e um barulho de algo arranhando. Lindsey e Regina estavam mergulhadas num animado diálogo sobre Nancy Drew, a garota detetive de uma série de romances: discutiam se ela não passava de uma boba, que era o ponto de vista de Regina, ou se era uma garota esperta e inteligente para sua época, que parecia antiquada apenas quando era avaliada por critérios mais modernos. Ou as duas estavam tão envolvidas na conversa que não tinham escutado o ruído na cozinha ou não houvera ruído algum, tudo não passando de um produto de sua imaginação.
— Com licença — disse ele, erguendo-se da mesa. — Volto já.
Empurrou a porta de vaivém que separava a sala de jantar da cozinha e olhou em redor, desconfiado. A única coisa a se mover no recinto vazio era uma delgada coluna de vapor que se filtrava pela fresta entre a tampa e a panela cheia de molho de espaguete, sobre uma bandeja de cerâmica em cima do balcão da cozinha.
Houve um ruído abafado na sala menor, em forma de "L", que dava acesso à cozinha pela extremidade oposta. De onde estava, Hatch podia ver a sala em parte, mas não toda. Atravessou a cozinha pisando de leve e de passagem pegou a Browning 9mm que estava em cima do refrigerador.
Cruzou o portal: a sala estava vazia. Mas agora tinha certeza de que não imaginara este segundo ruído. Ficou parado por um instante e olhou em redor, perplexo.
Sua pele arrepiou-se, e ele cruzou a sala, indo em direção do corredor que conduzia ao saguão de entrada. Nada. Ele estava sozinho ali. Então, por que motivo ele sentia como se alguém estivesse encostando um cubo de gelo na sua nuca?
Foi caminhando com cuidado pelo corredor e se deteve diante da porta do armário embutido onde guardavam os casacos. O armário estava fechado. Na extremidade oposta do corredor ficava o banheiro social do andar térreo, cuja porta também estava fechada. Hatch sentiu alguma coisa impelindo-o na direção do saguão de entrada e sua primeira reação foi a de seguir essa intuição e ir em frente, mas ele não queria deixar atrás de si aquelas duas portas fechadas.
Abriu num repelão a porta do armário e no mesmo instante constatou que não havia ninguém ali. Sentiu-se meio idiota com aquela pistola na mão, apontando para dois casacos pendurados em cabides, como se estivesse brincando de detetive do cinema ou coisa parecida. Era melhor rezar para que aquele não fosse o último rolo do filme. Às vezes, quando a história assim exigia, o mocinho morria no final.
Verificou o banheiro social, que também estava vazio, e foi até o saguão de entrada. Aquele inquietante pressentimento ainda o incomodava, mas não estava mais tão intenso quanto alguns momentos atrás. O saguão estava I deserto. Ele olhou a escada que conduzia ao andar superior, mas também estava vazia.
Examinou a sala de visitas. Ninguém. Através do pórtico que dava para a sala de jantar ele podia ver a extremidade da mesa onde Lindsey e Regina continuavam conversando, mas não podia avistá-las dali.
Foi até a saleta onde ficava o telefone, situada diretamente em frente ao saguão. Examinou tudo. Olhou no armário. Olhou embaixo da escrivaninha.
De volta ao saguão, experimentou a maçaneta da porta da frente. Trancada, como devia estar.
Assim não ia adiantar nada. Se ele àquela altura já estava com os nervos assim à flor da pele, como iria estar dentro de mais alguns dias ou de uma semana? Quando Lindsey quisesse que ele tomasse o café da manhã, ia ter que despregá-lo do teto.
De qualquer maneira, refez no sentido inverso o trajeto que tinha percorrido através da casa. Ao parar na pequena sala em forma de "L", ele experimentou a porta corrediça de vidro, que dava para o pátio traseiro. Estava trancada, e a barra de metal para impedir que deslizasse estava devidamente colocada ao longo do trilho.
De volta à cozinha, ele experimentou a porta que dava para a garagem. Estava destrancada... e mais uma vez ele sentiu aranhas correndo sobre seu couro cabeludo.
Abriu a porta. A garagem estava às escuras. Tateou à procura do comutador, acendeu as luzes. Os longos tubos fluorescentes jorraram uma luz branca e intensa por todos os recantos da garagem, eliminando virtualmente toda e qualquer sombra, mas sem revelar nada fora do normal.
Cruzando o portal, ele encostou a porta por trás de si. Caminhou devagar ao longo da garagem, tendo a porta à sua direita, a traseira dos dois automóveis à sua esquerda. A vaga do meio, entre os dois carros, estava desocupada.
Seus sapatos com sola de borracha não faziam o menor ruído. Ele esperava surpreender alguém agachado do outro lado dos carros, mas não havia ninguém ali.
Na extremidade oposta da garagem, quando ele estava junto do Chevrolet, deixou-se cair ao chão de repente e olhou embaixo do carro. Podia ver dali até o lado oposto da garagem, inclusive por baixo do Mitsubishi. Não havia ninguém escondido embaixo dos carros. Até onde ele podia perceber, considerando que os pneus tapavam pequenas faixas de sua visão, aparentemente não havia ninguém rodeando os carros para manter-se fora de sua vista enquanto ele caminhava.
Voltou a pôr-se de pé e foi até os fundos da garagem. Examinou os dois únicos armários que eram grandes o bastante para poder servir de esconderijo a uma pessoa. Não achou nada estranho.
Verificou mais uma vez o trinco da janela, que tinha consertado naquela manhã. Estava em perfeito estado, e o ferrolho trancado com segurança.
Voltou a sentir-se meio bobo. Parecia um homem adulto voltando aos tempos de criança, brincando de herói como os personagens de um filme.
Será que ele teria reagido à altura se alguém estivesse de fato escondido num daqueles armários, e saltasse sobre ele no instante em que abrisse a porta? E se, quando ele se abaixou para espiar embaixo do Chevrolet, desse de cara com um homem vestido de preto, encarando-o a poucos centímetros de distância?
Pensou que, por sorte, não tinha de responder àquelas perguntas incômodas. Mas pelo menos era bom tê-las formulado, e isso o fazia sentir-se menos idiota, porque o fato é que o homem de preto poderia ter estado ali.
Cedo ou tarde ele viria. Hatch estava mais certo do que nunca sobre a inevitabilidade desse confronto. Fosse intuição, fosse uma premonição, fosse o que fosse; mas ele sabia que podia confiar naquela voz que escutava dentro de si.
Ao passar de volta pelo Mitsubishi, avistou algo que lhe pareceu uma amassadura no capo. Parou, certo de que devia ser um efeito provocado pela luz; talvez a sombra da cordinha que puxava a escada para o sótão e que balançava exatamente sobre o capo. Deu um tapa na corda, mas a marca na lataria do carro não mudou de posição como faria se fosse provocada pela sombra da corda.
Inclinando-se sobre o pára-choque, Hatch tocou o metal luzidio e sentiu com a ponta dos dedos a leve depressão, rasa, mas do tamanho da palma de sua mão. Deu um suspiro. O carro era novo em folha e já precisava de conserto. A gente leva um carro recém-comprado para um passeio, e mal estaciona pela primeira vez algum idiota estaciona ao lado e, ao abrir a porta do próprio carro, amassa o seu. Nunca falha.
Ele não havia notado aquela mossa, nem ao retornar da loja de armas, nem depois de trazer Regina do colégio. Talvez ela não fosse muito visível de dentro do carro, por trás do volante; talvez para vê-la fosse necessário o ângulo adequado, de frente... mas certamente parecia grande o bastante para ser vista de qualquer posição.
Estava tentando imaginar como aquilo podia ter acontecido — alguém havia parado ao lado do carro e colocado alguma coisa pesada sobre o capo
— quando viu a pegada. Era uma mancha de poeira muito fina sobre a lataria vermelha, a sola e parte do salto de um sapato não muito diferente do que ele próprio estava usando. Alguém tinha ficado de pé sobre o capo do Mitsubishi.
Devia ter sido no São Tomás, com certeza, porque aquilo era o tipo de coisa que uma criança iria fazer, exibindo-se para os colegas. Hatch saíra mais cedo, receoso de pegar um trânsito lento, e acabara chegando no São Tomás vinte minutos antes do encerramento da aula. Em vez de esperar no carro, saíra para dar uma volta a pé, para descarregar um pouco das energias acumuladas. Certamente, algum garoto metido a esperto, da escola vizinha
— a pegada era grande demais para pertencer a uma criança do São Tomás —, tinha deixado sua escola um pouco mais cedo, com os colegas; e vai ver que tinha saído em disparada, subindo sobre os carros e saltando para o lado oposto, em vez de rodeá-los, como se tivessem acabado de fugir de uma prisão, e cães ferozes viessem correndo ao seu encalço, para...
— Hatch?...
O fio de suas idéias foi cortado bruscamente, justo quando parecia estar se encaminhando numa direção qualquer; ele rodou bruscamente na direção daquela voz como se fosse uma voz desconhecida, o que evidentemente não era.
Lindsey estava parada na porta que separava a garagem da cozinha. Olhou para a pistola que ele segurava na mão, olhou-o nos olhos.
— Alguma coisa errada, Hatch?
— Pensei que tinha ouvido algo.
— E...?
— Não foi nada. — Tinha ficado tão surpreso com o aparecimento de Lindsey que esqueceu a amassadura no carro e a pegada. Ao retornar em companhia dela para a cozinha, disse: — Esta porta estava destrancada, e eu a tinha trancado antes.
— Oh, Regina esqueceu um de seus livros no carro quando veio da escola. Foi pegá-lo na garagem, pouco antes do jantar.
— Você devia ter verificado se ela trancou a porta, na volta.
— Ora, é apenas a porta da garagem—disse Lindsey, encaminhando-se para a sala de jantar.
Hatch pôs a mão em seu ombro e fez com que ela se virasse de frente para ele.
— É um ponto vulnerável — disse ele, num tom de voz mais ansioso do que seria adequado àquele simples deslize.
— As portas externas da garagem não estão trancadas?
— Sim, e esta aqui também devia estar.
— Mas estamos o tempo inteiro indo da cozinha para a garagem.—Era verdade: eles tinham um segundo refrigerador na garagem. —Não é prático trancar esta porta, e nós sempre a deixamos destrancada.
— Pois não vamos deixar mais — disse Hatch com firmeza.
Estavam face a face, e Lindsey o examinou, preocupada. Hatch sabia o que ela estava pensando: que ele estava equilibrado numa linha muito tênue entre a prudência e uma espécie de histeria controlada, e que de vez em quando parecia ultrapassar essa linha. Por outro lado, ela não fora vítima das visões, nem sofrerá aqueles pesadelos.
Talvez o mesmo pensamento tivesse atravessado a mente de Lindsey, porque ela disse apenas:
-— OK, desculpe. Tem razão.
Ele retornou até a garagem e apagou as luzes. Fechou a porta, trancou-u pelo lado de dentro... mas por algum motivo não se sentiu nem um pouco seguro.
Lindsey estava se encaminhando novamente para a sala de jantar. Olhando por sobre o ombro, ela indicou com um gesto a pistola que Hatch ainda empunhava.
—- Vai voltar para a mesa com isso?...
Hatch pensou que o clima entre os dois estava tenso e decidiu descontrair um pouco. Esbugalhando os olhos, fez a melhor imitação possível de Christopher Lloyd e disse:
— Acho que alguns dos meus rigatoni ainda estão vivos. Eu só gosto de comê-los depois de mortos.
— Ora, você tem sua espingarda escondida por trás do painel de madeira — lembrou ela.
— Tem razão — disse Hatch, colocando a pistola de volta em cima do refrigerador. — E se ela não resolver, posso muito bem levá-los para a rua e passar com o carro por cima deles.
Lindsey empurrou a porta de vaivém, e Hatch a seguiu para a sala de jantar.
Regina ergueu os olhos e disse:
— Sua comida está esfriando.
Ainda mantendo a imitação de Christopher Lloyd, ele retrucou:
— Então vamos buscar uns suéteres, umas luvas de lã...
Regina deu uma gargalhada. Hatch adorava a risada dela.
Depois de ajudar Lindsey com os pratos do jantar, Regina subiu para o quarto para estudar um pouco.
— Prova de História amanhã — disse.
Lindsey voltou para o estúdio, pensando em trabalhar um pouco. Quando sentou-se diante da prancheta, ela viu a outra Browning 9mm. Estava ainda em cima do seu armário de utilidades, onde Hatch a colocara de manhã.
Ela lançou um olhar mal-humorado para a pistola. Não tinha nada contra as armas em si, mas aquela não era apenas uma pistola. Era um símbolo de sua impotência diante de uma ameaça amorfa que pairava sobre eles. Manter uma arma o tempo inteiro ao alcance da mão parecia uma admissão de que estavam numa situação desesperada e que não eram capazes de controlar o próprio destino. A visão de uma serpente enrascada sobre o armário não teria produzido no rosto dela uma expressão de desagrado maior.
Ela não queria que Regina entrasse ali por acaso e visse aquela arma.
Abriu a primeira gaveta do armário e afastou para o lado uma porção de lápis e borrachas, desocupando espaço para a pistola. Era uma gaveta estreita, e a Browning mal coube lá dentro. Mas ao fechá-la ela se sentiu melhor.
Durante toda aquela longa manhã, e depois toda a tarde, ela não havia progredido nem um pouco em seu trabalho. Recomeçara várias vezes, fazendo uma porção de esboços que não tinham conduzido a nada. Não estava nem um pouco perto de preparar uma nova tela.
Uma nova Masonite, na verdade; uma madeira prensada, mas ela ainda mantinha o hábito de pensar naquele retângulo como uma tela, como se fosse a reencarnação de um artista de uma época mais antiga e não pudesse se livrar de seus hábitos mentais. Ela também costumava pintar com tinta acrílica, em vez de tinta a óleo. A madeira prensada não se deteriorava com o tempo, come era o caso da tela, e a tinta acrílica mantinha as cores originais por um tempo muito mais longo do que a tinta a óleo.
Mas a verdade é que, a menos que ela pintasse alguma coisa, não ia fazer muita diferença se estivesse usando acrílico ou xixi de gato. Ela não podia se considerar uma artista se não era capaz de conceber uma idéia que estimulasse emocionalmente e uma composição que pudesse fazer justiça a essa idéia. Apanhando um lápis a carvão, ela se debruçou sobre o bloco de desenho aberto sobre a prancheta. Ia tentar arrancar a inspiração de sei pedestal, fazer com que a preguiçosa batesse asas e levantasse vôo novamente.
Depois de cerca de um minuto, seu olhar se ergueu da página, e vagueou, mais para cima, mais, até fitar a janela. À noite, não havia nenhuma paisagem para distraí-la, nada de árvores balançando suavemente sob a brisa ou mesmo uma faixa de céu azul. Para além da vidraça, a noite era opaca e sem imagens.
O fundo negro transformava a vidraça num espelho, onde ela se viu, com o rosto erguido por trás da prancheta. Como não se tratava de um espelho propriamente dito, a imagem que apareceu ali era meio transparente, fantasmagórica, como se ela tivesse morrido e voltado para assombrar o derradeiro lugar que havia conhecido durante sua vida terrena.