Eu Vos Abraço, Milhões

Moacyr Scliar · Capítulo 1 de 1 · parte 1/10

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Eu Vos Abraço, Milhões

Eu vos abraço, milhões

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

eu vos abraço, m ilhões

De um a coisa posso m e orgulhar, caro neto: poucos chegam , com o eu, a um a idade tão avançada, àquela idade que as pessoas costum am cham ar de provecta. Mais: poucos m antêm tam anha lucidez. Não estou falando só em raciocinar, em pensar; estou falando em lem brar. Coisa im portante, lem brar. Aquela coisa de “recordar é viver” não passa, naturalm ente, de um lugar-com um que j ovens com o você considerariam até algo m eio burro: se a gente se dedica a recordar, quanto tem po sobra para a vida propriam ente dita? A vida, que, para vocês, transcorre principalm ente no m undo exterior, no relacionam ento com os outros? Esse cálculo precisa levar em conta a expectativa de vida, precisa quantificar (com o?) prazeres e em oções. É difícil de fazer, exige um a contabilidade especial que não está ao alcance nem m esm o das pessoas vividas e supostam ente sábias. Que eu saiba, não há nenhum program a de com putador que possa aj udar — e, m esm o que houvesse, eu não saberia usá-lo, sou avesso a essas coisas. Vej o-m e diante de um a espinhosa tarefa: com binar m uito bem a vivência interior, representada sobretudo pela recordação e pela reflexão, com a vivência exterior, inevitavelm ente lim itada pela solidão, pela incapacidade física, pelo fato de que tenho m ais am igos entre os m ortos do que entre os vivos. E, de novo, qual a fórm ula adequada para essa com binação? Setenta por cento de vivência interior com trinta por cento de vivência exterior? Quarenta por cento de interior com sessenta por cento de exterior? O clássico m eio a m eio? Ou quem sabe quarenta e cinco por cento de cada — os dez por cento que sobram ficando reservados para aquele m isterioso e indefinido território que não é nem interior nem exterior, m as que pode estar em cim a, em baixo, ou em dim ensão nenhum a?

Não sei. Só sei que recordar é bom , e é das poucas possibilidades que m e restam , de m odo que recordo. É um a espécie de exercício em ocional, é um estím ulo para os m eus cansados neurônios, m as é sobretudo um prazer. Um prazer m elancólico, decerto, m as um prazer, sim , resultante da facilidade com que evoco pessoas, acontecim entos, lugares, um a facilidade que às vezes surpreende a m im próprio. Para alguns, m esm o não m uito velhos, o rio da m em ória é um curso de água barrenta que flui, lento e om inoso, trazendo destroços, detritos, cadáveres, restos disso ou daquilo; para m im , não: é um a vigorosa corrente de água lím pida e fresca. Dos barquinhos que nela alegres navegam , lem branças, às vezes m elancólicas, m as em geral risonhas, acenam -m e, gentis, am istosas. Estou falando, claro, de m em órias rem otas, daquelas que estão ligadas à m inha j uventude. As coisas do cotidiano, eu as esqueço com a m aior facilidade. Esqueço de apagar a luz, esqueço onde larguei o relógio, esqueço de dar a descarga no vaso sanitário, esqueço até os nom es das pessoas da casa geriátrica onde resido — por opção m inha, devo dizer: m eus filhos prefeririam que eu continuasse no apartam ento, ou então que fosse m orar com eles, coisa que recusei: não quero dar trabalho a ninguém .

Esquecer, m eu neto, é um truque que a natureza usa para nos desligar aos poucos da realidade da existência. Mas não precisam os encarar esse fato com o coisa inevitável, m esm o porque lem brar pode ser um a coisa agradável, particularm ente quando se traduz na possibilidade de narrar recordações para um a pessoa com o tu, m eu neto. Considero-te especial, m esm o que nossos encontros tenham sido raros, ou talvez exatam ente por causa disso. Vim o-nos cinco ou seis vezes, não m ais, e sem pre rapidam ente. Eu sabia que isso iria acontecer: quando teu pai, j ovem m édico, foi para os Estados Unidos, tive o pressentim ento de que não m ais voltaria. Dito e feito: fez um a carreira bem -sucedida, casou com um a colega m édica, tornou-se tão am ericano que até fala com sotaque. Só retornava esporadicam ente e por curtos períodos. Alegava que tinha com prom issos, m as o fato é que aparentem ente não se sentia m uito bem aqui. Por quê, não sei, e nunca lhe perguntei. As relações entre pais e filhos m uitas vezes estão envoltas em brum a m isteriosa, na qual realidade e fantasia se m isturam . Eu m esm o pouco posso te dizer de m inha m ãe (com quem , no entanto, convivi bastante e num a fase difícil de m inha vida), e m enos ainda de m eu pai. Espero que entre nós sej a diferente, e a carta que m e m andaste reforça essa expectativa. Aliás, parabéns pelo teu português. Para quem nasceu e se criou nos Estados Unidos, é excelente. Teu pai se preocupou em te m anter ligado às tuas raízes brasileiras, coisa que sem pre adm irei.

 

Num a carta (que gostarias fosse um e-m ail, m as, com o te disse, não sei usar essas coisas) tu m e perguntaste se sou feliz. Um a indagação casual, um a curiosidade, ou o resultado de um a inquietude de neto? Prefiro acreditar nesta últim a possibilidade: afinal, e, com o j á disseste m ais de um a vez, estás em busca de tuas origens e queres saber tudo sobre m im . Talvez estej as, na verdade, te indagando se tu próprio és, ou podes ser, feliz, se a felicidade está em butida no genom a que te leguei. Inquietação legítim a, m as, no m eu caso, a pergunta soa um tanto absurda. Pode-se dizer feliz, um m acróbio com o eu? Se sim , quais os critérios para definir felicidade, em tal precária situação? O sim ples fato de estar vivo, razoavelm ente lúcido e de poder ainda saborear um a costela gorda, m esm o com dentadura postiça, de poder tom ar chim arrão?

De qualquer m odo, tua pergunta m e fez pensar. E, tendo pensado a respeito, acho que posso responder afirm ativam ente: sim , sou feliz. Quão feliz? Que nota eu atingiria na escala de felicidade, se é que tal coisa existe? Dez sei que não, m as do zero tam bém escapo. E acho que estou acim a de cinco, acim a da m édia; se houvesse um exam e vestibular de felicidade, provavelm ente eu nele passaria; arranhando, m as passaria. Descontada a inevitável angústia — parte existencial, parte neurose propriam ente dita (a velhice não nos poupa disso) —, acho que na m aior parte do tem po sou razoavelm ente feliz. Poderia ser m ais feliz, se não tivesse essas dores pelo corpo, se escutasse m elhor, se enxergasse m elhor... se urinasse m elhor j á seria um a coisa m uito boa. Eu queria, m eu neto, que m inha urina fluísse im petuosa e alegre com o o rio da m em ória de que te falei antes. Mas a próstata, m eu caro, a próstata de um idoso é qualquer coisa de inim aginável em term os de obstáculo e de transtorno. “Crescei e m ultiplicai-vos”, disse Deus, e a próstata segue esse ditam e à sua m aneira; não pode m ultiplicar-se, a não ser através das m etástases de um câncer, o que seria, contudo, contraproducente, porque poderia levar ao óbito o corpo que a aloj a; m as “crescei” — por que não? Todos querem crescer, sobretudo os em preendedores, e a próstata, a m inha pelo m enos, é, antes de tudo isso, um a am biciosa em preendedora. Seu sonho é, m ediante um processo de im perialism o biológico, expandir-se, rechaçando para a periferia o frágil, inócuo, descartável portador, o portador em quem o destino a colocou, reduzindo-o a um gnom o enfezado, grotesco, um ser encarquilhado e atrófico que por algum tem po, e antes de desaparecer por com pleto, servirá de suporte para a descom unal e arrogante glândula. Que agora nem sequer tem a ver com reprodução (“Chega de fornecer o substrato para teus m alditos esperm atozoides, velho de m erda, esperm atozoides que aliás nem m ais existem , tua sem ente de há m uito se extinguiu”), e m enos ainda com sexo; tem a ver com vida, sim , m as na sua expressão m ais prim itiva e brutal. No fundo, é um a ressentida, a próstata. Acha que lhe foi atribuído um papel secundário na vida sexual: a m ão acaricia, a boca beij a, o pênis penetra; a próstata trabalha em silêncio; adem ais, é invisível. Mulher algum a dirá para o am ado: “Que bela próstata tu tens, querido, nunca vi próstata tão bela”.

Isso não j ustificaria, claro, os rancores glandulares. O anonim ato só é problem a em caso de hipertrofia do ego, não de hipertrofia prostática. A próstata deveria saber que o prazer do orgasm o, aquele clím ax da paixão, resulta, em boa parte, da passagem pela uretra da onda esperm ática, em grande parte nela, próstata, gerada. Alguns dos decibéis do Aaah que então em itim os (em itíam os, no caso da m inha categoria geriátrica) certam ente são atribuíveis a isso. É o que tento explicar, nos diálogos que com a próstata frequentem ente m antenho. Apelo à sua com preensão e solidariedade, lem bro que afinal form am os um a entidade, e que, revoltando-se contra m im , ela só tem a perder, com o só tinham a perder os órgãos que, no apólogo narrado por Menênio Agripa aos rebeldes plebeus de Rom a, revoltaram -se contra o estôm ago, isto no quase quinhentos anos antes de Cristo. É claro que Menênio Agripa estava usando o corpo biológico com o m etáfora para o corpo social, com o único propósito de convencer os revoltados a aceitar o dom ínio da aristocracia rom ana; porém foi, reconheçam os, hábil na escolha dessa m etáfora. No apólogo, os órgãos aceitaram a argum entação (e os plebeus tam bém ), m as a próstata, talvez porque m e falte a habilidade do político rom ano, recusa-se a negociar. O que quer, a m aldita, é m andar; quer a hegem onia, tem vocação im perial. E infelizm ente acaba conseguindo seu obj etivo. A próstata de fato dom ina os m acróbios, e expressa esse dom ínio retendo a urina, fechando as com portas da im aginária represa que separa os líquidos do corpo dos líquidos do m undo, teoricam ente um a unidade líquida, teoricam ente a unidade fundam ental. Com o diziam (e a com paração, adm ito, é irônica) os revolucionários na guerra civil da Espanha: no pasarán, os líquidos que elaboram os; ficarão presos, se possível para sem pre. Para os prostáticos, urinar representa um a incógnita (“Conseguirei?”), quando não um sofrim ento, e até um a hum ilhação: o j ato é fino, é fraco, é hesitante, é tím ido, é m edroso; às vezes reduz-se a um lam entável gotej am ento. Há, no m eu baixo-ventre, um perm anente conflito: a bexiga, ainda elástica e im paciente, quer esvaziar-se da urina que a distende de form a grotesca; a próstata não deixa. E é a próstata que tem a últim a palavra. Im põe-se pelo tam anho, pela consistência. Ah, com o eu gostaria de urinar, de urinar m uito, de produzir um a torrente caudalosa de m ij o, um a torrente capaz de encher o vaso, de inundar o banheiro, a casa, a cidade, o m undo, de criar um novo dilúvio, não destruidor com o aquele a que só Noé, sua fam ília e seus bichos sobreviveram ; não, um dilúvio cálido, am ável, um dilúvio em que todos pudessem navegar, fosse em seus caíques, fosse em seus iates; fosse em suas j angadas, fosse em transatlânticos (que volte o Titanic, será bem -vindo). É só o que eu quero, é a m inha única e m odesta am bição. Para m uitos a realização é o dinheiro, o poder, a fam a; eu só alm ej o urinar sem problem as. Mas a próstata, enigm ática e im placável, não o perm ite. A próstata não é Deus, m as a próstata pretende-se Deus, e não descansará enquanto não o conseguir, enquanto não chegar ao poder absoluto. O sonho da próstata é sobressair, m aj estosa, sobre o território corporal, com o o Corcovado sobre a baía da Guanabara (e logo entenderás a razão desta com paração). Mais que isso: as próstatas querem se unir. É parte de seu plano de dom inação universal. Independentem ente do lugar onde estej am , ao sul, ao norte, a leste, a oeste, nos trópicos ou nos polos, no cam po ou na cidade, elas crescerão tanto, se expandirão de tal m aneira, que, ultrapassando pela violência qualquer lim ite corporal (“Carcaça nenhum a nos aprisionará”), acabarão se encontrando. E aí: fusão, a form ação de um a única, am orfa e descom unal m assa prostática, que, estendendo-se vencedora sobre o m undo inteiro, destruindo vilas e cidades, subindo m ontanhas e penetrando em cavernas, gerará o planeta Próstata, precursor do universo Próstata. Nenhum toque retal nos alertará para essa possibilidade, nenhum a cirurgia, por radical que sej a, a evitará.

Este dom ínio resultante da sim ples presença (estou aqui, obedeçam ) é o sonho de qualquer tirano. Não se trata de um proj eto revolucionário, “Próstatas de todo o m undo, uni-vos, nada tendes a perder a não ser a situação hum ilhante a que, por m ilênios, vos relegou a cham ada hum anidade”; não, nenhum a próstata-líder form ulou tal consigna, que para m im , particularm ente, seria até consoladora, ou pelo m enos nostálgica, com o adiante verás. Infelizm ente trata-se de algo pior, m uito pior; trata-se de um a aspiração intrínseca à natureza da glândula, j am ais traduzida em palavras, m uito m enos em lem as. E talvez não chegue sequer a ser perversa, essa aspiração; talvez sej a coisa natural, orgânica, a am pliação pura e sim ples do desej o darwiniano de sobrevivência, da lei do m ais forte. Daí m inha resignação.

Essa irresistível tendência para o gigantism o im perialista que caracteriza a próstata senil contrasta com a m iniaturização da existência que ocorre na velhice. Coisas pequenas, m inúsculas, passam a ter significado transcendental. Onde deixei a chave? Será que não pus m uito sal na sopa? Aquele livro na prateleira está em posição adequada ou deveria estar m ais para a esquerda, m ais para a direita? Dúvidas que geram conflitos dilacerantes, raiva, frustração. Mesm o porque só pensam os nas coisas pequenas para não ter de pensar nas coisas m aiores, questões tipo: qual o sentido da vida?, e: quanto tem po m e resta?

 

Mas chega dessas rum inações desagradáveis e m alucas. Deixa-m e contar algo de m inha vida. Velhos gostam disso, de falar sobre o passado, principalm ente quando, com o no m eu caso, há m uito a dizer sobre esse passado, e quando existe alguém com o tu, interessado no que contam os. Mesm o porque, m eu querido neto, tem os convivido tão pouco, que não sabes quase nada sobre m im , assim com o eu não sei quase nada sobre ti. Lem bro bem tua vivacidade, teu riso fácil, teus com entários inteligentes sobre vários assuntos; m as ignoro quase tudo acerca da vida que levas, tuas atividades, teus am igos, tuas nam oradas. Em sum a, és o m eu neto enigm ático, pois com os outros convivo bastante. Por outro lado, e j á que queres saber de m im , aqui vão algum as coisas sobre este teu distante avô, coisas que, espero, te interessarão.

Nasci no interior do Rio Grande do Sul, nos arredores da cidade de Santo Ângelo, nas Missões. Região histórica: lá, no século dezessete, os j esuítas reuniram os guaranis para um a inusitada experiência de vida religiosa e com unitária; lá, portugueses, espanhóis e índios travaram batalhas sem fim , batalhas que acabaram por extinguir as reduções m issioneiras. É um a região de im ensas planícies e vastos horizontes. Acho que esse lugar de algum a m aneira condicionou m eu destino, tanto pela história (que eu conhecia bastante, desde criança: m ais de um a vez, com m eus colegas de escola, visitei as ruínas das Missões, e depois li m uito a respeito), com o pelo belo, inspirador cenário geográfico: planície im ensa, coxilhas, vastos horizontes. Vastos, ainda que im precisos. Vastos, ainda que enigm áticos. Vastidão e enigm a: isso deve ter fascinado os j esuítas quando ali chegaram , com o até hoj e fascina os visitantes. Mas eles não vieram adm irar a paisagem , vieram com um a m issão, catequizar os indígenas, e disso resultaram povoações e depois cidades, com o a de Santo Ângelo. A verdade é que foram coraj osos, aqueles padres. À época o Brasil era basicam ente o litoral, e dali os portugueses, que com o caranguej os (para usar a com paração de Frei Vicente do Salvador) ficavam teim osam ente j unto ao m ar, não queriam sair, com m edo de penetrar num território desconhecido e hostil. Anchieta escrevia seus versos na areia da praia; as ondas desfaziam -nos, m as afinal eram apenas versos, e era praia, e era o m ar azul, e do outro lado do m ar estava Portugal. Nas Missões o m ar era um a abstração; as coxilhas talvez evocassem as ondas do oceano, e evocavam , m as ao fim e ao cabo aquilo era terra. Um a terra na qual a fé tinha de lançar raízes, e disso os j esuítas se encarregaram . E aí surgiram as igrej as, as casas de pedra, as cidades guaranis, das quais dão testem unho agora as ruínas.

Era um belo lugar para passar a infância, m as a verdade é que o cotidiano de nossa fam ília não era fácil. Morávam os num a casa pequena, no m eio do cam po; não tínham os água corrente nem luz elétrica — a ilum inação dependia dos lam piões a querosene. E olha que nossa m oradia era bem m elhor do que os ranchos da peonada: m eu pai era o capataz daquela estância. Pobre pai, pobre hom em ; a vida dele, curta vida, poderia ser resum ida em duas palavras: lutou, sofreu. Lutou m uito, sofreu m uito. De fam ília pobre, não cursou escola, m al sabia ler e escrever. Em raros m om entos, contudo, passava por um a rápida e extraordinária transform ação. Quando m ontava a cavalo, por exem plo. Num instante estava ali, ao lado de seu cavalo baio, um hom em encurvado, hum ilde, insignificante, cara de bugre e aparência sofrida. No instante seguinte, e com incrível agilidade, pulava para a sela e pronto, era outro hom em , hom em de verdade, um gaúcho digno, altivo. Um a im agem que m e deixava orgulhoso e que nunca esqueci.

 

A estância pertencia ao coronel Nicácio. Naquela região havia dois coronéis, prim os entre si, e até parecidos fisicam ente, m as m uito diferentes com o pessoas. O coronel Arnoldo, patriarca à antiga, era um hom em bondoso, que cuidava de seus peões com o se fossem filhos, ainda que lhes pagasse pouco. Já o coronel Nicácio era um tipo tirânico, irascível, responsável, segundo se dizia, por não poucas m ortes, quase sem pre por degola, segundo o antigo costum e da região; falava com saudades do tem po da escravidão e tratava com a m aior brutalidade seus em pregados, o capataz inclusive. Disso fui testem unha, num episódio decisivo em m inha vida.

Um dia (um a segunda-feira: lem bro com o se fosse hoj e) o coronel Nicácio m andou cham ar m eu pai: queria resolver algum assunto urgente. Eu estava em casa e papai pediu que eu o acom panhasse. Por que o fez, até hoj e não sei. Talvez só pela com panhia; ou talvez quisesse exibir o filho do qual se orgulhava, e que o coronel m al conhecia. O certo é que, com o não tardei a constatar, ele não poderia ter escolhido ocasião pior.

Fom os até a casa do estancieiro, um a casa colonial, grande, m as sim ples, com o costum avam ser as casas dos proprietários rurais do Rio Grande do Sul, gente que valorizava m ais o poder do que a riqueza, gente que não gostava de ostentação. O coronel, hom em enorm e, barrigudo, de grandes bigodes e costeletas, estava sentado na rede, na varanda, de bom bacha, cam isa aberta, tom ando chim arrão e fum ando seu palheiro. Subim os os degraus de pedra, cum prim entam os (m al nos respondeu) e ali ficam os, diante do hom em que, olhos sem icerrados, fitava-nos. Finalm ente m eu pai, visivelm ente ansioso, optou por rom per o silêncio:

— O senhor m andou m e cham ar, coronel, aqui estou, às suas ordens.

O coronel não respondeu. Fitava o em pregado, im passível. De repente, e com um a agilidade inesperada, saltou da rede, e com um tapa arrancou o chapéu que papai tinha na cabeça.

— Falta de respeito! — bradou.

Papai, confuso, am edrontado, não disse nada: baixou a cabeça, sim plesm ente, e ali ficou im óvel, fitando o chão.

— Pega teu chapéu — vociferou o coronel — e som e daqui. Só volta quando tiveres aprendido a respeitar o teu patrão. Com igo só se fala de cabeça descoberta, ouviste?

Sem um a palavra, papai apanhou o chapéu. Em silêncio, descem os as escadas da casa e seguim os pela trilha que nos levaria para casa. O dia estava m uito bonito; nenhum a nuvem no céu, o sol brilhando. Nas coxilhas bois pastavam , plácidos, e os quero-queros voej avam . Enfim , a bela paisagem de sem pre, coisa de cartão-postal.

Mas eu ia triste. Mais que triste, angustiado. Gostava m uito de m eu pai, hom em que se sacrificava pela fam ília, a m ulher e os dois filhos, dos quais eu era o m enor — o m ais velho estava servindo no exército. Aos quinze anos j á tinha suficiente experiência da vida para saber que o incidente na varanda representava para m eu pai um a derrota provavelm ente definitiva, a culm inância da sucessão de derrotas em que sua áspera vida até ali se constituíra: pobre, sem ianalfabeto, dependente de um patrão cruel, ele era o protótipo do perdedor. Muitas vezes, depois disso, m e perguntei por que, afinal, ele — com o um verdadeiro gaúcho, com o aqueles valentes gaúchos das histórias que m e contava, com o os gaúchos que, espada na m ão, tinham enfrentado os castelhanos — não reagira à estúpida agressão; no fundo eu ansiara por isso, por um a reação à altura. Bem queria eu ter visto papai se atirar sobre aquele velho noj ento, aos gritos: eu te m ato, m iserável, quem tu pensas que és, latifundiário de m erda.

 

“Latifundiário de m erda”? Não, m eu pai não diria aquilo. Meu pai sabia o que era um estancieiro, m as não sabia o que era um latifundiário. Nem eu, aliás; não naquele m om ento, pelo m enos. Mas quando, pela prim eira vez, ouvi a palavra, quando descobri seu significado, tive certeza de que não m ais sairia de m eu vocabulário e m uito m enos de m inha vida. Latifundiário: o term o im ponente, am eaçador, parecia ter sido criado para designar o coronel Nicácio; “latifundiário” era a palavra que eu gravaria na sua testa com ferro em brasa se e quando tivesse oportunidade para isso. Verdade que não havia m uito espaço para tal tipo de vingança. Porque não era um latifúndio, aquela testa; não era um a fronte am pla, gloriosa, um a fronte de sábio, de intelectual. Não, era um a testa estreita, m esquinha, obtusa, lim itada por cabelos j á grisalhos que se fundiam nas típicas suíças de caudilho, e pelas bastas e autoritárias sobrancelhas que guarneciam os olhinhos desconfiados e cruéis. Algum as rugas, ali; não as rugas nascidas da ansiedade, da perplexidade diante da vida; não o ôm ega m elancólico dos antigos, que traduzia tristeza existencial, m as tam bém inteligência e conhecim ento. Um com ponente de m elancolia aquelas rugas podiam ter, m as isso não chegava a neutralizar a arrogância e a prepotência que eram a m arca registrada do estancieiro.

Não, naquele radioso dia de verão eu ainda não sabia o que era um latifundiário. Mais: eu ainda não descobrira a História, com H m aiúsculo. Eu era um piá ingênuo, ainda que sofrido. Mais tarde vim a concluir que m eu sofrim ento decorria exatam ente disso, da ingenuidade, do desconhecim ento da problem ática social, da ausência, em m eu vocabulário, de palavras com o latifundiário, proletário, revolucionário, palavras-chave capazes de abrir as portas do entendim ento, de gerar luz onde antes reinava a escuridão de um a desam parada ignorância.

Antes de entrarm os em casa m eu pai se voltou para m im e m e fez, num a voz fraca, rouca, cansada — o cansaço de um a vida de duros esforços, de um a vida que, não por acaso, term inaria poucos anos depois —, dois pedidos. O prim eiro: que eu não contasse o sucedido a m inha m ãe nem a m eu irm ão. O segundo: que eu estudasse m uito, que arranj asse um a profissão capaz de m e libertar daquela existência m iserável.

Esse segundo pedido era reforçado por um a frustração. Meu irm ão Fulgêncio, três anos m ais velho que eu, abandonara o colégio no quinto ano do curso prim ário. Queria ficar rico e acreditava que para isso era m ais im portante a esperteza que um diplom a. Seu sonho era tornar-se um em presário bem -sucedido; de m om ento, trabalhava com o aj udante para o seu Am âncio, dono de um a vendinha de beira de estrada, m as era, assim ele acreditava, coisa transitória; breve estaria em situação m uito m elhor. Fizera am izade com um corretor paulista que viera à região vender algum tipo de seguro para proprietários rurais. O hom em anotara seu nom e num a caderneta, e isso, para o Fulgêncio, era um a esperança, quase um a garantia: o Arlindo vai arranj ar algum a coisa boa para m im , disso tenho certeza. Mas, prognósticos gloriosos e/ou ilusórios à parte, sua situação era precária, não havia perspectiva concreta de nada, de nenhum a atividade rendosa. Meus pais j á se haviam conform ado com isso. Era em m im que depositavam sua esperança, a esperança de que eu seguisse um cam inho diferente, que term inasse os estudos, que conseguisse um título universitário.

* * *

 

Não era, quero te deixar claro, um a esperança infundada. Por causa de problem as de saúde na infância, com ecei a estudar relativam ente tarde, m as, devo dizer, com enorm e disposição. Cursava a escola em Santo Ângelo, a oito quilôm etros de nossa casa (um traj eto que eu fazia a pé). A cidade tinha cerca de sessenta m il habitantes; crescera m uito com o m ovim ento m igratório do final do século dezenove: alem ães, poloneses, russos para ali acorriam em busca de um a vida m elhor. Nom es com o Kassel, Licht, Beck, Grass, Ritter eram com uns na região. O coronel Nicácio, descendente dos senhores da guerra que haviam conquistado a região aos espanhóis, falava com desprezo dos colonos que trabalhavam em suas pequenas propriedades rurais, e dos gringos em geral: nós lutam os contra os castelhanos, nós expandim os a ferro e fogo a fronteira do Rio Grande; agora chegam esses gringos e se instalam com o se isto fosse deles. Mais: suspeitava que entre os im igrantes houvesse elem entos subversivos. Exem plos, de fato, não lhe faltariam : o alem ão Frederico Kniestedt, sindicalista revolucionário; o russo Elias Iltchenco, que fundara, com outros, um a colônia agrícola com unitária em Erebango; o tam bém russo Ossep Stefanovitch, ator conhecido por sua atuação em peças teatrais libertárias; o libanês Abílio de Nequete. Os sapateiros italianos, e eles eram m uitos no Rio Grande, tinham fam a de anarquistas. Mas acho que ao coronel incom odava m esm o a prosperidade de Santo Ângelo, que tinha um ativo com ércio — grandes loj as, várias delas com m arquise, o que para m im era m otivo de adm iração — e fábricas: de cervej a, de produtos alim entícios, de m óveis. Ah, sim , e um cinem a, o Apollo, que j am ais frequentei, m as cuj os cartazes m irava com adm iração.

Eu era excelente aluno, o orgulho de m inha professora, dona Doroteia, um a senhora j á m adura, m uito culta e sobretudo m uito gentil e afetuosa. Foi ela quem m e introduziu à leitura; presenteou-m e com vários livros, que eu lia e relia sem cessar. O autor predileto de dona Doroteia — e nisso ela podia ser considerada avançada para seu tem po — era Machado de Assis, o Machadinho, com o ela dizia. No Rio Grande do Sul de então o escritor ainda era pouco conhecido, m as dona Doroteia tinha todos os seus livros e incluiu vários em seu program a de ensino. Anualm ente organizava na escola um concurso de redações sobre Machado. Naquele ano concorri, ganhei, e fui prem iado com um exem plar de Dom Casmurro. Voltei para casa orgulhosíssim o, m ostrei o livro a m eus pais e m eu irm ão. Todos festej aram m eu triunfo — m as o troféu, com o j á verás, teve um destino inesperado.

Machado, dizia dona Doroteia, era um exem plo para os brasileiros, sobretudo os hum ildes, com o era o caso da m aioria dos alunos: descendente de escravos, m ulato, pobre, epiléptico, gago, não frequentara escola; pois esse m enino superara todos os obstáculos para tornar-se o m aior escritor brasileiro.

— Quando vocês acharem que a sorte foi m adrasta para vocês — proclam ava a professora —, pensem na história do Machado: se ele conseguiu alcançar o seu ideal, vocês tam bém conseguirão.

O que explicava o fato de o escritor ter-se transform ado, para m uita gente, em um verdadeiro ídolo. Para com prová-lo, dona Doroteia exibia um recorte j á antigo do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro. Tratava-se de um texto de Euclides da Cunha narrando um episódio ocorrido na casa de Machado de Assis, pouco antes da m orte do escritor, vinte anos antes. A Machado, acam ado, o corpo frágil devastado pela doença, faziam com panhia am igos ilustres: Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssim o, Raim undo Correia, além do próprio Euclides. De súbito, dizia a crônica, “ouviram -se um as tím idas pancadas na porta principal da entrada. Abriram -na. Apareceu um desconhecido: um adolescente de dezesseis a dezoito anos no m áxim o. Perguntaram -lhe o nom e. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia, por sua vez, ninguém ; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus livros, que o encantavam . Por isso, ao ler nos j ornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssim o, tivera o pensam ento de visitá-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: m as não lograra vencê-la. Que o desculpassem , portanto. Se não lhe era dado ver o enferm o, dessem -lhe ao m enos notícias certas do seu estado. E o anônim o j uvenil — vindo da noite — foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse um a palavra. Aj oelhou-se. Tom ou a m ão do m estre; beij ou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-a depois por algum tem po ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu. À porta, José Veríssim o perguntou-lhe o nom e. Disse-lho. Mas deve ficar anônim o. Qualquer que sej a o destino dessa criança, ela nunca m ais subirá tanto na vida”.

E concluía dona Doroteia, em ocionada:

— Não sei o nom e desse j ovem ; e não im porta. Pelo que diz Euclides da Cunha, ele tinha m ais ou m enos a idade de vocês, e deveria servir de exem plo para a j uventude brasileira. A dedicação que m ostrou por Machado é a dedicação que todos devem os ter pela literatura do grande escritor. Machado m orreu, m as sua obra está aí, para que vocês a conheçam e adm irem .

Eu escutava, im pressionado. Dona Doroteia era um a figura im portante para m im ; de certa form a condicionou m eu destino. Não só pelo que m e ensinou, não só pelos livros que m e fez ler; isso foi im portante, m as decisivo m esm o foi o fato de ela ser m ãe do Eugênio, o Geninho.

 

Geninho tinha vinte e poucos anos quando o conheci — o que ocorreu por acaso. Um dia veio à escola falar com a m ãe. Era hora do recreio, e eu, no pátio, conversava com dona Doroteia quando ele apareceu, um rapaz alto, m agro, de olhar inquieto, basta cabeleira. A professora apresentou-m e:

— Este é o Valdom iro, o Valdo, m eu m elhor aluno. — E acrescentou, orgulhosa: — Grande leitor, m eu filho. Com o tu.

Que Geninho era um grande leitor parecia evidente: naquele m om ento portava um livro debaixo do braço. Movido pela curiosidade e vencendo a tim idez, indaguei que livro era.

Vacilou um instante, e até hoj e pergunto-m e a razão de tal hesitação. Correspondia, acho, a um a am bivalência: a resposta, disso ele bem sabia, poderia dar início a um irreversível processo de m udança num a cabeça j ovem e im atura, e quais seriam as consequências disso? Estaria eu pronto para m udar? Talvez, no fundo, bem no fundo, tenha achado que o m elhor seria deixar-m e em paz na m inha ingênua, m as quem sabe feliz, ignorância. Por outro lado, anim ava-o, com o logo vim a descobrir, a vocação do educador, certam ente herdada da m ãe, e que, associada à vocação do líder, tam bém inata nele, representava um estím ulo para que introduzisse pessoas, sobretudo j ovens, a ideias novas, m esm o que tais ideias fossem inquietantes, principalm ente se tais ideias fossem inquietantes; para ele, inquietude era, com o logo vim a descobrir, um estím ulo, o m otor para a m udança pessoal e social.

O certo é que naquele m om ento Geninho claram ente viveu um dilem a. Responder à m inha pergunta — ou desconversar, não é nada im portante, é só um livro que estou lendo nas horas vagas? Precisava decidir, contudo, porque o tem po, e a História, não se detêm : a sineta j á anunciava o fim do recreio, quem sabe o fim de todos os recreios, quem sabe o início da batalha final, aquela que, para os m ísticos, oporia o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, m as que, com o depois constatei, para Geninho e seus com panheiros m arcaria a definitiva vitória do progresso sobre a reação, do trabalho sobre o capital, da j ustiça sobre a opressão. E ele, bem de acordo com seu tem peram ento, decidiu: num gesto triunfante, m as afetuoso, m ostrou-m e a capa do livro. Era o Manifesto Comunista, num a das prim eiras traduções que apareceram no Brasil.

Eu não sabia o que era com unism o. Talvez tivesse ouvido a palavra, talvez tivesse lido a respeito em algum j ornal, m as não m e cham ara a atenção; no colégio o assunto não era m encionado, m esm o porque dona Doroteia, ao contrário do filho, não gostava de política, não perm itia que o assunto fosse discutido em aula. Agora, porém , eu m e dava conta de que com unism o era um a coisa suficientem ente im portante para gerar um livro, vistoso livro, aliás: na capa, um hom em à frente de um a m ultidão desfraldava um a bandeira verm elha.

Perguntei se se tratava de um rom ance. Geninho riu: não, não era um rom ance, ainda que pudesse ser lido com o tal, de tão bem escrito. Mas era um a obra im portante, um a obra que tinha m udado o rum o da hum anidade:

— Se quiseres, podem os conversar m ais sobre o assunto.

A proposta não agradou m uito a dona Doroteia: acho que o Valdo é m uito j ovem para falar sobre essas coisas, ponderou, num tom a que não faltavam acidez e autoritarism o, e que talvez explicassem algo da m otivação que levara o filho a ser um contestador. De todo m odo Geninho era, com o a m ãe, determ inado. Tendo decidido que m e introduziria ao com unism o, ele agora faria isso. Poderia contar com m inha curiosidade, e tam bém com um certo grau de desam paro. Eu não tinha am igos m ais velhos; m eu irm ão Fulgêncio não m e dava bola; eu precisava de alguém que m e orientasse e servisse de guia, um guru. De im ediato, e apesar da contrariedade da dona Doroteia, aceitei o convite. Com binam os que nos encontraríam os naquele m esm o dia e nos dias seguintes, sem pre depois das aulas, para ler e discutir o Manifesto. Mal sabia eu que a partir daí m inha vida passaria por um a m udança radical.

Geninho, que fazia parte de um a célula com unista (um a das prim eiras do Rio Grande do Sul, acho), era não só um revolucionário convicto, com o tam bém um excelente didata. Não se lim itava a ler para m im o texto, a com entá-lo; vivia-o, por assim dizer; encenava-o, com o se aquilo fosse o roteiro de um grande espetáculo (e, pensando bem , não fora essa a intenção de Marx e Engels, prover a hum anidade de um roteiro que desse ordem e sentido ao espetáculo da História, dividindo-o em atos, prevendo um início, um m eio e um glorioso fim ?). Ouvindo-o, eu tinha a im pressão de testem unhar de m aneira pungente a tragédia dos oprim idos e ao m esm o tem po de participar de suas esperanças de um m undo m elhor. A m im , o Manifesto im punha-se tanto pela lógica com o pela em oção. Dem onstrava, de m aneira cabal e definitiva, que a história da hum anidade é a história da luta de classes, um a luta opondo oprim idos e opressores: senhores e escravos, barões e servos, patrões e em pregados, latifundiários e peões. E convocava-m e a tom ar parte nessa luta ao lado dos fracos e desam parados.

 

Um a convocação a que eu não poderia deixar de atender. Porque eu presenciara um episódio dessa luta. Eu vira um latifundiário — sim , agora, e graças a Geninho, a palavra se tornara para m im fam iliar, abom inavelm ente fam iliar — agredir o seu capataz, que acontecia ser m eu pai, agredi-lo e hum ilhá-lo cruelm ente. E tinha visto o capataz aceitar em silêncio a hum ilhação. Por quê?

Porque m eu pai, isso agora ficava claro para m im , não tinha consciência de classe. Na sua postura reverente e genuflexa diante do coronel Nicácio, não se dava conta de sua verdadeira posição: era um em pregado, ainda que de confiança, e com o tal tinha m uito m ais em com um com os peões da estância do que com o latifundário. Coisa que não percebia, ou negava. Sim , convivia com os peões, tom ava chim arrão com eles no galpão, ouvia suas histórias, suas queixas, m as não se identificava com a peonada, porque capataz é capataz, capataz se j ulga m ais próxim o do patrão que dos em pregados, m esm o tratando-se de um patrão despótico com o o coronel Nicácio (ou talvez por causa disso). Por outro lado, os peões tam pouco se davam conta de sua situação, não lutavam por m udanças. Em geral eram hom ens sem fam ília, m orando num a habitação coletiva, e raram ente saíam da estância; não conviviam com outros trabalhadores, rurais e urbanos, não se uniam às m assas.

Massas: Geninho venerava aquela palavra. E eu passei a venerá-la tam bém . Massas não era só um term o, era um a definição, era a chave para a com preensão da sociedade, era (m as Marx e Engels, m aterialistas convictos, não concordariam com isso, ou então concordariam , m as apenas intim am ente, sem adm iti-lo em público) um a palavra m ágica, o abracadabra da revolução. Em nom e das m assas, as pessoas, sobretudo as insignificantes com o eu, renunciariam , j ubilosas, às suas pobres identidades; seriam englobadas por um a im petuosa torrente da flam ej ante lava revolucionária que, brotando da cratera da j usta indignação, desceria as encostas do vulcão da História e, destruindo tudo à sua frente, todos os bastiões do capitalism o, abriria cam inho para a Justiça e a Fraternidade.

Tem os de falar às m assas, dizia Geninho, tem os de m obilizá-las, tem os de prepará-las para a sua grande m issão. Eu concordava, em ocionado. O problem a era que não falávam os a m assa algum a. Falávam os entre nós. Nossos debates sobre as grandes questões da luta revolucionária eram ótim os, estim ulantes, m as não nos satisfaziam inteiram ente porque nada tinham de dialético, aquela oposição entre tese e antítese da qual deve surgir a inspiradora síntese. Eu concordava com tudo o que Geninho dizia; guiava-m e não apenas a adm iração que por ele sentia com o tam bém o princípio (ao qual ele m e introduzira) do coletivism o ideológico, segundo o qual todos os m ilitantes da causa com unista deveriam pensar da m esm a m aneira. Mas isso não bastava. Eu queria um a polêm ica, um a boa polêm ica com o aquelas que Marx, Engels e Lênin tinham m antido tantas vezes com adversários diversos, m ostrando que, em política, sobretudo em política revolucionária, o confronto é essencial. Queria um duelo de ideias, queria um inim igo a quem pudesse arrasar com a verdade m arxista-leninista. Não precisava ser um interlocutor real, de carne e osso; não, o debate poderia se realizar no plano do im aginário. E eu j á tinha até escolhido o inim igo: o coronel Nicácio, obviam ente. Que eu enfrentaria num lugar m ais do que adequado: o Tribunal do Povo, onde todos os inim igos da revolução seriam j ulgados e inevitavelm ente condenados. Na m inha fantasia, o Tribunal funcionava num am plíssim o salão, sem pre lotado de operários e cam poneses. Falando da tribuna da acusação (tribuna de defesa não havia), eu, com triunfante retórica, triturava o desprezível tirano, hum ilhava-o: olhem para esse hom em , eu bradava, e perguntem -se: de onde tira ele tanta arrogância, tanta prepotência? Que direito tem de oprim ir o cam pesinato? Em que se baseia para fazê-lo? Que argum entos usa para se j ustificar? Sim , intitula-se dono de um a grande estância, m as quem disse que as terras são propriedade dele? As terras são do povo. Com o tudo, aliás. Tudo é do povo: terras, fábricas, bancos. O povo precisa tom ar consciência de que esse hom em não passa de um usurpador. De um ladrão, porque toda propriedade é um roubo.

Àquela altura as m assas que lotavam o Tribunal do Povo j á estavam de pé; todos sacudiam no ar os punhos fechados, aos gritos: m orte ao capitalism o, abaixo os latifundiários. A um gesto m eu calavam -se; não era pequeno o respeito que eu lhes inspirava. E eu concluía pedindo em voz tonitruante que o coronel fosse executado.

Pedindo a quem ? Bem , isso era um problem a: o Tribunal do Povo não tinha j uiz, não poderia ter j uiz, não um j uiz com um , pelo m enos, um m agistrado convencional, um m eritíssim o qualquer, originário de um regim e no qual, para m im , a j ustiça nunca poderia ser im parcial. Mas quem então daria a sentença? De início eu pensara em confiar essa tarefa a alguém de im portância transcendente na história da hum anidade: Marx, por exem plo, um Marx im aginário, im placavelm ente severo e obj etivo em seus veredictos.

Mas isso, eu tinha de adm itir, não seria j usto: m esm o vilão, o coronel tinha direito a um j ulgam ento im parcial, com acusação e defesa. Marx inevitavelm ente o condenaria, com o j á condenara de antem ão o capitalism o; com isso o réu poderia alegar que não recebera um veredicto j usto. Claro, as balas o calariam , ou a forca, ou a guilhotina; m as o seu protesto, talvez por causa de m eus escrúpulos pequeno-burgueses não devidam ente elim inados, continuaria a ressoar dentro de m im .

Pensei m uito sobre com o configurar essa suprem a corte e por fim dei-m e conta de que a própria expressão Tribunal do Povo era a resposta. Povo! O povo seria o j uiz, o j úri, o carrasco. Porque o povo é soberano. O povo j ulgaria, o povo, de form a unânim e, daria a sentença (sem pre um a condenação à m orte), o povo liquidaria os inim igos da revolução na forca, na guilhotina, à bala. Ah, e cada execução seria um a celebração.

 

Esses devaneios eu os guardava para m im , não os com entava com Geninho. Ele era um cara obj etivo, falava com base em seus conhecim entos, obtidos sobretudo por m eio da leitura de livros, de j ornais, de revistas. Devaneios não faziam parte de seu universo m ental, era o que eu achava (equivocadam ente, com o depois descobri). Isso não queria dizer que rej eitasse a ficção literária. Com o a m ãe, era um grande leitor; m as em m atéria de preferências os dois divergiam por com pleto. Para com eçar, Geninho não lia Machado; na verdade detestava-o. Sim , tratava-se de um escritor fam oso, talvez até escrevesse bem , só que, por suas origens hum ildes, por sua vasta cultura, deveria ter sido um grande revolucionário, alguém que colocasse sua literatura a serviço das causas progressistas: um escritor engaj ado, enfim . Isso não acontecera. Machado, sem pre segundo Geninho, optara por subir na vida, arranj ando um em prego público, casando com um a m ulher branca e m ais velha, unindo-se à intelectualidade dom inante. Pior: só escrevia sobre tem as burgueses, sobre dram as pessoais, intim istas; seus textos não m ostravam o m enor com prom etim ento com a m udança social; nas suas histórias não ocorriam protestos nem greves e m uito m enos revoluções. Os personagens, era fácil constatar, não tinham nem som bra de consciência de classe. Ou sej a: o hom em era um niilista, um cético, não acreditava no progresso, na capacidade de afirm ação do ser hum ano, e por isso não m erecia m ais que desprezo. Geninho conhecia a história do rapaz que beij ara a m ão do escritor m oribundo; m as, ao contrário da m ãe, rotulava o episódio com o grotesca m anifestação de subserviência, de subm issão, a um velho safado, m entiroso, enganador.

Em term os de livros, os referenciais de Geninho eram outros. Para com eçar, adm irava Karl Marx, o hom em que fizera da própria vida um a revolução, que renunciara a tudo para dedicar-se à causa. Tinha em seu quarto um a foto dele: um hom em barbudo, de basta cabeleira, olhar severo e penetrante. Um profeta, com o aqueles dos quais falava o padre Jonas em seus serm ões. Serm ões que, na m inha infância, eu ouvia todos os dom ingos: m inha m ãe fazia questão de que eu fosse à m issa com ela. Era um a m ulher m uito religiosa, um a católica devota que enchera nossa casa de im agens sacras, a com eçar pelo crucifixo sobre um altar na peça principal. Um crucifixo grande, antiquíssim o: segundo m am ãe, pertencera a um sacerdote das Missões que fora assassinado por um índio rebelde enquanto rezava m issa. O sangue que aparecia na im agem de Cristo era, em parte, dizia m inha m ãe, o sangue seco do j esuíta. E havia m uito sangue. Das palm as das m ãos (m aravilhosam ente trabalhadas pelo anônim o escultor: podia-se até ver a linha da vida) perfuradas por m edonhos cravos, brotava o sangue, e tam bém brotava da ferida no flanco, causada pela lança do soldado rom ano, e da fronte, onde cada espinho da infam ante coroa penetrava im placável a pele. A expressão de Cristo era um a expressão de inaudito, de m edonho sofrim ento, o sofrim ento levado ao ápice; olhar para aquele rosto contorcido de dor era para m im quase insuportável. Com o é que alguém podia ter padecido tanto, eu, m enino, m e perguntava. Para m eus am igos Jesus era bom , am ável, generoso, um a divindade a quem recorriam para, por exem plo, pedir boas notas no colégio. Eu a Jesus não ousava pedir nada. Ele j á tinha dado ao m undo a sua dor abissal, que m ais poderiam os seres hum anos pedir? A verdade, porém , é que a im pressionante im agem m e perseguia. Muitas vezes sonhei com Cristo arrancando as m ãos do m adeiro a que estavam pregadas, arroj ando de si a coroa de espinhos e avançando, im placável, em m inha direção para punir-m e por m eus pecados reais ou im aginários. Interessante: era só Cristo que eu tem ia. Deus-Pai, que eu im aginava com o um velho de longas barbas brancas, cenho franzido e olhar severo, era um a divindade rem ota, distante, que não perderia tem po com um guri insignificante. E o Espírito Santo... Bem , representado com o um pom bo, era para m im m ais um a entidade m isteriosa, intrigante, do que qualquer outra coisa.

A religião que praticávam os, m inha m ãe e eu (m eu pai ia à igrej a, m as não parecia se im portar m uito com aquilo), era algo espontâneo, ingênuo. Nosso guia espiritual, o padre Jonas, hom enzinho idoso, careca, encurvado, era, em sua fragilidade, um a figura patética. Fazia o que podia por seu pobre, reduzido rebanho; nos serm ões, falava-nos com entusiasm o e unção num a vida futura em que os hum ildes obteriam , enfim , a com pensação por seu sofrim ento. E a verdade é que seus serm ões, m uito sim ples, deixavam em ocionado o m enino que eu era. Sim , eu acreditava; acreditava no céu e no inferno, procurava praticar o bem e evitar as tentações. E aí vinha o Geninho e m e dizia que tudo aquilo era bobagem , que não existia Deus, nem céu, nem inferno, nem m ilagres, nada disso; que a religião era, nas palavras de Marx, o ópio do povo, um a form a de dom inação criada pela burguesia.

Continuar: parte 2 de 10