Eu Vos Abraço, Milhões

Moacyr Scliar · Capítulo 1 de 1 · parte 2/10

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Eu Vos Abraço, Milhões

Eu vos abraço, milhões

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

O que m e deixou estarrecido — e confuso, m uito confuso. Para com eçar, eu não sabia o que era ópio. Geninho m e explicou que se tratava de um a droga que deixava a pessoa m ole, letárgica, im aginando coisas irreais. A religião fazia exatam ente isso; inventava um a série de histórias m irabolantes, destinadas a convencer os ingênuos, os tolos. Com o o viciado em ópio, os adeptos da religião, gente fraca, desm oralizada, uns verm es, podiam ser m anipulados — em benefício dos capitalistas. Ou sej a, ao fim e ao cabo era tudo um a grande m entira que o m aterialism o histórico desfazia com precisão científica, e sobretudo com grandeza — um triunfo da racionalidade. Marx acertara em cheio, proclam ava Geninho, e tornara-se o grande teórico da revolução que corrigiria as desgraças do nosso m undo, nelas incluída a religião.

Essas coisas soavam para m im com o um a verdadeira revelação. De repente, eu via a luz. De repente o caótico quadro do m undo e da vida adquiria sentido — graças à im placável lógica m arxista. Tudo o que Marx e Engels diziam fazia sentido, tudo. O Manifesto realizava o m ilagre de colocar em ordem a m inha confusa cabeça de adolescente; o Manifesto tinha resposta para todas as questões. O m undo que descrevia era um m undo binário, nitidam ente dividido entre o j usto e o inj usto, o progressista e o reacionário; um m undo dividido — entre o Bem e o Mal? É: entre o Bem e o Mal. Mas não se tratava do Bem e do Mal de que nos falava o padre Jonas; não, era outro Bem , outro Mal. O Bem : o com unism o. O Mal: o capitalism o. A burguesia. O latifúndio. O coronel Nicácio arrancando o chapéu da cabeça de m eu pai.

“A sociedade”, dizia-m e o Manifesto (“dizia-m e”, sim : era com o se aquele texto tivesse sido escrito especialm ente para m im , um a carta pessoal de Marx e Engels enviada através de um livro), “divide-se cada vez m ais em dois vastos cam pos opostos, em duas grandes classes diam etralm ente opostas: a burguesia e o proletariado.” O texto desfazia todos os m itos criados para iludir os oprim idos. Fam ília? Conversa. O capitalism o “destrói todos os laços fam iliares do proletário, transform a as crianças em sim ples obj etos de com ércio, em sim ples instrum entos de trabalho”. Pátria? Ficção para enganar tolos: “Operários não têm pátria”, pelo m enos não a pátria no sentido burguês do term o.

Agora: arrum ar um m undo distorcido por séculos de equívocos e de crim es não seria fácil. Os obj etivos do com unism o, diziam Marx e Engels, só seriam alcançados pela derrubada violenta da ordem social im perante. Faziam um a am eaça — “Que as classes dom inantes trem am à ideia de um a revolução com unista” — seguida de um a prom essa: “Os proletários nada têm a perder, a não ser suas cadeias. Têm um m undo a ganhar”. E finalizavam com um apelo que, lido em voz vibrante pelo Geninho, fazia com que eu estrem ecesse de em oção: “Proletários de todo o m undo, uni-vos!”. Eu não era proletário, obviam ente, m as proletário eu m e tornaria; e, unidos, nós, os proletários, partilharíam os um glorioso destino; tom aríam os o poder entoando o hino da Internacional Com unista, que Geninho fez questão de m e ensinar: “De pé, ó vítim as da fom e...”.

De pé. Assim deveria estar o povo. De pé. Não agachado, com o m eu pai recolhendo o chapéu que o latifundiário arrem essara ao solo. Não: de pé. De pé, e lutando, até a batalha final, aquela que term inaria com o triunfo definitivo do proletariado. De pé. De pé, e m ilitando no Partido.

O que exigia um ingresso form al. Geninho m ostrou-m e a ficha que era preciso preencher. Continha um espaço para os dados de identificação (nom e, idade, profissão) e tam bém um questionário. Algum as perguntas ficaram gravadas em m inha m em ória: “É contrário ao regim e capitalista?”, “Concorda com a necessidade de um a atuação tendente à abolição com pleta do regim e capitalista?”, “Concorda com o program a com unista?”, “Aceita a Revolução Russa com o fato histórico proveniente do próprio desequilíbrio do regim e capitalista e com o um dos m aiores m ovim entos de transform ação social?”, “Aceita com o necessária neste m om ento histórico a ditadura do proletariado?”.

Perguntas. Sem elhantes às do catecism o, diria alguém , algum reacionário. Talvez, m as perguntas de qualquer m odo. Não se tratava de afirm ação, e m uito m enos de um a ordem : tu deves ser contrário ao regim e capitalista. Não, a ficha de inscrição dava oportunidade para que a pessoa fizesse um a opção: o ponto de exclam ação, na frase, era substituído pelo m ais dialético e m ais dem ocrático (no sentido de dem ocracia popular, não de dem ocracia burguesa) ponto de interrogação. Perguntas, portanto. E a todas eu responderia com um entusiasm ado e em ocionado “Sim ”. É contrário ao regim e capitalista? Sim ! Concorda com o program a com unista? Sim . Sim , sim , sim , claro que sim ! Sim !

* * *

 

Pedi ao Geninho para de im ediato assinar ficha no Partido. Ele riu: devagar com o andor, m eu velho, não é coisa tão sim ples, tu precisas evoluir m ais, quando chegar o m om ento receberás a ficha da m inha m ão, eu te prom eto.

A ficha eu ainda não podia assinar. Mas, e sem pre seguindo o exem plo de Geninho, resolvi colocar no m eu quarto um a foto de Marx. De Engels, não; para dizer a verdade, o Engels não chegava a m e convencer; era filho de um rico em presário, vivia bem ... Além disso, a foto que dele obtive não m e parecia retratar a im agem do revolucionário: m uito tranquilo, m uito urbano... Não sei. Idiossincrasia pessoal, talvez; ninguém está livre dessas coisas. Já Marx... Im pressionava-m e seu ar im ponente, altaneiro, o olhar penetrante, e sobretudo a barba. Que barba, a do Marx! Um a barba abundante, generosa, a expressão pilosa do Manifesto. Minha barba ainda era ralinha, m as um dia, glorioso dia, eu teria um a barba com o aquela.

Minha m ãe não gostava da foto; um dia perguntou-m e quem era, afinal, aquele barbudo. Para evitar problem as eu disse que se tratava de um fam oso escritor. Mam ãe, coitada, aceitou essa versão. Quem era ela, m ulher hum ilde, inculta, para discutir as preferências literárias do filho e as fotos que as expressavam ?

Fez-m e m al, aquele episódio. Tirando as habituais lorotas que os filhos contam aos pais, era a prim eira vez que eu m entia à m inha m ãe. Invadido pela culpa, contei a Geninho o que acontecera. Ouviu-m e com atenção e sim patia, assegurou-m e que eu tinha agido bem . Explicou que existem m entiras progressistas, assim com o existem verdades reacionárias; que, na causa da revolução, qualquer m eio é válido para se atingir um fim m aior. Nesse sentido era im portante que eu lesse as obras de Lênin, o grande herdeiro de Marx. Lênin, dizia Geninho, fora obrigado a lidar com os aspectos práticos da conquista do poder, e o fizera m agistralm ente: sabia o que dizer, quando dizer, com o dizer. A ele se devia o triunfo da Revolução Russa de 1917, histórico e decisivo m om ento em que cam poneses e operários, de arm as na m ão, haviam invadido o Palácio de Inverno, sím bolo do poder tzarista. Lênin, dizia Geninho, definia com clareza seus obj etivos, m as sabia que o cam inho para atingi-los às vezes era tortuoso, avanços e recuos nele se alternando. Eu m entira? Em parte, apenas, porque afinal Marx era, sim , um escritor; não um rom ancista, não um poeta, m as um escritor, escrevera vários livros. Tratava-se, portanto, de outra versão da verdade, plenam ente j ustificada pelas circunstâncias.

 

O entusiasm o de Geninho, o arrebatam ento com que fazia seus com entários, m e com oviam . Era um lutador, ele, um com batente da revolução. Apesar disso, apesar desse fervor revolucionário aparentem ente inesgotável, vivia um a existência pacata. Para seu constrangim ento (bem que gostaria de ser independente, m as não ganhava o suficiente) m orava com os pais e com as três irm ãs. Verdade que tinha um quarto só para ele, um aposento m inúsculo, atulhado de livros: livros nas prateleiras, livros em pilhados no chão. Na parede, além do retrato de Marx, um outro, de Castro Alves, poeta que venerava pela postura antiescravagista; e, em oldurada, um a frase em letras góticas: “Eu vos abraço, Milhões”, esse “Milhões” com letra m aiúscula.

A prim eira vez que vi a inscrição, estranhei. Letras góticas? Não era coisa de religião? E que história era aquela de “Milhões”? Dinheiro — m ilhões de contos de réis? Mas por quê? Alusão irônica à ganância capitalista? Talvez, m as ironias em geral não agradavam a Geninho, cara franco, direto.

Depois de m uito hesitar resolvi assum ir m inha ignorância e perguntei-lhe a que se referia a frase. Explicou-m e que se tratava de um a tradução, não literal, m as para ele inspiradora, de um verso do grande poeta alem ão (por isso a letra gótica) Friedrich Schiller. Que não era com unista; em seu tem po, século dezoito, ainda não havia com unism o. Lutara, porém , pelos ideais de liberdade e j ustiça, e disso seu poem a Ode à alegria, do qual fora extraído aquele verso, e que inspirara a Nona Sinfonia de Beethoven, dava testem unho. Abraçar os m ilhões de seres hum anos que com punham as m assas, esse deveria ser o nosso ideal.

Ideal. Geninho era o protótipo do idealista; sua confiança no futuro não tinha lim ites. No dia a dia, porém , não diferia m uito de outros j ovens de sua idade. Trabalhava num a pequena loj a de Santo Ângelo e era um em pregado m odelar, segundo seu patrão, o velho Anastácio, que encontram os um dia na rua, e que elogiou m uito o dedicado Geninho, a quem eu deveria im itar se quisesse subir na vida. Palavras que aliás deixaram m eu am igo visivelm ente constrangido: ser elogiado por um m em bro da classe patronal, e diante de um j ovem adm irador, era coisa que não lhe agradava m uito.

Com o m uitos j ovens de sua idade, Geninho tinha am igos, tinha nam orada, a Carm ela, m oça quieta, m odesta, nem feia nem bonita; j ogava futebol, gostava de churrasco. Mas eu tinha certeza de que essa existência aparentem ente banal, convencional, era, ao fim e ao cabo, um disfarce. Geninho estava atento, m uito atento, às transform ações do país. Estávam os no final dos anos 20, um a década agitada, confusa, exuberante, um a década que vira a Sem ana de Arte Moderna, o m anifesto antropofágico de Oswald de Andrade e, principalm ente, a fundação do Partido Com unista Brasileiro, que àquela altura contava apenas com um as poucas centenas de m ilitantes; isso, porém , garantia Geninho, estava de acordo com as leis da História: as transform ações sociais sem pre são desencadeadas por um a pequena e lúcida vanguarda atrás da qual m archam as m assas.

 

Fazer parte da vanguarda não era para qualquer um . Exigia um a m udança com pleta de pensam ento e a elim inação de equívocos com uns, dos quais m esm o pessoas inteligentes não estavam livres. Geninho citava o exem plo de alguém que ele próprio conhecera em Santo Ângelo: Luís Carlos Prestes.

Nascido em Porto Alegre, m ilitar, Prestes chegara a Santo Ângelo em 1922 (ano da fundação do Partido Com unista), integrando o 1o Batalhão Ferroviário, do qual o pai de Geninho, o velho cabo Zé Antônio, fazia parte. Desde o com eço ficara claro que Prestes era hom em sério, decente, coraj oso. Não se conform ava com a roubalheira nas obras de engenharia, então prática com um . Dizia a Zé Antônio e a Geninho que o Brasil precisava m udar.

Mudar com o? Prestes apostava na educação: criou para seus soldados (na m aioria analfabetos) um a escola, da qual era diretor e professor — professor dedicado, na opinião de ninguém m enos que dona Doroteia, autoridade no assunto, com quem Prestes conversava frequentem ente, pedindo orientação para seu trabalho de educador.

— Um hom em m uito bom , ele — garantia a professora. — Um hom em abnegado, generoso, um hom em que sonha com um m undo m elhor, com um país m elhor.

Só um a coisa dona Doroteia não perdoava a Prestes: o abandono da religião. Filho de m ilitar positivista, o j ovem Prestes não endossara o anticlericalism o do pai e resolvera tornar-se devoto católico; aos dezoito anos fizera-se batizar num a igrej a do Rio de Janeiro, m as acabara optando pelo ateísm o. Com resultados catastróficos, garantia a professora: a partir daí, perdera todas as referências m orais, tornara-se um subversivo. Ainda em Santo Ângelo, assum ira a liderança de um a conspiração que tinha com o obj etivo derrubar o governo de Artur Bernardes.

Contrariando a m ãe, Geninho via a coisa de outra m aneira. O com plô contra Bernardes era j ustificado: o m andatário tencionava entregar à Inglaterra o controle das alfândegas brasileiras, com o form a de pagam ento da dívida externa. Mas a j ustiça da causa, dizia Geninho, não fazia de Prestes um verdadeiro revolucionário; ele era antes um conspirador, inclusive aliado a velhos caudilhos gaúchos com o Honório Lem es e Zeca Neto. Prestes precisava m udar, e m udar m uito, antes de tornar-se com unista:

— É com o diz o padre Jonas — afirm ava, com um risinho irônico —, m uitos são os cham ados e poucos os escolhidos.

Eu queria ser dos escolhidos. Pedia — pedia não, im plorava — a Geninho que m e aj udasse a entrar no Partido. Ele não dizia nem que sim nem que não; talvez para não m e m agoar, optava por evasivas:

— Tu ainda és m uito guri, Valdo, precisas aprender m ais. Estuda Marx e Engels, estuda Lênin, estuda Stálin, e o teu dia chegará.

Prom essa vaga. O m eu dia chegaria? Quando? Dali a um a sem ana? Um m ês? Um ano? Dez anos? Minha im paciência crescia.

 

Acabei descobrindo um j eito de assistir às reuniões da pequena célula com unista de que Geninho fazia parte. Tais reuniões ocorriam na loj a do seu Anastácio. O velho fazia de conta que não sabia de nada, m as, tarde da noite, Geninho e seus com panheiros para lá se dirigiam . E, entre peças de fazenda, sapatos fem ininos e m anequins de sorriso fixo, decidiam o que fazer para im plantar o com unism o no país.

O pequeno e velho prédio de m adeira tinha dois pisos. No piso inferior funcionava a loj a propriam ente dita; no superior, ao qual se chegava por um a precária escadinha externa, ficava o depósito de m ercadorias. Eu sabia que a chave da porta estava sobre um beiral; assim , logo depois que com eçava a reunião da célula (quartas à noite), galgava rapidam ente os estreitos degraus, entrava no depósito e, sem fazer ruído, sem acender a luz, deitava no chão e ficava espiando pelas frinchas do assoalho o que acontecia lá em baixo.

Reunidos, os com unistas liam e discutiam o Manifesto, debatiam os últim os acontecim entos, traçavam planos (nunca postos em prática). Mas o que m e fascinava m esm o eram as sessões de crítica e autocrítica que aconteciam um a vez por m ês, e num am biente carregado. Geninho, o coordenador do grupo, falava prim eiro. Sua frase inicial era sem pre a m esm a:

— Cam aradas, não passo de um burguês.

Um a pausa, e então com eçava a explicar por que se considerava um burguês. As razões eram várias e surpreendentes. Por exem plo: tinha, escondido em seu roupeiro, um terno de casem ira inglesa (enfatizava a palavra “inglesa”, que rem etia ao reduto do colonialism o), um a cam isa de seda, um a gravata italiana, tudo com prado em segredo de um contrabandista argentino. Na calada da noite vestia-se com o um dândi (de novo, um a m aldita palavra em inglês) e passeava de um lado para outro, olhando-se no espelho e sorrindo provocador para a própria im agem . O que era um a vergonha, um a perversão sem lim ites, sobretudo por causa da gravata, que não era sequer um a peça de vestuário, era um pedaço de pano decorativo, inútil, a bandeira da burguesia atada ao pescoço.

Revelações surpreendentes, que os cam aradas ouviam em silêncio, ofendido silêncio, segundo m e parecia. Quando Geninho term inava, um dos m em bros da célula — em geral o João, um funileiro conhecido pelo tem peram ento exaltado — pedia a palavra. Não para — com o eu, adm irador de Geninho, esperava — m inim izar a culpa que m eu am igo obviam ente sentia, com frases do tipo ora, Geninho, o que é isso, tu não és burguês coisa nenhum a, afinal vestuário de bom gosto deveria estar ao alcance de todos, e estará, quando a revolução triunfar.

Não era o que o João dizia. Ao contrário, e com verdadeira fúria, caía de pau em cim a do Geninho: é verdade, cam arada, é a pura verdade, tu não passas de um burguês corrupto e abj eto, tu não vales nada, é por causa de gente com o tu que a revolução ainda não aconteceu neste país.

Os outros falavam tam bém , e com m aior ou m enor veem ência (em geral m enor: em m atéria de agressividade, João era im batível) condenavam igualm ente o Geninho. Ele ouvia calado, cabeça baixa. Eu sentia pena do m eu am igo; m as sabia que aquele j ulgam ento, severo com o era, representava um a m edida revolucionária necessária. Afinal, e com o dizia Marx, tratava-se de luta, de guerra, e num a guerra a com paixão pode ser um a atitude suicida. Da m esm a m aneira com o o ferreiro dá form a ao m etal golpeando-o enquanto está incandescente, Geninho precisava ser castigado para tornar-se um revolucionário coerente, duro, im placável.

Geninho não era o único a fazer sua autocrítica. Os outros, João inclusive, tam bém se declaravam burgueses. João chegara a confessar — e fora para ele um a suprem a hum ilhação — que adorm ecera lendo o Manifesto. Verdade, com o declarara em sua defesa, que isso acontecera tarde da noite, depois de um dia de duro trabalho; e tam bém era verdade que as letrinhas, pequenas, fatigavam seus olhos cansados, pouco acostum ados à leitura. Mas nada disso o absolvia. Com o ele próprio destacava, Marx sofrera escrevendo o docum ento. Sofrera fisicam ente, inclusive; com o ficava horas e horas sentado, estudando e pesquisando, desenvolvia dolorosos furúnculos nas nádegas.

— Porém Marx — acrescentava o velho João (não era tão velho; tinha uns cinquenta anos, m as para m im era um ancião) — sabia que os operários padeciam m uito m ais nas fábricas, na construção civil. E sua conclusão, cam aradas, era um verdadeiro grito de guerra: “A burguesia vai pagar por m eus furúnculos!”. Era o que eu deveria dizer, tam bém , acusar os burgueses, e não o livro. Por que o Manifesto é im presso em letras pequenas? Para que fique m ais barato. E por que tem de ficar m ais barato? Porque o povo não teria dinheiro para com prá-lo, se custasse caro. E por que o povo não teria dinheiro? Porque a burguesia o explora. As letras pequenas não têm culpa de nada, não posso acusá-las de nada. Devo lutar para lê-las, devo lutar contra o cansaço dos m eus olhos, devo lutar contra o sono. Cam aradas, não podem os cansar! Cam aradas, não podem os dorm ir! Cam aradas, tem os de estar alertas e atentos, porque a qualquer m om ento as contradições do capitalism o explodirão e aí terem os de estar prontos para lutar nas barricadas!

Levantava-se, e j unto com ele todos se levantavam e, em ocionados, cantavam a Internacional. Cantavam em voz baixa, contida — burgueses poderiam estar escutando na rua —, m as cantavam , expressando nas notas vibrantes do hino revolucionário sua disposição para a luta.

A sessão de crítica e autocrítica não raro era pontuada por debates curiosos. Gostar de churrasco era coisa de burguês? E gostar de chim arrão? E — m as isso gerava controvérsia — foder a m ulher dos outros? As opiniões variavam . Alguns lem bravam que, com o dissera Marx, o casam ento era um a instituição burguesa; portanto, no regim e com unista o am or livre deveria ser a regra. Outros ponderavam que aquilo poderia desviar os m ilitantes de sua verdadeira m issão; m elhor, portanto, deixar o am or livre para m ais tarde.

Um dos cam aradas confessou, quase chorando, que adorava j ogar xadrez. Xadrez! Um j ogo de reis, rainhas, bispos (a tradicional e retrógrada união entre m onarquia e clero), as torres evocativas dos castelos da nobreza; os cavalos, do alto dos quais os senhores feudais e os estancieiros com o o coronel Nicácio contem plavam , sobranceiros — quem ? Os peões, claro. Os hum ildes peões que, no tabuleiro, constituíam a prim eira linha de batalha, que eram sem pre os prim eiros a ser sacrificados, na guerra ou na insana busca de lucros do latifúndio. Agora: o pior, nas regras do j ogo, era a im plícita chantagem — astuta, pérfida, abj eta chantagem — representada pela enganosa oferta feita aos representantes do cam pesinato e do proletariado: m eus caros peões, se vocês lutarem , se progredirem na vida, se, avançando penosam ente, conseguirem chegar à últim a fileira do tabuleiro, vocês poderão se transform ar (de acordo com a vontade do dono de vocês, naturalm ente) num a figura m ais poderosa, num bispo, num a torre, num a rainha. Não é um sonho isso, peonada? Peão virando rainha: tirando o problem a da m udança de sexo, não é um sonho?

Proposta absolutam ente indecente, que contudo sintetizava, e de m aneira sim bólica, as irreais, enganosas prom essas do capitalism o: trabalhem bastante, obedeçam à burguesia, e vocês poderão, quem sabe, subir na vida. Ou sej a: o xadrez era um truque das classes dom inantes para desviar os revolucionários de seus verdadeiros obj etivos.

Lá de cim a eu ouvia aquilo e, fã do xadrez que era desde a infância, ficava chateado. E confuso: afinal de contas, e pelo que eu sabia, os soviéticos gostavam de xadrez; m ais, os soviéticos eram cam peões m undiais de xadrez, e isso, a m eu ver, não apenas reabilitava o j ogo com o transform ava-o num potencial instrum ento revolucionário: estim ulando a inteligência, o senso estratégico, a com batividade, o xadrez preparava as m assas (ou ao m enos a vanguarda revolucionária, ou ao m enos os enxadristas) para a luta de classes. Claro, no futuro o xadrez poderia, e deveria, ser m odificado em função da ideologia revolucionária. Para com eçar: nada de peças brancas contra peças negras: isso era coisa de racista tipo Ku-Klux-Klan. Talvez peças verm elhas contra peças de algum a cor característica da direita. O tipo de peças teria de ser reexam inado e as regras definidas de acordo com um a nova classificação: peças progressistas — os peões — e peças reacionárias — o resto: o rei, a rainha, o bispo, o cavalo, a torre. Por disposição revolucionária, toda partida term inaria obrigatoriam ente com a vitória dos peões, m esm o que isso irritasse os enxadristas adeptos das velhas regras.

 

Isolado, pela distância geográfica, das lideranças do com unism o, o grupo liderado por Geninho adotava um a prática um tanto im provisada. Geninho fazia o papel de coordenador, m as — e isso ele próprio reconhecia — faltava-lhes um líder, alguém que pudesse orientá-los, esclarecer as dúvidas, que não eram poucas, traçar um rum o de ação. O com unism o brasileiro contava com um a figura assim , um a figura que Geninho adm irava: Astroj ildo Pereira. Não o conhecia pessoalm ente, pois Astroj ildo vivia no Rio de Janeiro, m as sabia tudo sobre aquele m ilitante ainda j ovem e j á lendário. Geninho lia o j ornal dirigido por Astroj ildo, A Classe Operária, órgão oficial do Partido Com unista Brasileiro; m ais que isso, copiara sua biografia no caderno em que escrevia suas reflexões sobre a revolução. Por sugestão dele li m ais de um a vez essa biografia. Assim fiquei sabendo que Astroj ildo Pereira nascera em Rio Bonito, Rio de Janeiro, em 1890; que fizera seus estudos com os j esuítas pensando tornar-se frade, m as que, decepcionado com a religião, abandonara o colégio, optando pelo ateísm o e arranj ando em prego com o gráfico. Ingressara em organizações operárias anarcossindicalistas (casando, inclusive, com a filha de um líder anarquista); em 1918 fora detido ao organizar um a fracassada insurreição no Rio de Janeiro. Observação de Geninho, ao pé da página: “Erro, erro clam oroso, causado pela leitura dos j ornais e folhetos anarquistas que o sogro lhe fornecia. O anarquism o não passa de um m ovim ento rom ântico, exaltado, m eio m ístico, que, por causa do extrem ism o, atrai j ovens desm iolados, m as não leva a nada. Aparentem ente ataca a religião organizada, o capitalism o, as oligarquias, m as não tem obj etivos claros, não tem um a estratégia, só acredita no terrorism o. Versão infantil do im pulso revolucionário”.

Astroj ildo felizm ente se dera conta disso. Mudara de rum o, aderira ao m arxism o-leninism o e participara da fundação do Partido Com unista, do qual se tornara secretário-geral.

Com o Geninho, tornei-m e adm irador de Astroj ildo Pereira. Com o Geninho, lia A Voz Operária. E, com o Geninho, passei a detestar os escritores e intelectuais considerados reacionários, a com eçar por Machado. Não era só um a rej eição de caráter literário; não, era ódio, ódio intenso, a som a de todos os m eus ódios. Esse ódio foi num crescendo que até a m im im pressionava; eu não podia sequer ouvir falar em Machado de Assis, tam anha era m inha raiva contra ele. Algum a coisa tinha de fazer para descarregar aquele sentim ento avassalador, que estava até m e tirando o sono. Acabei por recorrer a um solitário e sim bólico ato de protesto. Um a noite, insone, levantei da cam a, peguei m eu exem plar de Dom Casmurro, levei-o para a cozinha e, reavivando as brasas do fogão à lenha, queim ei-o.

Estava ali, olhando as cham as cum prirem sua função vingativa, purificadora, quando de repente ouvi um ruído atrás de m im . Era m inha m ãe, bruscam ente acordada de seu sem pre agitado sono. O que estás fazendo, perguntou, assustada. Olhou para o fogão e deu-se conta:

— Mas tu estás queim ando um livro, m eu filho!

Pegou a capa, o que sobrava dela:

— O livro que ganhaste com o prêm io da tua professora! Por que fizeste isso? Por quê? Que loucura é essa?

Eu ia responder com im paciência, com insolência: queim ei porque quis queim ar, porque essa coisa m erecia ser queim ada, estava pedindo para ser queim ada, o autor não passa de um reacionário; de m ais a m ais, o livro é m eu, faço com ele o que quiser (não, pensando bem , esta últim a frase eu não diria, representava um a defesa da propriedade privada); m as então senti um nó na garganta e com ecei a chorar. Choro inexplicável, choro que m e deixava profundam ente envergonhado, m ortificado m esm o. Quem estava chorando era o burguês que eu tinha dentro de m im . O burguês, sim . Um burguês gordinho, burguês astuto, safado, capaz de passar do riso obsceno para o sentido pranto com a m aior desenvoltura. Um burguês com o aqueles que, ao longo dos séculos, haviam enganado e oprim ido os trabalhadores. Eu era filho de um em pregado de estância, eu m e considerava um revolucionário pronto a lutar por um a sociedade m elhor, m as no fundo estava m ais próxim o do coronel Nicácio do que de Marx. No fundo queria beij ar a m ão, não do Machado, com o fizera o m isterioso rapaz m encionado por Euclides, m as a m ão do latifundiário, aquela m anopla bruta, peluda, a m ão que fizera voar longe o chapéu do hum ilde capataz. Com o todo burguês, eu sabia m e curvar ao poder quando conveniente e sabia ser prepotente quando havia ocasião para tal. Em sum a: eu era um réptil, um ser m esquinho, desprezível, um fraco, um covarde, m erecia ser executado.

Mam ãe m e olhava, perplexa, sem saber o que fazer, o que dizer. Num im pulso, abracei-a. Tratou de m e acalm ar, levou-m e para o catre em que eu dorm ia, fez-m e deitar. Quando achou que eu tinha dorm ido (pelo m enos isso eu conseguia, em nom e da causa: fingir que dorm ia) levantou-se e foi rezar diante do Cristo crucificado. De m inha cam a, pela porta aberta, eu a observava, seu torturado rosto ilum inado pela cham a vacilante da vela. E ela rezava, rezava sem parar. Àquela altura eu j á não chorava m ais, m eus olhos estavam secos. Vencida, ao m enos em parte, a patética crise em ocional, eu recuperara um pouco do autodom ínio que é com ponente essencial da m ilitância, do engaj am ento. O revolucionário se levantava dentro de m im e se preparava para expulsar definitivam ente o burguesinho chorão. Sim , eu queim ara um livro de Machado, queim aria todos os livros de Machado se pudesse. Aqueles livros, com o m inhas lágrim as, exerciam um efeito deletério sobre convicções ainda não suficientem ente testadas e consolidadas. Mas eu não deixaria que um escritor seduzido pelo poder e pela riqueza m e desviasse do verdadeiro cam inho. Machado tinha enganado m uita gente, m as não enganaria a m im . As cinzas a que Dom Casmurro agora estava reduzido eram para m im sim bólicas do destino que toda sua obra, e a obra de escritores reacionários, deveria ter.

 

Contei a Geninho que tinha queim ado Dom Casm urro. Pensei que ele m e felicitaria pela atitude coraj osa (“Muito bem , cam arada, prim eiro queim am os obras reacionárias, depois os palácios burgueses”), e isso seria um apoio do qual eu estava precisando. Mas não. Olhou-m e por um m om ento, suspirou e não disse nada. O que, para m im , resultou em am arga e ofendida surpresa.

Nos dias que se seguiram , contudo, dei-m e conta de que o alheam ento que m e surpreendera nele, o olhar vazio, distante, persistiam . Não era com igo, aquilo. Algo estava se passando com Geninho, algo que eu não entendia, m as que era preocupante, m uito preocupante.

Não estava bem , o m eu am igo. Mostrava-o sua aparência: em poucas sem anas em agreceu vários quilos, parecia cansado, abatido, e seu rosto não raro se contraía num a careta de dor. A gravidade de seu estado ficou evidente quando, um a noite, pediu licença aos cam aradas para deixar a sessão de crítica e autocrítica: estava se sentindo m al. Um pedido que, com o era de esperar, valeu-lhe um a censura de João:

— Estam os no m eio de um a discussão im portante, cam arada. Tu dizes que estás te sentindo m al, m as quem luta por um m undo m elhor não pode fraquej ar, não pode se sentir m al.

Deixou-m e furioso, aquela observação. Para m im , Geninho estava doente, precisava consultar um m édico. Foi o que, com risco de parecer m etido, acabei por lhe dizer.

Não gostou. Não gostou nem um pouco: tu e m inha fam ília, resm ungou, parece que vocês com binaram , ficam insistindo com essa coisa de consulta, de exam es, m as eu não preciso de nada disso, não estou doente m erda nenhum a, estou só um pouco cansado de tanta reunião, tanta coisa para ler, para estudar; m as vou m elhorar, vais ver só, é questão de uns dias, um as sem anas. Depois se arrependeu do desabafo; fez um com entário qualquer, que era para ser bem -hum orado (m as não foi), e deu o assunto por encerrado.

O assunto não estava encerrado. Não podia estar encerrado; a deterioração física do Geninho era cada vez m ais evidente, deixava-m e cada vez m ais inquieto. Por algum a razão que m e escapava, estava com etendo um erro, um erro que certam ente lhe custaria caro. Mas eu não tinha com o insistir; acabaria brigando com igo, o que só pioraria a situação.

Para com plicar ainda m ais as coisas, m inha m ãe, que de nada sabia, veio falar com igo. Muito chateada, disse que tinha um pedido a m e fazer.

 

O pedido: que eu evitasse a com panhia do Geninho. Tinha certeza de que aquela história de queim ar o Dom Casm urro fora ideia dele. Mas havia um a segunda e poderosa razão para que eu term inasse com aquela am izade. O coronel Nicácio dissera a m eu pai que detestava o Geninho, um subversivo que queria acabar com a propriedade privada; estava na hora de eu dar um fim à m inha am izade com o com unista. Não é um conselho, advertiu o coronel, é um a ordem .

Com o de costum e, m eu pai buscou o auxílio da m ulher: que ela falasse com igo, que m e transm itisse o recado. Mam ãe não teve alternativa senão fazer o que o m arido lhe pedia. Afinal o coronel era o patrão de m eu pai, o hom em de quem dependíam os para com er. Mas, se tinha algum a esperança de m e convencer a rom per com o Geninho, estava enganada. Minha reação foi im ediata e violenta. Toda a raiva que eu sentia do coronel e toda a angústia que m e dava o estado de m eu am igo se som aram para desencadear em m im um ataque de fúria com o eu j am ais tivera. Quem era o coronel, um explorador dos pobres, um parasita social, para escolher os m eus am igos? Será que ele se considerava um daqueles senhores feudais com poder de vida e m orte sobre os servos? O coronel Nicácio podia m andar em quem quisesse, bradei, m as em m im não, nunca, nunca, prefiro m orrer a obedecer às ordens daquele tirano.

Minha m ãe, pálida, olhos arregalados, ouvia-m e com terror crescente. Explicável: tinha m edo de que o coronel se vingasse, quem sabe expulsando-nos da estância. Eu sabia dessa possibilidade, m as nem por isso m e curvaria à vontade do latifundiário. Se tivéssem os de sair dali, sairíam os — de cabeça erguida, sem nos subm eter à arbitrariedade. E m eu pai aprenderia, por fim , a lutar por seus direitos.

 

O conflito não chegou a acontecer. Na sem ana seguinte Geninho foi hospitalizado em Santo Ângelo. Era grave, o que tinha: câncer. Que câncer era, não sei dizer, m as tão logo foi feito o diagnóstico, o doutor Eriberto, um hom em seco, lacônico, declarou que se tratava de doença m ortal.

Que eu acom panhei até o final. Foram três m eses de sofrim ento e, no final, de agonia. Em aciado, sem forças, Geninho perm anecia deitado em seu leito na enferm aria do hospital, m as insistia em receber os am igos e sobretudo os cam aradas. Continuavam fazendo as reuniões do partido, inclusive um a sessão de crítica e autocrítica (realizada aos cochichos) em que Geninho reprovou a si m esm o por ter, naquele m esm o dia, gritado com a servente da enferm aria que tropeçara e derram ara um a caneca de chá sobre seu leito; coisa de burguês, disse, e de burguês arrogante. Por um a concessão especial dele eu estava presente, e constatei: pela prim eira vez, ninguém o censurou, nem m esm o o funileiro João, que soluçava. Geninho parecia tranquilo, otim ista m esm o. Não tem os o direito de desesperar, dizia-m e, nossa obrigação é acreditar, é ter confiança.

Apesar disso, sua condição se agravava dia a dia. O doutor Eriberto anunciou que era questão de sem anas, talvez de dias. Aí, e só aí, entrei em pânico. Para agravar ainda m ais a situação, o m édico lim itou as visitas. Eu agora só podia ter notícias de Geninho perguntando a dona Doroteia. Penoso para ela, penoso para m im .

Um a tarde, voltei para casa e lá estava ela, com m inha m ãe. Geninho m orreu, foi a prim eira coisa que pensei.

Não, Geninho não tinha m orrido. Mas o que trouxera dona Doroteia ali era isso, a m orte im inente do filho. Diante do desfecho inevitável, disse, com um trem or na voz, havia algo que precisava urgentem ente ser feito; para tanto contava com igo.

Perturbado, perguntei do que estava falando. Enxugou os olhos, explicou: com o todo m oribundo católico, Geninho precisava receber a extrem a-unção. Estavam todos de acordo quanto a isso: ela, o m arido, as filhas. Mas não o Geninho. Não o com unista Geninho, que não queria nem ouvir falar no assunto. Desesperada, ela bem que tentara; chegara a levar o padre Jonas ao hospital. A reação de Geninho fora m edonha. Ele, que m al tinha forças para se m over na cam a, pusera-se de pé e, aos berros, expulsara o sacerdote: não queria saber de extrem a-unção, não se prestaria a um a palhaçada daquelas. Para dona Doroteia, fora a gota d’água que fizera transbordar o cálice de seu j á insuportável sofrim ento. Sem a extrem a-unção, o filho estava irrem ediavelm ente condenado ao inferno. Só um a pessoa poderia convencê-lo a m udar de ideia: eu.

Poucas vezes em m inha vida passei por situação tão difícil. Agonizante em bora, e ainda que de m aneira agressiva, Geninho apenas se m ostrara coerente com sua posição política. Mas com o dizer isso à m ãe dele? Com o dizer que Geninho não queria se subm eter ao ópio do povo, à religião? Eu vacilava. Minha m ãe não se conteve; agarrou-se a m im , em prantos:

— Faz isso, filho, faz isso, faz isso pela dona Doroteia, faz isso por teu am igo, faz isso por m im .

O que eu poderia dizer? Faltava-m e a firm e convicção do Geninho, sua trem enda capacidade de resistência. Eu não era um líder, não era um revolucionário, não era nem m esm o um m em bro do Partido. Em silêncio, acenei afirm ativam ente com a cabeça. Despedi-m e, saí, fui direto para o hospital.

No cam inho assaltaram -m e dúvidas, inquietantes dúvidas. Por que, m esm o, eu m e dispusera a fazer o que dona Doroteia e m inha m ãe pediam ? Por sim ples com paixão? Fraqueza sentim ental? Ou seria o m eu assentim ento a m anifestação de um a insuspeitada m aturidade, capaz de m e colocar acim a de questiúnculas secundárias, tipo crer ou não crer? Ou ainda — m as isso era assustador —, quem sabe, no fundo, bem no fundo, eu acreditava em Deus, em Jesus, na extrem a-unção? Quem sabe estava tentando salvar m eu am igo de um inferno em que, no fundo, eu acreditava, em que nunca deixara de acreditar, um inferno no qual ele, descrente, queim aria para sem pre? Quem sabe esperava vê-lo, cheio de j úbilo apesar da agonia (ou cheio de j úbilo, por causa da agonia), dizendo, num a trêm ula voz algo com o “Sim , eu creio, eu vi a luz, e estou salvo para sem pre”?

Não lem bro a que conclusão cheguei, se é que cheguei a algum a conclusão. O certo é que quando entrei no hospital j á não m e debatia em dúvidas. Faria o que tinha de fazer — transm itiria a Geninho o pedido de sua fam ília — e pronto, teria cum prido m inha m issão, m esm o que passasse o resto da vida censurando-m e por isso.

Fui à acanhada enferm aria em que o tinham colocado. Ali estava ele, deitado na cam a, respirando com dificuldade. Seu estado piorara espantosam ente nos últim os dias. Estava reduzido a um esqueleto, o pobre.

Aproxim ei-m e da cam a, segurei-lhe a m ão. Abriu os olhos, fitou-m e, reconheceu-m e, sorriu. Num a voz que m e saiu em bargada, perguntei-lhe com o estava. Lutando, respondeu, lutando contra a doença, brigando pela vida, cam arada.

Cam arada. Era a prim eira vez que ele m e cham ava de cam arada. Estrem eci. Apesar da dor que eu sentia, foi um instante m ágico, aquele; um verdadeiro rito de iniciação, que ocorria nas circunstâncias m ais dram áticas. Naquele m om ento um a nova etapa de m inha vida se iniciava: eu era agora o cam arada Valdo. Morrendo, Geninho recorria às suas derradeiras energias para m e libertar das cadeias burguesas.

Tentei anim á-lo, disse que ele ia m elhorar, que era preciso ter confiança. Balançou a cabeça, resignado:

— Acho que é um a batalha perdida, Valdo. Estou no fim . É um a pena, gostaria de ter vivido um pouco m ais. Vou deixar m eus cam aradas, m eus am igos, m inha fam ília. Vou deixar a Carm ela, coitada... Logo agora que a gente estava falando em ter filhos... Filhos, Valdo. Sem pre gostei de criança, cheguei a m e ver carregando um gurizinho no colo...

Fez força para sorrir:

— Mas vam os deixar os lam entos para depois. Me fala de ti, cam arada. Me diz: o que estás fazendo? Já leste o livro que te em prestei?

O livro era Que fazer? (Chto delat?), pequena obra (noventa e poucas páginas) publicada em 1902, na qual Lênin expunha as bases práticas para a ação revolucionária: tornava-se necessário, argum entava, a form ação de um partido revolucionário de vanguarda, j á que, a depender de sua própria iniciativa, os operários nunca passariam do sindicalism o, da briga por reivindicações pontuais; j am ais chegariam ao com unism o, à com pleta transform ação da sociedade. O livro apressou a cisão entre os destem idos e lúcidos bolcheviques e os m edíocres, m edrosos m encheviques, e era considerado, por Geninho, essencial para a form ação de um m ilitante. Daí a razão de sua pergunta, à qual respondi afirm ativam ente: sim , j á estava term inando a leitura, em breve devolveria o volum e. Mentira: o livro continuava intocado na m esa de cabeceira, eu não tivera tem po nem disposição para abri-lo. Mas isso eu nunca diria ao Geninho. E na verdade ele j á estava cogitando de outra coisa, de outro obj etivo. Fitou-m e, subitam ente sério:

— Quero que te tornes um com unista, Valdo. Um com unista de verdade.

Quero que continues o m eu trabalho, que dediques todas as tuas forças a lutar pelo proletariado.

Nova pausa.

— Estive pensando... Acho que vais precisar de alguém que te aj ude, que te oriente. Infelizm ente os cam aradas lá da célula não têm condições para isso. É gente boa, é gente de valor, m as é gente sim ples, sem instrução... Dois deles não sabiam ler nem escrever, eu é que lhes ensinei. Não, não podem te aj udar. Tens de encontrar alguém que sej a um m estre para ti, alguém com conhecim ento, com visão, com experiência da luta revolucionária. E eu sei quem deves procurar.

Calou-se, ofegante, depois continuou:

— Astroj ildo Pereira, Valdo. Astroj ildo Pereira é o hom em . Tens de passar um tem po no Rio, uns seis m eses, pelo m enos, estudando com ele, aprendendo com ele.

Não deixava de ser irônico, aquilo. Eu fora ao hospital transm itir a Geninho um pedido de sua fam ília: que consentisse em receber a extrem a-unção. Isso não tinha acontecido. Era Geninho, o agonizante Geninho, quem estava m e dizendo o que eu deveria fazer. E dizia-o com inacreditável firm eza, com adm irável confiança.

Um a coisa ficou clara para m im naquele m om ento. Eu não sabia se Geninho estava m e pedindo algo ou se estava m e dando um a ordem ; m as, pedido ou ordem , eu faria o que ele estava dizendo. Porque era m eu am igo, m eu cam arada, e porque estava m orrendo; m as tam bém porque se tratava de um a tarefa revolucionária, m inha prim eira m issão com o com unista. Podes confiar em m im , Geninho, com ecei a dizer, és um exem plo para m im , tudo que m e disseres, eu–

Interrom peu-m e com um gesto que, sem ser agressivo, representava um a advertência: não queria, não podia ouvir discursos em ocionados, por m ais sinceros que fossem ; não havia tem po para isso. Vam os aos detalhes práticos, com andou, num a voz enérgica, ainda que fraca. Pediu que eu apanhasse na m esa de cabeceira um a folha de papel onde listara em letra trêm ula, vacilante, m eus próxim os passos.

Era um a aj uda preciosa que m e dava, por causa da m inha pouca idade, da m inha inexperiência. Para com eçar, eu nunca saíra do Rio Grande do Sul, nem m esm o da região de Santo Ângelo. Agora teria de viaj ar até o Rio de Janeiro, onde Astroj ildo m orava; teria de encontrá-lo, passar lá os seis m eses m encionados por Geninho. Com o pagar a viagem , com o m e sustentar durante aquele tem po todo?

Geninho pensara em tudo. De sob o travesseiro tirou (e que esforço lhe custou aquilo) dois envelopes e um livro. Um dos envelopes continha um a carta que escrevera, não para Astroj ildo, cuj o endereço ignorava, m as para um cam arada que conhecia, Hércules Ferreira. Hércules m orava no Rio e poderia m e apresentar ao líder. O segundo envelope continha um a quantia em dinheiro.

— Não é m uito — disse —, m as é tudo o que econom izei. Deve dar para a viagem e para um as sem anas em algum a pensão barata. Depois vais ter de te arranj ar...

O livro era o Manifesto Comunista, que ele agora m e dava de presente e que trazia um a dedicatória: “Ao m eu cam arada Valdo, com votos para que participe com confiança e com coragem na construção de um m undo m elhor”.

Não m e contive e, em prantos, abracei-o. Naquele m om ento chegava o m édico; m andou que eu saísse, queria exam inar o doente.

 

Saí, e durante m uito tem po fiquei parado na rua, diante do hospital. Vivera um a cena dilacerante, algo que m e abalara com o poucas coisas antes. Naqueles poucos m inutos eu m e transform ara por com pleto. Para trás ficava a infância, suas brincadeiras, suas fantasias; agora, quisesse ou não, teria de m e assum ir com o hom em , com o m ilitante de um a causa que representaria um a vida de lutas, de sacrifícios, de riscos im ensos — m as que poderia ser a vida que vale a pena ser vivida, o cam inho que o Manifesto Com unista m e indicava. Pobre Geninho. Pobre, pobre Geninho.

Tom ei o rum o de casa e só depois de algum tem po m e lem brei: e a extrem a-unção? Eu não fora ao hospital para pedir a Geninho, em nom e de sua m ãe, que recebesse a extrem a-unção?

Sim , eu fora ao hospital para isso. Mas não falara de extrem a-unção. Eu poderia ponderar a m im próprio que isso resultara, por assim dizer, de um a decisão do próprio Geninho. Com o que adivinhando de antem ão o que eu iria lhe dizer, optara por m e falar da im portante tarefa que eu teria pela frente, a perspectiva da qual serviria para neutralizar qualquer resíduo de crença m ística, religiosa, que eu tivesse dentro de m im .

Engenhosa ponderação; infelizm ente, porém , não m e convencia. Com o dizer à dona Doroteia e a m inha m ãe que eu nem sequer m encionara a Geninho a extrem a-unção, que, voluntariam ente ou não, deixara de atender a um pedido form ulado por duas m ulheres aflitas, um a delas um a m ãe esm agada pelo desespero? Aquilo m e dava um sentim ento de culpa m uito grande e, em algum m om ento, devo ter pensado em voltar ao hospital: “A propósito, Geninho...”.

Não voltei. “A propósito, Geninho...”? Nem pensar. Extrem a-unção, aquilo era coisa superada, aquilo era passado; o relógio da História não anda para trás. Prossegui, fui para casa, onde m am ãe e dona Doroteia m e aguardavam , ansiosas. Com um a desenvoltura que nunca im aginara em m im , ao m enos em circunstâncias tão penosas, contei-lhes um a m entira; um a m entira que se enquadrava na categoria das m entiras progressistas e que, ao m esm o tem po, tinha algo de piedoso: o estado de Geninho se agravara m uito, eu não pudera falar com ele, o m édico não perm itira.

As duas com eçaram a chorar e tentei consolá-las com o podia, no fundo sentindo-m e m al, m uito m al. Mas, m entindo, eu fora, ironicam ente, profético. Na m esm a noite Geninho entrou em com a. Morreu quatro dias depois, num a fria m adrugada daquele inverno de 1929.

 

Não preciso te dizer, m eu neto, que fiquei arrasado. Geninho era tudo para m im : era am igo, irm ão, m estre, exem plo. Na m anhã do enterro, e j á saindo para ir ao cem itério, vi em m eu quarto o Que fazer? (Chto delat?), que eu não só não havia devolvido, com o tam bém não lera, o que m e deu um grande sentim ento de culpa. Ocorreu-m e então restituir, ainda que tardiam ente, a obra e, ao m esm o tem po, fazer um a hom enagem à m em ória de m eu am igo; quando o caixão estivesse baixando à sepultura, eu colocaria sobre a tam pa o livro, e diria algum as palavras, não só explicando m eu gesto, m as proclam ando que Geninho não m orrera em vão, que seu exem plo inspiraria m uitos outros lutadores da liberdade, entre os quais eu pretendia m e incluir; um breve, m as inspirado discurso. Cheguei a pegar o pequeno volum e, m as desisti. Para quem eu falaria? Para as poucas pessoas que iriam ao funeral? Para dona Doroteia, para o padre Jonas? Se Prestes ainda m orasse em Santo Ângelo, e se estivesse presente ao sepultam ento, m inha iniciativa poderia ter algum sentido, até com o apelo para que o líder tão adm irado por Geninho encontrasse o verdadeiro cam inho da revolução. Mais provavelm ente, porém , a m inha fala seria pouco im portante, a pura e sim ples expressão de um rom pante j uvenil, da arrogância de um guri tolo querendo se exibir, nas piores circunstâncias para tal. De m ais a m ais, e do ponto de vista prático, enterrar o Que fazer? (Chto Delat?) era um a atitude no m ínim o contraproducente, um erro tático: o livro do Lênin não fora feito para j azer num a sepultura, m esm o na sepultura de um j ovem com unista; fora feito para ser lido: a m ensagem leninista perm anecia atual, tinha de ser divulgada — por m im , inclusive, desde que eu criasse vergonha na cara e term inasse a leitura. Deixei, pois, o livro no quarto e fui ao enterro, ao qual pouca gente com pareceu, e que foi algo tão breve quanto penoso, as pessoas todas em prantos. Ao sair do cem itério, j urei a m im próprio que, em tributo à m em ória de Geninho, dedicaria m inha vida aos ideais do com unism o: à luta contra o capitalism o, o latifúndio e o im perialism o, à construção de um a nova sociedade. E, para isso, viaj aria para o Rio de Janeiro, procuraria Astroj ildo Pereira, ingressaria no Partido.

Continuar: parte 3 de 10