Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Depois do j antar, Hércules e eu escutam os rádio — notícias sobre política, que ele não cessava de rotular com o “m entiras burguesas”: esses j ornalistas, dizia, irônico, estão todos no bolso dos patrões. Só dava para acreditar m esm o nas publicações do Partido.
Pelas nove, a dona da casa, tendo concluído o trabalho na cozinha, anunciou que estava se recolhendo, o que na verdade representava um a ordem : façam o m esm o, acabem com essa conversa idiota. Hércules claram ente não gostou da interrupção; para evitar m aiores problem as, eu disse que estava cansado, que ia m e recolher tam bém . Dei boa-noite (ela não respondeu) e fui para o quarto. Entrei, acendi a luz, fechei a porta, e vi-m e sozinho num aposento que, ao m enos por algum tem po, estaria destinado só a m im . O que não deixava de ser confortador. Pela prim eira vez em vários dias eu dorm iria num a cam a.
Tirei a roupa e m e deitei. Exausto em bora, não consegui adorm ecer. Estava com saudades: saudades de m eus pais e do m eu irm ão, saudades dos am igos, saudades da m inha terra, saudades até da Chica, apesar da raiva. E à saudade associava-se um a sensação de abandono, de desam paro. O que seria de m im , agora? O que aconteceria? Ninguém poderia responder a essas perguntas, ninguém . Geninho m orrera. Astroj ildo Pereira, que seria m eu guia, m eu m estre, estava em Moscou. Com o dono da casa, o Hércules, eu não tinha m uita afinidade: afinal, recém o conhecera. Já sua m ulher, para dizer as coisas cruam ente, era um a m egera com a qual nenhum relacionam ento seria possível. Enfim , estava só, com pletam ente só.
De repente m e deu fom e, um a fom e devoradora, com o raram ente tinha sentido antes. Absurda, aquela fom e: afinal eu tinha j antado um pouco antes. Mas não aguentei: levantei-m e e, sem fazer ruído, fui até a cozinha. Não ousei acender a luz, com m edo de acordar os donos da casa e sobretudo a irascível Teresa; m as o luar que entrava pela j anela ilum inava o cam inho. Abri um arm ário e lá estava o que eu queria: pão e um pedaço de queij o. Mas eu hesitava ainda: era roubo, aquilo? Estaria eu abusando da confiança de Hércules? Pensei um pouco e concluí que não. Na verdade, estava ali a serviço da revolução, ou pelo m enos era esse o m eu propósito. Tinha direito, portanto, a alim entar-m e, m esm o porque estava na casa de um com unista, de um com panheiro de lutas, ou de futuras lutas. Fiz um sanduíche de queij o, e depois outro, e outro; quando m e dei conta tinha devorado todo o pão; sobrava apenas um pouco do queij o. Envergonhado, m as saciado, voltei para a cam a e finalm ente consegui adorm ecer.
Acordei com sol alto e alguém batendo im paciente à porta. Era Teresa, avisando que precisava arrum ar a casa e que eu teria de sair. Perguntou se eu queria tom ar café, m as foi logo avisando: pão não havia m ais, alguém tinha com ido. Clara e intim idante acusação.
Tom ei o café — preto — em silêncio. Perguntei se podia aj udar em algum a coisa, m as ela não se dignou a responder. Hesitei um instante e acabei saindo.
Ali estava eu, no Rio de Janeiro. Era um típico bairro da zona norte, aquele: casas pequenas, precárias, botecos, loj inhas, m uita gente nas ruas, nas padarias, nas quitandas, nas pequenas loj as. E carros, e ônibus, e carroças, e bicicletas, um m ovim ento incrível. Fui andando, m eio tonto, sem destino. Bom seria se eu encontrasse alguém com quem conversar — m as quem ? Chica, nem pensar; eu ainda estava com m uita raiva dela, e além disso não tinha o endereço do pai dela. Havia, claro, a Denizete, m as àquela hora dificilm ente ela estaria na rua. E o dono da padaria... Mas o centro ficava longe dali, e quem m e garantia que o hom em ia querer conversa com um cara que gastava pouco e falava m uito?
Andando sem pre, cheguei a um velho e deteriorado prédio, de onde saía um barulho infernal. Parei, espiei pela larga porta, que estava aberta. Era um a serralheria. De súbito, um a em oção se apossou de m im : eu m e dava conta de que aqueles hom ens que ali estavam , trabalhando, alguns de m acacão, outros de torso nu, aqueles hom ens (poucos, uns dez no m áxim o) eram o proletariado. Gente que tinha em suas m ãos grandes, calej adas, o futuro do país, o futuro da hum anidade. E aí avistei um a figura conhecida: o Hércules, rosto crispado, coberto de suor, m artelando furiosam ente um a chapa de m etal.
Fiquei a olhá-lo, fascinado. Não era o m etal que ele golpeava, disso eu estava certo: era o capitalism o, contra o qual usava o m artelo que, j unto com a foice, com punha o eloquente sím bolo do com unism o. Um a cena antológica. Um a cena para figurar na capa de um rom ance proletário ou m esm o do Manifesto.
Hércules parou de m artelar, enxugou a testa com um pano suj o, e então m e avistou, parado na porta, no lim iar do m undo do trabalho. Sua prim eira reação foi — ou ao m enos assim m e pareceu — de irritada perplexidade: o que estava o abelhudo garoto fazendo ali? Mas logo sorriu, e deixando de lado o m artelo e a chapa de m etal veio até m im , perguntou se estava tudo bem , se tinha havido algum problem a. Não, eu disse, nenhum problem a, tudo bem , apenas saíra para cam inhar e por acaso chegara à serralheria. Ótim o, ele disse, agora você sabe onde m e encontrar durante o dia:
— Trabalho aqui há dez anos. — E acrescentou, não sem orgulho: — É antiga, esta serralheria, é tradicional. Fazem os m uita coisa para a construção civil, escadas, grades de ferro...
Não gostei da satisfação que dem onstrava; esperava algo do tipo: “Este é o lugar onde sou explorado há dez anos”. Sobretudo, não gostei da m enção às grades de ferro. Grades, principalm ente aquelas eu ali via, com pontas sem elhantes às de lanças antigas, eram um concreto sím bolo da propriedade privada, da barreira entre os ricos e os pobres.
Essas reflexões, contudo, guardei-as para m im . Não exporia m inhas ideias a Hércules, que, além de ser m em bro do Partido, m e recebera tão generosam ente; tinha, portanto, algum direito a equivocar-se em um detalhe ou em outro. Não era grave, nada que algum as sessões de crítica e autocrítica não resolvessem .
Andam os pela oficina, ele m e apresentando aos operários, que eu cum prim entava em ocionado; para m im eram todos revolucionários, ao m enos em potencial; m eus cam aradas, portanto. Eles, por sua vez, m ostravam -se encantados com o sotaque gaúcho, perguntaram se eu tom ava chim arrão. Quando eu disse que sabia fazer churrasco, um deles riu: então você j á está convocado para assar um a boa picanha para nós um dom ingo desses. De repente, um a voz irritada, am eaçadora, soou atrás de nós:
— Posso saber que bagunça é essa, seu Hércules?
Voltam o-nos. Era o dono da serralheria, um hom em pequeno, de óculos e bigodinho, terno e gravata. Estou m ostrando a oficina a este m eu am igo, disse Hércules, num tom que m e pareceu hum ilde dem ais, subm isso dem ais, um tom incom patível com a postura revolucionária.
E que nem sequer satisfez ao patrão. O hom em , visivelm ente irritado, m e olhou de cim a a baixo. Não m e cum prim entou; voltou-se para Hércules e, ácido, disse que o trabalho estava atrasado, que tinham um a encom enda para entregar no dia seguinte, e que queria ver todo m undo trabalhando. Sua arrogante im paciência m ostrava quem era quem , quem m andava ali. Vontade eu tinha de dizer olha aqui, burguês de m erda, se tu pensas que és dono das pessoas com o és dono deste lugar, das m áquinas e das ferram entas, estás m uito enganado, e descobrirás isso quando as m assas invadirem este lugar e te m andarem para o Tribunal do Povo, onde te espera o destino que m ereces.
Mas não disse nada, não protestei. Despedi-m e de Hércules e dos operários e saí. Andei m ais algum as horas, sem rum o certo; entrei num a loj inha de roupas usadas, com prei algum as coisas, duas cam isas, um a calça, cueca, m eias, e voltei para casa; a porta estava fechada — Teresa tinha saído, decerto para fazer com pras — e eu, claro, não tinha chave, coisa que ela não m e daria, nem perm itiria que o m arido o fizesse. Esperei até as cinco, quando ela voltou, carregando um cesto com víveres. Mal m e cum prim entou; abriu a porta e foi entrando. Entrei atrás dela, fechei a porta, fui direto para o quarto, onde fiquei lendo. Ao anoitecer, Hércules retornou do trabalho; eu queria conversar com ele, perguntar sobre a oficina, e principalm ente sobre os operários — eram m ilitantes? Já tinham participado em m anifestações, em com ícios? Não cheguei, porém , a fazê-lo. Do quarto ouvi vozes alteradas. Discutiam , e eu bem podia im aginar o m otivo: eu próprio, a m inha estada ali. Finalm ente, Hércules bateu à porta: o j antar estava servido. Com em os em silêncio. Quando a refeição afinal term inou, voltei para o quarto e m e m eti na cam a.
A partir daquele dia entrei num a nova rotina. Acordava cedo, para não criar problem as com a Teresa, arrum ava o quarto. Tom ava café (sozinho; em geral Hércules j á tinha ido trabalhar), oferecia-m e para fazer algum serviço, coisa que ela sem pre recusava, ríspida. Evidentem ente m al m e tolerava ali; transferia ao indesej ado hóspede parte da raiva que sem dúvida sentia do m arido.
E era m uita raiva. Quase nunca se falavam , e quando o faziam acabavam discutindo, m esm o eu estando presente (e, no caso dela, principalm ente quando eu estava presente: eu era um excelente pretexto para um bate-boca). Ela se queixava de que o dinheiro que Hércules lhe dava não era suficiente para m anter a casa (“Muito m enos com um hóspede”, acrescentava, sarcástica); que o m arido não passava de um hom em sem iniciativa, um om isso, ao contrário do irm ão dela, que nunca vi, m as que pelo j eito estava bem de vida: era dono de um a quitanda na zona sul, ganhava bem . As atividades políticas do m arido não lhe interessavam ; pelo contrário, achava aquilo um a idiotice, um a perda de tem po.
De m anhã eu ficava estudando o Manifesto e o Que fazer? (Chto delat?). O livro de Lênin deveria despertar em m im sentim entos de culpa; afinal, Geninho m orrera sem que eu o tivesse devolvido. Mas eu preferia ver nisso um a coisa sim bólica; era m ais um a evidência de que eu, de certa m aneira, tornara-m e um guardião dos ideais do m eu saudoso am igo. Lia tam bém os livros de Hércules, que, aliás, estava longe de ser um grande leitor: os poucos volum es estavam em poeirados, sinal de que nunca os consultava (e de que a m ulher não se preocupava em lim pá-los, o que era apenas coerente com sua atitude hostil para com a m ilitância revolucionária). O próprio Hércules reconhecia que não era um intelectual, um estudioso; prefiro a prática à teoria, dizia-m e, num tom m eio envergonhado, é por isso que tenho tão poucos livros. Aos quais eu não precisaria, contudo, ficar restrito. Tinha descoberto, num a ruazinha tranquila próxim a ao centro da cidade, um a pequena livraria cham ada Progresso, que vendia artigos de escritório, revistas, rom ances cor-de-rosa, m as onde havia tam bém , nos fundos e m eio escondida, um a seção de literatura de esquerda: obras novas e usadas de Marx, Engels, Lênin, Stálin. O lugar, cavernoso, m al ilum inado, m eio suj o e cheirando a m ofo, para m im era um verdadeiro paraíso; um paraíso com unista, bem entendido, um reduto do conhecim ento e da sabedoria de hom ens que haviam se dado conta das inj ustiças e desigualdades do nosso m undo e traçado, através de seus escritos, o cam inho para um a m udança radical e salvadora. Ali eu m e sentia abrigado e consolado, com o um im aturo pássaro em seu ninho; folhear os livros, coisa que eu fazia dem oradam ente e com o m aior deleite, era receber um fluxo de energia que m e dava forças para enfrentar a ansiedade que era então um a constante em m inha vida. Eu não tinha dinheiro para com prar aquelas obras, m as o dono, um hom em de óculos e barbicha branca, que ficava sentado im óvel atrás do balcão, não se im portava com isso; eu podia ficar o tem po que quisesse, ele não diria nada.
E então um a surpresa. Um dia descobri um livro, em espanhol, de Georgi Plekhanov, teórico soviético. Um autor que eu conhecia pouco e que na verdade (o que seria bom m otivo para autocrítica) não m e interessava; m as im agina m inha em oção quando, ao abri-lo, vi na página de rosto o nom e, m anuscrito, de Astroj ildo Pereira.
* * *
Astroj ildo Pereira! Que coincidência, que significativa coincidência, que anim adora coincidência! Mas tam bém — que coisa intrigante: com o viera parar ali, aquela obra? O próprio Astroj ildo a vendera? Mas por quê? Talvez estivesse precisando de dinheiro — m as não poderia resolver isso de outra m aneira? Talvez não gostasse do Plekhanov — m as não seria isso um indício de desvio ideológico?
Eu preferia, porém , pensar num a possibilidade m ais lógica e m ais com patível com a im agem que eu fazia do líder. Astroj ildo generosam ente em prestara o livro a alguém , quem sabe um prosélito, um neófito. E o ingrato, o traidor, o m ercenário, o burguês ganancioso, vendera o livro, sem nem sequer se dar ao trabalho de rem over a folha com o nom e de Astroj ildo.
Eu queria aquele livro. Não para ler o Plekhanov; isso eu até faria, m as não era m eu obj etivo principal. Meu obj etivo, ingênuo obj etivo, era dar a obra de presente para o Astroj ildo, quando o encontrasse. Esperava que ele ficasse feliz com a inesperada restituição e que agradecesse efusivam ente ao j ovem e leal discípulo. Ao que eu diria algo com o não tem nada que agradecer, cam arada Astroj ildo, tom a este ato com o um a pequena m as sincera hom enagem à tua grandeza revolucionária.
A decisão tom ada, surgiu o problem a: o preço. O livro era m uito caro, m ais caro que os outros livros, o que aliás m e parecia um contrassenso: com o poderia ser tão caro, um livro revolucionário? Isso, a m eu ver, indicava um grave, m ercantilista, desvio do livreiro; um a sede de lucro incom patível com a progressista tarefa de difundir as ideias da revolução e talvez erradicável apenas pelo pelotão de fuzilam ento. Mas enquanto o livreiro não era conduzido ao Tribunal do Povo, enquanto não era j ulgado, enquanto não era condenado, enquanto os revolucionários não preparavam os fuzis, ou a guilhotina, ou a forca, enquanto seus bens não eram confiscados e entregues a espoliados com o eu, com o obter o livro? Aquela quantia eu nem em sonhos conseguiria.
Eu estava, pois, diante de um im passe. Que fazer? (Chto delat?) Pensei longam ente no assunto, num debate interior sem elhante ao que m antinha com o burguês im aginário, e finalm ente decidi apossar-m e do volum e. Não se tratava, eu dizia a m im próprio, de roubo com um ; tratava-se de um gesto de apoio a um grande líder revolucionário. Um a ação plenam ente j ustificada, portanto, e tam bém um castigo para um com erciante hipócrita e adepto da m ais-valia.
Só que, ao contrário dos garotos do centro do Rio, eu não tinha experiência naquele tipo de, digam os, expropriação, e tem ia ser apanhado em flagrante, o que, além de ser um vexam e, poderia resultar em com plicações: a últim a coisa que m e faltava, àquela altura, era ser preso por denúncia do livreiro. Pouco provável; afinal um m ínim o de abertura social o hom em certam ente teria, m as eu não podia correr o risco.
Para evitar problem as resolvi treinar um pouco. À noite, depois que Hércules e Teresa foram dorm ir, peguei alguns livros, coloquei-os num a prateleira do quarto e experim entei várias técnicas para dali rapidam ente retirá-los e ocultá-los. Com ecei usando um a sacola de pano, que, contudo, certam ente despertaria suspeitas; o m elhor seria sim plesm ente colocar o livro sob o casaco. Casaco, no clim a tórrido do Rio, pareceria um pouco exagerado, m as eu sem pre podia fingir que estava resfriado, fungando e assoando o nariz. E assim , na m anhã seguinte, de casaco, fui à livraria disposto a executar m eu plano.
Para m inha surpresa, o livro não estava m ais na prateleira. Foi vendido, disse o livreiro, im passível. Não acreditei m uito na inform ação. Plekhanov estava longe de ser popular, sobretudo em espanhol. Eu suspeitava que o hom em , de algum m odo, percebera m inha intenção e retirara dali o volum e.
De qualquer m odo, m eu generoso plano tinha gorado. Foi um a frustração, m ais um a, m as não m e deixei abater; continuei a frequentar a livraria com o cliente com um (e com o leitor contum az), agora sem cogitar do confisco de livros e (ao m enos isso) sem precisar usar casaco.
Não só em torno de livros e leituras girava m inha nova vida. Esperando pelo retorno de Astroj ildo Pereira e pelo m om ento de encontrá-lo, eu tinha de achar m aneiras de passar o tem po; além de ler, cam inhava pela cidade. Cam inhava m uito; distância para m im não era problem a, eu estava habituado, desde a infância, a andar quilôm etros. Ia até o centro, ia até Botafogo e Flam engo. Não gostava dos bairros da zona sul, lugar de ricos, de aristocratas; m as era preciso fazer um reconhecim ento do reduto inim igo, saber que aparência tinham os burgueses, ouvir o que diziam nas ruas, olhar os títulos dos livros nas vitrines das livrarias. Já nos bairros pobres eu m e sentia entre am igos, entre irm ãos. Breve estaria falando com aquela gente hum ilde, conclam ando-a a lutar por um m undo m elhor. Breve seriam m eus cam aradas, eles. Um pensam ento que m e anim ava e que m e dava esperança.
Um dia, voltando para casa — sem pre traj etos novos, para variar um pouco —, tive um a surpresa. Entrando por um a ruazinha tranquila do bairro, avistei um hom em j á m aduro sentado num a cadeira preguiçosa, no j ardim de um a pequena casa de m adeira. Não chegava a ser um a cena inusitada; inusitado era o fato de o hom em estar vestido de gaúcho, todo pilchado: chapelão, lenço verm elho no pescoço, bom bachas, botas. Fum ava um palheiro, tom ava chim arrão.
Um gaúcho! Um gaúcho com o eu, ali no Rio de Janeiro! Que coisa! Não m e contive e fui até ele. Apresentei-m e: sou o Valdo, vim da região de Santo Ângelo e queria conhecer o m eu patrício. Ele se pôs de pé, sorridente, estendeu-m e a m ão. Cham ava-se Bento (“Com o o grande Bento Gonçalves, nosso herói farroupilha”), era de São Borj a: som os os dois m issioneiros, observou, com satisfação. Entrou na casa, voltou com um banquinho, pediu que eu sentasse, ofereceu-m e chim arrão:
— Vam os conversar um pouco, tchê. Não é sem pre que um conterrâneo aparece por aqui.
Contou que m orava no Rio havia m uitos anos, sem pre naquela m esm a casinha; era m ilitar aposentado, tinha participado da cam panha de Canudos, aquela sobre a qual Euclides da Cunha escrevera um livro cham ado Os Sertões, sabia eu do que ele estava falando?
Sim , eu sabia do que estava falando, dona Doroteia nos dera um a aula sobre o tem a; tratava-se de um acontecim ento m arcante em nossa história. Apesar disso eu não lera Os Sertões. Por causa de Geninho, que, avaliando o episódio de Canudos do ponto de vista do binôm io progresso-reação, considerara-o confuso, para dizer o m ínim o. Sim , havia sido um m ovim ento popular, m obilizando m ilhares de pessoas; de outro lado, esse m ovim ento, m ístico, era liderado por um fanático religioso, cuj o obj etivo não era criar um a nova sociedade, m as sim um a nova seita.
Am bivalência tam bém havia na traj etória de Euclides; chegara a Canudos m eio reacionário, m as m udara durante a cam panha m ilitar, tornando-se até um pouco socialista. “Socialista” não era, contudo, um a palavra aceitável para os com unistas, longe disso; term o vago, inespecífico, podia até servir de disfarce para direitistas infiltrados no proletariado.
Bento não estava m uito interessado em discutir a posição política de Euclides ou o valor literário da obra. Sua relação com Os Sertões era outra, e surpreendente:
— Eu apareço no livro — disse, orgulhoso.
Não pude ocultar m inha incredulidade: ele, na obra de Euclides? Riu, divertido:
— Pela tua cara, j á vi que não acreditas em m im . Mas espera, vou te m ostrar.
Entrou na casa e poucos m inutos depois voltou com um exem plar de Os Sertões. Sentou-se, colocou os óculos e abriu o livro num a página obviam ente j á m arcada. Com algum a vacilação (leitor habitual não era, e o difícil texto claram ente representava para ele um desafio), m as com veem ência, leu o trecho que descreve a descoberta do cadáver de Antônio Conselheiro: “Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Rem ovida breve cam ada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol im undo, em que m ãos piedosas haviam esparzido algum as flores m urchas, e repousando sobre um a esteira velha, o corpo do ‘fam igerado e bárbaro’ agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim am ericano, m ãos cruzadas ao peito, rosto tum efato e esquálido, olhos fundos e cheios de terra”.
E aí a cena som bria, a retirada da cabeça do cadáver: “Um a faca j eitosam ente brandida, naquela m esm a atitude, cortou-lha”.
Fechou o livro, olhou-m e:
— E então? — Antes que eu pudesse responder, continuou: — Já sei o que vais dizer: o Euclides não fala de nenhum Bento. Verdade: não botou m eu nom e. Na certa pensou que m e fazia um favor. Tu vês, bem podia algum seguidor do Conselheiro querer vingar o seu chefe, acabando com igo. Para não m e criar problem as só falou na faca, não no cara que em punhava a faca. E sabes quem em punhava, j eitosam ente com o ele diz, a tal faca? Pois era eu.
Levantou-se, triunfante:
— Eu, tchê. Eu m esm o. Este teu conterrâneo que aqui está.
Ficou em silêncio um instante, deliciado com m eu espanto, e prosseguiu:
— Claro, tu és guri ainda, não tens obrigação de saber quem eu sou. Mas sabes com o m e cham avam , lá na nossa terra? O Rei da Degola. Foi o apelido que m e deram na revolução de 1893, acho que sabes do que estou falando...
Sim , eu sabia do que ele estava falando: da luta entre os m aragatos do oposicionista Gaspar Silveira Martins e os picapaus de Júlio de Castilhos, presidente do estado do Rio Grande do Sul, sangrento conflito que deixara m ais de dez m il m ortos. Nessa verdadeira guerra civil, a degola era com um . Os caras pegavam o prisioneiro, faziam com que se aj oelhasse, puxavam sua cabeça para trás e, faca em punho, cortavam -lhe o pescoço de orelha a orelha — com o se estivessem degolando um a ovelha. Faziam isso, segundo se dizia, para poupar m unição e tam bém porque não tinham com o m anter prisioneiros.
— Perdi a conta dos inim igos que degolei, rapaz — prosseguiu Bento. — Fiquei prático naquilo. Muito prático m esm o. Minha habilidade deixava todo m undo de boca aberta, m esm o porque eu era ainda j ovem , um guri com o tu. O m édico da tropa m e disse um a vez, com adm iração e, acho até, com invej a: tu darias um grande cirurgião, Bento.
Riu:
— Grande cirurgião, eu? De que j eito? Para com eçar, nunca fui além do curso prim ário, e isso m esm o porque m eu pai insistiu: queria que o filho tivesse algum estudo, que não fosse um ignorante com pleto. Mas m eu negócio não era curar gente com operação: m eu negócio, guri, era degolar, era cortar pescoço. Nisso, nunca m e saí m al. O único problem a que tive foi com um federalista que resolveu engolir em seco na hora que eu estava passando a faca na garganta dele. Engolir em seco, vê só. O cara j á ia m orrer, para que tinha de engolir em seco bem naquela hora? O certo é que o gogó se m exeu e a faca resvalou. Claro, o suj eito m orreu de qualquer j eito, m as o talho ficou torto, feio.
Brandiu o livro:
— No caso desse louco, o Antônio Conselheiro, o serviço tam bém não foi bom , m as aí por outros m otivos. Para com eçar, o bicho estava m orto fazia um a porção de dias. Não m orreu em com bate, não. Ele se apresentava com o grande chefe, com o grande herói, m as não m orreu lutando. Sabes do que m orreu, Valdo? De caganeira. De cam inheira, com o dizem por lá. Morreu se cagando. Tu degolares um hom em m orto, m eu am igo, não tem graça: pescoço seco, sangue nenhum ... No caso, não era só degola; a ordem era cortar a cabeça do Conselheiro. Difícil, Valdo, por causa do espinhaço. O espinhaço resiste, e aí tive de usar a força, o que, num a degola benfeita, não se adm ite: degola é questão de j eito, não de violência. Mas os m édicos queriam porque queriam exam inar aquela cabeça, para saber se o cara era louco ou não. O que eu, francam ente, achava perda de tem po: claro que o Conselheiro era louco. Vinha com aquelas histórias de que o sertão ia virar m ar, o m ar virar sertão... Louco, claro. Louco e safado: não queria pagar im posto. Era contra o governo, Valdo. Contra nós, porque eu era soldado do governo, da tropa federal. Com gente assim não se pode ter dó, m uito m enos consideração. Era m atar ou ser m orto, e eu m atei. Matei m uita gente na cam panha de Canudos, uns vinte j agunços, no m ínim o, m etade na degola. E não m e arrependo.
Calou-se um instante, o olhar perdido, e continuou:
— O Euclides pensava diferente. Sei disso porque conversei com ele algum as vezes. Melhor dizendo: ele vinha conversar com igo. Por causa do j ornal, entendes? O cara tinha sido m andado para Canudos por um j ornal de São Paulo, então escrevia sobre a guerra. E m e perguntava coisas: o que eu achava de Canudos? Com o m e sentia, guerreando aquela gente? E eu respondia. Não tinha nada para esconder, m eus superiores autorizavam que eu respondesse, então respondia. Nessas conversas, eu, que não sou bobo, pude notar um a coisa: o Euclides foi m udando. Quando chegou em Canudos pensava com o nós, os m ilitares: que aquilo era o reduto de um bando de fanáticos, gente perigosa. Era o que m e dizia: vocês estão prestando um serviço ao país, Bento, um bom serviço. Lá pelas tantas parou de dizer isso. Não com entava m ais nada, só ouvia, quieto, e tom ava notas. Depois escreveu isso que te li, sobre o cadáver de Antônio Conselheiro. Para te falar a verdade, quando peguei esse livro não entendi nada, é um a escrita m uito com plicada, parece até outra língua. Mas tenho um vizinho que é professor e ele decifrou para m im essa coisa. Não gostei do que ouvi. Falei para o professor: “Parece que o Euclides não era m uito contra Canudos”. Ele pensou um pouco e disse que concordava: no final, o Euclides até defendia os m alucos.
Mostrou a página do livro:
— Tu estás vendo essas palavras entre aspas? “Fam igerado e bárbaro”? O professor disse que o Euclides botava essas aspas para debochar dos inim igos do Conselheiro. Ou sej a, para debochar de nós, o governo, os soldados. Para te dizer a verdade, foi até bom ele não m encionar o m eu nom e nessa m erda. Se fizesse isso, e se botasse aspas, te j uro que acabava com ele.
Mais um a pausa e continuou:
— Agora, isso dá para entender. Era m uito esquisito, o tal de Euclides. Sabias que quando era j ovem foi expulso do Exército? Desacatou um a autoridade e foi expulso. Aí vieram com a história de que o hom em sofria dos nervos. Sofria dos nervos? Sofria dos nervos, só isso? Que nada, tchê. O Euclides era m aluco m esm o. Sabes com o ele m orreu? Não sabes? Pois foi m orto pelo am ante da m ulher, um rapaz cham ado Dilerm ando de Assis, conterrâneo nosso, que na verdade agiu em legítim a defesa: o louco do Euclides tentou baleá-lo. Dilerm ando, que era cam peão de tiro, acabou com ele na hora. Com gaúcho não se brinca.
Com um suspiro fechou o livro, deixou-o de lado.
— Tu vais m e perguntar por que não voltei para a nossa terra. Por um a razão m uito sim ples, Valdo: um m aj or gaúcho, o nom e dele não interessa, m e prom eteu um cargo no governo federal. Fiz a bobagem de acreditar no cara. Fiquei aqui no Rio de Janeiro esperando pelo tal cargo, que nunca veio. Arranj ei um em preguinho, casei, enviuvei, tenho filhos que j á são hom ens e que só vej o de vez em quando. Passo o tem po nesta casa, preparo m eu chim arrão, asso um churrasco de vez em quando... Porque antes de m ais nada sou gaúcho. Falo com o gaúcho, penso com o gaúcho, m e visto com o gaúcho. Sei que a vizinhança debocha de m im , m as estou cagando para esses cariocas de m erda. Daqui não vão m e tirar. Podem falar m al de m im o quanto quiserem . Eu era degolador, sim . E daí? Na França, pelo que m e disseram , eles m atam os condenados com um a m áquina de cortar cabeças. Um a m áquina, vej a só.
Bufou, raivoso:
— Máquina! Tudo agora é m áquina! Tudo autom ático! Esses caras, Valdo, não entendem degola. Degola é arte, coisa que só se aprende com o tem po e com a prática. Isso esses caras não entendem , com o não entendem o gaúcho.
Levantou num salto:
— Mas eles ainda vão conhecer a nossa força, isso eu te garanto, a força dos gaúchos. Não estou falando do Prestes, não, que é gaúcho m as é um palhaço, não sabe o que quer, form ou a tal Coluna, andou pra cim a e pra baixo, e era Mato Grosso, e era Goiás, e era Maranhão, e era Piauí, m as não resolveu nada, não conseguiu nada, agora nem sei por onde anda, parece que m ora na Argentina e que im porta cabos de vassoura do Paraná, tu acreditas? Um cara que se dizia revolucionário vendendo cabo de vassoura! Um a vergonha, m eu am igo, um a vergonha. Já o Getúlio é outra coisa. Esse sabe o que quer. Esse não vai descansar enquanto não governar o Brasil, ouve o que estou te dizendo. Já resolvi: se ele m e cham ar, eu vou. E ele vai m e cham ar, Valdo, porque m e conhece, nós dois som os de São Borj a, o hom em sabe da m inha fam a, sabe que sou de confiança e bom de briga. Ele m e cham ando, eu vou a galope. Eu pego em arm a, degolo gente, faço a guerra de novo. Porque a verdade é que eu tenho saudades de Canudos, tenho saudades do tem po em que a gente m atava j agunço.
Eu ouvia, fascinado e horrorizado. Por causa daquele doentio reacionarism o, obviam ente, m as sobretudo por causa da história da degola. Claro, nada m e garantia que o hom em estava dizendo a verdade; bem podia ser ele um m entiroso com pulsivo, um m itôm ano que se aproveitava do fato de Euclides ter, no livro, om itido o nom e do suj eito que tinha cortado a cabeça do Conselheiro, para inventar aquela história. Era até possível que tivesse estado em Canudos; m as seria ele o Rei da Degola, com o dizia? Ou era, esse sinistro apelido, a expressão de um sonho dem ente, de um a m órbida aspiração? Quem sabe no fundo o cara não passava de um m edroso, m entindo para alardear coragem ?
O fato é que acreditei no que dizia. Por causa do livro, sabes? Do livro que o hom em usara para com provar sua história. Eu tinha um a fé quase cega em livros e em pessoas que recorriam a livros com o fonte de conhecim ento, de inform ação. Livros, para m im , diziam a verdade e, apesar de m inhas restrições à obra de Euclides, achei que tinha ouvido do hom em um a narrativa autêntica, um depoim ento veraz. Resultado: saí m al daquele encontro, caro neto, m uito m al. Pelas opiniões que em itira, o Bento era um retrógrado, um prim itivo, um a versão m ais pobre, m as igualm ente autoritária, e sanguinária, do coronel Nicácio. Monstro, talvez; reacionário, com certeza.
Mas um a coisa eu tinha de reconhecer: o cara fora para a ação, participara num a vitoriosa, ainda que cruel, cam panha m ilitar. E, com o seus com andantes, tornara-se um vencedor. E eu? Eu que passava m al só de ver sangue, que futuro teria com o revolucionário? Seria capaz de m atar um burguês, m esm o repulsivo, m esm o explorador? Claro que não. No m áxim o, cogitara de roubar um livro de um a livraria decadente, e m esm o assim m e atrapalhara tanto que acabara perdendo a oportunidade.
Quer dizer: havia um longo cam inho a percorrer, e, para com eçar a trilhá-lo, teria, antes de m ais nada, de m e desfazer dos escrúpulos burgueses. Por isso seria essencial que eu encontrasse logo o Astroj ildo, que ele m e orientasse, que desfizesse m inhas dúvidas, que m e dissesse o que fazer. Mas não aparecia, o m aldito Astroj ildo, não voltava nunca de Moscou. Eu podia entender que ficasse lá, no único país do m undo em que o com unism o era realidade, onde revolução não era coisa de livro, e sim coisa do dia a dia, de um glorioso e progressista cotidiano. Mas será que ele não tinha obrigações com o Partido, com os com unistas brasileiros? Com os j ovens com o eu, ansiosos por sua orientação? Perguntas sem resposta, infelizm ente.
A espera se prolongava, os dias passavam , m onótonos, tristes. O pior era a saudade. Tu acreditas que até da estância eu sentia falta? Da estância, reduto do latifundiário Nicácio? Sentia falta, sim . Sentia falta do pam pa, do nevoeiro das m anhãs de inverno. Sentia falta de Santo Ângelo, da escola, da dona Doroteia, dos m eus colegas. Isso sem falar de m eus pais, do m eu m ano. Escrevia-lhes todos os dias; m as não enviava todas aquelas m issivas, não tinha dinheiro para isso. Mandava um a carta a cada dez dias e olhe lá. Cartas anim adoras — e m entirosas. Eu dizia que o Rio era um a m aravilha, que estava fazendo o m eu estágio com m uito sucesso, que os diretores tinham até m e convidado para ficar trabalhando na m atriz; e, assim que fosse possível, voltaria para visitá-los.
Um a noite, não suportando m ais a solidão, fui procurar a Denizete, no centro. Ali estava ela, no lugar em que habitualm ente fazia ponto, sum ariam ente vestida e berrantem ente m aquiada. Fiquei feliz ao vê-la, que saudade, Denizete, eu estava sentindo falta de ti. Para m inha surpresa, desagradável surpresa, não m e recebeu com m uita efusão. Perguntou o que era feito de m im , se eu estava trabalhando; quando eu lhe disse que não, fechou a cara e m e avisou: escuta, gaúcho, conversar a gente pode, m as foder de graça não dá, eu te dei aquela de brinde, m as sou profissional, vivo disso, não posso fazer caridade a toda hora. Naquele exato m om ento um carro parou ao nosso lado e um hom em — um cliente, decerto — fez-lhe sinal. Ela se despediu depressa de m im , entrou no carro e se foi.
Podes im aginar a am argura com que voltei para casa. Mas aquilo, de algum a m aneira, m e sacudiu. Eu não podia, não devia aguentar hum ilhações. Viera ao Rio para entrar no Partido Com unista, e no Partido Com unista entraria, com ou sem Astroj ildo Pereira.
Falei com Hércules, disse que estava m e sentindo m arginalizado, inútil, que queria com eçar logo m inha carreira de m ilitante, com ou sem Astroj ildo. Quem sabe eu poderia fazer parte de sua célula, ainda que provisoriam ente, só para m e iniciar na disciplina partidária, na práxis revolucionária?
Ouviu-m e com atenção, m as desconversou; alegou que eu ainda era m uito j ovem , que tinha de ser testado:
— Partido não é clube, Valdo. Não é só um a questão de assinar ficha. O
Partido é coisa séria, tem de selecionar m uito bem os seus m em bros.
Acho que no fundo não confiava em m im ; continuava m e tratando bem , porque era um hom em bom , m as não estava disposto a m e introduzir à atividade partidária — não, pelo m enos, enquanto não descobrisse quem , afinal, eu era, e o que queria. Era um hom em tenso, o Hércules, um hom em atribulado, e tinha boas razões para isso. Sua relação com a m ulher se deteriorava sem cessar; a certa altura j á m al se falavam , nem se olhavam . Ela, sem pre m al-hum orada, sem pre agressiva, não perdia oportunidade para m e dizer algum a coisa m aldosa, ferina, aludindo sobretudo à m inha vagabundagem . Hércules ouvia em contrariado silêncio, m as evitava discutir com a m ulher. Eu suspeitava que tivesse um a am ante, j á o vira na rua com um a bela m ulata. Suspeita que, aliás, m e incom odava; não podia conceber um com unista levando vida dupla, traindo a com panheira — ainda que se tratasse de um a m ulher insuportável com o a Teresa.
Um a coisa m e intrigava naquela casa: o quarto que eu ocupava. Seria um aposento para hóspedes? Pouco provável, porque ninguém os visitava — por causa da m á vontade da m ulher, Hércules não teria a m enor condição de trazer um cam arada para j antar, quanto m ais para m orar ali, m esm o provisoriam ente. Eu era, isso estava bem claro, um a exceção. E a questão continuava sem resposta: a quem , afinal, pertencera aquele aposento? A um filho, talvez falecido? A um parente? Por que nenhum dos dois falava a respeito?
* * *
O certo é que eu m e sentia triste, abatido; em setem bro daquele ano de 1929 cheguei ao fundo do poço. Era o m ês de m eu aniversário, que por coincidência cai no dia 20, data da Revolução Farroupilha; a professora Doroteia sem pre dizia que assim eu hom enageava o Rio Grande. Mam ãe sem pre fazia um a festinha de aniversário para a fam ília e m eus am igos: o ponto alto era o churrasco, preparado por m eu pai, aliás, um m estre: ninguém assava um a costela gorda com o ele. Preparar a carne, enfiá-la no espeto, salgá-la, essas coisas m obilizavam nele em oções insuspeitadas; transfigurava-se, quando o fazia, m as nunca falava, nunca expressava em palavras o que sentia. Era um hom em quieto e, assando churrasco, a fisionom ia atenta, a testa franzida, m ais quieto ainda. Lem bro um único com entário dele, um com entário que, em retrospecto, pareceu-m e m elancólico, quem sabe (e considerando o episódio com o coronel) um a espécie de autoacusação, mea culpa: carne faz o hom em valente, foi o que disse, não sei se para m im , para si próprio, ou para um interlocutor im aginário.
À m edida, porém , que a costela ia assando e que o apetitoso arom a dali com eçava a se evolar, m udava; ficava m enos tenso, m enos irritado. E por fim era com generoso j úbilo que nos oferecia o assado. Do qual, contudo, não com ia: no m áxim o um a lasquinha, apenas para avaliar o sabor. Mam ãe reclam ava, m as ele dizia que ela não se preocupasse; com er, para ele, era o que m enos im portava; sua satisfação, sua em oção vinham do fato de ver m inha m ãe, m eu irm ão, eu, alguns am igos saboreando o churrasco. Abundante, aliás: até o cachorro, um vira-lata cham ado Pretinho, ganhava sua parte.
Term inado o churrasco, m am ãe trazia o m odesto bolo de aniversário; eu apagava as velinhas, todos cantavam o “Parabéns”, todos m e abraçavam , e então m eus pais m e entregavam o presente. No aniversário antes de m inha partida, eu j á às voltas com m eus proj etos revolucionários, eles, acho que não por acaso, haviam m e dado algo surpreendente: um vistoso relógio de pulso, que, m esm o não sendo de m arca fam osa, certam ente consum ira boa parte das econom ias de papai. Até então, e com o quase toda gente na cam panha gaúcha, eu não tivera relógio: o tem po ali era calculado pela altura do sol, j á que relógios, em geral im portados, eram coisa cara, coisa para gente de posses, doutores, estancieiros, em presários. Mas havia um recado naquele presente. Com o relógio, o revoltado filho deles ingressaria, assim o esperavam , num outro e disciplinado universo, o universo em que o tem po era m edido e avaliado; o universo dos núm eros, que viam com o salvadora alternativa ao universo das letras e das palavras, no qual se m oviam a contragosto e com apreensão. Não saberiam , por exem plo, que livro m e oferecer de presente, que livro eu, baseado em critérios para eles m isteriosos, não queim aria. Já relógio era um a coisa neutra, obj etiva; relógio se lim itava a registrar a passagem do tem po sem fazer análises críticas do passado, sem fazer profecias gloriosas quanto ao futuro. E, cum prindo sua função, o relógio m e lem braria que o tem po passa, e que eu deveria pensar no futuro, que, para eles, se traduzia num diplom a, num a carreira profissional.
Aniversário, churrasco, bolo, presentes, isso tudo agora estava longe; tênues, dolorosas lem branças. Eu não tinha com quem celebrar m inha entrada nos dezesseis anos. Hércules não era de festas; Teresa, então, nem pensar. Aniversário triste, triste.
Ainda que m eu dinheiro estivesse no fim , achei que podia ao m enos m e dar um presente. Um livro, claro. Fui à Livraria Progresso e com ecei a procurar na prateleira dos livros de esquerda algum a obra barata: tratava-se de com pra, não de confisco.
Sentado em seu tam borete, atrás do balcão, o livreiro m e observava. Lá pelas tantas disse, em sua voz rouca, cavernosa, voz de fum ante pesado, de bronquítico:
— O am igo pelo j eito gosta de livros.
O com entário m e surpreendeu. Em geral falava pouco, aquele hom em esquisito; lim itava-se a responder às m inhas perguntas sobre preços e outros detalhes, sem pre de form a lacônica, coisa que eu atribuía a um a natureza reservada. Agora, porém , fazia um a observação de caráter pessoal — inusitada, portanto. E gratificante, para quem , com o eu, quase não tinha com quem falar. Anim ei-m e; se pudesse ter com o interlocutor, ao m enos por algum as horas, um a pessoa que eu im aginava culta e inteligente, seria m ais que um consolo, seria o presente de aniversário que eu buscava, principalm ente se, no decorrer da conversa, ele dissesse algo com o “Já que você é um am ante do texto, pode escolher qualquer obra, a seu gosto, é hom enagem da casa”, um a oferta que com pensaria as frustrações daquele dia. Apressei-m e, pois, a dizer que sim , que ler era a coisa de que eu m ais gostava, sobretudo quando se tratava de obras com o as que ele tinha ali, naquela esplêndida livraria.
— Mas — acrescentei — acho que o senhor deve gostar de livros ainda m ais do que eu. Afinal, trabalha com isso...
A reação dele foi extraordinária. Saltou do tam borete e, olhos fuzilando de raiva, avançou em m inha direção:
— Não! — gritou, com pletam ente transtornado. — Você está enganado, rapaz, com pletam ente enganado, terrivelm ente enganado, estupidam ente enganado; você não podia estar m ais enganado, você está com etendo o grande engano de sua vida! Espero que ela dure o bastante para você corrigir esse erro idiota. Eu não gosto de livros porra nenhum a. Eu odeio livros, odeio essas m erdas. Livro só serve para atrair traças, m ilhões delas; O Capital, do Marx, é o cam peão nisso, é o paraíso das traças, é a Terra Prom etida das traças, elas adoram essas baboseiras, adoram os conceitos m arxistas, a m ais-valia, relações de produção, m aterialism o histórico, a palhaçada toda. Com o se não bastassem as traças, esses livros j untam poeira tam bém . Poeira é um veneno para m im . Sofro de bronquite asm ática, j á perdi a conta dos ataques de falta de ar que tive nesta livraria, por causa da poeiram a. Um a vez até a am bulância tive de cham ar, tão m al fiquei, pensei que ia m orrer. O m édico que m e atendeu disse: livraria não é lugar para o senhor. Estava certo, o doutor. Este lugar m edonho ainda vai acabar com igo.
Interrom peu-se por um m om ento para logo em seguida voltar à carga:
— Ah, sim , e tem os ratos. Não falei neles? Pois devia ter falado. São dois, os ratos, o Marx e o Engels, assim os cham o, e espero que fiquem nisso, em Marx e Engels, que não convoquem o Lênin, o Stálin, o Plekhanov, a rataria toda. Estão sem pre correndo por aí, nessas prateleiras de livros esquerdistas. Já botei ratoeira, j á botei veneno; nada, são m uito espertos, os dem ônios, parece que aprenderam com os com unas. Todos os dias aparecem , todos os dias. E todos os dias passo pelo vexam e de correr atrás deles sem alcançá-los.
Resm ungou qualquer coisa que não entendi e prosseguiu, espum ando de fúria, os perdigotos voando na m inha cara:
— Mas o pior não é isso. O pior é que os livros ficam aí, nos seus lugares, m e acusando, m e intim ando: trate de nos vender logo, seu desgraçado, seu livreiro infeliz, querem os sair daqui, querem os ir para outras prateleiras, prateleiras que nos acom odem bem , com a dignidade que m erecem os. Querem os estar nas m ãos de gente culta, querem os ser folheados, querem os ser lidos, querem os ser citados, querem os ser im portantes na vida das pessoas; se você não nos vender logo, as traças e os ratos nos vingarão, você vai ver.
Calou-se, ofegante — a bronquite deveria m esm o ser grave —, m as foi em frente em sua arenga:
— Isso é o que m e dizem esses livros, e não deixam de ter razão. Afinal, são produtos e eu sou um com erciante, precisaria vendê-los, com o vendo papel, com o vendo canetas, lápis, m ata-borrão, com o vendo clipes e alfinetes, coisas que aliás saem m uito bem , com o saem os rom ances populares e as revistas, a Fon-Fon e as outras. Mas esses livros esquerdistas... Com o é que vou vender essas drogas? Hein? Com o? Quem vai querer esses livros chatos, esses livros que ninguém entende, livros que pregam um a revolução que nunca chega? Revolução, m eu caro, só interessa a garotos perturbados com o você. Desculpe, m as tenho de lhe dizer a verdade, observo você todos os dias e lhe garanto, você tem cara de doente m ental, de punheteiro, e sabe por quê? Porque você vive enfiado nesse lixo do Marx e do Lênin. Gente sensata, inteligente, gente bem equilibrada, gente assim não pensa em m udar o m undo, pensa em trabalhar, em ganhar a vida, em viver m elhor. Se lê, e quando lê, é livro de sacanagem , que pelo m enos deixa o cara de pau duro. Ou livro de negócios, que ensinam a fazer dinheiro. Agora: essas coisas do Marx, do Lênin, isso aí tinha de ir direto para o lixo, j unto com a poeira, as traças e os ratos.
Mais um a vez teve de se interrom per e respirar fundo. Voltou à carga:
— Claro, você pode m e perguntar por que eu vendo esses livros. Sabe por quê? Porque m eu patrão, o dono da loj a, m e m anda fazer isso. Meu patrão é com unista. Pelo m enos diz que é com unista. Se é m esm o m em bro do Partido, isso não sei. Só sei que para um com unista ele é m eio estranho. Para com eçar, nunca vi um cara cuidar tanto da aparência: sem pre de terno de linho branco, sem pre de gravata borboleta, chapéu panam á, sapatos im portados... Um dândi, sabe? Um dândi. Aliás, ele é de fam ília aristocrática, neto de um barão do caralho qualquer. Nunca trabalhou, nunca fez m erda nenhum a, não precisa, recebeu um a bela herança. E j oga. Você pode im aginar um com unista j ogando? Mas ele diz que faz isso de propósito, que está usando contra o capitalism o o próprio veneno capitalista: para ele, a irracionalidade do j ogo é apenas um a outra faceta da irracionalidade do m ercado, de m odo que, sem pre segundo ele, a roleta é um a espécie de m etralhadora giratória exterm inando aqueles que concentram a renda. E o pior é que sem pre ganha, sem pre, sem pre. Ganha fortunas. Foi com o dinheiro do j ogo que abriu esta livraria. Fez isso por várias razões; em prim eiro lugar para, com o ele diz, castigar o regim e; depois, para bancar o intelectual; e por últim o para ficar bem com os com unas: vai que eles conquistem o poder, o cara quer estar por cim a. Foi ele quem m andou abrir essa seção em que você está sem pre de nariz enfiado. Eu disse que seria difícil conseguir livros novos, então ele m e falou para colocar os novos com os usados, quer dizer: com as traças, com os ratos, com a poeira. Um a vez por m ês vem aqui, sem pre com cara de noj o, sem pre com m edo de suj ar o terno de linho branco; recolhe o dinheiro, pergunta se o pessoal de esquerda frequenta a livraria, se com pra livros. Eu digo que sim , porque é o que ele quer ouvir, m as é m entira: aqui só aparecem uns poucos idiotas, com o você, caras que não têm nem onde cair m ortos.