Eu Vos Abraço, Milhões

Moacyr Scliar · Capítulo 1 de 1 · parte 8/10

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Eu Vos Abraço, Milhões

Eu vos abraço, milhões

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.

A segunda foto era de um a m ulher que Rosa tam bém adm irava: a j udia am ericana (m as nascida na Lituânia) Em m a Goldm an, líder anarquista, autora de vários artigos sobre libertação fem inina e luta sindical publicados no j ornal Mother Earth, Mãe Terra, por ela fundado.

Com o Ravachol, Em m a estava ligada a um atentado fam oso. Ela e Alexander Berkm an, seu am ante e com panheiro de lutas, haviam planej ado a execução de Henry Clay Frick, riquíssim o industrial do aço, o hom em m ais odiado dos Estados Unidos. Gastava fortunas com prando obras de arte, m as pagava salários m iseráveis a seus em pregados. Os operários, j á organizados em sindicatos, fizeram greve. Frick, arrogante e avesso a negociações, enviou seguranças arm ados para reprim i-los. No conflito que se seguiu, nove operários m orreram . Em m a e Berkm an decidiram vingá-los. Arm ado de revólver, Berkm an invadiu o escritório de Frick e atirou nele, m as o em presário sobreviveu. Foram presos, os dois, e deportados para a Rússia. Lá Em m a se deu conta de que o regim e com unista era coisa de opressores, de crim inosos, o que lhe inspirou o livro que Rosa lera m ais de um a vez: Minha desilusão com a Rússia.

— Obra-prim a, Valdo, obra-prim a. Muitas vezes insisti com m eu pai para que a lesse. Não quis, claro. Os com unistas só querem saber do poder, não da verdade.

Ficou um instante em silêncio, depois m e olhou:

— Não é em ocionante, a história desses dois? Ravachol e Em m a são m odelos para nós, você não acha? Para m im , pelo m enos, são. A Em m a, principalm ente. Meu sonho é ser com o ela. Eu queria deixar m inha m arca no m undo, ser conhecida com o um a grande líder revolucionária, a Em m a Goldm an do Brasil. Vale a pena lutar por isso, não é m esm o?

Concordei. Com o poderia não concordar? Eu estava deslum brado, não por causa do que dizia, por causa de suas opiniões sobre Ravachol e Em m a Goldm an. Não, era ela própria, a m ulher bela, brava, coraj osa, que m e atraía irresistivelm ente. Ficam os nos olhando e de súbito ela m e abraçou, m e beij ou, e no instante seguinte estávam os nus, na cam a, fazendo am or. E, na cam a, era um a grande m ulher, a Rosa: anim ava-a a m esm a paixão que eu nela vira poucas horas antes, na dem onstração. Contudo, apesar de j ovem e ainda inexperiente, eu não ficava atrás; quando term inam os ela m e cum prim entou, ofegante: você m e surpreendeu, disse, você é um belo m acho.

 

Ah, que saudades eu tenho daqueles m om entos, m eu neto, que saudades. A gente vai vivendo, e o desej o sexual vai se extinguindo, aos poucos, quietam ente; um dia term ina. Nosso corpo não quer m ais sexo; quer sim plesm ente sobreviver. As m ulheres se tornam , então, alienígenas, habitantes de um planeta distante e diferente do nosso, o decadente, árido e desolado planeta da velhice. Lá estão elas, belas, sensuais, peles lisas, vaginas m olhadinhas; aqui estam os nós, os calvos, os enrugados, os reum áticos, os artríticos, os caducos, os cardíacos, os prostáticos. Mal as vem os, porque enxergam os m al, e isso é até um a bênção; pior seria se, estim ulados pela excitante visão, resolvêssem os bancar os velhos safados — falhando m iseravelm ente na hora. Tesão, para nós, é o tesão do m ij o, aquele que surge pela m anhã com o resultado da bexiga cheia e do estado crepuscular que separa sono e vigília, aqueles m om entos em que não sabem os se estam os acordados, se estam os dorm indo ou se estam os no m isterioso e m al delim itado território que separa a vida da m orte. Portanto, tem os de renunciar às nossas fantasias, que nos transportam para um futuro incerto quanto à duração (m ais um ano, um m ês, um dia?) e quanto ao tipo de vida, se é que de vida se trata; tem os de nos apegar às nossas lem branças, que rem etem a um passado sobre o qual ao m enos tem os um poder: o poder de selecionar aquilo que querem os recordar, com o eu faço agora. Lem bro de Rosa, nua, sorridente, com entando m inha extraordinária potência: quatro, um a atrás da outra. Lem bro disso e fico, ao m enos m om entaneam ente, feliz.

Acalm ado o desej o, e ainda deitados, voltam os a conversar. Rosa contou com orgulho que era operária. Recentem ente deixara a fábrica de bolsas em que trabalhara por dois anos para em pregar-se num a gráfica. Fizera-o, não pelo salário — agora até ganhava m enos —, m as pelo aspecto sim bólico: bolsa significava vaidade, significava acúm ulo de obj etos inúteis, significava tam bém sacrificar os anim ais cuj o couro era, sem rem orsos, usado naquela fábrica. Gráfica, não. Gráfica era livro, era j ornal, era conhecim ento, era cultura; das gráficas sairiam os textos que despertariam a consciência do povo, que o m otivariam para a revolução. Em preendim ento capitalista, a gráfica? Sim , m as para o capitalism o aquilo era um tiro pela culatra, era o germ e de sua própria destruição.

Perguntou o que eu fazia.

Menti. Com o não m entir, depois do que ela havia m e contado? Com o dizer que eu trabalhava na construção do Cristo Redentor? Diante daquilo, diante do sím bolo religioso que surgiria no Corcovado, as bolsas, fossem elas de crocodilo ou de qualquer outro couro, eram até inocentes. Se eu lhe contasse a verdade, ela provavelm ente m e m andaria em bora, indignada. Disse, pois, que era operário, com o ela; trabalhava num a fábrica de m óveis. Móveis baratos, de pinho, acrescentei, m óveis para o povo. O que lhe pareceu satisfatório; pelo m enos não fez com entários a respeito.

Indaguei sobre sua atividade política. Não que isso m e interessasse: anarquism o para m im era coisa de m aluco, os argum entos dela sim plesm ente não m e convenciam . O que eu queria era prolongar a conversa, queria estar j unto dela, olhá-la, desfrutar de sua presença. Para Rosa, contudo, o assunto era sério, m uito sério. Tão sério que ficou em silêncio alguns m inutos antes de responder. De novo, estava m e avaliando; e de novo concluiu que valia a pena responder à m inha pergunta, o que fez cautelosam ente, escolhendo as palavras. Contou-m e que integrava, j unto com outros com panheiros, o Coletivo Ravachol. No m om ento ainda estavam em fase de discussão, de planej am ento de ações; a dem onstração que eu vira naquela tarde fora a prim eira organizada por eles. Daí a escolha do dom ingo: não lhes im portava que o centro da cidade estivesse vazio; ao contrário, este lhes parecera o m elhor cenário para o que era, afinal de contas, um teste, um treinam ento.

Mas o m ovim ento anarquista, garantiu, era bem m aior que aquele grupo; isso sem falar nos intelectuais, nos artistas e nos escritores que apoiavam a causa. Destes, seu favorito era Lim a Barreto, de quem falou com m uita em oção: filho de tipógrafo e de professora, Lim a Barreto tivera vida difícil, inclusive por causa do alcoolism o, e m orrera cedo. Mas a obra que deixara consagrava-o com o um renovador da linguagem , um crítico im placável da burguesia. Com o Machado de Assis, de quem fora contem porâneo, era pobre e m ulato; m as, diferente de Machado, revoltara-se, denunciara a corrupção e a exploração. Sabia eu que ele criara um a Liga Antifutebol para com bater o esporte introduzido pelos ingleses e que, portanto, representava um instrum ento de dom inação cultural? Futebol, para Rosa, era um a astuta e pérfida cilada cuj o obj etivo era desviar o ardor revolucionário do povo para um a ridícula disputa com bola. Em vez de lutar contra o governo, os pobres brigavam entre si, em terrenos baldios, com bola de m eia, ou em estádios gigantescos, com o integrantes de tim es presididos por m em bros das classes dom inantes. Os j ovens eram enganados pelos polpudos salários pagos a alguns j ogadores, pela glória dos troféus e das m edalhas. Em sum a, futebol era o resultado de um plano m aquiavélico do sistem a burguês.

Aquilo m e surpreendia. Eu j ogara futebol no tim e da escola; era um excelente goleiro, e Geninho m ais de um a vez aplaudira m inha atuação. Ora, se Geninho, m ilitante autêntico, aceitava o futebol, por que haveria Rosa de condená-lo com tanta veem ência? Aquilo estava m ais para im plicância pessoal do que para um a racional posição política.

Na verdade, porém , a questão não m e interessava: eu só queria estar ao lado de Rosa, olhando-a em bevecido, ouvindo sua voz, que era m úsica para m im . E ela falava, falava sem cessar: sobre Lim a Barreto, sobre o anarquism o, sobre a grande revolução que sacudiria o Brasil, um a revolução com a qual os com unistas, burocratas sanguinários, nunca haviam sonhado...

A certa altura bocej ou, sua voz ficou arrastada; com eçou a cabecear de sono e acabou adorm ecendo. Fiquei a olhá-la um tem pão, absolutam ente extasiado, até que adorm eci tam bém .

Acordei com ela a m e sacudir:

— Acorda, rapaz. Já são cinco da m anhã. Daqui a pouco a bruxa com eça a peram bular pelo corredor. Você tem de ir em bora, e j á. Anda, levanta daí.

O tom de voz m udara, era agora enérgico, ríspido, m as preferi atribuir aquilo a um natural nervosism o. Levantei-m e, vesti-m e. Antes de sair, perguntei quando nos veríam os de novo.

— Acho que no dom ingo — respondeu, não sem im paciência. — É bem possível que organizem os outra dem onstração. Apareça por lá.

Beij ou-m e rapidam ente, abriu a porta do quarto e eu saí. Fui direto para o trabalho — cansadíssim o, com o podes im aginar. Joaquim até se espantou com m eu aspecto:

— Credo, rapaz. Você está pálido, com olheiras. O que aconteceu? Passou a noite em claro? Está doente?

Ri: não, seu Joaquim , não estou doente, estou nam orando.

Arregalou os olhos:

— Nam orando? Você está nam orando? Que boa notícia, Valdo. Eu j á não aguentava m ais ver você daquele j eito j ururu. Parabéns! Ah, antes que m e esqueça...

Tirou do bolso um papel dobrado:

— Isto é para você. Um hom em cham ado Moreno esteve aqui cedinho e deixou esse recado. Disse que é para você entrar em contato com ele.

Peguei o papel. Poucas palavras, rabiscadas apressadam ente: “No m om ento não há condições para m arcar o encontro com A. P. Aguarde”.

De novo um adiam ento, de novo um “aguarde”. Mas agora j á não era frustrante, não im portava. O que im portava era a lem brança do dia anterior, o arrebatador encontro com a Rosa. Apesar da exaustão, trabalhei com extraordinário vigor, cantando anim adam ente o Taí. Joaquim ria: nada com o estar apaixonado, a gente vê o m undo com outros olhos.

O m undo? Não, o m undo não m e interessava. Eu só pensava em Rosa. Nunca um a sem ana tardou tanto para passar com o aquela; eu não contava os dias ou as horas, contava os m inutos. Finalm ente chegou o dom ingo; logo depois do m eio-dia corri para o centro e lá fiquei, aguardando a m anifestação.

 

Que não ocorreu. Esperei várias horas, e nada. Só os passantes habituais, nenhum grupo, m esm o pequeno, de m anifestantes. O que m e deixou inquieto: teriam os anarquistas, tão logo chegados à avenida, sido presos? Era um a possibilidade, preocupante possibilidade, m as preferi acreditar que aquele não era o caso, que havia ocorrido um a sim ples m udança de planos. O que m esm o assim era decepcionante. Eu precisava, de qualquer j eito, ver a Rosa.

Decidi ir até a pensão. Um a im prudência, considerando a observação dela a respeito da irascível proprietária. Mas eu não podia ficar nem m ais um dia sem lhe falar.

Fui ao bairro da Saúde, cheguei à pensão, toquei a cam painha. Ninguém atendeu; pelo j eito a velha não estava ali. De m odo que abri o portão, depois a porta da frente, que não estava chaveada, e entrei. De novo, ninguém ; silêncio, com pleto silêncio. Passei pela sala de estar, avancei pelo corredor vazio, cheguei ao quarto de Rosa, bati à porta.

Ela abriu. Vestia um a leve cam isola e m ostrou-se surpresa ao m e ver; m as acabou m e convidando a entrar e a sentar. Contou que, de fato, a m anifestação fora suspensa.

— Mas até que foi bom . Aproveitei para ler, para estudar. Estou às voltas com um trabalho–

Não deixei que com pletasse a frase. Atirei-m e sobre ela e, apesar de seus divertidos protestos — hoj e não, estou m enstruada —, fizem os am or repetidas vezes. Depois, convidei-a para sair: vam os tom ar um a cervej a, passear um pouco. Não posso, respondeu, agora seca, lacônica.

— Com o lhe disse, estou term inando um artigo para um a publicação anarquista.

O tom quase hostil deixou-m e inquieto. Perguntei quando nos veríam os de novo. Ela ficou um instante em silêncio, cabeça baixa. Depois m e encarou, séria, e disse:

— Vam os botar as coisas em seu devido lugar, Valdo. Para com eçar, quero que você saiba: m inha prioridade m aior, m eu principal obj etivo, é a revolução. A revolução anarquista, que vai m udar este país e este m undo. É a isso que dedico m inha vida, m inhas energias. Essa coisa burguesa de nam orar, noivar, casar, constituir um a fam ília convencional, isso não é com igo. Sou m ulher, gosto de sexo, com o você viu, m as sou partidária do am or livre: nada de obrigações. Portanto, enquanto eu tiver vontade de ficar com você, ficarei com você. Se eu m udar de ideia, ou se você m udar de ideia, se um de nós arranj ar outra pessoa, aí term inou, é cada um para o seu lado, m antendo, claro, a am izade. Serve assim ?

O que eu poderia responder? Na verdade, aquilo não era um a pergunta; era um a declaração taxativa. Se é assim que tu queres, eu disse, esforçando-m e para ocultar m inha enorm e frustração, assim será. Ótim o, ela disse, e prosseguiu:

— Tem outra coisa. Você é um rapaz bonito, é bom de cam a, m as isso não é suficiente. Sexo para m im é m ais que afinidade física, é afinidade de ideias tam bém . Sexo, só com com panheiro de lutas. Você é j ovem , não tem m uita experiência com essas coisas. Mas, se quer continuar com igo, tem de aderir ao anarquism o, tem de se tornar m ilitante. Está disposto a fazer isso, a dar esse passo decisivo?

Eu não sabia o que dizer. Fiquei ali im óvel, m udo. Ela insistiu:

— Então, Valdo: você quer ingressar no cam inho da verdadeira revolução, no cam inho de Ravachol e de Em m a Goldm an? Quer se filiar ao m ovim ento anarquista? Quer ser m em bro do Coletivo Ravachol?

Você se lem bra, m eu caro neto, da história do Édipo, aquele a quem a esfinge disse “Decifra-m e ou te devoro”? Pois naquele m om ento, e guardadas as proporções, eu m e vi diante de um dilem a sem elhante. Agora: se Rosa era um a esfinge, isso a m im não im portava; eu tinha certeza de que com m inha paixão poderia fazer com que nela o lado fêm ea da criatura se livrasse do lado fera. Ou sej a: estava fazendo um a opção. Nem um pouco tranquila: afinal de contas eu não estava correspondendo à confiança que Geninho em m im depositara, estava traindo a m em ória de um am igo querido. Mas tinha um a desculpa para isso: se Astroj ildo Pereira tivesse m e recebido, se, através dele, eu tivesse ingressado no Partido, o dilem a não existiria; provavelm ente eu nem teria encontrado a Rosa, não teria m e apaixonado. A História decidia por m im , de m odo que m inha resposta brotou instantânea: sim , quero continuar a teu lado, quero ser teu com panheiro para sem pre.

Ela sorriu, vitoriosa:

— Muito bem . Eu sabia que você seria dos nossos. Levarei seu nom e aos m em bros do Coletivo. Nossas decisões, você sabe, são sem pre tom adas em conj unto, m as tenho certeza de que você será aceito.

E quando será isso, perguntei. Minha ansiedade nada tinha a ver com política; o que eu queria saber, na verdade, era quando iríam os foder de novo. Ela franziu os lábios:

— Para dizer a verdade, não sei. No m om ento, estam os evitando reuniões. A polícia anda m uito atenta...

Pegou m inha m ão, acariciou-a:

— Mas isso não quer dizer que a gente não possa se encontrar. Vam os nos ver, sim , sem pre que der. A pensão tem telefone. Você m e liga, se identifica com o m eu prim o, pede para falar com igo. Se eu estiver, falo. Se não estiver, você deixa um recado, diz que tem notícias de nossos tios, ou de nossa avó, ou de nosso avô, e pergunta quando pode ligar. Esse recado a velha bruxa certam ente m e transm itirá, porque respeita m uito essa coisa de fam ília. E eu então deixo com ela a resposta, dizendo onde e quando poderem os nos ver.

Pausa, e um a advertência:

— Mas, vej a bem , m esm o tendo m arcado encontro pode ser que eu não apareça. Pode ter havido algum problem a. Posso estar envolvida em algum a m issão. Ou sim plesm ente posso não estar com vontade de encontrar você. E aí você espera um pouco, um a m eia hora, e depois vai em bora. Mas vai em bora sem rancor, vai em bora sem ressentim ento, certo?

O que podia eu dizer? Situação frustrante, aquela em que Rosa m e colocava. Mais que frustrante: hum ilhante. Eu tinha m e subm etido à vontade dela, aceitara suas condições — em troca do quê, m esm o? De prom essas, vagas prom essas, e regras por ela fixadas. Mas ela, e essa era um a habilidade surpreendente num a radical, sabia m order e assoprar, sabia com o m anter m inha esperança. Sorriu, beij ou-m e no rosto, um rápido m as quente beij o. E aquilo teve um efeito m ágico; no instante seguinte eu estava anim ado de novo. Aí ela se lem brou:

— Ah, sim , vou lhe em prestar um m aterial para ler.

Foi até o arm ário, de onde tirou um a biografia de Mikhail Bakunin, o teórico do anarquism o, obras de Lim a Barreto, um texto do Ravachol publicado em algum j ornal anarquista. Por fim pegou um a foto dela própria, um a foto pequena, convencional, e nela escreveu um a dedicatória: “Para o Valdo, com um abraço”.

— Para você não se esquecer de m im — disse, sorrindo. Agradeci, decepcionado: abraço? Só abraço, tipo coisa de am igo? Beij o, não? Foda, não? Mas tudo bem , dava para entender, Rosa queria m anter sigilo sobre nossa ligação.

Fez-m e um a derradeira recom endação, dessa vez com expressão m uito séria, carrancuda m esm o:

— Lem bre-se: você não pode m ais ter contato com aquele senhor em cuj a casa se hospedou. Nem com ele, nem com os capangas dele. São nossos inim igos. Agora vá.

 

Fui. Naquela sem ana li os livros que ela m e dera, o Lim a Barreto, o Ravachol. Não gostei m uito do Triste fim de Policarpo Quaresm a — pareceu-m e pessim ista, coisa im própria para quem quer m udar o m undo —, m as adorei o conto “O hom em que sabia j avanês”: retratava m uito bem a safadeza e a hipocrisia dos burgueses. Já o texto do Ravachol m e im pressionou pela veem ência. Aos patrões que despedem os trabalhadores, dizia, pouco im porta se estes m orrerão de fom e: portanto, os fam intos devem recorrer a todos os m eios para conseguir com ida, m esm o que sua ação resulte em vítim as. Não há alternativa senão a violência. Tem os de acabar com a propriedade, proclam ava, tem os de acabar com o dinheiro; e tem os de acabar com a religião, com o ensino nas escolas, com o casam ento: as pessoas devem se unir som ente pela atração m útua, separando-se quando assim o decidirem ; a sociedade criará seus filhos. Não m ais guerras, não m ais disputas, não m ais roubos, não m ais assassinatos, não m ais sistem a penal, não m ais polícia, não m ais governo.

Tudo bem , m uito interessante, com algum as coisas eu até concordava, m as era Rosa que eu queria, a m ulher fogosa, não a fanática m ilitante. Só que os dias passavam e eu não conseguia encontrar nem a m ulher, nem a m ilitante. Telefonava com frequência à pensão, pedindo à velha proprietária que transm itisse m eu recado a Rosa: eu tinha notícias dos tios, da avó, do avô. Que fam ília grande é essa de vocês, com entava a m ulher, azeda, haj a paciência para tanto recado. Segundo ela, Rosa não tom ava conhecim ento de m eus insistentes pedidos; no m áxim o alegava im previstos que a im pediam de m e ver.

No m eio-tem po Maria Clara voltou a bater à porta do m eu quarto. Falta de alternativa, j á que a pensão estava quase vazia? Ou seria o resultado de um genuíno desej o, de um a paixão que enfim em ergia? A resposta não m e interessava; eu só pensava em Rosa, era Rosa que eu queria, não Maria Clara. Na prim eira noite fingi não ouvir, e até com ecei a roncar sonoram ente para convencê-la de que estava m ergulhado em sono profundo. Na segunda noite, porém , ela esm urrou tão furiosam ente a porta que tive de abrir. Quero você, ela disse ofegante, vam os j á para a cam a. Minha vontade de fazer sexo com ela era nenhum a; optei por m entir: disse que estava com gonorreia e que o m édico m e proibira de ter relações. Olhou-m e, desconfiada, m as não disse nada. Na tarde seguinte, quando voltei do trabalho, estava à m inha espera. Brandia um a foto, furiosa:

— É esta a sua gonorreia?

Era a foto de Rosa, que descobrira por acaso. Por causa da crise despedira a em pregada (Ravachol tinha razão, os burgueses estavam se lixando para os trabalhadores) e agora ela própria arrum ava os quartos dos hóspedes. No quarto que eu no m om ento ocupava sozinho, encontrara a foto que eu im prudentem ente deixara sobre a m esa de cabeceira. Na falta de m entira m elhor, eu disse a ela que a foto era de um a am iga gaúcha. Riu, teatral:

— Am iga? Você pensa que sou idiota, Valdo? Você pensa que a dedicatória inocente m e engana? Não, Valdo, você está falando com um a m ulher m uito, m as m uito m ais experiente que você. E tem m ais: para seu azar, eu conheço essa sirigaita. Estive várias vezes na pensão onde ela m ora, tenho negócios com a dona. Que m e falou m uito dessa tal de Rosa, até o nom e dela eu sei, um a anarquista m aluca, louca por hom em . Tom e nota, Valdo: essa dem ente vai arruinar sua vida. Depois não diga que não avisei.

Àquela altura eu j á tinha virado um verdadeiro ator. Adm iti que tivera um caso com a Rosa, m as que fora um a coisa passageira: a m ulher era m aluca m esm o, não chegava aos pés da m inha Maria Clara. Fui abraçando-a e, valendo-m e da sua sem pre m obilizável libido, levei-a para a cam a. O desgosto que m e causava a encenação não im pediu que eu tivesse um desem penho razoável. Passam os a noite j untos, e de m anhã ela aparentem ente tinha m e perdoado. Até m e preparou um lanche (“Assim você não m e esquece, nem no trabalho”).

 

O Cristo agora subia rapidam ente. O corpo, que Landowski deixara a cargo dos brasileiros — a ele, com o artista, só interessavam a cabeça e as m ãos —, estava quase pronto. Àquela altura eu era a m ão direita do Joaquim . Para com eçar, energia não m e faltava; aprendia m uito rápido, era hábil e eficiente. Ele m e encarregara de um a tarefa im portante, o preparo da argam assa. Tratava-se de um a m istura insólita: areia, açúcar e óleo de baleia em proporções bem determ inadas. Joaquim dizia que aquilo representava os três reinos da natureza: a areia era o reino m ineral; o açúcar, tirado da cana, o reino vegetal, e o óleo de baleia, o reino anim al. O fato de serem três, os com ponentes, evocava a Santíssim a Trindade. A argam assa, concluiu Joaquim , orgulhoso de seu próprio raciocínio, era pois um sím bolo religioso, m ais um , naquela obra tão sim bólica. Um com entário que ouvi sem dizer nada. Definitivam ente, aprendera a ficar calado.

Naquela fase de conclusão do m onum ento, o canteiro de obras era um verdadeiro form igueiro hum ano. Além dos operários, havia ali um num eroso grupo de m ulheres, donas de casa do Rio de Janeiro, que haviam se oferecido para aj udar no trabalho. Cortavam pequenos triângulos de tecido sobre os quais era colada a pedra-sabão, o m esm o m aterial usado pelo Aleij adinho, e que form aria o revestim ento externo do m onum ento.

Enquanto isso o país m ergulhava na m aior confusão. A eleição de Júlio Prestes desencadeara um m ovim ento revolucionário com posto de várias alas: políticos gaúchos — Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor, João Batista Luzardo, João Neves da Fontoura —, m em bros do m ovim ento tenentista, que lutavam por reform as sociais, e até um a ala dissidente das velhas oligarquias: Artur Bernardes, Venceslau Brás, Afrânio de Melo Franco, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, João Pessoa. Mas Luís Carlos Prestes, a quem essa união desgostava, decidiu não participar da conspiração. Lançou então seu próprio m anifesto revolucionário, declarando-se socialista e proclam ando que a m era troca de governantes não resolveria os problem as do Brasil.

Conciliar as diferentes facções do m ovim ento não era tarefa fácil, m as a 26 de j ulho daquele ano um fato veio inesperadam ente catalisar o processo: o assassinato de João Pessoa, presidente da Paraíba e candidato derrotado à vice-presidência na chapa da Aliança Liberal. Sepultado no Rio em m eio a grande com oção popular, João Pessoa virou m ártir, o que deu à revolução um im pulso decisivo. A 3 de outubro, sob a liderança de Getúlio Vargas e do tenente-coronel Góes Monteiro, com eçaram as ações m ilitares, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e no Nordeste. O governo, e a im prensa que o apoiava, procuravam m inim izar os acontecim entos. O j ornal conservador que a Maria Clara assinava, A Crítica, reconhecendo em bora que havia prontidão nos quartéis, que piquetes de cavalaria estavam espalhados pelo Rio, afirm ava: “Apesar do terrorism o de certos derrotistas, o ry thm o norm al da vida carioca não soffreu alterações de natureza algum a. O m esm o m ovim ento dos dias com m uns, a m esm a calm a im perturbavel que é caracteristica, não se m odificou. A cidade quase não com m entou o que os boatos vehiculavam . Nas casas de diversões a concurrencia foi norm al. Os cafés e logares publicos apresentavam o aspecto de sem pre, algo m ais vivo por ser sabbado — dia ordinariam ente consagrado a expansões m aiores. A Avenida — m ostruario da elegancia e da futilidade do Rio — não se despovoou. Não se viam phy sionom ias sobressaltadas, nem se ouviam com m entarios reciosos. Estava sob a m ais com pleta calm a a cidade, hontem . E, o carioca, generoso, bom , nobre, e respeitador, teve seu som no absolutam ente tranquillo”. O j ornal dizia que Getúlio, m inistro da Fazenda de Washington Luís, havia se portado com o “um Brutus em escala m aior”: assim com o Brutus conspirara contra Julio César, “o Sr. Getúlio Vargas, depois de apunhalar pelas costas o am igo, apunhalou pelas costas o Brasil”.

O certo é que Getúlio agiu rápido. No dia 10 de outubro lançou o m anifesto O Rio Grande de pé pelo Brasil e partiu, por trem (m as não em vagão de carga), rum o ao Rio. Joaquim , que se proclam ava neutro em m atéria de política, divertia-se com aquilo:

— Pelo j eito vocês, gaúchos, querem tom ar conta do Brasil. Têm direito. Afinal essa coisa de ficar lá na ponta do país em purrando a linha de Tordesilhas, brigando com castelhanos e criando boi, acaba cansando, não é m esm o? Bom é o Rio de Janeiro, a Avenida Central, a praia... Fiquem com tudo, am igos gaúchos, vocês m erecem . Só peço um a coisa, Valdo: quando você se apossar do Cristo não m e m ande em bora. Deixe-m e pelo m enos ficar com o zelador da obra. Trabalho por qualquer trocado.

 

Eu sorria, m as a verdade é que m e sentia confuso, atordoado: o que era aquilo, aquele m ovim ento? Sim , gaúchos, e gaúchos da m inha região — Getúlio era m issioneiro —, m as o que queriam eles? Eu não tinha ideia, não sabia o que representava aquela revolução, que aliás ocorria com um a rapidez espantosa: em poucos dias os revolucionários chegaram à capital. O j ornal A Esquerda com em orava: “O povo — depois de longa ty rannia e liberto, saltava, pulava, dando expansão á alegria im m ensa que o em polgava. Autom oveis, repletos de m ilitares, em fraternal m istura com o povo, passavam aos gritos de — Viva a Revolução! — Viva João Pessoa! — Viva Getulio Vargas!”. Descrevia um episódio pitoresco: “Um a m oça gentil e bella rasgava o vestido de cor rubra, para distribuir os pedaços entre o povo”. E concluía: “Lenços verm elhos, bandeiras verm elhas, um delirio verm elho em polgou a capital”. Jornais que faziam oposição ao m ovim ento revolucionário foram atacados. Noticiava A Noite: “A população do Rio de Janeiro sabe que o edificio da A Noite foi assaltado, que as suas officinas foram quasi totalm ente destruidas, que os escriptorios e em presas installados no arranha-céu foram roubados [...] Alguns com m unistas, auxiliados por individuos despedidos de A Noite, conseguiam arrastar grupos de individuos fluctuantes, sem classificação nem idéas [...] Um delles exigiu que arriassem os a bandeira nacional, hasteada no terceiro pavim ento, gritando-nos: — Arrie a bandeira burgueza! Outro exigiu: — Levante a bandeira verm elha!”.

Um grupo de oficiais-generais enviou um ultim ato ao presidente Júlio Prestes, exigindo a renúncia: “Tem V. Excia. o prazo de m eia hora, a contar do recebim ento desta, para com m unicar ao portador a sua resolução e, sendo favoravel, com o toda Nação livre o desej a e espera, deixar o poder com todas as honras garantidas”. Diante da negativa do prim eiro m andatário, a 24 de outubro os m ilitares cercaram e tom aram o palácio Guanabara. Form ou-se um a j unta provisória de governo, que decidiu entregar o poder a Getúlio Vargas. A 31 de outubro ele chegava, de trem , ao Rio de Janeiro e foi recebido entusiasticam ente. A 3 de novem bro de 1930, tom ou posse com o chefe do governo provisório.

O que significava aquele governo? O que pretendia? Qual sua orientação política? Perguntas, para m im , sem resposta. Sim , lenços verm elhos, sim , bandeiras verm elhas, sim , um delírio verm elho, sim , “arrie a bandeira burguesa” — m as era aquilo um a vitória dos com unistas, a vitória, longam ente esperada, na batalha final, a tom ada do poder pelo proletariado? Nesse caso, onde estava Astroj ildo Pereira? E o que eu deveria fazer? Eu não sabia. Sim plesm ente não sabia.

Havia outro m otivo, grande, de inquietação: Rosa. Mais um a vez ela sum ira. Onde estaria? Liguei várias vezes para a pensão, m as aparentem ente o telefone estava com defeito. Por fim consegui falar com a dona, de quem ouvi um a resposta im paciente:

— A ordinária sum iu, levou todas as coisas dela. E ficou m e devendo dois m eses de aluguel. Na certa foi se j untar a esses desclassificados que tom aram o poder. Se você encontrar aquela vagabunda, diga que se ela pisar aqui de novo eu rebento ela a pauladas.

Não, certam ente Rosa não estava entre os que haviam aderido à revolução. Pelo contrário, talvez estivesse planej ando, j unto com o Coletivo Ravachol, outra revolução — para im plantar o anarquism o no país. De todo m odo, achá-la agora seria im possível. Eu não conhecia nenhum dos seus am igos anarquistas, e, m esm o que conhecesse, eles não m e inform ariam sobre o paradeiro dela.

 

Naquele desam paro, acabei recorrendo ao Joaquim . Era com ele que eu falava a respeito; afinal, tratava-se de hom em inteligente, bem inform ado. E descrente: o Brasil é um circo, dizia, essas coisas dos políticos não podem ser levadas a sério, isso aí não vai dar em nada. No 3 de novem bro, porém , eu trabalhando (a ordem era continuar as obras, apesar da confusão), m andou m e cham ar. Tinha um a notícia para m e dar: os gaúchos chegados ao Rio de Janeiro estavam , naquele exato m om ento, reunidos j unto ao obelisco da avenida Rio Branco. Acrescentou, sorridente:

— Se você quiser ir lá, saudar seus conterrâneos, tem m inha licença. Pode ficar fora o tem po que quiser.

Fez sinal para um hom em que estava parado ali perto:

— Esse é o Cleto, m otorista. O Cleto leva você até o centro.

Um tanto surpreendente, aquela am ável oferta. Mas Joaquim , eu sabia, não brincava em serviço: atrás daquela proposta poderia estar um raciocínio astuto: nunca se sabe, de repente o garoto tem algum parente entre os chefes gaúchos, não custa m ostrar sim patia pelo m ovim ento, precisam os estar bem com essa gente.

Fui com Cleto até o lugar onde ele deixara o carro, em barcam os. À m edida que nos aproxim ávam os do centro, o hom em m ostrava-se cada vez m ais apreensivo: a últim a coisa que eu quero é m e m eter em confusão, dizia, nervoso. Acabou por deixar-m e na avenida, a uns quinhentos m etros do obelisco, para onde segui a pé.

Ali estavam os gaúchos. Não eram m uitos: um a dezena de cavalarianos de chapelão desabado e uniform e m ilitar. Um deles era extraordinariam ente parecido com m eu pai. Não m e contive: corri para eles, o que os surpreendeu, m as, tão logo m e identifiquei com o conterrâneo, saudaram -m e com entusiasm o. Havia inclusive um rapaz de Santo Ângelo, o Vicente, parente do Geninho, que m e reconheceu e veio m e abraçar. Estava m uito orgulhoso: o com andante encarregara-o de preparar o grande ato em que os gaúchos am arrariam os cavalos no obelisco: cena que cham aria a atenção, que atrairia a im prensa — de fato, havia fotógrafos por ali.

— Fiz um bom trabalho, não te parece? — perguntou, sorridente.

Concordei: essa im agem vai ficar para a história, garanti-lhe. Previsão que, aliás, se revelou verdadeira.

Alguém bateu no m eu om bro. Voltei-m e: era o Bento que ali estava, naturalm ente vestido de gaúcho. Radiante:

— É um grande m om ento, tchê! O Rio Grande agora com anda o Brasil!

Pediu licença ao Vicente, puxou-m e para um lado e confidenciou: pretendia procurar o doutor Getúlio, seu conterrâneo, e oferecer-se para participar no governo revolucionário:

— Ele precisa de gente de confiança. Precisa dos gaúchos. Claro, não sou político, não espero que m e dê um m inistério. Mas um a chefia de repartição, m esm o pequena, viria bem ... O que achas?

Fitava-m e ansioso, com o se m inha resposta fosse um veredicto, com o se de m inhas palavras dependesse seu destino. Um desam paro tão evidente que m inha aversão por ele deu lugar a um a espécie de piedade solidária: coitado, estava tão perdido quanto eu, aquele hom em , que, pelo m enos segundo dissera, não hesitava em degolar inim igos. Respondi que seu pedido nada tinha de absurdo, que lhe desej ava sucesso.

— É o que eu espero! — Riu, satisfeito. — E, se a coisa funcionar, te convido para o churrasco de com em oração. Será um grande churrasco, podes ter certeza. Eu m esm o vou carnear a rês. Posso contar contigo?

Agradeci, m as ele j á não m e ouvia: estava m ais interessado em se apresentar a um capitão que ali estava e que poderia levá-lo até Getúlio. Despedi-m e dos cavalarianos e voltei para a obra. Para surpresa de Joaquim : você estava dispensado, rapaz, poderia ter ficado lá, celebrando com seus am igos. Olhou-m e por alguns instantes e deu-se conta de que eu não estava celebrando coisa algum a. Mas, hom em inteligente, nada m e perguntou. Mudou de assunto, disse que conversara com os engenheiros, deles obtendo boas novas: tudo indicava que a obra ficaria pronta em breve.

— Poderá ser inaugurada pelo Getúlio — disse. — Será um grande acontecim ento para a Igrej a, para o governo, para o Brasil e para o m undo.

Olhou o relógio:

— E agora vá para casa. Vá nam orar.

Naquela noite fiquei andando m uito tem po pelas ruas do Cosm e Velho. Triste e am argurado, não queria voltar para a pensão, onde sem dúvida m e esperava a Maria Clara. Entrei num boteco, pedi um a cachaça. Não costum ava beber, m as precisava de um antídoto para a m inha depressão. Um copo, depois outro, e outro... Pelas onze, o dono m e m andou em bora. Cam baleando, cheguei à pensão; abri a porta e ia entrar, quando das som bras ouvi um a voz:

— Espere um pouco, quero falar com você.

 

A voz vinha de um vulto corpulento, que de im ediato reconheci: era o Hércules. O que estaria fazendo ali àquela hora? Por sua expressão, deduzi que se tratava de coisa séria — com a Rosa, talvez? Inquieto, perguntei o que acontecera. Ele disse que aquele não era um bom lugar para conversar: a qualquer m om ento um hóspede poderia chegar ou sair. Propôs que déssem os um a volta. Aceitei: um pouco de ar fresco aj udaria a dissipar os vapores alcoólicos, e para aquela conversa eu certam ente precisaria estar lúcido, bem lúcido.

Por alguns m inutos cam inham os em silêncio, ele pigarreando de vez em quando. Finalm ente se deteve. Detive-m e tam bém . Voltou-se para m im :

— Você m e perguntou o que aconteceu. Bem , em prim eiro lugar tem essa tal de revolução, que, você sabe, não é revolução porra nenhum a, é briga interna das classes dom inantes e não conta com o apoio do Partido Com unista; estam os preparados inclusive para enfrentar o Getúlio, se for o caso. Nosso grupo está reunido em caráter perm anente, e eu até resolvi sum ir por uns tem pos. Meu palpite é de que, m ais cedo ou m ais tarde, terem os de partir para um a verdadeira revolução, para a luta arm ada.

Respirou fundo e continuou:

— Mas tem outras coisas, e é bom você estar inform ado a respeito, m esm o porque lhe interessam de perto. Para com eçar, o Partido destituiu o Astroj ildo do cargo de secretário-geral. Sei que isso é um choque para você, m as achei que devia lhe contar — pessoalm ente. Foi um a decisão acertada, Valdo, acredite em m im . O Astroj ildo, eu j á tinha lhe falado sobre isso, era m uito autossuficiente: não aceitava a disciplina partidária, tinha ideias próprias sobre com o fazer as coisas... Brilhante, sim , m uito brilhante, m as talvez esse tenha sido o seu problem a. Ele queria ser um pássaro colorido, só que o Partido não precisa disso, precisa de pássaros cinzentos, com uns, disciplinados, cum pridores das diretrizes. Um a coisa que o Astroj ildo nunca aceitou. Pagou o preço: está fora da direção. É agora um m ilitante com o qualquer outro. E terá de se dedicar à causa, se não quiser ser expulso.

Eu o m irava, estarrecido. Astroj ildo Pereira, o grande líder, o guru que Geninho venerava, o Astroj ildo caíra em desgraça? E agora, com o é que eu ficava? A quem procurar?

Com o se tivesse adivinhado m inha dúvida, Hércules continuou:

— Para você pode até ser bom , Valdo. Sei que você tentou inutilm ente entrar no Partido recorrendo ao Astroj ildo. E sei que não conseguiu nem m esm o falar com ele. Mas agora as coisas vão m udar, Valdo. Vam os aproveitar a conj untura para crescer, para aum entar o núm ero de m ilitantes. Você pode entrar no Partido. Eu m e encarrego disso. Você vê, é o m eu grupo que agora está no com ando, e um pedido m eu será sem dúvida aceito. Não é um a boa notícia?

O que eu poderia dizer? Que não era um a boa notícia? E com o não seria um a boa notícia, se eu estava prestes a realizar o que durante m uito tem po fora m eu sonho, se estava prestes a cum prir a prom essa feita a Geninho, não im portando se isso aconteceria através do Astroj ildo ou do Hércules? Não cheguei a responder, m as ele partiu do princípio de que eu concordava, que aceitava a proposta, e m e felicitou.

Deteve-se. Eu m e detive tam bém , à espera do que iria m e dizer, algo sem dúvida im portante. Olhou-m e, pôs a m ão, pesada e calosa m ão, sobre m eu om bro:

— Tenho um pedido a lhe fazer, Valdo. Um pedido para m im m uito im portante, com o m ilitante e com o pai. Escute com atenção: eu sei que você tem contato com m inha filha, a Rosa. Não m e pergunte com o consegui essa inform ação, m as consegui — tam bém tem os nossos olheiros, m uitas vezes precisam os disso. A Rosa deve ter lhe contado — do j eito dela, claro — sobre nossa briga. Bom , Valdo, preciso term inar com isso, com esse conflito. Tenho de m e reaproxim ar de m inha filha. Minha m ulher, coitada, sofre dem ais com a situação, eu tam bém . Sei que é difícil, a Rosa faz parte de um bando de m alucos, m as acho que podem os, sim , partir para um a reconciliação. E m ais, acho que ela pode m udar, pode se dar conta da bobagem que é essa coisa de anarquism o e pode se tornar, com o você, j unto com você, m ilitante do Partido. Seria o ideal. Então? Você fala com ela, Valdo? Fala?

Com o responder àquela pergunta? Com o atender àquele pedido? Rosa, no Partido Com unista? Pobre Hércules, estava sonhando. Mas não era o caso de lhe dizer isso, não naquele m om ento em que o pobre hom em se m ostrava a um tem po fragilizado e esperançoso. Minha resposta foi, portanto, positiva: ele e a Teresa podiam contar com igo. Mas, acrescentei, fazia tem po que eu não via a Rosa, nem sabia quando a encontraria. Hércules suspirou:

— É. Sei disso. Com toda essa confusão, ela deve ter desaparecido. Muitos cam aradas, aliás, optaram por fazer a m esm a coisa. Por precaução, não por causa de um a am eaça real. Nosso grupo aposta em algum tipo de acordo tem porário com o Getúlio, num a trégua. Querem os que ele pelo m enos nos deixe em paz. E, na m edida em que seu poder se consolide, o hom em vai nos deixar em paz. Aí nós nos prepararem os para o grande confronto. Que ocorrerá, pode estar certo. Pode ser daqui a um ano, daqui a cinco anos, m as ocorrerá.

Agora anim ado, continuou:

— A situação do país tende a se norm alizar, Valdo. É a norm alidade das classes dom inantes, claro, a norm alidade da fom e e da opressão, m as norm alidade política, de qualquer m odo. E aí certam ente a Rosa aparecerá e você poderá falar com ela. Não sei que relação vocês m antêm , Valdo, e isso no m om ento não interessa, m as você fará o que eu pedi, não fará?

De novo assenti com a cabeça. Ele consultou o relógio (era um dos poucos operários que vi com relógio, na época) e disse que precisava ir. Eu deveria procurá-lo em sua casa dali a dez dias.

 

Não fui. Não que não quisesse; queria. Viera ao Rio para entrar no Partido e, com ou sem Astroj ildo, no Partido entraria, no m ínim o com o um a dem onstração de coerência pessoal e de fidelidade à m em ória de Geninho. Mais: havia nisso um elem ento de vingança contra a Rosa. Pensava ela que podia fazer com igo o que quisesse? Estava enganada, e eu provaria m inha independência ingressando no grupo político que ela m ais odiava. Certo, eu prom etera a Hércules que falaria com ela, que tentaria um a aproxim ação. Isso eu faria, e ela que decidisse: continuaria rej eitando os pais, com o até então? Ou se daria conta de sua m aluquice? Quanto à nossa relação, ela tam bém teria de decidir: se era para viver j untos, que o fizéssem os decentem ente, não à m aneira lunática dos anarquistas.

Não procurei Hércules, m as foi por outro, e som brio, m otivo.

Dois dias depois daquele encontro recebi um a carta de Fulgêncio com a palavra “Urgente”, em letras garrafais, escrita no envelope. Mãos trêm ulas, abri-o, com a certeza de que depararia com m ás notícias. E eram m esm o m ás notícias, péssim as notícias.

Meu pai tinha m orrido. Coisa súbita, ataque do coração decerto. Com o podes im aginar, m eu neto, foi um golpe dem olidor. Meu pai, m eu pobre e sofrido pai, se fora. E só agora eu m e dava conta de que nunca, m as nunca, tinha falado com ele para valer. Que espécie de hom em era, quais os seus sonhos, quais os seus tem ores — eram incógnitas, perguntas para as quais nunca acharia respostas.

Fulgêncio entrava em detalhes; dizia que o coronel Nicácio se revelara um patrão m uito decente — o enterro correra por conta dele. Claro, não deixava de ser o im placável proprietário; pedira de volta o rancho no qual havíam os m orado, que lhe pertencia, e onde pretendia instalar o novo capataz. Segundo Fulgêncio, isso não chegava a ser problem a: nossa m ãe não poderia m esm o ficar m orando sozinha no m eio do cam po. Por outro lado, não tinha condições de cuidar dela; estava desem pregado, e por falta de dinheiro não pudera sequer enviar-m e um telegram a com a notícia da m orte de papai. Pior, engravidara um a m enina cuj o pai, suj eito feroz, queria obrigá-lo a casar. Ou sej a, tam bém enfrentava problem as sérios: “Não dá para contar com igo, m ano”. O coronel sugerira que m am ãe viesse m orar com igo no Rio; arcaria com as despesas da viagem . Fulgêncio concluía pedindo que eu aceitasse a proposta, a m elhor solução para todos nós.

Não hesitei. Corri para o correio, m andei-lhe um telegram a urgente: m am ãe poderia vir im ediatam ente, eu a acolheria.

 

No fim da sem ana lá estava eu, na estação, ansioso, esperando por ela. Com o de costum e o trem atrasou m uito, m as finalm ente chegou. Quando m am ãe desceu, m e em ocionei: era um a m ulher frágil, envelhecida, aquela que se abraçou a m im chorando. Ai, que desgraça, que desgraça, repetia, teu pai nos deixou, m eu filho, teu pai nos deixou. Acalm ei-a com o pude, levei-a para a pensão, onde Maria Clara, a quem eu inform ara sobre o acontecido, nos aguardava e nos recebeu m uito afavelm ente. Ela se revelara surpreendentem ente com preensiva: m am ãe poderia ficar na pensão; faria um preço especial para ela. Talvez estivesse im plícito nisso um aum ento de m inhas obrigações sexuais, m as teve o bom gosto de não tocar no assunto.

Os prim eiros dias foram difíceis. Mam ãe chorava m uito, não queria sair do quarto. Maria Clara sugeriu que eu a levasse para passear; com tanta coisa bonita para ver no Rio, ela certam ente se anim aria um pouco. Mam ãe resistiu; disse que se sentiria m al, passeando na bela capital, enquanto o m arido j azia num túm ulo. Insisti, porém , e consegui tirá-la da pensão. No com eço, estranhou um pouco (“Meu Deus, que cidade grande”), m as logo com eçou a gostar do que via. O m ar foi para ela um deslum bram ento, com o fora para m im . Apesar de m inha insistência, recusava-se a vestir um m aiô, para ela coisa de m ulher sem recato, e a tom ar banho de m ar; quem sabe no futuro m udaria de ideia, disse, para m e anim ar.

A seu pedido levei-a para ver o Cristo no Corcovado. Ficou em ocionadíssim a. A obra agora estava term inada; era para ter sido inagurada por Washington Luís a 12 de outubro de 1930, m as os planos haviam sido alterados por causa da vitória da revolução. Ao contrário do católico Washington Luís, Getúlio, segundo se com entava, era ateu; suas relações com a Igrej a eram delicadas, para dizer o m ínim o, o que contrariava as expectativas de m uita gente (Joaquim , por exem plo) e criava um elem ento de dúvida ainda não resolvido.

Diante do m onum ento, m am ãe aj oelhou-se, rezou. Agora sei que as coisas vão m elhorar, disse, Cristo está entre nós, Cristo nos protege. Abraçou-m e, orgulhosa de ter um filho entre os construtores daquele m onum ento de fé: eu sabia que tu ias m udar, eu sabia que Jesus te salvaria.

Continuar: parte 9 de 10