Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Fácil de dizer, difícil de fazer. Era com plicado, aquilo. Com plicado, problem ático. Com o anunciar a decisão a m eus pais? A viagem ao Rio era coisa que até poderiam aceitar; afinal eu j á estava em idade de seguir m eu próprio cam inho, e o Rio era a capital federal, o ím ã que atraía todos os brasileiros, inclusive e principalm ente os gaúchos; m as com o explicar o obj etivo de tal viagem ? Com o dizer a eles que ia em busca de um líder revolucionário, que m eu obj etivo era, por interm édio desse líder, entrar no Partido Com unista? Nunca entenderiam , nunca aceitariam .
O m elhor seria inventar um a história, m ais um a; m ais um a m entira progressista. Dela foi personagem o próprio Geninho (m as eu tinha certeza de que não lhe desagradaria essa póstum a cum plicidade). Contei a m eus pais que, pouco antes de adoecer, ele arranj ara um ótim o em prego num a grande em presa; im possibilitado de assum ir, indicara m eu nom e. Para ser aceito eu teria de passar por um treinam ento na m atriz do Rio de Janeiro, coisa que duraria seis m eses, um ano talvez, e depois voltaria ao Rio Grande. Falei-lhes em voz firm e, sem vacilações; o que, acreditava eu, era evidência da inabalável convicção que agora governaria m inha vida. Papai m e ouviu — com o sem pre — em silêncio. Se acreditou ou não, nunca descobri. Tam bém ele deixara a casa dos pais; m as fizera isso para virar em pregado de um estancieiro arrogante, o que agora certam ente lhe parecia um erro fatal: qualquer coisa, qualquer tipo de trabalho, sobretudo num a cidade grande, seria m elhor do que ficar no cam po e depender de gente com o o coronel Nicácio.
Minha m ãe, porém , ficou m uito triste. Sim , os filhos um dia saem de casa, vão viver suas próprias vidas; m as isso não era, para ela, um consolo. Além do m ais, acho que não acreditava em m inha história, não totalm ente, pelo m enos. Mas discutir com igo seria inútil, isso sabia. Provavelm ente eu acabaria tendo um ataque de fúria com o aqueles que, assustada, j á presenciara. Assim , e com o sem pre, buscou o apoio de seu guia espiritual, o padre Jonas. Que, segundo ela m esm a m e contou anos depois, saíra pela tangente, dizendo que aquilo era inevitável e aconselhou-a a rezar, rezar bastante. Daí em diante m am ãe passaria horas diante do crucifixo, orando para que tudo desse certo com igo: Jesus, aj uda m eu filho, eu te peço, Senhor, sofreste, sabes o que é o sofrim ento, evita que ele sofra tam bém .
Sofri m uito, sim , com a m orte de Geninho; era a prim eira vez que eu perdia alguém tão próxim o, e sobretudo tão im portante para m im . Mas não poderia ficar lam entando sua m orte; precisava cum prir a m issão de que ele m e incum bira e para isso com ecei a tom ar as providências necessárias. Os com panheiros de Geninho se dispunham a aj udar, m as insistiam para que eu m antivesse em segredo o destino, e sobretudo o obj etivo, de m inha viagem ; há m uito policial disfarçado por aí, diziam , m uito dedo-duro, o pessoal do Partido é um alvo preferido. O m elhor seria evitar a estação ferroviária de Santo Ângelo, onde alguém poderia m e reconhecer, e tom ar o trem em Santa Maria, centro ferroviário do estado. Aquilo m e pareceu um a cautela excessiva — afinal, que im portância poderia ter um guri com o eu em barcar num trem para o Rio? —, m as, para evitar discussões, disse que faria exatam ente isso.
Nos dias que antecederam a viagem , m eu estado de espírito oscilava entre a excitada expectativa e um a profunda tristeza. Profunda e explicável: era a prim eira vez que m e separaria dos m eus pais, do m eu irm ão, dos m eus am igos. Se tudo desse certo voltaria em alguns m eses: eu tornando-m e um verdadeiro com unista, o Partido provavelm ente m e m andaria de volta para o Rio Grande. Mas e se a disciplina revolucionária exigisse m inha perm anência no Rio? Se eu tivesse de viaj ar para o exterior, para a União Soviética, quem sabe para a África, para a Ásia, para integrar algum m ovim ento revolucionário apoiado pela Internacional Com unista? Grande passo na carreira revolucionária, decerto, m as ao m esm o tem po representaria o afastam ento quem sabe definitivo de m inha fam ília, de m inha gente, de m inha terra. Na noite antes da partida chorei m uito, enterrando a cara no travesseiro para que m eus pais não ouvissem .
De m adrugada levantei e, sem m e despedir (para não fraquej ar), saí. Fazia frio, o nevoeiro cobria o cam po, e eu ali, cam inhando, sozinho, solitário com o nunca. Cheguei à estrada e felizm ente tive sorte; pouco tem po depois apareceu um velho cam inhão. O chofer parou, perguntou para onde eu ia. Santa Maria, respondi. Então sobe, ele disse, te dou carona. Era loquaz, o hom em , e m e fez m uitas perguntas, que eu respondia com evasivas: daí em diante, falar pouco e cautelosam ente seria um a questão de sobrevivência, com o Geninho enfatizara tantas vezes. O hom em acabou desistindo da conversa.
Naquela época as estradas eram precárias, pouco m ais do que picadas; chovia, o cam inhão atolou, o que nos atrasou m ais ainda; passava da m eia-noite quando cheguei à estação ferroviária de Santa Maria. Tive de aguardar horas até o guichê abrir, e aí recebi um a notícia tão inesperada quanto, para m im , alarm ante: a passagem era m uito m ais cara do que im agináram os, Geninho e eu. Mas o funcionário, um hom em velho com um a venda no olho direito, m e fez um a proposta: por um a pequena quantia m e deixaria em barcar num vagão de carga:
— Tu aguardas aqui por perto. Assim que dim inuir o m ovim ento, te levo lá.
Recom endou-m e tam bém que providenciasse com ida: pão, salam e, queij o. O trem parava em várias estações, m as eu, passageiro clandestino, não podia correr o risco de descer para com er. Fiz o que ele disse: com prei os víveres necessários num arm azém ali perto e fiquei esperando. Meia hora depois o hom em saiu do guichê e fez um discreto sinal para que eu o seguisse. Passam os pelo agente ferroviário, que nos lançou um olhar indiferente (pelo j eito, arranj os com o aquele eram habituais), e chegam os ao trem , a velha locom otiva soltando j atos de vapor. O velho olhou para os lados e abriu a porta de um vagão de carga num gesto rápido:
— Pula pra dentro, guri.
Mandou que m e escondesse e m e desej ou boa viagem . Com um estrondo, a porta se fechou.
Olhei ao redor. Na sem iobscuridade constatei que o vagão estava cheio de sacos de arroz, de m ilho, de feij ão. Providencial: aquilo m e serviria de cam a e de esconderij o.
Soou o apito do trem e a locom otiva se pôs em m ovim ento com um bufido. Não posso negar que aquilo foi um abalo, um susto. O que eu estava fazendo? O que, m esm o, eu estava fazendo? O que m e esperava, naquela aventura m eio m aluca? Por um instante tive vontade de abrir a porta e saltar, voltar para m inha casa, para os m eus pais, esquecer aquela história de com unism o e de revolução. Mas cerrei os dentes com determ inação, lem brando um a expressão de Geninho que naquele m om ento se revelava m uito adequada: não podem os, dizia, perder o trem da História. Eu estava, literalm ente, no trem da História, da m inha história, ao m enos. E aí tam bém recordei um conto que, por recom endação de Geninho, eu tinha lido. Do escritor com unista norte-am ericano (sim , havia com unistas nos Estados Unidos, m eu neto; poucos, m as havia) Michael Gold, intitula-se Mais depressa, Am érica, m ais depressa. A ação decorre em um trem particular, fretado por um m ilionário produtor de Holly wood que ali está, com um a j ovem atriz de Holly wood. É o com boio da devassidão: atrizes desavergonhadas, intelectuais vendidos à indústria do cinem a. Insistem para que a com posição vá m ais rápido, sem pre m ais rápido: “A Am érica é um trem particular que esm aga os escorregadios trilhos da História. Mais depressa, Am érica, m ais depressa!”. Na escuridão da noite sobrevém um terrível acidente. E aí a gloriosa redenção: “Um cam ponês vem correndo do escuro. Traz um a foice na m ão. A ele se une um operário vestindo m acacão e em punhando um m artelo. Em silêncio, com eçam o trabalho de salvação. Desponta a aurora”. Ao contrário do com boio burguês, corrupto, o trem no qual eu estava m e conduziria a um destino revolucionário; dele eu desem barcaria para em punhar a foice e o m artelo da revolução.
Isso, no futuro. No m om ento eu estava cansado, m uito cansado. Sentei no chão de tábuas, recostei-m e na pilha de sacos e adorm eci.
* * *
Não sei quanto tem po dorm i; só sei que de repente, o trem parado (parava m uito, aquele trem ), acordei com um ruidinho que vinha de trás dos sacos de cereais. Num prim eiro m om ento, achei que fosse um rato. Havia um cabo de vassoura, ali; apanhei-o e fui em busca do que, im aginava, seria um indesej ável com panheiro de viagem .
Não era um rato. Era, com o descobri ao galgar a pilha de sacos, um a guria que ali estava escondida, um a garota m ais ou m enos da m inha idade — obviam ente clandestina com o eu. Ao m e ver, assustou-se: arregalou os olhos, que, claros, contrastavam com a tez acobreada. Belos olhos, aliás. E belo rosto, e belo corpo, e belos seios, m al disfarçados pela leve blusa.
Passada a surpresa, um instantâneo e violento desej o apoderou-se de m im . Até então m eu contato com o sexo fem inino havia sido esporádico e nada gratificante. Com o podes im aginar, m eu caro neto, sexo, naquele época, era um a coisa com plicada. Transar com gurias, nem pensar; elas tinham de casar virgens. No m áxim o, os rapazes podiam ir à zona, m as isso só depois de chegarem à adolescência (e m esm o assim tínham os de arranj ar a grana necessária). No m eio-tem po vivíam os num a espécie de lim bo sexual, em que práticas estranhas eram a regra.
Barranquear, por exem plo: os guris encostavam um a égua ou um a vaca num barranco e, as genitálias devidam ente niveladas, se satisfaziam , ou, pelo m enos, se aliviavam . Na estância havia um a égua, a dócil e resignada Form osa, que era a preferida da gurizada. O João Pedro (nom e fictício; é preciso preservar as pessoas, m esm o em carta de avô para neto), filho de um ferreiro e m eu am igo, era dos m ais assíduos; seu inesgotável tesão nos deixava adm irados. De fato, barranqueava tanto a Form osa, que um dia o próprio coronel, cavalgando pela estância, pegou-o em flagrante. João Pedro fugiu, m as o coronel, furioso, cham ou o ferreiro e avisou que seu filho, aquele guri tarado, estava proibido de entrar na estância. A fam ília m udou-se para Bagé, não m ais o vi. Uns trinta anos depois encontrei-o em São Paulo, onde trabalhava com o representante com ercial. Fom os j antar, tom am os um bom vinho e, num m om ento de descontração, perguntei-lhe sobre a Form osa. Desconversou, eu tam bém não insisti, m as três sem anas depois recebi um a carta vinda de São Paulo, sem m enção de rem etente. Abri o envelope e encontrei um relato não m uito longo do João Pedro; um texto com evidentes pretensões literárias, que tinha até título: “Mem órias do barranco”.
As revelações eram de um a franqueza surpreendente, dessas coisas que o cara pode escrever, m as não falar. “No início”, dizia João Pedro, “eu procurava a Form osa com o todos, apenas para descarregar o tesão.” Aos poucos a coisa fora m udando, e um a estranha relação surgiu entre ele e a égua: “Muitas vezes a Form osa virava a cabeça e m e olhava dem oradam ente”. Aquele olhar perturbava-o m uito, equivalia quase que a um m udo diálogo, a um a verdadeira, ainda que estranha, relação. A égua, a cuj as ancas ele se agarrava de olhos fechados (de vergonha; não suportava o olhar da Form osa) — j á não era um anim al, era a vida, a própria vida na sua expressão m ais prim itiva, m ais pura, m ais autêntica; sugava-o, absorvia-o, incorporava-o à sua própria substância, com o o protoplasm a da am eba incorpora partículas, fazendo com que ele se dissolvesse “no caldo prim evo, na geleia cósm ica” (sic).
Vais achar que é m uita im aginação e m uita retórica para um a banal sacanagem de guri. Pode ser. Talvez João Pedro quisesse apenas descrever para um único — m as atento — leitor um a experiência que vivera e para a qual precisava agora encontrar sentido. Daí o texto, que decerto levou um bom tem po elaborando. Mas acho que ele era exceção. Para os guris da estância, foder a Form osa nada tinha a ver com caldos prim evos ou geleias cósm icas; era um a prática furtiva, clandestina; algo que, apanhados em flagrante, eles não hesitariam em negar: “Ué, com endo égua!”. Com João Pedro foi diferente, com o ele próprio reconhecia em sua narrativa. Não conseguia esquecer a égua; ao contrário, costum ava sonhar com ela, sonhos m uitos perturbadores. O tem po passou, com eçou a nam orar um a prim a, acabou casando com ela. Era um a m oça m uito boa, m as queixava-se dele: tu és distraído, João Pedro, não m e dás atenção, para ti eu não existo. Reclam ações que, João Pedro reconhecia, tinham fundam ento. “Form osa assom bra m inha vida até hoj e”, dizia, no final da carta. A frase não parecia um a confissão am argurada. Resignada, talvez, e até nostálgica, m as am argurada, não.
Eu não barranqueava. Não que não tivesse vontade: tinha, m as, filho de capataz, precisava m e dar ao respeito. Durante boa parte da puberdade m inha vida sexual se restringiu à tradicional m asturbação, prática solitária e discreta, ainda que acom panhada de lúbricas fantasias. Fui iniciado no sexo propriam ente dito por um a m ulher cham ada Lurdes, servente da escola, um a solteirona bruta, feia, que tinha especial predileção por guris novos. Durante as aulas ficava no pátio, a postos; se acontecia de algum rapaz aparecer, ou para ir ao banheiro, ou porque vinha procurá-la (fêm ea m edonha, m as fêm ea, de qualquer m aneira, e disponível, para m uitos a única disponível), agarrava-o, levava-o para um depósito abandonado que ali existia e exigia um a relação rápida e silenciosa. Com igo aconteceu quatro vezes e nunca foi algo prazeroso. Útil sim , m as prazeroso não. E, quando ela queria beij ar — e sem pre queria beij ar, era um tal de “m e beij a, m e beij a” —, a coisa chegava ao nível do repulsivo. Aquela boca sem dentes, cheirando a fum o e cachaça... Só os horm ônios m asculinos, m esm o, para nos estim ular.
Era pois com adm iração e invej a que eu olhava Geninho de m ãos dadas com a nam orada. Nam orada, não; com panheira. Com panheira era coisa m uito diferente de nam orada, ou noiva, ou m esm o esposa, term os usados pela burguesia. Partilhavam sentim entos, em oções, Geninho e Carm ela, m as partilhavam tam bém ideais, ou pelo m enos era o que eu achava. Ela era um a m enina quieta, reservada — difícil saber o que pensava. De todo m odo os dois representavam para m im o m odelo do am or proletário, e eu sonhava com o m om ento em que encontraria m inha Carm ela.
Teria chegado esse m om ento? Estaria aquela viagem de trem destinada a m udar m inha vida em m ais de um sentido?
Com o é o teu nom e?, perguntei à guria. Francisca, ela disse, em voz trêm ula, assustada, e acrescentou:
— Mas todo m undo m e cham a de Chica.
Apresentei-m e tam bém e, sem entrar em detalhes, disse que estava indo para o Rio. Esse era igualm ente o destino dela. Ia em busca do pai. Separado da m ãe, ele, m odesto funcionário público, conseguira transferência para a capital federal. Isso ocorrera três anos antes e desde então o hom em não dera sinal de vida. A m ãe estava vivendo em Santa Maria com um tal Ram ão, um tipo irascível e violento que abusava da Chica. Disso todos sabiam , inclusive a m ãe, m as ninguém ousava protestar: o Ram ão andava sem pre arm ado, j á tinha m eia dúzia de m ortes nas costas, e não hesitaria em liquidar quem o desafiasse ou contrariasse. Chica decidira fugir de casa e procurar o pai. Com o eu, recorrera ao hom em da estação ferroviária; e, com o eu, dera dinheiro a ele — um a parte do que roubara do Ram ão.
E agora estávam os ali os dois, no m esm o vagão. Em m im , o desej o crescendo. O desej o e o afeto. Chica confiava em m im , e isso podia ser o prim eiro passo para um a relação autêntica, um a relação com o aquela que unira Geninho e Carm ela.
Eu sabia que algum a coisa estava para acontecer, m as — falta de experiência — não sabia com o fazer essa coisa acontecer, tinha m edo de, com m inha afobação, assustar ou m agoar a guria. Fui aj udado pelo acaso. Quando anoiteceu, deitam o-nos sobre os sacos de cereais para dorm ir. Ali estávam os, lado a lado — eu sem conseguir adorm ecer — quando de repente, num a curva, um solavanco do trem , bendito solavanco, j ogou a Chica em m eus braços. No segundo seguinte estávam os nos beij ando e nos acariciando furiosam ente e fazendo am or. E am or fizem os, incontáveis vezes, naqueles dias e naquelas noites, enquanto o trem avançava lentam ente (bendita lentidão) pelo sul do Brasil, pelos cam pos, pelas m atas e fazendas, e vilas, e cidades. Houve um m om ento de particular encantam ento: um a noite, a com posição se deteve, no fundo de um vale situado entre m ontanhas, no Paraná. Um espesso nevoeiro baixou sobre a área, invadiu o vagão, e de repente ali estávam os, Chica e eu, criaturas m arinhas no fundo de um profundo e m isterioso oceano. Abraçam o-nos e perm anecem os im óveis, em silêncio, esquecidos de tudo; e assim ficaríam os, acho, para todo o sem pre.
Mas não dava para esquecer de tudo, m esm o porque o trem prosseguia rum o ao Rio. O que aconteceria quando chegássem os? Eu queria fazer de Chica m inha com panheira. Moraríam os j untos, nos filiaríam os à m esm a célula do Partido Com unista; participaríam os de com ícios, de dem onstrações, de piquetes grevistas. Enfrentaríam os os m esm os inim igos, correríam os os m esm o riscos e celebraríam os j untos a vitória na batalha final, nós dois em m eio às m assas que invadiriam o palácio do Catete, no que seria o triunfo definitivo do com unism o no Brasil.
Claro, tudo isso supunha, por parte dela, um a m udança radical, m udança essa que dependia de m im , de m eu esforço, de m inha capacidade de doutriná-la. Ali estava eu diante de um a guria que não lera o Manifesto, que, na verdade, era inculta, que nem sequer sabia se expressar direito e que, pior, rezava quatro, cinco vezes por dia, aj oelhada no vagão, olhos erguidos para o alto, num a devoção que era um típico exem plo da ação do ópio do povo. Eu deveria exercer um papel de educador, de líder, agindo com habilidade, naturalm ente, m as com determ inação.
Dei início ao trabalho de proselitism o ideológico, que exigiria de m im um a prodigiosa capacidade de síntese: o tem po era escasso, e, lento em bora, o trem avançava, com o que se reduzia im placavelm ente m eu prazo para m udar aquela tonta cabecinha. Com ecei com um depoim ento pessoal que representava, assim eu esperava, um forte apelo em ocional; contei sobre m inha am izade com Geninho e com o aquilo m udara m inha vida; com o, graças a um grande com panheiro, eu descobrira a verdade — a verdade que ela, tam bém m ovida pelo sentim ento (m as daí chegando ao estritam ente racional), poderia descobrir. Em seguida entrei no tem a propriam ente dito, m inistrando-lhe um a espécie de curso relâm pago de introdução ao pensam ento revolucionário. Expliquei que a história da hum anidade era a história da luta de classes, que essa luta term inaria com o triunfo do proletariado, ao qual nós dois, ela e eu, pertencíam os ou pertenceríam os; que o sonho do com unism o estava próxim o e que líderes com o Astroj ildo Pereira nos conduziriam à vitória na batalha final.
Astroj ildo, disse ela, que nom e engraçado.
Foi seu único com entário durante m inhas longas arengas. Aquilo m e irritou, m e deixou contrariado. Ela percebeu, pediu desculpas, alegando que nem sem pre entendia o que eu dizia (“Me falta cabeça para isso”). Daí em diante não falou m ais; ficava em silêncio, olhar perdido; ou então respondia com m onossílabos às m inhas perguntas. Ou sej a: além de não entender m inhas explicações, não estava interessada nelas; proletariado, burguesia, m aterialism o, essas palavras para ela não significavam nada, absolutam ente nada.
Um dia antes de chegarm os, e depois de hesitar bastante, ela anunciou que decidira não m orar com igo no Rio. Porque, coisa que não m e dissera antes, pretendia convencer o pai a regressar para Santa Maria e reconciliar-se com a m ãe, e só a isso se dedicaria. A custo contendo m inha raiva, ponderei que parecia pouco provável que o conseguisse; se o hom em não voltara antes, dificilm ente o faria agora. Ela então acabou confessando: não era no pai e na m ãe que pensava. Queria que voltassem a viver j untos, claro, acreditava em final feliz, m as seu real obj etivo era outro: deixar livre o Ram ão. Livre para ela, Chica. Aquele era o hom em de sua vida, o m acho esplêndido que acendera em seu corpo o fogo da paixão. Com igo, rapaz bonito, fogoso, gostara de fazer sexo, gostara bastante, até, e guardaria de nosso encontro saudosas lem branças. Mas só lem branças. Para viver, viver de verdade, viver todos os dias, queria o Ram ão.
Aí perdi o controle. Eu não podia acreditar no que estava ouvindo, aquela dem onstração de irracional, de tolo servilism o, de subm issão fem inina a um arrogante opressor. Tu estás enganada, bradei, esse Ram ão te dom ina, ele é um tirano, um reacionário, tens que te rebelar.
Falei, falei. Ela, cabeça baixa, não dizia nada. Por fim resolvi acabar com aquilo. Não deixaria que a paixão, um a paixão de vagão de carga, um a paixão fugaz, ainda que intensa, m e desviasse do cam inho. Eu precisava ser forte, agora que estava prestes a m e tornar um m ilitante da luta de classes. Afinal um revolucionário tem de sacrificar m uita coisa, inclusive seus sentim entos pessoais. Eu não era o hom em da vida dela? Então ela não seria a m ulher da m inha vida, e eu deveria estar contente por ter descoberto o fato a tem po, antes de chegar ao Rio e a m eu verdadeiro destino.
— Muito bem — falei, tentando m anter-m e calm o. — Se é assim , agora é cada um por si, não tem os m ais nada a ver um com o outro.
Chica ainda tentou m e consolar acariciando m eu rosto, m as eu a repeli com violência: m e deixa, não quero m ais nada contigo.
O final da viagem transcorreu em silêncio: silêncio ressentido e hum ilhado de m inha parte; constrangido e culpado da parte dela.
Chegam os ao Rio de Janeiro num a noite m uito bonita: a lua brilhava no céu estrelado, a tem peratura era am ena. Descem os do trem , ficam os uns m inutos parados na plataform a da estação, im óveis, sem nos olhar. Por fim , ela se voltou para m im :
— Bem — disse, com um sorriso forçado —, acho que aqui nos despedim os.
Quis m e dar o endereço do pai, m as recusei: não pretendia vê-la nunca m ais. Suspirou, pegou suas coisas e foi em bora.
Sentei-m e num banco e fiquei ali durante horas. Arrasado: a verdade é que o sonho de um grande am or proletário se desfizera antes m esm o de com eçar. De onde tiraria forças, agora, para fazer o que tinha de fazer, para procurar Astroj ildo Pereira e dar início a m inha m ilitância? Maldita hora aquela em que eu encontrara a Chica, m aldita hora. Com o tem po eu acabaria por esquecê-la, m as com o fazer o tem po passar, com o fazer a torrente do tem po carregar para sem pre aquela dolorosa lem brança? Havia ali um relógio, um grande relógio, e os ponteiros avançavam , m as com um a lentidão exasperante, um a lentidão que parecia debochar de m im . Cansado, m eus olhos se fechavam ; deitei no banco e acabei adorm ecendo — um sono bruto, pesado.
Acordei em m eio a um a zoeira infernal. Ainda era cedo, cinco e m eia da m anhã, m as a estação j á estava cheia de gente, pessoas em barcando nos trens, vendedores am bulantes apregoando seus produtos. Um policial m e m irava, desconfiado. Antes que viesse m e interrogar, saltei do banco, apanhei m inha m ochila — era o que eu tinha, um a m ochila contendo algum a roupa, alguns livros, obj etos de higiene — e saí para a avenida.
Ali, diante de m im , o Rio de Janeiro. Eu nunca estivera num a cidade tão grande; na verdade, afora Santo Ângelo, nunca estivera em cidade nenhum a. E o que estava vendo m e assom brava: com o eram grandes aqueles prédios, com o eram m ovim entadas aquelas ruas! Carros, tantos carros. Ali estava o Ford Modelo A, lançado nos Estados Unidos no ano anterior, m otor de 40 cavalos (capaz de fazer cem quilôm etros por hora), freio nas quatro rodas, am ortecedor hidráulico; ali estavam o Lincoln, o Chevrolet; e cam inhões, e ônibus, e bondes (eu nunca tinha visto um bonde antes), carroças, bicicletas. E gente, gente, gente, m ilhares de pessoas. Massas? Eram as m assas, o que eu estava vendo ali? Massas com pactas, organizadas, galvanizadas pelo ideal revolucionário? Massas em m archa para tom ar fábricas, bancos, m ansões, o palácio do Catete? Massas bradando slogans, m assas cantando a Internacional? Massas capazes de realizar os sonhos de Geninho (que saudades eu tinha dele!)?
Não. Não era isso que eu estava vendo. Multidão decerto eu via, um a profusão de hom ens, m ulheres, crianças, velhos, m oços, brancos, pretos, m ulatos, bonitos, feios, aleij ados, tudo. Mas m assas? Não. Nada de m assas. Só um confuso form igueiro hum ano que parecia atarantado, desorientado: fisionom ias tensas, angustiadas, a expressar o sofrim ento que era a regra sob o feroz regim e capitalista. Mas, no m eio daquela gente, gente arrastada pela torrente do cotidiano, gente de vidinha com um e alienada, certam ente haveria pessoas lúcidas, conscientes, fortes. Quantas, eu não sabia, e não im portava. Era preciso identificar o grupo, o seleto grupo que queria transform ar o m undo, que transform aria o m undo. Gente com o Astroj ildo Pereira. Eu tinha de encontrá-lo; haveria de encontrá-lo e, guiado por ele, m e tornaria um verdadeiro com unista. Quando isso acontecesse, aquela gente que ali estava, aquela pobre gente que se m ovia ao sabor dos contraditórios e perversos im pulsos do capitalism o, aquela gente teria um líder atrás do qual m archaria, m assa coesa, organizada. Marcharia, com o eu m archava agora. Sim , apesar do cansaço, apesar de não saber para onde ia, apesar dos olhares curiosos, ou divertidos, ou até debochados que os cariocas m e lançavam , eu m archava altivo, cabeça erguida. Os outros cam inhavam , m as eu m archava. Para onde, ainda não sabia.
Andei m uito, naquele dia. Andei pelo centro, andei por vários bairros. De repente, um a surpresa: estava diante do m ar. Eu nunca vira o m ar, só em fotos. Aquilo foi para m im um a grande em oção. O m ar, vasto m ar, era m uito diferente do pam pa, a grande planície ondulada na qual eu vivia. O pam pa, ainda que im enso, era quieto, plácido, inocente m esm o; j á o m ar não, o m ar era agitado, m isterioso. No pam pa, boizinhos pastavam , aguardando o m om ento de serem abatidos; no m ar, nas profundezas do m ar, criaturas m isteriosas e am eaçadoras, polvos, tubarões, arraias, m oviam -se em silêncio, prontas a atacar. O m ar era poderoso com o as m assas, m as enigm ático com o as m assas. Seria eu capaz de entender as m assas? Seria eu capaz de conduzi-las? Ou sucum biria à tentação do capital tornando-m e um burguês fútil com o aqueles burgueses que saíam do Copacabana Palace em roupa de banho e iam para a praia? Para eles, o m ar era apenas diversão. Para m im , não. Para m im o m ar carregava, em suas ondas, m il presságios. O m ar anunciava que m eu destino era incerto e que ainda teria de enfrentar m uitas vicissitudes.
Isso não m e im pediu de, num im pulso, tirar os sapatos e as m eias, arregaçar as calças e entrar na água, sob o olhar divertido dos banhistas. Que rissem de m im , eu não m e im portava. O m ar m e acolhia, o contato daquela água fria era estim ulante e, de algum m odo, auspicioso.
Veio o crepúsculo, e m e dei conta: o dia passara e eu não havia encontrado Astroj ildo Pereira. Agora era tarde para procurá-lo. Paciência, ficaria para a m anhã seguinte.
Voltei para o centro, entrei num a padaria, pedi um pão com m anteiga e um a xícara de café: seria m eu j antar. Para quem não tinha com ido nada o dia inteiro era pouco, m as, por causa da excitação, eu estava sem fom e; além disso precisava poupar m eu escasso dinheiro.
Já era tarde, os fregueses tinham ido em bora, m as eu não queria sair de lá. Sentia-m e bem , ali, sentia-m e acolhido, abrigado, m esm o sendo aquele um lugar de com ércio, e não um refúgio proletário. Tratei de puxar conversa com o dono do estabelecim ento, um hom em careca, gordo, de ar resignado. Contei que era gaúcho, que vinha ao Rio pela prim eira vez. Falei da viagem de trem , falei dos lugares por onde passara, falei da m inha em oção ao ver o m ar (não falei, porém , do que m e trazia ali. Não falei de Astroj ildo Pereira, não falei do Partido Com unista, não falei das m assas. Tinha bem presente um a advertência do Geninho: a gente nunca sabe quando está na frente de um agente da burguesia, de um policial disfarçado, de um olheiro. E o cara bem podia ser isso; afinal, era proprietário, verdade que proprietário de um a padaria pequena, m odesta, não m uito lim pa, m as proprietário m esm o assim : tinha um a em pregada, cuj a cara triste e chupada evidenciava a exploração a que sem dúvida era subm etida. Mas eu precisava conversar com alguém ; por causa da saudade, e da ansiedade, claro).
Não sei se o dono da padaria deu-se conta de m eu desam paro; ouviu-m e por algum tem po sem m uito interesse e finalm ente sua paciência se esgotou: disse que estava na hora de fechar, perguntou se eu queria m ais algum a coisa. Decepcionado, respondi que não, que não queria m ais nada. Despedi-m e e saí.
Deveria seguir o conselho de Geninho e procurar um a pensão; m as àquela altura estava alarm ado com os preços das coisas no Rio. Pelo j eito, m eu dinheiro não duraria m uito, era preciso poupar.
Em busca de um lugar barato para passar a noite, saí a cam inhar pelo centro. Fazia calor e m uitas pessoas dorm iam sob as m arquises. Cansado, resolvi fazer o m esm o. Dorm ir na rua era um a experiência nova para m im e certam ente incôm oda, m as, além de representar um a econom ia, significava partilhar, de algum m odo, o destino daquela gente; um a atitude de solidariedade revolucionária, portanto. Procurei um lugar com m enos luz (o que, com o logo descobri, foi um erro) e m e deitei, apoiando a cabeça na m ochila. Apesar do desconforto do piso duro, em seguida adorm eci.
Acordei de repente, sobressaltado, sentindo um a m ão no bolso da calça. Era um m ulatinho, m enino ainda; ao ver que eu abrira os olhos, saiu correndo. De um salto levantei-m e e corri atrás dele: espera aí, guri, quero falar contigo. E queria, m esm o, falar, só falar; queria explicar que ele estava agindo errado; expropriar propriedades, tudo bem , desde que se tratasse da propriedade capitalista, não o escasso dinheiro de alguém que viera para o Rio exatam ente para lutar pelos pobres e oprim idos. Com etera um erro, o ladrãozinho, um erro com preensível: faltava-lhe consciência de classe (tam bém lhe faltava, felizm ente para m im , habilidade para roubar); disso precisava tom ar conhecim ento, e eu podia aj udá-lo. Mas corria velozm ente, o m oleque, e era óbvio que conhecia bem o centro. Em poucos m inutos, perdi-o de vista.
Detive-m e ofegante, desapontado. Se tivera a esperança de com eçar m inha atividade revolucionária doutrinando aquele garoto (relatando depois, e com orgulho, o ocorrido a Astroj ildo Pereira), eu m e enganara.
Mas o pior ainda estava por vir. Quando voltei ao lugar onde deitara para dorm ir, constatei que a m ochila sum ira.
Foi um choque. Não tanto pelas roupas com o pelos livros, entre os quais estava o Manifesto e o Que fazer? (Chto delat?), cuj a leitura, com a m orte de Geninho, transform ara-se em questão de honra.
Logo a m im tinham roubado. Logo a m im , um j ovem que, m ovido pelo ideal e pela lealdade à m em ória de um com panheiro m orto, saíra de sua terra e viera para o Rio lutar pelos pobres, pelos oprim idos. Claro, o ladrão não sabia disso; m as, tendo aberto a m ochila e visto os livros, podia ter-se dado conta de que o dono não era um burguês explorador, m as um a pessoa no m ínim o culta e certam ente progressista, devolvendo então o que furtara. Isso não acontecera, a desgraça caíra sobre m im , m ais um a. Era dem ais, aquilo. Dem ais. O desespero agora m e invadia, avassalador. Com ecei a soluçar.
De repente um a m ão pousou em m eu om bro. Pousou am igavelm ente, ternam ente eu diria, m as isso não im pediu um sobressalto. Voltei-m e, assustado, furioso — m ais um ladrão, um assaltante? —, e deparei com um a m ulher ainda j ovem . Um a prostituta, obviam ente: m aquiagem berrante, roupas sum árias. Vi você soluçando, disse, e m e deu pena; o que aconteceu? Hesitei um instante e depois — que diabos, com alguém precisava falar — contei-lhe sobre a tentativa de assalto. Ela suspirou: é, aqui é assim m esm o, toda noite tem disso, você pode se considerar feliz por não ter levado um a facada na barriga.
Perguntou de onde eu era. Do Rio Grande do Sul, respondi, acho que com certo orgulho. Ela sorriu: gosto m uito dos gaúchos, é gente boa, valente. Ficam os em silêncio um instante e ela disse que estava à m inha disposição para um a trepada rápida. Apressou-se a acrescentar:
— É de graça. Para com pensar o seu desgosto. Outra noite você vem aqui e m e paga.
Sorriu, um sorriso sedutor, e eu, por incrível que pareça, instantaneam ente fiquei de pau duro. Deveria ter recusado a oferta; afinal, o que é a prostituição senão um a sórdida m anifestação do capitalism o? Mais, deveria ter cham ado a atenção da m ulher: tu és um a vítim a do sistem a, estás sendo explorada, rebela-te, luta. Mas àquela altura, tom ado pelo desej o, eu não podia m e conter. Abracei-a, beij ei-a furiosam ente. Ela m e tom ou pela m ão, conduziu-m e a um beco e ali, de pé, ela encostada à parede, tivem os um a relação tão rápida quanto fogosa. No fim , exausto, senti-m e um pouco m elhor, m as desconcertado; m uitas coisas tinham acontecido nas últim as horas, coisas que m e deixavam confuso, assustado m esm o. A m oça, Denizete, percebeu-o, e m ais um a vez m e aj udou: levou-m e a um lugar que, garantiu, era m ais seguro — ela própria j á tinha dorm ido ali. Havia um a m arquise e, sob ela, um velho colchão, desocupado naquele m om ento. Agradeci efusivam ente, prom eti que um dia retribuiria o favor. Ela disse que eu a encontraria sem pre por ali, beij ou-m e e se foi.
E então um a surpresa: j unto ao colchão havia um m onte de lixo, e o que vi nele? Os m eus livros! O Manifesto! O Que fazer? (Chto delat?)! Obviam ente o ladrão os desprezara (m ais um a evidência da falta de consciência de classe, o grande problem a dos brasileiros), m as, de algum a m aneira e ao m enos parcialm ente, eu fora indenizado. Beij ei o Manifesto, guardei-o dentro da cam isa, j unto com o livro do Lênin, e deitei-m e.
Só consegui adorm ecer pelas três ou quatro da m anhã e logo tive de levantar-m e, por causa das pessoas que passavam , algum as m e olhando com surpresa, aliás j ustificada: eu não parecia um vagabundo com um . E de fato não era um vagabundo com um , desses que ficam andando pela rua sem destino, sem obj etivo. Eu tinha um obj etivo: encontrar Astroj ildo Pereira. Por sorte conservara no bolso o endereço do cam arada Hércules, um serralheiro que m orava na zona norte da cidade. Hércules m e levaria a Astroj ildo, ou pelo m enos assim o esperava.
Foi um caro custo chegar à casa de Hércules. Ficava longe do centro, num a rua que ninguém conhecia. Eu perguntava a um transeunte, a outro, a outro, e nada. Finalm ente encontrei um hom em que sabia com o chegar lá, m as avisou que não seria fácil. Seguindo suas instruções, tom ei um ônibus, cheguei à zona norte, m as aí m e perdi de novo; m ais perguntas, m ais inform ações, e só por volta das sete da noite, m orto de cansado, encontrei o lugar: um a pequena casa de subúrbio com um j ardim e um portão de ferro, atrás do qual um grande cão rosnava.
Coisa que m e surpreendeu, e contrariou: precisava, o cam arada Hércules, guardar a casa com um feroz m astim daqueles? Aquilo era coisa de burguês cioso de sua propriedade, coisa de latifundiário — o coronel Nicácio tinha um a m atilha de cachorros que eram verdadeiras feras.
Bati palm as, o cachorro agora latindo furiosam ente. A porta se abriu, e um hom em , não m uito alto, m as robusto, cabelo grisalho, pij am a listrado e chinelos, apareceu: o cam arada Hércules, obviam ente. Quieto, Rex, gritou para o cachorro e m e olhou, desconfiado:
— O am igo desej ava algum a coisa?
Foi um choque. Sim , eu era um estranho, m as não deveria, naquele m om ento, ter funcionado o m isterioso m ecanism o de identificação, de em patia, pelo qual os revolucionários se reconhecem m utuam ente, sentem -se unidos num m esm o ideal? Não deveria ele ter vindo em m inha direção, braços abertos, bem -vindo, cam arada, sej a m uito bem -vindo? Não o fizera, o que era para m im m otivo de desalento, de decepção.
Hércules, acho, deu-se conta disso. Prendeu o cachorro, abriu o portão, tom ou-m e o braço: entre, m eu j ovem , entre, vam os conversar.
Fez-m e sentar num banco do j ardim , perguntou quem eu era e o que estava fazendo ali. O tom era afável, am istoso m esm o, e, agora encoraj ado, eu disse que vinha do Rio Grande do Sul em busca do Astroj ildo Pereira.
À m enção do nom e do líder ele involuntariam ente olhou para os lados para ver se ninguém nos ouvia ou observava. Com preensível: o Partido Com unista era então ilegal, com o, excetuando um breve período, o fora desde praticam ente a sua fundação. Tirou do bolso do pij am a um enorm e chaveiro (de novo, um detalhe desagradável: era m uita chave para quem queria acabar com o dom ínio do privado), abriu a porta, que tinha se fechado com o vento, e convidou-m e a entrar na casa.
Sentam o-nos na m odesta sala de estar, em cuj as paredes estavam penduradas várias fotos, provavelm ente de pessoas da fam ília, e, ao lado delas, um retrato, verdade que pequeno, de Stálin. O que foi para m im causa de em oção e de alívio: finalm ente um a evidência de afinidade com o dono da casa. Ah, sim ; havia ainda um arm ário com uns poucos livros, o que para m im era encoraj ador; em bora eu não pudesse ler os títulos, tinha certeza de que se tratava de literatura progressista. De resto, alguns vasos com flores artificiais, bibelôs, toalhinhas de renda; prováveis resíduos de um passado pequeno-burguês, convenientem ente neutralizados pela foto e pelos livros.
— Conte-m e sobre você — disse Hércules, num tom am istoso. — Você veio lá do sul, do Rio Grande? Deve ser um a longa viagem ... Mas, diga, por que está procurando o Astroj ildo?
Contei sobre a célula com unista de Santo Ângelo, sobre Geninho — sim , ele sabia quem era, m as ignorava que o rapaz tinha m orrido, o que o deixou pesaroso, sinceram ente pesaroso, segundo m e pareceu — e sobre a recom endação para encontrar o líder do Partido. Interrom peu-m e:
— Sei que esta notícia vai chatear você e vai lhe criar problem as, m as preciso lhe dizer: o Astroj ildo não está no Brasil.
Foi, com o ele previra, um choque. Achei até que estava brincando, m as sua expressão m ostrava que, para m eu azar, enorm e azar, Hércules falava sério.
— Não está no Brasil? Onde está, então?
Hércules não respondeu de im ediato; evidentem ente relutava em revelar o paradeiro do líder a um garoto que não conhecia. Por fim , disse que Astroj ildo estava em Moscou, para onde fora no início do ano. Era agora m em bro da direção da Internacional Com unista e trabalhava no secretariado para a Am érica Latina. Posição im portante: cabia-lhe organizar a luta de operários e cam poneses em todo o continente. Um grande passo em sua carreira, segundo Hércules. Mas, para m im , m á notícia, péssim a notícia.
E agora? O que fazer? Perguntei quando Astroj ildo voltaria. Hércules suspirou: não tinha resposta para aquela pergunta. Nem ele, nem nenhum m em bro do Partido no Brasil, e nem o próprio Astroj ildo. Sua volta, ainda que praticam ente certa, dependeria das necessidades do m ovim ento revolucionário. Com o m ilitante, não era dono de sua vida: tinha de estar onde sua presença fosse m ais im portante, e pelo tem po que fosse necessário.
Um a m ulher apareceu na porta da sala. Com o Hércules, era baixa, m as gorda, m uito gorda. Usava um avental velho, rasgado, e enxugava um prato. O dono da casa nos apresentou: esta é m inha m ulher, Teresa; Teresa, este é o Valdo, um com panheiro que veio lá do Sul. Ela acenou com a cabeça. Evidentem ente não estava satisfeita com a inesperada visita, m as nada disse; sem um a palavra, voltou para a cozinha. Hércules, decerto acostum ado às reações da m ulher, deixou escapar um breve suspiro e voltou ao assunto:
— Pois é, Valdo, você veio falar com o Astroj ildo, ele não está aqui. E agora, o que você vai fazer?
O que fazer, eu não sabia. Mas sabia o que não podia fazer, o que não devia fazer: não devia voltar para o Rio Grande sem ter cum prido m inha prom essa ao Geninho, sem ter passado pelo aprendizado que m e tornaria um verdadeiro com unista. Isso, nem pensar. Foi o que disse a Hércules, que m e ouviu atento, m as obviam ente preocupado: m inha decisão, ainda que lógica e racional, criava-lhe um problem a.
Perguntou onde eu estava hospedado. Respondi que não estava hospedado em lugar algum , que tinha dorm ido na rua (não pude deixar de m encionar o episódio do roubo da m ochila) e que, saindo dali, procuraria um a pensão para ficar. A propósito, poderia ele m e indicar um lugar barato? Pensou um pouco:
— Depende do que você cham a de lugar barato, Valdo. Desculpe a introm issão, m as quanto dinheiro você tem ?
Quando eu disse, ele m e olhou, alarm ado:
— Mas, com panheiro, isso não dá nem para um a sem ana no Rio! A vida aqui é m uito cara.
Pensou um pouco, decidiu:
— Não, você não vai para pensão nenhum a. Vai ficar aqui em casa.
Protestei: não queria incom odar, não queria dar trabalho, ele j á tinha m e aj udado bastante. Mas Hércules, obviam ente, era daqueles que, quando resolvem , não m udam de ideia:
— Não é incôm odo, acredite. A casa é pequena, m as tem os um quarto sobrando. Você se acom oda nele até achar coisa m elhor.
Foi até a porta, cham ou a m ulher e, seco, anunciou:
— Tem os um hóspede, m ulher. O Valdo vai ficar um tem po aqui em casa.
De novo, ela não disse nada; m as sua contrariedade era m ais que visível. Coisa para a qual Hércules não deu m uita atenção. Voltou-se para m im :
— Venha, vou lhe m ostrar o quarto.
Era um aposento pequeno, acanhado, m as tinha o indispensável: um a cam a, um m inúsculo roupeiro, um a m esinha, um a cadeira. Nada diferente do m eu próprio quarto no Rio Grande do Sul. Disse que estava ótim o e ainda fiz um a tím ida proposta de pagam ento, m as Hércules não quis aceitar: seria m ais-valia, disse, sorridente, coisa de capitalista.
Naquela noite j antei com Hércules e Teresa. No com eço falam os pouco, e sobre assuntos banais. Teresa, m ais para m ostrar algum a cordialidade do que por genuíno interesse, perguntou de onde eu era. Quando eu disse que vinha da região de Santo Ângelo, Hércules se interessou: com eçou a m e fazer perguntas sobre Prestes, um a figura que o intrigava e fascinava. Sabia que ele era do sul e que vivera em Santo Ângelo. Acom panhara a m archa da Coluna Prestes, vista por ele e por vários com unistas com o um acontecim ento histórico, um a verdadeira epopeia. O próprio Astroj ildo Pereira, secretário-geral do Partido Com unista, procurara Prestes, então exilado na Bolívia; falara-lhe sobre a Revolução Russa e sobre o com unism o, propondo um a aliança entre o proletariado revolucionário e as m assas cam ponesas que haviam aderido, ou que poderiam aderir, à Coluna. Prestes não aceitara a aliança, m as, voltando ao Rio, Astroj ildo publicara no j ornal A Esquerda um a longa entrevista com ele, um texto que popularizou a expressão “Cavaleiro da Esperança”, pela qual Prestes passou a ser conhecido. Isso acontecera em j aneiro de 1928; em abril, Prestes j á adm itia que a revolução seria a única solução para os problem as brasileiros. Exilado na Argentina, lia a literatura m arxista-leninista e m antinha contato com revolucionários da Am érica Latina, participando de com ícios ao lado de Rodolfo Ghioldi, fam oso líder com unista argentino. Em m eados daquele ano de 1929, um a delegação brasileira que, em Buenos Aires, participava da reunião continental dos partidos com unistas, convidara Prestes a candidatar-se à presidência da República por um a frente única form ada pelo Partido Com unista Brasileiro e pela Coluna. Convite recusado: Prestes não endossava o program a do Partido. O que, para Hércules, representava profundo desgosto:
— Esse hom em poderia ser o nosso grande líder, Valdo. Teria tudo para isso: com andou a Coluna, levou um m ovim ento revolucionário pelo interior do Brasil... Tem experiência, tem conhecim ento, tem prestígio, é um a lenda viva. Mas infelizm ente o cara vacila, Valdo, o cara não sabe o que quer. E nós continuam os esperando por alguém que nos lidere. Não tem os liderança, essa é que é a verdade.
Um a afirm ação que m e deixou intrigado. O Partido não tinha liderança? E Astroj ildo Pereira? Não era um líder inconteste? Criando coragem , com ecei a fazer um a ponderação a respeito, m as Teresa m e interrom peu:
— Term inem de com er que eu preciso lavar os pratos.
O tom agressivo confirm ava m inha im pressão: a m ulher não estava nem um pouco interessada nas ideias do m arido, em sua atividade política. A m im , hóspede incôm odo, sim plesm ente ignorava. Mas Hércules certam ente servia de válvula de escape para sua agressividade incontida e, para m im , inexplicável.