Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Sua respiração sibilante era claram ente audível, ele não aguentava m ais. Mas não desistiria, agora iria até o fim :
— Quer um conselho, m eu j ovem ? Não com pre esses livros. Só vão atrapalhar a sua vida, só vão fazer você pensar bobagens. Use seu dinheiro em bebida, use em cigarro, use em m ulher, use em ópio. Mas não use em livros. Você deve m e achar m eio louco por estar dizendo essas coisas, e eu sou m esm o m eio louco, e agora estou m ais perturbado ainda, porque perdi m inha m ulher na sem ana passada, a m ulher com quem vivi quarenta e tantos anos; m as eu tinha de lhe dizer isso, tinha de ser sincero, porque —
Interrom peu-se, correu para o pequeno escritório no fundo da loj a, entrou, bateu a porta.
Por uns m om entos fiquei ali, im óvel, paralisado, chocado. Tão chocado que nem sequer m e dei conta da oportunidade que o hom em involuntariam ente m e oferecia: se eu queria pôr em prática o plano tão longam ente elaborado, o plano de roubar livros, aquela era um a oportunidade de ouro. Poderia tranquilam ente apanhar os livros que quisesse, as obras de Marx, as de Lênin, e sair com elas pela porta sem nem m esm o m e dar ao trabalho de ocultá-las. O que, aliás, seria um j usto castigo para aquele energúm eno: ah, detestas os livros? Ah, para ti eles servem apenas para coletar poeira, abrigar traças, servir de esconderij o para ratos? Muito bem , m eu am igo, vou te livrar do problem a. Vou levar os livros, as traças — que provavelm ente são m ais cultas do que tu, pelo m enos sabem valorizar a folha im pressa — e a poeira, que não é digna de entrar nos teus delicados pulm ões burgueses; e posso, se quiseres, levar os ratos; não gosto dos ratos de trem , m as nada tenho contra ratos de livraria, roedores cultos, letrados, com quem sim patizo, principalm ente aqueles que levam os nom es de Marx e Engels. Faço isso, sim , na hora em que quiseres levo tudo. O que será para ti benefício, um verdadeiro presente: não precisarás cuidar de tantos livros. E o teu patrão, no fundo um burguês com o tu, poderá se consolar pensando que, ao fim e ao cabo, alguém estará lendo as obras que ele adm ira.
Mas não, a possibilidade de surrupiar os livros nem sequer m e ocorreu. Porque aquela cena m e abalara, sabes? Me abalara m uito. Eu não havia apenas presenciado a explosão de fúria de um livreiro m aluco; não, fora m uito m ais que isso. Seu desabafo encontrara eco dentro de m im . Um a zom beteira voz interior m e dizia esse hom em tem razão, não passas de um idiota que acredita ingenuam ente no poder dos livros, que vê no tal de Astroj ildo Pereira o m essias salvador.
Um enorm e cansaço se abateu sobre m im . Cansaço da vida que estava levando, sem fam ília, sem am igos, às voltas com gente que não m e entendia e com a qual eu m e dava m al. Não queria m ais saber de livros, nem do Astroj ildo, nem do Partido, não queria saber de m ais nada. A conclusão se im punha: chegara o m om ento de dar por encerrada aquela aventura, de voltar para casa. Não para a casa do Hércules, que não era a m inha casa, com o aquela m ulher, a Teresa, a todo instante deixava claro; não, eu queria voltar para a casa dos m eus pais, queria abraçá-los, beij á-los e, na tranquilidade do interior gaúcho, botar em ordem m inha cabeça. Depois veria o que fazer. Mas só depois.
Eu estava decidido. No dia seguinte m e despediria do Hércules e partiria sem m aiores explicações.
Saí da livraria, fui direto para a estação ferroviária com prar a passagem . E aí, no guichê, o golpe decisivo, o golpe que m e esm agou de vez: o dinheiro que m e sobrava não era suficiente nem m esm o para um a passagem de segunda classe, e eu ali não podia contar com ninguém que m e introduzisse clandestinam ente num vagão de carga. Que fazer? (Nota que esse “que fazer?” não equivalia ao “Chto delat?” do Lênin; ao m enos no m om ento, o leninism o para m im estava fora de cogitação, eu não queria saber de doutrina algum a, queria ir em bora.) Um a desesperada ideia então m e ocorreu, um a ideia que só m inha perturbação poderia explicar (m as não j ustificar): usar o relógio que ganhara de presente de m eus pais com o pagam ento, ou parte do pagam ento, da passagem . Tirei-o do pulso, m ostrei-o ao funcionário do guichê, fiz a proposta: este relógio é m uito valioso, pago a passagem com ele. O hom em m e olhou, surpreso e irritado:
— Você é um pateta, garoto. Eu j á lhe disse qual é o preço da passagem , e é o que você tem de pagar. Em dinheiro, ouviu? Em dinheiro. Relógio não aceito, isto aqui não é loj a de penhores. Se você não tem dinheiro, saia daí, a fila está grande, tem m uita gente esperando. Vá em bora ou eu cham o a polícia.
Voltei para casa acabrunhado. Hércules notou que algum a coisa tinha acontecido, perguntou se eu estava bem . Eu disse que estava bem , que era apenas um a dor de cabeça, que ia m e deitar. E fui m e deitar. Ah, m as que noite foi aquela, m eu neto, que noite. Achei que não sobreviveria a tanto sofrim ento.
Mas sobrevivi. Não só sobrevivi com o recuperei, e até m uito rapidam ente, m inhas antigas convicções. Outubro aj udou. Porque era o m ês da Revolução Russa? Talvez, m as não só por isso. Foi por outra razão, um a razão que para ti, m eu neto, pode parecer insólita, m as que para m im representava um verdadeiro desígnio do destino. Outubro de 1929, tu, rapaz culto, norte-am ericano ainda por cim a, deves saber disso, foi o m ês da crise da Bolsa de Nova York.
Crise anunciada, aliás. Inclusive no Brasil. A econom ia do país dependia do café, responsável por três quartos de nossas exportações. Nos anos anteriores a safra fora recorde, m as — e Marx explicava m uito bem o paradoxo — o que deveria ter sido um a bênção revelara-se um a m aldição: grandes safras significavam preços m ais baixos, lucros m enores. O governo pretendia aj udar os fazendeiros, m as dependia para isso de um em préstim o do governo do teu país (por favor, não vê nesse “teu país” um a acusação, é só um registro casual), que não foi concedido. Sucediam -se falências e concordatas: setenta e duas, só em setem bro. E um a tragédia: no elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, um endividado e transtornado em presário, arm ado de navalha, tentou m atar a m ulher, que contudo escapou; aí o cara degolou os dois filhos pequenos e se suicidou. Tragédia burguesa em grande estilo, igual à do conto do Michael Gold.
Com rapidez im pressionante, o caos financeiro se instalou nos Estados Unidos. Algo, para m im e para m uitos outros, com unistas inclusive, surpreendente, estarrecedor. A gente via os Estados Unidos com o um a grande potência capitalista, odiosa potência, m as, tínham os de reconhecer, forte, estável, desafiadora potência. E aí sobreveio a quebradeira, que Hércules e eu acom panhávam os pelo rádio. De um dia para o outro as cotações da Bolsa de Nova York desabaram , fortunas viravam (m as o livreiro não gostaria disso) poeira, grandes em presas faliam .
Eu vibrava com as notícias. O gigantesco ídolo do capitalism o, agora ficava claro, tinha pés de barro e tom bara fragorosam ente. Marx estava certo, com pletam ente certo, inexoravelm ente certo: era um sistem a irracional, aquele, tão irracional quanto desum ano, e a crise o com provava. A crise era o grande castigo para a cobiça, para a am bição desm edida. Os capitalistas estavam provando de seu próprio veneno; m uitos financistas e em presários se suicidaram — o que não deixava de ser irônico: não era a revolução que os estava executando, não era a j usticeira forca, o im placável pelotão de fuzilam ento, a eficaz guilhotina; eles m esm os se j ogavam dos altíssim os edifícios de Nova York e iam se esborrachar no asfalto. Nada poderia ser m ais sim bólico, nada. Só um a coisa eu lam entava: que Geninho não estivesse ali, partilhando nossa alegria.
Nossa alegria, não. Minha alegria. Hércules não estava alegre, nada alegre; ao contrário, suas preocupações transpareciam na fisionom ia agora sem pre carregada. O dono da serralheria, invocando a crise, falava abertam ente em m andar gente em bora, em dim inuir salários. A am eaça poderia incluir o próprio Hércules, operário com petente e dedicado que, contudo, tinha contra si a condição de com unista, coisa que o patrão até então fingira ignorar, m as que agora poderia servir de pretexto para um a sum ária dem issão.
Aquilo term inou sendo um problem a para m im tam bém . Fazia sem anas que eu estava na casa daquele hom em esperando um Astroj ildo Pereira que não aparecia nunca; fazia sem anas que com ia a com ida dele, que dava trabalho à m ulher. Coisa que Teresa certam ente lhe atirava na cara: você traz para cá esse seu am igo, esse com unistazinho vagabundo que não tem o que fazer, e eu pago o pato. Provavelm ente estava exigindo que o m arido tom asse providências para acabar com aquela situação. Ou sej a: algum a coisa estava para acontecer.
E aconteceu. Um a noite, depois do j antar e enquanto Teresa lavava os pratos na cozinha, Hércules disse que precisava ter um a conversa com igo. Estava visivelm ente constrangido, pigarreou várias vezes antes de falar, m as foi em frente. Com eçou lem brando que m e acolhera fraternalm ente, que m e oferecera casa, com ida e aj uda. Claro, fizera isso por solidariedade, e fizera com prazer; m as agora estava tendo problem as, e se via obrigado a m e pedir que fosse m orar em outro lugar — um lugar que ele, aliás, j á havia providenciado: um a pensão, cuj a dona conhecia (ela encom endara grades da serralheria) e que ficava num lugar m uito bom , próxim o ao centro; eu estaria m elhor lá do que na zona norte, havia inclusive m uitas livrarias nas redondezas. O preço não era alto, e tam bém para isso ele providenciara um a solução: acabara de m e arranj ar um em prego.
Eu o ouvia com crescente espanto e angústia. Estava, a rigor, sendo expulso do único lugar onde, no Rio, sentia-m e um pouco seguro; m oraria com gente estranha, gente com a qual certam ente não teria afinidade ideológica. E m ais, agora teria um em prego.
Em prego? Eu nunca tinha pensado nessa possibilidade, nunca pensara em tornar-m e em pregado, com horário a cum prir, com m onótonas tarefas a executar, com um patrão a quem obedecer: “Sim , patrão”. “Perfeitam ente, patrão.” “É pra j á, patrão.” “O senhor m anda, patrão.” “Estou às suas ordens, patrão.” Eu queria, sim , fazer parte do m undo do trabalho, m as na qualidade de líder revolucionário. Horário? Tarefas? “Estou às suas ordens”? Nem pensar. Hércules, porém , não estava m e perguntando o que eu achava daquela possibilidade. Hércules estava m e dizendo, e com um autoritarism o que nele eu não conhecia, o que eu deveria fazer. E a verdade é que foi convincente: eu realm ente não tinha alternativa.
— Mas de que trabalho se trata? — perguntei, num a voz que m e saiu esquisita, estrangulada; um a voz que não era a m inha, era a voz do novo personagem que eu estava a ponto de encarnar.
— Bom — respondeu ele, tentando dar um tom casual às suas palavras —, pelo que sei, você não tem nenhum a experiência profissional. Precisaria ser um a coisa fácil de aprender. E o m elhor para isso é a construção. Carregar areia, cim ento, tij olos, essas coisas, é fácil. Só precisa ter força, e isso não lhe falta, você é um j ovem robusto.
— Mas onde é que eu vou trabalhar? É algum a casa, algum prédio?
— Não. — Hesitou. — É um ... m onum ento. Um grande m onum ento, que está sendo construído no Corcovado. Você não ouviu falar?
Não. Eu não sabia do que ele estava falando. Perguntei de que se tratava.
Mais um a vez hesitou. Aquilo realm ente era penoso para ele:
— É um m onum ento a Jesus Cristo. Cristo Redentor, assim vai se cham ar.
Cristo? Cristo Redentor? Eu tinha ouvido bem ? Hércules, um com unista, estava m e dizendo para trabalhar num m onum ento em hom enagem a Jesus Cristo, um m onum ento religioso?
— Hércules, eu não acredito que tu–
Interrom pi-m e: sua aparência se tornara lastim ável; aquela conversa era-lhe incrivelm ente penosa, dolorosa, exigia dele um trem endo esforço. Mas agora, que tinha com eçado, m ilitante disciplinado que era, iria até o fim :
— Eu sei, Valdo, que pode parecer estranho para você, m as o trabalho que fazem os, o nosso ofício, não tem a m ínim a im portância do ponto de vista revolucionário. Se fabricam os arm as, ou vendem os frutas, ou varrem os ruas, ou construím os m onum entos, é tudo igual. O im portante é ter consciência de classe, é saber que precisam os m udar o m undo e o país. Sob o com unism o, o trabalho será im portante, dará dignidade às pessoas; m as até lá o que tem os de fazer é educar nossos com panheiros trabalhadores, é abrir seus olhos. Para fazer isso, tem os de estar ao lado deles, trabalhando j unto com eles. É isso que você vai fazer. Será bom para a nossa causa, será bom para você.
Pronto, eu estava diante do fato consum ado. Que rem édio? Hércules, m em bro do Partido, era a única pessoa em quem eu podia confiar, e eu seguiria sua orientação. Tentando (verdade que sem m uito êxito) m ostrar-m e anim ado, perguntei o que tinha de fazer. Ele disse que j á estava tudo certo, que o em prego estava garantido, e que m e levaria até o Corcovado para que eu acertasse detalhes com o m estre de obras, aliás conhecido seu. Já tinha até m arcado o dia para isso:
— Am anhã. Tirei folga, vam os lá cedo.
Nesse m om ento Teresa apareceu. Eu podia apostar que, por trás da porta da cozinha, tinha ouvido a conversa toda; pela prim eira vez em todas aquelas sem anas não estava carrancuda, não m e olhava atravessado. Ao contrário, até sorriu, quando anunciou que estava se recolhendo. E m ais: m e deu boa-noite. Pela prim eira vez, m e deu boa-noite.
Mas não foi um a boa noite. Com o poderia ser um a boa noite diante do que eu ouvira, diante do que m e esperava? Sim plesm ente não dorm i; fiquei horas andando de um lado para outro no quarto. Antes de clarear o dia, vesti-m e e fiquei na sala, à espera do Hércules. Ele apareceu e, num tom que m e surpreendeu pela anim ação, perguntou se eu queria tom ar café.
Não, eu não queria tom ar café. Na verdade, não queria m ais nada dele. Eu estava com raiva, com m uita raiva, coisa que Hércules não percebeu ou fingiu não perceber: não queria brigar com igo num m om ento obviam ente difícil para o seu hóspede — incôm odo hóspede, talvez, m as hóspede. Tom ou o café, apanhou o gorro e a m arm ita e saím os.
Chegar ao Corcovado era com plicado. Teríam os de ir prim eiro ao Cosm e Velho para de lá tom ar um trem que nos levaria ao alto do m orro.
Cosm e Velho. Sim , eu ouvira falara naquele bairro: a professora Doroteia contava que Machado de Assis m orara ali durante m uito tem po. De certo m odo fazia sentido a ligação entre o bairro e o Corcovado, entre o reduto de um escritor reacionário e o lugar onde seria construído um m onum ento religioso.
Do Cosm e Velho tom am os o pequeno trem que nos levaria ao Corcovado pela linha férrea construída na virada do século pelos engenheiros Pereira Passos e Teixeira Soares, com o m e inform ou Hércules, que de súbito se tornara loquaz, m ovido por um a im periosa necessidade de falar, de contar, de explicar. Pereira Passos, que depois se tornara prefeito do Rio de Janeiro, era, aliás, um a figura detestada pelos com unistas. Com o o barão Haussm ann, que, em Paris, alargara ruelas e construíra avenidas para assim evitar a volta das barricadas com as quais os revolucionários da Com una haviam am eaçado o regim e, Pereira Passos abrira a avenida Central e acabara com os cortiços, coisa que resultara na expulsão de m ilhares de trabalhadores do centro do Rio. Um falso progresso, portanto, feito à custa do povo, com o provavelm ente era o caso daquela ferrovia. Mas a paisagem , eu tinha de adm itir, era arrebatadora. À m edida que íam os subindo, desdobrava-se diante de nossos olhos um a deslum brante vista do Rio, coisa de cartão-postal, capaz de encantar qualquer turista. Mas eu não estava encantado. Eu não era turista, era um operário em potencial a cam inho da subm issão.
Chegam os ao topo do Corcovado. Diante de nós, um grande canteiro de obras: gigantescos andaim es, blocos de concreto. Não dava para dizer o que seria aquilo, não dava para adivinhar que j eito teria o gigantesco m onum ento para ali planej ado. O que, de certo m odo, era um alívio. Se pudesse abstrair a figura de Cristo eu faria, sim plesm ente, autom aticam ente, o que os operários — e eram m uitos, um verdadeiro enxam e — faziam : trabalharia, afanosam ente, autom aticam ente, sem descanso.
Hércules tratou de procurar o m estre de obras. Logo o encontram os: era o Joaquim , um nordestino m agro, m iúdo, vivaz. Esse aqui é o Valdo, de quem lhe falei, disse Hércules.
Joaquim m e olhou de cim a a baixo, obviam ente m e avaliando; satisfeito com o que via (não era para m enos: eu tinha um m etro e setenta e cinco, aparência sadia, era m usculoso), saudou-m e com um sorriso tão acolhedor quanto gaiato: até que enfim , disse, terem os um gaúcho aqui na obra.
— Falam por aí que vocês são bons de briga. Agora vam os ver se vocês são bons de batente. Então? Está pronto para enfrentar o desafio?
Que poderia eu dizer? Claro que estou pronto, respondi, tentando parecer anim ado. Mas deveria, eu, parecer anim ado? Diante de um m estre de obras, de um agente do capitalism o, deveria parecer anim ado? Não representaria isso um prim eiro passo no sentido da subm issão à ordem vigente, com outros passos rapidam ente se seguindo, a ânsia de m anter determ inada im pressão acabando com a coerência, com a integridade pessoal? Ou será que se tratava apenas de um apoio à iniciativa de Hércules, apoio resultante, por sua vez, de um a superior com preensão, capaz de m e fazer reconhecer nele, não o proprietário que m e m andara em bora de sua casa, m as um cam arada, sofrido cam arada?
Essas coisas todas m e passaram m uito rapidam ente pela cabeça; o resultado final foi aquela aparente anim ação, que a Joaquim agradou m uito. Ótim o, disse ele, é de gente assim que eu preciso, gente forte, disposta.
Explicou-m e o que eu tinha de fazer. Com o Hércules im aginara, m inha função seria a de aj udar os operários m ais experientes. A obra estava atrasada, os engenheiros insistiam para que o pessoal apressasse os trabalhos, vários auxiliares de pedreiro estavam sendo contratados por um salário que, à época, não era m au. Depois de dizer isso, a expressão de Joaquim m udou; subitam ente sério, falou-m e de m aneira agora enfática, e usando um argum ento que era para m im a consum ada glorificação da religião com o ópio do povo:
— Não é um a obra qualquer, Valdo. Não é um a casa, não é um prédio, não é um depósito, não é um a fábrica. É um a gigantesca im agem de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso salvador, nosso redentor. Não sei se você é católico; eu sou. A m aioria aqui é. Para nós, não é só um trabalho, é um a causa, um a causa abençoada. Quando a obra term inar, o Rio de Janeiro estará sob o olhar de Cristo, sob a proteção de Cristo. O Brasil com eçou com a prim eira m issa, Valdo, o Brasil é um país cristão. Aqui, Cristo vive, Cristo reina, Cristo im pera. É o que o m onum ento m ostrará ao m undo.
Fitou-m e, dando-se conta da perturbação que agora em m im se tornara evidente. Não sabia a que atribuí-la, claro; m as, cara esperto (por algum a razão se tornara m estre de obras), percebeu que não deveria continuar batendo naquela tecla. Passou, pois, aos conselhos práticos: eu deveria chegar ao serviço pontualm ente, usando roupa m ais adequada: m acacão de brim ou algo no estilo. As ferram entas seriam fornecidas pela construtora. Teria um a hora para alm oçar, o m elhor seria trazer com ida num a m arm ita, com o os outros operários:
— A partir de agora você é m arm iteiro, m eu caro. Você é um trabalhador.
Essas palavras — não, essa palavra, “trabalhador”, teve sobre m im um efeito surpreendente, m ágico, m esm o. Trabalhador! De repente, eu m e transform ava. De repente era um daqueles trabalhadores que via nos cartazes soviéticos que Geninho m e m ostrara num livro: um hom em altivo, m usculoso, um lutador. Sim , eu estava m e integrando na vasta corrente hum ana que, vinda de um som brio passado, encam inhava-se para um glorioso futuro. Que im portava o tipo de trabalho? Im portante era o fato de que eu estaria j unto com outros trabalhadores, com m eus com panheiros de sofrim ento e de luta. Eram m eus irm ãos, aquelas criaturas pequenas, escuras, que andavam de um lado para outro com baldes e carrinhos, que m anej avam suas ferram entas. Eu queria correr para eles gritando j ubiloso, eu vos abraço, Milhões (ainda que não fossem m ilhões, e sim algum as dezenas). Joaquim percebeu m inha em oção, estendeu-m e a m ão, sensibilizado:
— Sej a bem -vindo, m eu caro. Você será um a grande aquisição, estou seguro.
Hércules, que ouvira em silêncio a conversa, interveio: precisávam os voltar, tinha de ir para a serralheria. Despedi-m e do Joaquim , que m ais um a vez m e recom endou pontualidade (“Você é dos poucos que têm relógio, preste atenção no horário”) e fom os tom ar o trem .
Hércules agora m udara. Parecia aliviado, m as tam bém constrangido: ainda havia um a questão, espinhosa questão a resolver. Vacilando m uito, perguntou-m e quando eu pretendia m e m udar para a pensão. Não sei, respondi, quanto tem po tenho para isso? Mexeu-se no banco do trem :
— Três dias, está bom ?
Três dias. Três: o núm ero m ágico, o núm ero clássico. Tudo bem . Horas antes o aviso teria m e deixado deprim ido; agora, não. Agora, decisão tom ada, eu m e sentia, senão tranquilo, pelo m enos resignado. Minha vida de fato m udara.
Tivem os, naquela noite, um j antar excepcionalm ente abundante: bife, batatas fritas, ovos estrelados, pudim de coco. Era possível que estivessem celebrando m inha partida, m as preferi acreditar que não, que aquilo era um a hom enagem . De fato, Hércules ergueu o copo de vinho:
— A essa nova etapa, Valdo. Que ela contribua para fazer de você um trabalhador, um com panheiro.
Teresa, séria, não dizia nada, m as ergueu o copo tam bém . Vacilei um instante e brindei com eles. Já que estava indo em bora era m elhor sair num a boa, sem brigas, sem ressentim entos.
Depois do j antar ouvim os o noticiário, Hércules e eu; as notícias de sem pre, a crise, o desem prego. Lá pelas tantas, ele, irritado, desligou o rádio; disse que estava cansado, que ia se deitar, e m e aconselhou a fazer o m esm o: eu teria de levantar m uito cedo, antes de o sol nascer:
— Quando você se m udar para a pensão, poderá acordar m ais tarde. — E concluiu, tentando, sem êxito, fazer graça: — Sorte sua, com panheiro, sorte sua.
Fui para o quarto, peguei um livro, tentei ler, não consegui: estava excitado dem ais com os acontecim entos do dia e com o que estava por vir.
Ouvi um as pancadinhas na porta. Abri, e ali estava a Teresa:
— Desculpe a hora, Valdo, m as posso falar com você? Tenho um as coisas para lhe dizer.
Era a prim eira vez, em todas aquelas sem anas, que ela se dirigia a m im com naturalidade e de m aneira bem diferente, am istosa m esm o. Já não era a m ulher ríspida, exasperada, de antes. Não, agora era outra pessoa, com ar afetuoso, conciliador, até: incrível transform ação. Resultado do alívio proporcionado por m inha partida im inente? Rem orsos por ter, no passado, m e tratado m al?
Entre, eu disse. Ela entrou, sentou na cadeira, respirou fundo:
— Tenho de lhe pedir desculpas, Valdo.
Desculpas? Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. A agressiva Teresa pedindo desculpas? Realm ente ela m udara.
A senhora não tem do que se desculpar, com ecei a dizer, m as ela m e interrom peu:
— Tenho, sim . Não tratei bem você. Para dizer a verdade, tratei você m uito m al... Reconheço: fui estúpida, grosseira. Sei disso. Mas quero que você saiba: não é nada contra você. É a m inha raiva, Valdo, o m eu ressentim ento.
Raiva? Ressentim ento? Eu não sabia do que ela estava falando, e ela própria hesitou, talvez arrependida de ter iniciado aquela conversa; agora, contudo, iria até o fim :
— Você deve estar se perguntando o que, em você, m e desagradou tanto, despertou tanta raiva em m im . Nada, Valdo. Nada, absolutam ente nada. Você é um bom garoto, um a beleza de pessoa. Em outras circunstâncias eu adoraria conversar com você, gostaria de lhe aj udar. Mas aconteceu um a coisa, Valdo, que m udou tudo. Você... Você ocupou este quarto, Valdo. Você foi, em m uito tem po, a prim eira pessoa que ocupou este quarto, que dorm iu nessa cam a. Não lhe falei nisso e acho que o Hércules tam bém não, m as este quarto nos traz recordações m uito, m as m uito dolorosas. Este quarto, Valdo, era de m inha filha Rosa.
Interrom peu-se, escondeu o rosto entre as m ãos e ficou ali, chorando baixinho. Eu não dizia nada, não sabia o que dizer. Finalm ente criei coragem e perguntei o que tinha acontecido com a Rosa, tem endo ouvir um a resposta do tipo “Morreu, a pobrezinha”. Mas não, Rosa não tinha m orrido:
— Ela brigou com a gente, Valdo. A Rosa brigou com a gente. Sem pre foi rebelde, sem pre nos causou problem as. No colégio im plicava com os colegas, com a professora. Volta e m eia éram os cham ados lá. Achávam os que era coisa de m enina birrenta, que com o tem po m elhoraria, m as que nada, a cada ano a coisa ficava pior. Acabou expulsa do colégio; não quis m ais estudar, passava os dias em casa lendo aqueles livros dela, aqueles livros sobre revolução. E nos dizia coisas m edonhas. Nós, os pais, éram os inim igos. Opressores, com o ela falava, essa linguagem que você conhece. Faz uns quatro anos, entrou na política. Com o o pai. Só que o Hércules é com unista e ela é anarquista. Para m im são coisas parecidas, m as, você sabe, com esse pessoal da esquerda é assim : quanto m ais parecidos, m ais brigam . Os dois ficavam o tem po todo batendo boca, um ofendendo o outro. Até que um a noite, no j antar, o Hércules perdeu a cabeça e j ogou o prato nela, na própria filha. A Rosa não disse nada. Levantou da m esa, foi para o quarto, arrum ou a m ala, avisou que ia em bora para nunca m ais voltar. Cum priu a palavra, não voltou m esm o. Mil vezes eu pedi ao Hércules que fosse atrás dela, que pedisse desculpas, que a trouxesse de volta. Mas não, o hom em é cabeçudo. A Rosa tinha a quem puxar.
Suspirou:
— Com o você pode im aginar, nunca perdoei o Hércules. Por causa dele, eu, por assim dizer, perdi m inha filha, m inha única filha. A Rosa sum iu. E olhe que fiz força para encontrá-la. Apelo até para program as de rádio: vou lá, falo ao m icrofone, conto o m eu dram a, coisa que m e dá m uita vergonha, m as que eu faço porque m ãe é m ãe, m ãe tem de se sacrificar, tem de im plorar, tem de rastej ar até. Suplico à Rosa que volte, que pelo m enos m e m ande um a carta dizendo com o está. Inútil. Ontem foi o aniversário dela, a Rosa com pletou vinte e seis anos e não pudem os lhe dar os parabéns, porque sim plesm ente não sabem os por onde anda; nem sabem os se está viva. A única coisa que tenho dela é isto, um a foto que deixou aqui no quarto.
Mostrou-m e um a foto de um a m oça bonita, sorridente, m as de ar determ inado; era daquelas m ulheres que sabem o que querem , que vão atrás do que querem , sem se im portar com obstáculos.
— E aí — prosseguiu — o Hércules traz você para a nossa casa, m e diz que você é um j ovem com panheiro, que precisa ser aj udado, e instala você no quarto de m inha filha, dá a você a cam a em que ela dorm ia. Você pode im aginar a raiva que senti. Infelizm ente, descarreguei essa raiva em você, pelo que lhe peço perdão.
Com ecei a dizer qualquer coisa do tipo ora, que é isso, a senhora foi ótim a, m as ela m e interrom peu:
— Não diga nada, Valdo. A esta altura de m inha vida sei reconhecer os m eus erros. Mas você pode m e aj udar. Fale com ela. Fale com a Rosa. Vocês dois estão nessa coisa de revolução, pode ser que vocês se encontrem num a reunião, num com ício. E aí você diz a ela: “Não faça isso, Rosa, não abandone seus pais, eles não podem viver sem você...”.
Com eçou a chorar baixinho. Eu a olhava sem saber o que dizer. Encontrar a Rosa? Vã esperança, a dela; pensava que, por serm os am bos esquerdistas, isso pudesse acontecer. Mas, com o ela m esm a dissera, anarquistas e com unistas eram inim igos; se algum dia nos encontrássem os, a Rosa e eu, m ais provavelm ente acabaríam os discutindo, quem sabe trocando ofensas. Mas não era o m om ento de fazer tais ponderações; eu não tinha por que aum entar o sofrim ento da pobre m ulher. Sim , eu disse, se eu falar com a Rosa, conto que m orei aqui, que testem unhei o sofrim ento de vocês, peço que volte para casa, que term ine com a briga.
Teresa se m ostrou m uito agradecida. Desej ou-m e êxito no em prego (“É um a coisa bonita, construir o Cristo no Corcovado, sei que vocês, com unistas, não acreditam na religião, m as é um trabalho abençoado, Jesus recom pensará você”) e disse que, m esm o m orando na pensão, eu poderia visitá-los quando quisesse: estaria sem pre convidado para com er com eles.
Saiu, finalm ente. Cansado, estirei-m e na cam a e, vestido com o estava, adorm eci. Se sonhei, não lem bro; só sei que às quatro da m anhã soou, estridente, o despertador que Hércules tinha m e em prestado. Saltei da cam a, pronto, ou pelo m enos assim eu achava, pelo m enos assim eu queria achar, para a m inha nova vida.
* * *
Hércules e Teresa ainda estavam dorm indo quando saí. Mas j á havia gente na rua, àquela hora: hom ens e m ulheres que, com o eu, iam para o trabalho. Gente silenciosa, apressada, gente de fisionom ia séria, sofrida. Meus com panheiros, queridos com panheiros trabalhadores. No alvorecer deste novo dia eu vos saúdo, com panheiros. Eu vos abraço, Milhões.
O j úbilo se apossou de m im , m eu neto, um j úbilo que tinha razão de ser: eu não m e deixara abater, eu partira para a luta, eu estava com eçando um a nova etapa em m inha j ornada.
Teoricam ente eu tinha m uito tem po, m as m e atrapalhei com o transporte, tom ei o ônibus errado, perdi o trem , acabei chegando ao Corcovado com m eia hora de atraso. Joaquim m e recebeu de cara am arrada:
— Prim eiro dia, e você j á chega tarde? Nós aqui exigim os pontualidade, m eu caro. Você vai ser descontado.
Olhou-m e, de cim a a baixo:
— Eu não tinha falado para você vir com roupa de trabalho? Essa sua roupinha fraj ola não serve para o serviço.
Confuso, expliquei que não tivera tem po para providenciar outras roupas, m as que faria isso logo. Está bem , disse ele im paciente, então vam os ao que interessa. Mostrou-m e um a pilha de sacos de cim ento: eu teria de transportá-los até o lugar em que os operários estavam trabalhando, algum as dezenas de m etros adiante. E com o é que eu levo isso?, perguntei. Ele soltou um a gargalhada:
— Com o é que você leva isso? Nas costas, m eu caro! Nas costas! A m enos que você tenha alguém que carregue os sacos para você.
Sem um a palavra, peguei um dos sacos. Eu era um guri forte e estava acostum ado a carregar peso: m uitas vezes, a pedido de m eu pai, levara novilhos para o curral. Mas transportar novilhos era coisa relativam ente fácil: patas dianteiras sobre um om bro, patas traseiras sobre o outro, barriga apoiada na nuca; um a coisa até agradável, por causa do calorzinho do bicho. Com o saco de cim ento, porém , era diferente. Tratava-se de form ato hostil; não havia nada ali que facilitasse a preensão. E o peso era grande. Quando, com enorm e dificuldade, coloquei o prim eiro nas costas, cheguei a perder o equilíbrio; cam baleei, m as não caí. Cair era algo que eu não poderia m e perm itir, equivaleria a um a derrota, sobretudo diante do m estre de obras, que evidentem ente estava se divertindo com a cena. Com m uito esforço, tratei de acom odar com o podia aquela coisa sobre o dorso e, quando consegui, fiz o traj eto indicado. O segundo saco j á foi m ais fácil; fui aperfeiçoando a técnica de transporte e por fim levei a pilha toda. E baldes cheio de areia, e vergalhões de aço... Não era pouco o que havia para transportar.
Ao m eio-dia, eu j á exausto, soou o sino: pausa para o alm oço. Os outros operários tinham suas m arm itas. Eu não. Na verdade, ao sair de casa naquela m anhã sim plesm ente esquecera de que precisaria com er. Poderia ter levado um sanduíche, um a laranj a; Teresa, que agora m e tratava cordialm ente, m e daria de bom grado um farnel. Mas eu não m e lem brara disso. Paciência.
Sentei-m e num a pedra e, esfom eado, fiquei olhando os hom ens com er. Um deles teve pena de m im , ofereceu-m e um a banana. Recusei, m as insistiu; para m e convencer — devia ser um cara m uito bom , ele, quem sabe um potencial com panheiro de luta revolucionária —, disse que detestava banana, a m ulher é que colocava aquilo em sua m arm ita; se eu não a com esse, ele de qualquer m odo a j ogaria fora. Num abrir e fechar de olhos devorei a banana. Foi o m eu alm oço.
Quando term inou o dia eu estava um trapo. O corpo todo m e doía, eu tinha bolhas nas m ãos. Mas a verdade era que sobrevivera; chegara ao fim da j ornada, o que não deixava de ser m otivo de orgulho. E de alegria: estava m uito contente com o que m e parecia um triunfo.
Mas era, m esm o, um triunfo? Minha tarefa consistira, basicam ente, em transportar sacos de cim ento e baldes de areia do ponto A para o ponto B. O que significava aquilo? Que traj etória era aquela? O que, nela, acontecia? O que parecia um sim ples transporte de m ateriais de construção na verdade era parte de um processo m ais com plexo e com óbvias im plicações. No ponto B, areia e cim ento se transform ariam na m atéria da qual seria feito o m onum ento ao Cristo Redentor; o ponto B (B de burguês? Certam ente não B de bolchevique) era, portanto, o possível, e provável, fulcro de um a m istificação, de um gigantesco engano. Constatação am arga para quem , com o eu, esperava, através do trabalho físico, transform ar-se num ser hum ano m elhor, no novo hom em que construiria um a nova sociedade.
Nova sociedade? Não era isso o que o m estre de obras Joaquim esperava de m im . Queria que eu participasse na construção do Cristo Redentor, que eu em penhasse m eu esforço naquilo que denom inara “um a causa”; m as, sobretudo, queria que eu executasse as tarefas que m e eram delegadas, que eu cum prisse suas ordens: leve a areia e o cim ento, não fale, não pense. Agora: um a coisa era seguir um a determ inação do Partido Com unista, coisa que eu faria de im ediato, sem vacilar, se e quando m e tornasse um m ilitante; outra coisa era conform ar-m e àquilo que o m estre de obras, um representante patronal, um capanga do sistem a, um avatar do capitalism o, m andava. Eu m e tornaria um resignado servidor, um daqueles pobres-diabos que dependem do esforço físico para esquecer a cruel realidade, para não pensar.
O que, para m uitos, poderia ser um obj etivo com preensível. Pensar, e eu praticam ente não fizera outra coisa desde que chegara ao Rio, era coisa angustiante. Melhor seria, diria o m estre de obras, não raciocinar; m elhor descarregar através da m isericordiosa válvula de escape do trabalho físico a dúvida e a ansiedade. Mas não significaria isso ver no trabalho um ópio, sem elhante ao ópio da religião, trocar as rezas, rituais e penitências de m inha infância pelo m ecânico e repetitivo esforço físico? Não seria cada passo dado entre o ponto A e o ponto B (no total sessenta e oito passos, eu j á contara) um com ponente do processo de autom atização que transform ava operários em robôs alienados, em dóceis com ponentes do sistem a?
Eu não tinha respostas para essas perguntas; para obtê-las, precisaria recorrer ao Astroj ildo Pereira, se e quando o encontrasse. Enquanto isso não acontecia, e para não m e am argurar ainda m ais, resolvi encarar a situação com confiança, com o otim ism o dos verdadeiros revolucionários: bem ou m al, certo ou errado, transportando areia ou cim ento, eu m e tornara um operário da construção, um trabalhador, com a experiência do trabalhador, com os direitos do trabalhador, aqueles direitos que o sofrim ento do duro trabalho j ustifica. O lem a “proletários de todo o m undo, uni-vos” agora m e incluía e m arcava o início de m inha j ornada no cam inho do com unism o. O que era m ais que suficiente para um com eço de j ornada proletária. Jornada, aliás, esperançosa: o ponto B, disso eu estava certo, não seria o m eu destino final. Haveria um ponto C, um ponto D, um ponto E, um ponto F, um ponto G (que para tua geração tem outro, e m alicioso, sentido), e assim por diante; pontos que balizariam o cam inho da transform ação. As letras que os designassem form ariam o alfabeto com o qual eu escreveria um a nova e prom issora história.
O acaso daria um a sim bólica confirm ação a m eu raciocínio. Na saída do trabalho tom ei o trem para o Cosm e Velho; lá chegando, vi na rua um am bulante que vendia roupas usadas, expostas sobre um a m esa tosca. Curioso, aproxim ei-m e. Ali, entre am assados chapéus, casacos puídos e calças velhas, estava algo que parecia ter sido reservado para m im , algo que coroaria aquele dia decisivo.
Um m acacão. Um m acacão de brim m uito usado; desbotado, com m anchas escuras e um pequeno rasgão no fundilho. Mas apesar disso, ou por causa disso, fascinou-m e, aquele m acacão. O que eu estava vendo ali não era um a peça de vestuário, era um sím bolo, o sím bolo do m undo do trabalho no qual eu acabara de entrar.
O vendedor notou m eu interesse, tratou de estim ular o potencial cliente:
— É bem o seu tam anho, vai ficar m uito bem em você.
Perguntei o preço. Era barato, e agora eu poderia com prá-lo: no fim do m ês estaria recebendo o salário.
Com prei o m acacão. Exultante, com eti o erro de dizer ao hom em que achara o preço m uito baixo, um a pechincha. Coisa de que o vendedor não gostou nada; dava-se conta agora de que fora trouxa: de um garoto do interior, com indisfarçável sotaque gaúcho, poderia ter cobrado m uito m ais. Mas vingou-se:
— Sabe por que lhe cobrei pouco, m eu am igo? Porque era de um m orto. Ninguém quer com prar roupa de m orto, ainda m ais o m acacão de um suj eito que m orreu caindo de um andaim e, coisa horrível, o cara ficou despedaçado. Essas m anchas escuras que você está vendo aí são de sangue. Espero que isso não aconteça com você, m as ninguém garante nada, não é m esm o? O futuro a Deus pertence.
Mirou-m e, triunfante, achando que com aquilo tinha ido à forra. Mas se enganava. A m im não im portava que o operário dono daquele m acacão tivesse m orrido num acidente de trabalho. Pelo contrário, usar a tal roupa era um a coisa sim bólica, um a hom enagem à sacrificada classe operária, e um sinal de m inha própria transform ação. Eu estava dando continuidade à vida de um trabalhador que, desconhecido em bora, certam ente lutara, am ara, sofrera, e m orrera com o um anônim o herói. Não se tratava só de um m acacão; tratava-se de um uniform e de com bate, digno de ser usado na batalha final contra o capitalism o. De m odo que agradeci a inform ação e fui em bora com o m eu troféu.
No dia seguinte lá estava eu, na obra, vestindo o m acacão. Joaquim m irou-m e com ar aprovador, m as disse que eu poderia ter escolhido coisa m elhor, m esm o de segunda m ão. A observação não chegou a m e incom odar; eu estava anim ado, e trabalhei com um vigor inesperado até para m im .
O dom ingo seguinte era o dia da m udança. Arrum ei m inhas poucas coisas e fui com Hércules à pensão do Cosm e Velho, que daí em diante seria m inha residência.
Era um a casa enorm e, m uito antiga, protegida por grades com ponta de lança iguais às que eu vira na serralheria. A dona, Maria Clara, viúva de um com erciante arruinado, garantia seu sustento alugando quartos para hom ens e rapazes solteiros, em geral gente hum ilde com o eu. Sem filhos, Maria Clara tratava os hóspedes com cuidados quase m aternais e cobrava um pouco m ais barato que os estabelecim entos do gênero. Era sim pática, aquela m ulher, alta, m orena, de grandes olhos escuros. Já m adura, conservava sinais da antiga beleza (na j uventude fora eleita rainha do Cosm e Velho); vestia-se com elegância, estava bem m aquiada.
Recebeu-m e com efusão, declarando-se fã dos gaúchos — tinha parentes no Alegrete e gostava de churrasco, de chim arrão, de cavalos. A Hércules disse que não se preocupasse: eu estava em boas m ãos.
Chegara o m om ento da despedida. Acom panhei Hércules até a porta. Antes de sair, ele voltou-se para m im , estendeu-m e a m ão: isto não é um adeus, disse, com um sorriso forçado, a gente logo vai se ver, não tenha dúvida. Obviam ente sentia rem orsos por não ter agido com o um com unista generoso, m as a verdade é que não via em m im — não poderia ver em m im — um com panheiro de partido; afinal o que era eu, senão um garoto que o destino j ogara em sua vida? Contudo, disse que confiava em m im , no m eu idealism o, na m inha coragem e na m inha dedicação à causa: aliás, nunca vira ninguém estudar tanto o m arxism o com o eu. Quando finalm ente Astroj ildo Pereira retornasse, eu poderia encontrar m eu lugar na m ilitância. Coisa que, ele esperava, logo aconteceria:
— Assim que o cam arada voltar, faço contato com você.
Desej ou-m e felicidades e se foi.
E ali estava eu, iniciando m ais um a etapa num a vida que se revelava cada vez m ais com plicada e na qual o inesperado era a regra. Precisava avisar a m eus pais sobre a m udança e sobre o em prego na obra do Cristo, m as com o explicar-lhes essas coisas, com o dizer que j á não era estagiário na grande em presa? E, acim a de tudo, com o j ustificar m inha perm anência no Rio? Perguntas inquietantes, m as eu teria de procurar respostas m ais tarde. No m eio-tem po Maria Clara trouxera um a bandej a com café e bolachinhas:
— Desculpe, m as chim arrão eu não tenho...
Sentou a m eu lado, no grande sofá da sala de estar, disposta a bater papo. Era, com o não tardei a descobrir, algo que adorava fazer. Falou sobre sua vida de casada, recordou o m arido, que era de fam ília nobre, m as totalm ente incom petente para ganhar a vida:
— Por sorte herdei esta casa, de m odo que pelo m enos tínham os um lugar onde m orar, um bom lugar, aliás: este era, ainda é, um bairro de gente rica, im portante. Você sabe quem m orou aqui, no Cosm e Velho? Ninguém m enos que o Machado de Assis. O grande escritor, conhece? Claro que sim , todo m undo conhece.
Felizm ente não m e perguntou o que eu achava do Machado. Questão em baraçosa; se eu lhe dissesse o que pensava do escritor, provavelm ente estaria iniciando um a longa e azeda discussão. Mas ela j á continuava:
— Ele m orava perto daqui; m uitas vezes, eu, ainda garota, encontrava-o, j á idoso, cam inhando pela rua, m eio distraído. Na certa pensando em tem as para seus rom ances. Mas, m esm o distraído, nunca deixou de m e cum prim entar, nunca. Era bom dia, dona Maria Clara, e boa tarde, dona Maria Clara... Um hom em m uito gentil, Valdo. Mulato, decerto, e de origem pobre, m as gente fina. Pelo m enos foi o que sem pre achei. Porque, Valdo, não sou dessas pessoas m etidas a sebo, que desprezam quem não tem sangue nobre, quem não é rico. Para m im o Machado valia m ais que dez viscondes, que vinte m ilionários.
Sem saber o que dizer, eu perm anecia calado. Um silêncio que a deixou decepcionada: certam ente esperava de m im um a reação entusiástica, que coisa fantástica, dona Maria Clara, quer dizer então que o Machado, o grande Machado de Assis, lhe cum prim entava, que m aravilha, a senhora é um a privilegiada. Mas ela queria continuar conversando sobre o tem a. Perguntou se eu conhecia Dom Casmurro. Sim , respondi, eu conhecia a obra, lera no colégio.
— E você lem bra da Capitu?
Sim , eu lem brava da Capitu. E ela, com ar a um tem po triunfante, cúm plice e safado:
— Pois a Capitu foi inspirada em m im , Valdo. Ninguém m e disse, m uito m enos o Machado, m as é um a coisa da qual tenho absoluta certeza. Mais j ovem , eu era igual à m oça que o Machado descreve. Igual, igualzinha. Olhos de ressaca e tudo. Aliás, m eu pai, de saudosa m em ória, j á dizia: você, Maria Clara, tem olhos de ressaca.
Inclinou-se para m im e sussurrou:
— Acho até que o Machado copiou essa expressão do papai. Os dois se conheciam , volta e m eia conversavam . Papai tinha veleidades literárias, m ostrava a Machado os textos que escrevia, falava de seus proj etos...
Endireitou-se na cadeira, suspirou:
— Machado era um verdadeiro deus para m eu pai. E para m im tam bém .
Sorriu, brej eira:
— Num a época até m e apaixonei por ele. Tinha enviuvado, o coitado, estava m uito triste; além disso, as circunstâncias aj udavam : m orava sozinho, um furtivo rom ance em sua casa não seria im possível. Verdade que era m uito m ais velho do que eu; velho, e feio, e epiléptico, e gago, m as am or de adolescente é assim m esm o, essas coisas não contam , ao contrário, às vezes até servem de estím ulo, despertam o desej o. Eu esperava com ansiedade a hora em que ele voltava do trabalho; ficava ali, no j ardim , regando as plantas, torcendo para que m e olhasse, que sorrisse.
Melancólico suspiro.
— Mas não. Ele m e cum prim entava, com o eu disse a você, e cum prim entava m uito am avelm ente, m as não passava disso. Pelo j eito estava m ais interessado na Capitu de sua história do que na Capitu da vida real: eu. Escritores, você sabe, vivem num outro m undo, num a outra realidade. Coisa que acabei aceitando. Continuei a ler seus livros, adm irava-o cada vez m ais. Quando ficou doente, cheguei a pensar em visitá-lo em sua casa, quem sabe aj udá-lo no que fosse possível. Mas eu era um a garota ainda, m eus pais j am ais m e autorizariam a fazer isso. Conta-se aqui no Rio que um rapaz desconhecido o visitou, que beij ou sua m ão... Se é verdade, esse rapaz fez o que eu gostaria de ter feito. Beij ar a m ão do m oribundo Machado ao m enos m e serviria de consolo, seria um a recordação que m e acom panharia pelo resto da vida.