Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Novo suspiro:
— Enfim , Machado m orreu, a vida continuou, casei, enviuvei, e agora tom o conta desta pensão e conto histórias, m uitas histórias. Quando com eço a falar não paro... Estou aborrecendo você?
Respondi que não, que aquilo tudo era m uito interessante, que por m im ficaria a ouvi-la por horas a fio, m as que precisava arrum ar m inhas coisas, para o que lhe pedia licença.
— Claro — apressou-se a dizer. — Venha, vou lhe m ostrar o cam inho.
A pensão tinha oito quartos, cada um para duas pessoas; no m om ento, porém , havia apenas três hóspedes, de m odo que eu poderia ficar sozinho — por quanto tem po, ela não sabia.
Levou-m e até o quarto. Era um aposento espaçoso, com duas cam as, um grande roupeiro, m esa, cadeiras e até um a velha poltrona. O banheiro, de uso com um , ficava no andar de baixo, m as sobre a m esa havia um a bacia, um a j arra de água, toalhas e sabão, de m odo que eu poderia m e lavar ali m esm o.
— Que tal? Gostou? — Ela, evidentem ente, estava orgulhosa das acom odações. Claro que gostei, apressei-m e a responder. Minha anim ação não era de todo fingida. O quarto era apenas um a m oradia provisória, num a vida que se revelava cada vez m ais provisória; m as em m atéria de provisório era o m elhor que eu poderia esperar, e eu m e sentia grato pelo acolhim ento; bem diferente daquele que, por com preensíveis m otivos em bora, eu recebera de Teresa. Fui eloquente nos elogios, o que a deixou satisfeita:
— Ótim o. Sinta-se em casa; volto m ais tarde para saber se está tudo bem .
Guardei m inhas poucas roupas, m eus livros e aí procedi a um a cerim ônia que para m im era im portante, transcendental: com sabão grudei na parede a foto de Marx, coisa que não ousara fazer na casa de Hércules — por causa de Teresa, claro, que não suportaria qualquer m odificação feita em sua casa por um hóspede, sobretudo um hóspede indesej ado.
Estava ali, olhando em ocionado o velho Karl, quando Maria Clara voltou. Viu a foto, franziu a testa: pelo j eito, não gostara daquela tosca decoração. Mas, m ulher gentil, não m e diria isso. Lim itou-se a perguntar quem era aquele hom em .
Responder era um problem a. Para evitar com plicações eu não poderia falar a verdade; m as tam bém não queria m entir dizendo, por exem plo, que se tratava de um escritor. Mesm o porque aquilo só m e criaria outro problem a. Diferentem ente de m inha m ãe, Maria Clara quereria saber m ais sobre o suposto literato. Ora, m inha capacidade de inventar histórias, de criar personagens, era lim itada. De m odo que optei por apresentar Marx com o um fam oso m édico do Rio Grande do Sul, um doutor de origem alem ã que cuidava de m inha fam ília havia m uitos anos e que m e salvara a vida quando eu era criança. Aparentem ente m inha explicação a satisfez e ela m udou de assunto: notou que o m acacão, ali pendurado, não estava m uito lim po:
— Posso m andar lavá-lo, não vai custar nada. Você quer?
Não havia com o recusar, de m odo que aceitei o oferecim ento, ainda que as m anchas e a suj eira não m e incom odassem , ao contrário: davam testem unho do heroísm o do trabalho. Maria Clara pegou o m acacão e saiu.
Sozinho novam ente, sentei à m esa, peguei a caneta e escrevi num a folha de caderno um a longa carta para m eus pais, dizendo que tinha m udado de endereço e que arranj ara um novo em prego, com salário m elhor (salário m elhor: bom argum ento). Deveria dizer que em prego era esse? Pensei um pouco e resolvi que sim , que ao m enos um a vez poderia falar-lhes a verdade acerca do que eu fazia no Rio. Contei, pois, que estava trabalhando na construção de um grande m onum ento a Jesus Cristo, um a coisa de que logo o Brasil todo estaria falando.
Tu vais te perguntar por que fiz isso. Por m inha m ãe, claro. Seria para ela um consolo, um a alegria: m eu filho está sob a proteção de Nosso Senhor Jesus Cristo, nada de m au pode lhe acontecer. Mas o certo é que aquilo m e envergonhava. Não era um a m entira, era a verdade, m as um a verdade potencialm ente reacionária; eu estava renunciando à m inha obrigação, que era convencer m eus pais a apoiar m inha luta revolucionária, a renunciar ao ópio da religião. Em vez disso eu estava bancando o m enino virtuoso: “Sim , m am ãe, eu sou bonzinho, Jesus gosta de m im ”. Da parede, Marx m e dirigia seu duro e reprovador olhar.
À m esa do j antar, Maria Clara m e apresentou os outros hóspedes: um estudante de filosofia, rapaz quieto, ensim esm ado, e um representante com ercial, hom em ainda j ovem , recém -desquitado, que falava o tem po todo sobre seus planos para ganhar dinheiro. Ao saber que eu trabalhava na construção do Cristo interessou-se; quis saber sobre a possibilidade de, em caráter de com odato, instalar um restaurante na base do m onum ento:
— Um estabelecim ento fino, naturalm ente, decorado com im agens religiosas e que doaria parte de seus lucros a estabelecim entos de caridade. Serviríam os lanches, alm oço, j antar... Poderíam os oferecer o lugar para recepções, batizados, festas de prim eira com unhão...
Entusiasm ou-se:
— Você j á im aginou um a festa de casam ento aos pés do Cristo? Seria um m atrim ônio m ais que abençoado, as pessoas o veriam com o o com eço auspicioso de um a nova vida. — Sorriso triste: — Se eu tivesse casado assim , nunca teria m e separado.
Fez-m e prom eter que eu apresentaria a ideia aos responsáveis pela obra. Prom eti, claro. Depois que a gente com eça a m entir, não para m ais.
Na m anhã seguinte constatei que Hércules tinha razão: do Cosm e Velho era fácil ir ao Corcovado. Tudo o que eu tinha a fazer era tom ar o trem na pequena estação ali perto. Envergando o m acacão que a em pregada de Maria Clara lavara e passara, cheguei dez m inutos antes da hora, ganhando um elogio do Joaquim . Naquele dia ele estava com vontade de conversar, e se dispôs a m e explicar o gigantesco proj eto de que eu agora fazia parte. A ideia original fora de um padre francês, Pierre-Marie Bos, que estivera no m orro do Corcovado em m eados do século dezenove e se dera conta de que o cham ado Pináculo da Tentação (o antigo nom e era um a alusão ao lugar em que, no Novo Testam ento, o dem ônio tenta Cristo) poderia sediar um m onum ento da fé. E a ideia ganhara força:
— Graças ao apoio do povo. Você sabe quantas pessoas subscreveram o abaixo-assinado pedindo ao presidente a construção do Cristo? Vinte m il. Vinte m il, j á pensou? É m uita gente, Valdo, é gente que não acaba m ais. Ah, e organizaram tam bém um a cam panha para arrecadar dinheiro. Um a ninharia, duzentos réis, m enos que o preço de um a caixa de fósforos, m as assim todo m undo podia contribuir, e todo m undo contribuiu. Claro, teve gente que desaprovou o proj eto. Os batistas diziam que se tratava de idolatria. E os esquerdistas eram contra, claro, os anarquistas, os com unistas... Aliás, você sabia que originalm ente o Cristo seria de bronze? Mas essa ideia foi abandonada. Sabe por quê?
Não, eu não sabia. Ele sorriu, irônico.
— Por causa dos bolcheviques. Quando tom aram o poder lá na Rússia, confiscaram as estátuas de santos e derreteram -nas para aproveitar o bronze. Claro, isso dificilm ente aconteceria no Brasil, m as por via das dúvidas os responsáveis pelo proj eto resolveram m udar o m aterial do qual seria feito o m onum ento. Com os com unas nunca se sabe. Num a dessas chegam ao governo e aí, adeus, Cristo Redentor. Esses caras têm pacto com o diabo, você não acha?
Balancei a cabeça, concordando. E poderia discordar? Poderia dizer que os soviéticos haviam feito m uito bem , que estátua de santo é coisa de gente ignorante, supersticiosa, e que o bronze deveria ser usado com o m atéria-prim a na construção de um a nova sociedade, de um m undo m elhor? De j eito nenhum . Mas sentia-m e incôm odo com aquela conversa, que, felizm ente, não teve continuidade: Joaquim precisava ir ao escritório. Mas antes tirou do bolso um folheto:
— Aqui você encontra m ais detalhes sobre a obra. Leia, você vai achar interessante.
Li o m aterial na hora do alm oço. Fiquei sabendo que o proj eto fora selecionado num concurso público realizado em 1923, vencido pelo engenheiro Heitor da Silva Costa, hom em , com o era de im aginar, m uito católico. Dizia o folheto que Silva Costa se inspirara na gigantesca antena de rádio em form a de cruz que o governo instalara no alto do Corcovado em 1922 para um a experiência pioneira de radiofonia, hom enagem ao centenário da Independência. Em 1924, Heitor Costa viaj ara para a França em busca de profissionais que o aj udassem . Lá conhecera Paul Landowski, polonês de origem , escultor fam oso, um dos expoentes do m ovim ento art nouveau, então em seu início. O Cristo do Corcovado seria um a das prim eiras expressões desse m ovim ento, não só no Brasil, no m undo inteiro. A partir dos m oldes de gesso confeccionados na França, a cabeça e as m ãos seriam construídas em concreto arm ado, m as para o revestim ento final o m aterial escolhido era a m uito brasileira pedra-sabão. Os encarregados da obra eram os engenheiros Pedro Vianna da Silva e Heitor Levy . Pedro Vianna da Silva eu j á vira por ali, m as Heitor Levy em geral ficava em outro lugar: na sua própria chácara de São Gonçalo, Niterói, cedida por ele para depósito das partes m ais im portantes do m onum ento, a cabeça e as m ãos, que, na fase final da obra, seriam trazidas para o Corcovado.
Redigido em linguagem gongórica, rebuscada, o folheto pretendia obviam ente im pressionar os leitores. Com igo aconteceu exatam ente o contrário: fiquei indignado. Tudo aquilo, o em preendim ento, a propaganda, o recrutam ento das pessoas, tinha, a m eu ver, um único obj etivo: enganar, m istificar as m assas. Marx estava absolutam ente certo: a religião era o ópio do povo. Mas, eu era obrigado a reconhecer, tratava-se de um em preendim ento triunfante, aquele do Cristo Redentor. Seu apelo em ocional era enorm e. Disso m inha m ãe era exem plo típico. Se um crucifixo relativam ente pequeno despertava nela, pessoa sim ples e hum ilde, um a fé ardente, que dizer de um a estátua m onum ental do Cristo, a m aior do Brasil, talvez do m undo?
O pior, para m im , não era o esm agador gigantism o do m onum ento. O pior era participar da construção daquele Cristo. Eu era cúm plice de um engodo. Agora: se eu m e dava conta disso, por que ficava ali, levando sacos de cim ento do ponto A para o ponto B? Por que não ia em bora?
A resposta surgiu em m inha m ente com clareza m eridiana, m ostrando-m e inclusive que, apesar de tudo, eu tinha progredido no cam inho do entendim ento. Aquele em prego era um teste, um duro, m as necessário, teste. Se conseguisse m anter m inhas convicções enquanto o Cristo subia do chão, estaria provando a m im próprio que continuava fiel ao pensam ento revolucionário, que o m aterialism o histórico derrotava a religião. E eu venceria, tinha certeza. Se Geninho estivesse ali, sem dúvida m e apoiaria: tu estás certo, Valdo, vai em frente, a vitória é tua, é de nós todos.
Satisfeito, voltei ao trabalho. Carregar baldes de areia estava m ais para o m onótono que para o heroico, m as de repente m e ocorreu um a ideia para transform ar aquela atividade em algo m enos em brutecedor e m ais útil para a revolução: enquanto fizesse o traj eto do ponto A para o ponto B, repetiria para m im próprio passagens do Manifesto: “A sociedade divide-se cada vez m ais em dois vastos cam pos contrários, em duas grandes classes diam etralm ente opostas: a burguesia e o proletariado”; e: “O capitalism o destrói todos os laços fam iliares do proletário e transform a as crianças em sim ples obj etos de com ércio, em sim ples instrum entos de trabalho”; e ainda: “Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias”. Mal com parando, seria com o salm odiar preces, m as preces progressistas, preces revolucionárias. Nada de religião. Nada de ópio do povo.
Voltei para a pensão cansadíssim o. Os outros hóspedes j á tinham j antado; Maria Clara m e fez com panhia. Elogiei a carne preparada por ela. Riu:
— Foi um a hom enagem a você, gauchinho.
Olhava-m e, sorridente, com ar estranho. Tão estranho que um a certeza de im ediato brotou em m im : algum a coisa ela estava querendo. Algum a coisa ia acontecer. E aconteceu.
Term inada a refeição, fui para o quarto, deitei-m e e adorm eci em seguida. No m eio da noite, acordei sobressaltado: Maria Clara entrara sem que eu percebesse e se enfiara, nua, em m inha cam a, abraçando-m e. Você m e acolhe?, perguntou com um risinho. Certam ente não era a prim eira vez que fazia aquilo; m ais tarde descobri que aquele quarto era por ela denom inado de “esconderij o do prazer”: com o ficava no andar de cim a, isolado, podia entrar e sair sem ser vista, e o fazia toda vez que o aposento era ocupado por um único hóspede, com o agora — e desde que o hóspede lhe agradasse. O m eu caso.
A verdade é que a visita foi um a bênção. Maria Clara era, logo constatei, um a fêm ea experiente, um a artista do sexo: m eu desej o, longam ente represado, em ergiu de im ediato, im petuoso. Foi um a grande foda. Com um aspecto curioso:
— Me cham a de Capitu — ela gem ia, enquanto eu a penetrava.
Não gostei m uito daquela hom enagem à obra de um escritor reacionário, m as não era o m om ento de discutir a dialética da literatura, de m odo que fiquei repetindo, Capitu, Capitu, de início m eio desconcertado, depois entusiasm ado e por fim criativo, ainda que sutilm ente debochado: Capitu, Capitu, que bela fêm ea és tu. Ao que ela respondia: vai fundo, Machado, vai fundo, m inha racha é tua. O orgasm o foi m onum ental.
A partir daí, e inevitavelm ente, m inha vida passou a seguir um a rotina: eu levantava de m anhã, ia trabalhar, voltava, tom ava banho, m e perfum ava (o perfum e era presente e exigência da dona da pensão, que não gostava m uito do cheiro de suor, m esm o do suor resultante de um trabalho virtuoso, com o era a construção do Cristo), j antava, ia para o quarto; antes da m eia-noite era certo que Maria Clara/Capitu abriria a porta sem ruído, entraria na ponta dos pés, deitaria j unto a m im , e aí, dê-lhe sexo, ela sem pre im petuosa.
Mas só à noite, e só na cam a. Durante o dia, e na presença dos outros hóspedes, cuj o núm ero variava, às vezes eram três, às vezes seis ou sete, tratava-m e afavelm ente, m as de form a convencional, sem intim idades. Ou sej a: sexo era sexo, negócio era negócio. Aliás, continuava m e cobrando norm alm ente, nem um tostão de desconto. Lá pelas tantas a pensão lotou e tive de partilhar o quarto com um hom em de m eia-idade que enviuvara recentem ente e que não queria m ais m orar em sua casa, para ele era reduto de lem branças am argas. Não era com panhia agradável, aquele senhor; fum ante pesado, tossia e escarrava a noite toda, e além disso queixava-se sem parar, dor aqui, dor ali. E, claro, Maria Clara j á não aparecia. Eu desconfiava que estaria visitando outro hóspede, m as não iria investigar. Afinal, se ela queria variar de parceiro, que o fizesse, não m e dava ciúm e. Ela podia ser a Capitu, m as eu não era o paranoico e possessivo burguês Bentinho, conhecido com o dom Casm urro: que fizesse o que bem entendesse, nossa ligação era apenas ocasional.
De qualquer m odo, eu sentia falta de m ulher. Procurei a Denizete. Agora podia pagar, e ela não cobrava caro. Além disso, aquilo representava para m im um a vingança contra Maria Clara; a ela, m ulher arrogante, eu contrapunha um a trabalhadora do sexo, um a m ulher que vendia o corpo, m as que o fazia por causa da pobreza; um a vítim a do sistem a capitalista.
Denizete ficou m uito em ocionada: eu não m e esquecera dela. Pediu-m e perdão pela m aneira com o m e tratara m eses antes (“Eu estava m uito nervosa, você sabe que a vida da gente é difícil”) e propôs que, para celebrar o reencontro, j antássem os j untos — o sexo será brinde, disse, piscando o olho. Eu não gostava m uito de restaurantes, coisa da burguesia, garçons vestidos com o pinguins, arrogantes frequentadores; m as ela tanto insistiu que acabei concordando. Fom os ao Lam as, ela obviam ente com a esperança de ser vista por potenciais, e ricos, clientes. Pedim os pratos m odestos, m as m esm o assim a conta representava um rom bo nas m inhas econom ias. De todo m odo tivem os, naquela noite, num quarto de rendez-vous, um a relação absolutam ente m em orável, pela qual fiquei grato a Denizete. Mas, ai de m im , as consequências não tardaram : dias depois com ecei a sentir ardência ao urinar, e apareceu um corrim ento am arelo. Denizete m e passara um a gonorreia, isso num a época em que não existia penicilina. Tive de m e subm eter a dolorosas instilações de nitrato de prata na uretra, feitas por um m édico do Cosm e Velho, um hom em antipático e autoritário; durante o procedim ento, não parava de m e dar lições de m oral: isso é o que você ganha por frequentar m ulheres de vida fácil, rapaz. É um pecado e é um a burrice. O pecado, Deus pode perdoar, m as o gonococo não perdoa, e esse aí está fazendo o m aior estrago em sua uretra, quem sabe até em sua próstata.
No fim do ano passei por um a crise — por causa do Natal. Festinha burguesa, festinha religiosa? Sim , m as pela prim eira vez estava longe de m inha fam ília, longe do m odesto presépio que m am ãe m ontava todos os anos, m esm o com os filhos crescidos. Eu tinha poucas notícias; as raras cartas que vinham de lá, escritas por m eu irm ão, eram lacônicas, em bora às vezes contivessem detalhes surpreendentes. Um a delas dizia: “Quem sem pre pergunta por ti é o coronel Nicácio. Ele gosta m uito de ti, diz que és inteligente e que gostaria que um dia tom asses o lugar de nosso pai com o capataz da estância”. Fiquei surpreso, e indignado: realm ente, a arrogância do estancieiro não tinha lim ites. Eu, capataz na estância dele? Era só o que faltava. O coronel poderia contar com m inha presença, sim , m as no dia em que fosse enforcado, ou guilhotinado, ou fuzilado pelas forças da revolução: ali eu estaria presente, aplaudindo com entusiasm o a execução daquele cretino, daquele latifundiário de m erda. Mas isso não m encionei na carta que escrevi a m eu irm ão. Nosso relacionam ento era distante; ele não entendia m inhas posições ideológicas, nem estava interessado nelas. Cum pria apenas seu papel de m anter, m ediante correspondência, m eu vínculo com a fam ília. O que, para m im , era suficiente.
No Natal, os hóspedes em geral viaj avam para visitar os fam iliares. Os que por algum a razão não podiam fazê-lo ficavam tristes, sorum báticos. Por causa disso, naquele ano Maria Clara resolveu organizar um a ceia festiva. Noitada alegre; tom am os m uito vinho, ela m e olhando de m aneira sugestiva. De m adrugada, eu j á deitado, entrou silenciosam ente no quarto:
— Já que não tem reis m agos, tem Maria Clara — cochichou.
Da natalina com paração obviam ente não gostei, m as tive de reconhecer que estava m e dando um belo presente: foi ardente com o nunca, e pela prim eira vez não m e cham ou de Machado: m e cavalga, gaúcho, era o que dizia.
Cavalguei-a, sim . Não com o um latifundiário, não com o um arrogante coronel do pam pa, m as com o um com batente da revolução, com o um integrante da Cavalaria Verm elha de 1917 avançando para o triunfo e a glória. E triunfante, glorioso, era com o eu m e sentia. Triunfante, glorioso, esperançoso: 1930 seria o ano da virada, o ano em que as coisas finalm ente com eçariam a se aj eitar.
Em j aneiro a pensão voltou a ficar lotada, recebendo turistas de m odesta categoria. Fiz am izade com o Tião, um j ovem fotógrafo que viera do Nordeste com a esperança de arranj ar um em prego no Rio. Um rapaz sim pático, alegre, que passava o dia cantando o Taí, de Joubert de Carvalho (“Taí/ eu fiz tudo pra você gostar de m im ...”), que Carm em Miranda, até então praticam ente desconhecida, lançara com enorm e sucesso naquele com eço de 1930. Convenceu-m e a ir à praia; pela prim eira vez vesti um calção, em prestado por ele, tom ei banho de m ar. Tião fazia am igos com m uita facilidade, e logo se integrou a um grupo de gente j ovem , m oças e rapazes de classe m édia, educados, cultos. Eu saía j unto com esse pessoal; íam os a um boteco, tom ávam os chope, falávam os (falávam os é m odo de dizer; eles falavam , eu sobretudo ouvia) sobre literatura, sobre m úsica, sobre arte, m as não sobre política, um assunto que aparentem ente não lhes interessava. O que, devo confessar, a m im não incom odava. Sentia-m e grato pela acolhida que m e haviam proporcionado, pela generosidade, até: sabendo que eu trabalhava com o operário, nunca perm itiam que eu pagasse m inha parte. Algum as vezes até invej ei aquele pessoal que aparentem ente levava um a vida boa, divertida.
Mas não fora para isso que eu viera para o Rio, para fazer program as agradáveis e bater papo. Eu tinha um a m issão a cum prir; eu tinha de ingressar no Partido Com unista. A figura-chave para isso era um hom em cham ado Astroj ildo Pereira, que eu não conhecia e que nem sequer sabia onde estava: em Moscou, no Rio de Janeiro, na Bolívia, em outro lugar? A única pessoa a quem eu podia perguntar era o Hércules, e bem que tentei. Volta e m eia eu ligava para a serralheria; usava o telefone da pensão, pagando a taxa que Maria Clara im placavelm ente cobrava. Duas vezes consegui falar com Hércules, e nas duas vezes ouvi dele a m esm a resposta: não, ainda não tinha notícias do Astroj ildo Pereira. Na terceira vez atendeu o dono do estabelecim ento, que, im paciente, disse que eu estava proibido de ligar: m inhas cham adas prej udicavam os negócios.
Em fins de fevereiro tive um a surpresa. Um dia, ao voltar do trabalho, recebi da em pregada da pensão um recado: Hércules ligara, pedindo que eu o procurasse. O que de im ediato m e deixou num estado de trem enda excitação; nem j antei, corri à casa dele.
Recebeu-m e sem m uita efusão, o que m e deixou desagradavelm ente surpreso, e foi direto ao assunto: tinha um a notícia para m e dar.
— Inform aram -m e que Astroj ildo Pereira voltou de Moscou.
O tom era neutro, contrariado até. Algo estava acontecendo, algo que eu não entendia, m as que m e inquietava. Meio desconcertado, agradeci pelo aviso e perguntei onde poderia encontrar o Astroj ildo. Hércules fechou a cara:
— Não sei. E, para dizer a verdade, não sou a pessoa indicada para dar essa inform ação.
Com o? Não era a pessoa indicada para dar a inform ação? Hércules, o veterano m ilitante, integrante dos principais quadros com unistas no Rio de Janeiro, não era a pessoa indicada para m e inform ar sobre um líder do Partido? Quem , então, poderia fazê-lo? A polícia, talvez? Senti-m e na obrigação de m anifestar m inha estranheza: não acho que estej as agindo com o se espera de um com panheiro de luta, eu disse. Ele não queria discussão; ignorando m eu com entário, e sem entrar em detalhes, disse que um a recente disputa interna no Partido acabara por opô-lo a Astroj ildo e seus cúm plices (expressão dele). Até ali falara baixo, de form a contida, reservada; m as de súbito perdeu a calm a, e aí foi um a torrente de acusações:
— O Astroj ildo é inconfiável, é volúvel, m uda m ais que cata-vento. O Astroj ildo j á foi anarquista. O Astroj ildo j á defendeu a tese de que os proletários têm de se unir com os pequeno-burgueses. O Astroj ildo, que é m etido a intelectual, j á escreveu para revistas burguesas, até com o Mário de Andrade ele colaborou. O Astroj ildo foi com panheiro de pensão e am igo do Di Cavalcanti, aquele que para vender quadros só pinta m ulatas. O Astroj ildo é fã de um escritor reacionário, o Machado de Assis. O Astroj ildo é contra a disciplina, o Astroj ildo quer ser revolucionário à m oda dele, ou sej a, é um caso escarrado de individualism o burguês disfarçado de m ilitância. Astroj ildo Pereira? Não m e fale desse suj eito, Valdo. Se você quer continuar sendo m eu am igo, não m e fale desse suj eito.
Isso significava, concluiu, que eu teria de fazer um a opção:
— Ou ele ou nós. Se você quer j untar-se ao Astroj ildo, é decisão sua. Mas previno-lhe: se você fizer isso, nossos cam inhos se separam , você não pode m ais contar com igo. Continuam os am igos, claro, m as só am igos. Cam aradas, não m ais.
O que poderia eu dizer? Apesar de tudo, gostava de Hércules, para m im um m ilitante honesto, sincero. Mas eu fizera um a prom essa ao Geninho e pretendia cum pri-la. Agradeci a Hércules, disse que com preendia sua posição, m as que precisava encontrar Astroj ildo, era um com prom isso que eu assum ira com o Geninho e com igo próprio, um obj etivo de vida, portanto. Ele suspirou:
— Você é quem sabe, Valdo. Depois não diga que não avisei.
Refletiu um instante e continuou:
— Briguei com o Astroj ildo, não estam os nos falando. Mas vou pensar em alguém que coloque você em contato com ele. E aí m ando lhe avisar, certo?
Estendeu-m e a m ão, aquela possante m anopla de operário, que apertei, em ocionado. Eu j á ia em bora quando de repente ele se lem brou de algo:
— Ah, tem os um a coisa para você, gaúcho.
Entrou na casa e voltou em seguida trazendo um prato coberto com um guardanapo.
— Costela de carneiro. A Teresa preparou para você. — Sorriu: — Não é com o o churrasco de sua terra, m as acho que você vai gostar.
Num im pulso, quase derrubando o prato, abracei-o com força. Afinal de contas ele era m eu cam arada, m eu com panheiro de lutas. E gostavam de m im , ele e a Teresa. O que, de algum a m aneira, era consolador.
Voltei para a pensão, onde encontrei o Tião. Muito contente: anunciou-m e que na sem ana seguinte seguiria para São Paulo, onde arranj ara em prego num j ornal. Perguntou o que era aquilo que eu trazia e, quando eu disse que era um a costela de carneiro, propôs um j antar de despedida. Sentam os à m esa, o Tião acabou com a costela sozinho — nem toquei no prato. Minha anim ação havia sum ido, eu perdera o apetite, coisa que ele notou: você está com cara triste, observou. Quis saber o que m e incom odava. Não é nada, respondi, estou um pouco enj oado, só isso, m eio ruim do estôm ago. Eu podia contar a ele a conversa que tivera com Hércules, falar das brigas no Partido? Não. Tinha de resolver m eu problem a sozinho.
Que, isso eu reconhecia, era coisa pequena com parada com a crise que o país, e o m undo, enfrentavam . O preço do café, vital para a distorcida econom ia brasileira, caíra vertiginosam ente, passando de duzentos m il réis a vinte m il réis por saca. As safras abundantes contribuíam para a baixa. Num a tentativa de m anter a cotação, o produto passou a ser queim ado: m ontanhas de grãos de café eram destruídas pelo fogo. Um absurdo que confirm ava a sentença de Marx: o capitalism o trazia em butido em si o germ e da própria destruição.
Eu não tinha com quem com entar e analisar essas coisas, não tinha com o participar de algum m ovim ento de transform ação social. Precisava esperar que Hércules m e desse algum a indicação acerca de Astroj ildo porque, em bora estivesse no Brasil, era um a figura m isteriosa; nem as rádios nem os j ornais falavam dele. Verdade que naquela época o com unism o não era m uito significativo no cenário político brasileiro; os m ilitantes não passavam de algum as centenas. Coisa que, entre parênteses, m e parecia absolutam ente lógica. Afinal, com unistas eram a vanguarda do progresso, da luta pela j ustiça social; e vanguardas, por definição, são restritas em núm ero. Poucos eram os que tinham consciência da conj untura em que vivíam os. Com o tem po, m as sem pre lideradas pela vanguarda, as m assas achariam seu cam inho, o cam inho que as levara a tom ar a Bastilha na Revolução Francesa, o Palácio de Inverno na Revolução Russa, o cam inho da transform ação social, da criação de um a nova sociedade. Cam inhando pela rua, eu olhava as pessoas e m e perguntava: aquele hom em , será que é com unista? E aquela m ulher? Sim , o hom em tinha um a postura altaneira, e seus olhos brilhavam , esperançosos, e os braços m usculosos m ostravam que provavelm ente era um trabalhador; m as com o explicar a cam iseta de m alandro, o chapéu picareta, o sapato bicolorido? A m ulher traj ava m odestam ente, levava consigo um livro, m as tinha um j eito dem asiado sonhador, dem asiado rom ântico; e o livro bem podia ser o Dom Casmurro.
No alto do Corcovado, a m esm a dúvida m e assaltava. Muitos operários trabalhavam na construção do m onum ento, m as algum deles seria m em bro do Partido? Nas conversas da hora do alm oço eu não conseguira identificar nenhum com unista; só se falava de assuntos banais — futebol era o tem a preferido —, e ninguém usava term os com o “proletariado” ou “m assas”.
Em com pensação havia ali gente com ideias m uito estranhas, inquietantes m esm o: era o caso do catarinense Júlio. O pai, im igrante alem ão, carpinteiro, viera para o Rio em busca de m elhores oportunidades e agora prestava serviços na construção do Cristo, onde conseguira em prego para o filho. Júlio era um rapaz m agro, loiro, de olhar francam ente alucinado. Odiava o pai, por ele considerado hom em fraco, subm isso. Um tipo revoltado, ele; com o eu, achava que o país tinha de m udar; m as a m udança com a qual sonhava era outra, com pletam ente diferente. Ele queria ver o Brasil nazista.
Nazism o: esse era um assunto sobre o qual, por incrível que pareça, eu pouco sabia. Adolf Hitler estava em ascensão, m as as notícias a respeito eram relativam ente escassas. O certo, porém , era que os nazistas se opunham aos com unistas, e isso para m im era suficiente para rotulá-los com o perigosos inim igos. Mas isso eu não poderia dizer ao Júlio. Aj udante de pedreiro, ele tam bém — trabalhávam os j unto —, o cara aproveitava os m om entos de descanso para m e doutrinar: a seus olhos eu era apenas um gaúcho ingênuo. Não m e im portava que pensasse assim ; nada lhe contei sobre os reais m otivos que m e haviam levado para o Rio de Janeiro. Eu ouvia, apenas. E gostava de falar, o Júlio — sobre o nazism o, claro, que para ele representava a salvação da hum anidade e principalm ente a salvação do Brasil, país de degenerados: olha só esses m ulatos ao nosso redor, dizia, esses caboclos, um a cam bada de preguiçosos, de safados, de gente suj a, gente inferior, uns verm es que não m erecem viver. Precisávam os de um líder com o Hitler, talvez o próprio Hitler: Júlio achava que os nazistas conquistariam o m undo, nosso país inclusive. E aí as coisas m udariam . Teríam os um governo forte, um governo que não toleraria fracos ou corruptos ou doentes: forca para eles.
Para Júlio, o Cristo em construção era um sím bolo da hipocrisia reinante no país. Os padres m andam , afirm ava; os padres controlam a política, controlam a educação, controlam o dinheiro, e da m aneira m ais descarada: Cristo era pobre, eles são ricos, olha só essas igrej as cheias de ouro e prata. Essa riqueza se originava, segundo ele, de um a estranha e infam e aliança entre padres e j udeus. Júlio estudara a história do Brasil e concluíra que os cristãos-novos, j udeus aparentem ente (m as só aparentem ente) convertidos, haviam feito um pacto secreto com o clero, do qual m uitos deles aliás faziam parte, e assim m anipulavam a Igrej a, o governo, os bancos. Mas o nazism o, garantia-m e, tinha m eios de descobrir os portadores de sangue j udeu — graças à ciência. Ciência e poder arm ado, esse era o binôm io que os nazistas usariam para liquidar os inim igos, para fazer do Brasil um país de verdade, não um a pantom im a.
Ouvir a conversa de Júlio era um a dura prova. Aquilo não era só a direita habitual, era extrem a-direita escarrada, tresloucada. Mas bater boca seria inútil. Em prim eiro lugar, eu não conseguiria convencê-lo de que estava errado; o cara era um fanático, aferrava-se de m aneira doentia às suas crenças. Em segundo lugar, se eu revelasse m inhas ideias políticas, estaria correndo um sério risco. Aparentem ente nos dávam os bem , m as nada im pediria que num m om ento de fúria ele m e denunciasse à polícia. Eu não tinha m edo de ser preso com o subversivo; ao contrário, via nessa possibilidade um a coisa heroica, m as queria que a prisão representasse um a espécie de reconhecim ento de m inha luta por um a causa j usta; queria ser preso num a m anifestação de rua, queria ser preso por ter assinado um m anifesto a favor do com unism o, e não com o resultado da delação de um nazista patológico.
Não tendo com quem falar, só m e restava o diálogo interior. No que, aliás, eu não era exceção. Geninho m e falava de um com unista cham ado Inácio, que passara longos anos preso na solitária sem ter ninguém com quem conversar, sem nada para ler; para não enlouquecer, m antinha longos e im aginários debates com um cam arada de quem gostava m uito, um culto e idoso professor cham ado Ricardo. O fictício Ricardo, sem pre presente na cela, representou para ele um apoio tão grande quanto o que lhe fora dado pelo verdadeiro na fraterna convivência do Partido; as conversas duravam horas e envolviam tem as variados, desde a estratégia na luta de classes até a literatura de ficção. No dia em que, finalm ente, foi libertado, Inácio correu à casa de Ricardo para contar o que acontecera e para agradecer o apoio que, m esm o indiretam ente, dele recebera. Lá chegando, o choque: o professor m orrera na sem ana anterior. Inácio nunca se recuperou. Voltou a m ilitar no Partido, m as j á não era nem som bra do que fora. Acabou m orrendo tam bém .
A história m e im pressionou, e talvez por causa dela resolvi escolher, com o interlocutor im aginário, não um potencial cam arada, com o Astroj ildo Pereira, m as um inim igo; um personagem de extrem a-direita, m enos fanático que o Júlio, porém m ais esperto. Eu o cham ava sim plesm ente de Burguês e via-o com o um hom em de terno e berrante gravata, gordo, com um a im ensa papada; no olhar, e em doses variáveis, cobiça, astúcia, m aldade, zom baria, dissim ulação. Às vezes, m edo. Sim , o Burguês tinha m edo de m im . O Burguês sabia que eu representava o futuro, as grandes m udanças que inevitavelm ente ocorreriam e que significavam sua ruína, quem sabe seu fim . Para ele eu entoava baixinho um a canção que aprendera com os com panheiros do Geninho, cuj a m úsica, ironicam ente aliás, era a de Jingle Bells, e cuj a letra dizia: “Sabãozinho, sabãozinho/ de burguês gordinho/ toda vil reação/ vai virar sabão”. Já perturbado, o Burguês vinha com aquela conversa clássica, o capitalism o é o sistem a que corresponde à natureza hum ana, inevitavelm ente egoísta, gananciosa, cruel, im placável; o m ercado é a form a ideal para a econom ia etc. Eu destruía com a m aior facilidade esses argum entos idiotas, provava que não existe essa coisa cham ada natureza hum ana, que ao fim e ao cabo som os aquilo que a sociedade faz de nós. Esm agado por m eus argum entos, o Burguês ia se encolhendo cada vez m ais, até que de repente sum ia.
Mas aquilo era um j ogo, um passatem po. Na verdade a pessoa com quem eu tinha de dialogar era um a só: Astroj ildo Pereira. Que para m im continuava um a incógnita. Eu nem sabia que j eito tinha; Geninho m e falara m uito do líder, m as nunca m e m ostrara um a foto dele — por questões de segurança, talvez, afinal, eu ainda não era m em bro do Partido. Eu im aginava Astroj ildo com o Stálin: postura altiva, grande bigode, olhar firm e e enérgico. Mas quando o encontraria? Quando poderia, enfim , fazer-lhe as dezenas de perguntas que tinha anotado no m eu caderno?
A resposta veio subitam ente e de form a até certo ponto inesperada. Um dia, quando cheguei à obra, Joaquim anunciou que alguém m e procurava. Estranhei: alguém m e procurando? Quem poderia ser, se no Rio quase ninguém m e conhecia?
Era um garoto franzino que eu nunca vira antes e que, apressado, não parecia disposto a dar explicações. Lim itou-se a m e estender um papelzinho:
— Meu tio, o Hércules, m andou isto para você.
Um a m ensagem , curta e seca m ensagem . Não assinada, dizia que um hom em conhecido apenas com o Moreno poderia m e levar ao A. P. (assim m esm o, só a abreviatura). Esse Moreno trabalhava num a fábrica de m óveis no Jardim Botânico.
Não hesitei: alegando que precisava ir ao m édico, pedi ao Joaquim que m e liberasse por algum as horas. Ele m e olhou, contrariado — detestava que faltassem ao serviço —, porém àquela altura eu j á era em pregado de confiança:
— Vá, então. Mas olhe lá: quatro horas, nem um m inuto a m ais. Se você não voltar a tem po, desconto o dia todo.
Aquelas quatro horas poderiam ser as m ais decisivas da m inha vida. Se, com o eu esperava, Moreno m e conduzisse a Astroj ildo; se, com o eu esperava, Astroj ildo m e acolhesse paternalm ente, j unte-se a nós, m eu j ovem cam arada, vam os construir j untos um novo m undo; se eu pudesse enfim m e inscrever no Partido, respondendo “sim ” a todas as perguntas do questionário — estaria realizado. Teria cum prido a prom essa feita ao Geninho, teria enfim encontrado m eu cam inho. Nem precisaria voltar para a obra: adeus, Joaquim , adeus, Cristo.
Corri para o Jardim Botânico. Encontrei a fábrica, que era grande, sem dificuldade; consegui entrar sem ser visto, m as aí, em m eio ao barulho das m áquinas, defrontei-m e com um problem a: havia dezenas de operários trabalhando naquele lugar. Qual deles seria o Moreno? Teria esse apelido, ou codinom e, algo a ver com a cor de sua pele? Se assim fosse, eu estava bem arranj ado: m orenos não faltavam ali. Mas um deles ostentava grandes bigodes, bigodes do tipo Stálin, e tinha ar altivo, ar de revolucionário. Aproxim ei-m e, esperançoso:
— Tu és o Moreno?
Olhou-m e surpreso:
— Não, não sou o Moreno. Moreno é ele.
Apontou para um hom enzinho m agro, careca, que, m uito concentrado, aplainava um a tábua. Fui até ele, disse m eu nom e e de onde vinha, contei sobre o Geninho, sobre m inha vontade de entrar para o Partido, e term inei pedindo que m e levasse até o cam arada Astroj ildo.
Moreno m e olhava em silêncio. Silêncio m ais que com preensível: ele ali trabalhando, de repente se aproxim a um garoto com um papo confuso, perguntando por um im portante líder com unista. Se eu estivesse m ais calm o, teria m e dado conta do absurdo da situação; m as, dom inado pela ansiedade, tudo o que eu queria dele era um a resposta positiva, acolhedora: claro, m eu j ovem , o Astroj ildo te receberá de braços abertos, na verdade j á tínham os ouvido falar do Geninho, pobre Geninho, foi um herói, e j á tínham os ouvido falar de você, estávam os apenas esperando por esse contato.
Mas Moreno não disse isso. Foi lacônico:
— Certo, am igo, sei o que você quer. Vam os ver o que dá para fazer. Você vai ter de esperar um tem po.
O que só fez aum entar m inha aflição. Eu queria um a resposta concreta: quando encontraria o Astroj ildo? Quando deveria voltar ali, à fábrica? Foi o que perguntei, da form a m ais contida e am istosa possível, m as a resposta foi seca:
— Não precisa m e procurar. Se for o caso, vam os avisar você.
“Se for o caso”? Mas não era o caso? Porra, não era o caso? Não era ainda o caso? Se aquilo, se o duro transe pelo qual eu passara (e ainda estava passando), não era o caso, o que então era o caso? Hein? O que era o caso? O caso seria eu chegar ao nível m áxim o de m iséria, o caso seria eu passar fom e, pagar todo o degradante preço da exploração capitalista? Ou o caso seria eu aparecer naquela fábrica com dezenas de livros, Marx, Engels, Lênin, Stálin, dizendo algo do tipo pode m e perguntar qualquer coisa do que eles escreveram , Moreno, eu sei tudo? Ou o caso era eu vir ali arm ado de m etralhadora e m atar os donos, os gerentes e m ais algum vizinho ricaço de lam buj em , era esse o caso?
Eu não estava entendendo aquela conversa, que m e deixava inconform ado, decepcionado, furioso m esm o. Coisa que o Moreno deve ter percebido. Mas, ao contrário do im aginário Burguês, não estava disposto a debater com igo, a ouvir m inhas razões. Tratou de m udar de assunto, perguntou onde eu trabalhava. Ainda irritado, tive de enfrentar o dissabor de responder que no m om ento estava em pregado na obra do Cristo Redentor. Sim , tratava-se de religião, de ópio do povo, eu o reconhecia, m as era coisa transitória; serviria apenas para m e m anter até o m om ento em que eu m e tornasse um m ilitante, um revolucionário profissional, obj etivo para o qual era absolutam ente im prescindível o encontro com Astroj ildo.
De novo, Moreno não fez nenhum com entário, m esm o porque o superintendente m irava-nos, severo. O que o deixou inquieto: desculpe, am igo, disse, m as agora estou trabalhando, m elhor você ir. Voltou a aplainar a tábua, com o se eu não estivesse m ais ali.
Deixei escapar um fundo e dorido suspiro. Pelo j eito teria de m e contentar com aquilo, com aquelas evasivas. Não adiantava insistir; além do m ais, m eu tem po estava se esgotando, eu precisava voltar ao Corcovado.
Cheguei ao canteiro de obras desesperançado e triste. Tão triste, que o Joaquim ficou alarm ado, perguntou se eu estava m e sentindo bem .
Não, eu não estava m e sentindo bem , estava m al, m uito m al. Com o proclam ara o profeta Daniel da Bíblia (num a fam osa frase que a professora Doroteia usava para descrever a situação dos alunos reprovados), eu havia sido pesado na balança e considerado m uito leve. A balança bíblica, balança da crendice, avaliava as virtudes religiosas; a balança ideológica na qual Moreno m e pesara, im placável balança, a balança que, ao fim e ao cabo, decidiria o futuro do m undo, essa balança m e condenara, e eu nem m esm o sabia a razão: que pesos haviam sido utilizados? Que escala? Quais eram os critérios pelos quais o Moreno avaliava o progressism o ou o reacionarism o de alguém ? E, sobretudo, quais eram os critérios pelos quais Astroj ildo, o m isterioso Astroj ildo, avaliava alguém ? Sim , porque o Moreno seguram ente estava cum prindo instruções do líder: “Se aparecer algum rapaz m eio desesperado querendo m e ver, despiste. Pode ser um espião da polícia”. Será que eu era isso, para o Astroj ildo? Um rapaz m eio desesperado, só isso? E, pior, um rapaz desesperado que, apesar do olhar esperançoso, apesar da ansiedade resultante do desej o revolucionário, podia ser confundido com um espião das forças repressivas?
Disse a Joaquim que não se preocupasse, era só um a dor de cabeça. Com m uito esforço voltei ao trabalho; quando finalm ente o sino nos liberou, voltei para a pensão, entrei no quarto e, sem pensar em com er, deitei-m e: tudo o que eu queria era dorm ir. Finalm ente consegui conciliar o sono, m as às duas da m anhã acordei com batidinhas na porta. Era, claro, a Maria Clara:
— Abre, querido. Por favor, abre. Estou que não m e aguento de tesão.
Não abri. Sim plesm ente não abri. Prim eiro porque, deprim ido com o estava, não queria nada com sexo; e depois porque afinal se tratava de um a proprietária, de um a burguesa que vivia de renda, de m eu trabalho, inclusive. Minha recusa era um a vingança, um a m inivingança contra a burguesia exploradora, depravada.
Irritada, ela sussurrou m eia dúzia de palavrões. Finalm ente foi em bora, m as não dorm i m ais. Às seis levantei, tom ei um a xícara de café e fui para o trabalho. Joaquim m e aguardava com um a notícia que, im aginava, seria anim adora para m im :
— Vou lhe dar um a m issão especial. Um a m issão m uito im portante, da qual você vai gostar e que, tenho certeza, vai m elhorar seu ânim o.
A m issão tinha a ver com aquilo que seria o coroam ento da obra do Corcovado, a colocação da cabeça e das m ãos de Cristo no corpo da estátua, depositadas, com o eu j á sabia, na propriedade de Heitor Levy, a quem eu agora deveria m e reportar. O trabalho consistia em prepará-las para a operação final, fazendo os retoques necessários no gesso, danificado nos deslocam entos. A tarefa exigiria m inuciosa paciência e habilidade e seria executada sob a supervisão do próprio Levy .
— Você vai se dar bem com o engenheiro — garantiu-m e Joaquim . — É um grande hom em . Ele não está construindo o Cristo: ele vive o Cristo.
Não era um a opinião exclusiva dele. Das conversas que eu ouvia na obra, concluíra que Heitor Levy era adm irado e respeitado por sua im pressionante dedicação àquele trabalho. Tão engaj ado estava no proj eto, que a certa altura deixara sua casa e viera m orar num a precária construção de m adeira no alto do Corcovado. O Cristo era para ele um a verdadeira causa.
Tentei m ostrar-m e grato, m as não consegui. A verdade é que aquela m udança m e deixava apreensivo. Para com eçar, conhecia Heitor Levy só de vista, nunca falara com ele. Que fizesse do Cristo o centro de sua vida a m im não com ovia, pelo contrário. Tudo indicava que fosse um carola, um fanático religioso que queria dar ao m undo um a prova de sua devoção; um reacionário m ístico, talvez inofensivo, talvez diferente do burguês clássico, m as nem por isso m ais aceitável. Além disso, não sabia que tipo de hom em e de chefe ele era. Ou sej a: eu teria de ir para São Gonçalo, lugar para m im desconhecido, trabalhar sob as ordens de um desconhecido, no m eio de pessoas desconhecidas. O que representava, no m ínim o, um a incógnita — e de incógnitas eu estava farto. Tudo de inesperado m e acontecia — m enos encontrar Astroj ildo Pereira.
O pior, porém , era o trabalho que eu teria de fazer. No Corcovado estava diante de um a estrutura em form a de corpo, um corpo gigantesco, m as inespecífico, estilizado; a túnica que revestia esse corpo identificava um a época, m as não o personagem . No reduto de Levy, porém , eu encontraria Cristo: a gigantesca cabeça de Cristo, as gigantescas m ãos de Cristo. Um encontro inevitável, m as difícil, que m obilizaria em m im lem branças de que eu queria m e livrar, o crucifixo de m inha m ãe, a igrej a, as m issas, a com unhão, os cânticos religiosos, os serm ões do padre Jonas. Com o reagiria a esse confronto com o passado, com a religião, isso eu não sabia dizer.