Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
O que poderia eu dizer? Fiquei quieto. A verdade era que m am ãe não deixava de ter razão: eu realm ente m udara. Não, porém , no sentido que ela im aginava. Minha atitude em relação ao m onum ento era agora de calm a, até m esm o de indiferença. A cabeça e as m ãos de Cristo, que antes m e aterrorizavam , estavam lá em cim a, distantes, neutras. Sim , era um m onum ento grandioso, m as, para m im , só isso: grandioso. Heitor Levy continuava contem plando-o com enlevo, com veneração (aliás, e com o Joaquim , fizera questão de cum prim entar m inha m ãe), porém isso tam bém j á não m e perturbava.
Em com pensação — não sei se posso usar essa palavra, m as foi, sim , um a com pensação, um a parcial com pensação pelas agruras que eu sofrera —, nunca m e senti tão próxim o a m inha m ãe. Dava-m e conta de que, a exem plo do que acontecera em relação a papai, sabia m uito pouco sobre ela; m ulher calada, voltada exclusivam ente para a fam ília e para a casa, não falava de si própria. “Eu” era um a palavra que não figurava em seu vocabulário. Mas naqueles passeios eu a interrogava com insistência, perguntava coisas sobre sua vida. Ela relutava, m as acabava falando; com quem conversaria, senão com igo? Descobri assim coisas perturbadoras. Por exem plo: ela não sabia se casara com m eu pai por am or. Na verdade nem sabia o que era isso, am or. Am or? Coisa de rom ances (que nunca lera), de film es (que nunca vira), de canções (que nunca cantara; tinha vergonha de sua voz desafinada). Casara — cedo, aos quinze anos — porque, decidira seu pai, estava na hora de casar; o pretendente era de fam ília hum ilde, m as conhecida, m oço quieto, trabalhador — que m ais se poderia querer? E assim viveram j untos m uitos anos. Ela engravidara várias vezes, abortara, perdera dois filhos (que eu não conhecera) ainda pequenos. E de resto era trabalhar, trabalhar, trabalhar. Acender o fogo de m anhã cedo, cozinhar, arrum ar a casa, lavar a roupa, cultivar a pequena horta. Seu consolo era a religião, era aquele crucifixo que venerava, que passara por m uitas m ãos cristãs até chegar a ela. E, no entanto, havia inquietudes, ânsias secretas, desej os perturbadores. Um a noite, e depois de vacilar m uito, falou-m e do coronel Nicácio, que, com o eu, ela deveria odiar; afinal tratava-se do verdugo de seu m arido. Mas não era isso o que acontecia; na verdade, fascinava-a, aquele hom em autoritário, violento; que tipo de fascínio era esse, não sabia e não queria descobrir. Nem eu lhe perguntei a respeito, em bora suspeitasse de um a secreta paixão. Mas disso ela não falaria em hipótese algum a; a sim ples revelação daquele segredo j á lhe exigira trem endo esforço, levara-a ao lim ite de sua condição de m ulher pobre, inculta, infeliz, desnorteada. Tendo desabafado, ficou em silêncio, cabeça baixa. E eu nada disse. Abracei-a, apenas, abracei m inha m ãe, naquele m om ento transform ada num a guriazinha, para quem eu subitam ente era tudo, o filho em quem confiava, decerto, m as tam bém o pai, o m arido, o guia que o Astroj ildo Pereira teria sido para m im , se eu o tivesse encontrado.
Durante três, quatro sem anas, vivi quase que exclusivam ente para m am ãe. Ia trabalhar, claro, m as tão logo era possível voltava para a pensão, ficava conversando com ela. Durante aquele período não ouvi notícias, não li j ornal, não tom ei conhecim ento do que estava acontecendo. E m uita coisa estava acontecendo. Getúlio no poder tinha sido bem recebido pela população. Na m archinha Ge-Ge, Lam artine Babo proclam ava: “Nós vam os ter transform ação/ neste Brasil verde-am arelo”. E a Escola de Sam ba Vai Com o Pode (futura Portela) apresentou, naquele Carnaval, um sam ba-enredo hom eageando-o.
Levei m am ãe para ver o desfile. Ela, que nunca tinha ido ao Carnaval, ficou chocada com as “m ulheres indecentes”; m as vibrou com a hom enagem ao conterrâneo presidente, agora visto com o o grande defensor dos pobres e dos gaúchos. Chegou a nossa vez, Valdo, dizia, em ocionada, chegou a nossa vez.
Vargas tornou-se chefe de governo com am plos poderes; através de decretos com força de lei, suspendeu as garantias constitucionais, dissolveu o
Congresso Nacional, os congressos estaduais, as câm aras m unicipais. Nom eou interventores para os governos estaduais, e para isso escolheu vários dos tenentes que haviam participado da Revolução.
Os hóspedes da pensão com entavam os acontecim entos, sem pre com cautela, evitando com prom eter-se. Maria Clara, porém , que não escondia seu desgosto com os atos do novo governo, protestava: isso é ditadura, m elhor seria então trazer de volta o im pério (m as evitava alusões à origem gaúcha de Getúlio, ao m enos diante de nós, m am ãe e eu).
Opiniões que eu não discutia, m esm o porque a gratidão que por ela agora sentia era m uito grande. Por outro lado, ficou claro que, eventuais com panheiros de cam a à parte, eu continuava seu favorito. Problem a: ela agora não podia vir ao m eu quarto, que ficava ao lado do quarto de m am ãe; seria arriscado. Astuta com o era, logo achou a solução: eu é que iria ao quarto dela.
Fui. Várias vezes. Era um belo aposento, com cortinas de veludo, cam a de dossel, um a chaise longue, m uitos bibelôs; sobre a cabeceira da cam a, um a foto do m arido, hom em im ponente, de olhar severo e longos bigodes. Não era fácil foder diante daquela figura intim idante, m as isso não era problem a para Maria Clara, e para m im tam bém logo deixou de ser. Aliás, ela fazia questão de assinalar: eu era o prim eiro hom em com quem partilhava aquela cam a. Nos casos que tivera com hóspedes da pensão, ela é que fora ao quarto deles.
— Neste aposento, antes de você, só o falecido. — Ria: — E, em im aginação, o Machado.
Duas sem anas depois de ter chegado ao Rio, m inha m ãe fez um anúncio surpreendente: queria trabalhar. Surpreendente porque, dona de casa típica, nunca tivera um em prego. Mas lem brou que costurava m uito bem ; será que não conseguiria arranj ar um em prego com o costureira? Falei com Joaquim , que conhecia todo m undo, e de fato ele arrum ou um lugar para m am ãe num a pequena fábrica de cam isas. No com eço ela, m ulher calada, estranhava um pouco a com panhia das tagarelas operárias, que — em grande parte por causa do Getúlio — crivavam -na de perguntas sobre o Rio Grande do Sul. Acostum ou-se, porém , e até participou da festa que o dono da fábrica organizou no Dia do Trabalho.
Com o era de esperar, o cotidiano da população rapidam ente voltou ao norm al. A política, não. Sucediam -se as brigas. A facção dos tenentes exigia m udanças rápidas e profundas; a isso se opunham antigos donos do poder que tam bém tinham apoiado a Revolução. Apostando na industrialização e na urbanização, Getúlio optou por gerar seu próprio esquem a de sustentação, dando força aos sindicatos, criando a legislação trabalhista.
O viés populista só podia reforçar o radicalism o de esquerda. Em m aio de 1931 circulou clandestinam ente um m anifesto assinado por Prestes. Joaquim , sem pre alerta a tudo o que se passava no país, conseguiu um exem plar, m im eografado, que m e m ostrou. Dizia o texto: “A todos os revolucionários sinceros e honestos, às m assas trabalhadoras que neste m om ento de desilusão e desespero se voltam para m im , só posso indicar um cam inho: a revolução agrária anti-im perialista, sob a hegem onia incontestável do partido do proletariado, o Partido Com unista Brasileiro, seção brasileira da Internacional Com unista”.
Geninho, pensei então, teria vibrado; e Hércules certam ente estava celebrando: o líder da Coluna enfim encontrara o cam inho; Prestes reconhecendo seu erro, e assum indo a liderança dos trabalhadores, o com unism o brasileiro poderia entrar em um a nova fase.
A m im , contudo, a notícia deixou acabrunhado. Ao contrário de Prestes, que finalm ente vira a luz, eu não passava de um traidor de m eus próprios sonhos. Ainda que m om entaneam ente, ainda que com o resultado dos m eus problem as pessoais, o fato era que tinha deixado de lado os m eus ideais; nem sequer lia o Manifesto, que, contudo, estava na gaveta de m inha m esinha de cabeceira, j unto com o Que fazer? (Chto delat?). E, cúm ulo da irresponsabilidade, não respondera à proposta que Hércules m e fizera. O m ínim o que eu poderia fazer agora era procurá-lo. Mas o que lhe diria? Com o explicar m eu silêncio naquelas sem anas? Mais, eu não m e sentia em condições de, naquele m om ento, tornar-m e um m ilitante. Poderia alegar que estava passando por um período difícil, que m inha vida m udara, que agora precisava cuidar de m am ãe — m as o que tinha o Partido a ver com isso? A História não pode ficar esperando que as pessoas resolvam seus problem as pessoais, Hércules poderia m e dizer, aliás com toda a razão: enquanto eu m e debatia em dúvidas de natureza puram ente em ocional, operários estavam sendo explorados, crianças m orriam de fom e, o capitalism o se agigantava.
Esse dilem a tirava-m e o sono; tornei-m e irritadiço, agressivo. Você está atorm entado, dizia-m e Maria Clara, e Joaquim até sugeriu que eu consultasse um m édico. Finalm ente, m ovido pelo rem orso, decidi procurar Hércules para um a conversa franca, na qual falaria sobre m inha situação, sobre m inhas dúvidas, e ouviria o que tinha a m e dizer. Desse diálogo, eu esperava, surgiria a decisão final.
Fui ao subúrbio, e de im ediato constatei que a aparência da casa m udara m uito — para pior. A pintura estava descascando; no j ardim , antes bem cuidado, j á não havia arbustos com flores; a gram a m orrera, deixando à m ostra a terra seca, gretada. Mas o Rex continuava ali; saudei-o, am istoso — e então, cam arada Rex, tudo certo? —, esperando que m e reconhecesse, que festej asse m inha volta com alegres latidos. Em vez disso rosnou, am eaçador. Não m e atrevi a abrir o portão e entrar; prudentem ente, optei por ficar do lado de fora, batendo palm as: “Ó de casa! Ó de casa!”.
A porta se abriu e Teresa apareceu. Estava com péssim o aspecto, a pobre m ulher: vestida com desm azelo, olheiras fundas, na face um a expressão atorm entada. Olhou para os lados, certificou-se de que não havia ninguém por perto, fez-m e entrar. Sentam os na sala de j antar, e durante longos m inutos ficam os ali em silêncio, ela suspirando, o olhar perdido. Finalm ente falou:
— Pois é, Valdo. Aqui estou eu, m ais sozinha que nunca. Marido, filha... Não sei por onde andam . Sim plesm ente não sei.
Fiquei espantado: então Hércules desaparecera? Desta vez foi ela quem se surpreendeu: m as então eu não sabia? Sim , ele sum ira. Chegara em casa um a noite, m uito agitado, avisando que teria de sair de casa por algum tem po, coisas da política. Que a m ulher não se preocupasse, assim que pudesse m andaria notícias.
— Não m andou notícias — disse, enxugando os olhos com um lenço. — Nenhum a notícia. Não sei se o hom em está foragido ou preso, não sei se está vivo ou m orto, se está no Brasil, ou na Rússia ou nos quintos do inferno. Não sei, Valdo, não sei de nada.
Eu tam bém não sabia de nada. Certo, os com unistas não haviam apoiado o m ovim ento de Vargas; m as significava isso que estavam sendo perseguidos? Que estavam preparando um a nova revolução, a verdadeira revolução de que falara Prestes em seu m anifesto? Ou Hércules desaparecera por outras razões, quem sabe pessoais? Quem sabe a situação política era apenas um pretexto para sair de casa, para com eçar um a outra vida, talvez com um a nova m ulher?
Teresa assoou ruidosam ente o nariz, continuou:
— E a Rosa... A Rosa tam bém corre perigo, tenho certeza disso. Eu esperava que com essa situação ela entrasse em contato com igo, nem que fosse só para dizer que continuava viva. Mas não, nisso ela é igual ao pai. Farinha do m esm o saco: loucos, os dois. Irresponsáveis. Me deixaram sozinha, com pletam ente desam parada.
Eu escutava, calado, sem saber o que dizer. Ela m e m irou fixam ente durante algum tem po. Depois m e interpelou, e não sem dureza, não sem m ordaz agressividade:
— E você? Pelo j eito, não tem problem as. Anda pela rua lam peiro, visita os conhecidos...
A observação m e deixou desconfortável, m as eu disse que, de fato, por enquanto, e felizm ente, nada tinha m e acontecido. Ela sorriu, irônica:
— Claro. Você é esperto, Valdo. Você dizia que queria entrar no Partido, ser com unista, m as a verdade é que está lá no seu em prego, participando da construção do Cristo Redentor, um a obra abençoada: ninguém botará a m ão em você, garanto. Jesus protege você, não é m esm o? Porque vocês, os–
Interrom peu-se; dera-se conta de que estava com etendo um a inj ustiça:
— Desculpe, Valdo. Estou falando essas coisas porque estou nervosa, você sabe. Ponha-se no m eu lugar: sozinha, passando dificuldades — você pode não acreditar, m as m al tenho o que com er —, sem saber o que pensar, o que fazer.
Algo lhe ocorreu, e ela m e fitou, esperançosa:
— Mas você pode m e aj udar. Escute: um dia antes de sum ir, o Hércules m e contou que você estava em contato com a Rosa. Que tipo de contato era esse, ele não disse, nem estou lhe perguntando. Mas, se é verdade, fale com ela, Valdo. Conte sobre esse inferno que estou passando. Preciso dela, Valdo. Preciso de m inha filha. Eu sei que ela odeia o pai, m as o Hércules não está aqui, bem que ela podia m e procurar. Ou então que m arque um encontro em algum lugar.
Um a ideia lhe ocorreu, um a ideia que a fez sorrir, ainda que com m elancolia:
— Quem sabe na obra do Cristo, onde você está trabalhando? Ouvi dizer que há m uitas m ulheres fazendo serviço voluntário lá. No m eio delas ninguém repararia em nós...
Interrom peu-se, levou as m ãos à fronte:
— Estou louqueando, Valdo. Não ligue: não ando m uito bem da cabeça. Com esta situação, acho que estou beirando a m aluquice. Passo os dias falando sozinha... Você não im agina com o sua visita m e faz bem . E se você disser que vai m e aj udar, que vai convencer a Rosa a se encontrar com igo, eu lhe ficarei grata para sem pre. Rezarei por você, Valdo. Sei que você não acredita nisso, m as rezar, rezar com fé, rezar com confiança, aj uda m uito, m esm o os que não são crentes.
De novo, e com o m uitas vezes acontecera nos últim os tem pos, eu estava ali sem saber o que fazer, o que dizer. Não queria contar à Teresa que não via a Rosa havia m uito tem po, que a filha dela era inconfiável; não suportaria ouvir tal coisa. De m odo que optei por outra versão: disse que a Rosa tam bém estava escondida (o que aliás bem podia ser verdade) e que, para encontrá-la, eu precisava esperar o cham ado dela. Quando isso acontecer, acrescentei, peço para ela vir ver você. Teresa m e abraçou, grata: eu sabia que podia confiar em você, garoto, sabia disso.
É vergonhoso adm iti-lo, m as a verdade é que m e senti aliviado quando saí de lá: a conversa fora penosa dem ais. Eu não estava preparado para aj udar ninguém , para servir de am paro a pessoas. Ao contrário, eu é que queria ser aj udado, am parado.
O dia não term inaria sem outra surpresa: num a parada de ônibus encontrei o Bento. Estranhei: j á não estava vestido com o gaúcho, usava roupas com uns, desenxabidas. Notou m inha surpresa:
— Tu deves estar te perguntando: onde está o Bento que eu conheci, aquele gaúcho autêntico, orgulhoso? Onde estão as bom bachas, as botas? Pois eu te digo, Valdo: estão lá em casa, guardadas, acho que para sem pre, j unto com a cuia do chim arrão, com os espetos do churrasco, com m eu facão. Estou desiludido, Valdo, desiludido com nossa gente. Com o te falei, esperava m uito do Getúlio: afinal, conterrâneo tem de aj udar conterrâneo, não é m esm o? Fui procurar o hom em lá no palácio. Nem m e receberam , tu acreditas? Nem m e receberam , os putos. Passei horas de pé num a sala de espera, e nada. Era um engravatado m e encam inhando para outro, esse assunto não é com igo, fala com o Fulano, fala com o Beltrano, e todos dando desculpas, e todos m entindo... Lá pelas tantas perdi a paciência, berrei: vão tom ar no cu, seus veados de m erda, vocês não são revolucionários porra nenhum a, são um a cam bada de aproveitadores. Aí cham aram os seguranças e m e tocaram para fora. Se eu estivesse com o facão, Valdo, teria degolado um a m eia dúzia. Mas eu não tinha ido ali para brigar, tinha ido para oferecer a um gaúcho a aj uda de outro gaúcho. Não adiantou nada, m as foi um a lição. Esse Getúlio para m im m orreu; aliás, m eu palpite é que o cara não dura m uito; os inim igos, que não são poucos, vão acabar com ele.
Arrem atou:
— Eu agora estou no j ogo do bicho, para sobreviver. — Um a ideia lhe ocorreu: — Aliás, o am igo não quer fazer um a fezinha? A aposta é barata e pode render m uito dinheiro, vale a pena.
Não, eu não queria fazer um a fezinha. Eu queria, m eu caro neto, respostas para as perguntas que m e atorm entavam , e que não eram poucas. Não encontrava essas respostas, e a verdade é que a vida continuava. Para m inha surpresa, a vida continuava. Eu acordava de m anhã, tom ava café, ia trabalhar. Tudo certo, tudo norm al. Mam ãe, agora recuperada, tinha proj etos para m im : eu deveria estudar, quem sabe de início num a escola noturna, m ais tarde na universidade. Ela garantiria nosso sustento: revelara-se ótim a costureira, estava ganhando bem , poderia até arranj ar serviço particular para fazer em casa. E m udara, m udara por com pleto. Aquela m ulher quieta que estava sem pre arrum ando a casa, ou cozinhando, ou cerzindo, ou cuidando da horta, ou — principalm ente — rezando diante de seu crucifixo, aquela m ulher agora era outra: falava m uito, contava histórias, ria. Só ficava triste quando lem brava do m arido. E do Rio Grande. Gostava do Rio, m as sentia falta de nossa terra. Não queria que eu m e tornasse carioca; achava que eu j á estava com sotaque e m e advertia para que usasse o “tu” em vez do “você”. Todo dia, e apesar da dificuldade para arranj ar a erva-m ate (tinha de com prá-la no centro da cidade), preparava o chim arrão. Vira e m exe perguntava o que eu achava de voltarm os para o Rio Grande.
Voltar? Não, eu não queria voltar. Na verdade, não tinha a m enor ideia do que pretendia fazer, do que deveria fazer. Passei por m uitos m om entos de dúvida e confusão em m inha vida, m as aquele foi dos piores. Àquela altura eu j á não sabia se queria m esm o afiliar-m e ao Partido Com unista, e, m esm o que soubesse — com o fazer para isso, agora que Hércules tinha sum ido? Sobretudo, não sabia o que, exatam ente, sentia pela Rosa, ainda que pensasse nela todos os dias. Pretexto para procurá-la eu tinha — o pedido de Teresa; m as encontrá-la seria praticam ente im possível.
Por incrível que pareça, o único lugar em que eu m e sentia tranquilo era o canteiro de obras do Corcovado. O Cristo term inado, a m aior parte dos operários havia sido dispensada; m as Heitor Levy selecionara alguns para fazer a m anutenção do m onum ento, enquanto a questão da inauguração não era decidida. Eu fora um dos escolhidos: o engenheiro elogiava m uito m eu trabalho. Já Júlio, que Levy sum ariam ente despedira, saiu falando na conspiração dos j udeus (poucos anos depois, seria um dos prim eiros nazistas brasileiros; sua foto apareceu num j ornal: ele, de cam isa parda, segurando um a bandeira com a suástica).
As tarefas se reduziam a pequeno consertos, a m anter o local lim po. O salário continuava sendo pago em dia; o horário j á não era rígido; Joaquim sugeriu que eu aproveitasse a oportunidade para estudar à noite. Ele m esm o m e indicou um curso técnico, de curta duração, destinado a form ar eletricistas.
— Eletricidade é o futuro — garantia ele.
O futuro para m im era um a incógnita, um a dolorosa incógnita, m as a ideia do curso era, pelo m enos, um a coisa nova, que m inha m ãe, aliás, apoiava entusiasticam ente; ainda não era a universidade, com a qual ela sonhava, o curso não m e dava título de doutor, m as, quem sabe, poderia ser um passo nessa direção.
Fiz m inha inscrição, pois. O curso funcionava num velho casarão no centro da cidade. A turm a era form ada de uns trinta alunos, quase todos j ovens, m as havia hom ens feitos e até um sexagenário, para quem estudar era, nas suas palavras, “a fonte da j uventude”. Com o eu, aquele pessoal trabalhava de dia; m as, diferentem ente de m im , trabalhavam duro, eles. Volta e m eia um adorm ecia de cansaço. O professor Alfredo, que dava a m aioria das aulas, era um entusiasta; acreditava naquilo que ensinava: a eletricidade, proclam ava, vai m udar o Brasil.
— Logo este país vai estar cheio de usinas. E cheio de fábricas. Vam os fabricar de tudo, com o os países europeus, com o os Estados Unidos.
Ainda que se rotulasse com o esquerdista m oderado, era um fã dos am ericanos; os Estados Unidos sim bolizavam para ele o progresso, o avanço. Garantia que tecnologia nada tinha a ver com o regim e econôm ico ou com o regim e político: não dissera Lênin que o com unism o seria a som a do poder soviético m ais a eletrificação? E não declarara Stálin que o ideal leninista se traduziria na com binação da eficiência am ericana com o espírito revolucionário soviético? Neste sentido, recom endava enfaticam ente que estudássem os as ideias de Henry Ford. Ford, que havia trabalhado com Thom as Edison, este um pioneiro da tecnologia, criara um a espécie de doutrina baseada na padronização do produto e na linha de m ontagem . O obj etivo era dem ocratizar os frutos do progresso: o m odelo A, com seu m otor de 40 cavalos (capaz de fazer cem quilôm etros por hora), freio nas quatro rodas, am ortecedor hidráulico, um a obra-prim a da m odernidade, era contudo um carro desenhado para o povo, para as pessoas com uns.
O entusiasm o do professor, hom em ainda j ovem , era contagiante, e m uitas vezes os alunos o aplaudiam ; m as o que dizia só aum entava m inha confusão ideológica. Com unism o e capitalism o eram coisas irreconciliáveis, tinham de ser coisas irreconciliáveis; aquele palavrório na verdade não passava de hábil m aquiagem de um regim e baseado na exploração do ser hum ano. No fundo, o professor Alfredo era apenas um reacionário que se apresentava com o paladino do progresso.
Restrições à parte, eu gostava do curso. Não: eu adorava o curso. Não era o m esm o que estudar o Manifesto, longe disso, m as falava em coisas obj etivas, palpáveis, úteis: geradores, acum uladores, dínam os, m otores. Trabalhar com eletricidade era ingressar no terreno confortador da lógica científica, da precisão tecnológica: faça isso e acontecerá aquilo — sem pre, sem pre, sem pre. Nenhum a m argem para dúvida, ali: o polo positivo era positivo, o negativo era o negativo, e estávam os conversados. Nada de dialética, nada de um a coisa virar o seu contrário, nada de m entiras progressistas e verdades reacionárias, nada de crítica e autocrítica. Um alívio, portanto, ainda que inevitavelm ente acom panhado de um a pesada culpa.
Eu aprendia rápido. Logo estava consertando aparelhos elétricos, e até m ontei um pequeno m otor, que dei a Joaquim . Ele ficou m uito contente quando o recebeu; agradeceu efusivam ente, e com entou:
— Aliás, é o segundo presente que ganho hoj e.
O prim eiro presente fora a notícia, ainda não oficial, de que Getúlio e a Igrej a tinham chegado a um acordo acerca da inauguração do Cristo. Estava m arcada para 12 de outubro de 1931, um ano depois da data originalm ente estabelecida. O que, dizia Joaquim , provava m ais um a vez que no Brasil as coisas se aj eitam :
— Som os o país da conciliação, m eu am igo. Nossa gente não quer revolução, nossa gente não é de briga.
Mais ou m enos naquela época vendi para um sebo m eus livros esquerdistas, inclusive os que Rosa m e dera — m as não o Manifesto nem o Que fazer? (Chto delat?). Não se tratava, propriam ente, de desilusão ideológica. Eu atendia a um pedido de Maria Clara: a casa do outro lado da rua, residência de um rico e excêntrico sim patizante do anarquism o, tinha sido invadida pela polícia, que prendera o hom em e levara grande quantidade do cham ado m aterial subversivo. Ela tem ia que algo sem elhante acontecesse com igo:
— Você teve m uitos contatos com gente de esquerda, bem pode alguém ter lhe denunciado.
Relutei um pouco, m as acabei concordando. O livreiro a quem procurei não estava m uito interessado em literatura revolucionária; àquela altura, disse, o governo Vargas j á m ostrara que nada queria com com unistas, ou socialistas, ou anarquistas; consequentem ente, a procura pelas obras de Marx, Engels, Lênin e Stálin dim inuíra m uito: m ercado funciona, disse ele:
— Mesm o para a esquerda.
Curiosam ente, foi aquele livreiro, hom em m uito bem inform ado, quem m e deu notícias de Astroj ildo Pereira. Com o Hércules dissera, Astroj ildo fora afastado da secretaria-geral do Partido Com unista; continuara filiado, m as as suspeitas sobre sua lealdade persistiam , e, antes que o expulsassem de vez, optou por solicitar seu afastam ento do Partido que aj udara a fundar, e ao qual, segundo afirm ava, perm anecia fiel. Passou a escrever artigos de crítica literária para o Diário de Notícias (Machado era um tem a favorito), m as, para sobreviver, tornara-se com erciante de frutas: vendia bananas, num a quitanda ou num a em presa, disso o livreiro não estava certo. Atividade inusitada para um antigo m ilitante, tão inusitada, que Manuel Bandeira escrevera um poem a a respeito. O livreiro tinha um a cópia, que leu para m im : “Bananeiras/ Astroj ildo esbofa-se/ plantai-as às centenas, às m il:/ m usa paradisíaca, a única/ que dá dinheiro neste Brasil”.
Penoso, ouvir aquilo. Que Astroj ildo escrevesse para um j ornal, m esm o que burguês, eu podia entender; seu talento de escritor era bem conhecido, em algum lugar precisava publicar. Que falasse de Machado, do reacionário Machado, eu tam bém podia entender: todo m undo sabia de sua paixão pela literatura, um a paixão intensa, que inevitavelm ente levava a equívocos. Mas com erciante? Com erciante de frutas? De bananas, m usas paradisíacas, talvez, m as sobretudo fonte de dinheiro? Se Astroj ildo tivesse se retirado para o cam po, para trabalhar a terra, para sem ear, para produzir, enfim , m esm o que em caráter de pequeno proprietário (não com o kulak, aqueles fazendeiros que Lênin odiava, não com o estancieiro tipo coronel Nicácio), isso seria adm issível, ainda que o suj eitasse às penalidades do Tribunal do Povo. Mas o que ele estava fazendo era o desprezível papel de interm ediário, com prando e vendendo. Ou sej a, um com unista, um suposto com unista, vivendo do lucro, da m ais-valia. E, pior, aquilo podia ser só o com eço de um gigantesco desvio ideológico. O livreiro falava num com ércio em pequena escala, m as com ércio é com ércio, com ércio vicia, com ércio estim ula a am bição, a voracidade capitalista; Astroj ildo, acostum ado a pensar grande (afinal, o com unism o queria m udar o m undo todo), não se contentaria com um a pequena banca, ou um a pequena em presa de frutas. Breve estaria abrindo outra banca (ou outra em presa) e outra, e m ais outra. Acabaria por açam barcar o com ércio m undial de bananas, com o fizera a gigantesca United Fruit norte-am ericana, sím bolo do im perialism o, contra a qual os sindicatos caribenhos estavam naquele m om ento, naquele exato m om ento, lutando com denodo.
Por últim o, o grotesco detalhe representado pelo produto que com ercializava. Bananas! Podia haver coisa m ais ridícula? Não por outra razão, ditos populares recorriam à fruta para com parações galhofeiras: “Fulano é um banana”, “As coisas estão sendo vendidas a preço de banana”. Isso, claro, nada tinha a ver com a hum ildade do produto a ser vendido. Refugiado na Argentina, depois da odisseia da Coluna, Prestes im portara cabos de vassoura, igualm ente hum ildes; m as detentores, a m eu ver, de um a certa dignidade, e até de um potencial revolucionário. Na hipótese de um levante da classe operária, cabos de vassoura poderiam servir de arm as, rachando crânios burgueses, liquidando inim igos; no trem eu teria feito isso, se tivesse encontrado um hipotético rato (m as não, encontrara a Chica. Por onde andaria?). Agora — bananas? Com o golpear alguém com um a banana, m usa paradisíaca? Até a aparência servia, no caso, com o definição ideológica. Cabos de vassoura e bananas eram produtos brasileiros, porém o cabo de vassoura era duro e reto, com o se espera de um m ilitante (coisa que afinal o Prestes se tornara); a banana, pelo contrário, era m ole, encurvada, colorida, dissim ulada, escondendo sob a casca a parte com estível.
E no entanto — no entanto! — Astroj ildo, o vendedor de bananas, era o hom em que eu tinha vindo procurar no Rio, o hom em que poderia ter m udado m inha vida. Agora ele era localizável; agora, eu poderia encontrá-lo. Poderia ir até a sua banca, poderia m e apresentar, quem sabe conversar com ele. Mas não fiz isso, talvez receando ser contam inado por um a situação que, tudo indicava, tratava-se de um flagrante desvio político, o desvio que Hércules teria corretam ente identificado. Se eu fosse procurá-lo, seria obrigado a pedir explicações acerca de sua estranha opção. Se m e dissesse então, sim , Valdo, eu sei que o com ércio é coisa de burguês, m as eu estou nisso apenas transitoriam ente, com o um a form a de ganhar a vida, e tam bém para descobrir com o pensa, sente e age o inim igo — tudo estaria, ao m enos aparentem ente, bem ; m as se, ao contrário, afirm asse (quem sabe até despudoradam ente): estou aqui porque gosto, porque adoro vender bananas, adoro conversar com os fregueses, adoro até quando regateiam o preço? Se tentasse m e convencer, não, Valdo, você está enganado, o com ércio não é a sacanagem que parece, o com ércio envolve com plexas trocas em ocionais sem as quais a hum anidade não sobrevive? Suportaria eu tal choque? Ou endossaria seus argum entos, caindo de vez na arm adilha capitalista?
Não, não fui procurar Astroj ildo Pereira. Ele perm aneceria para sem pre em m inha m em ória com o figura im aginária. Com o sím bolo, am bivalente, m as sím bolo, de qualquer m odo.
Rosa, porém , eu tornei a encontrar. Melhor dizendo: ela m e encontrou.
Um a noite a aula do curso se prolongou e voltei m uito tarde; passava das onze. Foi com surpresa que encontrei Maria Clara esperando por m im . Por sua cara am arrada, logo vi que se tratava de confusão.
Entregou-m e um papelzinho:
— Deixaram esse bilhete para você.
De im ediato reconheci a letra de Rosa. A m ensagem era curta: “Precisam os nos ver”. E dava o nom e de um bar em Botafogo onde m e esperaria na noite seguinte.
A custo contendo a em oção, e sem nada dizer, guardei o papelzinho no bolso. Fiz m enção de ir para o quarto. Maria Clara m e deteve, com um gesto firm e, brusco, até:
— Fique. Quero falar com você sobre essa m ulher.
O que m e diria não era difícil de adivinhar: esqueça essa tal Rosa, ela é m entirosa, é louca, só vai com plicar sua vida. Ah, sim , e havia o ciúm e: sua ligação com igo não im plicava nenhum com prom isso, m as isso não im pedia que visse na Rosa um a rival a ser elim inada de qualquer m aneira. Previsíveis, portanto, suas advertências e am eaças, que vieram em catadupa, com o eu esperava; m as o que eu não esperava era ver lágrim as em seus olhos. Agarrou-se a m im , suplicou:
— Não vá, Valdo. Por favor não vá. Esse encontro pode resultar num a tragédia para você, acredite. Não vá, estou lhe pedindo. E não é só coisa m inha, não é só em m eu nom e que estou falando. É em nom e de sua m ãe, tam bém . Tem os conversado m uito, Valdo, e posso lhe garantir: ela não quer ver você envolvido com gente perigosa, e essa Rosa é o próprio perigo, ela é um a arm adilha m ortal.
Não respondi. Desprendi-m e dela e fui para o quarto. Deitei-m e, vestido, e ali fiquei, a cabeça na m aior confusão. Os pedidos de Maria Clara não haviam m e abalado, e nem m esm o a referência dela à m inha m ãe, que tinha tudo para ser chantagem em ocional, m as a perspectiva do encontro m e deixava dividido: de um lado, a ansiedade em rever Rosa, abraçá-la, beij á-la; de outro, a dúvida: seria a m esm a Rosa? Não teria ela encontrado outro cara, m e desculpe, Valdo, eu gosto de você, m as o Fulano é o hom em da m inha vida?
Enquanto eu estava ali torturado pela dúvida, bateram à porta. Praguej ei baixinho: a últim a coisa que eu queria naquele m om ento era falar com alguém . Fiquei im óvel, bateram de novo e não tive rem édio:
— Entre.
Minha m ãe, claro:
— Vim ver se precisas de algum a coisa...
Não sabia m entir, m am ãe: ficava verm elha, gaguej ava, e foi o que aconteceu naquele m om ento. Na verdade tinha vindo por causa do bilhete. Maria Clara obviam ente recorrera a ela: seu filho teve um caso com um a m ulher m eia louca, um a anarquista, ela sum iu, m as agora voltou, quer se encontrar com o Valdo, na certa vai criar m il problem as, a senhora não pode perm itir que essa m aldita estrague a vida do rapaz, ele vai acabar na cadeia, ouça o que lhe digo, a senhora é do interior, m as eu, que sou daqui, da capital, sei com o são essas coisas.
Ainda deitado, respondi:
— Não, m am ãe. Não preciso de nada. Tu sabes que eu não preciso de nada, que está tudo bem .
Ela vacilou, m as resolveu ir m ais adiante:
— Veio um a m oça aqui à tua procura...
— Eu sei, m ãe. É assunto m eu, podes deixar que eu resolvo.
Com eçou a chorar. Com um suspiro, levantei-m e da cam a e fui abraçá-la. Ela gem ia: por favor, filho, não te m etas com essa gente da política, isso é desgraça na certa, e nós j á tivem os desgraça bastante com a m orte do teu pai.
Tranquilizei-a com o pude, disse que àquela altura j á tinha criado j uízo, que ela podia ficar descansada. Levei-a até seu quarto, voltei, deitei-m e. Achei que não conseguiria dorm ir, m as não foi o que aconteceu: caí num sono bruto, pesado, do qual só despertei na hora de ir para o trabalho.
Encontrei Joaquim excitadíssim o: agora era oficial, a inauguração fora m esm o m arcada para o 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida. Estariam presentes Getúlio Vargas, o cardeal do Rio, dom Sebastião Lem e, m inistros, autoridades civis e m ilitares, representantes do Papa. O m om ento culm inante ocorreria quando as potentes lâm padas destinadas a ilum inar a estátua fossem acesas, o que seria feito m ediante um a verdadeira e inédita façanha tecnológica: da Itália, o cientista Guglielm o Marconi, inventor da telegrafia sem fio, em itiria um sinal de rádio que seria captado por um a estação em Dorchester, na Inglaterra, e, retransm itido para um a torre em Jacarepaguá, no Rio, faria as luzes se acenderem logo depois das 19 horas.
— Será sensacional, Valdo — bradava Joaquim . Fez um a pausa e acrescentou: — Sensacional, m as com plicado: pouca gente aqui tem experiência com essas coisas, de m odo que vam os ter que nos preparar m uito bem para evitar um fiasco.
Colocou a m ão em m eu om bro:
— E você, m eu am igo, com seu conhecim ento de eletricidade, poderá aj udar m uito.
Eu, aj udar? Com o? Recém com eçara o curso, e, em bora j á tivesse aprendido bastante, não m e considerava preparado para participar de um a operação tão com plexa e de tanta responsabilidade. Foi o que eu disse, m as Joaquim nem m e ouviu: para ele m inha colaboração j á era coisa decidida. Naquela tarde haveria um a reunião com os engenheiros e com técnicos em eletricidade, e ele avisara que eu estaria presente. O que m e deixou ainda m ais alarm ado. Ponderei que m inha presença poderia parecer estranha para aquelas pessoas; afinal, e pelo m enos oficialm ente, eu não passava de um auxiliar de pedreiro. Joaquim insistiu: os caras que discutiriam o sistem a elétrico eram de um a em presa contratada, ele queria ter alguém de confiança presente.
Acabei concordando, e depois do alm oço dirigim o-nos para a reunião. Onde, claro, fui recebido com surpresa e desconfiança por aqueles senhores sisudos, engravatados. Mas Joaquim não deu bola para isso: apresentou-m e com o “o nosso hom em para assuntos de eletricidade”.
A discussão do com plicado plano levou várias horas. Para dizer a verdade, eu m al ouvia o que falavam , tão nervoso estava por causa do encontro com a Rosa. Quando finalm ente term inam os, dei-m e conta de que j á não haveria tem po de voltar para a pensão: teria de seguir direto para o Botafogo. Um dos técnicos m e deu um a carona até a Voluntários da Pátria; com algum a dificuldade, encontrei o lugar, um pequeno e enfum açado bar, situado num a ruazinha transversal.
Da porta, avistei Rosa. Estava sentada sozinha a um a m esa, de costas para m im . Usava um vestido escuro m uito sim ples e um a boina preta, e fum ava um cigarro, o que para m im era novidade — m as previsível, num a contestadora.
Mais um a vez, vacilei. Deveria entrar? Mas entrar para quê? O que m e esperava, ali? Um encontro casual — quanto tem po, queria saber com o você vai — ao fim do qual ela desapareceria de novo, quem sabe para sem pre? Eu não podia m e iludir, não devia m e iludir: a possibilidade de ela cair em m eus braços, voltei porque te am o, agora ficarem os j untos, essa possibilidade era rem ota, rem otíssim a. Mas paixão, m esm o frustrada, é coisa m uito forte, capaz de despertar absurdas esperanças. Entrei, fui até a m esa onde estava.
Voltou-se para m im , e de im ediato constatei que tinha m udado. Talvez por causa das vicissitudes pelas quais passara, tinha aparência envelhecida; a diferença de idade entre nós era agora m ais evidente. Perdera um dente, um dos caninos; seu sorriso não era dos m ais atraentes. Mas era a Rosa, a m inha Rosa, e não pude resistir: abracei-a, im petuoso. Calm a, sussurrou ela, calm a, as pessoas estão olhando, não vam os cham ar a atenção.
Fez com que eu m e sentasse, perguntou se eu queria tom ar algum a coisa — um vinho, com o ela, um a cervej a?
Aceitei um copo de vinho. Um vinho forte, que m e deixou tonto, m as que pelo m enos m e deu coragem para interrogá-la, para fazer, desabrido, as perguntas que estavam trancadas na m inha goela: onde diabos ela estivera, todo aquele tem po? O que fizera? Por que não dera notícias?
Muito calm a, apagou o cigarro no cinzeiro.
— Fugi — ela disse. — Tive de sair do país.
Logo depois da vitória da revolução, recebera a notícia inquietante: a polícia estava atrás do Coletivo Ravachol. Não que Rosa e seus com panheiros fossem considerados particularm ente perigosos; não, não era o caso. Mas Getúlio tinha aliados que odiavam o anarquism o, e estes haviam m obilizado as forças da lei para acabar de vez com o m ovim ento. Avisado, o grupo decidira se dispersar, pelo m enos por algum tem po, cada um indo para seu lado:
— Peguei m inhas econom ias, com prei um a passagem de navio e fui para a França. Tinha contatos com os anarquistas em Paris; procurei-os, receberam -m e m uito bem , aceitaram -m e na organização deles. Não podiam m e sustentar, então tive de trabalhar. Arranj ei um em prego num a fábrica de autom óveis, a Renault. Trabalho duro, m as eu estava feliz. Aprendi m uita coisa convivendo com os operários. Antes eu era um a anarquista, digam os, sentim ental, teórica; agora, não. Agora estava descobrindo o que fazer de concreto, de prático, na luta política. Participei de m uitas reuniões, de sem inários, cheguei até a dar um a conferência, verdade que para pouca gente, sobre o anarquism o no Brasil. Muito bom . Muito bom m esm o.
Algo lhe ocorreu, algo que a fez sorrir:
— Além disso, eu estava na França, a França da revolução, a França de Ravachol. E eu sonhava com o Ravachol, Valdo. Sonhava m uito com o Ravachol. Sonhava que estávam os fazendo am or. E, no m eu sonho, ele era um grande am ante.
Um erro. Em relação a m im , um erro. Pior: um a ofensa, não j ustificável nem m esm o por sua devoção à m em ória (e à suposta potência sexual) de um anarquista legendário. Ela deu-se conta, corrigiu-se:
— Claro, não estou falando de nossa relação, Valdo; na cam a você é im batível, Ravachol algum chega a seus pés. — Riu: — Mas m esm o assim foi engraçado, ter sonhado com ele. Você não acha?
Não, eu não achava engraçado Rosa ter sonhado com um anarquista m orto. Ao contrário, a história m e fez m al. Cada vez m ais ficava claro que éram os pessoas m uito diferentes; ela, a revolucionária, m ulher estranha, ainda que fascinante, a m ulher que sonhava com o Ravachol; eu, um guri desnorteado, perdido, sem rum o na vida. Mas guardei essa conclusão para m im : é verdade, respondi, teu sonho foi m esm o m uito engraçado.
Pediu que eu contasse sobre m im : com o tinha passado aquele tem po, o que estava fazendo.
Hesitei. O que poderia dizer? Respondi qualquer coisa vaga, disse que havia lido os livros que ela m e deixara, que gostara m uito; que, com o todos os brasileiros, aguardava para ver o que aconteceria com o Brasil de Getúlio.
Ela m e escutava sorridente, am istosa. De súbito, ficou séria:
— Tem um assunto sobre o qual precisam os falar. Um assunto m uito im portante, um assunto decisivo.
Inclinou-se para m im e perguntou em voz baixa:
— Você trabalha na construção do Cristo no Corcovado, não é verdade?
Aquilo m e deixou estarrecido. Eu nunca lhe falara de m eu em prego, nunca. Morreria de vergonha se ela m e dissesse, com todo o desprezo do m undo, algo tipo “um cara que tem um m ínim o de dignidade j am ais aceitaria dar seu esforço para a construção de um ídolo religioso, um m onum ento ao atraso, ao reacionarism o”. De algum m odo, ela descobrira o m eu segredo; só que, surpreendentem ente, não parecia revoltada nem chocada. A indagação fora feita num tom absolutam ente neutro, um tom que, nela, estava longe de ser habitual.
Percebendo m inha surpresa, sorriu:
— Você deve estar se perguntando com o descobri que você é operário lá no Corcovado. Nós sabem os m uito m ais coisas do que im agina, Valdo. A m aneira com o obtem os nossas inform ações é sigilosa, naturalm ente, m as neste caso posso lhe falar: um de nossos com panheiros conhece o Joaquim , m estre de obras do Cristo, e dele ouviu m uita coisa sobre você. Sei o que você faz, sei que está concluindo um curso de eletrotécnica e que está se saindo m uito bem , tanto que o Joaquim quer aproveitar seu conhecim ento.
Acendeu outro cigarro e continuou:
— O lugar em que você trabalha, o curso que está fazendo, isso não tem im portância. Melhor dizendo: não tinha im portância. Agora tem . Tem m uita im portância. Tem toda a im portância do m undo. Sabe por quê, Valdo? Sabe por quê?
Deu-se conta de que estava falando alto — o cara da m esa ao lado lançou-nos um olhar aborrecido — e baixou a voz:
— Porque, m eu querido Valdo, m eu am ado Valdo, m eu gaúcho do coração, m eu com panheiro de causa, você vai fazer parte de um plano. Um grande plano internacional, algo que vai, acredite, m arcar a história do nosso m undo. Vai consagrar para sem pre o m ovim ento anarquista brasileiro. E vai transform á-lo definitivam ente num m ilitante. Deixe eu lhe m ostrar um a coisa...
Apanhou um a bolsa da cadeira ao lado e dela retirou fotos, que m e m ostrou.
— São m onum entos fam osos, que você decerto conhece. Esta aqui é a torre de Pisa, a fam osa torre inclinada... Esta é a Coluna de Nelson. Fica no centro de Londres e foi construída no século dezenove, em hom enagem ao alm irante Nelson, que venceu a batalha de Trafalgar, a m ais im portante das guerras napoleônicas... Esta, claro, é a torre Eiffel, em Paris. Esta é a estátua da Liberdade, em Nova York, que você tam bém conhece, sím bolo da ideologia am ericana.
Guardou as fotos, tirou um cigarro do m aço, acendeu-o:
— Pois o grupo francês estava estudando a possibilidade de repetir em escala m undial a façanha do Ravachol, destruindo esses m onum entos — à bom ba, que é, por assim dizer, a grande arm a do anarquism o, o nosso sím bolo. E a questão era: por qual deles com eçar? Qual seria o m ais im portante?
Deu um a longa tragada:
— Eu estava na reunião com o convidada. Teoricam ente deveria apenas ouvir, não m e m anifestar. Mas aí m e ocorreu um a ideia que de im ediato m e entusiasm ou, m e surpreendeu, aquela coisa de “Com o é que eu não pensei nisso antes?”. Pedi a palavra. Quero lem brar a existência de um outro m onum ento, eu disse, um m onum ento que está para ser inaugurado e que será notícia no m undo inteiro, é por ele que a gente deve com eçar.
Olhou-m e dem oradam ente:
— Im agino que você saiba de que m onum ento eu estava falando, Valdo.
Eu sabia? Talvez no fundo soubesse, sim , do que ela estava falando; m as sim plesm ente m e recusava a adm iti-lo e disse que não, que não sabia, que não tinha a m enor ideia de que m onum ento seria aquele. Ela então tirou da bolsa um a quinta foto: era do Cristo Redentor quase concluído.
Meu espanto foi tal que sim plesm ente fiquei m udo: não consegui dizer um a única palavra. O que ela provavelm ente nem notou, porque j á prosseguia, m uito anim ada:
— Nada sabiam a respeito, m eus com panheiros anarquistas. Cristo Redentor? Sim , um deles tinha ouvido falar que se tratava de um proj eto do Paul Landowski, um artista reacionário, um carola. Mas tanto ele com o os outros concordavam em um ponto: o Brasil, país atrasado, de periferia, país que quase nunca está no noticiário internacional, o Brasil seria um lugar pouco adequado para um grande atentado: a coisa não teria nenhum a repercussão na im prensa m undial, e repercussão na im prensa era por eles considerado fundam ental. Além disso, perguntou um a m ocinha m etida a engraçada, quem se encarregaria de preparar os explosivos, os índios canibais? Todos acharam graça, eu fiquei irritada: vocês estão m uito enganados, eu disse, vocês são uns preconceituosos, o Brasil progrediu m uito, está se tornando um a potência m undial, um novo centro do capitalism o, e esse m onum ento, esse Cristo gigantesco, é um a prova do que estou dizendo. Falei, falei, e, m odéstia à parte, fui tão categórica, tão convincente, que eles acabaram aceitando m eus argum entos. Puseram m inha proposta em votação e a decisão foi praticam ente unânim e: destruir o Cristo Redentor.
Calou-se, triunfante. Em seguida falou-m e do plano, deu-m e alguns detalhes. Estava perfeitam ente inform ada acerca da situação da obra. Sabia, por exem plo, da controvérsia sobre a inauguração do m onum ento, sabia da nova data, sabia quem estaria na inauguração — e sobretudo, coisa que fez questão de frisar, sabia que as lâm padas seriam acesas m ediante um sinal em itido de um aparelho operado pelo italiano Marconi.
— Este detalhe é im portante, Valdo. Na verdade, é o detalhe decisivo, vai facilitar trem endam ente nossa tarefa. De acordo com nosso plano, o sinal vai acionar os detonadores das bom bas espalhadas no m onum ento. Um a coisa elem entar, com o você deve saber, um a sim ples conexão dos fios da rede do Cristo com os fios dos explosivos. No m om ento culm inante, no m om ento em que as luzes se acenderem , bum !, aquilo tudo vem abaixo, o Cristo voará em pedaços, a cabeça rolará m orro abaixo. Um a coisa que Ravachol e Em m a Goldm an adorariam ver. Um a cena que m arcará o com eço de um a nova era, um a era sem riqueza e pobreza, sem religião, sem governo, a era da m ais com pleta liberdade. As m assas aderirão a nós. Tom arem os o poder, m as apenas para devolvê-lo ao povo. E nos consagrarem os com o revolucionários.