Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Não havia alternativa, porém . Apesar do tom am istoso, Joaquim em realidade não estava m e consultando: estava m e inform ando, com a autoridade que lhe dava sua posição de m estre de obras, que eu fora designado para um a nova função. Eu ali era operário, e operário, no capitalism o, obedece.
— Você com eça lá am anhã — anunciou.
Voltei ao depósito de sacos de areia, onde Júlio m e esperava, curioso. Sabia que Joaquim havia m e cham ado, queria saber das novidades. Contei-lhe que trabalharia em São Gonçalo, sob as ordens de Heitor Levy. Ele sorriu, irônico:
— Ah. O j udeu.
Judeu? A afirm ação m e deixou boquiaberto. Heitor Levy era j udeu? Mas com o? Um engenheiro j udeu trabalhando na construção de um m onum ento cristão? E m ais, um j udeu que se dedicava ao Cristo com um fervor que a todos im pressionava? Im possível. Júlio estava, com o quase sem pre, louqueando; sua paranoia fazia com que visse j udeus por toda parte, inclusive no lugar m enos provável: a obra do Cristo Redentor. Optei por achar graça:
— Judeu, Júlio? O Heitor Levy, j udeu? Não é possível. Um j udeu não viria trabalhar aqui. Deves estar enganado.
Ele ficou por conta:
— Ah, não acreditas no que eu te digo? Claro que o Levy é j udeu, com caralho cortado e tudo. Não vi, m as posso garantir. Judeuzinho da gem a, o cara, j udeu puro-sangue! Judeu safado, sem -vergonha!
Gritava tanto, que os operários que estavam por perto se voltaram para nós. Ele prosseguiu, num tom m ais contido:
— Judeu, sim . A você isso pode surpreender, m eu caro. A m im não surpreende. Ou você acha que o Heitor Levy conseguiu esse cargo por acaso? Nada disso.
Tudo aquilo, explicou-m e, fazia parte da conspiração j udaica da qual ele estava inform ado graças a am igos ligados ao m ovim ento nazista. Num prim eiro m om ento os j udeus se declarariam arrependidos do que haviam feito a Cristo: Jesus era dos nossos, sem pre foi, os sacerdotes do tem plo de Jerusalém não podiam ter pedido sua execução, eles erraram , nós e os cristãos som os um a coisa só. A presença de Heitor Levy na construção do Cristo seria apresentada com o prova disso, desse desej o de colaborar. Num segundo m om ento, e, claro, com a cum plicidade de certos setores da Igrej a ligados à finança internacional e ao com unism o, tom ariam conta do Brasil em definitivo. Júlio m e garantiu que na base do m onum ento seria construída um a sinagoga, e que Cristo seguraria em cada m ão um a estrela de davi. Um desenho m ostrando com o seria essa estátua circulava entre seus am igos nazistas.
Por m ais idiotas que fossem os com entários de Júlio, traziam — se a inform ação em relação ao engenheiro era m esm o verdadeira — um com ponente adicional de perturbadora estranheza à nova etapa que eu teria de enfrentar. A rigor pouco se m e dava que o Levy fosse j udeu, ou protestante, ou um bandista; aquilo não deveria fazer diferença nenhum a.
Mas fez. Fez m uita diferença. Naquela noite, m ais um a vez, e por causa daquela absurda incerteza, dorm i pouco e m al; de m anhã fui para o trabalho com m aus pressentim entos. Contudo, o engenheiro Heitor Levy, a quem Joaquim m e apresentou quando lá cheguei, parecia qualquer coisa, m enos o j udeu m aquiavélico que Júlio descrevera: um hom em sim pático, de fisionom ia agradável, ar inteligente, elegantem ente vestido, de terno e gravata; seu tipo de m aneira algum a correspondia à caricatura clássica do j udeu de nariz adunco e m ãos em garra. Cum prim entou-m e afavelm ente, perguntou se eu estava pronto para a m issão.
Não, pronto eu não estava. Não para aquela m issão, pelo m enos. Mas não era o que lhe diria; pode contar com igo, engenheiro, respondi, procurando afetar despreocupação.
No carro que nos levava, eu estava apreensivo, agitado. Heitor Levy se deu conta de m inha tensão; provavelm ente atribuiu-a à insegurança, e tentou distrair-m e, falando sobre o m onum ento. Sabia eu que o proj eto fora alterado? Seu colega Heitor Costa pensara inicialm ente num Cristo segurando com um a das m ãos um a grande cruz, e a palm a da outra m ão sustentando um globo terrestre. (Cruz e globo: nada de estrela de davi. O Júlio era m esm o um idiota.)
A cruz e o m undo, continuava Levy, você j á pensou em algo m ais sim bólico? Mas, acrescentou, com um suspiro, a ideia não fora bem aceita por círculos da Igrej a católica; por causa da conhecida obsessão brasileira por futebol, o globo fatalm ente lem braria um a bola. Mas a m udança resultara adequada; a im agem do Cristo com os braços abertos representaria um apelo poderoso:
— É o Senhor acolhendo todos os brasileiros — disse-m e, a voz vibrando de em oção. — É o Senhor abraçando os m ilhões de brasileiros.
Estrem eci. Aquilo m e lem brou o “Eu vos abraço, Milhões” do quarto de Geninho. Estaria o engenheiro usando o verso de Schiller com o m etáfora religiosa, um a figura de linguagem que era a própria negação dos sonhos de m eu am igo m orto? Se era esse o caso, tratava-se de um a ofensa, para dizer o m ínim o, m esm o involuntária. E pior, eu não tinha com o protestar, eu não podia dizer que a frase fora adotada com o lem a revolucionário por um j ovem com unista de saudosa m em ória. O que fazer? “Chto delat?” Nada. Fiquei calado.
Chegam os à propriedade, entram os. Descem os do carro, andam os algum as dezenas de m etros por um a estradinha. E aí, num a curva, o engenheiro deteve-se e voltou-se para m im , radiante:
— Prepare-se para a grande surpresa.
Dentro de um a precária arm ação feita com um as poucas toras de m adeira roliça, estava, em gesso, o Cristo, a cabeça do Cristo. Enorm e: uns quatro m etros de altura, no m ínim o.
Minha prim eira reação, sou obrigado a reconhecer, foi de terror, um terror que chegou a m e paralisar. Fiquei ali, trêm ulo, im óvel, diante daquela cabeça gigantesca, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. Heitor Levy percebeu, m as deve ter achado que aquilo era apenas um a m anifestação de reverência de um j ovem católico diante da figura im ponente do seu Salvador. Se foi isso que achou, estava errado. Para m inha desgraça, estava errado, com pletam ente errado, trem endam ente errado. Minha reação resultava de um a em oção prim itiva, visceral, que, achava eu, havia sido neutralizada pelo sadio e vigoroso antídoto da superstição, o m aterialism o dialético. Mas não, ali estava eu, passando m al, suando frio. Diante daquela cabeça eu era um anãozinho, um verm e insignificante. Era um a cabeça m aciça, um a cabeça que se im punha pelo peso, pelo volum e, pela solidez. Posso te esm agar, garantia aquela cabeça. E podia m esm o: era só desabar sobre m im e eu estaria perdido.
Mas não era só isso, não era só o tam anho descom unal. Era outra coisa. As im agens de Cristo com as quais eu estava fam iliarizado eram sobretudo im agens de m artírio, de sofrim ento, com o a do crucifixo de m inha m ãe. Aquela não. Aquela era um a obra art nouveau, um a im agem m aj estática, de sóbria beleza. O Cristo que eu tinha diante de m im era um Cristo de expressão neutra, im passível. Nada de “Meu pai, m eu pai, por que m e abandonaste?”, e nada de “Deixai vir a m im as criancinhas”. Tam bém não era a im agem do Jesus que, gritando “A m inha casa é casa de oração, vós a transform astes em covil de ladrões”, expulsara os vendilhões do Tem plo. Não, aquele Cristo não bradava nada, aquele Cristo não se queixava, não se enfurecia. Aquele Cristo, asséptico e m aj estoso, era um a absoluta incógnita. Os globos oculares não tinham pupilas, não tinham íris, não tinham cor; pior, não m e fitavam , aqueles olhos, o que não im pedia que eu m e sentisse m irado, trespassado por um olhar que superava os raios X em term os de devassar intim idades; poder enigm ático, secreto, m isterioso. Olhos insondáveis, olhos de cego que, no entanto, viam tudo, que m e acusavam : eu sei quem tu és, com unista pérfido, estás aqui para destruir, não para construir, vade retro, Satanás.
Isso, os olhos. O nariz, agora. O nariz não era adunco com o eu im aginava (com , reconheço, certo preconceito) os narizes de j udeus; era um nariz reto, com o um nariz grego ou rom ano, e sem narinas; um nariz que não fora feito para respirar ou cheirar. Os lábios estavam cerrados. Não firm em ente cerrados, não teim osam ente cerrados, m as cerrados. Nenhum sorriso am ável ou conciliador ali esboçado; nenhum ricto de indignação ou de revolta. Lábios inconspícuos, neutros. Quanto à barba, era geom étrica, perfeitam ente delim itada. Não era com o a barba de Marx, generosa, abundante, vital com o o era a ideia da revolução; um a barba que se desenvolvera livrem ente, m as tam bém disciplinadam ente, a com binação da liberdade com a disciplina sendo um traço fundam ental do m arxism o. Eram claras as diretrizes que Marx im punha à própria barba: poderia crescer indôm ita e até furiosa (a fúria j usta é saudável e necessária); poderia ocupar seu espaço na face e no m undo, m as tudo isso dentro dos lim ites da razão, da lógica. Em oção revolucionária m odulada pela razão tam bém revolucionária, eis o fundam ento da ação m arxista, eis a m ensagem que a barba de Marx transm itia. Na barba que eu tinha diante de m im , bem desenhada, sim étrica, rigorosam ente delim itada, naquela barba com portada, faltava o essencial com ponente da revolta. E o m esm o poderia ser dito do cabelo, dividido ao m eio e penteado com apuro.
Tudo aquilo, os olhos, o nariz, a boca, o cabelo, a barba, tudo aquilo m e perturbava m uito. Seria diferente se eu estivesse visitando aquela cabeça num m useu e, m elhor ainda, se a m eu lado estivesse um hom em cham ado Paul Landowski explicando (e poderia fazer isso com orgulho, a m im não im portaria) sua obra: “Em relação ao desenho dos lábios, pensei m uito, e levei em consideração...”. Pronto: o m istério estaria desfeito, a cabeça de Cristo j á não m ais seria um inquietante enigm a, e sim o resultado de um a elaboração artística: arte reacionária, claro, arte religiosa, m as arte, de qualquer m odo, algo para não ser levado m uito a sério. Mas não, eu não estava num m useu, não havia nenhum Landowski por ali; e tam bém nenhum socorro poderia esperar de Heitor Levy, im óvel a m eu lado, num a postura reverente, subm issa. Não, ele não rom peria o silêncio com um com entário qualquer, que em bora casual, ou exatam ente por ser casual (“Nossa, deu trabalho trazer essa cabeça para cá”), m e libertasse, desfazendo, com a am ena e brincalhona brisa da banalidade, aquela sufocante atm osfera de m isticism o.
De m odo que eu estava irrem ediavelm ente derrotado, e a expressão m aior de m inha derrota era a im obilidade, a paralisia. Eu não conseguia parar de olhar a enorm e cabeça. O que via ali era um a expressão do m ais com pleto e ilim itado poder da religião: Cristo nem sequer precisava dem onstrar, na expressão facial, o seu triunfo. Mas de triunfo tratava-se, sim ; nascido num a m anj edoura, Jesus tornara-se um líder que arrastava m ultidões, que fazia m ilagres. Fora preso, supliciado, m orrera, ressuscitara, descera à m ansão dos m ortos, ascendera aos céus e lá vive, lá reina, lá im pera: disso tudo a m onum ental cabeça dava testem unho definitivo e irrevogável.
Com o se não bastasse a cabeça, ainda havia as m ãos, que Heitor Levy m e m ostrou em seguida. Mesm a coisa: m ãos enorm es, poderosíssim as. Não estavam cerradas com o punhos revolucionários; e não eram m ãos brutas, ao contrário, eram m ãos bonitas, elegantes, de dedos longos; m ãos de artista. Mas eu não podia duvidar de seu potencial e am eaçador poder, antes de m ais nada em função do enorm e peso: um a m ão daquelas, caindo sobre m im , m e esm agaria com o se eu fosse um inseto (e eu ali não passava disso, um inseto, um a barata, um a form iga). Ah, sim , não faltava às m ãos um elem ento acusador. Em am bas as palm as, e com o era de esperar, as m arcas do suplício: as feridas deixadas pelos cravos que prendiam Cristo à cruz. Feridas estilizadas, obviam ente, de contorno geom étrico, m as feridas, lem brando aos fiéis o m artírio, o suplício que precedera a m orte. Detém -te, j ovem transtornado, diziam aquelas m ãos, detém -te, cai de j oelhos, arrepende-te, evoca o sublim e m istério da vida de Cristo. Se o fizeres, a graça divina ilum inará teu coração, serás feliz para todo o sem pre; m as, se não o fizeres, ai de ti. Ai de ti! Queim arás por toda a eternidade nas cham as do inferno.
Sabes em quem eu pensei naquele m om ento, m eu neto? Pensei em Judas. Naquele m om ento entendi o que ele sentira diante de Cristo, sua invej a, sua am argura, seu ódio im potente. Em vão buscara vencer Cristo; ah, eu traio o cara, acabo com ele, faturo trinta m oedas, fico bem com os rom anos e com os sacerdotes, que m ais posso querer? Erro de cálculo, fatal erro de cálculo, erro que pagou da única m aneira possível: enforcando-se. E, no m om ento em que m orria, deve ter visto diante de si a face de Cristo: não a face sangrenta do supliciado, a fronte coroada de espinhos; não, num a espécie de prem onição, Judas vira a m esm a face que eu tinha diante de m im , a face im passível, a face serena — a im passibilidade e a serenidade resultantes de um definitivo e irreversível triunfo. Um a visão para ele desesperadora, a visão que seguram ente apressara seu fim .
Agora: que deveria eu fazer diante da esm agadora derrota que m e infligiam aquela cabeça e aquelas m ãos? Gritar, com o o despeitado im perador Juliano, “Venceste, galileu”? Enfiar o rabo entre as pernas e sair dali calado?
Não. Eu não era Judas nem Juliano. Não estava atrás de trinta m oedas, não estava atrás do poder dos im peradores rom anos. Eu era, ou ao m enos j ulgava ser, um com unista, um j ovem com unista; m eus ideais de j ustiça e de igualdade estavam acim a daquela m esquinharia, acim a de abj etas condutas. Em nom e desses ideais, em nom e da tática revolucionária, eu m e sacrificaria e cum priria a tarefa que m e seria delegada por Heitor Levy .
— Estou às suas ordens, senhor engenheiro — eu disse e, tendo falado, im ediatam ente senti-m e m elhor, eufórico, quase. Então eu não havia em udecido de terror! Não: dera a volta por cim a, recuperara-m e, com o só o proletariado pode recuperar-se; recorrera à m inha inteligência e até à m inha astúcia dialética, encaixando-m e perfeitam ente no papel que deveria desem penhar na qualidade de agente (secreto, no caso) da revolução. “Estou às suas ordens, senhor engenheiro.” Diante de um perturbador dilem a eu soubera perfeitam ente o que fazer. Se Lênin aparecesse ali, perguntando “Chto delat?”, eu teria um a resposta para ele. Eu teria respostas para todas as perguntas de todos os revolucionários do m undo. Que m e bom bardeassem com os seus “Chto delat?”, eu responderia com a m etralhadora giratória da im placável dialética.
Heitor Levy, contudo, não m e ouviu, absorto que estava em seus pensam entos, talvez m etafísicos, certam ente m etafísicos. Estou às suas ordens, repeti, e toquei-lhe no braço. Sobressaltou-se, m as em seguida caiu em si: m uito bem , Valdo, vam os ver o que tem de ser feito.
Mostrou-m e rachaduras e buracos na superfície de gesso; seria preciso corrigir tais falhas. O m aterial j á estava todo ali, ele ensinou-m e a utilizá-lo; fez um a dem onstração prática, preenchendo cuidadosam ente, am orosam ente eu diria, um a erosão na fronte de Cristo. Olhou, perguntou o que eu achava. Está ótim o, respondi. Ele sorriu:
— Pois é isso que você terá de fazer.
Indagou se eu tinha algum a dúvida. Respondi que não, que estava pronto para com eçar.
A verdade, porém , é que pronto não estava. Não com pletam ente pronto, ao m enos, para o que inevitavelm ente seria um a dura prova. Um a coisa era transportar areia e cim ento do ponto A para o ponto B recitando para m im próprio trechos do Manifesto; aquilo eu podia fazer autom aticam ente. Outra coisa era trabalhar na cabeça de Cristo, tocar o cabelo, a barba, os olhos (m esm o sem pupilas), o nariz, a boca. Marx teria feito isso? Lênin teria feito isso? Stálin teria feito isso? E, im portante, Astroj ildo Pereira teria feito isso? Não, bradava em m im um a voz interior, eles não teriam feito isso, e tu não tens de fazer isso, nada te obriga, és livre para recusar.
Verdade: eu poderia, naquele m om ento, largar o em prego — porque era só isso, um em prego, um ganha-pão, não era um a m issão, não era um a causa. Ou poderia continuar no em prego, m as recusar-m e a fazer aquela tarefa alegando algo do tipo “não tenho de fazer conserto em gesso, sou aj udante de pedreiro e só aceito trabalho de aj udante de pedreiro, só aceito m exer com areia, cim ento, argam assa”.
Mas outra voz (vozes interiores, sem pre contraditórias, não m e faltavam , naqueles tem pos de confusão) dizia exatam ente o contrário: tu estás apenas desem penhando um papel, Valdo, o papel que te exige o m om ento; estás dando um passo atrás para depois dar dois passos à frente — não te preocupes, faz o que precisa ser feito e confia no rum o que a História tom ará.
Argum ento racional. Mas, racionalidade à parte, havia um risco. Eu m e colocara à disposição do engenheiro, num a atitude que, calculadam ente em bora, chegava ao lim ite do servilism o. E esse era o problem a. Se, m ovido pela arcaica e tradicional subm issão da classe operária, pelo m edo de perder o em prego e de passar fom e, eu ultrapassasse esse lim ite, transform ando-m e num obediente servidor, estaria perdido, definitivam ente perdido: um a vez cruzada a tênue e im precisa fronteira (tão tênue e im precisa quanto aquela que, ali, m e separava do rosto e das m ãos de Cristo), não teria com o voltar. Para tanto poderia colaborar a m inha própria fraqueza, a debilidade interior resultante de um a infância religiosa, que gerava em m im um a outra, e inquietante, dúvida: será que no fundo eu não queria aproxim ar-m e do Cristo, m irar o Cristo, tocar o Cristo, com o fizera na infância com o crucifixo em nossa casa? Será que não estava renascendo em m im o guri crente que um dia eu fora, o guri que era a alegria de m inha devota m ãe? Estariam vivas em m im , em algum obscuro com partim ento de m inha m ente, as crenças e o êxtase de m inha infância, essas crenças, esse êxtase apenas aguardando a oportunidade para, em triunfo, retornarem , Cristo vivo, Cristo reina, Cristo im pera? Que conflito, m eu Deus.
“Meu Deus”? Foi isso que eu escrevi, com esta caneta-tinteiro Parker que m e acom panha há décadas, um a caneta que nem é m ais fabricada? Foi isso?
Sim , eu escrevi “m eu Deus”. O velho que eu sou escreveu “m eu Deus”. Por quê? Porque sou um crente, agora? Porque a proxim idade do fim m e faz acreditar em Deus? Ou porque traduzi em palavras escritas a exclam ação que passou pela cabeça do rapazinho Valdo naquela m anhã cinzenta? E, se o rapazinho Valdo exclam ou, para si próprio, e de form a autom ática, espontânea, “m eu Deus”, que conclusão poderia ele tirar disso? Que usara apenas um a expressão com um no cotidiano brasileiro? Ou que, no fundo, estava m esm o apelando para a divindade, j á que não podia apelar para Marx, Lênin, Stálin — para Astroj ildo Pereira?
Não tenho resposta para essas perguntas. Nem para m uitas outras. A gente pensa que a vida vai term inando com as dúvidas. Engano, m eu neto. Term ina com algum as dúvidas, suscita outras, não raro m ais com plicadas. A gente não entende m ais nada, a perplexidade só faz crescer.
Mas o pior ainda estava por vir. Heitor Levy bem poderia, naquele m om ento, ter se afastado — afinal, j á m e transm itira suas instruções, dera suas ordens. Mas não, determ inado e m inucioso com o era, resolveu acrescentar ponderações, recom endações. Eu deveria m e dar conta da im portância do trabalho que faria. Afinal, tratava-se de um a obra de arte, algo único, nunca visto no Brasil. E, m ais im portante, era a im agem do Filho de Deus. Lem bre-se de Verônica, disse (m as realm ente o cara tinha de ser católico, só um católico faria essa alusão, o Júlio era m esm o um a besta), a m ulher que, com o próprio véu, enxugou o rosto de Cristo na Via Sacra:
— Você deve trabalhar esse rosto com o m esm o carinho, com a m esm a devoção. O rosto de Cristo ficará m arcado em sua alm a assim com o ficou m arcado no véu de Verônica.
Sim , senhor, foi o que eu respondi. “Sim , senhor”: o m antra da subm issão, as palavras com as quais eu m e integrava à im ensa corrente dos oprim idos, dos escravos, dos servos, dos operários, a corrente que por m ilênios m overa o m undo.
— Qualquer problem a, você m e cham a — disse o engenheiro, j ovial, e afastou-se.
Respirei fundo e m e preparei. Sabia o que fazer, tinha o m aterial necessário. Era só com eçar.
Não: não era só com eçar. Era preciso traçar antes um a estratégia. A estratégia seria o antídoto contra o desalento, e nesse sentido eu tinha exem plos históricos: desanim avam os verdadeiros com unistas diante da m agnitude do desafio à sua frente? Haveria m otivos para isso: eles eram poucos, as forças da reação m ostravam -se avassaladoras. Mas não, os verdadeiros com unistas não desanim avam . Perguntavam -se o que fazer (“Chto delat?”) e, tendo encontrado a resposta (porque sem pre existia um a resposta, m esm o que o problem a fosse dificílim o), faziam o que tinham de fazer, progredindo por etapas, traçando obj etivos lim itados, m odestos, porém exequíveis: um a greve aqui, um protesto ali, um m anifesto acolá. Eu procederia da m esm a form a. Abstrairia o rosto de Cristo, m e concentraria nos buracos e nas erosões do gesso. E isso não seria difícil. Por feliz coincidência, algum as daquelas erosões tinham form as significativas. Um a delas parecia um a foice — isto m esm o, um a foice, talvez à espera do m artelo —; outra, um a bandeira desfraldada: bandeira de cor branca, afinal a cabeça era de gesso, m as que eu podia im aginar verm elha. Não era o rosto de Cristo aquilo, era um painel da revolução, ou assim eu queria vê-lo. Fui trabalhando, portanto, preenchendo as lacunas com gesso. Em dois dias, m ais cedo do que pensava, term inei o serviço. Heitor Levy m e elogiou m uito; você é um excelente colaborador, disse, graças a pessoas com o você, o nosso Cristo será um triunfo. Em barcam os em seu carro e voltam os para o Corcovado.
Joaquim j á sabia que eu m e saíra m uito bem , deu-m e os parabéns, perguntou se eu gostara de trabalhar com o engenheiro Levy. Sim , eu disse, ele é um hom em m uito gentil, m uito religioso. E aí m e lem brei do com entário de Júlio:
— Engraçado, há quem diga que ele é j udeu...
Joaquim riu:
— É, eu sei desses com entários. Que aliás têm fundam ento: o engenheiro Levy é j udeu. Melhor dizendo: foi j udeu. Foi, não é m ais. Converteu-se, e hoj e é um bom cristão, um católico exem plar.
Apontou a obra:
— A prova está ali, na argam assa que form a o corpo do Redentor. Quando se converteu, o engenheiro escreveu num papel os nom es de seus fam iliares, enfiou o papel num a garrafa e colocou essa garrafa na argam assa. Um a espécie de com unhão, está entendendo? Na com unhão, recebem os o corpo de Cristo; aqui, foi o corpo de Cristo que recebeu a fam ília do engenheiro. Não é bonito, isso, Valdo? Heitor Levy é o grande exem plo de alguém que viu a luz, que encontrou o verdadeiro cam inho da fé.
Estarrecido, eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Então Júlio estava, ao m enos parcialm ente, certo? Então o Heitor Levy era um j udeu, ainda que convertido? Mas com o? Por que fizera isso, por que m udara de religião? Não tinham os j udeus sido perseguidos pela Igrej a? Não tinham sido queim ados nas fogueiras da Inquisição? Com o então ele, um j udeu, um hom em teoricam ente culto e esclarecido, não se revoltava? Com o podia m ostrar tal reverência, tal subm issão, aderindo aos algozes, à superstição deles?
Incom preensível. Revoltante. A m enos, claro, que tudo fosse encenação, coisa, com o dizia Júlio, de j udeu esperto, de safado, de j udeu que sabia com o enganar os cristãos, que fingia um a conversão para garantir o em prego e certam ente um a polpuda rem uneração.
Am bas as possibilidades m obilizavam m inha raiva. Toda a am argura que em m im se acum ulara ao longo daqueles m eses agora se voltava contra o renegado, contra o traidor (ou espertalhão: o adj etivo que o caracterizaria era irrelevante). E não era sim ples preconceito, coisa de antissem ita barato, nada disso. Até então, e ao contrário de alguns colegas de escola, eu nunca tivera raiva de j udeus. Ao contrário, sentia por eles secreta adm iração, por seu passado de sofrim ento, por sua cultura, por sua visão progressista. Geninho m e contara que na Rússia m uitos j udeus haviam lutado na revolução de 1917, e bravam ente: é gente sofrida, Valdo, sofrida, m as determ inada, um exem plo para nós. Mas, por outro lado, havia o j udeu Trotsky, o grande inim igo de Stálin, que eu aprendera a detestar; e j udeus burgueses, j udeus donos de banco, j udeus com erciantes, j udeus usurários — esses decerto teriam de virar sabão, m as não um sabão diferente, um sabão igual àquele que representava o destino dos burgueses em geral. Ou sej a: os j udeus, com o todo o m undo, se dividiam em duas categorias, os progressistas e os reacionários. O engenheiro fazia parte desta últim a, qualquer que fosse a explicação para sua conduta, para a conversão ao cristianism o: ou ele era o j udeu que em nom e do m isticism o renegara suas origens, ou era um tipo astuto, m aquiavélico, que m udara de religião para ascender na vida. Difícil de dizer o que era pior, m as am bas as possibilidades eram facilm ente explicáveis, não pela religião, m as pela origem classista do engenheiro: afinal de contas ele era um burguês, e a burguesia tinha disso, dessas loucuras, inclusive loucuras religiosas, não raro conj ugadas à safadeza inerente a um a econom ia ferozm ente com petitiva. E por isso, por causa de opções com o a de Heitor Levy, a burguesia tinha perdido o trem da História, estava condenada à extinção. Só a revolução poderia trazer a razão e a j ustiça ao m undo, e isso era, m ais que um consolo, um a esperança.
Mas a revolução continuava sendo, para m im , coisa longínqua, m iragem , sonho. Para com eçar, não recebera nenhum a m ensagem do Moreno. Teria ele falado com o Astroj ildo? E, se falara, por que o Astroj ildo não m andava m e cham ar? Eu era tão insignificante assim ? Eu não sabia o que pensar, o que fazer; e, pior, esse não era m eu único problem a. Maria Clara, furiosa com m inhas recusas, agora m e hostilizava sem cessar, am eaçando m andar-m e em bora da pensão: quem você pensa que é, m oleque, para m e rej eitar, j á tive hom ens dez vezes m elhores que você e que m e tratavam com todo o respeito.
Com o se isso não bastasse, m eu irm ão, que costum ava ser contido em suas cartas, agora, alarm ado, insistia em que eu voltasse: “Nossa m ãe j á não dorm e, coitada, passa as noites em claro, chorando e cham ando por ti”. Por últim o, e não m enos im portante para quem queria m udar o Brasil, a situação no país se agravava por causa das brigas políticas. O então presidente, Washington Luís, lançara com o candidato à sua sucessão o paulista Júlio Prestes. Políticos de Minas e do Rio Grande do Sul form aram um a frente de oposição, a Aliança Liberal, cuj o candidato era Getúlio Vargas. “Façam os serenam ente a revolução, antes que o povo a faça pela violência”, dizia o político m ineiro Antônio Carlos de Andrada, um a frase que m e deixava irritadíssim o: quem era aquele cara para falar de revolução? Depois de outubro de 1917, só um partido tinha o direito de usar essa palavra, o Partido Com unista. Os políticos burgueses podiam fingir que queriam revolução, m as o que queriam m esm o era m anter as coisas com o estavam : eram m oscas discretam ente diferentes do m odelo com um (um a asa um pouco m aior, um a pata um pouco m enor), m as, ao fim e ao cabo, voej avam incansáveis em torno à m esm a m erda capitalista. A violência burguesa não era a saudável violência revolucionária; era a violência da m áfia, do acerto de contas entre bandos rivais.
As eleições foram realizadas a 1o de m arço de 1930, sábado de Carnaval. Significativa coincidência: aquela eleição era um a palhaçada. Aliás, toda eleição burguesa era isso, um a palhaçada, um engodo destinado a fazer a população acreditar que decidia sobre o próprio destino. Mentira. Jogo de cartas m arcadas. Mudavam os governantes, m as a burguesia continuava m andando.
O resultado foi o que todo m undo esperava. No Rio Grande do Sul, Getúlio teve praticam ente todos os votos, m as, no resto do país, Júlio Prestes ganhou com folga. Os aliancistas protestaram , alegando fraude no pleito. A partir da derrota eleitoral, intensificaram -se os preparativos para um a revolução arm ada, da qual Prestes deveria ser o chefe m ilitar, e Vargas, o líder civil. Mas os dois acabaram rom pendo, Prestes declarando que tudo não passava de “um a sim ples luta entre as oligarquias dom inantes”.
Essas coisas apareciam com o notícia nos j ornais ou circulavam com o boatos, m as a verdade é que não m e interessavam m uito. A m elancolia, o desânim o m e invadiam , eu não tinha vontade de fazer nada, a custo conseguia trabalhar. Joaquim se inquietava por m inha causa, dava-m e conselhos: você precisa sair, conviver com os am igos, arranj ar um a nam orada.
Am igos? Que am igos? Am igo fora o Geninho, am igo de todas as horas, verdadeiro irm ão. E nam orada... Ah, quando teria eu um a com panheira, quando encontraria a m ulher de m inha vida? Um dia, na rua, um ônibus passou perto de m im e ali estava a Chica, o que foi para m im um a surpresa: pelo visto ainda não tinha conseguido convencer o pai a voltar para a m ãe, o que talvez explicasse seu ar de tristeza, de desam paro, seu alheam ento. De im ediato brotou em m im um a doida vontade de abraçá-la, beij á-la. O ônibus se detivera num a parada próxim a; se eu fosse correndo, ainda conseguiria em barcar, sentaria perto dela, Chica, que surpresa, foi bom te encontrar, eu estava com saudades.
Resisti, porém : afinal, era um a traidora, a Chica. Que ficasse com seu algoz, o padrasto, e com seus planos sórdidos, m eu cam inho era outro. De todo m odo, o veículo j á arrancava. Os ônibus, com o o trem da História, não esperam que term inem os nossas rum inações.
Num dom ingo à tarde, e na falta de program a m elhor, resolvi ir até o centro. Minha esperança era encontrar a Denizete, a única pessoa com quem , eu achava, poderia conversar (não fazer sexo, porém ; um a gonorreia fora o bastante). Fui, m as, pelo j eito, ela ainda não tinha chegado a seu ponto habitual. Vi-m e de repente num a rua deserta, vazia, e aquilo só fez crescer o m eu desespero. O que estou fazendo aqui, eu m e perguntava, nesta cidade hostil, onde não tenho am igos, m uito m enos com panheiros de ideias ou de luta? De novo tive vontade de ir em bora, de voltar para o m eu pai, para m inha m ãe, para o m eu irm ão, para o pam pa, para o coronel, até — eu queria fugir dali. Que m erda, eu resm ungava furioso, que m erda.
De repente ouvi brados, vindos da avenida na qual a rua desem bocava:
— Abaixo o governo! Abaixo a opressão! Viva a revolução!
É o Astroj ildo com os com unistas, pensei, tom ado de súbita esperança: enfim o encontro com que eu sonhava! Corri até a esquina.
Era de fato um a m anifestação, um a pequena m anifestação que, contudo, nada tinha a ver com os com unistas, com o logo constatei pelo cartaz que um dos poucos m anifestantes carregava e que dizia, em grandes letras verm elhas: “O anarquism o é o verdadeiro cam inho para a hum anidade”. À frente do grupo, um a m oça bonita, de expressão irada, cabelos revoltos. Reconheci-a de im ediato, porque j á a vira em foto: era a Rosa, filha do Hércules e da Teresa. E fiquei instantaneam ente fascinado: era um a m ulher m uito bonita, ela, e um a m ulher ousada, destem ida, a própria im agem da com batente.
Os m anifestantes se detiveram e form aram um círculo, no centro do qual foi colocado um caixote. Daquele palanque im provisado, Rosa, equilibrando-se precariam ente, iniciou um a inflam ada arenga, atacando o governo, a Igrej a, os capitalistas. Os com panheiros a aplaudiam com entusiasm o, m as, além de m im , apenas dois transeuntes pararam para ver o que estava acontecendo, um deles um velhinho que não escutava bem e que a todo instante m e perguntava o que a m oça estava dizendo; outro, um m endigo esfarrapado, que ria sem parar. Nisso ouviu-se ruído de cascos no calçam ento e logo em seguida apareceram quatro policiais a cavalo, brandindo seus sabres. O grupo dispersou-se rapidam ente, cada um correndo num a direção. Rosa saltou do caixote e correu tam bém . Fui atrás dela; escondeu-se atrás de um quiosque, eu tam bém . E ali ficam os, ofegantes. Finalm ente os soldados se foram , e só então ela, voltando-se, notou m inha presença:
— Quem é você? — perguntou, desconfiada, e com o eu, ainda fascinado por sua beleza, não respondesse de im ediato, insistiu, desabrida: — Você não é do nosso grupo, quem é você? Olheiro da polícia? A polícia agora ficou esperta, m anda olheiros j ovenzinhos?
Era tal a sua fúria que tive de achar graça. Ri — pela prim eira vez em m uito tem po:
— Fica tranquila, Rosa. Não sou policial, não sou olheiro. Sou am igo. Meu nom e é Valdo.
Ela arregalou os olhos:
— Am igo? Você? E com o sabe m eu nom e?
Contei que havia sido hóspede dos pais dela:
— Até dorm i na tua cam a. Boa cam a, aliás. Tu, j á vi que és durona; tua cam a não, tua cam a até que é m acia.
Ela achou graça no “tu” e no sotaque, perguntou de onde eu era. Contei que vinha do interior do Rio Grande do Sul. De im ediato o rosto se lhe ilum inou: adorava o Sul, berço do anarquism o brasileiro. De im ediato com eçou a falar da Colônia Cecília, no Paraná, fundada no final do século dezenove por im igrantes italianos, um a experiência adm irável, que progredira apesar da hostilidade governam ental e só fracassara depois que um vigarista fugira com o dinheiro do fundo com unal. Mencionou outra colônia, esta no Rio Grande do Sul (“No seu estado, viu?”), fundada por Elias Iltchenko e outros im igrantes russos e ucranianos. Suspirou:
— Muito bonita, essa ideia de colônia, de vida conj unta, todo m undo partilhando as coisas irm ãm ente... Mas não dá certo, infelizm ente não pode dar certo. O capitalism o não tolera essas experiências generosas, Valdo, parte em seguida para a repressão. E aí é polícia — você viu isso agora m esm o —, é exército, é m assacre. Não, m eu caro, colônia não é a solução. A solução é derrubar o capitalism o, o governo — qualquer governo. Mesm o porque o capitalism o corrom pe todos os ideais; esse safado da Colônia Cecília m ostrou isso m uito bem ... Mas diga: o que trouxe você ao Rio? Veio estudar, fazer universidade?
Antes que eu pudesse responder — antes que eu pudesse inventar um a história para contar a ela —, algo lhe ocorreu, algo que fez o sorriso desaparecer de seu rosto. Dava-se conta de que, se o pai dela m e recebera, isso certam ente tinha algo a ver com o Partido Com unista. A possibilidade deixou-a furiosa:
— Escute: você é com unista, com o m eu pai? Se é com unista, nossa conversa term ina aqui m esm o. Não quero nada com os com unistas, ouviu? Os com unistas são uns totalitários, os com unistas só querem o poder, fazem qualquer coisa para isso. Olha só o Stálin. Quanta gente aquele bandido j á m atou, quanta gente j á botou nos cam pos de concentração? E isso que ele está só no com eço, aquilo vai longe. Agora, se você é com unista, se você é stalinista, vou logo avisando: não quero nada com você, quero que você fique longe de m im . Então, responda com sinceridade: você é com unista?
— Não — respondi, com um a firm eza que a m im próprio surpreendeu. — Não sou com unista.
Eu estava m entindo, m eu neto? Não. Eu não estava m entindo: com unista, a rigor, eu não era, pelo m enos não com unista de carteirinha, m em bro do Partido; não tinha assinado a ficha, não tinha respondido afirm ativam ente às perguntas do questionário (“É contrário ao regim e capitalista?”, “Concorda com a necessidade de um a atuação tendente à abolição com pleta do regim e capitalista?”, “Aceita com o necessária neste m om ento histórico a ditadura do proletariado?”); podia m e considerar no m áxim o um sim patizante. Você deve achar que m inha negativa era um a esperta m anobra para não desagradar um a m oça por quem j á m e sentia irrem ediavelm ente atraído. Talvez, m as não só isso. A verdade é que a pergunta dela refletia o dilem a que havia m uito m e atorm entava: era eu de fato um com unista? Naquele m om ento, diante da im aginária balança do processo decisório, eu colocara num prato a lem brança de Geninho, o Manifesto, o Que fazer? (Chto delat?) de Lênin; m eus sonhos, m inha revolta diante da inj ustiça, da desigualdade. No outro prato, o dissim ulado Moreno, o m isterioso Astroj ildo Pereira, m inhas constantes decepções, m eus enganos, e tam bém m eu trabalho no Cristo Redentor, com todas as dúvidas que em m im desencadeara; e, ao contrário do profeta Daniel (a Bíblia é um livro de certezas religiosas, definitivas, não um a obra dialética), eu não conseguia dizer com certeza que prato da balança pesava m ais. Na dúvida optava por aquilo que m e parecia m ais honesto: rigorosam ente falando, obj etivam ente falando, eu não era com unista. Poderia, claro, ter com pletado a frase: “Não sou com unista, m as sonho com o com unism o”. Contudo Rosa nada m e perguntara sobre m eus sonhos, e eu não m e sentia obrigado a m encioná-los.
Ela m e olhava, ainda desconfiada. Com preensível: desconfiança fazia parte de seu kit de sobrevivência, com o fazia parte do kit de sobrevivência de Astroj ildo Pereira, ou m esm o do Moreno, ou de qualquer revolucionário. Não sou com unista, repeti com certa desenvoltura — na carreira da dissim ulação e do engodo a gente progride rapidam ente. Eu m e tornava loquaz, disposto a falar sobre m im e a inventar histórias. E falei, e inventei um a história: contei que, vindo do Rio Grande do Sul, ficara na casa dos pais dela por indicação de um am igo gaúcho, m as que fora um a hospedagem provisória, tanto que agora estava m orando em outro lugar. Ouviu-m e, atenta, aparentem ente convencida:
— Ah, bom . Porque se você fosse am igo do m eu pai, ou, pior ainda, com panheiro de Partido dele, não haveria possibilidade de conversa entre nós. Meu pai...
Hesitou, m as agora que com eçara iria até o fim :
— Você deve estar m eio surpreso com o que estou lhe dizendo, Valdo, m as é assim m esm o. Infelizm ente é assim m esm o. Meu pai não é pai, é um antipai. Nunca m e dei bem com aquele hom em ; sem pre foi um tirano, um autoritário. Queria m e dizer o que pensar, o que fazer — inclusive em política. Coisa que não tolero, não posso tolerar. Tenho m inhas próprias ideias, aderi ao anarquism o — para m im , a única form a de libertar a hum anidade.
Interrom peu-se, talvez se dando conta de que falara dem ais:
— Mas isso é um a longa conversa, e precisam os sair daqui. Se a polícia aparece, estam os fritos. De m odo que vou m e despedir de você...
Ah, não. Despedida, não. De j eito nenhum : eu queria continuar aquela conversa, queria ouvi-la, olhá-la. Perguntei para onde ia. Ela disse que o grupo havia com binado reunir-se depois da m anifestação, m as que isso agora j á não seria possível; iria, pois, para casa:
— Moro aqui perto, na Saúde.
Criei coragem :
— Posso te acom panhar?
Refletiu antes de responder. Olhava-m e, num claro processo de avaliação, de j ulgam ento: deveria confiar em m im ? Dúvida com preensível: fazia m enos de um a hora que nos conhecíam os. Mas, por outro lado, eu podia ser um prosélito em potencial, um com panheiro a m ais num grupo que obviam ente carecia de gente.
— Pode.
Fom os andando em direção ao bairro onde ela m orava. Rosa falava quase todo o tem po — sobre o anarquism o, claro. Contou que o m ovim ento chegara ao Brasil no fim do século dezenove e que no início do século vinte se tornara m uito forte, prom ovendo greves operárias no Rio e em São Paulo, sem falar na insurreição de 1918, cuj o obj etivo fora derrubar o governo central; um m ovim ento que fracassara, m as que, segundo ela, se transform ara num m arco na história anarquista.
Mencionou dois nom es. O prim eiro: José Oiticica, intelectual e poeta, autor de um a frase que ela considerava lapidar: “Se não houver rebelião, não haverá sobrevivência”.
O segundo nom e, este dito com raiva e desprezo, era o de — m as aí tive de fazer força para m e m anter im passível — Astroj ildo Pereira.
Que ela odiava, para dizer o m ínim o. Considerava-o um hom em volúvel, um tipo que m udava de rum o e de ideias a todo m om ento. Inspirado pela Revolta da Chibata, chefiada pelo m arinheiro João Cândido, e cuj o obj etivo era acabar com o castigo físico na m arinha brasileira, e indignado com a execução do libertário pedagogo espanhol Francisco Ferrer, Astroj ildo, hom em de grande inteligência e talento, aderira ao anarquism o, tornando-se colaborador de vários j ornais, A Voz do Trabalhador, Guerra Social, Spartacus, O Cosmopolita. Assinava com pseudônim os; m as seus textos eram inconfundíveis, vivazes, inteligentes, sarcásticos — m uitas vezes polem izava com colaboradores im aginários. E aí, sem pre segundo Rosa, ele traíra o anarquism o, aderindo ao com unism o e participando decisivam ente da criação do Partido Com unista do Brasil, em 1922, o que aliás lhe valera violentas críticas do ex-com panheiro José Oiticica. Os anarquistas, concluiu, tinham agora dois tipos de inim igo: o governo, que os perseguia, prendia e torturava, e os com unistas. Do governo, Rosa não esperava outra coisa; afinal, disse, governo é poder, e quem detém o poder quer m antê-lo a qualquer preço. Mas não perdoava os com unistas, verdadeiros bandidos que não hesitavam em recorrer ao crim e para alcançar seus torpes obj etivos: dois anos antes, em 1928, m ilitantes do Partido Com unista tinham m atado a tiros um sapateiro anarquista, um hom em que ela conhecera e de quem gostava m uito.
Perguntou se eu tinha ouvido falar de Astroj ildo. O que poderia eu dizer? Não, respondi, não sabia quem era aquele hom em , nunca o vira. Você não perde nada, disse ela. Então lem brou-se de um detalhe:
— Sabe que um a vez ele ganhou na loteria? Ganhou. E fez um a doação de vários contos de réis para o j ornal anarquista A Voz do Povo. Muitos com panheiros o felicitaram por isso. Mas aquilo j á era um sinal de alerta. Um revolucionário j ogando na loteria? O que é isso, Valdo? A loteria não passa de um a arm a do capitalism o; o obj etivo é convencer os sim plórios, os ingênuos, de que qualquer um pode ficar rico a qualquer m om ento, que o sistem a o perm ite. Quando j ogou na loteria, Astroj ildo j á estava m ostrando quem era. Claro, ele certam ente tinha um a desculpa qualquer: ah, o núm ero do bilhete era a data da Revolução Francesa, ah, o vendedor era sim patizante de nossas ideias, algo assim . Mas a m im não enganaria. Eu im ediatam ente o denunciaria com o burguês disfarçado, traidor em potencial. E teria acertado em cheio.
Chegam os ao bairro da Saúde, um lugar pelo qual Rosa tinha verdadeira veneração; vinte e seis anos antes, naquelas ruelas, barricadas, com o as da Com una de Paris, tinham sido erguidas; ali o povo protestara e lutara contra a vacinação obrigatória instituída por Oswaldo Cruz. Um capoeira conhecido com o Prata Preta tornara-se um verdadeiro ídolo popular, um m odelo de lutador, segundo Rosa. Eu, que tinha m e vacinado em Santo Ângelo, ia ponderar que vacina, afinal de contas, não era coisa ruim , evitava a varíola, doença grave; m as aquele não era o m om ento de iniciar essa discussão, m esm o porque estávam os chegando à pensão em que ela m orava e que funcionava num casarão velho e dilapidado.
Param os diante da porta, ela m e olhando, sorridente. Hesitei. Deveria despedir-m e e voltar para o Cosm e Velho? Provavelm ente sim , até porque o dia seguinte era de trabalho. Mas a verdade é que eu não queria ir em bora. Queria ficar conversando com Rosa. Eu m e sentia bem com ela, eu m e sentia — feliz? É, feliz. Fazia tem po que não m e sentia tão feliz. Finalm ente encontrara um a alm a irm ã. Não partilhávam os as m esm as ideias, ela não era nenhum Astroj ildo Pereira, m as era um a idealista, um a lutadora. E, m uito im portante para o adolescente que eu era, um a m ulher linda.
Rosa percebeu m inha vacilação e decidiu por m im : vam os entrar, disse, você vai conhecer o lugar onde m oro. Abriu a porta, m as pediu que eu esperasse um pouco ali fora:
— Preciso ver se a dona da pensão não está por aqui. É um a velha chata, carola. Não posso entrar com hom em algum .
Entrou e voltou logo depois, fazendo-m e um sinal para segui-la: o cam inho estava livre. Fom os até o quarto dela, um cubículo pequeno, m as atulhado de livros — sobre anarquism o, óbvio. Na parede, duas fotos. A prim eira era de um hom em para m im desconhecido, um hom em ainda j ovem e bonito, vestido à m oda do século dezenove, com grandes bigodes e fisionom ia angustiada.
— Apresento-lhe — disse Rosa, e a em oção transparecia-lhe na voz — m eu ídolo: François Claudius Koënigstein, m ais conhecido com o Ravachol, um dos m ais fam osos anarquistas franceses. Você j á ouviu falar nele?
Não, eu nunca tinha ouvido falar em Ravachol. Rosa então m e contou que, nascido em 1859, o j ovem François Claudius adotara o sobrenom e da m ãe, hum ilde costureira — o pai abandonara a fam ília, que Ravachol se vira obrigado a sustentar; para isso trabalhara duro, sentindo na carne a crueldade do capitalism o. A partir daí voltara-se para a m ilitância política; e, com o m ilitante, constatara a brutalidade da repressão policial nas m anifestações de trabalhadores. Isso sem falar na crueldade da cham ada Justiça: vários anarquistas presos haviam sido condenados à m orte e executados.
Ravachol decidiu vingá-los: violência contra violência, violência revolucionária contra a violência do poder. Para isso recorreu à tecnologia: à época, a dinam ite estava surgindo e ele a usou em vários atentados bem -sucedidos. Preso e j ulgado, o j uiz lhe perguntou por que m atara tantos inocentes. Sua resposta ficou fam osa: “Não há inocentes entre os burgueses”. Foi guilhotinado em 1892.