Eu Vos Abraço, Milhões
Eu vos abraço, milhões
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 10 partes.
Bateu com o punho na m esa, transfigurada:
— Você será o novo Ravachol, eu, a nova Em m a Goldm an!
O hom em da m esa ao lado tornou a nos olhar com raiva e reclam ou:
— Se vocês continuarem falando alto, vou exigir que o dono do bar m ande vocês em bora.
Rosa não lhe deu a m ínim a im portância: voltou-se para m im , sorrindo, pegou o copo, tom ou um gole de vinho.
— Muito bom , este vinho. Não é vinho francês, m as serve.
Agora vinha o que ela sem dúvida considerava o m om ento decisivo do nosso encontro:
— Você deve estar se perguntando qual é o seu papel nesta história, Valdo. Pois fique sabendo que é um papel im portantíssim o. Você é absolutam ente fundam ental para o êxito do plano.
Sem pre falando baixo, m as escandindo bem as palavras, anunciou:
— Você, Valdo, ligará os detonadores das bom bas, que são três, à rede elétrica do m onum ento.
Olhou-m e, com o que avaliando o efeito de suas palavras, e continuou:
— Fácil, Valdo, facílim o. Vej a: você é em pregado da obra, em pregado de confiança, pode entrar em qualquer lugar, conhece os detalhes do Cristo, sabe se m exer lá dentro. Mais: agora você tem conhecim entos de eletricidade, pode fazer as conexões dos fios sem m edo de errar. Em m eia hora você dá conta da tarefa: coloca as bom bas em um lugar bem escondido, liga os detonadores. E tem os tem po para isso, ainda falta um a sem ana para a inauguração.
Corrigiu-se:
— Para a grande explosão, m elhor dizendo.
Sorriu, tom ou m inha m ão, beij ou-a dem oradam ente:
— E depois disso voltarem os a viver j untos. Na França, quem sabe. Você não conhece a França, vai adorar Paris. Os cafés, as livrarias... E tudo ficará m uito m elhor quando nós, os libertários, tom arm os o poder.
Olhou o relógio:
— Preciso ir, ainda tenho um encontro.
Tirou da bolsa um a folha de papel, escreveu um núm ero de telefone.
— Este é m eu contato. Me ligue am anhã. Vam os com binar a entrega do m aterial, que j á está todo providenciado.
Lem brou-se de um a coisa:
— Ah, sim . Você deve estar se perguntando de onde sai o dinheiro para tudo isso. Não se preocupe. Tem os um a patrocinadora, por assim dizer. Um a senhora riquíssim a — sua vizinha no Cosm e Velho, aliás — cuj o m arido foi preso e torturado pela polícia. Quer vingança e diz que dinheiro não será problem a. Felizm ente, não é? Arranj ar explosivos, detonadores, não é coisa barata. Se você precisar de algum a coisa, de algum a ferram enta, de algum equipam ento, é só dizer que a gente providencia na hora. Vam os indo?
Cham ou o garçom :
— A conta, por favor. E ligeirinho, que estam os com pressa.
Enquanto isso — enquanto o garçom calculava a despesa, enquanto Rosa fazia um com entário qualquer sobre o tem po (“Meu Deus, que calor está fazendo, calor assim não é com um na prim avera”) —, num elegante palacete do bairro de Santa Teresa um outro diálogo ocorria, entre um pai, rico industrial, e seu filho, um j ovem de vinte e dois anos. O hom em acabara de cham ar o rapaz a seu escritório e lhe dizia: no ano passado, nesta m esm a época e nesta m esm a sala, você m e pediu um autom óvel; na ocasião eu lhe respondi que a situação política estava m uito com plicada, que o futuro dos negócios era incerto e que eu não achava prudente gastar um a grande quantia num carro. Bem , agora posso lhe dizer, e com m uita alegria, que tenho am igos no novo governo e que, segundo m e garantem , as perspectivas para m inhas em presas são excelentes: a partir de agora ganharei m uito dinheiro. Resolvi, portanto, atender a seu pedido, o pedido de m eu único filho, do filho que eu adoro e que, a propósito, está de aniversário am anhã; olhe pela j anela e m e diga o que você vê. O rapaz olhou pela j anela e não pôde conter um a exclam ação de assom bro e de alegria: na entrada do palacete estava estacionado um carro preto, reluzente, novinho em folha. É, disse o em presário, um Ford Modelo A, lançam ento recente nos Estados Unidos, m otor de 40 cavalos, capaz de fazer cem quilôm etros por hora, freio nas quatro rodas, am ortecedor hidráulico: esse carro lhe pertence, m eu filho. Entregou as chaves e os docum entos ao rapaz, que abraçou-o, beij ou-o, e precipitou-se escada abaixo; entrou no carro e arrancou à toda velocidade: ia para o Botafogo, onde m orava a noiva, para m ostrar-lhe o autom óvel. E ia feliz, cantando a plenos pulm ões, ultrapassando outros carros, e ônibus, e carroças: no Rio, no Brasil, no m undo, ninguém poderia ser m ais veloz do que ele, ninguém . Nem m ais veloz, nem m ais feliz.
Veio a conta, Rosa pagou, saím os. Na rua ela se deteve, ficou um instante im óvel, o olhar perdido; depois se virou para m im , abraçou-m e e m e beij ou. Um beij o longo, apaixonado, um beij o que eu não haveria de esquecer e cuj o significado foi para m im m otivo de um a dúvida que não m ais m e abandonou: era aquele o beij o que selaria para sem pre a nossa união, o beij o de um a m ulher que encontrou o hom em de sua vida? Ou era o sinal de gratidão da revolucionária para com o j ovem que, naquele m om ento, se transform ava (ou assim a ela parecia) num com panheiro de causa, disposto a tudo, a correr todos os riscos, a fazer todos os sacrifícios? Ou, ainda, era o beij o de um a m ilitante política calculista, um beij o destinado a seduzir de vez um ingênuo candidato a cúm plice?
Não sei. Só sei que depois que nos despedim os saí andando, tonto, perturbado, em parte por causa do vinho, em parte por causa daquela conversa espantosa. O que aconteceu depois transform ou-se num a confusa, som bria lem brança que até hoj e não consigo, e acho que não quero, evocar: eu atravessando um a m ovim entada rua, e de repente os faróis de um carro (um Ford m odelo A, com o soube depois) aproxim ando-se célere, um a buzina soando, o choque terrível — e não m e lem bro de m ais nada.
O próprio m otorista levou-m e às pressas para um hospital, onde fui internado e onde passei várias sem anas. Meu estado era m uito grave: traum a cerebral, num erosas e dissem inadas fraturas, baço rom pido, um a infecção que não cedia. Mais de um a vez os m édicos disseram a m am ãe que não garantiam m inha sobrevivência e que provavelm ente tratava-se de um caso perdido. Mas disso eu não m e dava conta; estava praticam ente em com a, só ocasionalm ente recuperava algo da lucidez. Lem bro-m e da enferm aria, onde estavam vários doentes, todos em estado grave; lem bro-m e de seus gritos, de seus gem idos; lem bro-m e do hom em no leito ao lado do m eu e que todos os dias tratava de m e anim ar: coragem , rapaz, você vai sair dessa, m ilhões saíram . Ah, eu abraçaria os m ilhões que haviam saído daquela, bem que eu os abraçaria, se estivessem ali ao redor da m inha cam a, torcendo por m im .
Pessoas vinham m e visitar; m am ãe estava ali todos os dias, claro; deixara o em prego para ficar a m eu lado. Maria Clara tam bém aparecia, e Joaquim ; Heitor Levy veio um a vez, disse que estava rezando por m im , que Jesus m e aj udaria, você trabalhou por Cristo, Cristo trabalhará por você. Um a noite abri os olhos e ali estavam Hércules e Teresa, m as isso foi, acho, um a alucinação. Quanto a Rosa... Se veio, não a vi; e nunca perguntei por ela a ninguém .
As dores eram insuportáveis, e m ais de um a vez tiveram de m e aplicar m orfina; m as o pior eram os sonhos, m elhor dizendo, os pesadelos, as visões. Sem pre a m esm a coisa: eu dentro do Redentor, nas vísceras de um Cristo gigantesco, descom unal — longos, estreitos, tortuosos túneis que percorria afanosam ente, tentando m over um corpo que não m e obedecia, sobre o qual não tinha controle. Meu obj etivo era um só: precisava conectar ao sistem a elétrico que ali havia um pequeno dispositivo que levava com igo, um a espécie de caixa de cor verm elha — um detonador? É, certam ente um detonador. Desse detonador saíam dois fios, que eu deveria ligar a outros dois fios. Mas onde estariam , esses dois fios? Eu não fazia a m enor ideia, ninguém m e instruíra a respeito, teria de achá-los por m im m esm o, e, de novo, isso era um a coisa m artirizante, obrigava-m e a rastej ar quilôm etros e m ais quilôm etros dentro daqueles túneis, que, diferentes das vísceras hum anas ou anim ais, não eram forrados por um a m ucosa úm ida, quente e m acia, m as por um concreto duro, frio e áspero, o atrito com o qual gerava um sofrim ento inenarrável. De repente eu encontrava a ponta de um a lança; lem brava as pontas das grades decoradas que eu vira na serralheria onde Hércules trabalhava, m as era, eu sabia, a ponta da lança com a qual o anônim o legionário rom ano trespassara o flanco de Jesus; e um frasco, contendo um papel no qual provavelm ente estavam escritos os nom es dos fam iliares de Heitor Levy e talvez um a prece: Cristo, recebe-nos em tuas entranhas, Cristo, abençoa-nos, Cristo, protege-nos. Mas eu não podia parar para exam inar a ponta da lança, não podia abrir o frasco e ler o que estava escrito no papel; nada deveria m e deter, nada, porque eu tinha um a m issão a cum prir e ia em frente, ofegante, desesperado, repetindo para m im m esm o a palavra de ordem : ligar o detonador aos fios, ligar as bom bas ao destino do m undo, ligar, ligar, ligar. Se eu conseguisse fazer a ligação, tudo então adquiriria sentido e eu poderia — m orrer? É, m orrer: eu pensava na m orte com o o alívio final daquele indescritível sofrim ento, o golpe de m isericórdia que tantas vezes vi m eu pai desferir nas reses. A explosão que destruiria o m onum ento acabaria tam bém com igo, eu voaria em pedaços, m as em pedaços j á estava, isso não im portava, eu aceitaria qualquer coisa que m e libertasse daquele m edonho labirinto, daquele insuportável calvário.
Certa m anhã, para m inha surpresa, grata surpresa, acordei quase sem dor. Junto ao m eu leito duas atendentes conversavam e, olhos sem icerrados, fiquei escutando o que diziam . Falavam da inauguração do Cristo Redentor, ocorrida alguns dias, ou m uitos dias antes. Não m e contive; soerguendo-m e, interpelei-as: inauguração? De que inauguração vocês estão falando? Não foi sabotado, o Cristo?
Miraram -m e, surpresas, depois trocaram entre si um olhar com preensivo cuj o significado era óbvio: coitado, passou m uito m al, ainda está delirando. Não, esclareceu um a delas, não aconteceu nenhum a sabotagem , pelo m enos não falaram nisso, o Cristo foi inaugurado com um a festa m uito bonita, correu tudo bem . Pena foi o im previsto, acrescentou a outra. Que im previsto?, indaguei, e logo pensei em Rosa e seus com panheiros: teriam sido detidos lá, no Corcovado? Mas não, tratava-se de um outro im previsto, algo relacionado à ilum inação do m onum ento: parece que o equipam ento pelo qual o sinal de Marconi chegaria ao sistem a elétrico havia falhado; m as que em seguida as luzes haviam sido acesas graças à pronta iniciativa de um suboficial do Exército, Gustavo Corção.
Anim adas com m inha m elhora, falaram -m e dos discursos de Getúlio Vargas e do cardeal dom Sebastião Lem e, e tam bém do grande desfile que se seguiu: m ilhares de fiéis portando lanternas, cam inhando, orando, entoando hinos; no m ar, em barcações igualm ente ilum inadas. Um espetáculo arrebatador, garantiam -m e as duas. Para com prová-lo, um a delas trouxe-m e o exem plar do Diário da Noite que falava da inauguração. “O dia estava nublado”, dizia a notícia, e isso fora interpretado com o m au sinal, m as, quando chegou o m om ento decisivo, “de dentro da m assa de nuvens, as fulgurações de luz rom peram bravam ente a escuridão da noite. Três m inutos após, os rolos pardacentos se dissipavam e o Cristo branco, com as suas m ãos im ensas de perdão e de ternura, fulgia no topo da m ontanha, inundado de claridade”.
O Cristo fulgira. Se o Cristo fulgira, o plano de Rosa não fora adiante. Por quê? Por causa do problem a com a transm issão do sinal de Marconi? Ou ela não havia conseguido ninguém para conectar os explosivos em m eu lugar? Ou será que tinham , sim , incum bido alguém da tarefa (talvez a própria Rosa) num a tentativa que, contudo, não obtivera êxito? Ou — possibilidade ainda m ais inquietante — será que em nosso encontro no bar não havíam os falado de sabotagem algum a, tudo não passando de um delírio resultante do traum a que eu sofrera?
Só Rosa poderia dar-m e a resposta, m as onde estava a Rosa? Saberia ela que eu havia sido atropelado? Ou estaria im aginando que m eu desaparecim ento era de fato um a deserção, eu, o cretino, o traidor, o vira-casaca, tendo abandonado o barco do anarquism o, a heroica nau da ação revolucionária? Mas era possível, sim , que soubesse do que ocorrera com igo; segundo m am ãe, m ais de um j ornal noticiara o atropelam ento. Rosa teria decidido não vir ao hospital para não com plicar ainda m ais a m inha vida...
Enigm as, enigm as. Astroj ildo Pereira, Rosa: seria m eu destino depender, para decisões cruciais, de pessoas m isteriosas, fugidias, pessoas a m eio cam inho entre seres hum anos reais e personagens im aginários? Seria m eu destino debater-m e em dúvidas constantes? Você é um cara atorm entado, disse-m e um atendente do hospital, os outros pacientes se queixam de que você passa a noite falando e gritando. A revelação m e deixou alarm ado, aterrorizado m esm o. Eu falava durante o sono, eu gritava? E o que gritava? “Rosa, não m e abandona!”? “Astroj ildo, m e espera!”? “Geninho, m e perdoa!”? “De pé, ó vítim as da fom e!”? Era isso que eu gritava? Saltei da cam a, agarrei-o:
— É verdade? É verdade que eu passo a noite falando e gritando? E o que é que eu falo, o que é que eu grito? Me diz, por favor, eu preciso saber, isso é im portante para m im , m e diz, m e diz, prom eto que não vou gritar m ais, pode até botar esparadrapo na m inha boca, m as m e diz...
Olhou-m e, surpreso, na certa pensando Deus, esse rapaz está m al m esm o. Disse que não sabia o que eu falava, trabalhava só de dia, m as que perguntaria ao colega do turno da noite. Se perguntou ou não, não sei; nunca m ais tocou no assunto. Mesm o porque, e felizm ente, eu estava m elhorando: o m édico anunciava um a alta próxim a. A rigor eu ainda não tinha condições para isso, passara por várias cirurgias e estava convalescendo, m as aquele era um hospital de indigentes, m uita gente esperava pelo m eu leito.
Vam os voltar para o Rio Grande, anunciou m inha m ãe, notícia que recebi em silêncio; era um a decisão, não um a consulta, não um a pergunta; m ovia-a um a determ inação que nela eu nunca vira, que m e em ocionava, e que em m im encontrava eco. Sim , eu queria voltar: na m inha cabeça o retorno equivaleria a um recom eço, à busca de um novo cam inho no qual eu j á não com eteria erros, não sofreria.
Mas não seria um a viagem fácil. Com um a perna e um braço engessados, eu m al conseguia m e m over; viaj ar de trem , portanto, nem pensar. Maria Clara tinha a solução: iríam os de navio, um navio de linha, confortável, no qual teríam os um cam arote só para nós: presente dela, claro. Para que você não se esqueça de m im , cochichou a m eu ouvido, quando, eu ainda no hospital, veio trazer as passagens.
Foi um a longa viagem , aquela, a prim eira e a últim a que fiz de navio. Eu passava m uito tem po sentado num a cadeira preguiçosa no tom badilho, tom ando sol (é bom para a saúde, garantia um m édico que viaj ava conosco), olhando as ondas, as gaivotas que nos seguiam . O navio desceu ao longo da costa sul, chegou ao porto do Rio Grande, depois subiu pela lagoa e, por fim , atracou em Porto Alegre, onde, no cais, esperava-nos m eu irm ão, àquela altura casado (que rem édio?) e trabalhando com o sogro, no interior. Conversam os, trocam os ideias e decidim os, m am ãe e eu, ficar na capital, para ali com eçar a nova vida.
Hospedam o-nos num hotelzinho da Cidade Baixa, e m am ãe tratou de conseguir em prego. Teve sorte: dois dias depois estava trabalhando com o costureira num a indústria de confecções; m ais tarde se associou a um a senhora que tinha um ateliê de costura. Juntas, conseguiram razoável clientela, o que lhe dava um bom rendim ento e nos perm itia levar um a vida confortável, ainda que m odesta.
Ao contrário do esperado, m inha recuperação foi lenta — e com plicada. Consolidadas as fraturas, cicatrizadas as feridas, entrei em depressão, tive até pensam entos suicidas. Por insistência de m am ãe, procurei um psiquiatra e passei um período internado, coisa que não gosto de lem brar. Depois, e por recom endação do m édico, com ecei a trabalhar com o eletricista. Saí-m e m uito bem . Modéstia à parte, não m e faltavam conhecim ento e habilidade; eu era capaz de desm ontar e m ontar um m otor elétrico de olhos fechados. De olhos fechados, j á pensou? Um a vez fiz isso num program a de auditório da Rádio Farroupilha. A plateia quase veio abaixo de tanto aplauso; aquilo só fez aum entar m eu prestígio, que j á era grande. O pessoal m e apontava na rua: olha ali o cara que m onta e desm onta m otor de olhos fechados. Choviam clientes. Abri um a em presa que cresceu m uito, ganhei dinheiro. Não enriqueci, m as sem pre tive o suficiente para viver bem .
Um dia, cam inhando pelo centro de Porto Alegre, quem encontro? A Chica. Quase não a reconheci. Em prim eiro lugar, porque m ais de dez anos tinham se passado; ela não era m ais um a guriazinha, era um a m ulher. E um a m ulher bonita, vistosa, m uito bem -vestida. Contou-m e que tinha casado — com o padrasto, que ganhara na loteria, ficara m uito rico e m orrera de derram e cerebral, deixando a j ovem viúva m uito bem de vida. Convidei-a para j antar, aceitou, encontram o-nos m ais vezes; com eçam os um caso, brigam os, recom eçam os, por fim casam os. Tivem os dois filhos, teu pai e teu tio Jader, arquiteto; tem os cinco netos: um a vida feliz, bem feliz. Chica, pobrezinha, faleceu pouco depois do teu nascim ento. Foi um a pena não a teres conhecido. Com o foi pena não teres conhecido tua bisavó, tam bém falecida, m as isso há m uito m ais tem po.
Falei-te em enigm as. Um deles foi decifrado uns seis anos depois: descobriu-se quem era o rapaz que havia beij ado a m ão do m oribundo Machado de Assis. Tratava-se, com o dona Doroteia adequadam ente deduzira, de um grande leitor, apesar da pouca idade. Fã de Machado, esse j ovem soubera pelos j ornais que o grande escritor estava m orrendo. Então, naquele 28 de setem bro de 1908, tom ara a barca da Cantareira em Niterói, onde m orava, desem barcando no cais Pharoux, na Praça xv. Dali, e porque não tinha dinheiro, seguira a pé para a casa do Cosm e Velho, onde acontecera a cena fam osa.
O rapaz que beij ou a m ão do Machado de Assis, m eu neto, era ninguém m enos que o Astroj ildo Pereira. Seu ato foi expressão de um a adm iração sincera que ultrapassaria a j uventude e duraria a sua vida, que acom panhei a distância: Astroj ildo tornou-se um estudioso da obra m achadiana, sobre a qual escreveu artigos e livros.
Fico m e perguntando que efeito essa revelação teria sobre o j ovem aspirante a revolucionário que um dia fui. Provavelm ente m e deixaria indignado, revoltado; m as será que, por causa disso (e apesar do pedido de Geninho), eu teria m e recusado a viaj ar para o Rio de Janeiro? Será que eu não consideraria Astroj ildo um safado disfarçado de com unista, um cara abj eto, quem sabe até um doente, um tarado viciado em beij ar m ãos de escritores fam osos, ou de intelectuais, ou de políticos? Poderia, esse detalhe, ter m udado m inha vida?
Não sei. Minha única fonte de inform ações a respeito do Astroj ildo era o Geninho, e ele provavelm ente não sabia da história com o Machado. Mas acho que, m esm o que soubesse, m esm o que alguém tivesse lhe revelado o que acontecera (talvez um dos com unistas que, com o Hércules, detestavam o Astroj ildo), teria guardado segredo; não contaria nada a ninguém , m uito m enos aos com panheiros, e m uito m enos a m im , o guri que ele estava aj udando a descobrir o com unism o. Seu silêncio teria com o obj etivo, em parte, preservar a im agem do líder, em um m ovim ento que precisava desesperadam ente de líderes; m as creio que não era só isso. Era m ais, era algo que, hoj e sei disso, transcende a política. No fundo, m eu neto, a todos nós com ove a im agem do j ovem apaixonado por literatura que, por razões conhecidas ou desconhecidas, claras ou obscuras, beij a a m ão de um velho, m oribundo escritor. Quando eu digo “todos nós” estou, naturalm ente, fazendo um a generalização, propositadam ente ignorando aqueles que j am ais perdoaram ao Astroj ildo o seu gesto. Não é m eu caso, te garanto. Não é o m eu caso.
Agora: por que não é m eu caso? Porque deixei de ser com unista? Mas eu não deixei de ser com unista, pela sim ples razão, m eu neto, de que nunca m e tornei de fato com unista. Não ingressei no Partido, não assinei ficha, não respondi, por escrito, com um entusiástico e enlevado “sim ” às perguntas do questionário: “É contrário ao regim e capitalista?”, “Concorda com a necessidade de um a atuação tendente à abolição com pleta do regim e capitalista?”, “Concorda com o program a com unista?”, “Aceita a Revolução Russa com o fato histórico proveniente do próprio desequilíbrio do regim e capitalista e com o um dos m aiores m ovim entos de transform ação social?”, “Aceita com o necessária neste m om ento histórico a ditadura do proletariado?”.
Essas perguntas continuaram , por algum tem po, ressoando dentro de m im , m as depois se transform aram num longínquo e indistinto m urm úrio. Em Porto Alegre eu j á não tinha contato com ninguém do Partido; não encontrei nenhum Geninho (e, restrições à parte, nenhum Astroj ildo Pereira) que m e orientasse, que esclarecesse m inhas dúvidas, dúvidas essas que com o tem po foram sendo esquecidas, deslocadas por outras questões m ais prosaicas: um problem a de rim que m e acom panhou por anos, um a briga com um sócio que term inou na Justiça (ganhei o processo). Eu acom panhava a luta dos com unistas apenas pelos j ornais. Em 1935, quatro anos depois de nossa chegada a Porto Alegre, eclodiu o fracassado levante que depois ficaria conhecido com o Intentona Com unista, dirigido contra o governo de Getúlio e chefiado por Luís Carlos Prestes. Foi basicam ente um m ovim ento de m ilitares; a Internacional Com unista, que, de Moscou, o desencadeara, acreditava que a partir daí haveria um a m obilização geral e m aciça de operários e cam poneses, o que não aconteceu. Quatro anos depois, em 1939, era assinado, pela União Soviética e pela Alem anha nazista, o pacto de não agressão que deixou perplexos e confusos, quando não revoltados, os com unistas no m undo todo. E depois veio a denúncia dos crim es de Stálin por Kruschev, a queda do m uro de Berlim ...
Muita gente nunca perdoou as m entiras, os enganos, a perda de seus sonhos. Não é m eu caso. Na verdade, tenho m ais saudades do que rancores. Tenho saudades não do com unism o, que nunca cheguei a viver na prática, m as da visão do com unism o que m e anim ava, a visão de um m undo j usto, igualitário. Um a visão que foi partilhada — m as devo te dizer que se tratou de um a surpresa para m im , e tam bém de um sobressalto, com o j á verás — por teu pai. Um guri m aravilhoso, o nosso Fernando, um guri bonito, alegre, inteligente; gostava m uito de ler, em criança devorava os livros de Monteiro Lobato e os infantis do Erico Veríssim o. Era um excelente aluno, o prim eiro de sua turm a. Eu esperava que fizesse vestibular para engenharia eletrônica, que tom asse conta da firm a que eu fundara; m as não fiquei contrariado quando disse que preferia m edicina. Não sei bem a razão dessa escolha; atribuo-a à influência de um vizinho m édico, o doutor Ram iro, um clínico geral de quem teu pai, m enino ainda, gostava m uito. Ficavam horas conversando, o doutor Ram iro contando entusiasm ado as aventuras que tinha vivido com o m édico do interior, o guri Fernando ouvindo fascinado. Quando chegou a hora de fazer vestibular, não hesitou: optou pela m edicina. Foi aprovado e com eçou o curso. O ano era 1964. Não sei se isso te diz algum a coisa, m as para a m inha geração, e sobretudo para a geração de teu pai, diz m uito: foi o ano do golpe m ilitar. Àquela altura, política não m e interessava m ais; de vez em quando eu procurava algum vereador, fazia algum a doação para um partido; m as tudo isso, devo te confessar, por puro interesse: negócio é negócio. Eu queria estar bem com o governo, com qualquer governo, de esquerda, de direita, de centro; prestava serviço para órgãos públicos, precisava daquilo para ir tocando a em presa. Sentia rem orsos, culpa? Um pouco, talvez. Meus sonhos j uvenis tinham ficado para trás, com o que envoltos por um denso nevoeiro, sem elhante àquele da viagem de trem para o Rio. Com o tem po eu ia esquecendo o que lera, o Manifesto Comunista (que, contudo, guardava com o recordação de Geninho, j unto com o Chto delat? do Lênin). Do hino da Internacional Com unista, só lem brava o prim eiro verso, o “De pé, ó vítim as da fom e”. Eu não im aginava que o conflito político viesse, literalm ente, a bater à m inha porta. Veio.
Diferentem ente do pai, o j ovem Fernando não parecia m uito interessado em política. Só raram ente falávam os sobre isso, e, na sua biblioteca (ele m orava conosco), eu não via livros de Marx nem de Engels nem de Lênin nem de Stálin; só ficção, boa ficção. Ah, e poesia: Drum m ond, João Cabral, Bandeira, Mario Quintana.
Mas de repente isso m udou. É que na faculdade teu pai (vou cham á-lo de Fernando, porque antes de ser teu pai ele era o Fernando, m eu filho) com eçou a conviver com o pessoal de esquerda, um grupo de j ovens que j á era m uito ativo na m ilitância e que, com o golpe, ficou m ais ativo ainda. E aí eram reuniões, e dem onstrações de protesto, e elaboração de m aterial contra a ditadura... Na parede do quarto, o Fernando afixou um retrato do Che Guevara, por quem tinha profunda adm iração: ali estava um m édico que soubera ver além dos lim ites da profissão, que não queria apenas curar doentes, queria curar a sociedade enferm a.
Enfim , m udou, o Fernando. Saía cedo para a faculdade, voltava de m adrugada, às vezes nem voltava, deixando a Chica m uito nervosa: fala com ele, pedia, tenho certeza de que nosso filho está correndo perigo. Mas falar com o? Fernando não era de m uita conversa, nem eu. Agora: eu sabia perfeitam ente o que estava acontecendo; de algum a m aneira, ele refazia m inha traj etória rum o à m ilitância, sem para isso precisar de nenhum Astroj ildo Pereira. Esperava que, com o eu, ele não chegasse a se com prom eter seriam ente; por isso fiquei m uito alarm ado quando o pai de um colega dele telefonou-m e: nossos filhos estão falando em participar da guerrilha, disse, quase em pânico.
Na conj untura que então vivíam os, aquilo era de fato m uito preocupante. Eu tinha de fazer algum a coisa, e fiz. Cham ei o Fernando para um a conversa particular; tratando de controlar m inha ansiedade, alertei-o: estás correndo riscos, m eu filho, tom a cuidado, esse pessoal não brinca em serviço, eles prendem , eles m atam .
A reação dele chocou-m e. Olhou-m e com raiva: queres que eu sej a com o tu?, perguntou, furioso. Queres que eu renuncie aos m eus ideais com o tu renunciaste, queres que eu m e torne um burguês acom odado, um capitalista reacionário com o tu? O que será do Brasil se nós, j ovens conscientes, não assum irm os um papel de vanguarda?
E continuou: ele, com o estudante de m edicina, com o futuro m édico, tinha obrigação de participar da resistência. Porque pobreza, bradou, significa doença; sem um a grande reform a agrária, sem a estatização das em presas e dos bancos, sem um governo com unista, o Brasil estará perdido. Por isso era preciso lutar contra a ditadura. E por isso ele lutaria contra a ditadura, de arm as na m ão se fosse o caso. Se fosse o caso de colocar bom bas nos prédios que sediavam a repressão, ele faria isso. Na verdade, acrescentou, j á estava até recebendo treinam ento para isso.
Aquilo m e deixou assustado: não im aginava que estivesse tão envolvido na atividade política. Aquela história de bom bas... Parecia que eu estava vendo a Rosa na m inha frente, conclam ando-m e a destruir o Cristo Redentor.
Eu não sabia o que dizer. Sim plesm ente não sabia o que dizer. Só consegui pedir que tivesse m uito cuidado, que aquilo não era brincadeira, que ele podia se dar m uito m al.
Nem respondeu. Mirou-m e com desprezo e saiu batendo a porta. E eu fiquei esperando pelo pior.
Duas noites depois a cam painha soou, insistente. Estávam os na sala vendo tevê, Chica e eu, e ela m e olhou assustada. Por boas razões, com o constatei, quando abri a porta e de im ediato reconheci um dos hom ens que ali estava, de terno e gravata: era um delegado do dops, Departam ento de Ordem Política e Social. Acom panhava-o o auxiliar, suj eito alto, forte e com cara soturna.
O delegado, que m e conhecia, cum prim entou-m e cortesm ente; disse que o dops recebera um a denúncia, e que estavam ali para revistar a casa em busca de m aterial subversivo. Tinham inclusive m andado para isso.
O que teria feito o j ovem Valdo, no m eu lugar? Resistiria? No pasarán, só entram por cim a de m eu cadáver? Talvez. Mas eu j á não era o j ovem Valdo. Meu sangue j á não fervia à vista de reacionários. Além disso, m eu neto, e por surpreendente que possa parecer, eu estava tranquilo: no dia anterior olhara os livros no arm ário do Fernando e nada havia encontrado de com prom etedor. Entrem , por favor, eu disse. Chica, a m eu lado, estava nervosíssim a, chorando e torcendo as m ãos. Pedi que fosse para o quarto: deixa esse assunto com igo, eu resolvo.
Entraram , e logo ficou claro que sabiam o que queriam , e que sabiam onde procurar o que queriam . O delegado perguntou, seco, onde era o quarto de m eu filho, o estudante de m edicina.
Fom os até lá. Fernando estava no quarto. De im ediato deu-se conta de que se tratava de policiais; m as não se m ostrou perturbado. Podem revistar à vontade, disse. Ficou sentado na cam a enquanto os dois hom ens, em silêncio, tiravam obj etos do arm ário, abriam as gavetas da côm oda, inspecionavam o roupeiro. Não acharam nada de suspeito e aparentem ente j á iam em bora, m as então o delegado olhou m ais um a vez ao redor; algo lhe ocorreu, e m andou o auxiliar espiar em baixo da cam a.
Não deu outra: ali estava a m ochila com o m aterial que procuravam . Acredita você, m eu neto, que era um a m ochila parecida àquela que eu tinha usado quando viaj ara para o Rio de Janeiro em busca de Astroj ildo Pereira? Um a m ochila de tipo m ilitar, sim ples, com fivelas de m etal. Os livros que continha eram apenas dois, e de im ediato os reconheci: o velho exem plar do Manifesto Comunista que Geninho m e dera, e o Que fazer? (Chto delat?), de Lênin, que eu nunca devolvera. As duas obras haviam sido, sem cerim ônia, confiscadas por Fernando.
O delegado pegou o Que fazer? (Chto delat?), sentou-se num a cadeira e, sem pressa, com eçou a folheá-lo. Inspeção de rotina, em busca de elem entos que depois pudessem figurar em seu relatório? Ou teria ele algum interesse, m esm o que rem oto, por aquelas obras, pelo que significavam ? Dir-lhe-iam algum a coisa, representariam para ele algum tipo de apelo afirm ativas com o “A sociedade divide-se cada vez m ais em dois vastos cam pos opostos, em duas grandes classes diam etralm ente opostas: a burguesia e o proletariado”; ou: “O capitalism o destrói todos os laços fam iliares do proletário e transform a as crianças em sim ples obj etos de com ércio, em sim ples instrum entos de trabalho”, ou ainda: “Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias”? Estaria eu diante de um antigo rebelde que, em algum m om ento de sua j uventude, decidira m udar o m undo, os caprichos do destino depois alterando seu rum o?
Im possível dizer, e isso, de qualquer m odo, não vinha ao caso. O que im portava naquele m om ento era a real am eaça que se configurava em relação ao m eu filho. Dois livros considerados subversivos form avam então suficiente m assa crítica para indiciar alguém , para desencadear o processo repressivo. O passo seguinte seria o delegado dizer ao rapaz: “Acom panhe-m e, por favor. Vou interrogá-lo no dops”. O que, eu sabia, poderia ter consequências som brias. Não vacilei. Antes que o hom em falasse qualquer coisa, adiantei-m e:
— Esses livros são m eus, delegado. O senhor pode ver que, na dedicatória do Manifesto, está o m eu nom e.
O hom em fitou-m e dem oradam ente. Sem um a palavra, apanhou o Manifesto, abriu-o, leu a dedicatória; constatou que de fato o livro tinha sido a m im dedicado por alguém cham ado Geninho, que ele não conhecia, m as que certam ente era, ou havia sido, um m em bro do Partido Com unista. Por causa da dedicatória, obviam ente: “Ao m eu cam arada Valdo, com votos de que participe com confiança e com coragem na construção de um m undo m elhor”. Cam arada: não am igo, não colega — cam arada. Ninguém , a não ser um com unista, usaria aquele term o, e disso ele estava ciente. Mas provavelm ente o resto da frase deixava-o desconcertado. Participar com confiança e com coragem na construção de um m undo m elhor, isso incrim inava alguém ? Construção, afinal, não era revolução; não envolvia luta arm ada, nem atentados, nem ataques a quartéis. E um m undo m elhor... quem não sonha com um m undo m elhor? De m odo que, quanto àquilo, quanto à dedicatória, eu estava tranquilo. Mesm o, porém , que ele m e detivesse para averiguações, eu não ficaria preocupado: m inha condição de em presário dava-m e relativa proteção. E, sendo detido, eu, ao m enos m om entaneam ente, ganharia o respeito de m eu filho, e tam bém do j ovem Valdo, que, de algum lugar no passado, estaria a m e m irar.
O delegado olhou-m e de novo. Eu sabia que estava m e avaliando, estava m e colocando na balança im aginária que usava para calcular o peso do com ponente subversivo, do com ponente de am eaça à ordem política e social que poderia estar presente em qualquer pessoa. Perguntava-se quanto do Valdo, a quem fora dedicado o Manifesto, estaria presente no m aduro e circunspecto senhor à sua frente: dez por cento, trinta por cento? Os m inutos se escoavam , a História avançava, e ali estávam os, im óveis, à espera do veredicto do tribunal interior do delegado, pelo visto m uito m ais com plicado que o Tribunal do Povo. Por fim ele decidiu:
— Vam os em bora — disse ao auxiliar. E para m im : — De qualquer m aneira, terem os de confiscar este m aterial. São livros proibidos, serão incinerados.
Para nós dois:
— Abram bem o olho. A próxim a visita poderá ter consequências bem m ais sérias.
Pegaram os livros e foram em bora.
Por um m om ento ficam os ali, im óveis. Fernando não dizia nada, m as sua revolta era m ais que evidente. Quanto a m im , estava aliviado, claro, m as dava-m e conta da ironia, dolorosa ironia, envolvida naquele desfecho, um a ironia expressa na pergunta: de quem eram , m esm o, os livros apreendidos? No caso do Manifesto eu não m entira, o livro era m eu; j á no caso do Que fazer? (Chto delat?), bem , aí era diferente. Geninho não chegara a m e dar o pequeno volum e, só o em prestara. Mas nunca o pedira de volta. Por quê? Porque m orrera antes de poder fazê-lo? Talvez. Mas será que no fundo não esperava que eu fizesse da obra de Lênin um guia doutrinário? Será que o em préstim o não fora um a doação tácita, ou um ato sem elhante ao do atleta que, na corrida de revezam ento, passa o bastão ao com panheiro de equipe? Mesm o que do ponto de vista form al eu estivesse m entindo, m esm o que estivesse m e intitulando proprietário de um livro que a rigor não era m eu, Geninho, o verdadeiro dono, certam ente rotularia a m inha afirm ativa com o um a m entira progressista, um a m entira m ais que j ustificada no confronto com representantes de um órgão que defendia o governo autoritário e, através dele, o capitalism o, a inj ustiça social. Geninho m e absolveria. Geninho: que saudades eu tinha dele. Que saudades eu tenho dele.
Chica ficou m uito abalada com o episódio. Tentei tranquilizá-la: aquilo era rotina, estava acontecendo com um m onte de gente. Mas o delegado falara num a “próxim a visita”, e cada vez que a cam painha soava ela saltava da cadeira, assustada. Quanto a m im , m eses depois tive um sonho; nele via o delegado queim ando o Manifesto e o Que fazer? (Chto delat?) — no m esm o velho fogão em que eu incinerara o Dom Casmurro. Eu tentava im pedir que fizesse isso, queria salvar pelo m enos a folha com a dedicatória, m as o esforço foi inútil. Só cinzas restaram dos livros.
Os anos que se seguiram foram , em m atéria de atuação política, de am argura para o Fernando. Por algum a razão, briga de facções decerto, ele (para alívio de Chica, e, devo dizer, para m eu alívio tam bém ) afastou-se da m ilitância estudantil, m esm o porque, form ado, dedicava-se cada vez m ais à m edicina, especialm ente à cardiologia, que era para ele verdadeira paixão. Tão bom revelou-se na especialidade, que o diretor do hospital onde fez residência conseguiu-lhe um a excelente colocação em um a das m ais prestigiosas universidades am ericanas. Aceitar a proposta foi um a decisão difícil, que lhe exigiu m uito tem po, e sobre a qual não queria falar: isso é assunto m eu, dizia, tenho de resolver sozinho. Mas até hoj e lem bro de sua expressão atorm entada no m om ento em que, no aeroporto, despediu-se de nós. O que sentia? Tristeza, por se separar da fam ília, dos am igos, dos colegas? Culpa, por deixar o seu país, o Brasil, ao qual com tanto fervor prom etera se dedicar? Ou a obscura, inexplicável angústia que a todos nós, em m aior ou m enor grau, em algum m om ento acom ete?
Não sei. O certo é que, com o ele próprio dizia, estava seguindo o seu cam inho, com o eu seguira o m eu. Talvez interrogando-se, com o tantas vezes m e interroguei: fazer o quê? Um a pergunta que não corresponde exatam ente à leninista questão do “que fazer?” (“chto delat?”); é, por isso, m enos obj etiva, m ais inquietante — e m ais adequada à nossa, m uitas vezes precária, condição hum ana.
Um ano antes do teu nascim ento fom os ao Rio de Janeiro, Chica e eu: um a nostálgica volta ao nosso passado com um . Ela quis ir ao Corcovado; durante o tem po em que lá perm anecera não chegara a conhecer de perto o m onum ento. De m inha parte, eu tinha um plano, que, na m inha cabeça, poderia resultar num a fantástica aventura, talvez a derradeira aventura de m inha vida: pretendia alugar um helicóptero e chegar j unto à cabeça do Cristo, m irar de novo os olhos, o nariz, a boca, a barba, o cabelo, fotografar de perto aquela face que conhecera tão bem . Mas o gerente do hotel m e garantiu que, por razões de segurança, isso não seria perm itido. Teríam os de fazer com o todo o m undo: subir ao Corcovado e olhar a estátua desde a base, usando binóculos para ver os detalhes.
No dia m arcado am anheci com febre e fiquei acam ado. Chica foi sozinha e, m etódica com o era, anotou os dados fornecidos pelo guia turístico. Ficou sabendo, assim , que a estátua tem trinta m etros e três centím etros de altura, que a base, onde está a capela, m ede oito m etros; que a envergadura é de vinte e nove m etros e sessenta centím etros, sendo que, por razões de estabilidade, o braço esquerdo é quarenta centím etros m enor que o direito; que o Cristo olha para baixo, para o Rio de Janeiro; que no interior da estátua existem escadas em zigue-zague, e que Jesus tem um coração esculpido no peito.
Sim , essa visita eu perdi. Mas no dia seguinte, e tal com o previsto em nosso roteiro, fom os ao Pão de Açúcar.
Gostam os m uito, tiram os várias fotos.
Com o é bonito, o Brasil. Com o é bom viver. Ai, m eu neto. Com o é bom viver.
m oacy r scliar nasceu em Porto Alegre em 1937. É autor de m ais de oitenta livros em vários gêneros: rom ance, conto, ensaio, crônica, ficção infantoj uvenil. Suas obras foram publicadas em m ais de vinte países, com grande repercussão crítica. Recebeu num erosos prêm ios, com o o Jabuti (1988, 1993 e 2009), o apca (1989) e o Casa de las Am éricas (1989). É colaborador em vários órgãos de im prensa no país e no exterior. É m édico e m em bro da Academ ia Brasileira de Letras.
Você terminou Eu Vos Abraço, Milhões
Moacyr Scliar