Expansão e mudanças tecnológicas no agronegócio canavieiro: impactos na estrutura fundiária e na ocupação agropecuária no estado de São Paulo

Considerações finais

 

A estrutura agrária do estado de São Paulo, nos anos posteriores

a 1975, foi muito influenciada pela expansão da lavoura canavieira, sob os interesses de grupos econômicos sucroalcooleiros ou usineiros. A área de cana-de-açúcar apresentou constante crescimento, desde a crise cafeeira de 1929-1930, diferenciando-se de outras lavouras que registraram crescimento mais efêmero, como o algodão nas décadas de 1930 e 1940, o amendoim na década de 1960, a laranja entre de 1960 a 1990. Mesmo a soja, que no Brasil se constitui na cultura com maior área plantada, acima de 25 milhões ha, no século XXI tem revelado pequeno dinamismo produtivo e área relativamente pequena em São Paulo.

Em 1975, São Paulo já se mostrava o maior estado produtor de

cana-de-açúcar e de açúcar do país, tomando o posto que, na época da criação do IAA, em 1933, era ocupado pelos estados do Nordeste. Nada surpreendente, portanto, que os empresários paulistas se destacassem nas reinvindicações junto ao governo federal, que resultaram na criação do Proálcool, em 1975. Embora a sua motivação fosse mais ligada à brutal depreciação do preço internacional do açúcar, na virada de 1974 e 1975, os empresários souberam aproveitar o momento histórico, do primeiro Choque do Petróleo, em 1973, e se propuseram a mudar sua estrutura produtiva, transformando o etanol, de um subproduto, no carro chefe da expansão setorial a partir de 1975. Contaram para tanto com abundantes e subsidiados incentivos públicos, pelo menos até o ano de 1985. A partir daí, a produção sucroalcooleira e a área canavieira continuaram crescendo em São Paulo, de maneira menos explosiva que nos dez primeiros anos do Proálcool, tendo mesmo se registrado alguns anos de estagnação setorial.

Um novo momento de euforia tomou conta dos empresários nos

anos iniciais do século XXI. Tanto o mercado de açúcar quanto o de etanol se mostraram favoráveis e as perspectivas que se abriam ao consumo de biocombustíveis no mundo, diante do então encarecimento de petróleo, atraiu o interesse de novos capitais, inclusive internacionais, dispostos a investirem na estrutura produtiva sucroalcooleira. Contando também com a elevação de investimentos dos grupos já em operação no ramo de açúcar e etanol, bem como com fartos financiamentos do BNDES, verificou-se, entre 2002 e 2009, expressivo aumento do número de agroindústrias, da área e produção de cana e da produção de etanol e açúcar. De 2010 a 2014, a euforia havia passado, com condições mais adversas nos mercados de açúcar e etanol, e o crescimento da produção setorial foi menor e mais instável. Entretanto, no balanço, de 1975 a 2014, o desempenho da lavoura canavieira se mostrou bem superior às demais atividades agrícolas do estado de São Paulo.

Se antes, a área de cana-de-açúcar estava bastante concentrada

mais ao centro de São Paulo, em torno das cidades de Piracicaba e Ribeirão Preto, após 1975, com exceção das regiões próximas ao litoral, essa lavoura se espalhou por todo o estado, alcançado suas regiões mais ocidentais, como as de Araçatuba, Presidente Prudente e São José do Rio Preto e mais ao norte, como Franca e Barretos. Nesse espraiamento, foram sendo substituídas áreas com outras lavouras e pastagem, podendo se afirmar que a estrutura produtiva sucroalcooleira, praticamente, hegemonizou o espaço agrário do estado de São Paulo, algo semelhante ao que havia acontecido em torno da lavoura cafeeira antes de 1930.

Desde o período colonial, a ocupação das terras agrícolas do

estado de São Paulo contou com ações institucionais que favoreceram as grandes propriedades e forjaram uma estrutura fundiária marcada pela alta concentração da propriedade e posse da terra. O recente avanço canavieiro reforçou essa herança e a explicação básica é que os usineiros mantêm sob seu controle direto grande parte das terras plantadas com cana-de-açúcar ao redor das suas agroindústrias.

Os dados do Censo Agropecuário de 2006 mostram que 18,3%

da cana-de-açúcar em São Paulo estavam plantadas em estabelecimentos agropecuários entre 200 e 1.000 ha, e incríveis 64,4%, em estabelecimentos acima de 1.000 ha (IBGE, 2009). Valores esses mais altos que os levantados no Censo Agropecuário 1995/96 (IBGE, 1998).

Os dados censitários conseguem captar parte das mudanças

fundiárias causadas pela expansão canavieira. Contudo, entende-se que a forma como o IBGE define e faz o levantamento de campo do estabelecimento agropecuário IBGE subestima o real controle que os usineiros exercem sobre a terra agrícola. Mesmo quando não usam subterfúgios de registrarem a cana-de-açúcar produzida em área de sócios das agroindústrias, como se fossem originadas de fornecedores independentes de cana.

Além de cana-de-açúcar de terceiros, uma mesma agroindústria

recebe essa matéria-prima de muitos estabelecimentos agropecuários sob o seu efetivo controle, através de títulos de propriedade ou de contratos de arrendamento ou parceria. Sob o critério do IBGE, pelo fato de contarem com um administrador específico, preposto do empresário sucroalcooleiro, de não serem contínuos em área ou ainda disporem de máquinas, equipamentos e turmas de trabalhadores também específicos, cada um desses estabelecimentos pode ser declarado isoladamente e ser considerado um objeto específico (ou autônomo) no universo censitário. Dessa forma, dissimula-se o real controle econômico que os grupos sucroalcooleiros exercem sobre dezenas ou centenas de estabelecimentos agropecuários.

Não só mediante aquisição de novas áreas, os usineiros

conseguiram aumentar as áreas da chamada cana própria. Lançaram mão também de contratos de arrendamento ou parceria, nesse caso para obter-se um benefício tributário. Com isso, conseguiu-se superar a eventual resistência de pequenos e médios proprietários agrícolas em se desfazerem de seu patrimônio imobiliário, obtendo-se áreas para exploração canavieira, mediante pagamento de renda da terra. Pode-se ser também que a opção pelo aluguel de terras de terceiros reflita a intenção dos usineiros de não se imobilizarem grande volume financeiro na sua aquisição.

Disso resulta a impressão de que nas áreas canavieiras do estado

de São Paulo a concentração da posse da terra ou dos estabelecimentos agropecuários seria maior que a concentração da propriedade ou dos imóveis rurais. Um confronto, se possível, entre os dados do IBGE e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ajudaria a confirmar ou não tal hipótese.

Com o avanço canavieiro, a parceria sofreu completa

transformação na agricultura paulista. O parceiro com pequena área de terra, muitas vezes subordinado ao proprietário da terra, quando não se constituindo, na verdade, um assalariado disfarçado, está sumindo da realidade agrária estadual. Em vez do “parceirinho”, cresce a importância do “parceirão”, que controla área média de terras bem superior à média de todos os estabelecimentos agropecuários paulistas e não mantém nenhuma relação de submissão social ou administrativa ao proprietário da terra.

Entre os agricultores que continuaram como fornecedores de

cana-de-açúcar, em muitos casos, observou-se aumento de sua dependência gerencial em relação às usinas. Alguns não administram mais a colheita do produto, vendendo a chamada cana em pé para as usinas, outros vão além, também não gerenciando o plantio da cana, ficando responsáveis apenas pelos tratos culturais da lavoura. E, por fim, há os que contratam junto à usina, além do plantio e da colheita, até a execução dos tratos culturais de seus canaviais.

Não se deve descartar as possibilidades do controle exercido

pelos usineiros sobre as terras agrícolas ao redor de suas agroindústrias se enfraquecer ou mesmo se desfazer, em especial em decorrência de problemas financeiros enfrentados pela empresa sucroalcooleira. Mas tal controle tem fortes esteios que lhe vêm garantindo a continuidade, ao se considerar o conjunto de usinas e destilarias no estado de São Paulo.

Os pequenos, médios e mesmo grandes proprietários de terra,

que as cedem em arrendamento ou parceria para as usinas, apresentam dificuldades de assumirem o caminho de volta, ou seja, tornarem-se, novamente, agricultores. Ao receber a cessão das terras, as empresas sucroalcooleiras as desproveem de cercas, galpões e outras benfeitorias. Além disso, com o tempo, há uma tendência dos donos das terras cedidas se desfazerem de máquinas e equipamentos agrícolas. Com isso, se decidirem cultivar novamente suas áreas, terão que realizar investimentos consideráveis naqueles ativos fixos.

Os contratos de arrendamento ou parceria na cana-de-açúcar

duram seis ou mais anos, propiciando um desligamento progressivo dos proprietários do dia a dia da agricultura. Isso se acentua nos casos em que os proprietários cedem toda área de seu imóvel para o cultivo da cana, ou quando o mesmo é assumido por herdeiros, muitos dos quais sem nenhuma experiência nas lides agrícolas.

Também se deve levar em conta que a cana-de-açúcar gera um

volume financeiro relativamente alto por hectare, o que lhe proporciona a capacidade de pagar valores também altos em seus contratos de arrendamento ou parceria. Foi observado que a expansão canavieira nos muito grandes estabelecimentos, especialmente sobre áreas de pastagem, fez que eles intensificassem relativamente mais o uso da área disponível do que nos estabelecimentos com menores áreas. Dessa forma, a renda por hectare nos muito grandes estabelecimentos se aproximou bastante da obtida nos pequenos estabelecimentos, em 2006, em comparação ao que se observava em 1975.

Ao ceder suas terras para o plantio de cana, por um valor

relativamente alto, o proprietário rural elimina os riscos decorrentes de fatores aleatórios (climáticos e sanitários) e da instabilidade de preços agrícolas, ainda que possa enfrentar atrasos ou cancelamento de pagamentos em decorrência de dificuldades financeiras ou mesmo de fechamento das usinas.

Outra dificuldade de retorno à condição de agricultor, pelo menos

no caso de se desejar cultivar cana-de-açúcar, são as mudanças tecnológicas que ocorreram nesse cultivo, com a incorporação de máquinas, como as colhedoras, que necessitam operar grandes áreas de terra para amortizarem seus custos.

Exagerando, mas, talvez, nem tanto, é como se restasse ao

pequeno e médio proprietário, em regiões canavieiras com muitas agroindústrias, tentar obter a maior renda possível pelo aluguel de suas terras, negociando com diferentes grupos sucroalcooleiros operando nas proximidades de seu imóvel. Observa-se a existência de usinas, especialmente em regiões mais tradicionais, com parques industriais muito próximos e disputando entre si as mesmas áreas de cana ao seu redor. Nessas regiões tem-se observado que o fechamento de algumas agroindústrias não resulta, necessariamente, na diminuição dos canaviais. Aquelas que continuam operando, costumam absorver as áreas com cana-de-açúcar das que deixaram o ramo sucroalcooleiro.

Entretanto, nos municípios ou regiões em que há apenas uma

usina ou destilaria, se essa deixa de funcionar ou, pelo menos, de pagar pelo aluguel das terras ou pela cana recebida de fornecedores, tais fatos podem resultar em grandes transtornos locais. Os impactos negativos são observados no aumento da desocupação, na queda da renda agrícola e nas dificuldades de se implantar outras atividades agropecuárias, pelo menos por alguns anos.

As mudanças tecnológicas na cana-de-açúcar mereceram muita

discussão ao longo do trabalho. No início dos anos 1980, observava-se que etapas do plantio e da colheita da cana continuavam sendo feitos, predominantemente, de forma manual. A abertura e o fechamento do sulco para o plantio estavam mecanizados, mas o lançamento dos colmos de cana e seu picamento em toletes eram feitos manualmente. Na colheita, o corte da cana continuava manual, mas seu carregamento era feito por guinchos mecânicos em vez de manualmente, como era comum na década de 1960. Nessa mesma década, a generalização da queimada dos canaviais possibilitou que o trabalhador rural passasse a cortar o dobro ou o triplo de cana por dia em comparação com o período em que se colhia a cana crua.

O corte manual demandava grande número de cortadores,

existindo na região canavieira paulista numeroso contingente de trabalhadores rurais, volantes ou boias-frias, moradores em suas cidades e que se deslocavam, diariamente, para as atividades agrícolas. Em grande parte, a população de volantes foi se formando a partir da eliminação gradativa do regime de colonato e da migração rural-urbana no estado de São Paulo. O contingente de volantes foi reforçado com pessoas vindas de outros estados, especialmente do Nordeste.

Diferentemente de algumas interpretações, considera-se que o

trabalho volante não era eventual, pois se repetia em alguns meses de vários anos nos mesmos locais e estava ligado às atividades fins das empresas. Também se entende que no início dos anos 1980, a maioria dos volantes em São Paulo tinham seus direitos trabalhistas reconhecidos por patrões e, mais amplamente, pela Justiça do Trabalho. Contudo, julga-se correto afirmar que se sujeitavam a um transporte inadequado (em carrocerias de caminhões), conviviam com baixos salários e enfrentavam grande variação na oferta de emprego ao longo de um ano qualquer, com muitos deles não conseguindo se livrar do desemprego sazonal.

A safra de cana, que se estendia por seis a sete meses e que, em

parte, coincidia com a colheita da laranja e do café, demandava muitos braços, fazendo que mulheres e menores se incorporassem às turmas de trabalhadores rurais e atraindo os chamados migrantes sazonais ou pendulares. Esses, em sua maioria, eram pequenos agricultores no Semiárido e vinham “fazer” a safra canavieira, voltando para suas regiões de origens na entressafra.

Um ponto de constantes disputas entre empresários e

trabalhadores se estabelecia em torno da forma e das exigências no corte da cana. Adotava-se o pagamento por produção, estimulando o trabalhador a dispender o máximo de sua força física, para que alcançasse um salário menos aviltado. As divergências entre esses dois atores sociais ganharam caráter explosivo, em 1984, quando, a uma série de dificuldades na vida e trabalho dos volantes, se juntou a mudança no sistema de corte de cana, de cinco para sete ruas. Uma grande massa de trabalhadores se revoltou e forjou uma greve generalizada, obrigando a realização de inédita negociação específica entre patrões e canavieiros, em lugar das negociações anteriores entre patrões e trabalhadores agrícolas, de forma geral. A sete ruas foi imediatamente abolida e, nos anos seguintes, se obtiveram outras melhorias, como o transporte em ônibus e o pagamento da hora dispendida no deslocamento entre cidade e zona rural. Contudo, não se conseguiu substituir o pagamento por tonelada pelo pagamento por metro de cana cortada, antiga reivindicação dos trabalhadores.

A greve de 1984 e as dos anos seguintes tiveram, como uma das

reações patronais, o aumento da ameaça de se elevar a área de cana cortada com máquinas. Entretanto, a colheita mecânica de cana teve um avanço lento em São Paulo, até o final dos anos 1990, passando de 5% do total de cana colhida no estado, na década de 1970, para 18%, em 1997. Nesse ano, a queimada da cana precedia a totalidade do corte manual e a maior parte do corte mecânico.

Entre 1997 e 2006, a área colhida com máquinas aumentou mais

celeremente, alcançando 40% no último ano, bem como a colheita mecânica de cana crua passou a predominar em relação à colheita mecânica de cana queimada. De 2007 em diante, tais modificações se acentuaram e a eliminação da queimada foi assumida, publicamente, como uma ação deliberada dos empresários em favor da preservação ambiental. Com isso, substituía-se o discurso empresarial predominante no final da década de 1990, que justificava a queimada como forma de garantir milhares de emprego aos canavieiros.

Pode-se apontar um conjunto de fatores que estimularam a

aceleração da adoção da corte mecânico de cana crua, bem como a mecanização plena de seu plantio. Como causa mais geral, assume-se que quis se estender para a lavoura canavieira os controles gerenciais mais precisos do processo de trabalho adotados, ainda na década de 1990, nas atividades administrativas, de transporte e industriais das empresas sucroalcooleiras. As máquinas, com equipamentos eletrônicos e georreferenciadas, possibilitam acompanhamento imediato e a distância da qualidade, desempenho e ritmo do plantio e da colheita de cana. Além do mais, junto com a preparação mais adequada da área cultivada, tornou-se possível realizar a colheita no período noturno, contribuindo para se amortizar mais rapidamente investimentos em colhedoras, caminhões e outras máquinas e equipamentos usados nessa operação.

Mais especificamente, entende-se que as perspectivas favoráveis,

por volta de 2006, de se aumentar as exportações brasileiras de etanol estimulou os empresários a tomarem atitudes concretas e de propaganda no campo ambiental. Em 2007, ao aderirem maciçamente ao Protocolo Agroambiental do Setor Sucroenergético Paulista, os empresários assumiram, publicamente e com ampla divulgação, a intenção de anteciparem os prazos para a eliminação da queimada da cana (e, pari passu, ampliação da colheita mecânica) previstos em Lei do estado de São Paulo. Esse fato reforçou a imagem ambiental positiva do etanol, em especial ao ser comparado com a gasolina.

As perspectivas favoráveis também influenciaram nas decisões

pela ampliação de investimentos no maquinário para colheita e plantio mecânicos. Concretamente, para efetivação desses investimentos contou-se com preços favoráveis do açúcar e etanol, financiamentos públicos do BNDES e a entrada de novos capitais no ramo sucroalcooleiro, nacionais e internacionais.

Em termos de mercado de trabalho, deve-se destacar que, entre

2003 e 2014, verificou-se no Brasil e em São Paulo elevação dos salários reais e da formalidade de emprego e redução na taxa de desocupação. Em 2005, foi instituída nova regulamentação trabalhista, a NR 31, forçando mudanças em atividades laborais agrícolas e canavieiras. A menor disponibilidade de trabalhadores e seu custo mais alto podem ter influenciado na decisão de se acelerar a eliminação do corte e plantio manuais de cana.

Por fim, entre os fatores com influência na aceleração da

mecanização canavieira, relacionou-se uma série de adaptações e aprimoramentos pelas empresas sucroalcooleiras e outras que lhes fornecem tecnologias. Nesse caso, cite-se a melhoria no desempenho das colhedoras de cana crua e o melhoramento genético para obtenção de variedades de cana mais adequadas ao plantio e colheita mecânicos. O preparo do terreno, o tamanho do talhão e a disposição e espaçamento entre linhas de cana foram modificados, de forma a garantir maior eficiência ao maquinário e permitir a colheita no período noturno. As agroindústrias também adotaram programas de qualificação profissional, destinados prioritariamente à formação de tratoristas e operadores de máquinas e veículos agrícolas.

Até porque o processo foi bastante acelerado, a mecanização

canavieira veio acompanhada de contratempos, constatados em um grande número de empresas. Aumentou a compactação do solo e o excesso de palha deixada no campo trouxe problemas fitossanitários. O plantio mecânico resulta em menor nível de brotação e vem exigindo que se utilize maior quantidade de mudas por hectare. A colheita mecânica tende a provocar maiores danos às soqueiras e brotações menos vigorosas e leva a maior perda de sacarose, por se picar a cana e não colher o seu colmo inteiro.

Estima-se que se está obtendo um ou dois cortes a menos dos

canaviais em relação ao que se obtinha com o uso de tecnologia baseada no plantio semimecanizado e no corte manual. E se observou, após 2007, queda na produção/área de cana em São Paulo, invertendo um crescimento contínuo de produtividade da terra, que se constatava desde os anos 1960.

Na fase de aceleração da mecanização canavieira verificou-se

uma diferenciação entre empresas. Primeiro, ao se comparar agroindústrias e fornecedores, o nível de mecanização se revelou bem maior nas áreas administradas pelas primeiras. Segundo, entre agroindústrias sucroalcooleiras, havia as que tinham iniciado o processo de mecanização há mais tempo e, portanto, estavam mais preparadas ou já tinham superado os problemas acima relatados. Além disso, as empresas pioneiras não precisaram de tanto aporte de capital (com prováveis implicações no nível de endividamento) como as retardatárias, que concentraram mais seus investimentos em maquinário em torno do ano de 2007.

É bem possível que a mecanização canavieira tenha resultado em

aumento da exclusão de fornecedores e das dificuldades de continuidade de empresas retardatárias no processo, reforçando os níveis de concentração industrial e da terra no ramo sucroalcooleiro paulista. Particularmente, em termos agrícolas, a ausência de dados censitários mais recentes dificulta confirmar, empiricamente, se o ritmo de concentração da posse da terra, verificado entre 1995-1996 e 2006 e que se associou à expansão canavieira, se fortaleceu após 2006.

Os impactos da generalização da mecanização canavieira foram

grandes na ocupação canavieira e agropecuária de São Paulo. Entre 1975 e 2006, o crescimento da área e produção canavieira foi de tal monta que, mesmo com diminuição do número de trabalhadores/ha de cana, o número de Canavieiros aumentou, assim como cresceu a participação da ocupação canavieira no total de ocupação da agricultura de São Paulo. Algo totalmente diverso se verificou após 2007 e até 2014, quando a continuidade da expansão da área canavieira não foi suficiente para compensar os efeitos negativos da mecanização, de forma que o resultado acabou sendo a queda expressiva do número de Canavieiros e da sua contribuição na geração de postos de trabalho na agricultura de São Paulo.

Considerando-se as famílias ocupacionais sucroalcooleiras,

cresceu, moderadamente, o número de pessoas daquelas famílias ligadas às operações industriais e, fortemente, as administrativas e de transporte. Sofisticou-se o acompanhamento de processos produtivos, inclusive do trabalho agrícola, e aumentou a necessidade de pessoas encarregadas da movimentação e manutenção de veículos e máquinas nas usinas e destilarias paulistas.

Entre as ocupações agrícolas, aquelas famílias com maiores

exigências de qualificação profissional tiveram o número de pessoas contratadas se expandindo, com destaque para as empregadas na mecanização agrícola.

No balanço, a redução de 105,2 mil ou 59% no número de

Trabalhadores Canavieiros foi tão expressiva, que não foi compensada pelo aumento nas demais ocupações. Dessa forma, o número total de pessoas formalmente ocupadas em empresas sucroalcooleiras no estado de São Paulo registrou queda de 51,9 mil pessoas ou 16,4%, entre 2007 e 2014.

A diminuição do número de cortadores de cana resultou em

grandes dificuldades, quase impossibilidade, dos migrantes sazonais encontrarem ocupação na região canavieira paulista, nos anos mais recentes. Também se constatou redução forte na sazonalidade de ocupação dos canavieiros, ao longo do ano, com o número de ocupados na safra se aproximando do número de ocupados na entressafra, embora a diferença ainda não possa ser considerada desprezível.

O impacto social da desocupação dos canavieiros, no período

aqui estudado, foi amenizado diante das possibilidades de ocupação alternativa que ofereceu a economia brasileira e paulista. Mais localizadamente, em municípios com porcentual grande de área cultivada com cana e em regiões de expansão mais recente da cultura, o efeito da diminuição da ocupação canavieira se mostrou mais expressivo.

Não foi somente uma mudança quantitativa que se verificou na

ocupação canavieira. Mesmo percebendo que a qualidade do trabalho manual no plantio, em termos da quantidade de mudas usadas e brotação obtida, e na colheita, quanto à produção/área e longevidade dos canaviais, era melhor do que a das máquinas, os empresários optaram, em bloco, a partir de 2007, pela aceleração da mecanização canavieira. Certamente, essa não foi a primeira vez que a maior qualidade do trabalho manual se mostrou insuficiente para garantir sua manutenção, em face das perspectivas de menores custos e controles mais rígidos e precisos sobre o processo de trabalho, proporcionados pela ampliação da mecanização. Controles esses que, atualmente, se potencializaram com o georreferenciamento e os registros computacionais.

Nesse sentido, perdeu muito significado, na estratégia das

empresas, os controles sobre a produção diária do cortador de cana. Os controles que hoje importam, de forma predominante, são os que estão relacionados com o desempenho do maquinário agrícola, ao qual boa parte das tarefas braçais que sobraram está vinculada. Ademais, as outras tarefas que ora os Canavieiros executam não têm mais a importância quanto à do corte manual, quando esse era amplamente predominante nos canaviais paulistas e dele dependia o grosso de matéria-prima que chegava às agroindústrias para ser transformada em açúcar e etanol.

Há ainda necessidade de se obter maiores informações e se

aprofundar a análise, mas o que se conseguiu acumular de evidências até o momento aponta para a tendência das empresas sucroalcooleiras manterem, ao longo do ano, turmas fixas de trabalhadores não qualificados para o exercício de diversas atividades, menos importantes e estratégicas do que aquelas ligadas ao plantio e a colheita da cana e que exigem menor força física. Talvez seja esse um dos motivos que explicam o aumento da participação das mulheres e dos mais velhos entre os Canavieiros, de 2007 e 2014, no estado de São Paulo.

Na região canavieira paulista continua havendo espaço para

pequenos proprietários rentistas, mas pouco para pequenos e médios agricultores. A relação de trabalho amplamente predominante é a assalariada e o processo de trabalho vem se desenvolvendo de forma a superar as barreiras naturais e tentando-se garantir maior controle de seu ritmo e desempenho. Concomitantemente, o número de pessoas ocupadas tem se revelado cada vez menor e cresce a importância das ocupações com maior qualificação profissional.