Improvisos de Bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage · Capítulo 16 de 18

Páginas do PDF

Improvisos de Bocage

+Soneto Xviii.+

Elmano! Elmano! Os que te ouvírão rindo,

Penhas, e Montes, que teu Metro alçava, Clamar faz hoje a Dôr, que em pranto os lava,

E, mais que todos, o Permesso, e Pindo.

 

Bosques, Paizagens, que teu verso lindo Em dobro enriquecêo, teu mal aggrava:

Chorão-te Graças, Nynfas, que elle honrava, O niveo rosto com as mãos cobrindo.

 

Inda, Cysne do Téjo, inda teu Canto,

Bem que rouco, s'escuta; e em desconsolo Já das Musas te chora o Côro santo.

 

Quando não ergas o mellífluo collo,

Quem restará chorar-te? Hum Deos em pranto Se ha de então vêr, chorando o mesmo Apollo.

 

Por Thomaz Antonio dos Santos, e Silva.

 

Em resposta ao antecedente: Elmano a Tomino.

 

+SONETO XVIII.+

 

Vapor doirando, que me afuma os Lares, (Porque a Morte os bafeja de contino)

Sôlto de ti relampago divino,

[25] Milton de Lysia, alumiou meus ares. +SONETO XIX.+

O bem d'ouvir-te, o bem de me chorares

Quasi que irmana desigual Destino:

«Tu de assombros Cantor, (Fébo, ou Tomino)

«Eu Ave, eu órgão de pavor, de azares.»

 

Níveo matiz d'auriferas arêas [26],

Cysne qual Jove outr'ora [27], e que no alado

Extasi aos Céos a melodia altêas!

 

Vóz, de que adóro o cântico sagrado,

Vóz, que a dor minha, o Fado meu prantêas!

Dá-me teus sons, e cantarei meu Fado. [28]

 

[25] Pelo estro, e pela cegueira.

 

[26] As do Téjo.

 

[27] Quando se tornou Cysne por Leda.

 

[28] Porque então a gloria compensa-me a fortuna.

 

Apesar do que digo a pag. 10, sempre tive occasião de honrar o

meu insigne Compatriota.