Industrialização do ensino e política de educação a distância
Escavando o território da análise de discurso
Escavando o território da
análise de discurso
Neste capítulo, visando responder à complexidade do fenômeno em estudo, articulando-o aos objetivos, à problemática e às questões da pesquisa, como forma de sustentar a tese aqui delineada, adentraremos ao território da Análise de Discurso (AD) de orientação francesa. Sobretudo porque permite esta compreender o discurso como um modo crítico de pensar, constituído pela “memória do dizer”, que autoriza intervir o contexto histórico-ideológico, em condições de produção e situações de enunciação específicas, numa dada conjuntura social. Ao elegermos metodologicamente a AD como dispositivo analítico, somos tentados a postular, a priori, que o discurso da política nacional de educação a distância como todo discurso não seria transparente, mas atravessado por discursividades que se repetem, a partir de novas formulações, novas condições de produção, constituindo efeitos de sentidos como resultado de confrontos, conflitos e jogos, cuja forma e funcionamento mantêm conexão com as ideologias que estiverem circulando no tecido social.
Percorrendo as fundações desse território pantanoso, em que se encontram atalhos, vestígios e inflexões, é possível trazer à superfície as condições e as particularidades da emergência geográfica e temporal da AD e sua estabilização em contextos diferenciados, vendo que a memória discursiva se atualiza em lugares multifacetados, sem perder de vista o movimento da história. A AD surge como um campo de conhecimento que se desenvolve na França, entre as décadas de 1960 e 1970, tomando como referência e tentando levar a linguística herrisiana até as últimas consequências (PÊCHEUX et al, 1990, p.255). Já em 1952, no trabalho “Discourse Analysis: a sample text”, o lingüista americano Z. S. Harris, retomado por Mazière (2007, p.7), definia a Análise de Discurso como dando conta – contrariamente à lingüística descritiva preocupada com os elementos da frase – de “uma multiplicidade de ensinamentos sobre a estrutura de um texto ou de um tipo de texto, ou sobre o papel de cada elemento nessa estrutura.”
Não concebendo esses ensinamentos como estanques, representa a AD de orientação francesa um processo, isto é, “mais um movimento crítico que uma escola fornecendo categorias operatórias e métodos a aplicar.” (MAZIÈRE, 2007, p.95) Dessa forma, constitui um método de compreensão de uma multiplicidade de objetos, segundo o qual não se trabalha a linguagem enquanto dado, mas como fato, tendo a sua origem vinculada ao político, o que a torna ponto de partida para compreendermos as formas textuais de sua representação. Em suas origens, portanto, a AD deriva da incorporação de métodos lingüísticos americanos aos estudos lexicais sociopolíticos na França que dá ensejo ao desenvolvimento de uma análise de natureza sociolingüística.
Antes de dispensar atenção ao “discurso comum e de todas as heterogeneidades” (MAZIÈRE, 2007, p.30), a AD privilegia os textos políticos escritos, mantendo uma relação intrínseca que acaba estabelecendo uma nova compreensão do político e, ao deslocar o lingüístico para assumir um caráter histórico, constrói para si “um lugar particular entre a disciplina lingüística e as ciências das formações sociais” (ORLANDI, 1990, p.25). Em uma interlocução com Courtine (1986), retoma Orlandi (1990, p.31) a história da AD como um movimento marcado por diferenças e rupturas com “políticas de esquerdas” nos anos 1960 e 1970, na “relação direta dos intelectuais com a política”, “entre a prática política e o trabalho teórico”. Nesse ínterim, acontece um distanciamento, caracterizado pelo silêncio, a indiferença e o individualismo dos intelectuais que levam ao refluxo e ao próprio vazio político.
Esse distanciamento implica a renovação do positivismo, transformando-se a AD em “uma prática dividida entre uma função crítica e uma função instrumental”. (ORLANDI, 1990, p.31) Em sua função crítica, interroga a própria existência das disciplinas, desterritorializando-as. Mas, ao tempo em que o faz, constrói seus procedimentos, delimita seu objeto e tende, ela mesma, a se territorializar. Nesse processo de territorialização e desterritorialização, a AD percorre vários continentes. Tendo nascido na Europa, migra para a Grã-Bretanha e os Estados Unidos e se reterritorializa em muitos países da América Latina, inclusive, no Brasil.
Segundo Orlandi (2003, p.1), poderíamos até falar em uma Análise de Discurso francesa, inglesa, americana, brasileira etc., à medida que consideramos a AD como sendo desenvolvida nesses diversos contextos, “com suas diferentes tradições de estudos e pesquisas sobre o discurso.” Na França, especificamente, onde Michel Pêcheux ocupou um lugar privilegiado nos trabalhos de produção do discurso, a AD é concebida como um dispositivo que coloca numa relação complexa o campo da língua e o campo da sociedade. Desterritorializando-se, a AD deixa de se concentrar exclusivamente sobre o discurso político para dirigir sua atenção, também, ao discursivo no campo jornalístico, pedagógico e tantos outros. O redimensionamento do seu território aponta na direção de uma nova concepção discursiva e procedimentos analíticos específicos.
Neste estudo, ao tentarmo-nos (re)aproximar do político, talvez nosso principal desafio seja efetuar uma análise crítica, evitando recorrer a um modelo instrumental. Notadamente porque nos defrontamos com o princípio de que, em AD, tanto o discurso como o sujeito do discurso não constituem “los objetos dados a priori, sino los objetos a construir” (COURTINE, 1981). O fenômeno de investigação, portanto, não pré-existe ao corpus, mas em geral é justamente este que define o primeiro.
Recorremos à AD, contudo, em busca de um aporte teórico-metodológico que pudesse nos ajudar a dimensionar o potencial da manifestação do discurso da industrialização do ensino na política nacional de educação a distância. Adotamos aqui, em particular, a Análise de Discurso de orientação francesa por ser concebida, logo em sua origem, como abordagem capaz de relacionar de forma complexa “o campo da língua (suscetível de ser estudada pela lingüística em sua forma plena) e o campo da sociedade apreendida pela história (nos termos das relações de força e de dominação ideológica).” (GADET, 1990, p.8)
Conforme reconhece Mazière (2007), sobretudo nas últimas três décadas, a AD encontra na América Latina, e no Brasil de modo especial, lastro para a continuidade de suas referências teóricas, através de estudos e pesquisas que reafirmam sua importância, a despeito de seu declínio na própria França, de suas variações e, às vezes até, do emprego “abusivo” do termo escola para nomear sua região de origem. De fato, esclarece Gregolin (2006), são fortes as filiações da AD brasileira com a mesma base conceitual francesa, mantendo uma tendência a se consolidar como campo fértil e trilhar uma fase avançada no Brasil. Dificulta isso a defasagem em relação à trajetória da AD na França que acabou legando problemas caros aos estudos brasileiros.
Mesmo considerando tais problemas, a hipótese de Gregolin (2006, p.24) é que os estudos recentes desenvolvidos no Brasil estariam “muito próximos” das idéias da AD francesa nos inícios dos anos 1980, quando entra na sua terceira fase. Marcada, principalmente, pelas preocupações de Pêcheux que desloca sua ênfase da formação discursiva para a idéia de “memória discursiva”, “interdiscursividade”, enfim, “heterogeneidade do discurso”. Na contramão da AD francesa das últimas décadas, concentrada essencialmente nos fenômenos de natureza lingüística, retórica, pragmática ou interativo-conversacional, observamos no Brasil uma tendência a preservar a dimensão histórica ou político-epistemológica dos discursos (PIOVEZANI FILHO, 2006, p.246).
Seguimos neste estudo a tendência da AD desenvolvida no Brasil, com a pretensão de submeter o discurso em torno da política nacional de educação a distância as suas condições de produção não apenas discursivas, como também extra-discursivas. Engendradas, portanto, nas práticas sociais e discursivas que mobilizam, histórica e continuamente, formações sociais e ideológicas, com as quais a formação discursiva (FD) estabelece relações de interdependência. Daí a necessidade de recorrermos, por um lado, às contribuições de autores de orientação marxista, a destacar Bakthin e Pêcheux que nos ajudam a não perder de vista a influência das formações sociais sobre o discurso; e, por outro, às contribuições de um autor como Foucault, cuja noção de formação discursiva e da autonomia do discurso influencia substancialmente as idéias de Pêcheux e da AD francesa.
Além disso, mobilizaremos algumas das contribuições de Patrick Charaudeau para tratarmos, especificamente, do discurso político. Embora Charaudeau se acoste numa linha de pensamento que se orienta pelo viés de uma Teoria Semiolinguística, o autor nos legou recentemente dois estudos que não poderiam deixar de figurar entre nossas referências – “Discurso político” (CHARAUDEAU, 2006) e “Dicionário de análise do discurso”, este último em co-autoria com Dominique Maingueneau, um dos principais nomes da AD francesa (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2006). Acrescemos a isso o reconhecimento das metodologias contemporâneas em apontar a possibilidade de o pesquisador assumir a inscrição de múltiplos métodos na análise do fenômeno.