Industrialização do ensino e política de educação a distância
Dispositivo analítico
Como o que estará em jogo, enfim, não é mais o texto, mas o próprio discurso em seu modo de funcionamento, buscaremos compreender nosso corpus discursivo de acordo com os dispositivos teóricos anteriormente estabelecidos, no caso aqui analisado, à luz das características estruturais da industrialização do ensino. Diferentemente da lingüística, a AD não trabalha direta nem exclusivamente com as marcas discursivas (formais), mas com propriedades discursivas (materiais) que atribuem sentido ao discurso, referindo a língua à história. O que importa à AD é o modo como essas marcas articulam-se no texto ou “se ‘encarnam’ no discurso. Daí o interesse do analista pela forma-material que lhe permite chegar às propriedades discursivas.” (ORLANDI, 2002, p.90)
Sem conseguir dar conta do funcionamento discursivo, as marcas dizem respeito tão somente à organização do enunciado, enquanto as propriedades levam em consideração os vínculos deste com a exterioridade, o contexto sócio-histórico e político-cultural. Apesar de ser indireta a vinculação do texto com os seus condicionantes, não é possível distinguir o discurso sem levar em conta sua historicidade, “pois o estabelecimento da propriedade do discurso é o estabelecimento do funcionamento típico de suas condições de produção.” (ORLANDI, 1993a, p.26) Nesses termos, consideramos que as propriedades discursivas da política nacional de educação a distância estariam relacionadas, direta ou indiretamente, às seguintes condições materiais e estruturais da industrialização do ensino: racionalização, divisão de trabalho, mudança de função e especialização, mecanização, linha de montagem, produção de massa, trabalho preparatório, planejamento, organização, métodos de controle científico, formalização, padronização, objetivação, concentração e centralização.
Dispositivo analítico
A prática da análise textual precisa levar em conta que um texto comporta uma série de “efeitos possíveis”, correspondentes não apenas aos efeitos pretendidos pela instância de enunciação como àqueles produzidos por parte da instância de interpretação (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2006, p.180). A compreensão de como um objeto discursivo produz efeitos de sentido acaba, por extensão, dando continuidade a esse processo, colocando em circulação não só uma compreensão, como também uma nova pretensão em matéria de efeitos. “Produzem-se assim novas práticas de leitura.” (ORLANDI, 2002, p.27)
Caberá ao analista, apoiado em um referencial teórico-metodológico consistente, problematizar e produzir novas práticas de leitura relativamente ao objeto discursivo, com base em conceitos que lhe são intrínsecos, específicos e, por assim dizer, diferentes daqueles empregados por outros pesquisadores. O que implica numa distinção entre o dispositivo teórico e o analítico que, por sua vez, faz parte e individualiza o teórico, a cada análise efetuada. “Daí dizermos que o dispositivo teórico é o mesmo mas os dispositivos analíticos, não. O que define a forma do dispositivo analítico é a questão posta pelo analista, a natureza do material que analisa e a finalidade da análise.” (ORLANDI, 2002, p.27)
Em nossa análise, portanto, o que iremos enfatizar é a relação do objeto empírico (o texto) com o objeto teórico (o discurso). De modo que os textos não serão tratados como “meras ilustrações”, pois, na perspectiva da AD, “não há possibilidade de exaustividade extensional/ horizontal, porque todo discurso se estabelece sobre um discurso anterior e aponta para outro (que é o seu futuro)” (ORLANDI; GUIMARÃES; TARALLO, 1989, p.32). No próximo capítulo, tentaremos dar conta de como essa relação reflete as condições sócio-históricas de produção de cada texto e do corpus discursivo no seu conjunto. Além disso, buscaremos apontar como essa relação se estabelece sob o impulso do interdiscurso, que permeia todo o corpus, e do intradiscurso, que intervém sobre o âmbito estrito de cada texto.
Aliás, é possível realizarmos vários procedimentos em AD, limitando-nos a um texto e procurando as pistas que o caracterizam, a fim de analisar palavras, expressões ou frases. Para os objetivos delineados neste estudo, pareceu-nos mais adequado entretanto tomar fragmentos de textos diferentes que tratam do mesmo fenômeno. Objetivamos recuperar no corpus pesquisado, numa acepção foucaultiana, “os traços discursivos suscetíveis de permitir a reconstituição do conjunto das regras que, num momento dado, definem ao mesmo tempo os limites e as formas da dizibilidade, da conservação, da memória, da reativação e da apropriação” (REVEL, 2005, p.18).
Nessa perspectiva, mediante escolha intencional, tomamos como unidade significativa de análise do nosso corpus não diretamente cada texto, na sua íntegra, mas a seqüência discursiva de referência (sdr) que melhor representava as propriedades discursivas fundamentais à política nacional de EAD. Seguindo Courtine (1981), partimos do pressuposto de que a produção de uma sdr apresenta-se fortemente associada à difusão e circulação de todo um conjunto de textos, de natureza e procedência diversas, que a precederam e a prepararam, dos quais constitui o ponto culminante, que os sucedem e os respondem, formando, por conseguinte, o domínio de atualidade do acontecimento discursivo que representa.
Em complemento a esse critério de representatividade, boa parte das seqüências selecionadas foi extraída do tópico correspondente à introdução de cada texto. São exemplares, neste sentido, as sdr 1, 3, 6 e 10 que representam uma espécie de introdução à introdução. As sdr 2, 4 e 8, por sua vez, fazem parte da introdução. Por último, as sdr 5, 7 e 9 encontram-se no entremeio dos respectivos textos. A organização de cada seqüência leva em conta um conjunto significativo de parágrafos, aos quais estamos denominando de segmentos discursivos, formados por diversos tipos de fragmentos (palavras, expressões, frases, enunciados, séries discursivas etc.). Considerando que a AD não se preocupa diretamente com a forma ou a extensividade do texto, mas com a sua discursividade, os segmentos apresentam dimensão variada, compreendendo desde dois a sete parágrafos, havendo uma ênfase de parte das seqüências em ser composta por três segmentos (sdr 1, 2, 3, 6 e 8).
Cada sdr não só corresponde, assim como visa representar um dos dez textos que constituem nosso corpus discursivo. Elegemos a sdr 1 como seqüência-modelo, pela importância especial que ela encerra, conforme esclarecemos no próximo capítulo. Ela assume, dessa forma, um propósito bem mais amplo que as demais seqüências, contribuindo para vislumbrarmos como as condições de produção ajudam a organizar e transcender a regularidade do discurso da industrialização do ensino. Por um lado, examinamos como a própria sdr 1 organiza-se tanto lingüística como discursivamente, dando ênfase a sua intratextualidade e intradiscursividade. Por outro, tentamos dar conta de como a sdr 1 e o T1 como um todo organizam-se em termos de intertextualidade e interdiscursividade face aos mesmos (seqüência e texto) e a outros textos e discursos presentes, seja no seu interior seja em sua exterioridade.
Daí nosso cuidado em decompor e analisar a sdr 1 e o T1 da forma a mais detalhada e abrangente possível. O que implicou, em primeiro lugar, identificarmos a situação de enunciação que envolve o discurso, incluindo o lugar e tempo em que ocorre, além do lugar social e a posição do sujeito falante e destinatário. Em segundo lugar, procuramos evidenciar como esses sujeitos, ou melhor, os sujeitos da história comportam-se entre si, fazendo uso da voz ou sendo induzidos ao silêncio, o que nos levou a identificar, por um lado, um sujeito silenciado e, por outro, um sujeito ao mesmo tempo determinado, competente e autorizado.
Em terceiro lugar, foi-nos extremamente importante desvendar a materialidade do discurso, compreendendo desde o gênero textual e a forma de linguagem até a estratégia e o tipo de discurso prevalecente. Do que resultou apontarmos um discurso nos padrões de um artigo de natureza acadêmico-científica, apresentado de forma didática e com pretensões dialógicas, porém marcadamente autoritário. Em quarto lugar, preocupou-nos examinar a continuidade e a descontinuidade do discurso que, por conseguinte, revelou encontrar-se a sdr 1 intensamente afetada por uma regularidade discursiva. Em quinto lugar, buscamos esclarecer como os enunciados apontam na direção de acontecimentos discursivos, concebidos como subdivididos em três níveis de acontecimentos interdependentes e correspondentes às instâncias da produção, difusão e circulação do discurso.
Por último, conjuntamente com o T1, a sdr 1 é tomada para entendermos como o sistema de enunciabilidade do discurso em torno da política nacional de EAD é organizado para fazer prevalecer a industrialização do ensino enquanto formação discursiva dominante. Seguindo esse pressuposto, todas as demais sequências discursivas de referência têm o propósito de evidenciar, fundamentalmente, a incidência das características da industrialização do ensino sobre cada texto, através de fragmentos que lhe são correspondentes, mesmo que reiterados na forma de
paráfrases ou famílias parafrásticas 10. Quando as correlacionamos sob o prisma de sua materialidade e, sobretudo, de sua própria historicidade, tais sequências enfim dão sentido ao nosso corpus discursivo. Material este composto por um conjunto de enunciados, resultante de um discurso produzido em uma situação concreta de enunciação por sujeitos e, no evento dessa enunciação, materializado em textos, entendidos como uma unidade lingüística concreta e de sentido, construída segundo regras e princípios discursivos determinados sócio-historicamente.
Nosso esforço para conceber o discurso em torno da política nacional de EAD como remetendo à formação discursiva industrialização do ensino não ignora, evidentemente, sua capacidade de interagir com outras formações discursivas. Mesmo porque a identidade de uma formação define-se, também, pela rejeição de algumas unidades de sentido (“negativas”) e projeção de outras (“positivas”), construídas nas formações com as quais estabelece relação. Para resguardar sua própria identidade, define Maingueneau (1993, p.122), o discurso apenas consegue “relacionar-se com o Outro do espaço discursivo através do simulacro que dele constrói. Chamaremos discurso agente aquele que se encontra em posição de ‘tradutor’, de construtor do simulacro, e discurso paciente aquele que desta forma é traduzido.”
Além disso, tudo indica ser importante adotarmos procedimento talvez próximo ao que preocupou Foucault, a partir dos anos 1970, quando devota suas análises à relação existente entre os grandes tipos de discurso e as condições sócio-históricas de seu aparecimento e formação, marcando assim “a passagem metodológica da arqueologia à genealogia” (REVEL, 2005, p.38). Uma das pretensões da arqueologia, preconizava o próprio Foucault (2002, p.186), é evidenciar as relações entre as formações discursivas e não discursivas, determinando até que ponto as regras de formação que regem os enunciados vinculam-se a sistemas não discursivos, entre os quais os processos econômicos, os fatos e as instituições políticas. Em entrevista a Rouanet e Merquior (1971, p.24), o autor chamava atenção que essas relações no entanto seriam bem mais complexas do que a pura e simples expressão do que denominava das formas econômicas e sociais pré-discursivas, muito embora todas as regras que definiam os objetos, as posições do sujeito e a forma dos conceitos originavam-se de tais formações: “É somente a partir dessas regras que se poderá chegar ao estado terminal do discurso, que não exprime, portanto, essas condições, ainda que estas o determinem.” (ROUANET; MERQUIOR, 1971, p.24)
O dispositivo analítico acima descrito tenta seguir nessa direção, muito embora não ignoremos que poderá correr alguns riscos. Em primeiro lugar, o risco de envolvimento não só com a análise, como também com a construção do corpus, pode abrir o texto para o contexto no qual trabalhamos enquanto pesquisadores. Em segundo lugar, o risco de esbarrar no fato de que as condições de produção do discurso, em que pese sua importância para a construção do corpus de estudo, podem se tornar orientações teóricas capazes de condicionar o processo de compreensão. Inspirada na acepção marxista de condições econômicas de produção, a noção de condições de produção do discurso teria estabelecido uma correlação fortemente mecanicista entre discurso e classes sociais. “Em uma perspectiva que deve muito a Foucault, ela cedeu a vez a uma visão mais complexa das instituições discursivas e da relação entre o interior e o exterior do discurso” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2006, p.114).
Por último, correríamos o risco de superestimar o papel das formações sociais e ideológicas, perdendo de vista a capacidade de renovação do discurso. A estratégia para evitar incorrer nesses e eventuais outros riscos, sugerem Charaudeau e Maingueneau (2006, p.142), será enfatizar o discurso como acontecimento, cuja compreensão se dá nos marcos do próprio “corpus e não fora dele”. Na Análise de Discurso, salienta Cazarin (2005), é consenso o fato de que a própria formação discursiva “não é algo delimitado a priori porque se ‘constrói’ e se configura como gesto de interpretação.” O que implica reconhecermos que a confirmação da pressuposição de que o discurso da industrialização do ensino refere a formação discursiva predominante na política nacional de educação a distância dependerá, também, de nosso gesto de compreensão.