Industrialização do ensino e política de educação a distância

Antonio Roberto Faustino da Costa · Capítulo 3 de 36

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Industrialização do ensino e política de educação a distância

Fundamentos teóricos da educação a distância

Fundamentos teóricos da

 

educação a distância

 

Neste estudo, tomamos o fenômeno da educação a distância sob uma perspectiva teórico-conceitual, concentrando sua análise no campo da pedagogia. A distinção entre educação e pedagogia formulada por Émile Durkheim parece bastante sugestiva do que nos interessa, particularmente, examinar. Diversamente da educação, a pedagogia “não consiste em ações, mas em teorias. Essas teorias são maneiras de conceber a educação, não são maneiras de praticá-la. Por vezes, distinguem-se das práticas em uso, a ponto de se oporem a elas, francamente.” (DURKHEIM, 1973, p.57-58).

Partimos da pressuposição de que, em contraposição aos avanços teóricos da pedagogia relativamente à educação presencial, a EAD ainda não haveria desenvolvido abordagens capazes de ser consideradas teorias. Em lugar disso, têm sido adaptadas à EAD as abordagens tradicionais de ensino e de aprendizagem: o modelo de controle do comportamento de Skinner; o modelo de Rhothkopf para a instrução por escrito; o modelo organizador do desenvolvimento de Ausubel; o modelo de comunicação estrutural de Egan; o modelo de aprendizagem pela descoberta de Bruner; o modelo de facilitação de Karl Rogers; e o modelo geral de ensino de Gagnér.

A essas abordagens acrescenta-se a chamada teoria da conversação didática guiada de Borje Holmberg que representaria o único modelo voltado, especificamente, para a EAD. Representaria, também, o modelo acrescentado por Laaser e sua equipe (LAASER, 1997, p.26) ao quadro já apresentado por John Baath. Em seu livro “Correspondence education in the light of a number of contemporary teaching models”, publicado em 1979, Baath analisa a aplicabilidade das teorias de Skinner, Rotkopt, Ausubel, Bruner, Rogers, Gagné e Egan à EAD (HOLMBERG, 1995), destacando que todos os modelos poderiam ser aplicados à EAD, alguns deles mais facilmente que outros (REKKEDAL, 1994).

Essa aplicação se daria mediante o esforço dos tutores de programas de EAD em individualizar a instrução do aluno com respeito aos padrões prévios (Skinner); facilitar as atividades (Rothkopf); apoiar as primeiras lições no conhecimento prévio e na estrutura cognitiva do estudante (Ausubel); ter idéia do grau de compreensão do aluno acerca dos conceitos básicos e princípios do curso (Bruner); enfim, estabelecer uma boa relação pessoal com o estudante (Rogers) (HOLMBERG, 1999). A teoria da distância transacional, uma das primeiras abordagens teóricas da EAD, lançada no início dos anos 1970, pretendia, aliás, fazer a fusão de duas tradições pedagógicas – o humanismo e o behaviorismo. A sua principal intenção foi romper com a hegemonia deste último, a indicar o título do estudo que deu origem à abordagem: “A autonomia do aluno: a segunda dimensão da aprendizagem independente” (MOORE, 2002).

Ao que tudo indica, a origem da limitação teórica da EAD reside nas limitações que afetam a própria pedagogia, incluídas as teorias de ensino e de aprendizagem. Nos inícios do século XX, Durkheim (1973, p.63-64) já observava que “as teorias chamadas pedagógicas” não passavam de especulações, de tentativas de determinar o dever ser da educação. “Não se propõem a exprimir fielmente certas realidades, mas a expor preceitos de conduta. Elas não nos dizem: ‘eis o que existe e por que existe’. Mas, sim: ‘eis o que será preciso fazer’.”

Nossa discussão, por isso mesmo, trata inicialmente das abordagens teóricas endógenas ao campo da educação a distância, relacionando um conjunto de proposições que traduzem os esforços envidados no sentido de superar limitações epistemológicas relacionadas à EAD. Num segundo momento, discutimos a debilidade teórico-conceitual da EAD e sua dependência em relação aos modelos pedagógicos tradicionais. Num terceiro momento, problematizamos as bases teóricas da EAD a partir das suas interfaces, sobretudo, com a sociologia da educação. Finalmente, enfatizamos a industrialização do ensino como a abordagem mais abrangente para interpretar o fenômeno da educação a distância no mundo contemporâneo.