Industrialização do ensino e política de educação a distância

Antonio Roberto Faustino da Costa · Capítulo 13 de 36

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Objeto teórico e objeto empírico: uma questão de método

Objeto teórico e objeto empírico: uma

questão de método

 

As múltiplas perspectivas de análise utilizadas para observar um fenômeno produzem, segundo Orlandi (1993a, p.15), diferentes objetos de conhecimento, com características próprias e distintas “entre o objeto empírico e o objeto científico que é construído.” Diferentemente da lingüística tradicional, a Análise de Discurso não trabalha simplesmente o produto, mas os processos de constituição do fenômeno lingüístico que representam seu recorte teórico fundamental. Para os objetivos da AD, torna-se imperioso que a linguagem seja demarcada pelo seu caráter social, representando o discurso ainda que sua materialidade, em princípio, seja lingüística – um objeto sócio-histórico, onde o “lingüístico intervém como pressuposto.” (PÊCHEUX; FUCHS, 1990, p.188)

O mérito da AD, por isso mesmo, repousa sobre o fato de se constituir no lugar em que a linguagem deve se reportar à exterioridade, sobretudo, no sentido de que seu processo significativo seja devidamente determinado. Na AD, não se descreve a função, mas o funcionamento que permite sistematizar, reconhecer regularidades, compreender o discurso como fazendo parte do histórico, do social (ORLANDI, 1996a, p.23). Neste sentido, a AD redefine o lugar do sujeito e a situação de enunciação. Além de conceber esta em sua ordem própria, ao invés de pensar o sujeito como tendo o controle, ou mesmo, identificando-se com o sistema, a AD leva em conta a relação contraditória que o sujeito estabelece com essa estrutura (ORLANDI, 1996b, p.26).

A AD entende a linguagem como trabalho, transformação, produção e interação que se define como uma relação necessária entre homem, realidade natural e social, pois nenhuma linguagem pode se separar da sociedade que a produz. Quando transcende a função referencial da palavra, a AD concebe esta como um “ato social com todas as suas implicações: conflitos, reconhecimentos, relações de poder, constituição de identidades etc.” (ORLANDI, 1993a, p.17) Com isso, elimina-se o percurso apenas pelo psíquico ou social, atravessando também o domínio da ideologia. Dessa forma, os interlocutores, a situação, o contexto sócio-histórico, ideológico, ou seja, as condições de produção constituem o sentido da seqüência verbal produzida.

Todo sujeito ocupa um lugar na sociedade e isso faz parte das relações de força no discurso, do que decorre que o princípio fundamental da AD é considerar que a relação entre a linguagem e a exterioridade é constitutiva e o processo de significação, por natureza, é histórico. Nessas condições, o sujeito não se apropria da linguagem individualmente, porque essa ação é social, o que revela o modo como o sujeito o fez, como a ideologia o interpelou. A preocupação da AD não é realizar isoladamente a análise lingüística do texto nem sociológica ou psicológica do seu contexto, mas sobretudo relacionar a sua enunciação a um lugar social específico e determinado (MAINGUENEAU, 1997, p.13-14).

Não há problemas em reconhecermos que os discursos são feitos de signos, desde que estes sejam concebidos como designando muito mais do que apenas as coisas. Mesmo compreendido como um grupo de enunciados (compostos de signos) que se apóiam numa mesma formação discursiva, para os quais é possível definir uma regularidade ou “o conjunto das condições nas quais se exerce a função enunciativa que assegura e define sua existência” (FOUCAULT, 2002, p.165), o discurso pertence, acima de tudo, ao campo da ideologia. Significa que as formações ideológicas comportam, entre seus elementos, uma ou mais formações discursivas que determinam o que deve e pode ser dito numa determinada conjuntura, “isto é, numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes.” (PÊCHEUX; FUCHS, 1990, p.166-167)

Conforme Maingueneau (1997, p.50), na acepção de Foucault a FD diz respeito a um conjunto de enunciados que seguem o mesmo sistema de regras, transcendendo unidades tradicionais como ciência e ideologia; enquanto para Pêcheux, designa o fato de que toda e qualquer formação social encerra posições político-ideológicas não originadas nos indivíduos, mas em formações que mantêm relações complementares ou antagônicas. Segundo o próprio Pêcheux (1988, p.254), o emprego do materialismo histórico não se reduz à simples referência às condições de produção sócio-históricas do discurso. Precisamos explicitar, ainda, o conjunto complexo, desigual e contraditório das formações discursivas em jogo numa situação dada, sob a dominação do conjunto das formações ideológicas, tal como a luta ideológica das classes determina.

Uma FD, em princípio, estrutura-se e se impõe de forma hierárquica a todo e qualquer sujeito, através de “enunciados retores” que demarcam o campo dos objetos possíveis e os limites entre o enunciável e o não enunciável (LECOURT, 1971, p.57). Contudo, ela não se estabelece unicamente nem se configura de forma homogênea. Seguindo a noção de Foucault, Pêcheux (1990a, p.314) esclarece que uma dada formação é normalmente invadida por elementos de outras formações discursivas “que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais (por exemplo sob a forma de ‘preconstruídos’ e de ‘discursos transversos’).”

Ao invés de constituir um bloco compacto que se contraporia a outros discursos, a FD é perpassada por uma interdiscursividade que a torna heterogênea por excelência, até porque carrega uma memória discursiva cujas formulações repercutem, recusam e transformam outras tantas formulações (MAINGUENEAU, 1993, p.115). Trata essa memória ou interdiscurso do conjunto de processos discursivos que ajudam a delimitar a atuação das diferentes formações discursivas sobre um discurso. A FD acaba se constituindo, em conseqüência, na relação que estabelece com essa memória do dizer, manifestando no interior deste as formações ideológicas.

Constitui o interdiscurso, por isso mesmo, o espaço ideológico-discursivo através do qual as formações discursivas estabelecem relações de dominação, subordinação e contradição. Mediante o interdiscurso, uma FD absorve elementos pré-construídos em outras formações, os quais são correlacionados aos seus “por efeitos-transversos que os incorporam, na evidência de um novo sentido em que eles são ‘acolhidos’ e fundados” (PÊCHEUX, 1988, p.278). Tanto as anterioridades como as heterogeneidades do interdiscurso não constituem exatamente o contexto, porém encontram-se inscritas “no próprio interior do intradiscurso” (MAZIÈRE, 2007, p.62). Como o interdiscurso encontra-se simulado no intradiscurso, só se tem acesso as suas condições de produção, historicidade ou circunstâncias de enunciação. A constituição do sentido, no entanto, se dá na relação com o interdiscurso, uma trama de sentidos cuja instância de formulação (o intradiscurso) passa pela materialidade do discurso, pela ideologia.

Na realidade, não há discurso que não estabeleça relação com outros, formando uma intricada discursividade, a ponto de um único texto refletir a presença de várias formações que, contraditoriamente, nele se organizam, tendo em vista uma formação dominante (ORLANDI, 2002, p.70). Desse modo, considerando que os indivíduos são interpelados em sujeitos-falantes ou sujeitos de seu discurso por formações discursivas determinadas que, por sua vez, representam na linguagem as respectivas formações ideológicas, concebemos a FD como “aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o que pode e deve ser dito” (PÊCHEUX, 1988, p.160-161).

Os objetos que interessam precipuamente à AD correspondem, por conseguinte, a formações discursivas (MAINGUENEAU, 1993, p.14), donde decorre que as palavras não existem nem guardam um sentido que lhes sejam próprios ou intrínsecos a sua possível literalidade. Na realidade, elas adquirem sentido em referência às posições e formações ideológicas nas quais acabam sendo produzidas ou reproduzidas. Mais precisamente, seu sentido se constitui em cada FD que representa o lugar ou matriz dessa constituição, estabelecida através das relações que tais elementos mantêm com outros da mesma formação, o que explica o fato de que, ao passar de uma FD a outra, as palavras acabam mudando seu sentido.