Introdução à Arqueologia da Península Ibérica
2.ª a Citania de Briteiros
«A par com a conservação ritual do uso de certos instrumentos de pedra nas ceremonias religiosas importa mencionar, terminando, as superstições que se associaram ás pontas de frechas de pedra e aos machados polidos que se encontravam no solo, depois de se ter perdido a sua origem. Na maior parte dos povos do mundo antigo, nos seculos pouco anteriores á era christã, recolhiam-os como objectos preciosos, e attribuiam-lhes mil propriedades maravilhosas e magicas, por accreditarem que do ceu cahiam com o raio. Conforme o testimunho de Plinio, distinguiam-se as ceraunias, que, segundo a sua propria descripção vem a ser as pontas de frechas, e os betuli, que são os machados. Ha collares de ouro etruscos dos quaes pendem, á maneira de amuletos, pontas de frechas de silex. Ao caracter talismanico que suppozeram n’esta classe de objectos se hão de attribuir as inscripções gnosticas e cabalisticas do seculo
ou da nossa era, gravadas n’um pequeno machado polido
descoberto no Peloponeso, e actualmente no Museu Britannico. Seríam feitas de certo na epoca em que o machado serviria de amuleto protectivo a quem o trouxesse comsigo. As crenças supersticiosas ácerca das suppostas pedras de raio permaneceram vigorosas ainda entre os sabios, até ao seculo ; e sómente no
seculo chegaram a desarraigar-se inteiramente na Europa
illustrada. Em muitos paizes, como na Italia, Alsacia e Grecia, subsistem ainda entre os habitantes dos campos.»
Lenormant, Les premières civilisations, tom. , pag. 169 a 172.
2.ª
A CITANIA DE BRITEIROS
No monte de S. Romão de Briteiros, entre Braga e Guimarães, em pequena distancia das Taipas, jazem umas ruinas, mencionadas desde o seculo pelos nossos antiquarios, e recentemente
exploradas pelo sr. Francisco Martins Sarmento. Discutiram largamente, sem chegar a conclusões decisivas, Brito, Estaço e Argote que povoação teria sido esta em tempo dos romanos. Mas o atrazo da archeologia não lhes deixou entrevêr que tal questão não sería de certo a mais importante d’aquellas que o exame das ruinas poderia suscitar. Os problemas de maior interesse apparecem agora á vista dos restos que o sr. Martins Sarmento, com zelo e dedicação de que até hoje não houvera ainda exemplo em toda a Peninsula, desentranhou da espessa camada de terra que os occultava.
A existencia da povoação na epoca romana demonstra-se com certeza pelas moedas e inscripções ali encontradas. Mas, a par com esses vestigios, têem apparecido outros, representantes de uma civilisação anterior que na Peninsula, á falta de estudos e de explorações, não se destaca ainda claramente das trevas prehistoricas. A promiscuidade dos caracteres romanos com os de outros alphabetos ou com lavores esculpidos de outro estylo, tudo conjuntamente nas mesmas pedras, provando mais com egual evidencia que todos esses vestigios são contemporaneos, não se pode explicar senão pela insufficiencia da civilisação romana para destruir e substituir por outros os velhos costumes transmittidos de geração a geração entre os habitantes d’esta parte da Peninsula.
Depois das grandes explorações ultimamente emprehendidas, vêem-se os restos das quatro muralhas que defendiam a povoação pela parte do sul e poente; percorrem-se as ruas e praças, algumas d’ellas lageadas com losangos de granito perfeitamente apparelhados; entra-se nas casas, em cujas paredes, conservadas de pé até certa altura, muito bem se observam todas as particularidades da construcção.
A mais forte das primeiras impressões é a que produz no espirito a vista das muralhas e das casas. Quem estiver habituado a observar a regularidade do apparelho romano, a superficie liza dos grandes silhares, a nitidez das linhas de união, a firmeza resultante do endurecimento da argamassa pelos soes de muitos seculos, necessariamente estranhará a falta de todo o apparelho nas muralhas e o limitar-se unicamente á face externa nas paredes das casas mais bem construidas, e da mesma sorte o não terem sido ligadas as pedras com argamassa. Esta circumstancia e tambem o revestimento interior das paredes das casas com pedras pequenas, faz lembrar as construcções denominadas cyclopeas, que se encontram na Italia, Malta, Grecia, etc.
Porém o não se descobrirem vestigios correlativos da epoca remota de taes construcções induz a crêr que a falta da cal sería a causa de se conservar no monte de S. Romão o costume de construir com pedra insossa, como ainda hoje acontece nas povoações ruraes circumvisinhas. Não se explica da mesma sorte por circumstancias locaes uma singular particularidade observada n’algumas casas, e vem a ser o formarem as pedras maiores das paredes, series espiraes, que principiam junto do solo e se prolongam com regularidade geometrica até á parte superior.
Esta disposição das pedras de certas paredes e as espiraes que se vêem gravadas n’algumas das rochas do monte e n’algumas das pedras desenterradas relacionam estes vestigios com outros prehistoricos da epoca do bronze, e mais em particular os signaes das rochas com outros similhantes que se conhecem na Irlanda. A gruta artificial, que denominam Penedo da Moura, e alguns consideravam como um dolmen, com sulcos artificialmente gravados na face inferior da pedra que lhe serve de tecto, liga-se ainda naturalmente com esses vestigios. Alguns dos fragmentos de louça parece terem uma ornamentação prehistorica. Finalmente a esculptura das pedras assimilha-se mais aos desenhos prehistoricos do que aos dos estylos conhecidos, e menos ainda ao romano que aos outros. Mas, como estes ultimos ornatos existem em pedras com inscripções romanas, em vez de reportal-os á epoca da pedra polida ou do bronze, deveremos antes suppôr que todos esses costumes se conservaram ainda n’aquella parte da Peninsula durante a dominação romana, pela repugnancia que os dominados offereceriam a acceitar a civilisação dos dominadores.
Já no tempo de João de Barros chamavam ruinas da Citania ás do monte de S. Romão de Briteiros. Esforçaram-se alguns, porém inutilmente, para fazer esta palavra equivalente da Cinnania ou Cinninia, mencionada por Valerio Maximo. Parece que Citania sería antes um appellativo, pois dizem haver na provincia de Entre Douro e Minho, outras ruinas de povoações antigas assim tambem denominadas. Da mesma sorte a palavra Cythiau, tendo talvez a mesma etymologia, se applica no paiz de Galles ás velhas ruinas gaelicas, segundo escreve Amadeu Thierry na sua Historia dos Gaulezes.
Esta analogia, só por si, poderia e deveria passar desapercebida, se outras não fizessem maior força. Os signaes com a fórma de espiral, gravados nas rochas e em pedras apparelhadas, encontram-se na Citania, bem como na Irlanda e n’outras partes da Grã Bretanha. Em fim os povos que habitavam o territorio bracarense no tempo das invasões dos romanos (gallaici bracari) eram de origem celtica e por tanto ethnicamente relacionados com os povos d’aquelle paiz procedentes do mesmo tronco. No capitulo
d’este livro demonstrámos que as regiões occidentaes da
Peninsula, assim como as partes da Europa, banhadas pelo Atlantico, estariam naturalmente sujeitas ás emigrações dos povos que viessem da Asia pelo noroeste, em quanto as regiões orientaes da Hespanha, litoraes do mediterraneo, receberiam pelo contrario gentes diversas, vindas do oeste da Asia ou da Africa septemtrional.
Os caracteres dos vestigios encontrados na Citania, que evidentemente não são romanos, serão portanto celticos. A fórma das casas e o deverem ter sido cobertas de colmo, por se não encontrarem vestigios de telhados, concorda com os termos em que os auctores antigos descrevem as casas dos gaulezes. Além das moedas romanas achou-se outra celtica, infelizmente perdida. O estylo da ornamentação da Pedra formosa e de outro fragmento é caracteristico. No desenho dos ornatos predominam os circulos concentricos, as espiraes e as cordas torcidas. Na Galiza achou-se um vaso de bronze cuja ornamentação essencialmente differente do estylo dos romanos ou de quaesquer outros dos povos que depois dominaram a Peninsula, tem os mesmos elementos mencionados, e, por isso, toda a similhança com o da Citania. As casas descobertas nos castros da mesma provincia são tambem analogas ás da Citania. Finalmente nas ruinas de algumas d’aquellas que se têem desenterrado nos castros verificou-se o serem formadas por paredes duplas, separadas por um pequeno intervallo. Em Sabrôso, proximo da Citania, achou o sr. Martins Sarmento ha poucos dias vestigios similhantes de casas com paredes duplas.