Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 8 de 12

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Liberdade

Já está de bom tamanho

 

Poucos dias depois que a entrevista feita pelo jovem Zachary foi postada em seu blog, a caixa de recados do celular de Katz foi ficando repleta. O primeiro era de um alemão insuportável, Matthias Dröhner, de quem Katz se lembrava ter precisado fazer força para se livrar durante a curta turnê do Walnut Surprise pela Pátria-Mãe. “Agora que você voltou a dar entrevistas”, dizia Dröhner, “espero que tenha a gentileza de falar comigo, como prometeu, Richard. E você prometeu!” Dröhner, em sua mensagem, não dizia como tinha obtido o número do celular de Katz, mas um bom palpite é que fora graças ao vazamento blogosférico do guardanapo de bar de alguma garota na qual ele tinha dado em cima durante a turnê. Sem dúvida, agora recebia mais pedidos de entrevista também por e-mail, provavelmente em número bem maior, mas não tivera a coragem de se aventurar online desde o verão anterior. O recado de Dröhner foi acompanhado de ligações de uma garota do Oregon chamada Euphrosyne; um jovial e ruidoso crítico de música de Melbourne, na Austrália; e do apresentador de uma rádio universitária em Iowa City que dava a impressão de ter uns dez anos de idade. Todos queriam a mesma coisa. Queriam que Katz tornasse a dizer—mas usando palavras ligeiramente diferentes, para que pudessem postar ou publicar a entrevista com crédito para eles próprios—exatamente a mesma coisa que já tinha dito para Zachary.

“Foi um espetáculo, velho”, disse-lhe Zachary no telhado da White Street, enquanto esperavam a chegada do objeto do desejo de Zachary, Caitlyn. Aquela coisa de se dirigir a ele como “velho” era nova e irritante para Katz, mas totalmente coerente com sua experiência de convívio com entrevistadores. Assim que se submetia à vontade deles, desaparecia toda admiração mais ostensiva que lhe votavam.

“Não me chame de velho”, respondeu ele ainda assim.

“Claro, foi mal”, disse Zachary. Ele caminhava se equilibrando por uma comprida ripa de madeira tratada como se fosse uma trave de equilíbrio, com os braços magros estendidos para os lados. A tarde estava fresca e ventosa. “Só estou dizendo que o meu contador de acessos pirou. Estão linkando o meu blog no mundo inteiro. Você já viu algum dos sites dos seus fãs?”

“Não.”

“Agora sou o link mais alto no melhor deles. Posso ir pegar meu computador para te mostrar.”

“Não precisa, pode deixar.”

“Acho que está todo mundo querendo muito ouvir alguém que fale a verdade sobre o poder. Quer dizer, hoje existe uma pequena minoria que diz que você é um pentelho chorão e só fala merda. Mas isso é só uma turma de fora, que detesta quem faz música. Eu se fosse você não ficaria preocupado.”

“Obrigado por me tranquilizar”, disse Katz.

Quando a garota Caitlyn apareceu no telhado, acompanhada por duas asseclas, Zachary continuou empoleirado em sua trave de equilíbrio, moderno demais para apresentar as pessoas, enquanto Katz ficou sentado junto à sua pistola de pregos, submetendo-se ao escrutínio das visitantes. Caitlyn envergava uma indumentária hippie, um colete de brocado e um casaco de veludo semelhante aos que eram usados por Carole King e Laura Nyro, e certamente mereceria o esforço se Katz, por toda a semana desde que estivera com Walter Berglund, não estivesse de novo preocupado com Patty. Conhecer alguma adolescente a essa altura era o mesmo que aspirar o perfume de morangos quando sentia fome de um bom filé.

“O que posso fazer por vocês?”, perguntou ele às meninas.

“Fizemos um bolo de banana para você”, disse a mais gordinha das três, entregando-lhe um pão envolto em papel-alumínio.

As outras duas meninas giraram os olhos para o alto. “Ela fez o bolo de banana”, disse Caitlyn. “Nós duas não tivemos nada a ver com isso.”

“Espero que você goste de nozes”, disse a doceira.

“Ah, pode crer que sim”, respondeu Katz.

Fez-se um silêncio confuso. Rotores de helicóptero golpeavam o espaço aéreo da parte sul de Manhattan, e o vento produzia efeitos estranhos a partir do som.

“Todas nós adoramos Lago Sem Nome”, disse Caitlyn. “E soubemos que você estava construindo um deque aqui.”

“Bom, como vocês podem ver, o seu amigo Zachary não mentiu.”

Zachary fazia a tira de madeira oscilar com seus tênis cor de laranja, afetando impaciência para se ver de novo a sós com Katz, evidenciando assim o domínio de certas técnicas básicas da conquista.

“Zachary é um bom músico jovem”, disse Katz. “E conta com o meu endosso total. É um talento prestes a estourar.”

As garotas viraram a cabeça na direção de Zachary com uma espécie de tédio triste.

“É sério”, disse Katz. “Vocês deviam pedir para descer com ele e ouvi-lo tocar guitarra.”

“Gostamos mais de country alternativo”, disse Caitlyn. “Não curtimos muito rock adolescente.”

“Ele faz uns solos country muito bons”, persistiu Katz.

Caitlyn endireitou os ombros, retificando a postura como uma bailarina, e olhou fixamente para ele, como que para lhe dar uma oportunidade de corrigir a indiferença que lhe demonstrava. Era evidente que não estava acostumada à indiferença. “Por que você está construindo este deque?”, perguntou ela.

“Ar fresco e exercício.”

“E precisa de exercício para quê? Estou achando você em grande forma.”

Katz sentiu um cansaço enorme, gigantesco. Ser incapaz de se convencer a se interessar por dez segundos que fosse pelo jogo que Caitlyn estava tão empenhada em jogar com ele era o mesmo que entender os atrativos da morte. Morrer seria o melhor modo de cortar sua ligação com aquela coisa—a ideia que as meninas faziam de Richard Katz—que tanto o incomodava. Bem a sudoeste de onde elas estavam erguia-se um imenso prédio comercial da era Eisenhower que maculava os panoramas arquitetônicos oitocentistas dos moradores de quase todos os lofts de Tribeca. Houve uma época em que esse edifício ofendia a sensibilidade estética urbana de Katz, mas agora ele achava bom que ofendesse a sensibilidade estética urbana dos milionários que tinham tomado conta do bairro. Assomava como a morte acima das vidas excelentes que ocorriam por ali; de certa forma, tornara-se um amigo seu.

“Vamos dar uma olhada nesse bolo de banana”, disse ele à menina gorducha.

“E também trouxe chicletes de hortelã”, disse ela.

“Posso autografar a caixa para você, e você guarda.”

“Que barato!”

Ele pegou uma caneta hidrográfica na caixa de ferramentas. “Como você se chama?”

“Sarah.”

“Foi um prazer conhecer você, Sarah. Vou levar seu bolo de banana para a minha casa e comer todinho de sobremesa hoje à noite.”

De passagem, tomada de algo semelhante a uma ofensa moral, Caitlyn observou aquela indiferença ativa dirigida à sua bela pessoa. Depois voltou-se para Zachary, seguida pela outra garota. E essa, pensou Katz, era uma boa ideia: em vez de tentar comer as garotas que ele detestava, por que simplesmente não rejeitá-las de verdade? Para manter sua atenção em Sarah, e longe da magnética Caitlyn, ele tirou do bolso a lata de fumo de mascar Skoal que tinha trazido para dar a seus pulmões algum descanso dos cigarros, e enfiou um bom punhado do tabaco entre a gengiva e a parte interna da bochecha.

“Posso experimentar um pouco?”, perguntou Sarah, encorajada.

“Vai ficar enjoada.”

“Mas e se for só um pouquinho?”

Katz fez que não com a cabeça e guardou a lata no bolso, e Sarah então perguntou se podia disparar a pistola de pregos. Ela parecia um anúncio ambulante da educação de último tipo que seus pais lhe tinham dado: Você tem permissão de pedir o que quiser! Só porque não é bonita, não quer dizer que não possa pedir o que quiser! Suas oferendas, se você tiver a ousadia de fazê-las, serão bem recebidas pelo mundo! A seu modo, ela era tão cansativa quanto Caitlyn. Katz se perguntou se ele próprio tinha sido igualmente cansativo aos dezoito anos, ou se, como agora lhe parecia, a raiva que sentia do mundo—sua percepção do mundo como um adversário hostil, digno de sua cólera—fazia dele uma pessoa mais interessante que aquelas duas jovens encarnações do amor-próprio ou, como diziam ultimamente, da “autoestima”.

Deixou Sarah disparar a pistola de pregos (ela gritou de susto com o coice da ferramenta e quase deixou a pistola cair) e em seguida a mandou embora. Caitlyn fora esnobada com tamanha competência que nem sequer se despediu, mas simplesmente desceu as escadas atrás de Zachary. Katz se dirigiu à claraboia do quarto do casal na esperança de um vislumbre da mãe de Zachary, mas só conseguiu ver a cama dux, a tela de Eric Fischl, a tv de tela plana.

Essa suscetibilidade de Katz a mulheres de mais de trinta e cinco anos lhe trazia algum constrangimento. Causava-lhe certa tristeza e a sensação de pulsão patológica, pela maneira como parecia remeter à sua própria mãe louca e ausente, mas não havia como alterar os circuitos básicos do seu cérebro. As crianças eram perenemente tentadoras e perenemente insatisfatórias, quase na mesma medida em que a cocaína era sempre insatisfatória: sempre que parava de consumi-la, tinha a lembrança de que era fabulosa e insuperável, e sentia uma forte ânsia de voltar a ela, mas bastava recomeçar para lembrar-se que não era nada fabulosa, mas estéril e vazia: uma droga neuromecânica com sabor de morte. Hoje em dia, sobretudo, as meninas trepavam hiperativamente, trocando de posição até percorrer rapidamente todas as variações conhecidas pela espécie, fazendo isso, mais aquilo e aquilo outro, suas xoxotas de menina pouco fragrantes demais e depiladas com cuidado excessivo para nem ao menos poderem ser devidamente vistas como partes do corpo humano. Lembrava-se mais detalhadamente de suas poucas horas com Patty Berglund que de décadas de trepadas com garotas. Claro, ele conhecia Patty desde sempre e sempre se sentira atraído por ela, e a longa espera sem dúvida tinha contribuído. Mas também havia alguma coisa mais intrinsecamente humana em Patty que em todas essas meninas. Algo mais difícil, mais envolvente, que merecia mais empenho em atingir. E agora que seu pau profético, sua vara rabdomântica, tornava a apontar na direção dela, ele não conseguia recordar por que não aproveitara mais amplamente a oportunidade que tivera com ela. Alguma ideia indevida de bom comportamento, que hoje lhe parecia incompreensível, impedira que ele fosse ao hotel dela em Filadélfia e se fartasse mais um pouco de Patty. Tendo traído Walter uma vez, em meio ao frio de uma noite setentrional, devia ter seguido em frente e traído mais cem vezes, até se livrar para sempre daquele desejo. E a evidência do quanto esse desejo era intenso saltava aos olhos nas canções que ele escrevera para o álbum Lago Sem Nome. Ele transformara em arte seu desejo ingratificado. Mas agora, já tendo produzido aquelas obras artísticas e colhido suas dúbias recompensas, não tinha mais razão para continuar renunciando a uma coisa que ainda queria. E se Walter, por sua vez, se sentisse no direito de comer a garota indiana, e parasse de ser tão irritante do ponto de vista moral, seria bem melhor para todos os envolvidos.

Tomou um trem de Newark para Washington no começo da noite de sexta-feira. Ainda não conseguia ouvir música, mas seu aparelho de mp3 não Apple estava carregado com uma faixa contínua de som cor-de-rosa—um som branco com a frequência ligeiramente alterada na direção dos graves, capaz de neutralizar qualquer som ambiente que o mundo pudesse produzir à sua volta—e pondo seus imensos fones de ouvido envoltos em espuma, virando-se um pouco na direção da janela e segurando um romance de Bernhard bem perto do rosto, conseguiu obter uma privacidade absoluta até o trem parar em Filadélfia. E lá um casal branco de vinte e poucos anos, usando camisetas brancas e tomando sorvete branco que traziam em copos de papel encerado, instalou-se nos assentos recém-liberados à frente dele. O branco extremo de suas camisetas pareceu a Katz a cor do regime de Bush. A menina imediatamente reclinou seu assento, invadindo o espaço dele, e quando terminou o sorvete, poucos minutos mais tarde, jogou o copinho e a colher para baixo do banco, onde estavam os pés dele.

Com um suspiro pesado, ele retirou os fones de ouvido, pôs-se de pé e largou o copinho no colo dela.

“Meu Deus!”, gritou ela com uma repulsa candente.

“Ei, cara, que porra é essa?”, disse seu resplandecente companheiro de viagem.

“Você jogou esse copinho nos meus pés”, disse Katz.

“Mas ela não jogou no seu colo.”

“Estou admirado com a sua façanha”, disse Katz. “Falar como se tivesse razão quando a sua namorada jogou um copinho molhado de sorvete nos pés de alguém.”

“O trem é público”, disse a garota. “Você devia viajar de jatinho particular se não suporta outras pessoas.”

“É, vou tentar me lembrar disso da próxima vez.”

O resto do caminho até Washington, o casal passou tentando empurrar seus encostos mais para trás, além do limite, e invadindo mais ainda o espaço dele. Não pareciam tê-lo reconhecido, mas, se reconheceram, certamente em pouco tempo estariam dizendo em seus blogs como Richard Katz era um completo babaca.

Embora ele tivesse tocado muitas vezes em Washington ao longo dos anos, a horizontalidade da capital e suas desconcertantes avenidas diagonais nunca deixavam de incomodá-lo profundamente. Sempre se sentia como um rato num labirinto governamental. Pelo que era capaz de ver do banco traseiro do seu táxi, era bem possível que o motorista não o estivesse levando para Georgetown, mas para a embaixada israelense, para um interrogatório com técnicas extremas. Os pedestres de todos os bairros pareciam ter todos tomado as mesmas pílulas de deselegância. Como se o estilo individual fosse uma substância volátil que se evaporasse na vacuidade das calçadas e nas praças infernalmente largas da capital do país. Toda a cidade era um breve imperativo dirigido a Katz em sua jaqueta surrada de motociclista. Dizendo: morra.

A mansão de Georgetown, contudo, tinha alguma personalidade. Até onde Katz sabia, Walter e Patty não tinham eles próprios escolhido a casa, mas ainda assim refletia o excelente gosto citadino que ele sempre esperara do casal. Tinha um telhado de ardósia, várias águas-furtadas e janelas altas no térreo que se abriam para algo que se assemelhava a um modesto mas autêntico gramado. Acima da campainha da porta via-se uma placa discreta de latão admitindo discretamente a presença do fundo da montanha azul.

Jessica Berglund abriu a porta. Katz não a via desde o tempo da escola secundária, e sorriu com prazer perante a visão da menina plenamente crescida e transformada em mulher. Ela parecia contrariada e constrangida, e mal o cumprimentou. “Oi, ahn”, disse ela, “venha comigo até a cozinha, está bem?”

E olhou por cima do ombro para um enorme saguão de entrada com piso de parquê. A moça indiana estava de pé na outra extremidade do saguão. “Oi, Richard”, disse ela, acenando para ele com gestos nervosos.

“Só um segundo”, disse Jessica. Enveredou pelo saguão, seguida por Katz, que trazia sua sacola de viagem, passando por uma sala grande cheia de mesas de trabalho, arquivos verticais, para chegar a uma sala menor com uma mesa de reunião. O lugar cheirava a semicondutores aquecidos e a produtos de papelaria recém-desempacotados. Na cozinha ficava uma imensa mesa de fazenda francesa, que ele reconheceu de St. Paul. “É só um segundo”, disse Jessica enquanto saía atrás de Lalitha até uma sala com ar mais executivo, nos fundos da casa.

“Eu sou jovem”, ele a ouviu dizer. “Está bem? Eu é que sou jovem aqui. Entendeu?”

Lalitha: “Mas é claro! É por isso que é tão bom você ter vindo. Só estou dizendo que eu não sou tão velha assim, entende?”.

“Você tem vinte e sete anos!”

“E isso é velha?”

“Quantos anos você tinha quando ganhou seu primeiro celular? Quando começou a se conectar?”

“Quando estava na faculdade. Mas, Jessica, escute aqui—”

“Existe uma diferença muito grande entre a faculdade e uma escola secundária. Hoje em dia as pessoas se comunicam de modo totalmente diferente. Um modo que as pessoas da minha idade já aprenderam muito antes do que você.”

“Eu sei. Não discordo de nada disso. Só não entendo por que você está com tanta raiva de mim.”

“Por que estou com raiva? Porque você convenceu meu pai de que é uma verdadeira especialista em relação aos jovens, quando não entende grande coisa, como acabou de demonstrar com a maior clareza.”

“Jessica, eu conheço perfeitamente a diferença entre mensagem de texto e e-mail. Só me confundi porque estou cansada. Mal dormi a semana inteira. Não é justo você dar tanta importância a isso.”

“Alguma vez na vida você já mandou uma mensagem de texto?”

“Eu não preciso. Nós usamos BlackBerrys, que fazem a mesma coisa, só que melhor.”

“Não é a mesma coisa. Meu Deus! É justamente disso que estou falando! Se você não cresceu usando celular na escola, não entende que o celular é muito, muito diferente do e-mail. É uma forma totalmente diversa de ficar em contato com as pessoas. Eu tenho amigos que praticamente não olham mais os e-mails. E se você e o papai estão com a ideia de falar com os meninos de faculdade, é importante que entendam bem como isso funciona.”

“Então está bem. Pode ficar com raiva de mim. À vontade. Mas ainda assim eu tenho coisas para fazer agora à noite, e você precisa me deixar trabalhar.”

Jessica voltou para a cozinha, sacudindo a cabeça, com o maxilar tenso. “Desculpe”, disse ela. “Você deve estar querendo tomar um banho e jantar. A sala de jantar fica no andar do cima, e acho uma boa ideia que ela seja usada de vez em quando. Temos, ahn.” Olhou em volta, nervosa. “Fiz uma salada grande e posso esquentar uma massa. Também temos um pão bom, o pão proverbial que minha mãe parece ser incapaz de compartilhar, mesmo quando a casa vai estar cheia de gente no fim de semana.”

“Não se preocupe comigo”, disse Katz. “Ainda tenho um bom pedaço de sanduíche na minha sacola.”

“Não. Eu vou subir e sentar à mesa com você. É só que as coisas andam meio desorganizadas por aqui. A casa está... está... está...” Ela cerrou os punhos e sacudiu as mãos. “Ahhhh, esta casa!”

“Calma”, disse Katz. “Estou adorando ver você.”

“Não sei como eles sobrevivem quando eu não estou aqui. Não dá para entender. Como a coisa funciona no nível mais elementar, como levar o lixo para fora.” Jessica fechou a porta da cozinha e baixou a voz. “Só Deus sabe o que ela tem comido. Pelo que minha mãe diz, tem subsistido à base de cereal com leite e sanduíches de queijo. E banana. Mas onde ela guarda isso tudo? Não tem nem leite nessa geladeira!”

Katz fez um gesto vago com as mãos, para sugerir que não podia ser responsabilizado.

“E, você sabe, no fim das contas”, disse Jessica, “eu até que entendo bastante de cozinha regional indiana. Porque muitos dos meus colegas de faculdade eram indianos. E anos atrás, da primeira vez em que estive aqui, perguntei se ela podia me ensinar algum prato regional, tipo de Bengala, onde ela nasceu. Respeito muito as tradições dos outros, e achei que podíamos fazer belas refeições juntas, ela e eu, com todo mundo sentado em torno da mesa da sala de jantar, como uma família. Achei que podia ser legal, já que ela é indiana e eu me interesso por culinária. Ela riu de mim, e disse que não sabe nem fritar um ovo. Parece que o pai e a mãe dela são os dois engenheiros, e nunca cozinharam nada na vida. E lá se foi meu plano por água abaixo.”

Katz sorria, apreciando a maneira como ela combinava e mesclava harmonicamente, sem fissuras, em sua pessoa unitária e compacta, as personalidades do pai e da mãe. A voz parecia a de Patty e a indignação era igual à de Walter, mas ainda assim Jessica era uma pessoa totalmente à parte. Usava os cabelos louros puxados para trás e presos com uma severidade que parecia manter as sobrancelhas erguidas, contribuindo para sua expressão de espanto ultrajado e ironia. Ele não se sentiu nem um pouco atraído por ela, e gostou dela mais ainda por isso.

“E onde está todo mundo?”, perguntou ele.

“Mamãe está na academia, ‘trabalhando’. E papai eu não sei. Uma reunião, eu acho, em algum lugar da Virgínia. Ele me pediu para dizer que amanhã de manhã conversa com você—o plano dele era voltar hoje à noite, mas aconteceu algum imprevisto.”

“E quando sua mãe chega em casa?”

“Bem tarde, sem dúvida. Sabe, hoje em dia ela é mais difícil de encontrar, mas foi uma ótima mãe quando eu era criança. Do tipo, sabe, que cozinha? Recebe bem as pessoas? Põe flores num vaso ao lado da cama? Pelo jeito, agora tudo isso ficou para trás.”

Em sua posição de anfitriã improvisada, Jessica subiu com Katz uma escada estreita nos fundos e lhe mostrou os grandes aposentos do segundo andar que tinham sido convertidos em salas de jantar e estar, o quartinho em que Patty mantinha seu computador e um sofá-cama, e depois, no terceiro andar, o quarto também acanhado onde ele iria dormir. “Oficialmente, o quarto é do meu irmão”, disse ela, “mas aposto que ele não dormiu nem dez noites nele desde que eles se mudaram para cá.”

De fato, não havia no quarto nenhum sinal da passagem de Joey, só mais alguns móveis de muito bom gosto de Walter e Patty.

“E como vão as coisas com Joey, aliás?”

Jessica deu de ombros. “Você está perguntando para a pessoa errada.”

“Vocês dois não conversam?”

Ela ergueu para Katz seus olhos bem abertos e um tanto protuberantes, com uma expressão de humor. “Conversamos às vezes, de vez em quando.”

“E então? Como vão as coisas com ele?”

“Bom, ele virou republicano, e por isso as conversas com ele tendem a ser meio desagradáveis.”

“Ah.”

“Separei toalhas para você. Quer uma toalhinha também?”

“Nunca usei essas toalhinhas, não precisa.”

Quando desceu, meia hora mais tarde, depois de tomar banho e vestir uma camiseta limpa, encontrou o jantar à sua espera na mesa. Jessica instalou-se na outra extremidade da mesa com os braços dobrados muito junto do corpo—no fim das contas era uma garota muito tensa—e ficou vendo Katz comer. “Parabéns, aliás”, disse ela, “por tudo que aconteceu. Foi estranho de uma hora para outra começar a escutar você cantando em todo lugar, e seu nome na lista de música de todo mundo.”

“E você? Gosta de escutar que tipo de coisa?”

“Gosto mais de música estrangeira, especialmente africana e da América do Sul. Mas gostei do seu disco. E reconheci o lago de cara.”

Era possível que ela estivesse querendo dizer alguma outra coisa, ou era possível que não. Teria Patty contado a ela o que aconteceu à beira do lago? A ela mas não a Walter?

“E o que está acontecendo?”, perguntou ele. “Percebi que você não se dá bem com Lalitha.”

De novo os olhos ironicamente arregalados.

“O que é?”, perguntou ele.

“Nada, é que eu ando muito impaciente com a minha família.”

“Estou achando que ela é um problema entre o seu pai e a sua mãe.”

“Hã-hã.”

“Ela me parece ótima. Inteligente, cheia de energia, esforçada.”

“Hã-hã.”

“Você quer me contar alguma coisa?”

“Não! Só acho que ela está de olho no meu pai. O que vem deixando minha mãe louca. Ficar vendo isso tudo. E eu sempre achei que, quando a pessoa é casada, você fica longe, não é? Estão fora do alcance, quando são casados. Não é?”

Katz pigarreou, sem saber onde aquela conversa iria parar. “Teoricamente é assim”, disse ele. “Mas a vida se complica quando você fica mais velho.”

“Mas nem por isso eu sou obrigada a gostar dela. Nem a aceitar a presença dela. Você sabia que ela mora aqui mesmo, no andar de cima? Ela está aqui o tempo todo. Muito mais que a minha mãe. E eu acho que é injusto. Por mim, ela precisa sair daqui e encontrar uma casa só para ela. Mas acho que o meu pai não quer.”

“E por que será que ele não quer?”

Jessica dirigiu um sorriso tenso a Katz, com uma expressão muito infeliz. “Meus pais andam com muitos problemas. O casamento deles está muito mal. E qualquer um pode ver, não precisa ser telepata. Minha mãe anda muito deprimida. Há vários anos. E não consegue sair da depressão. Mas os dois se amam, eu sei que eles se amam, e fico muito chateada com o que está acontecendo aqui. Se pelo menos ela fosse embora—estou falando de Lalitha—, se ela saísse daqui, para a minha mãe voltar a ter alguma chance...”

“Você e a sua mãe conversam muito?”

“Não. Não muito.”

Katz jantou em silêncio e ficou esperando para saber mais. Por sorte, parecia ter encontrado Jessica numa disposição de revelar coisas para quem estivesse nas proximidades.

“Quer dizer, ela bem que tenta”, disse ela. “Mas tem o dom de sempre dizer a coisa errada. Não respeita as minhas opiniões. Não vê que eu sou basicamente uma adulta inteligente capaz de pensar por mim mesma. Meu namorado na faculdade era um doce, e ela foi horrível com ele. Parece que estava com medo de que eu fosse me casar com ele, e por isso zombava dele o tempo todo. Ele foi o meu primeiro namorado de verdade, e eu só queria algum tempo para aproveitar bastante, mas ela não me deixou em paz. Houve uma vez em que William e eu viemos passar o fim de semana, para ir aos museus e participar de uma passeata a favor do casamento gay. Ficamos aqui, e ela começou a perguntar a ele se ele gostava quando as meninas mostravam os peitos nas festas das fraternidades. Tinha lido um artigo idiota em algum jornal sobre os rapazes que ficam gritando para as meninas mostrarem os peitos. E eu lá, dizendo, não, mamãe, não estou na Virgínia. Na minha faculdade não existem essas fraternidades, uma estupidez da Idade da Pedra que só funcionam ainda no Sul, eu não vou para a Flórida na semana de férias da primavera, não somos iguais às pessoas desse artigo imbecil. Mas nem assim ela se convence. E continua perguntando a William o que ele acha dos peitos das outras meninas. E ainda fingiu surpresa quando ele disse que não tinha o menor interesse. Ela sabia que ele estava falando com sinceridade, e que estava muito encabulado de ter de conversar com a mãe da namorada sobre os peitos de outras mulheres, mas ela só dava a entender que não acreditava nele. Para ela, era tudo uma piada. Ela queria que eu risse de William. Que, vá lá, às vezes é meio chato. Mas será que eu não posso ter a chance de concluir isso por minha conta?”

“Só quer dizer que ela gosta de você. Não queria que você se casasse com o sujeito errado.”

“Mas justamente, eu não ia me casar com ele!”

Os olhos de Katz foram atraídos para os peitos quase totalmente cobertos pelos braços fortemente cruzados de Jessica. Ela tinha seios pequenos como a mãe, mas era menos proporcional. O que ele sentia agora era que seu amor por Patty se aplicava por extensão à filha dela, com a exceção do desejo de trepar com ela. Agora via do que Walter estava falando quando disse que ela era uma jovem que dava esperanças aos mais velhos quanto ao futuro. Ela realmente dava a impressão de ser iluminada.

“Você vai ter uma ótima vida”, disse ele.

“Obrigada.”

“Você tem uma cabeça boa. Estou muito feliz de ver você de novo.”

“Eu sei, eu também”, disse ela. “Nem lembro quando foi a última vez em que nos vimos. Eu ainda estava na escola?”

“Estava trabalhando numa cozinha para os pobres. Seu pai me levou para ver você lá.”

“Isso mesmo, meus anos de construção de currículo. Eu tinha umas dezessete atividades extracurriculares. Uma espécie de Madre Teresa que tomasse bolinha.”

Katz serviu-se de mais um pouco da massa, que tinha azeitonas e alguma verdura de salada. Isso mesmo, rúcula: ele estava novamente a salvo no seio da elite. Perguntou a Jessica o que ela faria caso seus pais se separassem.

“Bem, eu não sei”, respondeu ela. “Espero que eles não se separem. Você acha que vão? É o que papai tem dito a você?”

“Eu não excluiria a possibilidade.”

“Bem, então acho que vou aderir à maioria. Metade dos meus amigos vem de lares desfeitos. Só nunca imaginei que fosse acontecer conosco. Até Lalitha aparecer.”

“Mas sabe, essas coisas dependem da vontade dos dois. Você não devia jogar tanta culpa em cima dela.”

“Ah, pode acreditar que eu também ponho a culpa no meu pai. Pode acreditar que vou jogar a culpa nele. Dá para perceber quando ele fala, e é realmente... uma coisa que me deixa confusa. Uma coisa errada. E eu sempre achei que conhecia ele bem. Mas parece que estava enganada.”

“E a sua mãe?”

“Sem dúvida também está muito infeliz com isso tudo.”

“Não, mas se fosse ela a pessoa a ir embora? O que você ia achar?”

O desconcerto de Jessica com a pergunta foi tal que era impossível que Patty lhe tivesse feito alguma revelação. “Acho que ela nunca faria uma coisa dessas”, disse ela. “A não ser que se sentisse obrigada pelo meu pai.”

“Ela está satisfeita?”

“Bem, Joey diz que não. Acho que ela contou a Joey muitas coisas que não conta para mim. Ou talvez Joey só invente essas coisas para me aborrecer. Ela, sem dúvida, zomba muito do meu pai, o tempo todo, mas isso não quer dizer muita coisa. Ela zomba de todo mundo—inclusive de mim, tenho certeza, quando eu não estou por perto. Ela acha todo mundo muito engraçado, e isso sem dúvida me deixa puta da vida. Mas ela gosta da família. Acho que mudar isso nem passa pela cabeça dela.”

Katz se perguntou se podia ser verdade. A própria Patty lhe dissera, quatro anos antes, que não estava interessada em deixar Walter. Mas o profeta entre as pernas de Katz insistia em afirmar o contrário, e Joey talvez fosse mais sensível que a irmã quanto à da felicidade da mãe.

“Sua mãe é uma pessoa diferente, não é?”

“Eu sinto muita pena dela”, disse Jessica, “sempre que ela não me deixa com raiva. Ela é tão inteligente, mas nunca conseguiu nada além de ser boa mãe. A única coisa que eu sei com certeza do futuro é que nunca vou ficar em casa com os meus filhos em tempo integral.”

“Quer dizer que você quer filhos. Apesar de toda a crise de superpopulação.”

Ela arregalou os olhos para ele e corou. “Um ou dois, quem sabe. Se um dia eu encontrar o homem certo. O que não me parece muito provável em Nova York.”

“Nova York é um lugar muito duro.”

“Meu Deus, obrigada. Obrigada por dizer isso. Nunca na minha vida me senti tão diminuída, invisível e totalmente ignorada como nos últimos oito meses. Achei que Nova York devesse ser um ótimo lugar para conhecer gente e namorar. Mas os sujeitos ou são uns fracassados, ou idiotas, ou casados. É uma coisa assustadora. Quer dizer, eu sei que não sou linda nem nada, mas acho que bem mereço pelo menos cinco minutos de conversa e bons modos. Já faz oito meses que estou lá, e esses cinco minutos ainda não aconteceram. Nem sinto mais vontade de sair, é uma coisa tão desanimadora.”

“Não é você. Você é uma garota muito bonita. Mas pode ser gente fina demais para Nova York. A economia de lá é muito crua.”

“Mas por que existem tantas garotas como eu? E quase nenhum homem? Será que todos os homens legais resolveram ir morar noutra freguesia?”

Katz passou em revista mental os jovens rapazes que conhecia na grande Nova York, inclusive seus antigos companheiros do Walnut Surprise, e não viu ninguém que pudesse recomendar para sair com Jessica. “As moças todas vêm para trabalhar em editoras, com arte e em organizações sem fins lucrativos”, disse ele. “E os caras vêm atrás do dinheiro e da música. O que influencia a seleção. As moças tendem a ser boas e interessantes, e os caras a ser uns escrotos como eu. Não é nada pessoal contra você.”

“Eu só queria sair uma vez com um cara interessante.”

Ele estava arrependido de ter dito que ela era bonita. Podia dar a impressão distante de um começo de cantada, e ele esperava que ela não tivesse tido essa impressão. Infelizmente, parece que tinha.

“Você é mesmo escroto?”, perguntou ela. “Ou só falou por falar?”

A nota de provocação sedutora era alarmante, e precisava ser abafada no nascedouro. “Eu só vim aqui para fazer um favor ao seu pai.”

“O que não me parece coisa de uma pessoa escrota”, disse ela em tom de implicância.

“Pode acreditar quando eu digo que sou.” Ele a fitou com o olhar mais duro que conseguia dirigir a outra pessoa, e percebeu que a deixou um pouco amedrontada.

“Não entendi”, disse ela.

“Não sou seu aliado na questão indiana. Estou do outro lado.”

“O quê? Por quê? O que você tem a ver com isso?”

“Eu já disse. Sou um escroto.”

“Meu Deus. Está bem, então.” Ela fixou os olhos no tampo da mesa com as sobrancelhas muito erguidas, confusa, assustada e enfurecida ao mesmo tempo.

“E a massa está ótima, aliás. Obrigado por ter feito para mim.”

“Claro. E não deixe de provar a salada.” Ela se levantou da mesa. “Acho que vou subir para ler um pouco. Se precisar de mais alguma coisa, me diga.”

Ele assentiu com a cabeça, e ela saiu da sala. Ficou com pena da garota, mas sua missão em Nova York era um trabalho sujo, e não fazia sentido ficar dourando a pílula. Assim que acabou de comer, passou cuidadosamente em revista a vasta coleção de livros de Walter, e a coleção ainda mais vasta de cds e lp s, retirando-se em seguida para o quarto de Joey no andar de cima. Queria ser a pessoa a entrar no aposento onde Patty estivesse, e não a pessoa à espera no aposento em que ela entrasse. Ser a pessoa à espera era um excesso de vulnerabilidade, uma coisa nada katziana. Embora ele não costumasse usar tapa-ouvidos, pela verdadeira sinfonia que desencadeavam em função do zumbido permanente em seus ouvidos, enfiou um par de esponjas nos canais auditivos, para não ficar deitado escutando vorazmente cada passo ou qualquer som de voz.

Na manhã seguinte, ficou no quarto até quase as nove antes de descer a escada dos fundos em busca do café da manhã. A cozinha estava vazia, mas alguém, quem sabe Jessica, fizera café, cortara frutas e servira bolinhos. Uma chuva ligeira de primavera caía no jardinzinho dos fundos, molhando seus narcisos e junquilhos, e os flancos das casas vizinhas muito próximas. Ouvindo vozes na frente da mansão, Katz enveredou pelo saguão levando seu café e um bolinho, e encontrou Walter, Jessica e Lalitha, todos com a pele matinal bem esfregada e o cabelo molhado do banho, à sua espera na sala de reuniões.

“Ótimo, você chegou”, disse Walter. “Podemos começar.”

“Eu não sabia que nossa reunião era tão cedo.”

“Já são nove horas”, disse Walter. “Para nós, hoje é dia útil.”

Ele e Lalitha estavam sentados lado a lado perto do meio da mesa enorme. Jessica se instalara bem longe, numa das pontas, com os braços cruzados e irradiando um ceticismo tenso e defensivo. Katz sentou-se do lado oposto da mesa, à frente dos outros dois.

“Dormiu bem?”, perguntou Walter.

“Dormi. E Patty, onde está?”

Walter deu de ombros. “Ela não vem a essa reunião, se é isso que você quer saber.”

“Nós estamos tentando chegar a algum lugar”, disse Lalitha. “Não queremos passar o dia inteiro rindo de como é impossível conseguir alguma coisa.”

Grrrr!

Os olhos de Jessica pulavam de um para o outro, atentos a cada detalhe. Walter, a um exame mais detido, estava com olheiras horríveis, e seus dedos, no tampo da mesa, apresentavam alguma coisa entre um tremor e um tamborilar. Lalitha também tinha um ar um tanto arrasado, o rosto apresentando o azulado da palidez da pele mais escura. Observando a posição relativa dos seus corpos, seu afastamento calculado, Katz se perguntou se a química já não teria produzido seus resultados. Tinham ambos um ar soturno e culpado, como amantes secretos obrigados à compostura em público. Ou, pelo contrário, como pessoas que ainda não tivessem chegado a um acerto e estivessem muito insatisfeitas uma com a outra. A situação merecia um acompanhamento detalhado, fosse qual fosse.

“Então vamos começar com o problema”, disse Walter. “O problema é que ninguém tem a coragem de incluir a superpopulação entre os temas da discussão nacional. E por que não? Porque o tema é deprimente. Porque soa como coisa do passado. Porque, como também acontece com o aquecimento global, ainda não chegamos exatamente ao ponto em que as consequências se tornaram impossíveis de negar. E porque é uma coisa elitista dizer aos pobres e às pessoas sem instrução que não deviam ter tantos filhos. O tamanho das famílias costuma ser inversamente proporcional à situação econômica, assim como a idade em que as garotas começam a ter filhos, o que tem o mesmo efeito danoso de uma perspectiva estatística. Seria possível reduzir a taxa de crescimento à metade se a idade das mães ao nascimento do primeiro filho saltasse de dezoito para trinta e cinco anos. É uma das razões pelas quais os ratos se reproduzem tão mais que os leopardos—porque atingem muito mais cedo a maturidade sexual.”

“Uma analogia que por si só, claro, já é problemática”, comentou Katz.

“Exato”, disse Walter. “É novamente a tal história do elitismo. Os leopardos são uma espécie ‘superior’ aos ratos ou aos coelhos. O que é a outra parte do problema: transformamos os pobres em roedores quando chamamos a atenção para suas taxas de natalidade mais altas e a idade precoce em que começam a se reproduzir.”

“Acho que a analogia do cigarro é melhor”, disse Jessica da ponta da mesa. Era óbvio que ela tinha frequentado uma faculdade cara e aprendera a debater em seminários. “As pessoas endinheiradas têm acesso ao Zoloft e ao Xanax. Assim, quando os governos aumentam os impostos sobre os cigarros, e o álcool, estão atingindo mais os pobres. Encarecendo as drogas mais baratas.”

“Isso mesmo”, disse Walter. “Ótimo argumento. E também se aplica à religião, outra droga importante para as pessoas sem oportunidades econômicas. Se tentarmos puxar briga com a religião, que é nosso verdadeiro inimigo, vamos acabar atingindo os oprimidos.”

“E as armas também”, disse Jessica. “Caçar é uma coisa das camadas mais baixas.”

“Ah, vá dizer isso ao senhor Haven”, disse Lalitha em sua maneira de falar, em que cada palavra era muito articulada. “Vá dizer isso a Dick Cheney.”

“Mas na verdade Jessica tem razão”, disse Walter.

Lalitha virou-se para ele. “É mesmo? Eu não acho. O que a caça tem a ver com o crescimento da população?”

Jessica revirou os olhos, impaciente.

O dia vai ser muito comprido, pensou Katz.

“Tudo gira em torno do mesmo problema, das liberdades individuais”, disse Walter. “As pessoas vieram para o nosso país em busca de dinheiro ou de liberdade. Então, quem não tem dinheiro se aferra às liberdades com mais ferocidade. Mesmo que o fumo te mate, mesmo que você não tenha dinheiro para dar de comer às crianças, mesmo que seus filhos estejam sendo abatidos a tiros por loucos armados de rifles de combate. Você pode ser pobre, mas ninguém tem o direito de tirar sua liberdade de foder com a própria vida da maneira como bem entender. Foi isso que Bill Clinton percebeu—que ninguém consegue ganhar uma eleição indo contra as liberdades individuais. Especialmente, no fim das contas, contra a posse de armas.”

O fato de Lalitha ter assentido submissa diante dessas palavras, em vez de emudecer aborrecida, deixou a situação mais clara. Ela continuava na posição de suplicante, e Walter no papel de contido. E aqui ele estava em seu elemento natural, a sua fortaleza pessoal: a possibilidade de falar em termos abstratos. Não tinha mudado nada desde os tempos de faculdade no Macalester.

“Mas o verdadeiro problema”, disse Katz, “é o capitalismo de livre mercado. Não é? A menos que você esteja pensando em banir por lei a reprodução, o seu problema não são as liberdades civis. Você não consegue ressonância cultural para a questão do crescimento populacional porque falar da redução do número de bebês significa falar de limites para o crescimento. Não é? E o crescimento não é uma questão secundária para a ideologia da liberdade de mercado. É a essência da questão. Não é? Para a teoria econômica do livre mercado, coisas como o meio ambiente ficam fora da equação. Qual era aquela palavra que você adorava? ‘Externalidades’?”

“Isso mesmo”, disse Walter.

“E não imagino que a teoria tenha mudado muito desde os nossos tempos de estudante. A teoria é de que não existe teoria nenhuma. Não é? O capitalismo não pode se dar ao luxo de falar dos limites, porque o que o capitalismo defende é justamente o crescimento ininterrupto do capital. Se você quiser ser ouvido nos meios de comunicação capitalistas, e se comunicar numa cultura capitalista, a questão do excesso de população não tem como fazer sentido. É, sem exagero, um despropósito. E é esse o seu verdadeiro problema.”

“Então talvez seja o caso de encerrarmos logo os trabalhos de hoje”, disse Jessica secamente. “Já que não podemos fazer nada.”

“Não fui eu que inventei o problema”, disse-lhe Katz. “Só estou aqui lembrando que ele existe.”

“Nós sabemos que ele existe”, disse Lalitha. “Mas somos uma organização pragmática. Não estamos tentando derrubar todo o sistema, só tentando melhorar a situação. Fazer essa crise ser incluída na discussão cultural, antes que seja tarde. Queremos fazer, em relação ao problema populacional, o mesmo que Gore fez quanto à mudança climática. Temos um milhão de dólares em dinheiro, e podemos tomar algumas medidas bem concretas desde já.”

“Eu adoraria decidir pela derrubada de todo o sistema”, disse Katz. “Se entrarem nessa, podem contar comigo.”

“No nosso país, o sistema não pode ser derrubado”, disse Walter, “por causa da questão da liberdade. O livre mercado, na Europa, é temperado por um certo socialismo porque eles não são tão aferrados às liberdades individuais. E o crescimento da população deles também é menor, apesar de um nível de renda bem parecido. Os europeus são mais racionais praticamente em todos os aspectos. E a discussão em torno dos direitos no nosso país não é nada racional. É totalmente marcada pela emoção, por ressentimentos de classe, e é por isso que a direita consegue explorar tão bem a questão. E é por isso que eu queria voltar ao que Jessica disse sobre os cigarros.”

Jessica fez um gesto de reconhecimento, como se dissesse Obrigada!.

Do saguão vinham os sons de alguém, Patty, andando de um lado para o outro pela cozinha com saltos sólidos. Katz, com vontade de fumar um cigarro, pegou a caneca de café vazia de Walter e um bocado de fumo de mascar.

“A mudança social positiva funciona de cima para baixo”, disse Walter. “O ministro da Saúde publica um relatório, as pessoas instruídas leem o que ele disse, os jovens mais inteligentes começam a perceber que fumar é uma estupidez, e nada bacana, e aos poucos o número de fumantes vai se reduzindo no país inteiro. Ou Rosa Parks se senta no seu ônibus, os estudantes ouvem falar do caso, organizam uma marcha em Washington, embarcam de ônibus para o Sul e, de uma hora para outra, surge um movimento nacional em defesa dos direitos civis. Hoje, estamos numa situação em que qualquer pessoa minimamente instruída é capaz de entender o problema da explosão populacional. O próximo passo, então, é fazer que os estudantes universitários achem bacana se interessar pela questão.”

Enquanto Walter se estendia sobre os estudantes universitários, Katz se esforçava para ouvir o que Patty estaria fazendo na cozinha. O ridículo essencial da sua situação agora estava ficando mais claro. A Patty que ele desejava era a Patty que não queria Walter: a dona de casa que não queria mais ser dona de casa; a dona de casa que queria trepar com um roqueiro. Mas em vez de simplesmente ligar para ela e dizer que queria estar com ela, tinha vindo participar daquela reunião como um segundanista de faculdade, dando força às fantasias intelectuais do seu velho amigo. O que havia em Walter para deixá-lo tão incapaz de fazer as coisas direito? Sentia-se como um inseto solto no ar que de repente se visse preso na teia viscosa da família. Não conseguia parar de se comportar bem com Walter, porque gostava dele; se não gostasse tanto dele, pode ser que não tivesse sentido tanto desejo por Patty; e se não tivesse sentido aquele desejo por ela, não estaria sentado ali fazendo de conta. Que cagada.

E agora os passos dela se aproximavam da sala. Walter parou de falar e respirou fundo, numa preparação visível para o confronto. Katz girou a cadeira na direção da porta; e lá estava ela. A mãe de rosto limpo com uma face oculta. Estava usando botas pretas, uma saia justa de brocado de seda vermelho e preto, e uma capa de chuva curta muito elegante que lhe caía muito bem, mas que não tinha nada a ver com ela. Katz não se lembrava de jamais ter visto Patty usando qualquer coisa que não fossem jeans.

“Oi, Richard”, disse ela, dando uma olhada geral na sua direção. “Oi, todo mundo. Está tudo correndo bem?”

“Estamos só começando”, disse Walter.

“Então não vou interromper.”

“Você está toda arrumada”, disse Walter.

“Vou fazer compras”, respondeu ela. “Talvez eu veja vocês de noite, se ainda estiverem por aqui.”

“Você vai fazer o jantar?”, perguntou Jessica.

“Não, vou trabalhar até as nove. Se vocês quiserem, eu sempre posso trazer alguma coisa pronta de algum lugar.”

“Ia ajudar bastante”, disse Jessica, “já que vamos passar o dia inteiro nesta reunião.”

“E eu teria o maior prazer de preparar um jantar se não precisasse trabalhar um expediente de oito horas.”

“Ah, deixe para lá”, disse Jessica. “Pode esquecer. Nós saímos para comer, ou coisa assim.”

“Parece a ideia mais simples”, concordou Patty.

“Bom, então”, disse Walter.

“Exatamente, então”, disse ela. “Espero que o dia seja muito divertido para todo mundo.”

Tendo assim em pouco tempo irritado, ignorado ou decepcionado cada um dos outros quatro, ela enveredou pelo saguão e saiu pela porta da frente. Lalitha, que vinha digitando em seu BlackBerry desde o momento em que Patty apareceu, exibia a aparência mais obviamente infeliz de todos.

“Ela agora está trabalhando sete dias por semana?”, perguntou Jessica.

“Não, normalmente não”, respondeu Walter. “Não sei o que aconteceu.”

“Sempre acontece alguma coisa, não é”, murmurou Lalitha enquanto digitava com os polegares em seu aparelho.

Jessica virou-se para ela, reorientando de imediato sua implicância. “Só faça o favor de nos avisar quando acabar de olhar seus e-mails, está bem? Vamos ficar esperando até que você esteja pronta.”

Lalitha, com os lábios apertados, continuou a digitar com os polegares.

“Quem sabe você termina isso mais tarde?”, perguntou Walter gentilmente.

Ela bateu com o BlackBerry na mesa. “Está bem”, disse ela. “Pronto!”

Quando a nicotina começou a circular pelo organismo de Katz, ele se sentiu melhor. Patty lhe dera uma impressão de desafio, e o desafio era uma coisa boa. E o fato de ela estar toda arrumada também não escapou à sua atenção. Toda arrumada por que motivo? Para aparecer diante dele. E trabalhando nas noites de sexta e sábado por que motivo? Para evitar estar com ele. Exatamente, para fazer o mesmo jogo de gato e rato que ele vinha praticando com ela. Agora que ela tinha saído, ele conseguia vê-la melhor, receber seus sinais sem muita interferência, imaginar que estava passando as mãos naquela fina saia, e lembrar-se de como ela o desejava em Minnesota.

Mas enquanto isso havia o problema dos excessos de procriação: a primeira tarefa concreta, disse Walter, era inventar um nome para a organização. A ideia inicial que ele tinha era Jovens Contra a Insanidade, uma homenagem a “Youth Against Fascism”, que ele considerava (e Katz concordava) uma das melhores canções que o Sonic Youth já tinha gravado. Mas Jessica não abria mão de escolher um nome que fosse afirmativo, em vez de dizer não a alguma coisa. Uma coisa pró, e não contra. “O pessoal da minha idade é mais libertário do que vocês eram”, explicou ela. “Eles são alérgicos a qualquer coisa que cheire a elitismo, ou que pareça desrespeito ao ponto de vista dos outros. A campanha de vocês não pode querer dizer às pessoas o que elas não devem fazer. Deve falar de uma escolha positiva e bacana que todo mundo vai fazer.”

Lalitha sugeriu o nome Primeiro os Vivos, que ofendeu os ouvidos de Katz, e que Jessica abateu em pleno voo com um sarcasmo calcinante. E assim passaram o resto da manhã entregues a esse brainstorm, demonstrando uma carência aguda, na opinião de Katz, da colaboração de algum consultor profissional da área de relações públicas. Cogitaram Planeta Mais Solitário, Ar Mais Fresco, Camisinhas Ilimitadas, Coalizão dos que Já Nasceram, Espaço Livre, Qualidade de Vida, Barraca Menor e De Bom Tamanho! (de que Katz gostou, mas os outros ainda acharam negativo demais; de toda maneira, Katz arquivou a ideia como título de uma futura canção ou de um futuro álbum). Pensaram ainda em Alimentar os Vivos, Sejamos Razoáveis, Cabeças Mais Frescas, Um Caminho Melhor, A Força do Número Menor, Menos é Mais, Ninhos Mais Vazios, A Alegria de Nenhum, Sem Filhos Para Sempre, Sem Bebês a Bordo, Comida na Própria Boquinha, Ousar Não Procriar, Melhor Não Tê-los, Despovoar!, Viva a Gente!, Talvez Nenhum, Menos Que Zero, Pisar Fundo no Freio, Abaixo a Família, Chega de Agitação, Área de Manobra, Mais para Mim, Crescer Sozinho, Fôlego, Espaço Aberto, Ame o Que Existe, Estéril Porque Quero, Fim da Infância, Todas as Crianças Para Trás, Núcleo a Dois, Talvez Nunca, e Qual é a Pressa?, e rejeitaram todos. Para Katz, o exercício demonstrava a impossibilidade geral do empreendimento, e o ranço inevitável das modas pré-fabricadas, mas Walter conduzia as discussões com um equilíbrio constante que denunciava seus longos anos no mundo artificial das ongs. E, o que não deixava de ser incrível, os dólares que ele planejava gastar eram de verdade.

“Acho que devemos ficar com Espaço Livre”, disse ele finalmente. “Gosto do jeito como se apropria da palavra ‘livre’, usada pelo outro lado, e também da retórica dos espaços abertos. Se isso der certo, também pode virar o nome de todo um movimento, não só do nosso grupo. O movimento do Espaço Livre.”

“Sou a única pessoa que está ouvindo ecos da procura por terrenos para construir?”, perguntou Jessica.

“Mas nem é uma conotação tão ruim”, respondeu Walter. “Todos sabemos como é difícil encontrar um bom terreno, ou uma vaga para estacionar. Menos gente no planeta, mais facilidade para nos instalarmos? Na verdade, é um bom exemplo corriqueiro de como a superpopulação nos traz problemas.”

“Precisamos ver se Espaço Livre ainda não foi registrado como marca”, disse Lalitha.

“Nem pense na merda do registro”, disse Katz. “Todas as expressões conhecidas pela humanidade já foram registradas por alguém.”

“Podíamos incluir um segundo espaço entre as duas palavras”, disse Walter. “Mais ou menos o contrário do que fez a EarthFirst!, e sem ponto de exclamação. Se alguém nos processar pelo uso da marca, podemos nos defender com base no espaço a mais. Pode funcionar, não é? A Batalha Legal pelo Espaço?”

“Pois eu acho bem melhor nem sermos processados”, disse Lalitha.

Na parte da tarde, depois que sanduíches foram pedidos e comidos, que Patty chegou em casa e tornou a sair sem interagir com eles (Katz teve um rápido vislumbre de seus jeans pretos de recepcionista de academia enquanto suas pernas se afastavam pelo corredor), os quatro membros do conselho consultivo da Espaço Livre redigiram um plano para os vinte e cinco estagiários que Lalitha já começara a recrutar e selecionar para trabalhar nas férias de verão. Ela imaginara um festival de música e debates no final do verão, numa propriedade de dez hectares comprada pelo Fundo da Montanha Azul na extremidade sul da reserva da mariquita-azul—uma visão em que Jessica imediatamente percebeu uma série de equívocos. Será que Lalitha não entendia nada da relação entre os jovens e a música? Já não bastava ter recrutado um músico importante? Precisavam mandar vinte estagiários para vinte cidades por todo o país, para organizar festivais locais—“Programas de calouros”, disse Katz. “Exatamente, vinte programas de calouros locais”, respondeu Jessica. (Tinha tratado Katz com extrema frieza o dia inteiro, mas deu a impressão de ter ficado agradecida por seu apoio para sobrepujar Lalitha.) Oferecendo prêmios em dinheiro, podiam atrair cinco boas bandas para cada uma das vinte cidades, todas competindo pelo direito de representar a música local numa finalíssima realizada na Virgínia Ocidental ao longo de um fim de semana inteiro, sob a égide da Espaço Livre, com alguns nomes famosos para participar do último júri final e contribuir com sua aura para a causa da reversão do crescimento da população global e tirar de moda a ideia de ter filhos.

Katz, que mesmo pelos seus próprios padrões já tinha consumido quantidades colossais de cafeína e nicotina, terminou num estado quase maníaco, em que respondia sim a tudo que lhe perguntavam: que ia escrever músicas especialmente para a Espaço Livre, que voltaria em maio a Washington para reunir-se com os estagiários da Espaço Livre e ajudar em sua doutrinação, que se apresentaria de surpresa no festival local de Nova York e seria o apresentador da última fase na Virgínia Ocidental, recompondo o Walnut Surprise para uma apresentação, e que iria importunar vários grandes nomes para que também se apresentassem e fizessem parte do júri da finalíssima. Até onde percebia, não estava fazendo nada além de emitir cheques contra uma conta zerada, porque, a despeito das substâncias químicas muito reais que tinha ingerido, a verdadeira substância de seu estado era um foco exclusivo e latejante na ideia de tirar Patty de Walter: era essa a base rítmica dos acontecimentos, todo o resto era superficial e irrelevante. A Família em Pedaços: outro bom nome para uma canção. E depois de espatifar a família, não precisaria manter nenhuma das suas promessas.

Estava tão alterado que quando a reunião acabou, por volta das cinco da tarde, e Lalitha voltou para sua sala a fim de começar a pôr o plano em ação, e Jessica desapareceu no andar de cima, ele concordou em sair com Walter. Pensava que seria a última vez que sairiam juntos. E acontece que a banda Bright Eyes, que acabara de ficar famosa, comandada por um jovem talentoso chamado Conor Oberst, estava tocando num lugar conhecido de Washington naquela noite. Os ingressos para o show estavam esgotados, mas Walter queria encontrar-se com Oberst nos bastidores e propor que participasse da Espaço Livre, e Katz, interesseiro, deu os telefonemas um tanto aviltantes necessários para obter duas credenciais na porta. Qualquer coisa era melhor que ficar parado naquela mansão, esperando Patty chegar em casa.

“Não acredito que você está fazendo tudo isso por mim”, disse Walter no restaurante tailandês, perto de Dupont Circle, quando pararam para jantar no caminho.

“Está tudo certo.” Katz pegou uma concha cheia de satay, ponderou se seria capaz de digeri-la e concluiu que não. Mascar mais tabaco era uma péssima ideia, mas ainda assim ele tirou a latinha do bolso.

“Parece que só agora estamos finalmente fazendo as coisas sobre as quais costumávamos conversar nos tempos de estudante”, disse Walter. “Para mim, significa muito, de verdade.”

Os olhos de Katz percorriam agitados o panorama do restaurante, pousando em tudo menos no amigo. Ele tinha a sensação de que se jogara de um despenhadeiro, e ainda estava mexendo as pernas, mas dali a pouco iria se espatifar no chão.

“Tudo bem?”, perguntou Walter. “Estou achando você meio nervoso.”

“Não. Está tudo bem, tudo bem.”

“Não é o que parece. Você já mascou uma lata inteira dessa merda desde hoje cedo.”

“Só estou me esforçando para não fumar perto de vocês.”

“Bom, muito obrigado.”

Walter consumiu todo o satay, enquanto Katz despejava baba em seu copo de água, sentindo-se momentaneamente aplacado, da maneira enganosa da nicotina.

“E como vão as coisas entre você e a menina?”, perguntou ele. “Senti um lance estranho entre vocês dois mais cedo.”

Walter corou e não disse nada.

“Você já está dormindo com ela?”

“Ora, Richard! Não é da sua conta!”

“Epa, quer dizer que sim?”

“Não, quer dizer que você não tem porra nenhuma a ver com isso!”

“Apaixonado por ela?”

“Meu Deus! Chega! Já está de bom tamanho.”

“Bem que eu achei que esse nome era melhor, De Bom Tamanho! Com ponto de exclamação. Espaço Livre parece uma letra do Lynyrd Skynyrd.”

“Por que você está tão interessado em me ver dormir com ela? Qual é?”

“Só falei do que estou vendo.”

“Bem, mas eu e você somos muito diferentes. Entendeu? Você não entende que eu possa ter valores mais importantes que uma trepada?”

“Entender eu entendo. Em termos gerais, de maneira abstrata.”

“Bem, então pare de falar nisso, está bem?”

Katz olhou impaciente em volta, à procura do garçom. Estava ficando de péssimo humor, e tudo que Walter vinha dizendo só o irritava mais ainda. Se Walter era fresco demais para arrochar Lalitha, se queria continuar a se passar por todo-certinho, não fazia mais diferença para Katz. “Vamos embora desta porra”, disse ele.

“E que tal antes esperar pelo meu prato? Você pode não estar com fome, mas eu estou.”

“Não, claro. É óbvio. Foi mal.”

E seu ânimo começou a fraquejar uma hora mais tarde, no meio da aglomeração de jovens em frente ao 9:30 Club. Havia muitos anos que Katz não fazia parte da plateia de um show, não ia ouvir um ídolo jovem desde que ele próprio era garoto, e ficara tão acostumado com o público mais velho dos concertos dos Traumatics e do Walnut Surprise que não se lembrava do quanto um show para jovens podia ser diferente. Quase religioso em sua seriedade coletiva. Ao contrário de Walter, que devido à sua avidez cultural possuía a obra completa do Bright Eyes e tecera extensos comentários a respeito no restaurante tailandês, Katz só tinha uma vaga ideia do que era a banda, e mesmo assim por osmose. Ele e Walter eram pelo menos duas vezes mais velhos que qualquer outro presente, meninos de cabelos lisos e garotas nada magras, segundo a última moda. Sentia como olhavam para ele e o reconheciam, aqui e ali, enquanto ele e Walter se dirigiam à plateia esvaziada pelo intervalo, e pensou que talvez não pudesse ter tomado uma decisão mais infeliz que a de aparecer em público e, por sua simples presença, endossar uma banda que praticamente desconhecia por completo. Não sabia o que seria pior nas circunstâncias, ser reconhecido e bajulado pelo público ou ficar ali parado em sua obscura meia-idade.

“Quer tentar os bastidores?”, perguntou Walter.

“Não vai dar, meu amigo. Não estou com a menor vontade.”

“Só para me apresentar. Um minuto, e pronto. Depois eu volto lá sozinho e converso com calma.”

“Não estou com a menor vontade. Não conheço esse pessoal.”

A trilha sonora do intervalo, cuja escolha era prerrogativa do artista principal da noite, era impecavelmente surpreendente. (Katz, quando se apresentava como artista principal da noite, sempre detestou a pose e o didatismo da escolha da trilha sonora do intervalo, a pressão para se mostrar atualizado em seu gosto de ouvinte, e deixava a decisão para seus companheiros de banda.) Os ajudantes de palco estavam ajustando dezenas de microfones e instrumentos, enquanto Walter não parava de falar da história de Conor Oberst: como ele tinha começado a gravar aos doze anos, como ainda morava em Omaha, como sua banda era antes um coletivo, ou uma família, que uma banda de rock habitual. Jovens invadiam a plateia por todas as entradas, os olhos brilhantes (em homenagem ao nome babaca e francamente ridículo de tão congratulatório à juventude usado pela banda, pensou Katz) e as xerecas bem depiladas. A sensação que tinha de deslocamento não resultava exatamente em inveja, nem inteiramente na impressão de ter vivido além da conta. Era mais uma espécie de desespero diante do esfacelamento do mundo. Os Estados Unidos estavam travando duas guerras terrestres e feias em dois países, o planeta estava se aquecendo como um forno elétrico, e ali no 9:30, ao seu redor, havia centenas de meninos e meninas do mesmo molde que Sarah, a assadora de bolos de banana, com suas suaves aspirações, sua ideia inocente de que tinham pleno direito—a quê? À emoção. À adoração invariável muito especial. A poder ficar a sós uns com os outros e repudiar por uma ou duas horas de uma noite de sábado, como num rito, a desfaçatez e o ódio a seus pais e avós. Pareciam, como Jessica tinha sugerido mais cedo na reunião, não ter nada contra ninguém. Katz percebia isso em suas roupas, que não traíam nada da fúria e do desgosto das plateias de que tinha participado quando era mais novo. Congregavam-se não na raiva mas na celebração de terem descoberto, como geração, um modo mais suave e respeitoso de ser. Um modo de vida, não por acaso, que se harmonizava muito melhor com o consumo. E que, por isso, dizia a Katz: morra.

Oberst entrou sozinho no palco, usando um smoking azul muito claro, empunhou um violão acústico e tocou alguns solos demorados. Ele era de fato um autêntico gênio precoce, e por isso Katz o achou ainda mais insuportável. Sua postura de Artista Inspirado e Sofredor, a autocomplacência que o fazia estender suas canções para muito além de seus limites naturais de tolerabilidade, seus crimes engenhosos contra a convenção pop: ele encenava sinceridade e, quando sua encenação ameaçava desmentir a sinceridade, ele encenava sua angústia sincera diante do quanto era difícil ser sincero. E então o resto da banda entrou no palco, além de três jovens e lindas Graças vocalistas em vestidos provocantes, e no fim das contas o espetáculo foi bastante bom —o que Katz nem se deu ao trabalho de negar. Só se sentia a única pessoa impassivelmente sóbria num salão tomado por bêbados, o único descrente numa reunião religiosa carismática. Sentiu uma saudade dolorosa de Jersey City, aquelas ruas onde nenhuma crença podia prosperar. Pareceu-lhe que tinha algum trabalho a fazer lá, em seu próprio nicho esfacelado, antes que o mundo acabasse de uma vez.

“O que você achou?”, perguntou Walter muito animado no táxi de volta para casa.

“Acho que estou ficando velho”, respondeu ele.

“Achei a banda ótima.”

“Um certo excesso de canções sobre os seriados de adolescentes.”

“Elas falam da fé”, disse Walter. “O disco novo deles é um incrível esforço panteísta para continuar a acreditar em alguma coisa, num mundo tomado pela morte. Oberst consegue falar de ‘arrebatamento’ em todas as canções. É o nome do disco, Lifted. É como se fosse uma religião, mas sem as babaquices dos dogmas religiosos.”

“Admiro a sua capacidade de admirar”, disse Katz. E acrescentou, enquanto o táxi se arrastava em meio ao trânsito num complexo entroncamento diagonal, “Acho que não posso fazer o que você quer de mim, Walter. Estou me sentindo tomado por altos níveis de vergonha”.

“Então faça só o que puder. Vá só até o seu limite. Se você só quiser vir em maio para passar um ou dois dias e conhecer os estagiários, talvez trepar com uma ou duas delas, por mim tudo bem. Já vai ser bastante.”

“Estou pensando em voltar a compor.”

“Ótimo! Grande notícia. Chego a achar melhor ver você compondo do que trabalhando para nós. Mas pare de construir deques, pelo amor de Deus.”

“Pode ser que eu precise continuar construindo deques. Não depende de mim.”

A mansão estava às escuras e silenciosa quando voltaram, uma única lâmpada acesa na cozinha. Walter foi direto para a cama, mas Katz ficou ainda algum tempo na cozinha, pensando que Patty podia ouvir seus movimentos e descer. Além de tudo, ele estava ansioso pela companhia de alguém dotado de senso de ironia. Comeu um pouco da massa fria e fumou um cigarro no jardim dos fundos. Depois subiu para o segundo andar e dirigiu-se ao quartinho de Patty. Pelos travesseiros e cobertas que tinha visto em cima do sofá na noite anterior, ele concluíra que era lá que ela dormia. A porta estava fechada, e não se via luz em fresta alguma.

“Patty”, disse ele numa voz que ela poderia ouvir se estivesse acordada.

Ficou escutando com toda a atenção, imerso em seu zumbido.

“Patty”, ele tornou a dizer.

Seu pau não acreditou nem por um instante que ela estivesse dormindo, mas era possível que a porta estivesse fechada e o quarto vazio, e ele sentia uma curiosa relutância em abrir a porta para ver. Precisava de um estímulo mínimo ou da confirmação de seus instintos. Voltou a descer para a cozinha, comeu o resto da massa, leu o Post e o Times. Às duas da manhã, ainda ligado de tanta nicotina, e começando a ficar furioso com Patty, voltou até a porta de seu quarto, em que bateu e depois abriu.

Ela estava sentada no sofá no escuro, ainda vestindo seu uniforme preto de ginástica, olhando para a frente, as mãos agarradas uma à outra no colo.

“Desculpe”, disse Katz. “Você se incomoda?”

“Não”, disse ela, sem olhar para ele. “Mas é melhor irmos lá para baixo.”

Ele sentia uma pressão inédita no peito enquanto tornava a descer a escada dos fundos, uma intensidade de tensão e expectativa sexual que achava nunca mais ter experimentado desde os tempos de secundarista. Entrando na cozinha depois dele, Patty fechou atrás de si a porta que dava para a escada. Usava meias de aparência muito macia, as meias de alguém cujos pés não eram mais tão jovens e bem acolchoados quanto antes. Mesmo sem a ajuda de sapatos, a altura dela continuava a ser a mesma surpresa agradável que sempre fora para ele. A letra de uma das suas próprias canções lhe ocorreu num estalo, a que dizia que o corpo dela era o corpo certo para ele. O velho Katz tinha chegado a este ponto: comover-se com as próprias letras. E o corpo certo para ele ainda estava ótimo, nada ativamente desagradável em nenhum aspecto: produto, por certo, de muitas horas de suor naquela academia. Em letras maiúsculas brancas no peito da camiseta preta dela, estava a palavra levante.

“Vou tomar um chá de camomila”, disse ela. “Quer uma xícara também?”

“Claro. Acho que nunca tomei chá de camomila.”

“Ah, que vida mais alienada a sua.”

Ela foi até o escritório e voltou com duas canecas de água instantaneamente quente, das quais pendiam as etiquetas de saquinhos de chá.

“Por que você não disse nada quando eu subi da primeira vez?”, perguntou ele. “Fiquei duas horas sentado aqui, esperando.”

“Acho que estava perdida nos meus pensamentos.”

“Você achou que eu ia simplesmente me deitar e dormir?”

“Não sei. Estava meio que pensando sem pensar, sabe como é? Mas entendi que você iria querer falar comigo, e que eu precisava ter essa conversa. E pronto, estou aqui.”

“Você não é obrigada a fazer nada.”

“Não, eu sei, é bom a gente conversar.” Ela se instalou do outro lado da mesa de fazenda. “Vocês dois se divertiram? Jessie me disse que foram ver um show.”

“Nós dois e mais uns oitocentos meninos de vinte e um anos.”

“Rá rá rá. Coitadinho.”

“Walter gostou muito.”

“Ah, certamente. Ele anda muito entusiasmado com os jovens de hoje.”

Katz sentiu-se estimulado pelo tom de desgosto. “E, pelo que estou vendo, você não?”

“Eu? Certamente que não, com a exceção dos meus dois filhos. Ainda gosto dos meus filhos. Mas os outros? Rá rá rá!”

Seu riso irresistível e contagioso não tinha mudado. Por baixo de seu corte de cabelo recente, porém, por baixo da maquiagem que usava nos olhos, ela estava visivelmente mais velha. A idade só avançava numa direção, o envelhecimento, e bem no íntimo, como forma de proteger-se, ao constatar a idade dela, ele se dizia que devia sair correndo enquanto podia. Tinha obedecido aos seus instintos, ido até ali, mas havia uma diferença muito grande, percebia agora, entre os instintos e um plano de ação.

“Do que você não gosta neles?”, perguntou ele.

“Ah, ora, por onde eu começo?”, disse Patty. “Que tal a moda de usar sandálias de dedo? Tenho um certo problema ao ver esse tipo de sandália. Eles tratam o mundo como se fosse o quarto em que dormem. E nem escutam o barulho dessas malditas sandálias batendo no chão, porque cada um deles está carregando o seu aparelho, com os fones enfiados nos ouvidos. Cada vez que começo a detestar os meus vizinhos daqui, esbarro na calçada com algum garoto da Universidade de Georgetown e de uma hora para outra perdoo todos os vizinhos, porque pelo menos eles são adultos. Pelo menos não andam de um lado para o outro de sandália de dedo, anunciando como são pessoas muito mais à vontade e mais razoáveis que nós, os adultos. Do que eu, uma pessoa tensa, que preferia não ter de olhar para os pés de ninguém no metrô. Porque, veja bem, quem pode ser contra olhar para aqueles lindos dedinhos sujos? Aquelas unhazinhas perfeitas. Só uma pessoa infelizmente de idade avançada demais para obrigar o mundo à contemplação dos seus próprios pés.”

“Eu nunca reparei nas sandálias de dedo.”

“Nesse caso, é porque você realmente leva uma vida muito alienada.”

Suas palavras soavam um tanto mecânicas e desconectadas, não irônicas de um modo a que ele pudesse responder. Diante dessa falta de estímulo, toda a expectativa que ele vinha sentindo começou a se dissipar. Começou a desgostar dela por não se encontrar no estado em que ele imaginara encontrá-la.

“E a história do cartão de crédito?”, disse ela. “De pagar um cachorro quente ou um pacote de chicletes com cartão de crédito? Dinheiro é uma coisa antiga, não é? Para andar com dinheiro, você precisa fazer somas e subtrações. Precisa prestar atenção na pessoa que está pegando o troco para você. Quer dizer, por um instante, você precisa deixar de estar cem por cento na sua, encerrado em seu mundinho. Mas com o cartão de crédito não é assim. Basta entregar o cartão e recebê-lo de volta com toda a tranquilidade.”

“Agora sim, está mais parecido com as pessoas que vi lá hoje”, disse ele. “Bons meninos, só que absortos demais em si mesmos.”

“Pois vá se acostumando. Jessica me disse que você vai passar o verão inteiro às voltas com gente jovem.”

“É, pode ser.”

“Achei que já estava tudo acertado.”

“É, mas agora estou pensando em recuar. Na verdade, já disse isso ao Walter.”

Patty se levantou para pôr os saquinhos de chá na beira da pia, e ficou de pé, de costas para ele. “Então pode ser que você não venha mais aqui”, disse ela.

“Isso mesmo.”

“Bom, nesse caso, eu acho que devo me arrepender de não ter descido antes.”

“Você sempre pode vir me visitar em Nova York.”

“Até parece que alguma vez fui convidada.”

“Estou convidando agora.”

Ela deu meia-volta, apertando os olhos. “Não venha querer brincar comigo, está bem? Não quero ter de lidar com esse seu lado. É uma coisa que me deixa de estômago meio revirado. Entendeu?”

Sustentou o olhar dela, tentando mostrar-lhe que estava falando sério— tentando sentir que estava falando sério—, mas aparentemente só conseguiu deixá-la mais exasperada. Ela recuou, balançando a cabeça, refugiando-se no canto oposto da cozinha.

“Como você e Walter estão se dando?”, perguntou ele, sem piedade.

“Não é da sua conta.”

“É o que todo mundo me responde. O que isso quer dizer?”

Ela corou um pouco. “Quer dizer que não é da sua conta.”

“Walter disse que as coisas não vão muito bem.”

“Bom, não deixa de ser verdade. No geral.” Ela tornou a corar. “Mas você devia pensar só em Walter, está bem? Pense no seu melhor amigo. Você já fez a sua escolha. E deixou bem claro com a felicidade de qual de nós dois se preocupa mais. Você teve uma oportunidade de ficar comigo, mas preferiu Walter.”

Katz percebeu que estava começando a perder o controle, o que era muito desagradável. Uma pressão entre os ouvidos, uma raiva crescente, a necessidade de discutir. Era como se estivesse virando Walter.

“Foi você quem me afastou”, disse ele.

“Rá rá rá! Desculpe, mas não posso ir passar nem um dia em Filadélfia, por causa do pobre Walter?”

“Foi o que eu disse por um minuto. Por trinta segundos. E depois disso você passou uma hora—”

“Estragando tudo. Eu sei. Eu sei eu sei eu sei. Eu sei quem estragou essa merda toda. Eu sei que fui eu. Mas Richard, você sabia que era bem mais difícil para mim! Você podia ter me ajudado de alguma forma! Por exemplo, naquele minuto, deixando de falar sobre o pobre Walter e sua pobre sensibilidade e falando de mim! E é por isso que eu disse que você já fez a sua escolha. Você podia nem saber que era o caso, mas foi o que você fez. Então agora enfrente as consequências.”

“Patty.”

“Eu posso ser uma doida de merda, mas pelo menos tive algum tempo para pensar nos últimos anos, e cheguei a algumas conclusões. Cheguei a uma ideia um pouco melhor sobre quem você é, e sobre como você funciona. Posso imaginar como deve ser difícil para nossa amiguinha indiana não ter ficado interessada em você. Deve ser muito inesperado, uma coisa terrrrrrível. Está tudo de cabeça para baixo no mundo de hoje! Que onda mais negativa! Imagino que você pudesse tentar alguma coisa com Jessica, mas acho que vai ser dureza. Se você chegar ao ponto de se sentir muito a perigo mesmo, acho que a melhor saída seria Emily, do departamento de produção. Mas Walter não liga para ela, então imagino que ela não vá lhe interessar muito.”

Katz estava alterado, estava trêmulo. Era como uma onda de pó misturado a uma metadona das piores.

“Eu vim aqui atrás de você”, disse ele.

“Rá rá rá! Não acredito. Nem você mesmo acredita nisso. Você mente tão mal.”

“E por que mais eu viria até aqui?”

“Não sei. Envolvimento na questão da biodiversidade e de um controle sustentável da população?”

Ele se lembrava agora de como tinha sido desagradável discutir com ela pelo telefone. Como tinha sido extremamente desagradável, mortalmente exaustivo para a sua paciência. O que ele não conseguia lembrar era o motivo por que ele aguentava aquilo tudo. Alguma coisa na maneira como ela o desejava, na maneira como ela viera atrás dele. Uma coisa que agora estava ausente.

“Passei tanto tempo sentindo raiva de você”, disse ela. “Você faz ideia? E lhe mandei milhares de e-mails que você nunca respondia, tive essa longa e humilhante conversa unilateral com você. Você pelo menos leu algum desses e-mails?”

“A maior parte.”

“Ah. Nem sei se isso é melhor ou pior. Acho que nem faz diferença, porque de qualquer maneira era uma coisa que só acontecia na minha cabeça. Passei três anos querendo uma coisa que eu sabia que nunca iria me fazer feliz. Mas nem assim eu deixei de querer. Você era como uma droga que faz mal, mas eu não conseguia deixar de querer. E foi, sem exagero, só ontem, quando finalmente vi você, que entendi que não precisava mais dessa droga. De repente, eu me perguntei, ‘O que passou pela minha cabeça? Ele só veio aqui para se encontrar com Walter’.”

“Não”, disse ele. “Foi por você.”

Ela nem lhe dava atenção. “Estou me sentindo tão velha, Richard. Só porque uma pessoa não aproveita bem a própria vida, nem assim a vida dela deixa de passar. Na verdade, só faz a vida dela passar mais depressa.”

“Você não está nada velha. Está linda.”

“Bom, e é isso que conta, não é? Virei uma dessas mulheres que investem toneladas de tempo na boa aparência. Se eu der um cadáver bonito, vai ser o fim de todos os meus problemas.”

“Vamos embora juntos.”

Ela sacudiu a cabeça.

“Vamos embora juntos. Vamos para algum lugar, e Walter fica livre.”

“Não”, disse ela, “embora eu até goste de finalmente ouvir você fazer a proposta. Posso imaginar retroativamente que tenha sido feita há três anos, e criar fantasias ainda mais caprichadas da nossa vida. Agora posso imaginar que fico em casa no seu apartamento enquanto você sai em turnê pelo mundo, comendo garotinhas de dezenove anos, ou que saio em viagem com você, no papel de mãezinha de toda a banda —sabe como é, copos de leite e biscoitos feitos em casa às três da manhã—ou que sou sua Yoko e deixo todo mundo achar que a culpa é minha se você está acabado e com pouca inspiração, e depois faço cenas horríveis e deixo você descobrir, da maneira mais lenta possível, como foi ruim me admitir na sua vida. Deve dar para meses e meses de devaneios.”

“Não entendo o que você quer.”

“Pode acreditar que, se eu própria soubesse, esta conversa não estaria acontecendo. E eu achava que sabia o que queria. Sabia que não era uma coisa boa, mas achava que sabia. E agora você está aqui, e parece que o tempo nem passou.”

“Só que Walter está se apaixonando pela garota.”

Ela assentiu. “Exato. E quer saber? Descobri que isso me faz sofrer uma dor horrível. Devastadora.” As lágrimas encheram seus olhos, e ela se virou bruscamente para escondê-las.

Katz já tinha atravessado algumas cenas de choro na vida, mas era a primeira vez que se via obrigado a ver uma mulher chorar pelo amor de outra pessoa. E não gostou nem um pouco.

“Aí ele voltou da Virgínia Ocidental na noite de quinta”, disse Patty. “E para você eu posso contar, porque somos velhos amigos, não é? Chegou em casa na noite de quinta e subiu para o meu quarto, e o que aconteceu, Richard, era a coisa que eu sempre quis. Sempre quis. Por toda a minha vida adulta. Eu mal reconhecia o rosto dele! Parecia que ele tinha enlouquecido. Mas só estava vindo me procurar porque já era um caso perdido. Era um adeus. Um presentinho de despedida, para me mostrar o que eu nunca mais voltaria a ter. Porque eu o fiz sofrer por tempo demais. E agora ele está finalmente pronto para uma coisa melhor, mas não comigo, porque eu o fiz sofrer além da conta por tempo demais.”

Pelo que Katz estava ouvindo, a conclusão era que tinha chegado com quarenta e oito horas de atraso. Quarenta e oito horas. Incrível. “Você ainda pode acertar as coisas”, disse ele. “Faça Walter feliz, seja uma boa esposa. Ele acaba esquecendo a garota.”

“Talvez.” Ela passou as costas da mão nos olhos. “Se eu fosse uma pessoa normal, equilibrada, era isso que eu deveria estar fazendo. Porque antigamente, sabe, eu queria ganhar sempre. Lutava sempre. Mas eu adquiri algum tipo de alergia a fazer a coisa mais sensata. Passo a minha vida fora de mim, de tão frustrada comigo mesma.”

“E é isso que me faz amar você.”

“Ah, agora é amor. Amor. Richard Katz falando de amor. Deve ser o sinal de que chegou a minha hora de ir dormir.”

Era uma fala de fim de cena; e ele nem tentou detê-la. Tão forte era sua fé em sua intuição, entretanto, que quando ele próprio subiu as escadas, dez minutos mais tarde, ainda imaginava que poderia encontrá-la esperando por ele em sua cama. Mas o que encontrou no lugar dela, pousado em seu travesseiro, foi um original grosso e sem capa, com o nome dela na primeira página. O título era “Todo mundo erra”.

Ele sorriu. Em seguida, pôs um bom naco de fumo de mascar por dentro da bochecha e começou a ler, cuspindo periodicamente num vaso da mesa de cabeceira, até o dia clarear na janela. Notou como se interessava mais pelas páginas sobre si mesmo que pelas demais; o que só confirmava sua suspeita de longa data de que as pessoas só querem ler o que fala delas mesmas. E notou ainda, com prazer, que aquela sua identidade tinha deixado Patty autenticamente fascinada; o que lhe lembrava por que gostava dela. No entanto, sua sensação mais nítida, depois que leu a última página e cuspiu no vaso o bolo de fumo a essa altura muito encharcado, foi de derrota. Não de ter sido derrotado por Patty: o talento dela para escrever era impressionante, mas ele também tinha suas realizações no departamento de expressão própria. A pessoa que o derrotara era Walter, como uma espécie de pedido dilacerado de desculpas que jamais poderia ser-lhe feito. Era Walter a estrela do drama de Patty; Katz, no fim das contas, não passava de um coadjuvante.

Por um instante, no que passava por sua alma, uma porta se abriu o suficiente para que ele vislumbrasse seu orgulho pateticamente ferido, mas ele bateu a porta com força e pensou no quanto tinha sido burro ao permitir-se desejar Patty. Sim, ele gostava do jeito como ela falava, sim, tinha uma fraqueza fatal por um certo tipo de mulher inteligente e depressiva, mas a única maneira que conhecia de interagir com esse tipo de mulher era trepar com ela, ir embora, voltar e trepar mais com ela, ir embora de novo, ficar de novo com ódio, tornar a trepar com ela e assim por diante. Queria poder voltar no tempo e cumprimentar a pessoa que tinha sido aos vinte e quatro anos, naquele covil imundo da parte sul de Chicago, por ter percebido que uma mulher como Patty só podia ser de um homem como Walter, que, por mais bobo que pudesse ser, tinha paciência e imaginação de sobra para lidar com ela. O erro que Katz cometeu depois disso foi continuar voltando para uma situação em que estava destinado à derrota. Todo o documento de Patty comprovava a dificuldade exaustiva de compreender, numa situação desse tipo, o que era “bom” e o que não era. Ele era muito bom em matéria de perceber o que era bom para si, o que normalmente bastava para qualquer finalidade da sua vida. Era só nas proximidades do casal Berglund que ele sentia que precisava de mais. E estava de saco cheio desse sentimento; tinha chegado ao limite.

“Então, meu amigo”, disse ele, “nós dois chegamos ao fim. Essa você ganhou, meu velho.”

A claridade na janela aumentava. Foi até o banheiro, jogou na privada seu cuspe e o tabaco mascado, depois devolveu o vaso a seu lugar na mesinha. O rádio-relógio mostrava 5:57. Arrumou suas coisas e desceu até o escritório com o documento, que deixou no centro da mesa de trabalho de Walter. Um presentinho de despedida. Alguém precisava limpar a área, alguém precisava acabar com todas aquelas mentiras, e Patty obviamente não tinha coragem. Queria que Katz fizesse o trabalho sujo? Pois muito bem. Estava pronto para ser o menos frouxo dos três. Sua missão na vida era enunciar a suja verdade. Ser o escroto. Atravessou o saguão de entrada e saiu pela porta da frente, que tinha uma tranca automática. O estalido da lingueta, quando fechou a porta atrás de si, soou irrevogável. Adeus à família Berglund.

A umidade tinha tomado conta do ar durante a noite, cobrindo de orvalho os carros estacionados em Georgetown e molhando as pedras desalinhadas das calçadas de Georgetown. Havia passarinhos ativos nas árvores cobertas de brotos, um jato que decolou cedo percorria o céu descorado de primavera. Até o zumbido nos ouvidos de Katz parecia amortecido no silêncio daquela manhã. Hoje é um bom dia para morrer! Tentou se lembrar do autor dessas palavras. Crazy Horse? Neil Young?

Passando a correia da sacola pelo ombro, saiu descendo a rua na direção do tráfego murmurante e chegou por fim a uma ponte comprida que levava ao centro do domínio mundial americano. Parou perto do meio da ponte, olhou para uma mulher que corria pela trilha à margem do rio muito abaixo dele, e tentou avaliar, pela intensidade da interação fotônica entre a bunda da corredora e suas retinas, o quanto aquele dia seria de fato bom para morrer. A altura era suficiente para matá-lo se ele mergulhasse, e um bom mergulho era sem dúvida a maneira certa de morrer. Seja homem, pule de cabeça. Isso mesmo. Mas agora seu pau começou a responder sim a alguma coisa, que certamente não era a bunda um tanto excessiva da corredora cada vez mais distante.

Seria a morte, na verdade, a mensagem que seu pau lhe mandara ao enviá-lo a Washington? Teria ele simplesmente errado na interpretação daquela profecia? Estava convencido de que ninguém sentiria muito a sua falta depois que morresse. Podia deixar Patty e Walter livres do estorvo que era ele, livrar-se do estorvo de ser um estorvo. Podia ir para onde quer que Molly tivesse chegado antes dele, e antes dela seu pai. Curvou-se para contemplar o ponto onde provavelmente aterrizaria, um trecho muito batido de terra e cascalho, e perguntou-se se aquele pedacinho de chão seria digno de matá-lo. Ele, o grande Richard Katz. Estaria à altura?

Riu da pergunta e continuou a cruzar a ponte.

De volta a Jersey City, empunhou armas contra o mar de lixo que tomara seu apartamento. Abriu as janelas para o ar morno e levou a cabo a faxina da primavera. Lavou e enxugou cada prato da casa, jogou fora resmas de papel inútil, e deletou manualmente três mil mensagens de spam do seu computador, parando a intervalos para inalar os aromas de charco, porto e lixo dos meses mais quentes em Jersey City. Depois que escureceu, tomou duas cervejas e tirou das caixas seu banjo e suas guitarras e violões, checando se o braço empenado de sua Stratocaster não teria magicamente se consertado por conta própria nos meses que a guitarra passara guardada. Tomou uma terceira cerveja e ligou para o baterista do Walnut Surprise.

“E aí, babaca”, disse Tim. “Finalmente você ligou—quando não devia.”

“O que eu posso dizer”, disse Katz.

“Que tal, ‘Desculpe por ser um completo cretino e ter desaparecido, contando umas cinquenta mentiras diferentes’. Babaca.”

“É, mas tinha várias coisas que eu precisava resolver.”

“Eu sei, ser escroto como você acaba tomando todo o tempo da pessoa. E me ligou por quê, cacete?”

“Para saber como você vai indo.”

“Quer dizer, além de ser um completo cretino e de foder com a gente de todas as maneiras, e de mentir para a gente o tempo todo?”

Katz sorriu. “Talvez você possa fazer uma lista das suas queixas e me apresentar por escrito, assim falamos de alguma outra coisa.”

“Já fiz isso, seu escroto. Você abriu seu e-mail alguma vez nos últimos meses?”

“Bom, então me ligue, se tiver vontade, alguma hora. Meu telefone está funcionando de novo.”

“Seu telefone está funcionando de novo! Essa é muito boa, Richard. E o seu computador, vai bem? Também voltou a funcionar ultimamente?”

“Só estou dizendo que vou estar aqui, se você resolver ligar.”

“Vá tomar no cu, é só o que eu tenho a dizer.”

Katz desligou o telefone achando que a conversa tinha sido boa. Achava improvável que Tim se desse ao trabalho de xingá-lo tanto se estivesse trabalhando em alguma coisa melhor que o Walnut Surprise. Tomou uma última cerveja, mascou um dos comprimidos tiro e queda de mirtazapine que um médico receita-fácil de Berlim lhe dera, e dormiu por treze horas seguidas.

Acordou numa tarde tórrida e ensolarada e saiu para um passeio pelas redondezas, observando as mulheres que trajavam a moda daquele ano, roupas sem muita forma, e comprou alguns gêneros alimentícios de verdade—manteiga de amendoim, bananas, pão. Mais tarde, foi de carro até Hoboken para deixar sua Stratocaster com o sujeito que cuidava das suas guitarras, cedeu ao impulso de jantar no Maxwell’s e assistir ao espetáculo que estivesse em cartaz. O pessoal da casa tratou Katz como se fosse o general MacArthur voltando da Coreia e desafiando a má reputação. As garotas se debruçavam sobre ele com os peitos caindo para fora das blusinhas justas, um sujeito que ele nem conhecia ou tinha conhecido mas esquecera havia muito tempo não deixava que ficasse um minuto sem cerveja, e a banda local que estava tocando, Tutsi Picnic, não era repulsiva. No todo, sentia que sua decisão de não ter pulado da ponte em Washington fora correta. Livrar-se da família Berglund acabava sendo uma morte mais suave e não de todo desagradável, uma extinção sem dor, um estado de existência meramente parcial em que ele podia ir ao apartamento de uma editora de livros de uns quarenta anos (“adoro, a-do-ro a sua música”) que se aproximara dele enquanto o Tutsi Picnic tocava, molhar o pau nela umas poucas vezes e então, ao amanhecer, comprar roscas fritas no caminho pela Washington Street para trocar sua caminhonete de vaga antes que começasse o horário do estacionamento pago.

Havia um recado de Tim em seu telefone e nenhum dos Berglund. Recompensou-se tocando violão por várias horas. O dia estava gloriosamente quente e ruidoso, com a vida das ruas tornando a descertar depois da latência de um longo inverno. As pontas dos seus dedos da mão esquerda, desprovidas de calos, estavam prestes a sangrar, mas os nervos subjacentes, mortos havia várias décadas, continuavam devidamente mortos. Tomou uma cerveja e foi até a esquina, até sua lanchonete predileta de gyros, na intenção de comprar alguma coisa para comer antes de continuar tocando. Quando chegou de volta ao seu edifício, trazendo a carne, encontrou Patty sentada nos degraus da frente.

Usava uma saia de linho e uma blusa azul sem mangas com manchas circulares de suor que lhe chegavam quase à cintura. Ao lado dela, uma mala grande e uma pequena pilha de agasalhos.

“Ora, ora, ora”, disse ele.

“Fui posta para fora de casa”, disse ela com um sorriso triste e humilde. “Graças a você.”

O pau dele, à diferença de todas as demais partes do seu corpo, ficou muito satisfeito com aquela ratificação dos seus poderes divinatórios.