Liberdade
O país da mulherada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Tendo crescido em St. Paul, Joey Berglund recebera incontáveis garantias de que sua vida estava destinada à boa sorte. Da maneira como os defensores de um time de futebol americano falam de grandes jogadas em que correram o campo, a sensação de se esquivar e ziguezaguear a toda a velocidade atravessando uma defesa que se desloca em câmera lenta, o campo inteiro de jogo visível ao mesmo tempo e perceptível instantaneamente como um videogame no nível mais fácil, era a maneira como cada faceta de sua vida lhe aparecia nos seus primeiros dezoito anos. O mundo abria espaço para ele, e ele não se fazia de rogado. Chegou para o primeiro ano em Charlottesville com as roupas e o corte de cabelo certos, e descobriu que a escola o pusera no mesmo quarto de um companheiro perfeito de NoVa (como os moradores locais chamavam os subúrbios de Washington situados no norte do estado da Virgínia). Por duas semanas e meia, a faculdade pareceu-lhe uma extensão do mundo que ele sempre tinha conhecido, só que melhor. Estava tão convencido disso—achava que só podia ser assim—que na manhã do dia 11 de setembro ele deixou seu companheiro de quarto, Jonathan, acompanhando o incêndio no World Trade Center e no Pentágono enquanto corria para sua aula de Economia 201. Foi só quando chegou ao grande auditório e viu que estava praticamente vazio que entendeu que realmente havia ocorrido uma falha de grande importância.
Por mais que tentasse, nas semanas e nos meses que se seguiram, não conseguiu lembrar o que estava pensando enquanto atravessava o campus semideserto. Era muito pouco característico de Joey ficar tão perdido, e o profundo desgosto que sentiu nesse momento, nos degraus do Prédio de Química, transformou-se na origem de seu intenso ressentimento pessoal pelos ataques terroristas. Mais adiante, quando seus problemas começaram a se avolumar, parecia que a própria boa sorte, que sua infância lhe ensinara a considerar um direito de nascença, fora suplantada por uma onda de má sorte de ordem mais elevada, a tal ponto que nem podia ser real. Ele ficou esperando que o equívoco, a fraude que aquela má sorte representava, se revelasse, e que o mundo retornasse aos eixos, para poder ter a experiência de estudante que tinha esperado. Quando isso não aconteceu, foi tomado por uma raiva cujo objeto específico se recusava a entrar em foco. A responsabilidade, em retrospecto, parecia quase ter sido de Bin Laden, mas não exatamente. A responsabilidade era de uma coisa mais profunda, uma coisa que não era política, algo estruturalmente malévolo, como uma protuberância na calçada em que você tropeça e cai de cara no meio de um passeio inocente.
Nos dias que se seguiram ao Onze de Setembro, de uma hora para outra tudo passou a parecer de uma estupidez completa para Joey. Foi uma estupidez que organizassem uma “Vigília de Envolvimento” sem nenhuma finalidade prática, era uma estupidez as pessoas assistirem a reprises seguidas das mesmas imagens da calamidade, foi uma estupidez os rapazes da fraternidade Chi Phi terem aberto uma faixa de “apoio” em sua sede, foi uma estupidez cancelar o jogo de futebol americano contra a Universidade do Estado da Pensilvânia, foi uma estupidez tantos garotos deixarem a Área para ficar com as famílias (e era uma estupidez as pessoas na Virgínia dizerem “Área” em vez de “campus”). Os quatro garotos liberais do dormitório de Joey tinham discussões estúpidas com os vinte conservadores, como se alguém desse alguma importância ao que pensava sobre o Oriente Médio um bando de meninos de dezoito anos. Uma onda estupidamente grande foi criada em torno dos alunos que tinham perdido parentes ou amigos da família nos ataques, como se outros tipos de morte horrível que aconteciam o tempo todo no mundo contassem menos, e houve aplausos de incrível estupidez quando um micro-ônibus lotado de homens da classe alta partiu para Nova York a fim de dar apoio ao pessoal que vinha trabalhando no Marco Zero, como se não houvesse uma quantidade suficiente de pessoas em Nova York para dar conta do recado. Joey só queria que a vida normal voltasse o mais rápido possível. Era como se tivesse batido com seu velho Discman numa parede e fizesse o laser do aparelho saltar da faixa que vinha curtindo para outra que não reconhecia nem achava boa, e não conseguisse fazer parar de tocar. Em pouco tempo estava se sentindo tão só, isolado e faminto das coisas costumeiras que cometeu o sério erro de dar permissão a Connie Monaghan para tomar um ônibus Greyhound e vir visitá-lo em Charlottesville, desfazendo assim todo um verão de trabalho meticuloso destinado a prepará-la para o rompimento inevitável entre eles.
Durante todo o verão, ele se esforçara para convencer Connie da importância de não se verem por pelo menos nove meses, para testar os sentimentos que tinham um pelo outro. A ideia era desenvolver identidades independentes e ver se essas identidades independentes ainda combinavam entre si, mas para Joey isso era só um “teste” na mesma medida em que uma “experiência” escolar de química podia ser chamada de pesquisa. Connie acabaria ficando em Minnesota enquanto ele seguiria uma carreira empresarial e conheceria garotas mais exóticas, avançadas e conectadas. Ou pelo menos era o que imaginava antes do Onze de Setembro.
Tomou o cuidado de marcar a visita de Connie para o período em que Jonathan estaria em casa, em NoVa, celebrando alguma festividade judaica. Ela passou o fim de semana todo acampada na cama de Joey com a sacola de viagem ao lado no chão, guardando suas coisas dentro dela assim que acabava de usá-las, como se tentasse minimizar as marcas que deixava. Enquanto Joey conseguia ler Platão para uma aula da manhã de segunda-feira, ela percorria os rostos do álbum dos seus colegas do primeiro ano e ria das expressões estranhas ou dos nomes infelizes. Bailey Bodsworth, Crampton Ott, Taylor Tuttle. Pela conta escrupulosa de Joey, transaram oito vezes em quarenta horas, chapando-se repetidas vezes com o pezinho hidropônico de maconha que ela havia trazido. Quando chegou a hora de levá-la de volta para a estação de ônibus, ele acrescentou várias novas canções ao mp3 player dela para as torturantes vinte horas da viagem de volta a Minnesota. A triste verdade é que ele se sentia responsável por ela, sabia que precisava terminar com ela de qualquer maneira, mas não imaginava como.
Na estação rodoviária, tocou no assunto dos estudos dela, que ela prometera continuar mas de alguma forma, a seu modo obstinado, sem explicar nada, tinha largado.
“Você precisa começar a estudar em janeiro”, disse ele. “Pode começar em Inver Hills e depois talvez se transferir para a Universidade de Minnesota ano que vem.”
“Está bem”, disse ela.
“Você é muito inteligente”, disse ele. “Não pode continuar vivendo só como garçonete.”
“Está bem.” Ela desviou os olhos, desolada, para a fila que se formava ao lado do ônibus em que ia embarcar. “Por você eu vou estudar.”
“Não por mim. Por você. Como prometeu.”
Ela balançou a cabeça. “Você quer que eu me esqueça de você.”
“Nada disso, de maneira nenhuma”, disse Joey, embora fosse a pura verdade.
“Eu vou estudar”, disse ela. “Mas nem assim vou me esquecer de você. Nada vai me fazer esquecer você.”
“Está bem”, disse ele, “mas ainda precisamos descobrir quem nós somos. Nós dois ainda precisamos crescer muito.”
“Eu já sei quem eu sou.”
“Mas pode estar enganada. Talvez ainda precise—”
“Não”, disse ela. “Não estou enganada. Só quero ficar com você. É só o que eu quero na vida. Você é a melhor pessoa do mundo. Pode fazer tudo que quiser, e eu vou estar ao seu lado. Você vai ser dono de muitas empresas, e eu vou trabalhar para você. Ou você pode se candidatar a presidente, e eu vou trabalhar na sua campanha. Vou fazer as coisas que ninguém mais vai querer fazer. Se você precisar de alguém para fazer alguma coisa fora da lei, eu faço. Se você quiser ter filhos, eu crio para você.”
Joey sabia que precisava ter o máximo de cuidado ao responder àquela declaração francamente assustadora, mas por azar ainda estava um pouco chapado.
“O que eu quero é o seguinte”, disse ele. “Quero que você termine a faculdade. Por exemplo”, disse ele, insensatamente, “se você for trabalhar para mim, vai precisar saber de muita coisa.”
“Foi por isso que eu disse que ia estudar por você”, disse Connie. “Você não estava prestando atenção?”
Ele começava a perceber, o que não tinha acontecido em St. Paul, que o preço a pagar pelas coisas nem sempre era evidente à primeira vista: que o crescimento realmente impressionante dos juros sobre seus prazeres do início da adolescência podia aumentar ainda mais.
“É melhor a gente entrar na fila”, disse ele. “Se você quiser um bom lugar.”
“Está bem.”
“E também acho”, disse ele, “que devíamos passar pelo menos uma semana sem falar ao telefone. Precisamos de mais disciplina.”
“Está bem”, disse ela, e seguiu obediente na direção do ônibus. Joey andava atrás dela, levando a sacola de viagem. Pelo menos não precisava se preocupar com a possibilidade de ela fazer alguma cena. Ela nunca tinha comprometido Joey, nunca insistira em andar de mãos dadas na calçada, nunca fora de agarrar, de fazer bico, de reclamar. Ela guardava todo o ardor para quando ficavam a sós, era uma especialista desse tipo. Quando as portas do ônibus se abriram, ela o trespassou com um olhar abrasador, entregou sua sacola para o motorista e subiu a bordo. Nada dessas babaquices de acenar pela janela ou franzir os lábios em beijinhos. Pôs os fones nos ouvidos e se enterrou no assento, desaparecendo para quem estava do lado de fora.
E nenhuma babaquice tampouco nas semanas seguintes. Connie, obediente, evitou os telefonemas para ele, e enquanto a febre nacional baixava e o outono se espalhava pelo trecho dos montes Apalaches conhecido como Blue Ridge, banhado de raios de sol da cor do feno e emanando o aroma intenso de gramados aquecidos e folhas que secavam, Joey acompanhava as derrotas esmagadoras sofridas pelos Cavaliers, se exercitava na academia e ganhava vários quilos só de cerveja. Gravitava socialmente em torno dos companheiros de dormitório de famílias prósperas que eram a favor de um bombardeio arrasador do mundo islâmico até que este aprendesse a se comportar. Não era de direita ele próprio, mas sentia-se à vontade com quem era. Passar o rodo no Afeganistão não era exatamente o que sua sensação de deslocamento recomendava, mas era parecido a ponto de lhe trazer alguma satisfação.
Só quando uma quantidade suficiente de cerveja tinha sido consumida para conduzir a conversa do grupo para questões de sexo é que Joey se sentia isolado. O envolvimento dele com Connie era tão diferente e intenso—tão sincero, tão carregado de amor—que não podia ser usado para contar vantagem. Ele desdenhava mas também invejava os companheiros de dormitório por suas bravatas, suas confissões pornográficas do que planejavam fazer com as meninas mais gostosas da escola ou supostamente já tinham feito, em casos isolados, de cara cheia, e ao que tudo indicava sem nenhum remorso ou consequência, com várias meninas também chapadas durante o curso secundário. Os desejos de seus companheiros de dormitório ainda convergiam em grande medida para o boquete, que Joey parecia ser absolutamente o único a considerar pouco mais que uma punheta glorificada, uma diversão para o estacionamento durante a hora do almoço.
A masturbação propriamente dita era uma forma degradante de dissipação a cuja utilidade mesmo assim ele começava a dar valor enquanto tentava acostumar-se com a vida longe de Connie. O local que preferia para suas sessões era o banheiro para deficientes físicos da biblioteca de ciências, no balcão de cuja Reserva ele ganhava 7,65 dólares por hora para ficar estudando ou lendo o Wall Street Journal e, ocasionalmente, ajudar nerds a encontrar textos científicos. Ter conseguido um emprego que lhe permitia estudar no balcão da Reserva da biblioteca lhe parecera mais uma confirmação de que estava destinado a ter sorte na vida. Ficou espantado ao constatar que a biblioteca ainda tinha tantos textos impressos, de tamanha raridade e cobrindo tal espectro de interesses, que precisavam ser guardados em locais separados e jamais podiam deixar o recinto. Não havia como aquilo tudo não ser digitalizado nos anos seguintes. Muitos dos textos da Reserva tinham sido escritos em línguas estrangeiras outrora populares, e ilustrados com pranchas impressas em cores suntuosas; os alemães do século xix demonstraram um empenho especial na compilação do conhecimento humano. E podia até dignificar a masturbação, um pouco, usar em seu apoio um atlas alemão de anatomia sexual datado de cem anos antes. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria romper o silêncio entre ele e Connie, mas a cada noite, depois de empregar as torneiras de alavanca do banheiro dos deficientes para fazer seus gametas e seu fluido prostático descerem pelo ralo, ele decidia correr o risco de esperar por mais um dia, até que, ao final de uma noite, no balcão da Reserva, no próprio dia em que percebeu que provavelmente tinha esperado um dia além da conta, recebeu uma ligação da mãe de Connie.
“Carol”, disse ele, em tom simpático. “Alô.”
“Alô, Joey. Você deve saber por que estou ligando.”
“Não, na verdade não sei.”
“Bem, é que você partiu o coração da nossa amiga, só isso.”
Com um espasmo no estômago, ele se refugiou atrás da proteção das pilhas de textos. “Eu ia ligar para ela hoje à noite”, disse ele a Carol.
“Hoje à noite. É mesmo. Você ia ligar para ela hoje à noite.”
“Ia.”
“Por que eu não acredito nisso?”
“Não sei.”
“Bem, ela já foi para a cama, então ainda bem que você não ligou. Ela foi para a cama sem comer. Foi para cama às sete da noite.”
“Então foi bom mesmo eu não ter ligado.”
“Não tem graça nenhuma, Joey. Ela está muito deprimida. Por sua causa ela está com uma depressão e você precisa parar com essa história. Está me entendendo? Minha filha não é cachorro que você pode amarrar num poste do estacionamento e depois largar por lá.”
“Talvez você pudesse arrumar um antidepressivo para ela.”
“Ela não é seu animal de estimação, que você pode largar no banco de trás com as janelas fechadas”, disse Carol, animada com a sua metáfora. “Nós fazemos parte da sua vida, Joey. E acho que merecemos um pouco mais do que esse nada que você vem dando. O outono foi muito preocupante para todos os envolvidos, e você esteve totalmente ausente.”
“Sabe, eu tenho aulas, essas coisas.”
“Ocupado demais para gastar cinco minutos num telefonema. Depois de três semanas e meia sumido.”
“Eu ia ligar mesmo para ela mais tarde.”
“E nem estou falando de Connie”, disse Carol. “Vamos deixar Connie fora disso por um minuto. Você e eu moramos juntos como uma família por quase dois anos. Eu nunca achei que um dia fosse dizer isto, mas estou começando a entender o que você fez sua mãe passar. Sério. Nunca tinha visto como você era frio, até agora.”
Joey dirigiu ao teto um sorriso de pura opressão. Sempre houvera algo que não batia muito bem em sua relação com Carol. Ela era o que os rapazes do seu dormitório e os irmãos da fraternidade que viviam atrás dele chamariam de cpc, ou “Coroa Perfeitamente Comível”. Embora no geral ele tivesse o sono muito profundo, houve algumas noites, durante o tempo em que morara com a família Monaghan, em que acordara na cama de Connie com estranhas premonições ansiosas em que figurava como o involuntário e horrorizado invasor da cama da própria irmã, por exemplo, ou como o autor do disparo acidental de um prego na testa de Blake com o martelo de ar comprimido do próprio Blake, ou, a mais estranha de todas, como um dos imensos guindastes em algum porto importante dos Grandes Lagos, com seu membro horizontal erguendo pesadíssimos contêineres do convés de um navio para depositá-los numa barcaça menor de fundo chato. Essas visões geralmente vinham depois de momentos de conexão indevida com Carol—um vislumbre de sua bunda descoberta através da porta semicerrada do quarto que dividia com Blake, a piscadela cúmplice que deu a Joey em seguida a um arroto de Blake à mesa, a argumentação interminável e explícita que ela lhe apresentou (ilustrada com histórias muito animadas de sua juventude descuidada) para obrigar Connie a tomar a Pílula. Como Connie era constitucionalmente incapaz de ficar contrariada com Joey, coube à sua mãe manifestar a insatisfação de ambas. Carol era o órgão vocal de Connie, sua advogada sem papas na língua, e Joey às vezes tinha a sensação, nas noites de fim de semana em que Blake saía com os amigos, de ser a parte ensanduichada de um ménage à trois virtual, em que a boca de Carol despejava infindavelmente todas as coisas que Connie não conseguia dizer, e Connie depois fazendo em silêncio com Joey todas as coisas que Carol não podia fazer, e Joey acordando assustado no meio da noite com a sensação de ter caído numa arapuca um tanto doentia. Coroa Perfeitamente Comível.
“Então o que eu devo fazer?”, perguntou ele.
“Bem, para começar, quero que você passe a ser um namorado mais responsável.”
“Eu não sou namorado dela. Estamos num hiato.”
“O que é hiato? O que isso quer dizer?”
“Quer dizer que estamos fazendo a experiência de ficarmos separados.”
“Não foi o que Connie me disse. Connie me disse que você quer que ela continue a estudar para ela aprender administração e poder ajudar você nos seus projetos.”
“Escute”, disse Joey. “Carol. Eu estava doidão quando disse isso a ela. Foi um engano, e eu disse a coisa errada depois de queimar o fumo fortíssimo que Connie costuma comprar.”
“Você acha que eu não sei que ela fuma maconha? Você acha que eu e Blake não temos nariz? Você não está me dizendo nada que eu não saiba. Você só piora sua imagem de namorado tentando delatar o que ela faz.”
“O que estou dizendo foi que eu falei a coisa errada. E ainda não tive a oportunidade de corrigir, porque nós concordamos em passar um tempo sem falar um com o outro.”
“E de quem é a responsabilidade? Você sabe que parece um deus para ela. Um deus, Joey, literalmente. Se você disser a ela para prender a respiração, ela vai parar de respirar até cair dura. Se você disser a ela para ir se sentar num canto, ela vai ficar sentada no canto até desabar de inanição.”
“Bem, e de quem é a culpa?”, perguntou Joey.
“Sua.”
“Não, Carol. É sua. Você é que criou a Connie. É na sua casa que ela mora. Eu só apareci mais tarde.”
“Sei, e agora quer seguir seu próprio caminho, sem assumir nenhuma responsabilidade. Depois de ter sido praticamente casado com ela. Depois de ter feito parte da nossa família.”
“Epa. Epa. Carol. Estou no primeiro ano da faculdade. Você está sabendo? Quer dizer, sabe como é esquisito estarmos tendo esta conversa?”
“O que eu sei é que quando eu tinha um ano só a mais que você, tive uma filha e precisei abrir caminho no mundo por minha conta.”
“E está dando certo?”
“Bastante, se você quer saber. Nem ia lhe contar, porque ainda é cedo, mas já que você perguntou, Blake e eu vamos ter um bebê. A nossa pequena família vai crescer um pouco.”
Joey levou algum tempo para compreender que ela lhe contara que estava grávida.
“Escute”, disse ele, “ainda estou no trabalho. Quer dizer, parabéns e tudo o mais. Só que agora eu estou meio ocupado.”
“Ocupado. Sei.”
“Juro que telefono para ela amanhã de tarde.”
“Não, sinto muito”, disse Carol, “é pouco. Você precisa vir até aqui agora mesmo e passar algum tempo com ela.”
“Isso está fora de questão.”
“Então venha passar a semana de Ação de Graças. Vamos fazer um belo jantar de família, nós quatro. Ela vai ansiar por sua chegada, vai ser bom para ela, e aí você vai poder ver como ela está deprimida.”
Joey vinha planejando passar o feriado em Washington com seu companheiro de quarto, Jonathan, cuja irmã mais velha, terceiranista na Duke, era ou enganosamente fotogênica ou alguém que ele não podia deixar de conhecer em pessoa. A irmã se chamava Jenna, o que na cabeça de Joey a associava às filhas gêmeas de Bush e a todas as farras e à moral dissipada que o nome Bush conotava.
“Não tenho dinheiro para a passagem de avião”, disse ele.
“Você pode pegar um ônibus, como Connie. Ou andar de ônibus não é para Joey Berglund?”
“E já tenho outro compromisso.”
“Bom, pois é melhor mudar de planos”, disse Carol. “A sua namorada dos últimos quatro anos está gravemente deprimida. Passa horas chorando, não come. Precisei ir conversar com o patrão dela na Frost’s para ela não ser despedida, porque não se lembra dos pedidos, se confunde, nunca sorri. Pode ser que esteja queimando fumo no trabalho, eu não ficaria admirada. Então ela chega em casa, vai direto para a cama e fica lá. Quando precisa trabalhar de tarde, sou obrigada a vir até em casa na minha hora de almoço para garantir que ela vai se levantar e se vestir para ir trabalhar, porque ela não atende o telefone. Depois preciso levá-la de carro até a Frost’s e ficar esperando até ela entrar. Tentei pedir a Blake que cuidasse disso, mas ela não fala mais com ele nem faz nada do que ele pede. Às vezes eu acho que ela está tentando dar cabo da minha relação com ele, só por despeito, porque você foi embora. Quando eu digo para ela ir ao médico, ela responde que não precisa. Quando eu pergunto o que ela está tentando provar, e o que está planejando para a vida dela, ela diz que o único plano dela é ficar com você. O único plano que ela tem. Então, seja qual for o seu compromissozinho para o feriado, é melhor você desmarcar.”
“Já disse que vou ligar para ela amanhã.”
“Você acha mesmo que pode usar minha filha como parceira sexual durante quatro anos e depois simplesmente ir embora na hora que bem entende? É isso que você acha? Ela era uma criança quando você começou a ter relações com ela!”
Joey pensou no dia crucial em sua velha casa na árvore em que Connie tinha esfregado a virilha sobre a bermuda de jeans cortado e depois tomado sua mão menor que a dele e mostrado onde ele devia mexer: como ele não precisara de muita persuasão. “E eu também era uma criança, claro”, disse ele.
“Meu bem, você nunca foi criança”, disse Carol. “Estava sempre tão calmo e controlado. Não pense que eu não conheci você quando era bem pequeno. E nem quando era bebê você chorava! Nunca vi nada igual na minha vida. Você não chorava nem quando dava uma topada. Você franzia o rosto, mas não dava um pio.”
“Nada disso, eu chorava. Eu me lembro perfeitamente de ter chorado.”
“Você usou Connie, você me usou, você usou Blake. E agora acha que pode simplesmente virar as costas e ir embora? Você acha que o mundo funciona assim? Você acha que todas as outras pessoas só existem para o seu prazer pessoal?”
“Eu vou tentar convencer Connie a ir ver um médico e aceitar ser medicada. Mas Carol, sabe, esta conversa que estamos tendo é muito esquisita. Não é uma conversa legal.”
“Pois é bom você ir se acostumando, porque vamos ter mais uma amanhã, e depois, e depois, até você me dizer que vem para o Dia de Ação de Graças.”
“Eu não vou para o Dia de Ação de Graças.”
“Bem, então pode ir se acostumando com as minhas ligações.”
Depois que a biblioteca fechou, ele saiu na noite gelada e se instalou num banco diante do dormitório, acariciando o telefone e pensando numa pessoa para quem ligar. Em St. Paul ele deixara claro para todos os seus amigos que a história dele com Connie nunca ia ser assunto de conversa entre eles, e na Virgínia ele guardara segredo. Quase todo mundo no dormitório se comunicava com os pais diariamente, quando não a toda hora, e embora isso o fizesse sentir uma gratidão inesperada em relação aos seus pais, que eram muito mais contidos e mais respeitadores das escolhas dele do que tinha sido capaz de perceber quando morava ao lado deles, também lhe despertava algo semelhante ao pânico. Tinha pedido a liberdade, eles haviam concedido, e agora não podia voltar atrás. Houve um breve período de contato telefônico em família depois do Onze de Setembro, mas as conversas eram quase sempre impessoais: a mãe reclamando que não conseguia parar de ver a cnn muito embora estivesse convencida de que tanta cnn só podia lhe fazer mal, o pai aproveitando a oportunidade para dar vazão à sua antiga hostilidade diante de qualquer religião organizada, e Jessica se gabando de seu conhecimento das culturas não ocidentais e explicando como era legítimo o rancor que eles sentiam do imperialismo americano. Jessica estava nos últimos lugares da lista de pessoas para quem Joey ligaria num momento difícil. Talvez, se ela fosse a única pessoa viva entre todas que conhecia e ele fosse preso na Coreia do Norte, e ainda por cima estivesse disposto a aguentar um esporro.
Como para confirmar que Carol estava enganada a seu respeito, chorou um pouco no escuro, sentado no banco. Chorou por Connie e seu sofrimento, chorou por tê-la deixado nas mãos de Carol—por não ser a pessoa capaz de salvá-la. Então enxugou os olhos e ligou para a mãe, cujo toque de telefone Carol provavelmente poderia escutar se chegasse perto de uma janela e ouvisse com atenção.
“Joseph Berglund”, disse a mãe dele. “Acho que conheço esse nome de algum lugar.”
“Oi, mãe.”
Imediatamente um silêncio.
“Desculpe, faz tempo que eu não ligo.”
“Bem”, disse ela, “na verdade nem está acontecendo muita coisa por aqui além dos acessos de paranoia com o antraz, um corretor muito pouco realista tentando vender a nossa casa e o seu pai indo e voltando de Washington todo dia. E você sabe que eles obrigam todo mundo que voa para Washington a ficar sentado dentro do avião por uma hora antes de descer? É uma regra das mais idiotas. O que eles estão pensando? Que algum terrorista vai cancelar o plano de ataque porque o aviso de atar cintos continua aceso? Seu pai disse que mal o avião decola as aeromoças começam a dizer a todo mundo para usar logo os banheiros, antes que seja tarde demais. E depois passam a distribuir as latas de bebida.”
Parecia uma dessas velhotas que não param de falar, e não a força vital que ele ainda imaginava quando se permitia pensar nela. Precisou fechar os olhos com força para evitar recomeçar o choro. Tudo que ele tinha feito com ela nos últimos três anos fora calculado para dar um basta nas conversas intensamente pessoais que costumavam ter quando ele era mais novo: obrigá-la a calar a boca, treiná-la a se controlar, fazê-la parar de aborrecê-lo com seu coração transbordante e suas histórias sem censura. E agora que ele tinha levado o treinamento até o fim e ela, obediente, só tratava com ele de coisas triviais, ele sentia que a tinha perdido e queria voltar atrás.
“Posso perguntar se está tudo bem com você?”, disse ela.
“Está tudo bem comigo.”
“A vida está boa aí nos antigos estados escravistas?”
“Muito boa. Tem feito um tempo excelente.”
“Certo. É a vantagem de ter sido criado em Minnesota. O clima de qualquer outro lugar é muito melhor.”
“Isso mesmo.”
“E você está fazendo novos amigos? Conhecendo muita gente?”
“Estou.”
“Muito muito bom. Muito muito muito bom. Simpático você ter ligado, Joey. Quer dizer, eu sei que você não é obrigado a ligar, e por isso é muito simpático ter ligado. Aqui em casa muita gente te admira de verdade.”
Uma manada de rapazes do primeiro ano saiu em disparada do dormitório para o gramado, com as vozes amplificadas pela cerveja. “Jo-iiii, Jo-iiii”, mugiram afetuosamente. Ele lhes fez um cumprimento frio com a cabeça.
“Parece que você também tem os seus admiradores por aí”, disse sua mãe.
“É.”
“Meu garoto, sempre popular.”
“É.”
Um novo silêncio caiu depois que a manada saiu em busca de outros bebedouros. Joey sentiu-se injustamente em desvantagem depois que eles se afastaram. Já tinha avançado mais ou menos um mês nos gastos que planejara para o semestre. Não queria ser o garoto mais pobre que só bebia uma cerveja enquanto todo mundo tomava seis, mas não queria estar sempre aceitando que pagassem suas bebidas. Queria ser dominante e generoso; o que requeria recursos.
“E o papai, está gostando do trabalho novo?” Joey fez um esforço para perguntar à mãe.
“Acho que sim. Está deixando ele meio louco. Sabe: de uma hora para outra está cheio de dinheiro de outra pessoa para gastar e consertar todas as coisas que acha que estão erradas no mundo. Antes ele podia reclamar que ninguém estava fazendo nada. Agora é ele que precisa tentar dar um jeito, o que é impossível, claro, porque está tudo indo para o ralo de qualquer maneira. Ele me manda e-mails às três da manhã. Acho que não tem dormido muito.”
“E você? Como é que você está?”
“Bem, muito gentil da sua parte perguntar, mas na verdade você não quer saber.”
“Quero sim.”
“Pode acreditar que não. E não se preocupe. Não estou dizendo isso com rancor. Não é uma queixa. Você tem a sua própria vida e eu levo a minha. Está tudo muito muito bem.”
“Não, mas, assim, o que você faz o dia inteiro?”
“Para seu governo”, respondeu sua mãe, “essa pergunta pode ser meio incômoda para as pessoas. É mais ou menos como perguntar a um casal sem filhos por que eles não têm filhos, ou perguntar a uma pessoa solteira por que nunca se casou. Você precisa tomar cuidado com certo tipo de perguntas que a você podem parecer perfeitamente inofensivas.”
“Hum.”
“No momento eu estou numa espécie de limbo”, disse ela. “É difícil mudar muita coisa na vida quando já sei que vou ter de me mudar. Comecei a tentar escrever uma coisa, para mim mesma. E também preciso deixar a casa com um ar permanentemente limpo, para o caso de algum corretor chegar aqui com um otário em potencial. Passo muito tempo sacudindo as revistas para não deixar que acumulem poeira.”
O sentimento de carência de Joey estava dando lugar à irritação porque, por mais que negasse, ela não conseguia deixar de se queixar dele. As mães e suas queixas, uma coisa que nunca acabava. Ele tinha ligado em busca de algum apoio, e assim que percebeu estava quase precisando dar apoio a ela.
“E como você está em matéria de dinheiro?”, perguntou ela, como se intuísse sua irritação. “O dinheiro está dando?”
“Está um pouco apertado”, admitiu ele.
“Eu podia jurar!”
“Depois que eu começar a morar aqui, o preço do curso vai diminuir muito. Só o primeiro ano que é mais difícil.”
“Quer que eu lhe mande algum dinheiro?”
Ele sorriu no escuro. Gostava dela, apesar de tudo; era mais forte do que ele. “Achei que papai tinha dito que eu não ia ver a cor do dinheiro.”
“O seu pai não precisa necessariamente saber de cada detalhe.”
“Bom, e a faculdade não vai me considerar residente no estado se eu aceitar alguma coisa de vocês.”
“A faculdade também não precisa saber de cada detalhe. Posso lhe mandar um cheque ao portador, se isso ajudar.”
“Sim, e depois?”
“Depois nada, eu juro. Nada em troca. Estou dizendo que você já demonstrou o que queria para o seu pai. Não precisa assumir uma dívida horrível a juros altíssimos, só para continuar a provar uma coisa que já está mais que demonstrada.”
“Vou pensar no assunto.”
“Vou mandar um cheque para você pelo correio. E aí você resolve por sua conta se quer descontar ou não. Não precisa discutir a questão comigo.”
Ele tornou a sorrir. “E por que você está fazendo isso?”
“Bom, Joey, acredite você ou não, eu quero que você tenha a vida que você quer ter. Tive algum tempo livre para me perguntar algumas coisas enquanto sacudia as revistas da mesinha de centro, e outras coisas. Por exemplo, se você dissesse a mim e ao seu pai que nunca mais queria nos ver, pelo resto da vida, eu ainda ia querer que você fosse feliz?”
“Pergunta hipotética, e muito bizarra. Não tem nenhuma base na realidade.”
“É bom saber disso, mas não é o que estou querendo dizer. O que estou querendo dizer é que todo mundo acha que sabe a resposta para essa pergunta. Os pais são programados a querer o melhor para seus filhos, seja qual for sua resposta. É assim que dizem que é o amor, não é? Mas na verdade, se você for pensar bem, isso é uma crença bem estranha. Em face do que sabemos sobre a verdadeira natureza das pessoas. Egoístas, míopes, arrogantes e carentes. Por que o simples fato de ser pai ou mãe de alguém, por si só, de algum modo tornaria melhor toda pessoa que tem filhos? É claro que não é assim. Já lhe falei um pouco sobre os meus pais, por exemplo—”
“Não muito”, disse Joey.
“Bem, talvez numa outra ocasião eu conte mais um pouco, se você me pedir com jeito. Mas o que estou querendo dizer é que pensei bastante nesse assunto do amor, em relação a você. E cheguei à conclusão—”
“Mamãe, você se incomoda se a gente falar de outra coisa?”
“Cheguei à conclusão—”
“Ou, na verdade, quem sabe outro dia? Na semana que vem, por exemplo? Tenho muita coisa para fazer aqui antes de ir dormir.”
Um silêncio de profunda mágoa se instalou em St. Paul.
“Desculpe”, disse ele. “É que já é muito tarde, estou cansado e ainda tenho umas coisas para fazer.”
“Eu só estava explicando”, disse a mãe dele num tom de voz muito mais baixo, “por que vou lhe mandar um cheque.”
“Está bem, obrigado. Muita gentileza sua. Eu acho.”
Numa voz ainda mais fraca e magoada, sua mãe agradeceu pelo telefonema e desligou.
Joey examinou o gramado à sua volta à procura de alguma moita ou um refúgio arquitetônico onde pudesse chorar sem ser visto pelas patrulhas de passagem. Não encontrou esconderijo algum, correu para dentro do dormitório e, às cegas, como se a ponto de vomitar, enfiou-se no primeiro banheiro que viu, num corredor diferente do seu, trancou-se num reservado e soluçou de ódio da mãe. Alguém estava tomando banho, numa nuvem de sabonete desodorante e mofo. Um imenso falo ereto e sorridente, cortando os céus como o Super-Homem, cuspindo gotículas, tinha sido desenhado com tinta permanente na porta descascada do cubículo. Por baixo dele, alguém tinha escrito, USE AGORA OU DEPOSITE SEU PEDIDO .
A natureza da censura de sua mãe não era simples como a de Carol Monaghan. Carol, ao contrário da filha, não era brilhante. Connie tinha uma inteligência compacta e despojada, um pequeno clitóris firme de discernimento e sensibilidade ao qual só dava acesso a Joey a portas fechadas. Quando ela, Carol, Blake e Joey jantavam juntos, Connie comia de olhos baixos e dava a impressão de perder-se em seus estranhos pensamentos, mas depois, sozinha com Joey no quarto deles, conseguia reproduzir cada detalhe deplorável do comportamento de Carol e Blake à mesa. Uma vez ela perguntou a Joey se ele já tinha percebido que quase tudo que Blake dizia era para afirmar como as outras pessoas eram cretinas e como ele próprio, Blake, era superior e tratado sem o devido respeito. Para Blake, a previsão do tempo que o rádio tinha dado pela manhã era cretina, a família Paulsen tinha posto o coletor de recicláveis num lugar cretino, o apito que avisava que precisava amarrar o cinto na sua picape era cretino por não parar de tocar em sessenta segundos, os motoristas que dirigiam no limite de velocidade pela Summit Avenue eram cretinos, o sinal de trânsito na esquina de Summit e Lexington tinha sido regulado por algum cretino, seu chefe no trabalho era um cretino, e o código de construções na cidade era da maior cretinice. Joey começou a rir enquanto Connie continuava, com memória implacável, a enumerar os exemplos: o novo controle remoto da tv tinha sido desenhado por algum cretino, as mudanças no horário nobre da nbc eram cretinas, a Liga Nacional de Beisebol estava tendo a cretinice de não aceitar a regra do rebatedor substituto, os Vikings tinham sido cretinos por permitir a saída de Brad Johnson e Jeff George, o moderador do segundo debate entre os candidatos a presidente era um cretino por não ter dito a Al Gore como ele era mentiroso, Minnesota era um estado cretino por fazer seus cidadãos trabalhadores pagar o melhor tratamento médico para os imigrantes ilegais mexicanos e os sujeitos que viviam da ajuda do governo por preguiça, o melhor tratamento médico possível—
“E sabe do que mais?”, disse finalmente Connie.
“O quê?”, perguntou Joey.
“Você nunca faz isso. Você é de fato mais inteligente que os outros, e por isso nunca precisa dizer que são uns cretinos.”
Joey aceitou o elogio com algum constrangimento. Em primeiro lugar, tinha captado certo cheiro de rivalidade naquela comparação direta entre ele e Blake—a sensação perturbadora de não passar de um peão ou o prêmio em alguma disputa complicada entre mãe e filha. E embora fosse verdade que ele tinha deixado muito de seus juízos do lado de fora ao ir morar com a família Monaghan, já havia declarado antes que inúmeras coisas eram cretinas, especialmente sua mãe, que acabara se transformando para ele numa fonte de asneiras infinitas e insuportáveis. Agora Connie parecia sugerir que o que fazia as pessoas chamarem os outros de cretinos era sua própria cretinice.
Na verdade, o único aspecto em que sua mãe tinha sido realmente cretina fora em relação ao próprio Joey. É verdade que também soava como uma bela burrice dela, por exemplo, ter tamanho desrespeito por Tupac, cujas melhores músicas Joey considerava obra de gênio, além de qualquer discussão, ou detestar tanto o seriado Um amor de família, cuja própria cretinice era tão calculada e extrema que se tornava claramente brilhante. Mas ela jamais teria criticado Um amor de família se Joey não fizesse tanta questão de assistir a todas as reprises do seriado, e nunca teria se rebaixado a produzir suas constrangedoramente equivocadas caricaturas de Tupac se Joey não admirasse tanto o rapper. A verdadeira causa de toda a cretinice de Patty era o desejo de que Joey continuasse a ser seu amiguinho: continuasse a achar mais graça e encanto na mãe que nos bons programas de tv ou num autêntico gênio do rap. Era esse o cerne infectado de sua cretinice: era tudo uma rivalidade.
Finalmente, o desespero dele tinha chegado a tal ponto que ele conseguiu enfiar na cabeça dela que não queria mais ser amiguinho dela. Nem foi nada que tenha planejado, foi antes um subproduto de sua antiga irritação com o moralismo da irmã, a quem ele não podia imaginar melhor meio de deixar enfurecida do que convidar vários dos seus amigos para virem à sua casa e se embebedarem com Jim Bean enquanto os pais visitavam sua avó doente em Grand Rapids, e depois, na noite seguinte, trepar com Connie produzindo o máximo de barulho bem perto da parede que separava seu quarto do de Jessica, incitando assim Jessica a aumentar o volume de seu insuportável disco de Belle and Sebastian ao nível de pista de boate e em seguida, depois da meia-noite, esmurrar a porta trancada do seu quarto com seus nós dos dedos quase brancos—
“Droga, Joey! Pare com isso agora mesmo! Agora mesmo, está me entendendo?”
“Ei, calma, estou te fazendo um favor.”
“O quê?”
“Você já não está cansada de não me entregar? Estou te fazendo um favor! Estou te dando a sua oportunidade!”
“Vou entregar você agora. Vou ligar para o papai agora mesmo.”
“Pode ligar! Não ouviu o que eu disse? Falei que estava te fazendo um favor!”
“Seu merdinha. Seu merdinha metido. Vou ligar para o papai agora mesmo —”, enquanto Connie, totalmente nua, muito vermelha nos lábios e mamilos, prendia a respiração e olhava para Joey com uma mistura de medo, espanto, empolgação, fidelidade e deleite que o convenceu, como nada antes convencera e poucas coisas convenceram depois, que qualquer regra de compostura ou lei moral importava para ela mil vezes menos do que ter sido escolhida por ele como namorada e parceira de crimes.
Ele não esperava que sua avó morresse naquela semana—não era nem tão velha assim. Jogando a merda no ventilador um dia antes da morte dela, ele cometera um erro extremo. O tamanho do erro ficou claro pelo fato de jamais terem dado um grito sequer com ele. Em Hibbing, no enterro, seus pais simplesmente o puseram no gelo. Precisou ficar à parte, às voltas com sua culpa, enquanto o resto da família compartilhava uma dor que ele devia estar sentindo com eles. Dorothy tinha sido a única avó da sua vida, e o deixara impressionado, quando ainda era muito pequeno, ao convidá-lo a pegar em sua mão inválida e ver que ainda assim era a mão de uma pessoa e que não devia meter-lhe medo. Depois disso ele nunca mais se opusera às gentilezas que seus pais lhe pediam para fazer quando ela vinha visitá-los. Ela era uma pessoa, talvez a única pessoa, com quem ele sempre tinha sido cem por cento bom. E agora, de repente, ela havia morrido.
O enterro de Dorothy foi seguido de algumas semanas de trégua da parte da sua mãe, algumas semanas de bem-vindo silêncio, mas aos poucos ela voltou a aproximar-se dele. Aproveitou o pretexto de sua franqueza em relação a Connie para ser por sua vez indevidamente franca com ele. Tentou transformá-lo no Entendedor de Plantão, o que era ainda pior do que ser seu amiguinho. Era tortuoso e irresistível. Começou com uma confidência: um belo dia ela sentou-se na beirada de sua cama e começou a contar a Joey como tinha sido perseguida, nos tempos de estudante, por uma mentirosa patológica viciada em drogas que ainda assim ela adorava e o pai dele detestava. “Eu precisava contar a alguém”, disse ela, “e não queria contar ao seu pai. Fui buscar minha carteira nova de motorista ontem, e percebi que ela estava bem à minha frente na fila. Eu não a vejo desde a noite em que arrebentei o meu joelho. Faz o quê, vinte anos? Ela engordou muito, mas sem dúvida era ela. E eu fiquei com tanto medo depois de vê-la. E percebi que me sentia culpada.”
“Medo de quê?”, ele se surpreendeu dizendo, como se fosse a analista de Tony Soprano. “Culpada por quê?”
“Não sei. Saí correndo de lá antes que ela pudesse se virar e me ver. Ainda preciso voltar lá para buscar a carteira. Mas fiquei em pânico com a possibilidade de ela se virar e me ver. Em pânico com o que podia acontecer. Porque, você sabe, estou muito longe de ser lésbica. E você precisa acreditar que eu saberia se fosse—metade das minhas amigas eram gays. E eu sem dúvida não sou.”
“Ainda bem”, disse ele com um esgar nervoso.
“Mas eu percebi ontem, quando vi Eliza, que eu fui apaixonada por ela. E nunca fui capaz de lidar direito com isso. E agora que ela é gorda como quem toma lítio—”
“O que é lítio.”
“Remédio para maníacos-depressivos. Doença bipolar.”
“Ah.”
“E seu pai a detestava a tal ponto que eu a abandonei completamente. Ela estava sofrendo, e eu nunca mais liguei para ela, e jogava fora as cartas dela sem abrir.”
“Mas ela mentiu para você. Era uma pessoa assustadora.”
“Eu sei, eu sei. Mas ainda assim me sinto culpada.”
E ela lhe contou muitos outros segredos nos meses que se seguiram. Segredos que acabaram se revelando doces temperados com arsênico. Por algum tempo, ele achou que tinha sorte de ter uma mãe tão moderna e sincera. E respondeu revelando a ela várias perversões e pequenas contravenções de seus colegas de turma, tentando impressioná-la mostrando como seus pares eram muito mais dissipados e pervertidos que os jovens dos anos 70. E um belo dia, durante uma conversa sobre sexo forçado, pareceu a ela perfeitamente natural contar ao filho que ela própria tinha sido estuprada na adolescência, e que ele não podia contar nada daquilo a Jessica, porque Jessica não a entendia tanto quanto ele—ninguém a entendia como ele. Ele passara acordado as noites que se seguiram a essa conversa, sentindo uma fúria assassina pelo estuprador da mãe, e indignado com a injustiça do mundo, e culpado por todas as coisas negativas que já dissera ou sentira contra ela, e privilegiado e importante por ela lhe ter concedido acesso ao mundo dos segredos adultos. E então, um dia, ele acordou com um ódio tão violento por ela que sua pele ficava toda arrepiada e o estômago, revirado só de estar na mesma sala que ela. Foi como uma transformação química. Como se seus órgãos internos e sua medula vertessem arsênico.
O que o deixara desarmado na conversa telefônica daquela noite tinha sido como a mãe não lhe parecera nem um pouco cretina. E era essa, na verdade, a substância da queixa dela. Ela não dava a impressão de ser muito competente em matéria de administrar a própria vida, mas não porque fosse uma cretina. De algum modo, era quase o contrário. Tinha uma ideia tragicômica de si mesma e, além disso, parecia autenticamente arrependida por ser como era. No entanto, a resultante ainda era uma queixa em que ele era o acusado. Como se ela estivesse falando alguma língua aborígine muito sofisticada mas quase extinta que coubesse à geração mais nova (ou seja, a Joey) perpetuar ou deixar desaparecer de vez. Ou como se ela fosse uma das aves ameaçadas de extinção do pai dele, entoando seu canto obsoleto em meio à mata na esperança distante de que alguma alma passante afim a escutasse. Lá estava ela, e do outro lado o resto do mundo, e pela própria maneira que ela escolhia para falar com ele já o censurava por se alinhar com o resto do mundo. E quem poderia culpá-lo por preferir o mundo? Ele tinha sua vida para tentar viver! O problema é que quando era mais novo, em sua fraqueza, ele a tinha deixado ver que era de fato capaz de entender sua língua e reconhecer seu canto, e agora ela não conseguia parar de lembrá-lo que aquelas capacidades ainda persistiam dentro dele, caso quisesse voltar a exercê-las.
Quem quer que estivesse tomando um banho de chuveiro no banheiro do dormitório tinha parado e começara a se enxugar. A porta que dava para o corredor abriu e fechou, abriu e fechou; um cheiro mentolado de dentes sendo escovados emanava das pias e vinha encontrar Joey em seu cubículo. Seu choro o deixara de pau duro, que agora ele retirara de sua cueca e de suas calças e agarrava com toda a força. Se ele apertasse a base com bastante força, a cabeça ficava imensa e feíssima, e quase preta de tanto sangue venoso. Ele gostava tanto de olhar para ele, gostava tanto da sensação de proteção e independência trazida por sua beleza repulsiva, que relutou em provocar logo o fim e abrir mão daquela rigidez. Andar o dia todo de pau duro, claro, seria chato pra caralho, justamente. Como Blake tentava fazer. Joey não queria ser como Blake, sempre emproado, mas queria menos ainda ser o Entendedor de Plantão da sua mãe. Com dedos silenciosamente espásticos, olhando para sua ereção, ejaculou na privada e imediatamente deu a descarga.