Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 4 de 12 · parte 1/4

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Liberdade

3. A liberdade de mercado estimula a concorrência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

Devido à possibilidade de que, em relação aos pais de Patty, uma nota de queixa ou mesmo de censura declarada tenha se insinuado nestas páginas, a autobiógrafa deixa aqui registrada sua profunda gratidão para com Joyce e Ray por pelo menos uma coisa, a saber, o fato de nunca a terem encorajado a ser Criativa em Artes, ao contrário do que fizeram com suas irmãs. O fato de Joyce e Ray terem deixado Patty de lado, por mais que a magoasse quando era jovem, lhe parece cada vez mais benigno quando ela pensa nas irmãs, que passaram recentemente dos quarenta anos e vivem sozinhas em Nova York, sentindo-se excêntricas demais ou com direitos demais para manter qualquer relação prolongada, mas ainda aceitando subsídios dos pais enquanto se esforçam para conseguir algum sucesso artístico que foram convencidas a crer que lhes estava destinado. No fim das contas, foi melhor ter sido considerada burra e opaca, em vez de brilhante e fora do comum. Assim, é uma surpresa agradável que Patty seja só um pouquinho Criativa, e nada embaraçoso que não seja mais.

Uma coisa ótima do jovem Walter era o quanto ele torcia para Patty vencer. Enquanto Eliza antes só demonstrava pequenos respingos insatisfatórios de parcialidade a seu favor, Walter lhe dedicava abundantes infusões de hostilidade contra qualquer um (seus pais, seus irmãos) que a deixasse aborrecida. E como ele era tão intelectualmente honesto em outros aspectos da vida, tinha uma credibilidade impecável quando criticava sua família e se alistava nos planos questionáveis que ela formulava para lidar com isso. Podia não ser exatamente o que ela queria num homem, mas era insuperável em sua dedicação, provendo Patty do apoio fervoroso de que, naquela época, ela precisava mais ainda que de amor.

Hoje é fácil ver que Patty teria feito bem se tivesse dedicado alguns anos a construir uma carreira e uma identidade pós-atlética mais sólida, adquirindo certa experiência com outros tipos de homem e, no geral, acumulando mais maturidade antes de se lançar à condição de mãe. Entretanto, muito embora sua carreira como jogadora de basquete universitário estivesse acabada, ainda havia um relógio que marcava o tempo de ataque em sua cabeça, ela ainda responderia automaticamente à campainha, e precisava continuar vencendo mais do que nunca. E o meio que tinha para vencer—a melhor jogada óbvia que tinha à mão para derrotar a mãe e as irmãs—era se casar com o homem mais correto de Minnesota, ir morar numa casa maior, melhor e mais interessante que a de qualquer outro membro da família, produzir bebês e, como mãe, fazer tudo que Joyce nunca tinha feito. E Walter, apesar de ser um feminista convicto e membro-estudante que renovava a cada ano sua filiação à organização Crescimento Populacional Zero, adotou todo o programa doméstico de Patty sem reservas, porque ela era de fato tudo que ele queria numa mulher.

Casaram-se três semanas depois da formatura dela na faculdade—quase exatamente um ano depois de ela ter tomado o ônibus para Hibbing. Coube à mãe de Walter, Dorothy, franzir a testa e exprimir alguma preocupação, a seu modo suave, hesitante e ainda assim muito obstinado, diante da determinação de Patty em se casar no tribunal do condado de Hennepin, e não deixar que os pais lhe organizassem um casamento de verdade em Westchester. Não seria melhor, perguntava Dorothy com doçura, incluir a família Emerson? Ela entendia que Patty não era próxima da família, mas, ainda assim, será que mais tarde não se arrependeria de excluí-los dessa ocasião tão momentosa? Patty tentou descrever para Dorothy como seria um casamento em Westchester: duzentos ou mais dos amigos mais próximos de Joyce e Ray, além dos maiores financiadores das campanhas de Joyce; pressão de Joyce sobre Patty para escolher a irmã do meio como dama de honra e deixar a outra irmã executar uma dança expressiva durante a cerimônia; um consumo desenfreado de champanhe que acabaria levando Ray a fazer alguma piada sobre lésbicas perto das jogadoras de basquete amigas de Patty. Os olhos de Dorothy ficaram um pouco rasos d’água, talvez por dó de Patty ou talvez de tristeza ante a frieza e impiedade de Patty em relação à família. Não seria possível, insistiu ela docemente, organizar uma cerimônia particular modesta em que tudo fosse tal como Patty queria?

Um dos motivos, não o menos importante, para Patty não querer um grande casamento era o fato de que Richard seria o padrinho de Walter. Nesse ponto, sua posição era clara e, ao mesmo tempo tinha a ver com o medo do que poderia acontecer se Richard conhecesse sua irmã do meio. (A autobiógrafa, aqui, finalmente toma coragem e revela o nome da irmã: Abigail.) Já era desagradável que Eliza tivesse ficado com Richard; vê-lo se envolver com Abigail, por uma única noite que fosse, teria deixado Patty arrasada para sempre. E não é preciso dizer que ela nem tocou nesse assunto com Dorothy. Disse que simplesmente achava não ser uma pessoa muito dada a cerimônias.

Numa espécie de concessão, ela levou Walter para conhecer sua família na primavera, antes de casar-se com ele. É penoso para a autobiógrafa reconhecer que ficava um pouco encabulada de mostrá-lo à família e, pior, que este pode ter sido outro motivo para ela não querer um grande casamento. Ela o amava (e ainda ama, ainda ama) por qualidades que faziam muitíssimo sentido para ela no mundo particular onde viviam a dois, mas não eram necessariamente evidentes para o tipo de olho crítico que ela estava certa de que as irmãs, sobretudo Abigail, haveriam de assestar nele. Seus risos nervosos, seu rosto que corava à toa, até mesmo sua extrema gentileza: esses atributos eram caros a ela no contexto mais amplo daquele homem. Até mesmo um motivo de orgulho. Mas a parte implacável dela, que o convívio com a família sempre dava a impressão de realçar, não tinha como deixar de lamentar que ele não tivesse um metro e noventa e fosse um homem muito seguro de si.

Joyce e Ray, diga-se em louvor de ambos, e talvez em seu alívio secreto por Patty ter acabado se revelando heterossexual (secreto porque Joyce, por exemplo, sempre se mostrava exaustivamente Acolhedora com a Diferença), se comportaram da melhor maneira possível. Sabendo que Walter nunca estivera em Nova York, nomearam-se elegantes embaixadores da cidade, insistindo com Patty para que o levasse a exposições nos museus que a própria Joyce estava ocupada demais em Albany para ter visto, e depois os encontrassem para jantar em restaurantes aprovados pelo Times, entre eles um no SoHo que, àquela altura, ainda era uma área escura e aventurosa. O medo que Patty sentira de seus pais zombarem de Walter deu lugar à preocupação de que Walter pudesse passar para o lado deles e não conseguisse ver por que ela não podia suportá-los: que começasse a achar que o verdadeiro problema era a própria Patty, perdendo a fé cega na bondade dela, à qual àquela altura, em menos de um ano com ele, ela já se aferrava desesperadamente.

Por sorte, Abigail, que era frequentadora assídua de restaurantes caros e fez questão de transformar vários dos jantares em desconfortáveis mesas de cinco, estava no auge de sua antipatia. Incapaz de imaginar outro motivo para que os outros pudessem se reunir além de escutá-la, tagarelava sobre o mundo teatral de Nova York (por definição um mundo injusto, pois não avançara nada desde seu início como substituta); sobre o “lixo nojento” que era um professor de Yale com quem ela tivera divergências Criativas insuperáveis; sobre uma amiga sua chamada Tammy que produzira com dinheiro próprio uma montagem de Hedda Gabler em que ela própria (Tammy) tivera uma atuação brilhante no papel principal; sobre ressacas, as leis que controlavam os aluguéis e perturbadores incidentes sexuais ocorridos com terceiros que Ray, sempre tornando a encher a própria taça de vinho, lhe pedia com insistência para detalhar. No meio do último jantar, no SoHo, Patty ficou de saco tão cheio com o sequestro por Abigail da atenção que todos deveriam dedicar a Walter (que educadamente ouvia cada palavra de Abigail) que disse com todas as letras à irmã que calasse a boca e deixasse os outros falarem. Seguiu-se um intervalo desconfortável de manuseio silencioso de copos e talheres. E então Patty, fazendo gestos cômicos de quem tira água de um poço, fez Walter falar sobre si mesmo. O que hoje, em retrospecto, aparece claramente como um equívoco, porque Walter na época tinha um interesse apaixonado pelas políticas públicas e, desconhecendo como eram os políticos de verdade, acreditava que uma deputada estadual poderia interessar-se por saber o que ele pensava.

Perguntou a Joyce se ela sabia o que era o Clube de Roma. Ela admitiu que não. Walter explicou que o Clube de Roma (ele convidara um de seus membros para ministrar uma palestra no Macalester College dois anos antes) se dedicava a discutir os limites do crescimento. A teoria econômica dominante, tanto marxista quanto defensora do livre mercado, disse Walter, tomava como certo que o crescimento econômico era sempre uma coisa positiva. Taxas de crescimento do pib da ordem de um ou dois por cento eram consideradas modestas, e uma taxa de crescimento populacional de um por cento era considerada desejável, disse ele, mas ainda assim, se projetássemos esses crescimentos para daqui a cem anos, os números eram assustadores: um mundo com dezoito bilhões de habitantes e um consumo mundial de energia dez vezes maior que o de hoje. E se projetasse para dali a cem anos, os números eram simplesmente impossíveis. E por isso o Clube de Roma vinha procurando maneiras mais racionais e piedosas de refrear o crescimento do que simplesmente destruir o planeta e deixar todos morrerem de fome ou chacinarem uns aos outros.

“O Clube de Roma”, disse Abigail. “Tem alguma coisa a ver com o Playboy Club da Itália?”

“Não”, respondeu Walter em voz baixa. “É um grupo de pessoas que contestam a maneira como vemos o crescimento. Quer dizer, todo mundo está tão obcecado com o crescimento mas, se você for pensar bem, para um organismo maduro, o crescimento é basicamente um câncer, não é? Se alguma coisa começar a crescer na sua boca, ou no seu intestino grosso, é ruim, não é? Então esse grupo de intelectuais e filantropos se reuniu e está tentando pensar sem antolhos, e influenciar as políticas de governo nas mais altas esferas, tanto na Europa quanto no resto do hemisfério ocidental!”

“As Coelhinhas de Roma”, disse Abigail.

“Mamma-la-mia!”, disse Ray com um sotaque italiano grotesco.

Joyce pigarreou bem alto. En famille, sempre que Ray começava a falar bobagens e indecências por causa do vinho, ela se limitava a refugiar-se em seus devaneios joycianos particulares, mas na presença do futuro genro não tinha como deixar de ficar constrangida. “Walter está falando de uma ideia muito interessante”, disse ela. “É uma ideia que não conheço bem, e nem esse... clube. Mas sem dúvida é uma visão muito interessante da situação mundial.”

Walter, sem perceber o discreto gesto de cortar o próprio pescoço que Patty lhe fazia, seguiu em frente. “O motivo por que precisamos de algo como o Clube de Roma”, disse ele, “é que uma discussão racional sobre o crescimento precisa começar fora do processo político de todo dia. E você deve saber disso, Joyce. Quem quer se eleger nem pode falar em reduzir um pouco o crescimento, quanto mais em reverter o processo. É um suicídio político.”

“Sem a menor dúvida”, disse Joyce com um riso seco.

“Mas alguém precisa falar do assunto, e tentar influenciar as decisões políticas, porque de outro modo vamos acabar com o planeta. Vamos nos asfixiar com a multiplicação da nossa própria espécie.”

“E por falar em asfixia, papai”, disse Abigail, “essa garrafa é só sua ou eu também posso tomar um pouco?”

“Vamos pedir mais uma”, disse Ray.

“Acho que não é preciso”, disse Joyce.

Ray ergueu a mão que usava para deter Joyce. “Joyce—muita—calma. Está tudo bem.”

Patty, com um sorriso congelado, ficou contemplando os grupos elegantes e plutocráticos instalados em outras mesas à agradável e discreta luz do restaurante. Não há dúvida de que não existia melhor lugar no mundo para estar do que Nova York. Esse fato era a base da satisfação da sua família consigo mesma, a plataforma a partir da qual tudo o mais podia ser ridicularizado, a garantia de sofisticação adulta que lhes valia o direito de se comportar como crianças. Ser Patty e estar sentada naquele restaurante do SoHo era enfrentar uma força com que ela não tinha a menor chance de competir. Sua família considerava Nova York seu território, e jamais cederia terreno. Nunca mais voltar aqui—esquecer que cenas em restaurantes como aquele tinham existido—era sua única opção.

“Você não bebe muito vinho”, disse Ray a Walter.

“Mas sem dúvida poderia beber, se quisesse”, respondeu Walter.

“Este aqui é um ótimo amarone, se você quiser experimentar um pouco.”

“Não, obrigado.”

“Tem certeza?” Ray balançou a garrafa para Walter.

“Ele tem certeza, sim!”, exclamou Patty. “E já disse a mesma coisa nas últimas quatro noites! Preste atenção, Ray! Nem todo mundo quer encher a cara, se comportar mal e ser grosseiro. Certas pessoas gostam de conversar como adultos em vez de ficar duas horas fazendo piadinhas sujas.”

Ray sorriu como se ela tivesse sido engraçada. Joyce desdobrou seus óculos de leitura para examinar o menu de sobremesas enquanto Walter corava e Abigail, com uma torção espástica do pescoço e muitas rugas amargas na testa, disse, “‘Ray?’ ‘Ray?’ Para nós agora ele é ‘Ray’?”.

Na manhã seguinte, Joyce disse a Patty com voz trêmula, “Walter é muito mais—não sei dizer se a palavra certa é conservador, ou qual seja, acho que não exatamente conservador em relação ao processo democrático, o poder correndo de baixo para cima, e prosperidade para todos, não exatamente autocrático, mas, de certa forma sim, quase conservador—do que eu esperava”.

Ray, dois meses mais tarde, na formatura de Patty, com um sorriso de desprezo mal contido, disse a Patty: “Walter ficou tão vermelho falando daquela história de crescimento, meu Deus, que achei que ele fosse ter um ataque”.

E Abigail, seis meses depois disso, no único Dia de Ação de Graças que Patty e Walter cometeram a sandice de ir comemorar em Westchester, disse a Patty: “Como vão as coisas com o Clube de Roma? Você já conseguiu a senha? Já se sentou nas cadeiras de couro?”.

Patty, no aeroporto La Guardia, soluçando, disse a Walter, “Odeio a minha família!”.

E Walter, com bravura, respondeu: “Vamos fazer a nossa!”.

Pobre Walter. Primeiro deixou de lado seus sonhos de ser ator e cineasta por sentir uma obrigação financeira com seus pais, e então, assim que o pai o libertou, morrendo, ele se emparelhou com Patty e abandonou suas aspirações de salvar o planeta e foi trabalhar para a 3M, de modo que Patty pudesse ter sua excelente casa antiga e lá ficar com as crianças. E tudo aconteceu quase sem conversa alguma. Ele ficava animado com os planos que a deixavam animada, dedicava-se de corpo e alma à reforma da casa e a defendê-la da família. Foi só muitos anos mais tarde—depois que Patty começou a decepcioná-lo—que ele passou a ter uma postura mais indulgente com o resto da família Emerson e a dizer que Patty tinha muita sorte, pois fora a única a escapar do naufrágio dos Emerson e sobreviver para contar a história. Disse que Abigail, perdida e precisando correr atrás de restos de alimento emocional numa ilha de grande escassez (a ilha de Manhattan!), devia ser perdoada por monopolizar as conversas num esforço para se nutrir. Disse que Patty devia se apiedar de suas irmãs, e não culpá-las, por não terem tido a força ou a sorte de escapar: por serem tão famintas. Mas tudo isso só viria muito mais tarde. Naqueles primeiros anos, seu entusiasmo por Patty era tão inflamado que, para ele, ela não tinha como errar. E foram anos muito bons.

A competitividade de Walter não era dirigida para dentro da família. Quando ela o conheceu, ele já tinha vencido esse jogo. Na mesa de pôquer da família Berglund, ele recebeu todos os ases menos talvez a beleza e a facilidade com as mulheres. (Este foi para o irmão mais velho—atualmente casado com a terceira esposa jovem, que trabalha duro para sustentá-lo.) Walter não só sabia da existência do Clube de Roma, lia romances difíceis e apreciava Igor Stravinski, como também podia soldar uma junta de canos de cobre, fazer acabamentos de carpintaria, identificar passarinhos pelo canto e cuidar bem de uma mulher problemática. Era a tal ponto o vencedor da sua família que podia se dar ao luxo de viagens regulares para ajudar os demais.

“Acho que agora você vai ter de conhecer o lugar onde passei a infância”, disse ele a Patty à porta do ponto de ônibus de Hibbing, depois que ela abandonou no meio sua viagem de carro com Richard. Estavam no Crown Victoria do pai dele, cujos vidros embaçaram com suas exalações quentes e densas.

“Quero ver o seu quarto”, disse Patty. “Quero ver tudo. Acho você uma pessoa maravilhosa!”

Ao ouvir essas palavras, ele precisou passar mais um bom tempo beijando Patty antes de retomar sua ansiedade. “Seja como for”, disse ele, “ainda estou envergonhado de levar você à minha casa.”

“Não fique. Você devia ver a minha. É um circo de horrores.”

“Bem, aqui nem é tão interessante. É só a vida desolada comum da Zona do Ferro.”

“Vamos lá então. Eu quero ver tudo. E quero dormir com você.”

“Ótima ideia”, disse ele, “mas acho que a minha mãe vai ficar meio atrapalhada com isso.”

“Quero dormir perto de você. E depois tomar café com você.”

“Isso a gente pode dar um jeito.”

Na verdade, o panorama no Motel Whispering Pines deixou Patty um tanto chocada, desencadeando um momento de dúvida quanto à decisão de ter ido até Hibbing; perturbou aquele estado de espírito comedido em que ela acorrera para junto de um sujeito que, fisicamente, não provocava nela o mesmo que seu melhor amigo. O motel, visto de fora, nem era tão feio, e havia uma quantidade nada deprimente de carros no estacionamento, mas os aposentos em que a família vivia, por trás da recepção, eram de fato muito diferentes do que ela conhecia em Westchester. Realçavam um universo até então invisível de privilégios, os seus privilégios de moradora dos subúrbios ricos; e ela sentiu uma inesperada pontada de saudade de casa. O piso era coberto de um carpete esponjoso, num declive perceptível na direção do riacho que passava pelos fundos. Na sala de jantar/estar havia um cinzeiro de cerâmica do tamanho de uma calota de automóvel, em forma de torre medieval, bem ao alcance do sofá onde Gene Berglund costumava ler suas revistas sobre caça e pesca e ver a programação que a antena do motel (montada, como ela veria na manhã seguinte, no topo de um pinheiro decapitado por trás da fossa séptica) era capaz de extrair das estações das Cidades Gêmeas de Minneapolis e St. Paul e de Duluth. O quartinho de Walter, que ele dividia com o irmão mais novo, ficava no ponto mais baixo do declive e estava sempre úmido com as emanações do riacho. Pelo meio do carpete corria uma linha de resíduo grudento da fita isolante que Walter estendera quando criança para demarcar seu espaço privativo. A parafernália de sua próspera infância estava toda arrumada na parede do fundo: manuais e prêmios de escotismo, uma coleção completa de biografias resumidas dos presidentes americanos, uma coleção parcial de volumes da World Book Encyclopedia, esqueletos de animais de pequeno porte, um aquário vazio, coleções de selos e moedas, um termômetro/barômetro científico com fios que o ligavam à janela. Na porta empenada do quarto havia um aviso feito em casa de Não Fumar, com as letras em lápis de cera vermelho, o N e o F um tanto hesitantes mas bem altos em seu desacato.

“Meu primeiro gesto de rebeldia”, disse Walter.

“Quantos anos você tinha?”, perguntou Patty.

“Não sei. Uns dez, talvez. Meu irmão caçula era muito asmático.”

Do lado de fora, a chuva caía forte. Dorothy dormia em seu quarto, mas Walter e Patty fervilhavam de desejo. Ele lhe mostrou o “bar” que seu pai gerenciava, o impressionante peixe de rio empalhado e preso à parede, da espécie conhecida como walleye, o balcão de compensado de vidoeiro que ele ajudara o pai a construir. Até ser internado pouco tempo antes, Gene começava a beber e fumar atrás daquele balcão todo fim de tarde, esperando os amigos saírem do trabalho e virem beber alguma coisa.

“Você está vendo quem eu sou”, disse Walter. “É daqui que eu saí.”

“Adorei que você tenha saído daqui.”

“Não sei bem o que você quer dizer, mas tudo bem.”

“Só que eu admiro muito você.”

“Muito bom. Acho eu.” Foi até o balcão e examinou as chaves penduradas. “Que tal o quarto 21?”

“É bom?”

“Muito parecido com todos os outros.”

“Completei vinte e um anos de idade. Então está perfeito.”

O quarto 21 estava cheio de superfícies desbotadas e desgastadas que, em lugar de terem sido novamente revestidas, haviam sido submetidas a décadas de esfregação vigorosa. A umidade do riacho era perceptível mas não insuportável. As camas eram baixas e de tamanho comum, não queen size.

“Você não precisa ficar, se não quiser”, disse Walter, pondo a maleta dela no chão. “Posso levar você de volta ao ponto do ônibus amanhã de manhã.”

“Não! Está ótimo. Não vim aqui para passar férias. Vim para ver você, e tentar ajudar em alguma coisa.”

“Ótimo. Só estou com medo de não ser realmente o que você quer.”

“Bem, não precisa mais se preocupar.”

“Mas eu continuo preocupado mesmo assim.”

Ela o deitou numa das camas e tentou acalmá-lo com seu corpo. Dali a pouco, porém, a preocupação dele tornou a arder. Ele se endireitou e perguntou por que ela tinha querido fazer de carro com Richard. Era uma pergunta que ela se permitira esperar que ele não fizesse.

“Não sei”, disse ela. “Acho que eu queria ver como era a viagem de carro.”

“Hum.”

“Tinha uma coisa que eu precisava descobrir. Não sei explicar de outro modo. Era uma coisa que eu precisava entender. Eu descobri, e agora vim para cá.”

“O que você descobriu?”

“Descobri onde eu queria estar, e com quem.”

“Foi bem rápido.”

“Foi uma besteira, um engano”, disse ela. “Ele tem um jeito de olhar para as pessoas que você deve saber qual é. E a pessoa precisa de algum tempo para entender o que ela realmente quer. Não me condene por isso.”

“Só fico impressionado de você ter conseguido entender tudo em tão pouco tempo.”

Ela teve o impulso de começar a chorar, entregou-se a esse impulso, e Walter se transformou por um tempo em sua melhor encarnação de consolador.

“Ele não me tratou nada bem”, disse ela em meio às lágrimas. “E você é exatamente o contrário. E eu preciso tanto, tanto, do contrário disso agora. Pode me tratar bem, por favor?”

“Posso tratar você bem”, disse ele, afagando sua cabeça.

“Garanto que você não vai se arrepender.”

Foram exatamente as palavras que ela disse, na arrependida lembrança da autobiógrafa.

Eis outra coisa que a autobiógrafa relembra com nitidez: a violência com que Walter agarrou seus ombros naquele momento, a fez rolar para ficar deitada de costas e deitou-se sobre ela, pressionando-a entre as pernas, com uma expressão no rosto que ela nunca tinha visto. Era uma expressão de raiva, e ele ficava bonito com ela. Era como se cortinas se abrissem e desvendassem de repente uma visão máscula e bela.

“Não é por sua causa”, disse ele. “Entendeu? Eu amo tudo em você. Cada parte sua. Cada centímetro. Desde a primeira vez que eu vi você. Entendeu?”

“Entendi,” disse ela. “Quer dizer, obrigada. Eu imaginava alguma coisa assim, mas é bom ouvir com todas as letras.”

Mas ele ainda não tinha terminado.

“Você entende que eu tenho um... um...” Procurou pela palavra certa. “Um problema. Com Richard. Eu tenho um problema.”

“Que problema?”

“Não confio nele. Gosto muito dele, mas não confio.”

“Ah, meu Deus”, disse Patty, “pois devia confiar. Ele evidentemente gosta de você também. Protege você o tempo todo.”

“Nem sempre.”

“Bom, comigo ele protegeu. Você sabe o quanto ele admira você?”

Walter lançou-lhe um olhar furioso de cima para baixo. “Então por que você foi com ele? Por que ele ficou com você em Chicago? Que porra foi essa? Eu não consigo entender!”

Ao ouvi-lo dizer porra, e ao ver como ele parecia horrorizado com a própria raiva, ela começou novamente a chorar. “Meu Deus, por favor, por favor, meu Deus, por favor”, disse ela, “eu estou aqui, não estou? Estou aqui por sua causa! E não aconteceu nada em Chicago. Nada, eu juro.”

Ela o puxou para junto de si, beijou-o com força nos lábios. Mas em vez de apalpar seus seios ou tirar suas calças jeans, como Richard certamente teria feito, ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro do quarto 21.

“Não sei se está certo”, disse ele. “Porque, sabe, eu não sou um idiota. Tenho olhos e ouvidos, e não sou um idiota. Realmente não sei o que fazer agora.”

Foi um alívio ouvi-lo dizer que não era um idiota e que sabia da coisa de Richard; mas ela julgou não ter mais nenhum meio para tentar convencê-lo de que estava tudo bem. Ficou simplesmente deitada ali na cama, ouvindo a chuva bater no telhado, sabendo que podia ter evitado toda aquela cena se nunca tivesse entrado no carro de Richard; sabendo que merecia castigo. No entanto, era difícil imaginar um desdobramento melhor para a situação. E tudo era uma prévia perfeita das cenas das madrugadas dos anos futuros. A linda raiva de Walter sendo desperdiçada enquanto ela chorava, ele a castigava e se desculpava por lhe impor o castigo, dizendo que estavam ambos exaustos e que estava tarde, o que era sempre fato: tão tarde que já era cedo.

“Vou tomar um banho”, disse ela finalmente.

Ele estava sentado na outra cama, com o rosto enterrado nas mãos. “Desculpe”, disse ele. “Mas na verdade não é com você.”

“Mas quer saber de uma coisa? Essa frase não é uma das minhas favoritas.”

“Desculpe. Acredite ou não, eu digo isso com a melhor das intenções.”

“E ‘desculpe’ também não é uma palavra muito cotada na minha lista.”

Sem tirar as mãos do rosto, ele perguntou se ela queria ajuda no banho.

“Não precisa”, disse ela, embora fosse uma produção e tanto tomar banho sem molhar o joelho engessado e envolto em ataduras. Quando ela emergiu do banheiro de pijama, meia hora mais tarde, Walter dava a impressão de não ter movido um músculo. Ela ficou parada diante dele, olhando de cima para baixo para seus cachos de cabelos claros e seus ombros estreitos. “Escute aqui, Walter”, disse ela. “Posso ir embora amanhã cedo se você quiser. Mas agora eu preciso dormir. E você também devia ir para a cama.”

Ele assentiu com a cabeça.

“Sinto muito ter ido até Chicago com Richard. A ideia foi minha, e não dele. Você devia botar a culpa em mim, e não nele. Mas agora você está me deixando muito mal com essa história.”

Ele fez que sim e se levantou.

“Me dá um beijo de boa-noite?”, disse ela.

Ele deu, e foi muito melhor do que brigar, tão melhor que dali a pouco estavam os dois debaixo das cobertas apagando o abajur. A luz do dia já se infiltrava pelas bordas das cortinas—o amanhecer vinha cedo em maio nas regiões mais ao norte do país.

“Eu não sei de muita coisa sobre sexo”, confessou Walter.

“Bem”, disse ela, “nem é muito complicado.”

E assim começaram os anos mais felizes da vida deles. Para Walter, especialmente, foi uma época vertiginosa. Ele possuiu a garota que queria, a garota que podia ter ido embora com Richard mas preferiu ficar com ele, e então, três dias depois, no hospital luterano, seu conflito da vida inteira com o pai se encerrou com a morte deste. (Não existe pai mais derrotado do que aquele que morre.) Patty estava com Walter e Dorothy no hospital naquela manhã, e as lágrimas dos dois a levaram a verter algumas por conta própria, e lhe pareceu, enquanto voltavam de carro para o motel quase em silêncio, que já estava praticamente casada.

No estacionamento do motel, depois que Dorothy entrou e foi se deitar um pouco, Patty viu Walter fazer uma coisa estranha. Ele correu de um lado para o outro do estacionamento, dando saltos enquanto corria, dando um pulo na ponta dos pés para dar a volta e correr de volta. A manhã estava linda e ensolarada, com um vento forte e constante soprando do norte, e os pinheiros ao longo do riacho chegavam a sussurrar. No final de um de seus piques, Walter ficou pulando no mesmo lugar com os dois pés, depois deu as costas para Patty e saiu correndo pela Route 73, até percorrer toda a curva e desaparecer de vista, e só voltou dali a uma hora.

Na tarde seguinte, no Quarto 21, em plena luz do dia, com as janelas abertas e o vento enfunando as cortinas desbotadas, os dois riram, choraram e treparam com uma alegria cuja seriedade e inocência quase partem o coração da autobiógrafa quando se recorda, choraram mais um pouco, treparam mais um pouco e depois ficaram deitados lado a lado com os corpos suados, os corações repletos, escutando o sussurro dos pinheiros. Patty tinha a impressão de ter tomado uma droga poderosa cujo efeito nunca passava, ou de ter caído num sonho de uma incrível nitidez do qual não despertava nunca, mas em que permanecia plenamente consciente, de segundo a segundo a segundo, e que não era uma droga nem um sonho mas só a vida acontecendo com ela, uma vida só com presente e sem passado, um romance diferente de qualquer romance que já tivesse imaginado. Por causa do Quarto 21! Como ela poderia ter imaginado o Quarto 21? Era um quarto tão lindamente limpo e antiquado, e Walter, um sujeito tão lindamente limpo e antiquado. E ela estava com vinte e um anos e podia sentir toda aquela vinte-e-unidade no vento jovem, limpo e forte que lhe chegava do Canadá. Sua pequena amostra da eternidade.

Mais de quatrocentas pessoas vieram ao enterro do pai de Walter. Em nome de Gene, embora nunca tenha chegado a conhecê-lo, Patty ficou orgulhosa com a grande afluência a seu funeral. (Nada como morrer cedo para ter um enterro concorrido.) Gene era um sujeito hospitaleiro, que gostava de caçar, pescar e passar o tempo com os amigos, muitos deles veteranos de guerra, que tivera a má sorte de se tornar alcoólatra, ter estudado pouco e casado com uma pessoa que investiu suas esperanças, seus sonhos e seu melhor amor no filho do meio, e não no marido. Walter jamais perdoou Gene por ter obrigado Dorothy a se esfalfar tanto no motel, mas para falar com franqueza, na opinião da autobiógrafa, embora Dorothy fosse incrivelmente gentil, também era sem dúvida um desses tipos de mártir. A recepção depois do enterro, num salão de recepção luterano, foi o curso-relâmpago de imersão total de Patty na extensa família de Walter, um festival de bolos em fôrma de pudim e obstinação de ver o lado bom de todas as coisas. Todos os cinco irmãos vivos de Dorothy compareceram, assim como o irmão mais velho de Walter, recém-libertado da cadeia, acompanhado de sua (primeira) mulher bonitona mas com certo ar de vagabunda e os dois filhos do casal, assim como o taciturno irmão mais novo de uniforme de gala do exército. A única pessoa importante que faltou, na verdade, foi Richard.

Walter ligou para ele dando a notícia, claro, muito embora tenha sido complicado, pois a ligação exigira um esforço para localizar Herrera, o contrabaixista sempre difícil de encontrar, em Minneapolis. Richard tinha acabado de chegar a Hoboken, Nova Jersey. Depois de apresentar seus pêsames telefônicos a Walter, Richard disse que estava em péssimas condições financeiras e sentia muito mas não teria como ir ao enterro. Walter pensou que tudo bem, mas depois disso passou vários anos reclamando de Richard por não ter feito um esforço, o que não era inteiramente justo, já que Walter no íntimo tinha ficado furioso com Richard e nem mesmo queria que ele fosse ao enterro. Mas Patty teve o bom senso de não ser a pessoa que diria isso a Walter.

Quando fizeram a viagem a Nova York, um ano mais tarde, ela sugeriu a Walter que procurasse Richard e passasse uma tarde com ele, mas Walter respondeu que tinha ligado duas vezes para Richard nos últimos meses ao passo que Richard não havia tomado a iniciativa de ligar para ele uma vez sequer. Patty disse, “Mas ele é o seu melhor amigo”, e Walter respondeu, “Não, minha melhor amiga é você”, ao que Patty respondeu, “Bem, pelo menos ele é o seu melhor amigo homem, e você devia falar com ele”. Mas Walter lembrou que sempre tinha sido assim—que ele sempre se sentia mais como o que procura do que como o procurado; que havia entre eles dois certo gosto por andar no fio da navalha, uma concorrência para nunca ser o primeiro a piscar ou demonstrar alguma carência—e que ele estava farto daquilo. Disse que já não era a primeira vez que Richard fizera esse número de desaparecimento. Se Richard quisesse continuar amigo dele, disse Walter, quem sabe dessa vez se dava ao trabalho de telefonar. Embora Patty suspeitasse que Richard ainda pudesse estar encabulado por causa do episódio de Chicago e tentara não atrapalhar a felicidade pessoal de Walter, e que portanto podia caber a Walter assegurar-lhe que ainda seria bem recebido, mais uma vez teve o bom senso de não dizer nada nem fazer pressão.

Enquanto Eliza via um lance gay na relação entre Walter e Richard, a autobiógrafa hoje vê antes uma concorrência entre irmãos. Depois que Walter se cansou de ser maltratado e esmurrado pelo irmão mais velho e de por sua vez maltratar e esmurrar seu irmão mais novo, não havia concorrência satisfatória na sua família. Ele precisava de mais um irmão para amar, odiar e com quem competir. E a questão que sempre atormentou Walter, no parecer da autobiógrafa, era se Richard era um irmão mais novo ou mais velho, o fracassado ou o herói, o amigo amado e problemático ou o rival a temer.

Como no caso de Patty, Walter afirmava ter começado a amar Richard à primeira vista. Tinha acontecido em sua primeira noite no Macalester College, depois que seu pai o deixara no alojamento e voltara correndo para chegar logo a Hibbing, onde a garrafa de Canadian Club o chamava do bar. Walter enviara uma bela carta a Richard no verão, um endereço que lhe fora fornecido pela administração do dormitório, mas Richard não respondeu. Numa das camas do quarto deles no dormitório havia uma caixa de violão, um caixote de papelão e uma sacola de lona. Walter só foi ver o proprietário daquela bagagem mínima depois do jantar, num encontro no salão do dormitório. Foi um momento que ele mais tarde descreveria muitas vezes para Patty: como, de pé num canto, longe de todo mundo, estava esse rapaz de quem ele não conseguia despregar os olhos, um sujeito muito alto e coberto de acne, com os cabelos encaracolados formando um capacete em torno da cabeça e uma camiseta do Iggy Pop, totalmente diferente dos outros calouros e sem rir, nem mesmo sorrir educadamente, do discurso carregado de piadinhas do inspetor residente. Walter sempre sentia muita pena de gente que tentava ser engraçada, e ria alto para recompensá-las por seus esforços, no entanto percebeu na mesma hora que queria ser amigo daquela pessoa alta que nem sorria. Esperava que fosse ele seu companheiro de quarto, e era.

E o mais notável é que Richard gostou dele. Começou com o fato de Walter vir da cidade onde Bob Dylan tinha sido criado. No quarto deles, depois da reunião, Richard bombardeou Walter de perguntas sobre Hibbing, como era o cenário, e se Walter tinha conhecido pessoalmente alguém da família Zimmerman. Walter explicou que o motel ficava a vários quilômetros da cidade, mas o próprio motel deixou Richard impressionado, assim como o fato de Walter ter obtido uma bolsa integral com um pai alcoólatra. Richard contou que não tinha respondido a carta de Walter porque o pai dele tinha morrido de câncer cinco semanas antes. E disse que, como Bob Dylan era um babaca, o tipo mais lindamente puro de babaca, que fazia qualquer jovem músico também querer ser um babaca, ele sempre imaginara que Hibbing era um lugar repleto de babacas. Walter, com suas faces cobertas de penugem, sentado naquele quarto de dormitório, escutando atentamente seu companheiro de quarto e fazendo o possível para impressioná-lo, era uma clara refutação dessa teoria.

Já naquela primeira noite Richard fez comentários sobre garotas que Walter nunca mais esqueceu. Disse que ficara muito mal impressionado com a alta proporção de garotas acima do peso em Macalester. Disse que tinha passado a tarde andando pelas ruas da vizinhança, tentando descobrir onde as garotas locais se reuniam. Disse que tinha ficado pasmo com a quantidade de pessoas que tinha acenado e trocado algum cumprimento com ele. Até as garotas mais bonitas tinham sorrido e dito olá. Em Hibbing também era assim? Contou que, no enterro do pai, tinha conhecido uma prima muito gostosa que infelizmente só tinha treze anos e agora estava mandando cartas sobre suas aventuras masturbatórias. Embora Walter nunca tenha precisado de muito estímulo para ser solícito com as mulheres, a autobiógrafa não tem como deixar de pensar na especialização polarizadora que costuma derivar da rivalidade entre irmãos, e se perguntar se a obsessão de Richard por arrumar garotas não terá dado a Walter um incentivo adicional para não competir nesse campo em especial.

Fato importante: Richard não tinha a menor proximidade com a mãe. Ela nem foi ao enterro do pai. Pelo que o próprio Richard contou a Patty (muito mais tarde), a mãe era uma mulher instável que com o tempo se transformou numa fanática religiosa mas não antes de transformar num inferno a vida do sujeito que a engravidara aos dezenove anos. O pai de Richard era saxofonista e boêmio, morando no Greenwich Village. A mãe era uma jovem alta e rebelde anglo-saxã, branca e protestante de boa família e autocontrole deficiente. Depois de quatro anos tumultuados de bebedeiras e infidelidades em série, ela deixou por conta do sr. Katz a criação do filho dos dois (primeiro ainda no Village, depois em Yonkers) enquanto ela partia para a Califórnia, descobria Jesus e paria mais quatro crianças. O sr. Katz deixou de ser músico mas não, infelizmente, de beber. Acabou trabalhando para os Correios e nunca mais tornou a se casar, e pode-se dizer com certeza que suas várias jovens namoradas, nos anos anteriores à ruína que a bebida acabou por lhe trazer, pouco fizeram para comparecer com a presença materna estabilizadora de que Richard carecia. Uma delas depenou o apartamento deles antes de desaparecer; outra tirou a virgindade de Richard enquanto tomava conta dele à noite. Pouco depois desse episódio, o sr. Katz mandou Richard passar as férias com a mãe e a família, mas ele não aguentou nem uma semana. Em seu primeiro dia na Califórnia, toda a família se reuniu à sua volta de mãos dadas para dar graças a Deus por sua chegada em segurança, e ao que tudo indica as coisas só foram ficando ainda mais estranhas a partir daí.

Os pais de Walter, que só frequentavam a igreja socialmente, abriram sua casa para o órfão compridão. Dorothy gostou especialmente de Richard —e pode até, na verdade, ter tido a seu jeito certa queda por ele—e sempre o convidava para passar as férias em Hibbing. E Richard nem precisava que o convidassem duas vezes, pois não tinha mais para onde ir. Encantou Gene por demonstrar interesse pelo manejo de armas de fogo e, de maneira mais geral, por não ser do tipo dos “garotos metidos” das cidades grandes com quem Gene temia que Walter se envolvesse, e ainda impressionou Dorothy por não se incomodar em ajudar na casa. Como já foi assinalado, Richard tinha um desejo forte (embora intermitente) de ser boa pessoa, e se mostrava escrupulosamente bem-educado com as pessoas que, como Dorothy, considerava Boas. A maneira como ele a tratava, interessando-se em detalhes por algum ensopado comum que ela tinha feito, perguntando onde ela tinha encontrado a receita e onde uma pessoa podia aprender como manter uma dieta bem equilibrada, parecia a Walter fingida e condescendente, pois a possibilidade de que Richard um dia viesse a fazer compras e preparar ele próprio um ensopado era nula, e porque Richard sempre revertia à aspereza do seu comportamento habitual assim que Dorothy saía da sala. Mas Walter competia com ele, e embora Walter possa não ter se destacado muito na conquista das meninas da cidade, o terreno de ouvir o que as mulheres tinham a dizer com uma atenção sincera era sem dúvida um domínio em que triunfava, e que guardava com grande zelo. A autobiógrafa, assim, se considera mais fidedigna do que Walter no que diz respeito à autenticidade do respeito de Richard pela bondade humana.

O que era inquestionavelmente admirável em Richard era seu empenho em aperfeiçoar-se e preencher o vácuo deixado pela ausência dos pais. Tinha sobrevivido à infância graças à música e à leitura de livros que escolhia idiossincraticamente, e parte do que o ligava a Walter era o intelecto de Walter e sua ética do trabalho. Richard era muito lido em certas áreas (existencialismo francês, literatura latino-americana), mas não tinha método nem sistema, e nutria uma admiração genuína pela organização intelectual de Walter. Embora dedicasse a Walter o respeito de nunca tratá-lo com a hiperpolidez que reservava para as pessoas que considerava Boas, adorava ouvir Walter falar sobre suas ideias e pedir-lhe explicações sobre suas convicções políticas fora do comum.

A autobiógrafa desconfia que Richard também encontrasse uma vantagem competitiva perversa em travar amizade com um garoto não muito seguro do norte do país. Era um modo de se diferenciar do pessoal “moderno” de Macalester, que vinha de famílias mais privilegiadas. Richard tratava essas pessoas com o mesmo desdém (inclusive as meninas, embora isso não excluísse trepar com elas quando surgia a oportunidade) que elas próprias dedicavam a pessoas como Walter. O documentário sobre Bob Dylan, Don’t look back, foi tão importante para Richard e para Walter que Patty o alugou e o viu com Walter, numa noite quando as crianças eram pequenas, para poder assistir à famosa cena em que Dylan sobrepuja em brilho e humilha o cantor Donovan numa festa para a cena moderna de Londres, pelo puro prazer de pentelhar os outros. Embora Walter sentisse pena de Donovan—e, pior, ficasse com vergonha por não querer ser mais parecido com Dylan e menos com Donovan—, Patty achou a cena fascinante. A nudez eletrizante da competitividade de Dylan! O que ela sentiu foi: temos de admitir que vencer é uma delícia. A cena a ajudou a entender por que Richard tinha preferido ficar amigo de Walter, que não era nada musical, e não do pessoal “moderno”.

Continuar: parte 2 de 4