Liberdade

Jonathan Franzen · Capítulo 9 de 12 · parte 1/3

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Liberdade

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

A mãe de Jonathan e Jenna, Tamara, teve um acidente em Aspen. Tentando evitar uma colisão com um adolescente impetuoso, ela cruzou os esquis e fraturou dois ossos da perna esquerda, acima da bota, ficando assim impossibilitada de juntar-se a Jenna na viagem de janeiro para cavalgar na Patagônia. Para Jenna, que presenciara o tombo de Tamara e saíra atrás do adolescente, dando queixa contra ele enquanto Jonathan prestava os primeiros socorros à mãe caída, o acidente foi apenas o último item de uma longa lista de coisas que deram errado em sua vida depois que se formara na Universidade de Duke, na primavera anterior; mas para Joey, que vinha falando com Jenna duas ou três vezes por dia nas semanas mais recentes, o acidente fora uma mais do que esperada pequena dádiva dos deuses—a chance que ele aguardava havia mais de dois anos. Jenna, depois de formar-se, mudara-se para Manhattan a fim de trabalhar para uma famosa promotora de festas e tentar morar com seu quase-noivo, Nick, mas em setembro acabou alugando outro apartamento só para ela, e em novembro, cedendo à pressão declarada e incessante da família e às sabotagens mais sutis de Joey, que se autonomeara seu Confidente Compreensivo de Plantão, declarou que sua relação com Nick estava rescindida e extinta em caráter irrevogável. A essa altura, ela vinha tomando uma dose razoavelmente alta de Lexapro, e não havia nada em sua vida que a animasse além da ideia de ir cavalgar na Patagônia, viagem que Nick prometera várias vezes fazer com ela e várias vezes tinha adiado, alegando sua intensa carga de trabalho na Goldman Sachs. Ocorre que Joey já tinha montado, um tanto sem jeito, durante férias escolares de verão em Montana. Pela alta frequência das ligações e das mensagens de texto de Jenna para seu celular, ele já desconfiava que tinha sido promovido à posição de objeto provisório, ou mesmo de potencial namorado de pleno direito, e suas últimas dúvidas se dissiparam quando ela o convidou para dividir com ela o quarto no luxuoso resort argentino que Tamara tinha reservado antes do acidente. Como calhou de Joey ter negócios no Paraguai, logo ao lado, sabendo que mais cedo ou mais tarde precisaria ir até lá, quisesse ou não, ele respondeu que sim na mesma hora. O único argumento concreto contra viajar com ela para a Argentina era o fato de que, cinco meses antes, aos vinte anos de idade, num surto de loucura em Nova York, ele se dirigira ao Fórum na ponta sul de Manhattan e lá se casara com Connie Monaghan. Mas essa não era nem de longe a maior das suas preocupações, e ele decidiu, por algum tempo, ignorá-la.

Na véspera de tomar um avião para Miami, onde Jenna estava visitando uma avó e iria encontrá-lo no aeroporto, ele ligou para Connie em St. Paul e lhe deu a notícia de sua viagem iminente. Sentia muito ter de decepcioná-la e ficar longe dela, mas seus planos sul-americanos lhe davam um boa desculpa para adiar mais um pouco a vinda dela para a Costa Leste e sua mudança para o apartamento próximo à rodovia que ele alugava numa área de Alexandria totalmente desprovida de encantos. Até poucas semanas antes, sua desculpa eram os estudos, mas agora ele trancara a matrícula por um semestre para poder dedicar-se aos seus negócios, e Connie, que sofria o diabo em casa com Carol, Blake e suas irmãs gêmeas bebês, não entendia por que ainda não podia ir morar com o marido.

“Também não entendo por que você vai a Buenos Aires”, disse ela, “se o seu fornecedor fica no Paraguai.”

“Quero ter algum tempo para praticar espanhol”, disse Joey, “antes de precisar usá-lo a sério. Todo mundo diz que Buenos Aires é uma cidade linda. E de qualquer maneira meu voo faz escala no aeroporto de lá.”

“Bem, e o que você acha de tirar uma semana inteira e a gente passar a nossa lua de mel por lá mesmo?”

A viagem de lua de mel que não tinham feito era um dos vários temas ingratos atravessados entre os dois. Joey repetiu seu pronunciamento oficial a respeito, tornando a dizer que estava enlouquecido demais com o trabalho para conseguir relaxar numa viagem de férias, e Connie caiu num dos silêncios a que recorria à guisa de protesto. Ainda era incapaz de reclamar abertamente com ele.

“Literalmente em qualquer ponto do planeta”, disse ele. “Depois que eu receber, levo você para qualquer lugar do mundo que você queira conhecer.”

“Para mim já estava bom morar com você e acordar na mesma cama.”

“Eu sei, eu sei”, disse ele. “E eu também acharia ótimo. É só que a pressão agora está tão grande que eu não vejo a menor graça para ninguém em estar ao meu lado.”

“É que você não quer ver a graça”, disse ela.

“Falamos disso quando eu voltar, está bem? Eu prometo.”

Ao fundo, em St. Paul, ele ouvia os guinchos distantes de uma criança de um ano. Não era filho de Connie, mas passava tão perto disso que ele ficava nervoso. Ele só tinha estado com ela uma vez depois de agosto, em Charlottesville, no fim de semana prolongado do Dia de Ação de Graças. O período do Natal (outro tema ingrato) ele passara se mudando de Charlottesville para Alexandria e fazendo rápidas aparições em Georgetown em visita à família. Contou a Connie que estava trabalhando muito em suas vendas para o governo, mas na verdade tinha passado dias inteiros à toa, assistindo futebol americano, escutando Jenna ao telefone, e de maneira geral se sentindo totalmente fodido. Connie podia tê-lo convencido a deixá-la tomar o avião para visitá-lo de qualquer maneira, se não estivesse derrubada de gripe. Ele ficara perturbado de ouvir aquela vozinha fraca, sabendo que era casado com ela, e não sair correndo para o lado dela, mas naquele mesmo momento precisava ir à Polônia. O que ele descobriu em Łódz´ e Varsóvia, durante três dias frustrantes com um “intérprete” expatriado que vivia nos Estados Unidos e cujo polonês, no fim das contas, era excelente para fazer pedidos em restaurantes mas dependia quase integralmente de um aparelho eletrônico quando precisava lidar com calejados negociantes eslavos, deixara-o tão infeliz e assustado que, nas semanas que haviam transcorrido desde a sua volta, fora incapaz de concentrar o espírito no trabalho por mais que cinco minutos de cada vez. Tudo agora dependia do Paraguai. E era muito mais agradável imaginar a cama que iria dividir com Jenna que pensar no Paraguai.

“Você está usando a aliança?”, perguntou Connie.

“Bem—não”, disse ele, antes de pensar melhor no assunto. “Está no meu bolso.”

“Hum.”

“Mas botei agora no dedo”, disse ele, deslocando-se na direção do pratinho onde punha as moedas em sua mesa de cabeceira e onde deixara a aliança. Sua mesa de cabeceira era um caixote de papelão. “Entrou muito bem, está linda.”

“A minha eu não tiro nunca”, disse Connie. “Adoro usar o tempo todo. Faço força para me lembrar de usar na mão direita fora do meu quarto, mas às vezes eu esqueço.”

“Não se esqueça. Não vai ser bom.”

“Está tudo bem, cara. Carol nunca repara nessas coisas. Nem gosta de olhar para mim. A vista de uma não tem agradado a outra ultimamente.”

“Mas mesmo assim precisamos tomar cuidado, está bem?”

“Não sei.”

“Só mais um pouco”, disse ele. “Só até eu contar para os meus pais. Aí você pode começar a usar aliança o quanto quiser. Quer dizer, nós dois vamos usar. Foi o que eu quis dizer.”

É difícil comparar silêncios, mas o silêncio em que ela recaiu agora parecia especialmente ressentido, especialmente triste. Ele sabia o quanto era penoso para ela manter o casamento em segredo, e ele nunca parava de desejar que a perspectiva de dar a notícia a seus pais se tornasse menos assustadora para ele, mas com a passagem dos meses a perspectiva só lhe metia mais medo. Tentou pôr a aliança no dedo, mas ela não passou pela primeira junta. Tinha comprado aquelas alianças às pressas, em agosto, em Nova York, e a dele era um pouco pequena. Ele a enfiou na boca, percorrendo seu perímetro interno com a língua como se fosse um dos orifícios de Connie, o que o deixou um tanto excitado. Estabeleceu uma ligação entre ele e ela, transportou-o de volta para agosto e a loucura do que os dois tinham feito. Tentou enfiar a aliança, muito lubrificada pela baba, em seu dedo.

“Conte o que você está vestindo”, disse ele.

“Roupas.”

“Mas de que jeito?”

“Nenhum. Só roupas.”

“Connie, juro que conto para eles assim que eu receber. Por enquanto, só preciso manter as coisas mais ou menos separadas. A porra desse contrato está me levando à loucura, e por enquanto não vou conseguir enfrentar mais nenhuma dificuldade. Então me conte o que você está vestindo, que tal? Eu quero poder imaginar você.”

“Roupas.”

“Por favor...”

Mas ela tinha começado a chorar. Ele ouviu um gemido muito abafado, o micrograma de sofrimento que ela deixou tornar-se audível. “Joey”, sussurrou ela. “Cara. Desculpe, desculpe muito. Acho que não consigo mais.”

“Só mais um pouquinho”, pediu ele. “Só espere então até eu voltar da minha viagem.”

“Não sei se consigo. Estou precisando de alguma coisinha, e já. Alguma coisa pequena, mas que seja de verdade. Só uma migalha, que seja mais do que nada. Sabe como é. Você sabe que eu não quero dificultar nada para você. Mas quem sabe você me deixa contar pelo menos para Carol? Só quero que alguém fique sabendo. Faço ela jurar que não conta para mais ninguém.”

“Ela vai sair contando para os vizinhos. Você sabe que ela não se controla.”

“Não, eu faço ela jurar.”

“Aí alguém vai atrasar o preenchimento dos cartões de Natal”, disse ele com raiva, ressentido não com Connie mas com a maneira como o mundo conspirava contra ele, “e vai dizer alguma coisa aos meus pais. E depois—E depois—?”

“Então o que sobra para mim, se nem isso eu posso fazer? Uma coisinha pequena que seja?”

A intuição de Connie deve ter-lhe dito que aquela viagem para a América do Sul tinha alguma coisa esquisita. E agora ele sem dúvida estava se sentindo culpado, mas não exatamente por causa de Jenna. De acordo com seus cálculos morais, o fato de ter se casado com Connie lhe dava o direito de pelo menos mais um uso extremo de sua licença para a liberdade sexual, que ela lhe oferecera anos antes e nunca revogara de modo explícito. Se por acaso ele e Jenna se encaixassem com perfeição, mais tarde ele cuidaria disso. O que o incomodava agora era o contraste entre a abundância do que ele possuía—um contrato assinado que lhe valeria um lucro líquido de seiscentos mil dólares se tudo desse certo no Paraguai; o projeto de uma semana viajando com a garota mais linda que ele conhecia—e a nulidade do que, naquele momento, ele poderia oferecer a Connie. A culpa sempre foi um dos ingredientes do seu impulso de casar-se com ela, mas nem por isso sentia-se menos culpado cinco meses depois. Tirou a aliança do dedo e a pôs nervoso de volta na boca, prendeu-a entre os incisivos e a revirou com a língua. A dureza do ouro de dezoito quilates era surpreendente. Antes achava que o ouro era um metal mais macio.

“Então me diga alguma coisa boa que vai acontecer”, pediu Connie.

“Vamos ganhar um monte de dinheiro”, disse ele, empurrando a aliança com a língua para trás e prendendo-a com os molares. “E aí vamos fazer uma viagem maravilhosa para algum lugar, um segundo casamento, e viver muito bem. Depois vamos nos formar e fundar uma empresa. Tudo vai dar muito certo.”

O silêncio com que ela recebeu essas palavras tinha o sabor da descrença. Ele próprio não acreditava no que dizia. Ainda que só pelo medo mórbido que sentia de contar aos pais que tinha se casado—em sua imaginação, a cena da revelação assumira proporções francamente monstruosas—, o documento que ele e Connie tinham assinado em agosto parecia antes um pacto de morte que uma certidão de casamento: extrapolava num muro de pedra. A relação entre eles só fazia sentido no presente, quando ficavam juntos em carne e osso, podiam fundir suas identidades e criar um mundo à parte.

“Queria que você estivesse aqui”, disse ele.

“Eu também.”

“Você devia ter vindo passar o Natal comigo. Foi um erro meu.”

“Você teria pegado a minha gripe.”

“Só me dê mais umas semanas. Garanto que não vai se arrepender.”

“Não sei se vou conseguir. Mas vou tentar.”

“Sinto muito.”

E sentia mesmo. Mas também sentiu um alívio fora do comum quando ela o deixou desligar o telefone e dirigir seus pensamentos para Jenna. Removeu com a língua a aliança para fora do cantinho da bochecha, com a intenção de secá-la e guardar, mas de algum modo, em vez disso, sem querer, com uma espécie de reversão da língua, engoliu o aro de ouro.

“Puta merda!”

Ele sentia a aliança perto do final do seu esôfago, uma dureza hostil naquelas paragens, o protesto dos tecidos moles. Tentou regurgitar a aliança, mas só conseguiu fazê-la descer ainda mais, fora do alcance de sua percepção, com os restos do supersanduíche Subway que tinha sido seu jantar. Correu para a pia da quitinete e enfiou um dedo na garganta. Não vomitava desde pequeno, e os espasmos de engasgo que eram o prelúdio do vômito lembraram a ele como era grande o medo que tinha adquirido de vomitar. Daquela violência. Era como tentar dar um tiro na própria cabeça—não conseguia obrigar-se àquilo. Debruçou-se na pia com a boca aberta, esperando que o conteúdo do seu estômago pudesse refluir naturalmente sem violência; mas é claro que nada aconteceu.

“Caralho! Covarde de merda!”

Faltavam vinte para as dez. Seu voo para Miami decolava do aeroporto Dulles às onze da manhã seguinte, e nem lhe passava pela cabeça embarcar no avião com o anel ainda nas entranhas. Percorreu de um lado para o outro o carpete bege da sala e resolveu que o melhor era procurar um médico. Uma rápida busca na internet revelou qual era o hospital mais próximo, na Seminary Road.

Vestiu um casaco de qualquer jeito e saiu correndo pela Van Dorn Street, à procura de um táxi, mas a noite estava fria, e o trânsito especialmente esparso. Ele tinha fundos suficientes em sua conta para ter comprado um carro, até mesmo bom, mas como parte do dinheiro era de Connie e o resto era um empréstimo bancário garantido pelo dinheiro dela, estava tomando o máximo cuidado com seus gastos. Saiu andando pelo meio das ruas, como se, ao oferecer-se como alvo, pudesse atrair uma circulação maior de carros e, assim, um táxi. Mas nenhum táxi estava passando naquela noite.

No telefone, enquanto acelerava o passo a caminho do hospital, encontrou uma nova mensagem de texto de Jenna: animada. e vc?. Ele respondeu: demais. As comunicações de Jenna para ele, a simples visão do nome dela ou de seu endereço de e-mail, nunca deixavam de ter um efeito pavloviano sobre suas gônadas. O efeito era muito diferente daquele que Connie produzia nele (ultimamente, Connie o atingia cada vez mais alto: no estômago, nos músculos que comandavam os pulmões, no coração), porém não menos insistente e intenso. Jenna o deixava excitado da mesma forma que o excitavam grandes somas de dinheiro, da maneira como o excitava a abdicação de toda responsabilidade social e a adesão ao consumo excessivo de recursos limitados. Ele sabia perfeitamente que Jenna não prestava. Na verdade, o que o deixava mais excitado era querer descobrir se ele próprio conseguiria não prestar a ponto de poder conquistá-la.

A caminhada até o hospital fez Joey passar por perto da fachada de espelho azul do prédio de escritórios em que tinha passado a maior parte dos dias e muitas noites no verão anterior, trabalhando para um grupo conhecido como ripi (Restaurem a Iniciativa Privada no Iraque), uma subsidiária da lbi que obtivera, sem concorrência, o direito de privatizar a indústria panificadora, antes estatal, no Iraque recém-ocupado. Seu chefe na ripi era Kenny Bartles, um nativo da Flórida com vinte e poucos anos e excelentes contatos, que Joey conseguira impressionar um ano antes, quando trabalhara no centro de estudos do pai de Jonathan e Jenna. O emprego de férias de Joey no centro de estudos era um dos cinco financiados pela lbi, e seu trabalho, embora para todos os efeitos consistisse no aconselhamento de entidades governamentais, na verdade era voltado para a pesquisa de estratégias para a lbi explorar comercialmente uma possível invasão e ocupação do Iraque pelas forças americanas, apresentando depois essas possibilidades comerciais como argumentos em favor da invasão. Em recompensa a Joey pela pesquisa primária sobre a produção de pão no Iraque, Kenny Bartles tinha lhe oferecido um emprego de tempo integral na ripi em plena Bagdá, na Zona Verde. Por vários motivos, entre eles a resistência de Connie, as advertências de Jonathan, o desejo de ficar perto de Jenna, o medo de ser morto, a necessidade de continuar residindo na Virgínia e uma incômoda sensação de que Kenny não era uma pessoa de confiança, Joey recusara a oferta e preferira, em vez dela, passar as férias montando o escritório da ripi na capital e cuidando da interface com o governo.

O esporro interminável que havia tomado do pai por causa desse trabalho era um dos motivos pelos quais não tinha coragem de contar aos pais que estava casado, e um dos motivos pelos quais, desde então, vinha tentando avaliar até que ponto ele próprio seria capaz de ser inescrupuloso. Queria ficar muito rico, e muito calejado, bem depressa, para nunca mais ter de ouvir um esporro do pai. Ser capaz de simplesmente achar graça, dar de ombros e seguir em frente: ficar mais parecido com Jenna, que, por exemplo, sabia quase tudo sobre Connie, menos o fato de que ela e Joey eram casados, e ainda assim considerava Connie, no máximo, um acréscimo de sabor picante a seu jogo com Joey. Jenna tirava um prazer especial de lhe perguntar se sua namorada sabia o quanto ele andava conversando com a namorada de um outro, e de ouvi-lo relatar as mentiras que tinha contado. Ela prestava ainda menos do que dizia o irmão dela.

No hospital, Joey percebeu por que as ruas em torno estavam tão vazias: toda a população de Alexandria tinha convergido para o pronto-socorro local. Ele precisou de vinte minutos só para se registrar, e a enfermeira da recepção não ficou impressionada com as fortes dores de estômago que ele simulava na esperança de conseguir furar a fila. Durante a hora e meia que ele passou esperando, inalando a tosse e os espirros de seus concidadãos de Alexandria, assistindo à última meia hora do seriado ER na televisão da sala de espera, e mandando torpedos para colegas de universidade que ainda não tinham voltado dos feriados de fim de ano, ocorreu-lhe o quanto seria mais fácil e mais barato simplesmente comprar uma aliança para substituir a primeira. Não haveria de custar mais de trezentos dólares, e Connie jamais perceberia a diferença. Sentir tamanha ligação romântica por um objeto inanimado—sentir que devia a Connie recuperar aquela aliança específica, que ela o ajudara a escolher na rua 47 numa tarde sufocante—não coadunava propriamente com seu projeto de se transformar numa pessoa que não prestava.

O médico que finalmente o atendeu no pronto-socorro era um jovem branco de olhos lacrimejantes com uma irritação pronunciada na pele devida ao barbeador. “Não tem com que se preocupar”, o médico procurou tranquilizar Joey. “Essas coisas se resolvem por conta própria. O objeto deve sair sem que você nem perceba.”

“Não estou preocupado com a minha saúde”, disse Joey. “O que eu quero é recuperar a aliança hoje à noite.”

“Hum”, disse o médico. “O objeto é realmente de valor?”

“Grande valor. E estou imaginando que exista algum—procedimento?”

“Se você precisa mesmo recuperar o objeto, o procedimento é esperar um, dois ou três dias. E então...” O médico sorriu para si mesmo. “Existe uma velha piada sobre a mãe que chega ao pronto-socorro com um menino de colo que engoliu um punhado de moedas. Ela pergunta ao médico se o menino vai ficar bom, e o médico responde: ‘A senhora só deve reparar se as fezes dele ficarem com o aspecto muito trocado’. É uma piada boba. Mas o procedimento é esse, se você quiser recuperar o objeto.”

“Mas estou perguntando sobre algum procedimento imediato.”

“E estou respondendo que não existe.”

“Olhe, a piada era bem engraçada”, disse Joey. “Eu ri bastante. Rá rá. Foi muito bem contada.”

O preço da consulta foi duzentos e setenta e cinco dólares. Como não tinha seguro-saúde—pois a administração do estado da Virgínia considerava que se beneficiar do seguro-saúde dos pais era uma forma de apoio financeiro—foi obrigado a apresentar seu cartão para pagar a conta no ato. A menos que por acaso ficasse constipado, o exato oposto do problema que geralmente associava à América Latina, ele podia contar com um começo bastante malcheiroso para suas férias na companhia de Jenna.

De volta ao seu apartamento, bem depois da meia-noite, arrumou a mala para a viagem e depois ficou deitado na cama, tentando acompanhar o andamento da sua digestão. Vinha digerindo alimentos a cada minuto da vida inteira sem prestar a menor atenção ao processo. Como era estranho pensar que o revestimento interno do seu estômago e seu misterioso intestino delgado faziam parte dele tanto quanto seu cérebro, sua língua ou seu pênis. Enquanto se esforçava para perceber os suspiros, os sinais sutis e as mudanças no seu abdômen, teve uma premonição do seu corpo como um parente de que passara muito tempo afastado e o esperava ao fim do longo caminho que tinha pela frente. Um parente obscuro que só agora ele vislumbrava pela primeira vez. Em algum momento, esperava que num futuro bem distante, ele precisaria contar com o seu corpo, e em algum momento posterior a esse, esperava que num futuro ainda bem mais distante, seu corpo haveria de falhar, e ele morreria. Imaginou sua alma, aquele eu a que estava tão acostumado, como uma aliança de ouro inoxidável descendo lentamente por paragens cada vez mais estranhas e malcheirosas, até a morte com seu cheiro de merda. Estava a sós com o seu corpo; e como, estranhamente, ele era o seu corpo, isso queria dizer que estava inteiramente só.

Sentia falta de Jonathan. O curioso é que sua iminente viagem representava uma traição mais a Jonathan que a Connie. Apesar dos sobressaltos de seu primeiro Dia de Ação de Graças, tinham se tornado excelentes amigos naqueles dois anos, e só nos últimos meses, a partir dos negócios de Joey com Kenny Bartles e culminando no momento em que Jonathan descobrira seus planos de viagem com Jenna, é que a amizade entre eles vinha estremecendo. Até então, nas mais diversas ocasiões, Joey ficara surpreendido com os indícios de como Jonathan gostava dele de verdade. E gostava dele como era, inteiro, e não só das partes que julgava adequado apresentar ao mundo na condição de aluno interessante da Universidade da Virgínia. A maior e mais agradável das surpresas tinha sido o quanto Jonathan havia gostado de Connie. Na verdade, podia-se dizer que, sem a validação de Jonathan para aquele relacionamento, Joey jamais teria chegado ao ponto de casar-se com ela.

Tirante seus sites pornôs preferidos, que eram por sua vez pungentemente brandos em comparação com os que Joey procurava em momentos de necessidade, Jonathan não tinha vida sexual. Era bastante caxias, claro, mas estudantes muito mais aplicados que ele já transavam. Ele era apenas desajeitadíssimo com as mulheres, desajeitado a ponto de ficar desinteressado, e Connie, quando ele finalmente a conheceu, acabou sendo a única mulher perto de quem ele conseguia ficar à vontade e ser quem era. Sem dúvida o fato de ela estar tão profunda e exclusivamente envolvida com Joey ajudava, poupando assim Jonathan da tensão de tentar impressioná-la ou preocupar-se com o que ela podia querer dele. Connie comportava-se como uma irmã mais velha, muito mais afetuosa e interessada do que Jenna. Enquanto Joey estudava ou fazia algum trabalho na biblioteca, ela ficava horas jogando videogame com Jonathan, rindo desencanada quando perdia e prestando atenção, com seus modos límpidos, às explicações que ele lhe dava sobre cada jogo. Embora para Jonathan sua cama costumasse ser um fetiche, assim como seu travesseiro da infância e sua necessidade de nove horas de sono por dia, saía discretamente do quarto antes que Joey precisasse pedir para ficar sozinho com Connie. Depois que ela voltou para St. Paul, Jonathan disse a Joey que tinha achado a namorada dele bárbara, linda mas ao mesmo tempo muito fácil de conviver, o que deixou Joey, pela primeira vez, orgulhoso de Connie. Parou de vê-la tanto como uma fraqueza sua, um problema que precisava resolver na primeira oportunidade, e passou a considerá-la uma namorada cuja existência não se importava de revelar a seus outros amigos. O que, por sua vez, o deixou ainda mais revoltado com a hostilidade velada mas implacável de sua mãe.

“Uma pergunta, Joey”, dissera sua mãe ao telefone, durante as semanas que ele e Connie passaram tomando conta do apartamento de sua tia Abigail. “Posso fazer uma pergunta só?”

“Depende de qual seja”, respondeu Joey.

“Você e Connie andam brigando?”

“Mãe, não vou falar sobre isso com você.”

“Você pode querer saber por que essa é a única pergunta que eu faço. Ficou um pouco curioso?”

“Nada.”

“É porque vocês dois deviam estar brigando, e se não estiverem é por algum problema.”

“Bem, por essa definição você e o papai devem estar fazendo tudo certo.”

“Rá rá rá! Muito engraçado, Joey!”

“Por que eu devia estar brigando? As pessoas brigam quando não se dão bem.”

“Não, as pessoas brigam quando se amam mas têm personalidades próprias e vivem no mundo real. Claro que não estou querendo dizer que brigar o tempo todo é bom.”

“Não, só na conta certa. Entendi.”

“Se vocês não brigam nunca, precisam descobrir por quê, só isso. Você devia se perguntar onde está a fantasia.”

“Não, mamãe. Desculpe. Mas não vou falar sobre isso.”

“Ou quem está vivendo uma fantasia. Se você me entende.”

“Juro por Deus que vou desligar, e vou passar um ano sem telefonar para você.”

“Quais realidades não estão sendo levadas em conta.”

“Mãe?”

“De qualquer maneira, eu só tinha essa pergunta, que já fiz e não vou mais repetir.”

Embora o índice de felicidade de sua mãe não fosse nada de que ela pudesse se orgulhar, ela insistia em infligir a Joey as normas de sua própria vida. Devia achar que estava tentando protegê-lo, mas ele só escutava os tambores da negatividade. Ela estava especialmente “preocupada” com o fato de Connie não ter outros amigos além do próprio Joey. Joey respondeu que Connie tinha amigos sim, e quando sua mãe o desafiara a citar os nomes, ele se recusara agressivamente a discutir as coisas que ela desconhecia por completo. Connie tinha algumas amigas do tempo de escola secundária, pelo menos duas ou três, mas quando falava delas era sobretudo para dissecar sua superficialidade ou comparar desfavoravelmente a inteligência delas com a de Joey, e ele jamais conseguiu guardar seus nomes direito. Assim, sua mãe marcara um ponto palpável. E ela sabia que não devia remexer numa ferida existente, mas ou ela era a melhor insinuadora do mundo ou Joey o entendedor mais sensível do planeta. Bastava ela mencionar a visita próxima de sua antiga companheira de basquete Cathy Schmidt para Joey perceber críticas ressentidas a Connie. Se ele as denunciasse abertamente, ela apelaria para o psicológico e pediria a ele para refletir sobre sua suscetibilidade ao tema. O contra-ataque que poderia de fato fazê-la calar a boca—perguntar-lhe quantos amigos ela havia feito depois que parara de estudar (resposta: nenhum)—era o único que ele não seria capaz de desferir. A mãe tinha a vantagem final injusta, em todas as discussões entre os dois, de despertar a piedade do filho.

Connie não sentia uma inimizade correspondente pela mãe dele. Tinha todo o direito de se queixar, mas nunca se queixava. E isso tornava ainda mais gritante a injustiça da hostilidade da mãe dele. Quando era pequena, Connie mandava espontaneamente para Patty, sem qualquer incentivo de Carol, cartões de aniversário feitos à mão. Sua mãe ficava encantada todo ano com aqueles cartões até ele e Connie começarem a trepar. Connie continuou a fazer seus cartões de aniversário, e Joey, quando ainda morava em St. Paul, tinha visto sua mãe abrir um deles, ler seus dizeres com uma expressão de pedra e colocá-lo de lado com a correspondência de mala direta. Em anos recentes, Connie começara a adicionar pequenos presentes de aniversário—um ano brincos, no outro, bombons—que lhe valiam agradecimentos tão impessoais e falsos quanto um comunicado da Receita Federal. Connie tentava o possível para fazer a mãe dele voltar a gostar dela, menos a única coisa que teria funcionado: parar de ver Joey. Tinha um coração puro, e sua mãe cuspia nela. A injustiça dessa situação era mais um motivo pelo qual se casara com ela.

A injustiça, de modo indireto, também tornara o Partido Republicano mais atraente para Joey. Sua mãe se julgava superior a Carol e Blake, e considerava Connie culpada do simples fato de morar com eles. Achava ser um fato estabelecido que todas as pessoas que pensavam direito, inclusive Joey, estavam de acordo quanto aos gostos e às opiniões dos brancos de origem menos privilegiada que a sua. O que Joey apreciava entre os republicanos era que eles não desprezavam as pessoas como os democratas liberais faziam. Odiavam os liberais, sim, mas só porque os liberais começaram a odiá-los primeiro. Estavam simplesmente fartos do tipo de condescendência acrítica que sua mãe destinava à família Monaghan. Nos últimos dois anos, Joey aos poucos trocara de lugar com Jonathan em suas discussões políticas, em especial no que dizia respeito ao Iraque. Joey convenceu-se de que uma invasão era necessária para salvaguardar os interesses petropolíticos dos Estados Unidos e tomar as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, enquanto Jonathan, que conseguira interessantíssimos estágios de verão no jornal The Hill, especializado na cobertura da Câmara e do Senado, e depois no Washington Post, planejando tornar-se cronista político, desconfiava cada vez mais de gente como Douglas Feith, Paul Wolfowitz, Richard Perle e Ahmed Chalabi, que defendiam o começo da guerra. Tanto Joey como Jonathan gostavam de terem trocado de papel e de terem se transformado nos renegados políticos das respectivas famílias, o discurso de Joey cada vez mais parecido com o do pai de Jonathan, e o de Jonathan cada vez mais parecido com o do pai de Joey. Quanto mais Joey insistia em ficar ao lado de Connie e em defendê-la do esnobismo da mãe, mais à vontade se sentia com o partido do antiesnobismo enfurecido.

E por que ele ficava com Connie? A única resposta que fazia sentido era que ele a amava. Tivera suas chances de livrar-se dela—na verdade, criara várias dessas chances—, mas a cada vez, no momento decisivo, decidira não aproveitá-las. A primeira grande oportunidade tinha sido em sua partida para a faculdade. E sua chance seguinte veio um ano depois, quando Connie também fora para o Leste, para o Morton College, em Morton’s Glen, na Virgínia. A partir daí, ela ficava a pouco tempo de viagem de Charlottesville no Land Cruiser de Jonathan (que este, tendo aprovado Connie, emprestava a Joey), mas também se punha no rumo de tornar-se uma estudante normal, desenvolvendo uma vida independente. Depois da segunda visita de Joey a Morton, em que os dois passaram quase todo o tempo se esforçando para driblar a coreana companheira de quarto de Connie, Joey propôs que, pelo bem dela (já que ela não parecia estar se adaptando bem à faculdade), deviam tentar de novo romper com aquela dependência mútua e parar de se comunicar por um tempo. A proposta não era de todo desajeitada; não excluía de todo um futuro comum. Mas ele vinha escutando muito o que Jenna dizia, e esperava passar o período de festas com ela e Jonathan em McLean. Quando Connie por fim ficou sabendo desses planos, algumas semanas antes do Natal, ele perguntou se ela não queria ir a St. Paul ver seus amigos e sua família (isto é, o que qualquer calouro normal faria). “Não”, respondeu ela, “quero ficar com você.” Atiçado pela perspectiva de estar com Jenna, e ainda estimulado por um caso especialmente satisfatório que começara numa festa semiformal, ele assumiu uma linha dura com Connie, que teve um acesso de choro tão tempestuoso ao telefone que acabou em soluços. Ela disse que não queria voltar para casa nunca mais, que nunca mais queria passar outra noite com Carol e suas irmãzinhas. Mas Joey a obrigou a ir para lá assim mesmo. E muito embora ele mal tivesse falado com Jenna durante as festas—pois ela fora esquiar, e depois ver Nick em Nova York—, ele persistiu em sua estratégia de fuga até a noite do início de fevereiro em que Carol ligou para ele com a notícia de que Connie largara os estudos em Morton e voltara a morar em Barrier Street, mais profundamente deprimida do que nunca.

Connie ao que parece tirara dez em dois de seus exames de dezembro, mas deixara de comparecer a dois outros, e uma virulenta antipatia se desenvolvera entre ela e a companheira de quarto, que passava os dias escutando os Backstreet Boys tão alto que os agudos que vazavam de seus fones de ouvido bastariam para enloquecer qualquer um, além de deixar a tv sintonizada num canal de compras o dia inteiro, implicando com Connie por causa do namorado “metido”, dizendo-lhe que imaginasse todas as vagabundas metidas que ele devia estar comendo pelas suas costas, e consumindo picles que empestavam o quarto. Connie retomou os estudos no mês de janeiro, em período de experiência, mas passava tanto tempo na cama que o serviço de saúde do campus afinal interveio e a mandou de volta para casa. Tudo isso Carol relatou a Joey com uma preocupação contida e poupando-o felizmente de maiores recriminações.

O fato de ele ter deixado passar sua última boa oportunidade de livrar-se de Connie (que não conseguia mais fazer de conta que sua depressão era só produto da imaginação de Carol) estava de algum modo relacionado à notícia recente e amarga da “espécie de” noivado de Jenna com Nick, mas só até certo ponto. Embora Joey tivesse a clareza de temer a doença mental profunda, parecia-lhe que, caso eliminasse de seu repertório de possibilidades toda garota interessante em idade universitária com alguma história de depressão, ficaria muitíssimo limitado. E Connie tinha bons motivos para ficar deprimida: sua companheira de quarto era insuportável e ela vinha morrendo de solidão. Quando Carol a chamou para vir ao telefone, ela pediu desculpas umas cem vezes. Desculpas por ter deixado Joey na mão, desculpas por não ter sido mais forte, desculpas por desviar a atenção dele dos estudos, desculpas por ter desperdiçado o dinheiro gasto naquele ano de estudos, desculpas por ser um fardo para Carol, desculpas por ser um fardo para todo mundo, desculpas por ser tão chata e insuportável. Apesar de (ou por causa de) estar abatida demais para pedir alguma coisa dele—dando finalmente a impressão de ter quase chegado ao ponto de estar pronta a deixá-lo ir embora—, ele disse a ela que estava forrado de dinheiro que conseguira com sua mãe, e que tomaria um avião para ir encontrá-la. Quanto mais ela dizia que não precisava, mais ele concluía que precisava sim.

A semana que ele passou em seguida na casa da Barrier Street foi a primeira semana realmente adulta da sua vida. Sentado com Blake no grande salão, cujas dimensões eram bem mais modestas do que recordava, ficou assistindo à cobertura do ataque a Bagdá pela Fox News e sentindo seu ressentimento empedernido por causa do Onze de Setembro começar a se dissolver. O país finalmente entrava em ação, finalmente retomava nas mãos as rédeas da história, o que de certa maneira se harmonizava com a deferência e a gratidão com que Blake e Carol o tratavam. Regalou Blake com histórias sobre o centro de estudos, as discussões que tivera com figuras do noticiário, o planejamento das ações posteriores à invasão de que ele vinha participando. A casa era pequena, e nela ele ficava enorme. Aprendeu a segurar um bebê no colo e o ângulo em que devia inclinar a mamadeira. Connie estava pálida e assustadoramente magra, os braços finos e a barriga tão côncava como quando ela tinha catorze anos e ele a tocara pela primeira vez. Deitava-se ao lado dela e a segurava em seus braços à noite, tentando excitá-la, conseguindo penetrar a espessa casca afetiva da absorção dela, o suficiente para sentir-se autorizado a trepar com ela. Os remédios que ela vinha tomando ainda não tinham produzido efeito, e ele se sentia quase grato pelo quanto ela se sentia mal, o que conferia a ele seriedade e um objetivo. Ela repetia o tempo todo que fora uma decepção para ele, mas ele tinha a impressão quase oposta. Como se um mundo novo e mais adulto do amor se tivesse revelado a ele: como se ainda houvesse uma infinidade de portas internas a serem abertas por eles dois. Através de uma das janelas do quarto de Connie, via-se a casa onde ele tinha crescido, uma casa hoje ocupada por uma família negra que Carol definia como pernóstica e que não se dava com ninguém, com seus diplomas de doutorado emoldurados na sala de jantar. (“Na sala de jantar”, sublinhou Carol, “onde podem ser vistos por todo mundo, inclusive da rua.”) Joey ficou satisfeito de constatar como não se sentia afetado pela visão de sua antiga casa. Até onde ele se lembrava, sempre quisera livrar-se dela, e agora tinha a impressão de finalmente ter se desapegado. Certa noite, chegou ao ponto de ligar para a mãe e contar-lhe o que estava acontecendo.

“Ah”, disse ela. “Está bem. Acho que eu andava um pouco desinformada. Está me dizendo que Connie chegou a ir estudar numa faculdade da Costa Leste?”

“Isso. Mas a colega de quarto dela era insuportável, e ela ficou deprimida.”

“Bom, gostei de ser informada, agora que já é coisa do passado.”

“Nunca foi uma experiência exatamente agradável contar a você o que estava acontecendo com ela.”

“Não, claro, a vilã da história sou eu. Essa pessoa velha e negativa. Deve ser assim que você me vê.”

“Talvez tenha um motivo. Já pensou nessa possibilidade?”

“Minha impressão é que você estava livre e desimpedido. Sabe, o tempo de estudante não dura muito, Joey. Eu me comprometi quando era muito jovem e acabei perdendo muitas experiências que talvez tivessem sido boas para mim. Por outro lado, pode ser que eu não fosse madura como você.”

“Pois é”, disse ele, sentindo-se inatacável e, de fato, maduro. “Pode ser.”

“Só queria dizer que você meio que mentiu para mim, em algum momento, há dois meses, quando eu perguntei se tinha notícias de Connie. E isso, mentir para mim, não é exatamente a coisa mais madura do mundo.”

“A sua pergunta não foi simpática.”

“E a sua resposta não foi honesta! Não que você tenha obrigação de ser honesto comigo, mas pelo menos vamos falar francamente a respeito.”

“Era Natal. Eu disse que achava que ela estava em St. Paul.”

“Exatamente. E não quero ficar insistindo, mas quando uma pessoa diz ‘acho’, em princípio quer dizer que você não sabe ao certo. Você fez de conta que não sabia de uma coisa que sabia muito bem.”

“Eu disse que era lá que ela devia estar, pelo que eu achava. Mas ela podia estar em Wisconsin, ou coisa assim.”

“Sei, visitando uma das muitas amigas íntimas que ela tem.”

“Meu Deus!”, disse ele. “Você realmente só pode pôr a culpa disso em si mesma.”

“Não me entenda mal”, disse ela. “Acho muito admirável você estar com ela agora, e estou falando sério. É um ótimo sinal a seu respeito. Fico orgulhosa por ver você cuidando de uma pessoa importante para você. Tenho uma boa ideia do que seja a depressão, e, pode acreditar, sei que não é brincadeira. Connie está tomando algum remédio?”

“Está. Celexa.”

“Bem, espero que funcione no caso dela. A minha medicação não funcionou muito bem para mim.”

“Você tomou antidepressivos? Quando?”

“Ah, faz pouco tempo.”

“Meu Deus, eu não fazia ideia.”

“É porque, quando eu digo que quero deixar você livre e desimpedido, estou falando sério. Não queria que você se preocupasse comigo.”

“Mas ainda assim, meu Deus, você podia ter pelo menos me contado.”

“Foram só alguns meses. Eu não era o que se pode chamar uma paciente-modelo.”

“Esses remédios só fazem efeito depois de algum tempo”, disse ele.

“Foi o que todo mundo disse. Especialmente seu pai, que estava mais ou menos na linha de frente comigo, e ficou muito triste ao se despedir desses bons tempos. Mas eu gostei de recuperar a minha cabeça, mesmo do jeito que é.”

“Eu sinto muito.”

“É, eu sei. Se você tivesse me contado essas coisas sobre Connie há três meses, eu teria respondido sem me importar. La-la-la! Mas agora vocês precisam me aturar sentindo novamente as coisas.”

“Sinto muito por você estar sofrendo, foi o que eu quis dizer.”

“Obrigada, meu querido. Perdoe meus sentimentos.”

Por mais generalizada que a depressão parecesse ter se tornado nos últimos tempos, Joey ainda achava preocupante que as duas mulheres que mais o amavam estivessem ambas clinicamente deprimidas. Seria um simples acaso? Ou será que ele tinha algum efeito nefasto concreto sobre a saúde mental das mulheres? No caso de Connie, concluiu, a verdade é que sua depressão era outra faceta da mesma intensidade que ele tanto amava nela. Na última noite que passou em St. Paul, antes de voltar para a Virgínia, ele ficou observando enquanto ela apalpava todo o crânio com as pontas dos dedos, como se tentasse extrair do cérebro os sentimentos excedentes. Contou a ele que o motivo pelo qual vinha chorando em momentos que pareciam aleatórios era que mesmo o menor dos maus pensamentos era horrivelmente doloroso, e só lhe ocorriam maus pensamentos, nenhum bom. Lembrava-se de que tinha perdido um boné da faculdade que ele lhe dera; que vivia tão preocupada com a sua companheira de quarto, na segunda vez que ele foi visitá-la em Morton, que nem lhe perguntara quanto ele tinha tirado em seu trabalho de História Americana; que Carol certa vez lhe dissera que os rapazes gostariam mais dela se ela fosse mais sorridente; que uma de suas meias-irmãzinhas, Sabrina, começara a gritar na primeira vez que a tinha segurado no colo; que ela tivera a estupidez de admitir para a mãe de Joey que ia a Nova York encontrar-se com ele; que tinha sangrado de maneira nojenta na última noite antes de ele partir para a faculdade; que tinha escrito as coisas mais equivocadas nos cartões-postais que enviara a Jessica, numa tentativa de se tornar amiga da irmã dele, que Jessica nunca respondera a nenhum deles; e assim por diante. Estava perdida numa floresta escura de remorso e horror a si mesma em que mesmo a menor das árvores assumia proporções monstruosas. Joey nunca entrara numa mata como aquela, mas sentia-se inexplicavelmente atraído por suas paragens. Ficou inclusive excitado ao vê-la prorromper em soluços enquanto ele trepava com ela em despedida, pelo menos até os soluços se transformarem em contorções, autoflagelação e ódio de si mesma. O nível de sofrimento que ela apresentava parecia na fronteira do perigo extremo, um primo do suicídio, e ele passou metade daquela noite acordado, tentando convencê-la a não se tratar tão mal por se sentir tão mal por não conseguir lhe dar nada do que ele queria. Era exaustivo, circular e insuportável, mas ainda assim, na tarde seguinte, a bordo do avião que o levava de volta, ocorreu-lhe sentir medo do efeito que o Celexa poderia ter sobre ela quando começasse a atuar. Lembrou-se do que sua mãe dissera sobre os antidepressivos matarem os sentimentos: uma Connie sem oceanos de sentimento era uma Connie que ele não reconhecia e desconfiava que não iria querer.

Enquanto isso o país entrara em guerra, mas era um tipo estranho de guerra em que, dentro de certa margem de erro, as baixas só ocorriam do outro lado. Joey ficou satisfeito ao ver que a tomada do Iraque foi o passeio que ele esperava, e Kenny Bartles lhe mandou e-mails muito animados sobre a necessidade de pôr sua empresa panificadora em funcionamento o mais depressa possível. (Joey precisava sempre explicar que ainda era estudante, e que só poderia começar a trabalhar depois dos exames de fim de ano.) Jonathan, entretanto, estava mais amargurado do que nunca. Estava obcecado, por exemplo, pelas antiguidades iraquianas que tinham sido roubadas por saqueadores do Museu Nacional de Bagdá.

“Foi só um erro à toa”, disse Joey. “Alguma coisa sempre dá merda, não é? Você só não quer admitir que as coisas estão indo bem.”

“Vou admitir quando encontrarem o plutônio e os mísseis carregados com vírus de varíola”, disse Jonathan. “O que nunca vai acontecer, porque era tudo invenção, e invenção de quinta, porque as pessoas que começaram tudo isso são uns palhaços incompetentes.”

“Escute, todo mundo diz que as armas de destruição em massa existem. Até a New Yorker disse que existem. Minha mãe contou que meu pai pensou em cancelar a assinatura, de tão puto que ficou. Meu pai, o grande especialista em política externa.”

“Quanto você quer apostar que seu pai tem razão?”

“Não sei. Cem dólares?”

“Fechado!”, disse Jonathan, estendendo a mão. “Cem dólares como eles não vão achar arma nenhuma até o fim do ano.”

Joey apertou a mão do amigo e em seguida começou a ficar preocupado, pensando que Jonathan podia ter razão em relação às Armas de Destruição em Massa. Não que cem dólares fossem fazer diferença, pois ele estaria ganhando oito mil dólares por mês com Kenny Bartles. Mas Jonathan, que era seriamente viciado em noticiários políticos, parecia tão seguro de si que Joey se perguntou se de algum modo não teria deixado de entender o que estava em jogo em sua experiência com os chefes do grupo de estudos e com Kenny Bartles: deixado de perceber uma troca de piscadelas entre eles ou a inflexão irônica de suas vozes quando falavam dos motivos, além de seu enriquecimento pessoal ou corporativo, para a invasão do Iraque. Na opinião de Joey, o grupo de estudos tinha de fato algum motivo oculto para dar seu apoio à invasão: a proteção de Israel, que, à diferença dos Estados Unidos, ficava ao alcance até dos mísseis vagabundos que os cientistas de Saddam Hussein eram capazes de fabricar. Mas ele acreditava que os neoconservadores falavam sério pelo menos ao temer pela segurança de Israel. Agora, porém, à medida que março se transformava em abril, eles abanavam as mãos e agiam como se nem fizesse diferença se descobrissem ou não as tais Armas de Destruição em Massa; como se a liberdade do povo iraquiano fosse a questão principal. E Joey, cujos interesses na guerra eram basicamente financeiros, mas que gostaria do conforto moral da ideia de que mentes mais sábias que a sua tinham motivos melhores, começou a sentir que fora levado na conversa. O que não esvaziava seu desejo de lucrar, mas lhe dava sensação de que era um dinheiro mais sujo.

Nesse espírito de impureza, achou mais fácil conversar com Jenna sobre seus planos para o verão. Jonathan, entre outras coisas, tinha ciúme de Kenny Bartles (ficava irritado sempre que ouvia Joey falando ao telefone com Kenny), enquanto Jenna exibia cifrões nos olhos e era totalmente a favor de ganhar dinheiro a qualquer custo. “Talvez a gente se encontre em Washington nas férias”, disse ela. “Eu venho de Nova York e você me leva para jantar e comemorar o meu noivado.”

“Claro”, disse ele. “Vai ser muito divertido.”

“Mas fique sabendo que eu só gosto de restaurantes muito caros.”

“E o que Nick vai achar de você sair para jantar comigo?”

“Pelo menos dessa vez a conta não vai pesar na carteira dele. Nunca passou pela cabeça dele ter medo de você. E a sua namorada, o que vai achar?”

“Ela não é do tipo ciumento.”

“Pois é, o ciúme não tem a menor graça, rá rá.”

“Longe dos olhos, longe do coração.”

“Pois é, e muita coisa acontece longe dos olhos dela, não é? Quantas escorregadelas você já deu a essa altura?”

“Cinco.”

“Quatro a mais do que Nick conseguiria dar antes que eu cuidasse de remover cirurgicamente os seus testículos.”

“É, mas se você não soubesse, não ia sentir nada.”

“Pode acreditar”, respondeu Jenna, “que eu acabaria sabendo. É a diferença entre a sua namorada e a minha pessoa. Eu sou do tipo ciumento. Se alguém começa a me sacanear, eu viro a Santa Inquisição. Sem dó nem piedade.”

Uma informação interessante, pois tinha sido Jenna quem o aconselhara, no outono do ano anterior, a aproveitar todas as oportunidades eventuais que ele tivesse na faculdade, e era a Jenna que imaginava estar provando alguma coisa ao seguir seus conselhos. Ela lhe ensinara os fundamentos da arte de ignorar, no refeitório, a moça cuja cama tinha deixado quatro horas antes. “Não seja frouxo”, disse ela. “Elas querem ser esnobadas. Não é favor nenhum deixar de ignorar essas garotas. Você precisa fingir que nunca viu nenhuma delas na vida. A última coisa que elas querem no mundo é você por perto, ou fazendo cara de culpado. Estão rezando para que você não crie nenhum embaraço para elas.” Era bem claro que ela estava falando por experiência própria, mas Joey só foi acreditar na primeira vez que seguiu o que ela recomendava. E a partir de então sua vida ficou bem mais fácil. Embora tivesse a condescendência com Connie de não contar suas escapadas, continuava a achar que ela não se importaria tanto assim. (A pessoa que ele precisava enganar ativamente era Jonathan, que alimentava noções medievais quanto ao comportamento romântico e se dirigira a Joey em tom furioso, como um irmão mais velho ou o cavaleiro andante encarregado da guarda de Connie, quando a notícia de um caso de Joey chegou aos seus ouvidos. Joey jurou que nenhum zíper tinha sido aberto, mas aquela mentira era tão absurda que só podia ser recebida com sarcasmo, e Jonathan respondeu dizendo que ele era um cretino mentiroso, indigno de Connie.) Agora ele tinha a impressão de que Jenna, com seus padrões morais variáveis acerca da fidelidade, o levara na conversa mais ou menos da mesma forma que seus superiores do centro de estudos. E fez por simples recreação, por pura maldade contra Connie, o que os defensores da guerra faziam por amor ao lucro. Mas nem por isso ele perdia a vontade de levá-la para jantar num ótimo restaurante ou de ganhar, na ripi , o dinheiro para tanto.

Sentado sozinho no escritório de uma única sala da ripi em Alexandria, Joey transformou os faxes confusos enviados por Kenny de Bagdá em relatórios convincentes sobre o emprego ponderado do dinheiro dos contribuintes na transformação das panificações subsidiadas por Saddam Hussein em empresas privadas apoiadas pelo comando das forças de ocupação do Iraque. Usou seus estudos dos casos das cadeias americanas Breadmasters e Hot & Crusty, escritos nas férias do ano anterior, para criar um belo modelo de plano de negócios a ser seguido por aqueles supostos empresários. Desenvolveu um plano para, em dois anos, elevar os preços do pão até um patamar próximo do valor justo de mercado, usando o khubz básico iraquiano para nele concentrar os prejuízos, e doces e bebidas com apresentação sofisticada à base de café para com eles ganhar dinheiro de tal modo que, já em 2005, os subsídios da Coalizão pudessem ser retirados sem provocar a revolta popular. Tudo que ele produzia era pelo menos em parte, e quase sempre na totalidade, pura cascata. Não tinha a mais vaga ideia da aparência concreta de um mercadinho em Basra; desconfiava, por exemplo, que as vitrines refrigeradas de vidro temperado do tipo em que a Breadmasters exibia seus doces podiam não funcionar bem numa cidade onde os atentados a bomba eram frequentes e, no verão, o calor chegava quase a cinquenta e cinco graus. Mas as fabulações do comércio contemporâneo constituíam uma linguagem em que ele tinha a felicidade de ser fluente, e Kenny lhe garantia que a aparência de atividade e de resultados imediatos era mais que suficiente. “Dê a impressão de que a coisa deu certo ontem”, dizia Kenny, “e com isso vamos fazer o possível aqui, localmente, para corresponder ao que você disser. Jerry quer o livre mercado funcionando da noite para o dia, e vamos corresponder.” (“Jerry” era Paul Bremer, o chefe dos negócios em Bagdá, que Kenny podia ou não conhecer pessoalmente.) Nas horas vagas de Joey no escritório, em especial nos fins de semana, ele trocava mensagens com colegas que estavam trabalhando em estágios não remunerados ou grelhando hambúrgueres em suas cidades natais, e que o cobriam de elogios por ter conseguido o melhor emprego de férias de todos os tempos. E Joey tinha a impressão de que o curso da sua vida, que o Onze de Setembro tinha forçado a mudar de rumo, havia recuperado agora sua trajetória devidamente ascensional.

Continuar: parte 2 de 3