Liberdade
A fúria do homem gentil
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No fim de uma tarde sombria de março, sob uma chuva fria e oleosa, Walter se dirigia de carro com sua assistente, Lalitha, de Charleston às montanhas do sul da Virgínia Ocidental. Embora Lalitha dirigisse depressa e com alguma ansiedade, Walter preferia a ansiedade de ser seu passageiro à ira moral que se apossava dele quando se instalava ao volante—a sensação aparentemente inescapável de que, de todos os motoristas na estrada, só ele estava viajando à velocidade correta, só ele conseguia manter o equilíbrio devido entre uma obediência estrita demais às regras do trânsito e uma transgressão perigosa demais à letra da lei. Nos dois anos anteriores, ele tinha passado muitas horas de fúria nas estradas da Virgínia Ocidental, obrigado a encostar na rabeira dos idiotas que se arrastavam como tartarugas e depois freando ele próprio para castigar os motoristas que se aproximavam demais da traseira do seu carro, defendendo com destemor a pista direita das estradas interestaduais dos escrotos que tentavam ultrapassar pela direita, ultrapassando ele próprio pela direita quando algum idiota, alguém falando ao celular ou algum imbecil metido a santo disposto a obrigar todo mundo a respeitar os limites de velocidade obstruía a pista da esquerda, especulando obsessivamente sobre a psique dos motoristas que se recusavam a dar seta (quase sempre rapazes mais jovens para quem o uso da seta era uma aparente afronta à masculinidade, cuja precariedade já se manifestava no gigantismo compensatório de suas caminhonetes de caçamba ou 4 × 4), cultivando um ódio assassino dos motoristas de caminhões de carvão que ultrapassavam os limites das faixas de rolamento e provocavam acidentes fatais praticamente toda semana na Virgínia Ocidental, culpando impotente os legisladores estaduais corruptos que se recusavam a reduzir o limite de carga dos caminhões de carvão para cinquenta toneladas, apesar das provas abundantes dos estragos que provocavam, murmurando “Inacreditável! Inacreditável!” quando algum motorista à sua frente freava com o sinal ainda verde, depois acelerava ao ficar amarelo e o largava para trás retido pelo vermelho, fervendo de raiva enquanto precisava esperar um minuto inteiro num cruzamento em que não se via veículo algum na transversal por quilômetros ao redor, e precisando engolir dolorosamente, em consideração a Lalitha, as invectivas que tanto desejava emitir quando irritado por um motorista que se recusava a virar à direita no sinal vermelho, embora a conversão fosse autorizada: “E então? Não notou nada? Existe mais gente no mundo além de você! As outras pessoas são reais! Vá aprender a dirigir! Alô, sua besta!”. Melhor o influxo de adrenalina que sentia quando Lalitha pisava até o fundo para ultrapassar caminhões que resfolegavam para subir a encosta que a pressão que atacava suas artérias cerebrais quando ele próprio estava ao volante e acabava atrás dos mesmos caminhões. Assim, podia contemplar os troncos finos e cinzentos dos bosques dos Apalaches, as encostas devastadas pela mineração, e concentrar sua fúria em problemas mais dignos dela.
Lalitha estava de ótimo humor quando ingressaram com seu carro alugado no trecho de vinte e cinco quilômetros em que a I-64 percorria um aclive suave, obra federal de custo astronômico que o senador Byrd conseguira aprovar para seu estado. “Estou louca para comemorar,” disse ela. “Hoje à noite você sai comigo para comemorar?”
“Vamos ver se encontramos um restaurante decente em Beckley”, respondeu Walter, “mas acho pouco provável.”
“Vamos encher a cara! Podemos ir ao melhor bar ou restaurante da cidade e tomar muitos martínis.”
“Sem a menor dúvida. Eu peço o maior martíni da casa para você. Mais de um: quantos você quiser.”
“Não, mas você também, hoje à noite”, disse ela. “Só dessa vez. Você podia abrir uma exceção, pela importância do acontecimento.”
“Com toda a honestidade, acho que se eu tomar um martíni a essa altura da vida posso cair morto.”
“Uma cerveja, então. Das leves. Eu tomo três martínis, e depois você me carrega até o quarto.”
Walter não gostava quando ela falava assim. Ela não sabia o que estava dizendo, era só uma jovem muito animada—só, na verdade, o raio de luz mais brilhante de toda a vida dele naquela época—e não entendia que o contato físico entre chefe e assistente não tinha nada de engraçado.
“Três martínis devem produzir uma ressaca tipo arrasa-quarteirão amanhã de manhã”, disse ele numa referência não muito feliz à demolição que estavam indo presenciar no condado de Wyoming.
“Quando foi que você bebeu alguma coisa pela última vez?”, perguntou Lalitha.
“Nunca. Nunca bebi nada.”
“Nem mesmo nos tempos de escola?”
“Nunca.”
“Walter, que coisa incrível! Você precisa experimentar! É tão divertido beber de vez em quando. Uma cerveja não transforma ninguém em alcoólatra.”
“Não é disso que eu tenho medo”, respondeu ele, perguntando-se ao mesmo tempo se o que dizia era verdade. Seu pai e seu irmão mais velho, que juntos tinham sido o flagelo da sua juventude, eram alcoólatras, e sua mulher, que se transformava aos poucos no flagelo de sua meia-idade, tinha uma clara tendência ao alcoolismo. Ele sempre tinha achado que sua preferência estrita pela abstinência do álcool era uma atitude de oposição a eles—primeiro, de preferir ser tão diferente quanto possível do pai e do irmão mais velho, e mais tarde de ser tão invariavelmente bondoso com Patty quanto ela, embriagada, era capaz de ser maldosa com ele. Era um dos modos que ele e Patty haviam desenvolvido para lidar um com o outro: ele sempre sóbrio, ela às vezes bêbada, nenhum dos dois jamais sugerindo que o outro mudasse.
“Qual é o seu medo, então?”, perguntou Lalitha.
“Estou com medo de mudar uma coisa que vem funcionando perfeitamente bem pra mim há quarenta e sete anos. Por que mexer em time que está ganhando?”
“Porque é bom!” Ela deu uma guinada no volante do carro alugado para ultrapassar um reboque de duas rodas que avançava a custo em meio à água que ele próprio levantava. “Vou pedir uma cerveja para você, e obrigá-lo a dar pelo menos um gole para comemorar.”
A floresta setentrional de árvores de maior porte ao sul de Charleston se mostrava até agora, já às vésperas do equinócio, como uma tapeçaria monótona de tons de cinza e preto. Dali a mais uma ou duas semanas, o ar quente chegaria do Sul para esverdear aquelas matas, e um mês depois disso os passarinhos de resistência suficiente para aguentar a migração desde os trópicos as povoariam com seus trinados, mas o cinza do inverno parecia a Walter o verdadeiro estado original das florestas do norte. O verão não passava de uma simples trégua acidental que as acometia a cada ano.
Em Charleston, no começo daquele dia, ele e Lalitha e seus advogados locais tinham apresentado às indústrias associadas ao Fundo da Montanha Azul, a Nardone e a Blasco, os documentos necessários para poderem iniciar o desmonte da região de Forster Hollow, e abrir os mais de cinco mil hectares da futura reserva de preservação da mariquita para a mineração a céu aberto. Os representantes da Nardone e da Blasco, em seguida, tinham assinado as pilhas de papéis que os advogados do Fundo vinham preparando ao longo dos dois anos anteriores, comprometendo oficialmente as empresas carboníferas com um pacote de acordos de recuperação da terra e transferência de direitos de propriedade que, reunidos, bastariam para garantir que a área minerada ficaria para sempre “intocada”. Vin Haven, o presidente do conselho do Fundo, estivera “presente” via teleconferência e, mais tarde, ligara diretamente para Walter em seu celular a fim de parabenizá-lo. Mas Walter estava dominado por um sentimento oposto à celebração. Afinal conseguira permitir a destruição de dezenas de belos picos cobertos de mata e dúzias de riachos de águas claras, extremamente ricos do ponto de vista biótico, das classes 3, 4 e 5. Para tanto, Vin Haven precisara passar adiante vinte milhões de dólares em direitos de mineração noutras áreas do estado, a perfuradoras de prospecção de gás natural prontas a estuprar a terra, e então transferir os direitos obtidos a terceiros de quem na verdade Walter não gostava. E tudo para quê? Para resguardar o “refúgio” de uma espécie em perigo, uma área total que se podia cobrir com um selo comum de correio num mapa rodoviário da Virgínia Ocidental.
Walter se sentia, em sua raiva e em sua decepção com o mundo, como as florestas grisalhas do Norte. E Lalitha, que nascera no calor do sul da Ásia, era a pessoa luminosa que trouxera uma espécie de verão transitório à sua alma. O único acontecimento que ele sentia alguma vontade de comemorar naquela noite era que, tendo obtido aquele “sucesso” na Virgínia Ocidental, agora podiam avançar em seu movimento contra o superpovoamento do mundo. Mas levou em conta a juventude de sua assistente, e não quis derrubar seu ânimo.
“Está bem”, disse ele. “Eu tomo uma cerveja dessa vez. Em sua homenagem.”
“Não, Walter, em sua homenagem. Tudo isso foi você quem conseguiu.”
Ele balançou a cabeça, sabendo que ela estava especialmente enganada quanto àquilo. Sem o entusiasmo, o encanto e a coragem dela, é bem provável que todo o acordo com a Nardone e a Blasco tivesse dado errado. É verdade que as linhas mestras tinham sido ideias dele; mas o que parecia é que, afora as ideias, não era capaz de mais nada. Em todos os outros sentidos, agora era Lalitha que estava ao volante. Ela usava um casaco impermeável de náilon, o capuz atirado para trás formando uma cesta repleta com seus lustrosos cabelos negros, por cima do conjunto listrado que vestira para as formalidades daquela manhã. Suas mãos ocupavam exatamente as posições de dez e duas horas no volante, os pulsos à mostra nus, pois as pulseiras tinham descido para baixo das mangas do casaco. Infinitas eram as coisas que Walter detestava na modernidade em geral e na cultura do automóvel em particular, mas a confiança das jovens mulheres ao volante, a autonomia que haviam conquistado nos últimos cem anos, não era uma delas. A igualdade entre os sexos, da forma como se manifestava na pressão do elegante pé de Lalitha no acelerador, o deixava grato por estar vivo no século xxi.
O problema mais difícil que ele precisara resolver para o Fundo tinha sido o que fazer com as cerca de duzentas famílias, na maioria muito pobres, que possuíam casas ou trailers em lotes de terra pequenos ou mínimos dentro dos limites propostos para o Parque. Alguns dos homens de lá ainda trabalhavam na indústria do carvão, ou debaixo da terra ou como motoristas de caminhão, mas a maioria estava desempregada e passava o tempo usando suas armas e seus motores de combustão interna, complementando a dieta de suas famílias com animais caçados no alto das montanhas e transportados em caminhonetes de caçamba. Walter agira depressa, comprando as terras do maior número possível de famílias antes que o Fundo atraísse muita publicidade; chegara a pagar apenas seiscentos dólares por hectare em certos lotes nas encostas. Mas quando suas tentativas de seduzir a comunidade ambientalista local saíram pela culatra, e uma ativista pouco motivada chamada Jocelyn Zon começou uma campanha contra o Fundo, ainda havia mais de cem famílias radicadas por lá, em sua maioria no vale do Nine Mile Creek, que desembocava em Forster Hollow.
Com a exceção do problema de Forster Hollow, Vin Haven encontrara a área perfeita, pouco mais de vinte e cinco mil hectares para o núcleo da reserva. Os direitos de mineração da superfície de noventa e oito por cento de toda a área estavam nas mãos de apenas três empresas, duas delas sem rosto, holdings totalmente racionais do ponto de vista econômico, a terceira de posse exclusiva de uma família chamada Forster, que deixara o estado mais de um século antes e agora se dissipava alegremente em afluência litorânea. As três empresas vinham explorando a terra com extração controlada de madeira, e não tinham nenhum motivo para não vendê-la ao Fundo por um valor razoável. Havia também, perto do centro dos Vinte e Cinco Mil de Haven, uma série imensa de veios muito ricos em carvão numa forma mais ou menos de ampulheta. Até aquele momento, ninguém tinha minerado aqueles cinco mil e poucos hectares, visto que o condado de Wyoming era muito distante e escarpado, mesmo para a Virgínia Ocidental. Uma estrada ruim e estreita, inutilizável por caminhões de carvão, serpenteava serra acima acompanhando o traçado do rio; no alto do vale, perto do gargalo da ampulheta, ficava Forster Hollow, onde moravam o clã e os amigos de Coyle Mathis.
Ao longo dos anos, a Nardone e a Blasco tinham promovido e fracassado em várias rodadas de negociação com Mathis, com uma persistência que lhes valeu a animosidade permanente do morador. Na verdade, um dos principais atrativos que Vin Haven oferecera às empresas carvoeiras, ainda nas primeiras negociações, tinha sido a promessa de livrá-las do problema constituído por Coyle. “Faz parte da sinergia mágica que conseguimos aqui”, disse Haven a Walter. “Somos um novo interlocutor, com quem Mathis ainda não tem motivo para ser hostil. Especialmente no caso da Nardone, eu obtive todos os compromissos de recuperação da área com a simples promessa de tirar Mathis da frente deles. E só o pouco de boa vontade que eu posso ter, só pelo fato de não ser a Nardone, parece valer alguns milhões de dólares.”
Quem dera!
Coyle Mathis era a encarnação do puro espírito negativo do interior da Virgínia Ocidental. Era coerente, e detestava absolutamente todo mundo por igual. Ser inimigo de um inimigo de Mathis só transformava você em mais um dos seus inimigos. A Indústria do Carvão, o Sindicato dos Carvoeiros, os ambientalistas, qualquer forma de governo, os negros, os brancos do norte que se metiam em tudo: odiava todos com equanimidade. Sua filosofia de vida era Vá tomar no cu e suma daqui, senão vai se arrepender. Seis gerações de Mathis intratáveis estavam sepultadas na encosta íngreme junto ao rio que seria um dos primeiros locais detonados com explosivos assim que as mineradoras de carvão começassem a trabalhar. (Ninguém falou do problema dos cemitérios na Virgínia Ocidental quando Walter começou a trabalhar para o Fundo, mas ele descobriu bem depressa.)
Entendendo um pouco de fúria onidirecional por experiência própria, Walter talvez tivesse conseguido convencer Mathis se este não lembrasse tanto seu pai. Aquele ressentimento obstinado e autodestrutivo. Walter tinha preparado um belo pacote de ofertas atraentes quando ele e Lalitha, depois de ficarem sem resposta para inúmeras cartas amigáveis, enveredaram pela poeirenta estrada de terra para o vale do Nine Mile Creek, sem terem sido convidados, numa manhã luminosa e quente de julho. Ele estava disposto a oferecer a Mathis e aos vizinhos até três mil dólares por hectare, mais um lote gratuito de terra num vale razoável perto do limite sul da reserva, respondendo por todos os custos da relocação, além de uma exumação de acordo com os últimos padrões da ciência e do novo sepultamento de todas as ossadas da família Mathis. Mas Coyle Mathis nem quis saber dos detalhes. Respondeu, “Não, N-A-O-til,” e acrescentou que pretendia ser enterrado no cemitério da família, e que ninguém ia fazê-lo mudar de ideia. E de um momento para o outro Walter voltou a ter dezesseis anos, e tonto de tanta raiva. Raiva não só de Mathis, por sua falta de bons modos e bom senso, mas também, paradoxalmente, de Vin Havens, por tê-lo lançado no ringue contra um homem cuja irracionalidade econômica ele de certa forma reconhecia e admirava. “Sinto muito”, disse ele, enquanto suava em bicas num caminho em que o mato crescia, debaixo do sol forte, ao lado de um quintal abarrotado de velharias em que Mathis fizera questão de não convidá-lo a entrar, “mas isso é uma decisão totalmente idiota.”
Lalitha, ao lado dele, segurando uma pasta cheia de documentos que tinham imaginado conseguir convencer Mathis a assinar, limpou a garganta com uma compaixão explosiva deste mundo deplorável.
Mathis, que era um homem esbelto e de uma boa aparência surpreendente, com pouco menos de sessenta anos, endereçou um sorriso deliciado às alturas verdes que os cercavam, tomadas pelo zumbido dos insetos. Um de seus cachorros, um vira-lata de longos bigodes com uma expressão enlouquecida, começou a rosnar. “Idiota?”, disse Mathis. “Me admira muito o senhor usar esta palavra, moço. Agora o senhor está me deixando muito espantado. Não é todo dia que me chamam de idiota. Por aqui há quem diga que ninguém devia falar comigo nesses termos.”
“Escute, eu tenho certeza que o senhor é um homem inteligente”, disse Walter. “Eu só estava dizendo—”
“Eu sou tão inteligente que sei perfeitamente contar até dez”, disse Mathis. “E o senhor, também sabe? Pelo seu jeito, parece um homem muito instruído. Sabe contar até dez?”
“Na verdade, eu sei contar até três mil”, disse Walter, “multiplicar isso por duzentos, e ainda somar mais duzentos mil ao resultado. E se o senhor pudesse me dar um minutinho só para eu explicar—”
“A minha pergunta”, respondeu Mathis, “é se sabe contar de trás para a frente. Olhe só, vou começar. Dez, nove...”
“Escute. Peço mil desculpas por ter usado a palavra idiota. O sol está meio forte aqui fora. Eu não quis dizer—”
“Oito, sete...”
“Talvez a gente possa voltar outro dia”, disse Lalitha. “Podemos deixar alguns documentos para o senhor ler quando quiser.”
“Ah, quer dizer que a senhorita acredita que eu sei ler?” Mathis estava radiante. A essa altura, todos os seus três cachorros estavam rosnando. “Acho que eu estava em seis. Ou seria cinco? Sou mesmo um velho idiota, já perdi a conta.”
“Escute”, disse Walter, “sinceramente, me desculpe se eu—”
“Quatro três dois!”
Os cachorros, eles próprios ao que tudo indicava bastante inteligentes, avançaram com as orelhas dobradas para trás.
“Voltamos outra hora”, disse Walter, batendo em retirada rápida com Lalitha.
“Se voltarem, eu atiro no carro!”, gritou Mathis para eles em tom de júbilo.
Enquanto percorriam cada metro da péssima estrada que levava à rodovia estadual, Walter amaldiçoava em voz alta sua própria idiotice e a incapacidade de controlar sua raiva, enquanto Lalitha, normalmente uma fonte inesgotável de elogios e reconforto, permanecia pensativa no banco do passageiro, refletindo sobre o próximo passo. Não seria exagero dizer que, sem a concordância de Mathis, todo o resto do trabalho que já tinham feito para se apossar dos Vinte e Cinco Mil de Haven tinha sido em vão. Quando chegaram ao fundo do vale empoeirado, Lalitha enunciou seu parecer: “Ele precisa ser tratado como um homem importante”.
“Mas é um psicopata de meia-tigela”, disse Walter.
“Seja como for”, disse ela—e Lalitha tinha um modo indiano especialmente encantador de pronunciar a expressão, uma das suas favoritas, um refrão entrecortado de mentalidade prática que Walter nunca se cansava de ouvir—, “vamos precisar dar-lhe a ideia de que é uma pessoa muito importante. Ele precisa ser o salvador, e não o vendido.”
“Infelizmente, nós só queremos que ele se venda.”
“Talvez se eu voltasse até lá e falasse com algumas das mulheres.”
“Mas lá em cima o que funciona é uma merda de um patriarcado”, disse Walter. “Ou você não reparou?”
“Não, Walter, as mulheres são muito fortes. Por que você não me deixa conversar com elas?”
“Isto só pode ser um pesadelo. Um pesadelo.”
“Seja como for”, repetiu Lalitha, “acho que talvez eu devesse ficar e conversar com as pessoas.”
“Ele já disse que não, recusou a nossa oferta. Categoricamente.”
“Então precisamos oferecer coisa melhor. Você precisa conversar com o senhor Haven sobre uma oferta melhor. Volte para Washington e vá conversar com ele. Acho até melhor que você não suba de novo até o vale. Mas talvez eu sozinha meta menos medo nas pessoas.”
“Não vou deixar você voltar lá sozinha.”
“Não tenho medo de cachorro. Acho que ele atiçou os cachorros contra você, não contra mim.”
“Mas não vai adiantar nada.”
“Talvez não, mas pode ser que sim”, disse Lalitha.
Além da bravura pura e simples daquela mulher sozinha de pele escura, com seu corpo miúdo e seu rosto bonito, em voltar para uma área ocupada por brancos pobres onde ela já fora ameaçada de agressão física, Walter não cansou de se admirar, nos meses que se seguiram, com o fato de que foi ela, a filha de um engenheiro eletricista criada num subúrbio de classe média de cidade grande, e não ele, oriundo de uma cidade pequena e filho de um bêbado enraivecido, quem operou o milagre na região de Forster Hollow. E não era apenas que faltasse a Walter jeito para lidar com pessoas comuns; toda a sua personalidade fora formada em oposição à área interiorana onde tinha crescido. Mathis, com sua irracionalidade e sua coleção de ressentimentos de branco pobre, representava um insulto a tudo que constituía o ser de Walter, deixando-o cego de raiva. Já Lalitha, que não tinha experiência alguma com gente do tipo de Mathis, fora capaz de voltar até lá de peito aberto e sem ideias preconcebidas. Abordara os orgulhosos pobres do campo da mesma maneira como dirigia automóveis, como se mal nenhum pudesse atingir uma pessoa animada e de tão boa vontade quanto ela; e os orgulhosos pobres do campo a tinham tratado com o respeito que não dirigiram ao raivoso Walter. O sucesso que ela obteve o deixou sentindo-se inferior e indigno da admiração dela, e assim mais agradecido ainda a Lalitha. O que por sua vez o levava a um entusiasmo de ordem mais geral quanto aos jovens e sua capacidade de fazer o bem no mundo. E também—embora ele resistisse ao reconhecimento consciente do fato—a amá-la bem mais do que seria aconselhável.
Com base nas informações privilegiadas recolhidas por Lalitha em seu regresso a Forster Hollow, no verão de 2001, Walter e Vin Haven formularam uma nova e absurdamente cara proposta para os habitantes do local. Oferecer-lhes simplesmente mais dinheiro, disse Lalitha, não adiantaria nada. Para que Mathis se saísse bem na história, ele precisava se ver como o Moisés conduzindo seu povo a uma nova terra prometida. Por azar, até onde Walter sabia dizer, os habitantes de Forster Hollow praticamente não tinham nenhuma habilidade aproveitável além de caçar, consertar motores, plantar hortaliças, coletar ervas e descontar os cheques mensais do seguro-desemprego. Ainda assim, Vin Haven fez o esforço de consultar seu amplo círculo de relações de negócios, e retornou a Walter com uma possibilidade interessante: coletes à prova de balas.
Até pegar o avião para Houston e ir se encontrar com Haven, no verão de 2001, Walter desconhecia o conceito de texanos bons, diante de um noticiário nacional totalmente dominado pelos maus. Haven era dono de um vasto rancho na região de Hill Country e de outro ainda maior ao sul de Corpus Christi, os dois tratados com todo o amor para servir de abrigo a aves de escolha dos caçadores. Haven era o tipo de amante da natureza à moda texana, feliz de estraçalhar a tiros lindas aves em pleno voo mas também disposto a passar horas e horas acompanhando arrebatado, por uma câmera em circuito fechado, o desenvolvimento de filhotes de coruja num ninho em sua propriedade, e capaz de passar horas discorrendo sobre a padronização em forma de escamas da plumagem de inverno de determinada espécie de maçarico. Era um homem baixo, brusco, com a cabeça em forma de bala, e Walter gostara dele desde o primeiro minuto de seu encontro inicial. “Cem milhões de dólares de cacife inicial para salvar uma única espécie de passarinho”, disse Walter. “Interessante, como alocação de recursos.”
Haven inclinou a cabeça cônica para um lado. “Algum problema, do seu ponto de vista?”
“Não necessariamente. Mas visto que a ave nem está na lista federal de espécies protegidas, fiquei curioso quanto ao seu raciocínio.”
“O que eu pensei é que os cem milhões de dólares são meus, e que tenho o direito de gastar do jeito que eu quiser.”
“Bem colocado.”
“Os melhores estudos que temos sobre a mariquita-azul mostram que as populações vêm declinando três por cento ao ano nos últimos quarenta anos. Apesar de ainda não ter atingido os critérios da lista federal das espécies ameaçadas, ainda é possível projetar a curva e ver que está tendendo a zero. E é para lá que está indo.”
“Entendi. Mas mesmo assim—”
“Mesmo assim existem outras espécies mais perto de zero. Eu sei. E juro por Deus que espero que alguém se preocupe com elas. Eu vivo me perguntando se eu seria capaz de cortar meu próprio pescoço se soubesse que isso salvaria uma única espécie. Todos nós sabemos que uma vida humana vale mais que a vida de um passarinho. Mas será que a minha vidinha vale tanto quanto a de uma espécie inteira?”
“Ainda bem que ninguém precisa fazer esse tipo de escolha.”
“De certa forma, é verdade”, disse Haven. “Mas num sentido mais amplo, é a escolha que todo mundo anda fazendo. Recebi uma ligação de um diretor nacional da Sociedade Audubon em fevereiro, pouco depois da posse do presidente. E ele se chama Martin Jay, dois nomes de passarinho, imagine se isso é possível. O nome certo para o cargo. Pois Martin Jay queria saber se eu não conseguia um encontro entre ele e Karl Rove na Casa Branca. Disse que só precisava de uma horinha para convencer Karl Rove de que dar prioridade à conservação da natureza era um grande trunfo político para o novo governo. E eu respondi, acho que consigo uma hora para você com Rove, mas tem uma coisa que você pode fazer por mim antes. Precisa conseguir que um instituto independente e de boa reputação encomende uma pesquisa sobre o quanto o meio ambiente é uma prioridade importante para os eleitores indecisos. Se você tiver uns números interessantes para mostrar a Karl Rove, ele vai lhe dar toda a atenção. E aí Martin Jay me agradeceu muito, muito obrigado, que ideia fabulosa, é o que eu vou fazer. E eu disse a ele, só mais uma coisinha: antes de encomendar a pesquisa e mostrar para Rove, você pode querer ter uma ideia de quais seriam os resultados. Isso foi há seis meses. Nunca mais ouvi falar dele.”
“Nós dois estamos mais ou menos de acordo sobre a política”, disse Walter.
“Kiki e eu estamos insistindo um pouco com Laura, sempre que podemos”, disse Haven. “Por esse caminho pode ser mais fácil.”
“Ótimo, incrível.”
“Mas não vá esperar coisa demais. Às vezes eu acho que W é mais casado com Rove que com Laura. Mas eu não lhe disse nada.”
“Sei, mas então por que a mariquita-azul?”
“É um passarinho que eu gosto. É bonitinho. Pesa menos que meu dedinho e ainda assim voa de ida e volta até a América do Sul todo ano. O que por si só já é uma verdadeira maravilha. Um homem sozinho, uma única espécie. Não está de bom tamanho? Se conseguíssemos juntar mais seiscentos e vinte homens, podíamos proteger todas as espécies que se reproduzem na América do Norte. Se você tivesse a sorte de tirar um passarinho mais comum, não precisaria gastar nem um tostão para preservar a espécie. Já eu gosto de um desafio. E a região carvoeira dos Apalaches é um desafio e tanto. E é o que você precisa aceitar se for cuidar dessa iniciativa para mim. Precisa ter uma atitude tolerante em relação à mineração a céu aberto no topo das montanhas.”
Em seus quarenta anos na indústria de petróleo e gás, comandando uma empresa chamada Pelican Oil, Vin Haven criara relações com praticamente todo mundo que valia a pena conhecer no Texas, de Ken Lay a Rusty Rose, de Ann Richards ao monsenhor Tom Pincelli, o “padre dos passarinhos” da região do baixo Rio Grande. Dava-se especialmente bem com o pessoal da lbi, uma gigante da área dos serviços de extração de petróleo que, como sua arquirrival Halliburton, se tornara uma das principais empresas fornecedoras de armas e equipamentos de defesa nos governos de Reagan e Bush pai. Foi à lbi que Haven recorreu para solucionar o problema de Coyle Mathis. À diferença da Halliburton, cujo ex-ceo agora mandava no país, a lbi ainda se esforçava para obter um acesso privilegiado ao novo governo, o que a deixava especialmente disposta a prestar um favor a um amigo pessoal próximo de George e Laura.
Uma subsidiária da lbi, a ArDee Enterprises, conseguira pouco antes uma grande encomenda para fornecer os coletes à prova de balas de alta resistência que as forças americanas, à medida que bombas caseiras começavam a explodir em cada canto do Iraque, descobriram com atraso ser de necessidade extrema para seus homens. A Virgínia Ocidental, que tinha mão de obra barata e regras tolerantes de controle do meio ambiente, e que fora inesperadamente responsável pela margem que trouxera a vitória a Bush-Cheney em 2000—escolhendo um candidato republicano pela primeira vez desde a vitória esmagadora de Nixon em 1972—, era vista com muito bons olhos nos círculos frequentados por Vin Haven. A ArDee Enterprises estava construindo às pressas uma fábrica de coletes no condado de Whitman, e Haven, ao entrar em contato com a ArDee antes que esta começasse a contratar a força de trabalho para sua nova unidade, conseguiu obter a garantia de cento e vinte empregos estáveis para os habitantes de Forster Hollow, em troca de um pacote de concessões tão generoso que a ArDee estaria contratando sua mão de obra sem gastar praticamente nada. Haven prometeu a Coyle Mathis, através de Lalitha, pagar a instalação em casas de primeira qualidade e um treinamento para o novo trabalho para ele e as demais famílias de Forster Hollow, açucarando ainda a oferta com um adiantamento em dinheiro à ArDee suficiente para bancar o seguro-saúde e um plano de aposentadoria para os funcionários pelos próximos vinte anos. Quanto à estabilidade no emprego, bastava mencionar as declarações, feitas por diversos membros do governo Bush, de que os Estados Unidos pretendiam passar várias gerações se defendendo no Oriente Médio. Não havia um final previsível para a guerra ao terror e, portanto, nenhuma queda previsível na demanda de coletes à prova de balas.
Walter, que tinha uma péssima impressão sobre as iniciativas de Bush-Cheney no Iraque, e uma impressão pior ainda da higiene moral dos beneficiários de contrato da indústria militar, sentiu-se desconfortável de trabalhar com a lbi e fornecer ainda mais munição para os ambientalistas de esquerda que lhe faziam oposição na Virgínia Ocidental. Mas Lalitha ficou infinitamente entusiasmada. “É perfeito”, disse ela a Walter. “Assim, podemos ser mais que apenas um modelo de recuperação da terra em bases científicas. Também podemos aparecer como um modelo de relocação e retreinamento das pessoas deslocadas por projetos de conservação de espécies ameaçadas.”
“Embora, pensando bem, vá ser uma merda para as pessoas que venderam antes da hora”, disse Walter.
“Se eles continuarem a reclamar, podemos oferecer empregos para eles também.”
“Por sei lá quantos milhões a mais.”
“E o fato de ser uma indústria patriótica também é perfeito!”, disse Lalitha. “São pessoas que estarão fazendo alguma coisa para ajudar o país em tempo de guerra.”
“Não me parece que sejam do tipo que perde o sono pensando em ajudar o país.”
“Não, Walter, aí é que você se engana. Luanne Coffey tem dois filhos no Iraque. E odeia o governo por não dar proteção suficiente a eles. Nós duas conversamos exatamente sobre isso. Ela detesta o governo, mas detesta ainda mais os terroristas. É perfeito.”
E assim, em dezembro, Vin Haven pousou em Charleston a bordo de seu jato particular, seguindo pessoalmente na companhia de Lalitha até Forster Hollow enquanto Walter ficava marinando em sua raiva e humilhação, num quarto de motel em Beckley. Não se surpreendeu ao saber por Lalitha que Coyle Mathis ainda era dado a longos improvisos discorrendo como o chefe dela era um idiota arrogante e metido. Ela entrou no papel de policial boazinha até a ponta dos cabelos; e Vin Haven, que tinha certo toque de homem comum (haja vista sua amizade com George W.), também foi aparentemente bem tolerado em Forster Hollow. Enquanto um pequeno grupo de manifestantes de fora do vale, comandados pela louca Jocelyn Zorn, andava de um lado para o outro com seus cartazes (no fundo, o fundo não presta) junto à porta da pequena escola primária onde se realizou a reunião, todas as oitenta famílias do vale assinaram os documentos em que abriam mão dos seus direitos à propriedade das terras e receberam, no ato, oitenta polpudos cheques visados da conta do Fundo em Washington.
E agora, noventa dias mais tarde, Forster Hollow se transformara numa cidadezinha-fantasma de propriedade do Fundo e pronta para começar a ser demolida às seis da manhã seguinte. Walter não tinha visto motivo para presenciar a primeira manhã da demolição, e tinha visto vários para não estar presente, mas Lalitha ficou animada com a remoção das últimas estruturas permanentes erguidas no futuro Parque da Mariquita. Ele a seduzira, quando a tinha contratado, com a visão de mais de duzentos e cinquenta quilômetros quadrados totalmente livres de impureza humana, e ela aderiu de corpo e alma. Como fora a pessoa responsável por deixar a visão tão perto de se tornar concreta, ele não tinha como negar-lhe a satisfação de comparecer a Forster Hollow. Queria dar a ela qualquer coisa que pudesse, pois não podia dar-lhe seu amor. Procurava fazer tudo o que ela queria, como tantas vezes tivera vontade de fazer tudo o que Jessica queria mas não se permitira, em nome do comportamento correto de pai.
Lalitha estava inclinada para a frente de tanta ansiedade enquanto conduzia o carro alugado pelas ruas de Beckley, onde a chuva agora caía mais forte.
“Amanhã a estrada vai estar totalmente enlameada”, disse Walter, olhando para a chuva e notando, com desprazer, a amargura de um velho em sua voz.
“A gente acorda às quatro e sobe devagar”, disse Lalitha.
“Até parece. Quando você consegue dirigir devagar numa estrada?”
“Estou muito animada, Walter!”
“E eu nem devia estar aqui”, retrucou ele em tom amargo. “Devia dar aquela entrevista coletiva amanhã de manhã.”
“Cynthia disse que segunda-feira é sempre um dia melhor para começar um assunto”, respondeu Lalitha, referindo-se à assessora de imprensa cujo trabalho, até aquele momento, consistia principalmente em evitar o contato com a imprensa.
“Não sei do que eu tenho mais medo”, disse Walter. “De ninguém aparecer ou de encontrar uma sala lotada de jornalistas.”
“Ah, queremos sem dúvida a sala cheia. A notícia é muito boa, se você explicar direito.”
“Só sei que estou com medo.”
Ficar em hotéis com Lalitha tinha se transformado talvez na parte mais difícil de toda a relação de trabalho entre eles dois. Em Washington, onde ela morava no andar em cima do dele, ela pela menos ficava em outro piso, e Patty pelo menos estava por perto para geralmente tornar o quadro mais complexo. No Days Inn de Beckley, enfiaram cartões idênticos em portas idênticas, a cinco metros um do outro, e entraram em quartos cujo idêntico despojamento profundo só poderia ter sido compensado por uma tórrida ligação ilícita. Walter não tinha como deixar de pensar no quanto Lalitha havia de estar sozinha em seu quarto idêntico. Parte do seu sentimento de inferioridade consistia em pura e simples inveja—inveja da juventude dela; inveja de seu idealismo inocente; inveja da simplicidade da situação em que ela se encontrava, em contraste com a impossibilidade da dele—, e ele teve a impressão de que o quarto dela, embora idêntico ao seu na aparência, era o quarto da plenitude, o quarto de um desejo lindo e admissível, enquanto o dele era o quarto da vacuidade e da repressão estéril. Ligou a cnn, só pelo barulho, e assistiu a uma reportagem sobre a carnificina mais recente no Iraque, enquanto tirava a roupa para um banho solitário de chuveiro.
Na manhã anterior, antes que ele saísse para o aeroporto, Patty tinha aparecido na porta do quarto do casal. “Vou tentar falar da maneira mais clara e simples possível”, disse ela. “Você tem a minha permissão.”
“Permissão para quê?”
“Você sabe para quê. E eu disse que está dada.”
Ele quase acreditou que ela estava sendo sincera, se a expressão em seu rosto não fosse tão desfeita, e se ela não torcesse as mãos tão deploravelmente enquanto falava.
“Não sei do que você está falando”, disse ele, “mas não quero permissão nenhuma sua.”
Ela olhou para ele com ar suplicante, e depois desesperado, e foi embora. Meia hora mais tarde, quando saía de casa, ele bateu à porta do quartinho onde ela escrevia, mandava seus e-mails e, cada vez com mais frequência nos últimos tempos, passava as noites. “Meu anjo”, disse ele pela porta. “Vejo você na quinta à noite.” Como ela não respondeu, ele bateu de novo e entrou. Ela estava sentada no sofá-cama, apertando os dedos de uma das mãos com a outra. Seu rosto estava inchado, desfigurado, sulcado de lágrimas. Ele se acocorou aos pés dela e segurou suas mãos, que envelheciam mais depressa que o resto dela; estavam ossudas e com a pele muito fina. “Eu te amo”, disse ele. “Você sabe disso?”
Ela assentiu com um gesto rápido da cabeça, mordendo o lábio, grata mas não convencida. “Está bem”, disse ela num guincho sussurrado. “Está na sua hora.”
Quantos milhares de vezes mais, perguntou-se ele enquanto descia as escadas até o escritório do Fundo, vou deixar essa mulher me apunhalar o coração?
A pobre Patty, a pobre Patty, sempre competitiva, que não fazia nada nem de longe corajoso ou admirável em Washington, não tinha como deixar de perceber a admiração que ele sentia por Lalitha. O motivo pelo qual ele não se permitia sequer pensar em se apaixonar por Lalitha, quanto mais tomar alguma providência a respeito, era Patty. Não só por respeitar à risca as leis maritais, mas também por não suportar a ideia de que ela soubesse que ele admirava alguém mais do que a ela. E Lalitha era melhor do que Patty. Era fato, um fato inescapável. Mas Walter sentia que preferiria morrer a reconhecer esse fato óbvio para a própria Patty, porque, por mais que pudesse descobrir que amava Lalitha, e por mais que sua vida com Patty tivesse ficado inviável, ele amava Patty de um modo totalmente diferente, um modo maior e mais abstrato mas ainda assim essencial, que tinha a ver com uma vida inteira de comportamento responsável; com o fato de ser uma boa pessoa. Se fosse o caso de passar o rodo nela, no sentido trabalhista e/ou sexual, Lalitha choraria por alguns meses e depois seguiria em frente, dedicando-se a boas causas na companhia de outras pessoas. Lalitha era jovem e tinha o dom da clareza. Enquanto Patty, embora se mostrasse muitas vezes cruel para com ele e ultimamente, cada vez mais, viesse evitando seu carinho físico, ainda precisava que ele a tivesse em alta consideração. E ele sabia bem disso pois, não fosse por isso, por que outro motivo ela não o deixava? Ele sabia muito bem. Havia um vazio no centro de Patty que era sua obrigação na vida fazer o possível para preencher de amor. Uma tênue centelha de esperança que só ele era capaz de salvaguardar. E assim, embora sua situação já fosse insustentável e só parecesse ficar ainda pior a cada dia, a única escolha de Walter era persistir.
Saindo do chuveiro do motel, tomando o cuidado de evitar a imagem do egrégio corpo branco de meia-idade no espelho, ele checou seu BlackBerry e encontrou uma mensagem de Richard Katz.
E aí, parceiro, aqui já está tudo pronto. E agora, nos encontramos
mesmo em Washington? Fico num hotel ou durmo no seu sofá? Quero
todos os poleiros a que tenho direito.
Beijos às suas lindas mulheres. rk.
Walter estudou a mensagem com um desconforto de origem incerta. Podia ser só o erro de ortografia, que lhe lembrava a desatenção fundamental de Richard, mas também podia ser uma consequência de seus encontros em Manhattan duas semanas antes. Apesar de muito satisfeito de rever seu velho amigo, Walter ficara atormentado em seguida diante da insistência de Richard, no restaurante, para que Lalitha repetisse a palavra foda, e pelas suas insinuações subsequentes do interesse dela pelo sexo oral, e pela maneira como ele próprio, no bar da Penn Station, tinha falado mal de Patty, o que ele nunca se permitia fazer na frente de mais ninguém. Ainda tentar impressionar seu colega de quarto na faculdade aos quarenta e sete anos, denegrindo a própria esposa e revelando confidências que seria melhor nunca revelar: era uma coisa patética. Embora Richard também desse a impressão de ter ficado contente de estar com ele, Walter não conseguia se livrar da velha sensação, que conhecia tão bem, de que Richard tentava impor-lhe sua visão katziana do mundo e, assim, sobrepujá-lo. Quando, para grande surpresa de Walter, antes que se despedissem, Richard concordara em deixá-lo usar seu nome e seu rosto na campanha contra a superpopulação, Walter ligara imediatamente para Lalitha com a grande notícia. Mas ela fora a única a poder saborear a informação com um entusiasmo completo. Walter embarcara no trem para Washington com grandes dúvidas. Teria feito a coisa certa?
E por que, naquele seu e-mail, Richard resolvera falar da beleza de Lalitha e de Patty? Por que mandar beijos para as duas, mas nem um abraço para o próprio Walter? Um simples descuido a mais? Walter achava que não.
Bem perto do Days Inn ficava um restaurante de carne feito de plástico de cima a baixo, mas com um bar bem equipado. Era um lugar ridículo para se jantar, dado que nem Walter nem Lalitha comiam carne bovina, mas o recepcionista do motel não tinha nada de melhor a indicar. Numa cabine com assentos de plástico, Walter encostou a borda de seu copo de cerveja ao dry martini de Lalitha, que ela consumiu o mais rápido que pôde. Ele fez sinal para a garçonete, pedindo mais um, e em seguida se entregou ao penoso estudo do cardápio da casa. Entre os horrores do metano de origem bovina e dos lagos de excremento que devastavam as fontes de água potável, produzidos pelas granjas de produção de porcos e frangos, a pesca catastroficamente excessiva que devastava os mares, o pesadelo ecológico dos projetos de cultivo de camarão e salmão, a orgia antibiótica das fábricas de processamento de laticínios, e o combustível desperdiçado pela globalização dos produtos alimentícios, havia pouco que ele poderia pedir em boa consciência além de batatas, feijões e tilápia produzida em criadouros de água doce.
“Foda-se”, disse ele, fechando o cardápio. “Vou pedir um filé-mignon.”
“Excelente, excelente comemoração”, disse Lalitha, com o rosto já corado. “E eu vou pedir o delicioso sanduíche de queijo quente do menu infantil.”
A cerveja era interessante. Inesperadamente amarga e quase gostosa, lembrando o sabor de massa de pão. Depois de três ou quatro goles, vasos sanguíneos que raramente se manifestavam no cérebro de Walter pulsavam com um efeito perturbador.
“Recebi um e-mail de Richard”, disse ele. “Ele está disposto a vir para cá discutir estratégias conosco. Eu disse que viesse no fim de semana.”
“Ah! Viu só? E você achava que nem valia a pena falar com ele.”
“Não, não. Nessa você tinha razão.”
Lalitha percebeu alguma coisa no rosto dele. “Mas você não ficou satisfeito com a ideia?”
“Não, claro que sim”, disse ele. “Teoricamente. Só tem uma coisa que me faz... desconfiar. Acho que basicamente por não entender por que ele aceitou.”
“Porque nós dois fomos extremamente convincentes!”
“É, pode ser. Ou talvez porque você seja extremamente bonita.”
Ela ficou lisonjeada e ao mesmo tempo embaraçada por essas palavras. “Ele é um amigo muito próximo, não é?”
“Foi. Mas depois ficou famoso. E agora só consigo ver as partes dele em que não confio.”
“E no que você não confia?”
Walter abanou a cabeça, sem querer responder.
“Você não confia nele comigo?”
“Não, seria uma estupidez imensa, não é? Quer dizer, por que algo que você faça poderia me afetar? Você é adulta, e sabe cuidar de si mesma.”
Lalitha riu dele, agora simplesmente satisfeita, e nada confusa.
“Acho Richard muito engraçado e carismático”, disse ela. “Mas no geral o que mais sinto por ele é pena. Sabe como? Ele parece um desses homens que precisam ficar o tempo todo ostentando uma atitude, porque por dentro são fracos. Ele nem chega perto de você como homem. Enquanto nós três conversamos, eu só via o quanto ele admira você, e como ele tentava não deixar isso claro demais. Você não percebe?”
O grau de prazer que Walter sentiu ao ouvi-la dizer isso lhe pareceu até perigoso. Ele queria acreditar nela, mas não conseguia, porque sabia o quanto Richard, a seu modo, podia ser de uma persistência infatigável.
“É sério, Walter. Esse tipo de homem é muito primitivo. Só tem dignidade, autocontrole e atitude. E só tem uma coisa, enquanto você tem todo o resto.”
“Mas a coisa que ele tem é o que o mundo quer”, disse Walter. “Você leu todas as informações sobre ele que constam no Nexis, e sabe do que estou falando. O mundo não quer ideias ou emoções, quer integridade e comedimento. E é por isso que não confio nele. Ele armou o jogo de um modo que sempre vai ganhar. Em particular, pode achar que admira o que estamos fazendo, mas nunca vai admitir em público, porque precisa manter a atitude, que é o que o mundo espera dele, e ele sabe disso muito bem.”