Liberdade
2. Melhores amigas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Devido à sua incapacidade de rememorar seu estado de consciência nos primeiros três anos de faculdade, a autobiógrafa suspeita que simplesmente não tinha consciência nenhuma. A sensação era de estar desperta, mas na realidade devia sofrer de sonambulismo. De outro modo seria difícil entender como, por exemplo, ela se tornou a melhor amiga de uma moça muito perturbada que costumava persegui-la.
Parte da culpa—embora a autobiógrafa deteste ter de admitir—pode caber aos campeonatos da chamada Liga dos Dez Grandes e ao mundo artificial criado para os estudantes que participavam dela, sobretudo os rapazes, mas também, já desde o final da década de 1970, as moças. Patty foi para Minnesota em julho para uma colônia de férias especial destinada a atletas estudantis, seguida de um período especial de orientação para calouros, só atletas, e então foi morar num dormitório especial para atletas, só fazia amigas atletas, comia exclusivamente na mesa das atletas, dançava em grupo nas festas com suas companheiras de equipe e tomou o cuidado de nunca se matricular em alguma cadeira em que não houvesse vários outros atletas ao lado dos quais pudesse se sentar e com quem (se sobrasse algum tempo) pudesse estudar. Os atletas não precisavam viver assim, mas em Minnesota era o caso da maioria, e Patty exagerou ainda mais em sua adesão a um Mundo Só de Atletas do que a maioria, porque lá era possível! Porque ela conseguira afinal ir embora de Westchester! “Você deve ir para onde quiser”, disse Joyce a Patty, o que significava: é grotesco e repulsivo frequentar uma universidade estadual medíocre como a de Minnesota quando se tem ótimas ofertas da Vanderbilt e da Northwestern (que também me dariam uma imagem melhor). “A escolha é inteiramente sua, pessoal, e vamos dar apoio a qualquer coisa que você decidir”, disse Joyce, o que significava: não vá pôr a culpa no seu pai e em mim se estragar sua vida para sempre com suas decisões idiotas. A aversão transparente de Joyce a Minnesota, juntamente com a distância que separava Minnesota de Nova York, foi um fator decisivo para Patty decidir ir para lá. Pensando hoje em retrospecto, a autobiógrafa percebe a si mesma quando mais jovem como uma dessas adolescentes muito infelizes, tão furiosas com os pais que precisava entrar para algum culto em que pudesse comportar-se melhor, ser mais amistosa e mais generosa e subserviente do que jamais conseguiria ser de novo em casa. E, no caso dela, o culto era o basquete.
A primeira não atleta a atraí-la para além dos limites do culto e tornar-se importante para ela foi essa moça perturbada, Eliza, que Patty, claro, de início nem percebia ser perturbada. Eliza era exatamente meio bonita. Sua cabeça começava linda no alto e ia ficando mais feia quanto mais a gente olhasse para baixo. Tinha lindos cabelos castanhos cheios e ondulados, olhos grandes e impressionantes, depois um nariz arrebitado bonitinho, mas depois, em torno da boca, seu rosto ficava comprimido e miniaturizado de um modo estranho, lembrando mais ou menos um bebê prematuro, e ela tinha um queixo mínimo. Usava sempre calças de veludo frouxas que ameaçavam cair dos seus quadris, e camisas apertadas de manga curta que comprava no departamento de meninos de brechós e só abotoava até o meio, e Keds vermelhos, e um casaco grande de pele de cordeiro verde-abacate. Cheirava a cinzeiro, mas tentava não fumar perto de Patty, a menos que estivessem ao ar livre. Numa ironia à época imperceptível para Patty mas hoje claramente visível para a autobiógrafa, Eliza tinha muito em comum com as irmãs menores de Patty, todas metidas a artistas. Possuía uma guitarra elétrica preta e um lindo amplificador pequeno, mas, nas poucas vezes em que Patty a convenceu a tocar em sua presença, Eliza ficou furiosa com ela, o que de outro modo quase nunca acontecia (pelo menos não num primeiro momento). Disse que Patty estava fazendo pressão sobre ela, deixando-a envergonhada, e que era por isso que sempre errava depois dos primeiros acordes da canção. Pediu que Patty não prestasse uma atenção muito óbvia, mas mesmo quando Patty lhe deu as costas para ler uma revista, não adiantou nada. Eliza jurava que no minuto em que Patty tornou a sair do quarto conseguiu tocar de novo a canção perfeitamente. “Mas agora? Nem pensar.”
“Desculpe”, disse Patty. “Desculpe ter esse efeito sobre você.”
“Eu toco essa música incrivelmente bem quando você não está escutando.”
“Eu sei, eu sei, acredito.”
“É verdade. Não faz diferença você acreditar.”
“Mas eu acredito!”
“O que estou dizendo”, explicou Eliza, “é que não faz diferença você acreditar, porque a minha capacidade de tocar muito bem essa música quando você não está escutando é simplesmente um fato objetivo.”
“Talvez você pudesse tentar outra música”, argumentou Patty.
Mas Eliza já estava arrancando os plugues. “Pare. Está bom? Não quero que você me console.”
“Desculpe, desculpe, desculpe”, disse Patty.
Tinha conhecido Eliza na única aula em que uma atleta e uma poeta tinham alguma chance de se conhecer, Introdução às Ciências da Terra. Patty entrava e saía dessa turma especialmente grande com dez outras atletas calouras, um bando de meninas na maioria ainda mais altas que ela, todas vestidas com trajes de moletom marrom da equipe da universidade ou com casacos cinzas lisos, todas com os cabelos em vários estágios de secagem. Havia várias garotas inteligentes no bando, entre elas a amiga da vida toda da autobiógrafa, Cathy Schmidt, que mais tarde viraria defensora pública e certa vez participou do programa de perguntas e respostas Jeopardy!, em rede nacional, por duas noites seguidas, mas o anfiteatro superaquecido, aqueles trajes esportivos e os cabelos molhados e a proximidade de outros corpos atléticos cansados nunca deixavam de comunicar a Patty uma certa pasmaceira por contágio. Uma queda de energia por contágio.
Eliza gostava de sentar-se na fila atrás dos atletas, diretamente atrás de Patty, mas tão escarrapachada na cadeira que só deixava visíveis seus fartos cachos escuros. Suas primeiras palavras a Patty foram murmuradas por trás no ouvido desta, no começo de uma aula. Ela disse: “Você é a maior”.
Patty virou-se para ver quem estava falando e viu montes de cabelo. “Como disse?”
“Vi você jogando ontem à noite,” disse a cabeleira. “Você é genial, e linda.”
“Ora, obrigada.”
“Eles precisam deixar você mais tempo em quadra.”
“Pois é, rá rá, acho exatamente a mesma coisa.”
“Você devia exigir que eles deixem você mais tempo em quadra. Entendeu?”
“É, mas são muitas ótimas jogadores no time. E não sou eu que resolvo.”
“Pode ser, mas você é a melhor de todas”, disse a cabeleira.
“Ora, muito obrigada pelo elogio!”, respondeu Patty em tom alegre, para encerrar a conversa. Àquela altura, ela acreditava que era por ser desprendida e ter espírito de equipe que os elogios pessoais diretos a deixavam tão encabulada. A autobiógrafa hoje acha que os elogios eram como uma bebida de que ela inconscientemente tinha a prudência de evitar uma gota que fosse, visto que sofria de uma sede infinita.
Quando a aula acabou, ela se cercou das companheiras de quadra e cuidou de não tornar a olhar para a pessoa com todo aquele cabelo. Supôs ser uma estranha coincidência que uma fã sua se sentasse bem atrás dela na aula de Ciências da Terra. Havia cinquenta mil estudantes na universidade, mas menos de quinhentos deles (sem contar ex-jogadoras, amigos e familiares das atuais) consideravam os esportes femininos uma opção respeitável de entretenimento. Se você fosse Eliza e quisesse sentar-se diretamente atrás do banco de reservas (para que Patty, ao sair da quadra, não tivesse como deixar de vê-la e a seus cabelos quando se debruçava sobre um caderno), tudo que precisava fazer era chegar à quadra quinze minutos antes do jogo. E então, depois da campainha final e do cumprimento ritual às adversárias, a coisa mais fácil do mundo era interceptar Patty perto da porta do vestiário e entregar-lhe uma folha arrancada do caderno e dizer: “Você pediu para ficar mais tempo em quadra, como eu lhe falei para fazer?”.
Patty ainda não sabia o nome daquela pessoa, mas a pessoa evidentemente sabia o seu, porque a palavra patty estava escrita na folha de papel cerca de cem vezes, em letras explosivas de histórias em quadrinhos com contornos concêntricos a lápis para dar-lhes a aparência de gritos que ecoavam no ginásio, como se todos os presentes gritassem o nome dela em coro, o que não podia ser mais distante da realidade, dado que o ginásio costumava ficar noventa por cento vazio, Patty estava no primeiro ano e só passava uma média de menos de dez minutos em quadra por jogo, ou seja, não era exatamente um nome muito conhecido. Os gritos delineados a lápis enchiam toda a folha de papel menos um desenho miúdo de uma jogadora controlando a bola. Patty sabia que a jogadora devia ser ela, porque usava seu número e quem mais podia estar retratada numa página coberta com o nome patty? Como tudo que Eliza fazia (o que Patty logo haveria de descobrir), o desenho era super-refinado até certo ponto e, de resto, mal-acabado e ruim. A maneira como o corpo da jogadora aparecia muito abaixado e descrevendo uma curva violenta enquanto se virava era excelente, mas o rosto e a cabeça pareciam uma mulher genérica num livreto de primeiros socorros.
Olhando para aquela folha de papel, Patty pôde antecipar a sensação de queda que teria alguns meses depois ao comer brownies de maconha em companhia de Eliza. Uma coisa muito estranha e assustadora, mas de que era difícil se defender.
“Obrigada pelo desenho”, disse ela.
“Por que não usam mais você?”, perguntou Eliza. “Você passou praticamente toda a segunda metade do jogo no banco.”
“Depois que abrimos uma vantagem grande—”
“Você é brilhante e eles deixam você no banco? Isso eu não consigo entender.” Os cachos de Eliza sacudiam como um salgueiro numa ventania; estava muito contrariada.
“Dawn, Cathy e Shawna jogaram muito bem”, disse Patty. “Seguraram a vantagem maravilhosamente.”
“Mas você é muito melhor do que elas.”
“Preciso ir tomar uma ducha. Obrigada de novo pelo desenho.”
“Talvez neste ano não, mas ano que vem, no máximo, todo mundo só vai querer saber de você”, disse Eliza. “Você vai atrair muita atenção. Você precisa começar a aprender a se proteger.”
Foi tão ridículo que Patty precisou parar e esclarecer. “Excesso de atenção nunca foi o maior dos problemas para o basquete feminino.”
“E os homens? Você sabe se proteger dos homens?”
“Como assim?”
“Quer dizer, você sabe avaliar bem em matéria de homem?”
“No momento, não tenho tempo para muita coisa além de treinar e jogar.”
“Parece que você não sabe como é maravilhosa. E como isso é perigoso.”
“Eu sei que sou boa em esportes.”
“É uma espécie de milagre, que você não está aproveitando plenamente.”
“Bem, eu não bebo, o que ajuda muito.”
“E por que você não bebe?”, retrucou Eliza imediatamente.
“Porque não posso quando estou treinando. Nem mesmo um gole.”
“Você treina todos os dias do ano?”
“Bem, tive uma experiência ruim com bebida na escola, também por isso.”
“O que aconteceu—alguém te estuprou?”
O rosto de Patty ficou em brasa e assumiu cinco expressões diferentes ao mesmo tempo. “Caramba”, disse ela.
“Foi isso que aconteceu?”
“Vou tomar uma ducha.”
“Olha só, é exatamente disso que estou falando!”, exclamou Eliza muito excitada. “Você nem me conhece, estamos conversando há menos de dois minutos, e você praticamente acaba de me contar que sobreviveu a um estupro. Você é completamente desprotegida!”
Patty ficou tão assustada e constrangida naquele momento que não percebeu as falhas daquela lógica.
“Eu sei me proteger”, disse ela. “E está dando certo.”
“Está certo. Tudo bem.” Eliza deu de ombros. “É a sua segurança, não a minha.”
O estrondo de interruptores pesados ecoou no ginásio enquanto as luzes se apagavam.
“Você joga alguma coisa?”, perguntou Patty, para compensar o fato de não ter sido mais cordata.
Eliza baixou os olhos para seu próprio corpo. Tinha a pélvis muito larga e baixa, e os pés pequenos um pouco para dentro, calçados com seus Keds. “Eu tenho jeito de esportista?”
“Não sei. Badminton?”
“Detesto ginástica”, disse Eliza, rindo. “Detesto qualquer esporte.”
Patty riu também, aliviada por ter conseguido mudar de assunto, embora tenha ficado confusa.
“Nem mesmo jogo bola ‘como uma menina’, nem ‘corro como uma menina’”, disse Eliza. “Eu me recuso a jogar ou a correr, e ponto final. Quando uma bola cai nas minhas mãos, fico esperando até alguém vir buscar. Quando queriam que eu corresse, assim, para a primeira base, eu ficava um tempo parada e depois, saía andando.”
“Meu Deus”, disse Patty.
“Foi mesmo, e quase não consegui me formar por causa disso”, disse Eliza. “Só consegui o diploma porque meus pais conheciam a psicóloga da escola. E me deram crédito por ir pedalando todo dia para a escola.”
Patty assentiu com a cabeça, um tanto insegura. “Mas você gosta de basquete, não é?”
“É, adoro”, disse Eliza. “O basquete é uma coisa fascinante.”
“Bom, se é assim, então você não pode dizer que odeia qualquer esporte. Acho que você detesta é se exercitar.”
“Exatamente. Isso mesmo.”
“Bom, então é isso.”
“É isso. E então, vamos ser amigas?”
Patty riu. “Se eu disser que sim, só vou provar que você tem razão quando diz que eu não tomo o devido cuidado com pessoas que mal conheço.”
“Estou achando que você disse não.”
“Que tal a gente esperar para ver como fica?”
“Ótimo. Gostei de ver você tomando esse cuidado—muito bem.”
“Está vendo? Está vendo?” Patty já estava rindo de novo. “Sou mais cuidadosa do que você achava!”
A autobiógrafa não tem dúvida de que, se Patty tivesse mais consciência de quem era e se estivesse prestando um mínimo de atenção ao mundo à sua volta, jamais teria conseguido ser tão boa jogadora de basquete universitário. O sucesso nos esportes é um território da cabeça quase vazia. Chegar a uma perspectiva de onde pudesse ver Eliza como era (a saber, perturbada) teria interferido em seu jogo. Ninguém se transforma numa pessoa capaz de converter oitenta e oito por cento dos lances livres refletindo profundamente sobre cada coisa que lhe acontece.
Eliza não gostou de nenhuma das outras amigas de Patty, e nem mesmo tentava sair com elas. Referia-se coletivamente ao grupo como “as suas lésbicas” ou “as lésbicas”, embora metade delas fosse heterossexual. Em pouco tempo, Patty começou a sentir que vivia em dois mundos mutuamente excludentes. Havia o mundo Só dos Atletas, onde passava a maior parte do seu tempo e onde preferia levar pau em psicologia a deixar de ir ao mercado, comprar tudo que precisava e levar à casa de uma companheira de time que tinha torcido o tornozelo ou pegado uma gripe, e do outro lado o estreito e sombrio Mundo de Eliza, onde não precisava se dar ao trabalho de ser tão boa. O único ponto de contato entre os dois mundos era a Arena Wiliams, onde Patty, enquanto passava por um grupo de defensoras para converter uma bandeja fácil ou para dar um passe de lado sem olhar, sentia um pouco mais de orgulho e prazer quando Eliza estava assistindo. Mas mesmo esse ponto de contato tinha vida curta, pois quanto mais tempo Eliza passava com Patty, menos parecia lembrar o quanto se interessava pelo basquete.
Patty sempre tivera amigas, no plural, nunca nada muito intenso. Seu coração se alegrava toda vez que via Eliza esperando do lado de fora do ginásio depois de um treino, e sabia que a noite ia ser instrutiva. Eliza a levava para ver filmes legendados e a fazia ouvir com muita atenção os discos de Patti Smith (“Acho lindo você ter o mesmo nome da minha artista predileta”, dizia ela, deixando de levar em conta a grafia diferente e o fato de que o nome verdadeiro de Patty era Patrizia, que Joyce lhe dera para ser diferente e que Patty tinha vergonha de dizer em voz alta) e lhe emprestava livros de poesia de Denise Levertov e Frank O’Hara. Depois que o time de basquete terminou a temporada com oito vitórias, onze derrotas e eliminado na primeira rodada das finais do campeonato (apesar dos catorze pontos e das muitas assistências de Patty), Eliza também ensinou Patty a gostar muito, mas muito mesmo, do chablis Paul Masson.
O que Eliza fazia com o resto do tempo que lhe sobrava era um tanto nebuloso. Parecia haver vários “homens” (ou seja, rapazes) em sua vida, e ela às vezes falava de shows de música que assistia, mas quando Patty manifestou alguma curiosidade por esses shows, Eliza disse que antes Patty precisava escutar todas as fitas que Eliza tinha gravado para ela; e Patty vinha tendo certa dificuldade com essas fitas. Ela gostava de Patti Smith, que parecia entender como ela se sentiu no banheiro na manhã seguinte ao estupro, mas o Velvet Underground, por exemplo, a fazia se sentir sozinha. Admitiu certa vez para Eliza que sua banda favorita eram os Eagles, e Eliza comentou, “Não tem nenhum problema, os Eagles são ótimos”, mas não havia nenhum disco dos Eagles no quarto de Eliza do dormitório.
Os pais de Eliza eram ambos psicoterapeutas famosos das Cidades Gêmeas e moravam em Wayzata, onde ninguém era rico, e havia um irmão mais velho, primeiranista do Bard College, que Eliza descrevia como uma pessoa diferente. Quando Patty perguntou, “Diferente em que sentido?”, Eliza respondeu, “Em todos os sentidos”. A própria Eliza tinha completado sua formação secundária em três escolas diferentes da área, e só se matriculou na Universidade de Minnesota porque seus pais se recusaram a sustentá-la se não continuasse a estudar. Era uma aluna de uma mediocridade distinta da mediocridade de Patty, que consistia em tirar a mesma nota mediana em todas as matérias. Eliza tirava dez em inglês e três em todo o resto. Seus únicos outros interesses conhecidos, além do basquete, eram a poesia e o prazer.
Eliza estava decidida a fazer Patty experimentar maconha, mas Patty tinha uma atitude muito protetora em relação a seus pulmões, e foi assim que chegaram à história dos brownies. Foram no Fusca de Eliza até a casa de Wayzata, repleta de esculturas africanas e deserta de pais, que tinham ido a um congresso de fim de semana. A ideia era preparar um belo jantar com receitas de Julia Child, mas beberam vinho além da conta para cozinhar e acabaram comendo crackers com queijo e preparando os brownies, ingerindo com eles grande quantidade de droga. Parte de Patty pensava, pois passou mal durante dezesseis horas seguidas, “Nunca mais eu faço isso”. Era como se tivesse ido tão contra seu programa de treinamento que nunca mais conseguiria se recuperar, um sentimento realmente desolador. Também ficou com medo de Eliza— percebeu de repente que tinha uma espécie de paixonite por Eliza, e que portanto era de suma importância que ficasse imóvel e se contivesse, para não descobrir que era bissexual. Eliza perguntava o tempo todo como ela estava se sentindo, e ela respondia a cada vez, “Estou bem, obrigada”, o que lhes parecia invariavelmente hilariante. Ouvindo Velvet Underground, Patty entendeu muito melhor a banda, que era uma banda muito indecente, de uma indecência muito semelhante à que ela estava sentindo ali em Wayzata, cercada por máscaras africanas. Era um alívio perceber, à medida que o efeito ia passando, que mesmo muito doida ela tinha conseguido se controlar e Eliza não tinha encostado nela: que nada de lésbico ia acontecer.
Patty estava curiosa quanto aos pais de Eliza, e queria ficar lá até eles chegarem, mas Eliza foi inflexível em dizer que a ideia era péssima. “São o amor da vida um do outro”, disse ela. “Fazem tudo juntos. Têm consultórios com a mesma decoração no mesmo edifício, escrevem juntos todos os seus artigos e livros, fazem apresentações conjuntas nos congressos, e nunca falam sobre o trabalho em casa, por causa do segredo profissional. Têm até uma daquelas bicicletas duplas, com dois selins e dois pares de pedais.”
“E daí?”
“Daí que são estranhos, você não vai gostar deles e por isso vai deixar de gostar de mim.”
“Meus pais também não são grande coisa”, disse Patty.
“Mas pode acreditar que é outra coisa. Eu sei do que estou falando.”
Voltando para a cidade no Fusca, com o sol sem calor da primavera de Minnesota atrás delas, tiveram sua primeira meia briga.
“Você precisa passar o verão aqui”, disse Eliza. “Não pode ir embora.”
“Não é muito realista”, disse Patty. “A ideia é eu trabalhar no escritório do meu pai e ir a Gettysburg em julho.”
“Por que você não pode ficar aqui e depois ir direto para o seu campo de treinamento? Podemos arranjar empregos e você pode continuar indo todo dia ao ginásio.”
“Preciso ir para casa.”
“Mas por quê? Você detesta a sua casa.”
“Se eu ficar aqui, vou encher a cara de vinho toda noite.”
“Nada disso. Vamos estabelecer regras rigorosas. As regras que você quiser.”
“Eu volto no outono.”
“E quando voltar podemos morar juntas?”
“Não, já prometi a Cathy que ia ficar no quarto quádruplo dela.”
“Sempre pode dizer que mudou de ideia.”
“Não posso.”
“Que loucura! Eu quase nunca estou com você!”
“Eu vejo você mais que praticamente qualquer pessoa. Adoro estar com você.”
“Então por que não fica aqui no verão? Não confia em mim?”
“Por que não haveria de confiar em você?”
“Não sei. Só não consigo entender por que você pode preferir trabalhar com o seu pai. Ele não cuidou de você, não te protegeu, e eu vou proteger. Ele não defende seus interesses, e eu defendo.”
Era verdade que Patty ficava desalentada só de pensar em voltar para casa, mas parecia necessário castigar-se por ter comido brownies de maconha. Seu pai também vinha se esforçando com ela, mandando-lhe cartas de verdade, escritas à mão (“Sentimos a sua falta na quadra de tênis”) e oferecendo-lhe o antigo carro da avó, que ele achava que não devia mais dirigir. Depois de um ano longe de casa, ela estava com remorsos por ter sido tão fria com ele. Quem sabe fora um erro? E então foi passar o verão em casa, e descobriu que nada tinha mudado e não cometera erro nenhum. Via tv até meia-noite, acordava às sete todo dia e corria oito quilômetros, depois passava os dias destacando nomes em documentos legais e esperando a chegada da correspondência, que quase sempre continha uma longa carta datilografada de Eliza, dizendo o quanto sentia falta dela, e contando histórias sobre seu patrão “indecente” no cinema de arte onde ela vinha trabalhando de bilheteira, e exortando Patty a responder imediatamente, o que esta fazia o possível para obedecer, usando velhas folhas de papel timbrado e a máquina elétrica do escritório cheirando a naftalina do seu pai.
Numa das cartas Eliza escreveu, acho que cada uma de nós precisa criar regras para a proteção e o desenvolvimento da outra. Patty não acreditou que adiantasse, mas respondeu mandando três regras para a amiga. Nunca fumar antes da hora do jantar. Exercitar-se todo dia e desenvolver alguma aptidão atlética. E Frequentar todas as aulas e fazer os trabalhos de TODAS as matérias (e não só de inglês). Sem dúvida ela devia ter ficado perturbada com o espírito muito diferente das regras de Eliza para ela—Beber somente nas noites de sábado e só na presença de Eliza; Nada de ir a festas mistas se não for acompanhada de Eliza; e Contar TUDO para Eliza—, mas seu juízo não estava funcionando muito bem e, em vez disso, ficou animada de ter uma melhor amiga tão intensa. Entre outras coisas, ter essa amiga fornecia a Patty armadura e munição contra a irmã do meio.
“E então, que tal a vida em Mi-ne-sooo-ta?”, começava uma conversa típica com sua irmã. “Já começou a comer milho todo dia? Já viu Babe, o Boi Azul da história de Paul Bunyan? Já esteve em Brainerd?”
Alguém pode achar que Patty, sendo bem treinada para a competição e três anos e meio mais velha que essa irmã (embora só dois anos à frente dela nos estudos), já teria encontrado maneiras de lidar com essas tentativas bobas de humilhação da parte dela. Mas havia alguma deficiência congênita no coração de Patty—ela nunca deixava de ficar chocada com a falta de afeto fraterno no comportamento da irmã. A irmã também era realmente Criativa, e portanto sempre pronta a surgir com novas maneiras de deixar Patty sem resposta.
“Por que você sempre fala comigo com essa voz estranha?”, era a melhor defesa atual de Patty.
“Estava só perguntando como vai a sua vida em Mi-ne-sooo-ta.”
“Você está cacarejando. Parece um cacarejo.”
O que era respondido por um silêncio de olhos cintilantes. E então: “É a Terra dos Dez Mil Lagos!”.
“Vá embora, por favor.”
“Você arrumou algum namorado por lá?”
“Não.”
“Namorada?”
“Não. Mas fiquei muito amiga de uma garota.”
“Essa que escreve tantas cartas para você? Ela também joga alguma coisa?”
“Não. É poeta.”
“Caramba.” A irmã deu a impressão de algum interesse. “Como ela se chama?”
“Eliza.”
“Eliza Doolittle. Ela escreve muitas cartas. Tem certeza de que não é sua namorada?”
“Ela é escritora! E uma escritora bem interessante.”
“É que sempre ouvimos rumores dos vestiários. A micose que não ousa dizer seu nome.”
“Você é tão nojenta”, disse Patty. “Ela tem uns três namorados diferentes, e é muito legal.”
“Brainerd, Mi-ne-sooo-ta”, foi a resposta da irmã. “Você precisa me mandar um cartão-postal de Babe, o Boi Azul, de Brainerd.” E se afastou cantando “I’m Getting Married in the Morning” com um exagero de vibrato.
No outono, de volta à faculdade, Patty conheceu o rapaz chamado Carter, que foi, por falta de palavra melhor, seu primeiro namorado. Hoje a autobiógrafa percebe que não foi nada acidental tê-lo conhecido logo depois de obedecer à terceira regra de Eliza e contar a ela que um cara que ela conhecia da sala de exercícios, um segundanista da equipe de luta greco-romana, a tinha convidado para jantar. Eliza quis conhecer o lutador antes, mas havia limites até para a obediência de Patty. “Ele parece ótima pessoa”, disse ela.
“Sinto muito, mas em matéria de homens você não é de confiança”, disse Eliza. “Você achava que o sujeito que a estuprou era boa pessoa.”
“Não estou certa de ter formado esse juízo a respeito dele. Só fiquei animada quando ele se interessou por mim.”
“Bom, e agora um outro sujeito se interessou por você.”
“É, mas estou sóbria.”
Chegaram a um acordo combinando que Patty passaria no quarto que Eliza ocupava fora do campus (recompensa de seus pais por ter tido um emprego de verão) assim que saísse do jantar, e que se não chegasse lá antes das dez horas Eliza iria atrás dela. Quando chegou à casa fora do campus, depois de um jantar nada especial, ela encontrou Eliza em seu quarto do andar de cima com um rapaz chamado Carter. Estavam em extremidades opostas do sofá, com os pés só de meias, sola contra sola, na almofada do centro, e pedalavam empurrando os pés um do outro no que podia ou não ser pura camaradagem. No aparelho de som de Eliza, tocava o novo disco do devo.
Patty hesitou na entrada do quarto. “Vocês dois querem ficar sozinhos?”
“Não, nada disso, não não não não não, queremos você aqui”, exclamou Eliza. “Carter e eu... aconteceu muito tempo atrás, não foi?”
“Muito tempo”, respondeu Carter com dignidade e, pensou Patty mais tarde, uma ligeira irritação. Ele pousou os pés no chão.
“Um vulcão extinto”, disse Eliza enquanto se punha de pé para fazer as apresentações. Patty nunca tinha visto a amiga com um rapaz antes, e ficou impressionada com as diferenças em sua personalidade—seu rosto estava corado, ela tropeçava nas palavras e emitia o tempo todo umas risadinhas um tanto forçadas. Parecia ter esquecido que Patty tinha vindo à sua casa para conversar sobre seu encontro. Tudo agora girava em torno de Carter, amigo de uma das escolas secundárias que ela tinha cursado, que resolvera trancar matrícula na faculdade, trabalhar numa livraria e ir a shows de música. Carter tinha um cabelo escuro muito liso e de uma tonalidade interessante (hena, mais tarde se revelou), lindos olhos de cílios compridos (rímel, mais tarde se revelou) e nenhum defeito físico notável afora seus dentes, que eram encavalados, estranhamente pequenos e pontudos (a manutenção básica de uma criança de classe média, tal como a ortodontia, tinha se esvaído pelas rachaduras do amargo divórcio entre seus pais, mais tarde se revelou). Patty gostou na mesma hora do fato de ele não parecer ter vergonha dos dentes. Ela fez o possível para lhe dar uma boa impressão, tentando provar que merecia ser amiga de Eliza, quando Eliza enfiou uma taça de vinho diante do seu rosto.
“Não, obrigada”, disse Patty.
“Mas é sábado à noite”, disse Eliza.
Patty pensou em assinalar que as regras não a obrigavam a beber nas noites de sábado, mas na presença de Carter percebeu objetivamente o quanto aquelas regras eram estranhas, e como era estranho, aliás, que ela precisasse vir contar a Eliza como tinha sido seu jantar com o lutador. E assim ela mudou de ideia, tomou o vinho e mais outra taça enorme, que a deixou encalorada e se sentindo muito bem. A autobiógrafa sabe o quanto é aborrecido ficar lendo sobre as sensações de outra pessoa ao beber, mas às vezes é pertinente para a história. Quando Carter se levantou para ir embora, por volta da meia-noite, ofereceu uma carona a Patty até o dormitório, e à porta do prédio onde ela morava perguntou se podia lhe dar um beijo de boa-noite (“tudo bem”, pensou ela, “ele é amigo de Eliza”), e depois que passaram algum tempo se beijando, de pé no ar frio de outubro, ele perguntou se ela queria sair com ele no dia seguinte, ela pensou, “Caramba, esse rapaz é rápido”.
Verdade seja dita: aquele inverno foi a melhor temporada atlética de toda a sua vida. Ela não teve nenhum problema físico, e a treinadora Treadwell, depois de lhe fazer uma palestra áspera sobre a necessidade de ser menos desprendida e tornar-se mais líder, escalou-a como ala em todos os jogos. A própria Patty ficou admirada ao ver como as adversárias maiores que ela lhe pareciam de repente mover-se em câmera lenta, como era fácil simplesmente estender a mão e roubar-lhes a bola, e quantos de seus arremessos de longe caíam na cesta, jogo após jogo. Mesmo quando ela era marcada por duas adversárias, o que acontecia com frequência cada vez maior, sentia uma ligação pessoal e especial com a cesta, sabendo sempre onde ela estava e sempre certa de que ela era a jogadora predileta da cesta na quadra, quem melhor alimentava sua boca redonda. Mesmo fora da quadra ela existia com especial intensidade, que lhe dava a impressão de uma pressão intensa por trás das sobrancelhas, uma sonolência alerta ou uma vaguidão concentrada sempre presente, fizesse o que fizesse. Dormiu esplendidamente todo aquele inverno, e nunca chegou a acordar de todo. Mesmo quando levava uma cotovelada na cabeça, ou as felizes companheiras de equipe formavam uma pirâmide em cima dela ao final do jogo, ela quase não sentia nada.
E o lance entre ela e Carter fazia parte disso. Carter tinha um desinteresse perfeito por esportes e parecia não se incomodar com o fato de que, durante as semanas mais movimentadas, ela só tinha poucas horas no total para ele, às vezes só o suficiente para uma trepada no apartamento dele e voltar correndo para o campus. Em certos aspectos, mesmo agora, essa relação parece ideal à autobiógrafa, embora por certo menos ideal quando especula realisticamente com quantas outras Carter estaria trepando nos seis meses que em Patty o considerou seu namorado. Esses seis meses foram o primeiro de dois períodos indiscutivelmente felizes na vida de Patty, quando tudo se encaixava. Ela adorava os dentes sem correção de Carter, sua humildade autêntica, suas carícias habilidosas, sua paciência com ela. Ele tinha muitas qualidades preciosas, Carter! Fosse descrevendo para ela alguma técnica excruciantemente delicada no sexo ou admitindo a absoluta falta de planos para qualquer carreira (“Acho que minha vocação maior é para ser uma espécie de chantagista discreto”), sua voz era sempre baixa, contida e autodepreciativa—o pobre e pervertido Carter não se via a uma luz muito favorável como membro da raça humana.
A própria Patty continuava a tê-lo em alta conta, perigosamente alta, até a noite de sábado em abril em que voltou mais cedo de Chicago, aonde ela e a treinadora Treadwell tinham ido de avião para o almoço de confraternização e a cerimônia de premiação dos melhores do ano em todo o país (Patty foi incluída como reserva entre as alas), e surpreendeu Carter na festa que estava dando para o seu aniversário. Da rua ela viu luzes em seu apartamento, mas precisou tocar a campainha quatro vezes, e a voz que afinal respondeu no interfone era a de Eliza.
“Patty? Mas você não está em Chicago?”
“Voltei mais cedo. Abre a porta para mim.”
Ouviu um estalido no interfone, seguido de um silêncio tão comprido que Patty tocou a campainha mais duas vezes. Finalmente Eliza, de Keds e casaco de carneiro, desceu correndo a escada e saiu pela porta. “Oi, oi, oi, oi!”, disse ela. “Não acredito que você chegou!”
“Por que você não abriu a porta para mim?”, perguntou Patty.
“Não sei, achei que era melhor descer e vir ver você, as coisas estão uma loucura lá em cima, achei melhor descer para a gente poder conversar.” Eliza estava com os olhos muito brilhantes, e suas mãos não paravam de se mexer. “Muitas drogas lá em cima, por que não vamos a algum outro lugar, que bom que você chegou, caramba, olha só, oi! Como é que você está? Como foi em Chicago? E o almoço?”
Patty franziu a testa. “Está dizendo que eu não posso subir para ver o meu namorado?”
“Bem, não, mas, não, mas—namorado? A palavra não é bem essa, você não acha? Achei que era só Carter. Quer dizer, sei que você gosta dele, mas —”
“Quem mais está lá em cima?”
“Ah, sabe, outras pessoas.”
“Quem?”
“Ninguém que você conheça. Escuta, vamos a outro lugar, que tal?”
“Mas quem, por exemplo?”
“Ele achava que você só ia voltar amanhã. Amanhã à noite vocês vão jantar juntos, não é?”
“Consegui um voo mais cedo para me encontrar com ele.”
“Ah, meu Deus, não vá me dizer que está apaixonada por ele? Precisamos conversar, você precisa se proteger melhor, achei que vocês só estavam se divertindo, quer dizer, você nunca tinha usado a palavra ‘namorado’, senão eu saberia, não é? E se você não me contar tudo não tenho como proteger você. Você desobedeceu a uma das regras, não acha?”
“Você também não seguiu as minhas”, respondeu Patty.
“Porque, juro por Deus, não é o que você está pensando. Eu sou sua amiga. Mas tem outra pessoa lá que certamente não é sua amiga.”
“Uma garota?”
“Escute, eu vou mandar ela ir embora. Vamos nos livrar dela e depois nós três podemos comemorar.” Eliza deu um risinho. “Ele arrumou do melhor, melhor, melhor pó, excelente, para comemorar o aniversário dele.”
“Espere um pouco. São só vocês três? A festa toda?”
“É um barato, um barato, você devia experimentar. O campeonato acabou, não é? Eu dou um jeito de ela ir embora, daí você sobe e a gente continua a festa. Ou podemos ir para a minha casa, só você e eu, se você esperar um minutinho eu vou pegar um pouco de pó e vamos para a minha casa. Você precisa experimentar. Não tem como entender se não experimentar.”
“Deixar Carter com outra pessoa e ir consumir drogas pesadas com você. Me parece um plano excelente.”
“Meu Deus, Patty, sinto muito. Não é o que você está pensando. Ele disse que ia dar uma festa, depois arranjou o pó e mudou um pouco os planos, e depois descobri que só tinha me chamado porque a outra pessoa não viria se fosse para ficar sozinha com ele.”
“Você podia ter ido embora,” disse Patty.
“Mas a gente já estava em plena festa, e se você experimentasse ia ver por que eu não fui embora. Juro a você que só fiquei por causa disso.”
A noite não terminou, como devia, com o esfriamento ou a ruptura da amizade entre Patty e Eliza, e Patty preferiu terminar com Carter e pedir desculpas por não ter falado mais com Eliza sobre os sentimentos que tinha por ele, e com Eliza se desculpando por não ter prestado mais atenção nela e prometendo obedecer mais às suas próprias regras e não consumir mais drogas pesadas. Hoje fica claro para a autobiógrafa que duas parceiras disponíveis e uma duna de pó na mesa de cabeceira eram exatamente a ideia que Carter fazia de uma ótima festa de aniversário. Mas Eliza se mostrava tão histérica de remorso e preocupação que contava suas mentiras de modo muito convincente, e na manhã seguinte, antes que Patty tivesse uma hora para pensar nas coisas e concluir que sua suposta melhor amiga tinha feito alguma coisa muito errada com seu namorado, Eliza apareceu ofegante à porta do dormitório de Patty, usando o que constituía a seu ver uma roupa de corrida (uma camiseta de Lena Lovich, short de boxe até o joelho, meias pretas e Keds), dizendo que tinha acabado de dar três voltas na pista de seiscentos metros e pedindo com insistência que Patty lhe ensinasse alguns exercícios de ginástica. Estava muito animada com um plano de estudarem juntas toda noite, muito animada com seu carinho por Patty e o medo de perdê-la; e Patty, tendo aberto dolorosamente os olhos para a natureza de Carter, preferiu fechá-los para a de Eliza.
A marcação de Eliza em toda quadra continuou até Patty concordar em passar o verão em Minneapolis com ela, momento a partir do qual Eliza começou a aparecer menos e perdeu todo interesse pelos exercícios físicos. Patty passou boa parte daquele verão muito quente sozinha num apartamento sublocado em Dinkytown, sentindo pena de si mesma e entregando-se a uma baixa de seu amor-próprio. Não entendia por que Eliza fizera tanta questão de morar com ela para chegar em casa quase sempre às duas da manhã, isso quando chegava. Eliza, é verdade, sempre sugeria a Patty que experimentasse novas drogas, fosse a certos shows ou encontrasse outra pessoa com quem pudesse dormir, mas Patty estava temporariamente desgostosa com o sexo e permanentemente rompida com as drogas e a fumaça de cigarro. Além disso, seu emprego de verão no departamento de Educação Física mal dava para pagar o aluguel, e ela se recusava a fazer como Eliza e pedir infusões de dinheiro dos pais, de maneira que se sentia cada vez mais incapaz e solitária.
“Por que somos amigas?”, perguntou afinal uma noite, quando Eliza fazia os devidos estragos na aparência para sair mais uma vez.
“Porque você é genial e linda”, respondeu Eliza. “Você é a pessoa de quem eu mais gosto no mundo.”
“Sou uma atleta. Sou sem graça.”
“Não! Você é Patty Emerson, nós moramos juntas, e estou adorando.”
Foram as palavras exatas que ela usou, pois a autobiógrafa se lembra nitidamente de cada uma.
“Mas nós não fazemos nada”, disse Patty.
“E o que você queria fazer?”
“Estou pensando em ir passar um tempo na casa dos meus pais.”
“O quê? Está brincando? Você nem gosta deles! Precisa ficar aqui comigo.”
“Mas você sai praticamente toda noite.”
“Bom, vamos começar a fazer mais coisas juntas.”
“Mas você sabe que eu não quero fazer esse tipo de coisa.”
“Bom, então vamos ao cinema. Vamos ao cinema agora mesmo. O que você quer ver? Quer ir ver Dias de Paraíso?”
E assim começou mais um período de pressão, que durou o suficiente para Patty ultrapassar aquele solavanco do verão e não bater em retirada. Foi durante essa terceira lua de mel de sessões duplas de cinema, bebedeiras de vinho e desgaste profundo dos sulcos dos discos de Blondie que Patty começou a ouvir falar no músico Richard Katz. “Meu Deus do céu”, disse Eliza, “acho que estou apaixonada. Acho que vou ter de começar a me comportar bem. Ele é tão grande. Parece que estou sendo esmagada por uma estrela de nêutrons. Parece que estou sendo apagada por um apagador gigante.”
O apagador gigante acabara de se graduar no Macalester College, trabalhava em demolição e tinha formado uma banda punk chamada Traumatics, de cujo sucesso seguro Eliza estava mais que convencida. O único obstáculo a essa sua idealização de Katz eram os amigos que ele escolhia. “Ele mora com esse sujeito caxias e sanguessuga chamado Walter”, disse ela, “uma espécie de groupie engomadinho, é estranho, uma coisa que eu não entendo. Num primeiro momento achei que ele era o empresário do Katz, mas é careta demais para isso. Um dia eu saio do quarto de Katz de manhã e encontrei Walter sentado à mesa da cozinha com uma salada de frutas imensa que tinha feito. Estava lendo o New York Times, e a primeira coisa que ele me perguntou é se eu tinha visto alguma boa peça de teatro ultimamente. Uma peça de teatro! É a dupla mais desencontrada que eu já vi. Você precisa conhecer Katz para entender como é estranho.”
Poucas circunstâncias já foram mais penosas para a autobiógrafa, a longo prazo, do que a coesão da amizade entre Walter e Richard. Superficialmente, pelo menos, os dois formavam um par havia mais tempo ainda que Patty e Eliza. Algum gênio na administração dos dormitórios do Macalester College tinha decidido juntar no mesmo quarto de dormitório um rapaz responsável do interior de Minnesota e um guitarrista egocêntrico, compulsivo, errático e malandro de Yonkers, Nova York. A única coisa que esse funcionário podia saber com certeza que tinham em comum era serem ambos bolsistas. Walter tinha cabelos claros e era alto e magro, e embora mais alto que Patty era bem mais baixo que Richard, que tinha mais de um metro e noventa, ombros pesados e cabelos tão escuros quanto os de Walter eram claros. Richard tinha uma forte semelhança (percebida e assinalada, ao longo dos anos, por muito mais gente do que apenas Patty) com o ditador líbio Muammar Khadafi. Tinha o mesmo cabelo preto, as mesmas faces morenas e esburacadas, a mesma máscara sorridente de homem-forte-satisfeito-
passando-a-tropa-e-os-lançadores-de-foguete-em-revista,* e parecia uns quinze anos mais velho que o amigo. Walter dava a impressão do “diretor-estudante” que os times de escolas secundárias às vezes usam como assistente do técnico e que vai de terno e gravata aos jogos, onde fica de pé à beira da quadra com uma prancheta. Os atletas tendem a tolerar esse tipo de assistente técnico porque geralmente é um grande estudioso do jogo em profundidade, e esse elemento parecia fazer parte do nexo Walter-Richard, porque Richard, embora irritável e indigno de confiança em quase todos os aspectos, levava a música muito a sério, e Walter tinha conhecimento especializado suficiente para apreciar uma produção como a de Richard. Mais tarde, quando Patty conheceu melhor os dois, viu que no fundo talvez não fossem tão diferentes assim—que ambos se esforçavam, embora de modos muito diversos, para ser boas pessoas.
Patty conheceu o apagador numa úmida manhã de domingo de agosto, quando voltou de sua corrida e o encontrou sentado no sofá da sala, que diminuía com seu tamanho, enquanto Eliza tomava uma ducha em seu banheiro indescritível. Richard usava uma camiseta preta e lia um livro de bolso com um imenso V na capa. Suas primeiras palavras a Patty, emitidas apenas depois que ela encheu um copo de chá gelado e ficou ali parada, encharcada de suor, tomando seu chá, foram: “E você, quem é”.
“Como?”
“O que está fazendo aqui.”
“Eu moro aqui”, respondeu ela.
“Está bem, entendi.” Richard a examinou meticulosamente da cabeça aos pés, parte por parte. Ela teve a impressão de que, a cada parte dela em que seus olhos pousavam, mais ela era pregada na parede atrás de suas costas, de modo que, quando ele acabou de examiná-la por inteiro, ela se tornou totalmente bidimensional e presa à parede. “Você já viu o álbum de recortes?”, perguntou ele.
“Hum. Álbum de recortes?”
“Vou lhe mostrar”, disse ele. “Você vai ficar interessada.”
Foi até o quarto de Eliza, voltou e entregou a Patty um fichário de três furos, e sentou-se de novo com seu livro como se tivesse esquecido a presença dela. O fichário era do tipo antigo encapado de pano azul-claro, em que a palavra patty estava inscrita em maiúsculas com tinta preta. Continha, até onde Patty pôde ver, todas as fotos suas já publicadas na página de esportes do Minnesota Daily; todos os cartões-postais que ela enviara a Eliza; cada tira de fotos que as duas tinham tirado espremidas numa cabine automática; e todos os instantâneos com flash de ambas doidonas no fim de semana dos brownies. O álbum pareceu um tanto estranho e excessivo a Patty, mas o que mais lhe provocou foi tristeza por Eliza— tristeza e pena por ter duvidado do quanto a outra realmente gostava dela.
“Ela é uma garota bem estranha”, disse Richard do sofá.
“Onde você achou este álbum?”, perguntou Patty. “Você sempre remexe as coisas das pessoas quando dorme na casa dos outros?”
Ele riu. “J’accuse!”
“E aí, remexe ou não?”
“Muita calma. Estava bem atrás da cama. Em plena vista, como diz a polícia.”
O chuveiro de Eliza parou de fazer barulho.
“Ponha de volta lá”, pediu Patty. “Por favor.”
“Imaginei que você fosse ficar interessada”, disse Richard, sem se mexer do sofá.
“Por favor, ponha de volta no lugar onde encontrou.”
“Estou ficando com a impressão de que você não tem um álbum do mesmo tipo.”
“Agora, por favor.”
“Muito estranha, essa menina”, disse Richard, pegando o fichário das mãos dela. “Foi por isso que perguntei qual era a sua história.”
O ar falso dos modos de Eliza com os homens, o vazamento constante de risinhos, a tagarelice e os cabelos atirados para trás eram algo que uma amiga dela podia começar a detestar em pouco tempo. Seu desespero em agradar Richard se misturou no espírito de Patty com a esquisitice daquele álbum e a extrema carência que ele evidenciava, e a deixou, pela primeira vez, um tanto constrangida de ser amiga de Eliza. O que era singular, pois Richard não parecia nem um pouco constrangido de estar dormindo com ela, e por que Patty, no final das contas, deveria se importar com o que ele pensava sobre a amizade entre as duas?
Era quase o último dia dela naquele ninho de baratas quando ela se encontrou com Richard de novo. Ele estava de novo no sofá, sentado com os braços cruzados e batendo com força no chão seu pé calçado com botas pesadas, e apertando os olhos enquanto Eliza, de pé, tocava seu violão da única maneira que Patty já a ouvira tocar: com a maior insegurança. “Não perca o ritmo”, disse ele. “Bata o pé no chão.” Mas Eliza, que transpirava de tanta concentração, parou de tocar de todo quando percebeu que Patty tinha entrado.
“Não consigo tocar na frente dela.”
“Claro que consegue”, disse Richard.
“Na verdade ela não consegue mesmo”, disse Patty. “Fica nervosa por minha causa.”
“Interessante. Por que será?”
“Não tenho a menor ideia”, disse Patty.
“Ela se esforça demais para dar apoio”, disse Eliza. “Fico sentindo o quanto ela quer que eu consiga tocar bem.”
“Que absurdo”, disse Richard a Patty. “Você precisa querer que ela erre tudo.”
“Está bem”, disse Patty. “Eu quero que você erre tudo. Você consegue? Parece que você leva o maior jeito para isso.”
Eliza olhou para ela, surpresa. Patty também se surpreendeu consigo mesma. “Desculpe, vou para o meu quarto”, disse ela.
“Antes vamos ver Eliza errar tudo”, disse Richard.
Mas Eliza estava soltando a correia da guitarra e desligando o amplificador.
“Você precisa estudar com um metrônomo”, disse Richard. “Você tem um metrônomo?”
“Não foi boa ideia”, disse Eliza.
“E por que você não toca alguma coisa?”, perguntou Patty a Richard.
“Fica para a próxima”, disse ele.
Mas Patty estava se lembrando do constrangimento que sentira quando ele tinha encontrado o álbum. “Uma música só”, disse ela. “Um acorde. Toque um acorde. Eliza me disse que você toca muito.”
Ele sacudiu a cabeça. “Venha ver um dos meus shows.”
“Patty nunca vai a shows”, disse Eliza. “Não gosta da fumaça.”
“Sou atleta”, disse Patty.
“É, isso eu vi”, disse Richard, dirigindo-lhe um olhar significativo. “Estrela do time de basquete. Você joga de quê—pivô? Ala? Não tenho ideia do que é ser alta para uma garota.”
“Não sou considerada muito alta.”
“Mas ainda assim é bem alta.”
“Sou.”
“A gente estava quase de saída”, disse Eliza, pondo-se de pé.
“Você tem jeito de quem podia ter jogado basquete”, disse Patty a Richard.
“Uma boa maneira de quebrar um dedo.”
“Na verdade, nem tanto”, disse ela. “Quase nunca acontece.”
Não foi um comentário muito interessante, ou que fizesse o enredo avançar, e ela sentiu de imediato que Richard estava pouco se lixando para o fato de ela jogar basquete.
“Talvez eu vá a um dos seus shows”, disse ela. “O próximo é quando?”
“Você não pode ir, o pessoal fuma demais”, disse Eliza em tom desagradável.
“Eu aguento,” disse ela.
“É mesmo? Essa é nova.”
“Traga uns tampões de ouvido”, disse Richard.
Em seu quarto, depois de escutar os dois partindo, Patty começou a chorar por motivos que se sentia triste demais para examinar. Em seu encontro seguinte com Eliza, trinta e seis horas depois, pediu desculpas por ter se comportado tão mal, mas Eliza estava de excelente humor a essa altura e lhe disse que não se incomodasse, que estava pensando em vender a guitarra e que teria o maior prazer em levar Patty para ouvir Richard.
Seu show seguinte foi numa noite de meio de semana em setembro, num clube noturno mal ventilado chamado Longhorn, onde os Traumatics iam tocar antes dos Buzzcocks. Praticamente a primeira pessoa que Patty viu quando ela e Eliza chegaram foi Carter. Ele estava de pé, praticamente engalfinhado com uma loura de uma beleza grotesca, num minivestido de lantejoulas. “Merda”, disse Eliza. Patty acenou bravamente para Carter, que exibiu seus maus dentes e veio em sua direção, um retrato da afabilidade, com as lantejoulas a reboque. Eliza baixou a cabeça e saiu puxando Patty na direção de um grupo de punks cercados por uma nuvem de fumaça de cigarro, bem perto do palco. Ali encontraram um rapaz de cabelo claro que Patty imaginou ser o famoso companheiro de quarto de Richard antes mesmo que Eliza dissesse, numa voz alta e monocórdia, “Olá, Walter, como vai”.
Sem ter conhecido Walter ainda, Patty não tinha ideia de como era pouco habitual que ele respondesse a esse cumprimento com um aceno frio de cabeça, em vez de um sorriso amigável do Meio-Oeste.
“Esta aqui é minha melhor amiga, Patty”, disse Eliza. “Ela pode ficar aqui com você um segundo enquanto vou até o camarim?”
“Acho que eles já vão entrar”, disse Walter.
“É só um segundo”, disse Eliza. “Só tome conta dela, está bem?”
“Por que não vamos todos até lá”, disse Walter.
“Não, você precisa ficar aqui guardando o meu lugar”, disse Eliza a Patty. “Eu volto já.”
Walter ficou olhando com ar triste enquanto ela atravessava uma massa de corpos e desaparecia. Não parecia tão caxias quanto Eliza tinha feito Patty acreditar que era—usava um suéter de gola em V e cabelos um pouco grandes e encaracolados de um louro avermelhado, e tinha exatamente a aparência do que era, ou seja, um estudante do primeiro ano de direito—mas se destacava bastante no meio daqueles punks com seus trajes e cabelos mutilados, e Patty, que de repente ficara com vergonha das próprias roupas, de que sempre gostara até um minuto antes, ficou feliz por ele ser tão comum.
“Obrigada por ficar aqui comigo”, disse ela.
“Acho que vamos ficar aqui de pé por algum tempo”, disse Walter.
“Prazer em conhecê-lo.”
“Prazer em conhecê-la também. Você é a craque de basquete.”
“Eu mesma.”
“Richard me falou de você.” Virou-se para ela. “Você toma muitas drogas?”
“Não! Meu Deus. Por quê?”
“Porque a sua amiga toma.”
Patty não sabia o que fazer com a expressão do seu rosto. “Perto de mim, pelo menos, não.”
“Bem, é o motivo de ela ter ido até os camarins.”
“Sei.”
“Desculpe. Eu sei que ela é sua amiga.”
“Não, é uma informação interessante.”
“Parece que ela tem muito dinheiro.”
“É, recebe dos pais dela.”
“Certo, os pais.”
Walter parecia tão preocupado com o sumiço de Eliza que Patty ficou calada. Sentia-se de novo morbidamente competitiva. Mal se dava conta de estar interessada em Richard, mas ainda assim lhe parecia injusto que Eliza pudesse estar usando mais que ela mesma, sua pessoa natural e meio bonita—que pudesse estar usando os recursos recebidos dos pais—, para captar a atenção de Richard e comprar acesso a ele. Como Patty era boba em relação à vida! E como tudo naquele palco lhe parecia feio! Os fios nus, o cromado frio das peças da bateria, os microfones utilitários, a fita vedante de sequestrador e os refletores tipo canhão: tudo lhe parecia tão cru.
“Você costuma ir a muitos shows?”, perguntou Walter.
“Não, nunca. Uma vez.”
“Trouxe tampões de ouvido?”
“Não. Vou precisar?”
“Richard toca muito alto. Pode usar os meus. São quase novos.”
Do bolso da camisa tirou um saquinho contendo duas larvas esbranquiçadas de espuma de borracha. Patty baixou os olhos para elas e fez o possível para emitir um sorriso simpático. “Não, obrigada”, disse.