Liberdade
O monstro de Washington
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O pai de Walter, Gene, era o filho mais novo de um sueco difícil chamado Einar Berglund, que emigrara para os Estados Unidos na virada do século xx. Havia muito o que não gostar na Suécia rural—o serviço militar obrigatório, pastores luteranos que se metiam na vida dos moradores da paróquia, uma rígida hierarquia social que praticamente impedia qualquer mobilidade de baixo para cima—, mas o que de fato fez Einar partir para os Estados Unidos, segundo a história que Dorothy contou a Walter, foi um problema que teve com a mãe.
Einar era o mais velho de oito irmãos, o príncipe herdeiro da propriedade da família, no sul da Österland. Sua mãe, que talvez não fosse a primeira mulher a ficar insatisfeita ao se casar com um Berglund, favorecia escandalosamente o primogênito, vestindo-o com roupas melhores que as dos irmãos, servindo-lhe o creme do leite dos outros, e dispensando-o de trabalhos na propriedade para que ele pudesse se dedicar à sua formação e aos cuidados com a aparência. (“O homem mais vaidoso que eu conheci”, dizia Dorothy.) O sol materno iluminou Einar por vinte anos, mas logo depois, por descuido, sua mãe teve um bebê temporão, um menino, e se apaixonou por ele como antes se apaixonara por Einar; Einar jamais lhe perdoou. Incapaz de suportar o fim do favoritismo, zarpou para os Estados Unidos em seu vigésimo segundo aniversário. Depois de lá chegar, nunca mais voltou à Suécia, nunca mais viu a mãe, e confessava com orgulho que tinha esquecido totalmente a língua materna, e emitia, à menor provocação, prolongadas diatribes contra “o país mais imbecil, mais metido e mais tacanho da Terra”. Tornou-se mais uma fração percentual no experimento americano de autogoverno, experimento estatisticamente enviesado desde o início porque não eram as pessoas com a herança genética mais sociável que fugiam do superlotado Velho Mundo em busca do novo continente; eram as pessoas que não se davam bem com os demais.
Em sua juventude, em Minnesota, trabalhando primeiro como lenhador na derrubada das últimas florestas virgens da área e depois cavando barrancos para a construção de estradas, e sem ganhar um salário decente em nenhuma das duas situações, Einar se sentira atraído pela ideia comunista de que sua força de trabalho estava sendo explorada por capitalistas da Costa Leste americana. E um belo dia, ao ouvir um fulminante orador comunista na Pioneer Square, teve um estalo e percebeu que a maneira de avançar naquele país novo era ele próprio explorar a força de trabalho de outros. Com vários dos irmãos mais novos que tinham vindo para os Estados Unidos atrás dele, começou a atuar como empreiteiro de construção de estradas. Para ter o que fazer nos meses gelados, ele e os irmãos também fundaram uma cidadezinha às margens do alto Mississippi e abriram um empório de secos e molhados. Suas posições políticas talvez ainda fossem radicais àquela altura, porque concedia um crédito interminável aos agricultores comunistas, na maioria finlandeses, que lutavam para subsistir fora do alcance das capitais da Costa Leste. A loja logo começou a perder dinheiro, e Einar estava a ponto de vender sua parte quando um antigo amigo seu, um homem chamado Christiansen, abriu uma loja concorrente do outro lado da rua. Só por despeito (segundo Dorothy), Einar continuou tocando sua loja por mais cinco anos, atravessando o nadir da Grande Depressão, acumulando vales irresgatáveis de todos os agricultores num raio de mais de dez quilômetros, até o pobre Christiansen ser finalmente levado à falência. Em seguida Einar se transferiu para Bemidji, onde prosperou como construtor de estradas mas acabou vendendo sua empresa a preço desastrosamente baixo para um sócio de maneiras untuosas que simulava simpatias socialistas.
Os Estados Unidos, para Einar, eram a terra da liberdade antissueca, o país de espaços vazios onde um filho ainda podia imaginar que era especial. Mas nada perturba tanto a sensação de ser o escolhido quanto a presença de outros seres humanos dominados pelo mesmo sentimento. Tendo conseguido, graças à sua inteligência inata e ao trabalho duro, certo grau de prosperidade e independência, mas nem de longe o bastante, transformou-se num caso clássico de ódio e desapontamento. Depois de sua aposentadoria, na década de 50, começou a enviar aos familiares cartas anuais de Natal em que fustigava a estupidez do governo americano, as iniquidades de sua política econômica e a fatuidade de sua religião—traçando, por exemplo, num cartão de Natal especialmente cáustico, um agudo paralelo entre a Madona virgem de Belém e a “meretriz sueca” Ingrid Bergman, cujo “rebento bastardo” (Isabella Rossellini) vinha sendo festejado pelos meios de comunicação americanos controlados pelos “interesses das grandes empresas”. Embora fosse ele próprio um empresário, Einar detestava as grandes coorporações. Embora tenha construído sua carreira com base em contratos com o Estado, odiava também todo tipo de governo. E embora amasse a vida ao ar livre na estrada, as estradas o deixavam infeliz e louco. Comprava sedãs americanos com os motores mais potentes do mercado, para poder chegar a cento e cinquenta ou cento e sessenta quilômetros por hora nas rodovias estaduais absolutamente planas de Minnesota, muitas construídas por ele próprio, passando batido, com um ronco, pelos imbecis do caminho. Se um carro vinha do lado oposto à noite com faróis altos, a reação de Einar era acender seus próprios faróis altos e mantê-los acesos. Se algum idiota se atrevesse a tentar ultrapassá-lo numa estrada de mão dupla, ele pisava até o fundo no acelerador para emparelhar-se e depois desacelerava para impedir o candidato à ultrapassagem de voltar à pista da direita, derivando um prazer especial quando o sujeito corria o perigo de colisão frontal com um caminhão que se aproximava. Se outro motorista lhe cortasse o caminho ou se recusasse a deixá-lo passar, ele perseguia o malfeitor e tentava forçá-lo a sair da estrada, pondo a cabeça para fora e gritando impropérios para o motorista. (A personalidade suscetível ao sonho da liberdade ilimitada é uma personalidade que também tende, quando o sonho desanda, à misantropia e à ira.) Einar tinha setenta e oito anos quando uma péssima decisão tomada ao volante o forçou a escolher entre uma colisão frontal e uma vala profunda à beira da Route 2. Sua mulher, que estava a seu lado e, ao contrário de Einar, afivelara o cinto de segurança, lutou por três dias no hospital de Grand Rapids antes de sucumbir às queimaduras. Segundo a polícia, ela poderia ter sobrevivido caso não tivesse tentado retirar o marido morto do Eldorado em chamas. “Ele a tratou como um cão a vida inteira”, disse o pai de Walter, “e depois ainda acabou com ela.”
Dos quatro filhos de Einar, Gene era o único sem ambição que ficou perto de casa, o único que queria aproveitar a vida, o único que tinha centenas de amigos. O que se devia em parte à sua natureza e, em parte, às objeções sistemáticas do pai. Gene foi o craque do time de hóquei no gelo de Bemidji e em seguida, depois de Pearl Harbor, para grande tristeza do pai antimilitarista, um dos primeiros jovens a se alistar no exército americano. Serviu dois anos no Pacífico, dos quais emergiu incólume e sem jamais superar a patente de soldado raso, e voltou a Bemidji para farrear com os amigos, trabalhar numa oficina e ignorar as severas injunções do pai, que lhe dizia para se aproveitar das leis que favoreciam os ex-combatentes. Não está claro se ele teria desposado Dorothy caso não a tivesse engravidado, mas depois que se casaram ele se empenhou em amá-la com toda a ternura que, para ele, seu pai tinha sonegado à sua mãe.
O fato de Dorothy ter acabado no fim das contas trabalhando como uma escrava para ele a vida inteira, levando seu próprio filho Walter a nutrir por ele um ódio profundo, foi só uma dessas ironias do destino das famílias. Gene pelo menos não insistia em pensar, à diferença de seu respectivo pai, que era melhor do que a mulher. Pelo contrário, reduziu-a à escravidão com sua fraqueza— particularmente sua tendência à bebida. Os outros traços em que acabou parecido com Einar eram igualmente tortuosos na origem. Tinha posições populistas beligerantes, ostentando um orgulho desafiador por não ser especial, e graças a isso era atraído pelo lado escuro das posições políticas de direita. Era amoroso e gentil com a mulher, famoso entre os amigos e companheiros ex-combatentes por sua generosidade e lealdade, mas ainda assim, e com frequência cada vez maior à medida que envelhecia, era dado a erupções escaldantes de ressentimento berglundiano. Odiava os pretos, os índios, os diplomados, os arrogantes e, muito especialmente, o governo federal, e adorava as suas liberdades (de beber, fumar, enfiar-se com os amigos numa cabana para pescar no gelo) com intensidade maior ainda, porque eram todas modestas. Só maltratava Dorothy quando ela sugeria, com uma solicitude tímida—pois no geral punha a culpa em Einar, e não em Gene, pelos defeitos de Gene—que ele devia beber menos.
A parte que coube a Gene dos bens de Einar, embora muito desvalorizada pelos termos autodepreciativos da venda da empresa do pai, foi suficiente para deixá-lo próximo da aquisição do pequeno motel de beira de estrada que, fazia muito tempo, ele achava que seria “bacana” comprar e administrar. O Whispering Pines, quando Gene comprou o estabelecimento, tinha um sistema de fossa séptica ultrapassado, um problema sério de mofo e já ficava próximo demais do acostamento de uma estrada com tráfego pesado de caminhões de minério e com o alargamento previsto para dali a pouco tempo. Por trás dele ficava uma vala repleta de sucata onde cresciam impetuosos vidoeiros, um dos quais atravessava o esqueleto de um carrinho de compras que ao cabo de algum tempo acabaria por estrangulá-lo e deter seu desenvolvimento. Gene devia saber que um motel mais interessante acabaria aparecendo no mercado local, se tivesse um pouco de paciência. Todavia, as más decisões de negócios têm um ímpeto próprio. Para investir com sensatez, ele teria de ser uma pessoa mais ambiciosa, mas já que ele não era esse outro tipo de pessoa, estava impaciente para cometer logo os seus erros, gastar tudo que tinha e entregar-se de uma vez à longa tarefa de esquecer quanto dinheiro tinha desperdiçado, esquecendo-se literalmente de quanto tinha sido para se lembrar de uma soma mais próxima à que depois contaria a Dorothy ter pagado. Existe, afinal das contas, certa felicidade na infelicidade, se ela for uma infelicidade do tipo certo. Gene não precisava mais sentir medo de uma grande decepção no futuro, pois já tinha produzido uma decepção imensa; havia ultrapassado essa barreira, transformara-se definitivamente numa vítima do mundo. Fez uma segunda hipoteca arrasadora para construir um novo sistema de esgoto, e todas as calamidades subsequentes, maiores ou menores—um pinheiro que desabou em cima do telhado do escritório, um hóspede que pagou em dinheiro e resolveu limpar seus peixes em cima das cobertas da cama, a parte do letreiro luminoso que dizia não temos acesa ao lago de vagas durante quase todo um fim de semana de Quatro de Julho antes de Dorothy perceber—só serviam para confirmar sua visão do mundo e do lugar infeliz que lhe fora reservado nele.
Nos primeiros verões do motel, os irmãos e irmãs de Gene, todos mais prósperos que ele, traziam suas famílias dos outros estados em que viviam e passavam uma ou duas semanas pagando diárias especiais para a família, cujas negociações não deixavam ninguém feliz. Os primos de Walter se apropriavam da piscina manchada de tanino enquanto seus tios ajudavam Gene a passar impermeabilizante no estacionamento ou evitar o aumento da erosão que havia atrás da propriedade com escoras feitas de dormentes. No fundo da vala propícia à malária, perto dos restos do carrinho de compras, o primo sofisticado de Walter que morava em Chicago, Leif, contava histórias instrutivas e apavorantes sobre os subúrbios das grandes cidades; a mais memorável e assustadora, para Walter, era a que falava de um aluno da oitava série de Oak Park que tinha dado um jeito de ficar nu com uma colega e então, sem saber ao certo o que devia acontecer em seguida, mijou nas pernas dela. Como os primos citadinos de Walter eram muito mais parecidos com ele que seus irmãos, aqueles primeiros verões foram os mais felizes da sua infância. Cada dia trazia novas aventuras e acidentes: picadas de vespa, injeções antitetânicas, tentativas malsucedidas de transformar garrafas em foguetes, casos medonhos de irritação da pele por urtiga, vários quase afogamentos. No fim da noite, quando o trânsito diminuía, os pinheiros próximos ao escritório cuidavam, honestamente, de sussurrar.
Em pouco tempo, entretanto, os cônjuges dos outros Berglund começaram a fincar pé, e as visitas foram cessando. Para Gene, era apenas mais uma prova de que seus irmãos e irmãs o olhavam de cima, com desprezo, considerando-se elegantes demais para o seu motel, enquadrando-se de maneira geral naquela classe privilegiada de americanos que ele vinha tendo cada vez mais prazer em espezinhar e rejeitar. E elegeu Walter como alvo simplesmente porque Walter gostava dos primos da cidade e sentia falta deles. Na esperança de deixar Walter menos parecido com os parentes, Gene atribuía ao filho mais amante dos livros as tarefas mais imundas e humilhantes da manutenção. Walter raspava tinta, tirava manchas de sangue e sêmen do tapete, e usava arame de cabides desfeitos para pescar maçarocas de lodo e cabelo em vários estágios de decomposição para fora do ralo das banheiras. Quando um hóspede deixava a privada especialmente salpicada de diarreia, e quando Dorothy não estava por perto para limpá-la antes, Gene levava seus três filhos para examinar o estrago e então, depois de provocar a hilaridade enojada dos irmãos de Walter, mandava que este fizesse a limpeza sozinho. E dizia: “Vai ser bom para ele”. E os irmãos repetiam: “É, vai ser bom para ele!”. E quando Dorothy descobria e reclamava dele, Gene ficava sentado, sorrindo e fumando com um prazer especial, absorvendo toda a raiva dela sem rebater nada—orgulhoso, como sempre, de não levantar a voz nem a mão para ela. “Aaaaah, Dorothy, deixe pra lá”, dizia ele. “Trabalhar vai fazer bem a ele. Assim ele não fica muito cheio de si.”
Era como se toda a hostilidade que Gene poderia ter dirigido à sua mulher diplomada, mas se recusava a permitir-se por medo de ficar igual a Einar, tivesse encontrado um alvo mais aceitável na pessoa do filho do meio, que, como a própria Dorothy percebia, era forte o bastante para suportá-la. Dorothy tinha uma visão paciente da justiça. Em termos imediatos, podia ser injusto Gene tratar Walter com tanta dureza, mas a longo prazo seu filho acabaria sendo bem-sucedido na vida, enquanto o marido nunca chegaria a ser grande coisa. E o próprio Walter, ao aceitar sem queixa as tarefas perversas que o pai lhe atribuía, ao recusar-se a chorar ou ir reclamar com Dorothy, mostrava ao pai que era capaz de derrotá-lo até mesmo em seu próprio jogo. Os esbarrões diários que Gene dava tarde da noite nos móveis, seus acessos infantis de pânico quando ficava sem cigarros, sua difamação sistemática das pessoas bem-sucedidas: se Walter não estivesse sempre ocupado com o ódio que sentia do pai, poderia ter ficado com pena dele. E havia pouca coisa que metia mais medo em Gene do que ser objeto de compaixão.
Quando Walter tinha nove ou dez anos, prendeu na porta do quarto que dividia com o irmão mais novo, Brent, sempre incomodado pelos cigarros de Gene, um cartaz feito à mão dizendo que era proibido fumar. Walter jamais faria a mesma coisa por si mesmo—preferia deixar Gene soprar fumaça direto nos seus olhos a lhe dar a satisfação de ouvir uma queixa. E Gene, pelo seu lado, não se sentia suficientemente à vontade com Walter para simplesmente arrancar o cartaz. Preferiu, em vez disso, contentar-se com a zombaria. “E se o seu irmãozinho quiser fumar um cigarro no meio da noite? Você vai obrigá-lo a sair no meio da noite gelada?”
“Ele já respira mal de noite por causa de tanta fumaça”, respondeu Walter.
“Nunca tinha ouvido falar disso.”
“Eu durmo lá, e escuto.”
“Só estou dizendo que você pregou o cartaz para os dois, não é? Mas o que Brent acha? Ele divide o quarto com você, não é?”
“Ele só tem seis anos”, respondeu Walter.
“Gene, acho que Brent pode ser alérgico à fumaça”, disse Dorothy.
“Pois eu acho que Walter é alérgico a mim.”
“Não queremos que ninguém fume no nosso quarto, só isso”, disse Walter. “Pode fumar do lado de fora da porta, mas não dentro do quarto.”
“Não vejo a diferença que faz o cigarro estar de um lado ou de outro da porta.”
“Mas é a nova regra do nosso quarto.”
“Quer dizer que agora você está criando regras por aqui?”
“No nosso quarto, sim”, disse Walter.
Gene estava a ponto de dar uma resposta enfurecida quando um ar cansado tomou conta dele. Balançou a cabeça e produziu o sorriso torto e obstinado com que sempre reagira a afirmações de autoridade ao longo da vida inteira. Talvez tivesse visto, na alergia de Brent, a desculpa que procurava para acrescentar ao motel um “salão” onde pudesse fumar em paz e seus amigos pudessem vir e pagar alguma coisa para beber com ele. Dorothy anteviu com toda a razão que um salão assim acabaria com ele.
O grande alívio da infância de Walter, além da escola, era a família da mãe. O pai dela era um médico de cidade pequena, e entre os irmãos, irmãs, tios e tias de Dorothy havia professores universitários, um casal de antigos artistas de vaudeville, um pintor amador, duas bibliotecárias e várias pessoas que nunca se casaram e deviam ser homossexuais. Os parentes de Dorothy nas Cidades Gêmeas de Minneapolis e St. Paul costumavam convidar Walter para fins de semana estonteantes compostos de idas a museus, teatros e apresentações de música; os que ainda viviam no extremo nordeste do estado, a chamada Iron Range, organizavam imensos almoços de verão e festas nos feriados. Gostavam de mímica e de jogos de cartas antiquados como canastra; tinham pianos em casa, e todo mundo cantava. Eram tão obviamente inofensivos que até Gene ficava relaxado na companhia deles, tratando como excentricidades risíveis seus gostos e preferências políticas, compadecendo-se deles com simpatia diante de sua incompetência absoluta para trabalhos de homem. Eles faziam aflorar um lado domesticado de Gene que Walter amava mas que quase nunca tinha como ver, exceto na época do Natal, quando se dedicava à fabricação de doces.
A produção de doces era grande e importante demais para ser deixada só por conta de Dorothy e Walter. Começava na primeira semana do Advento e atravessava a maior parte do mês de dezembro. Utensílios metálicos de bruxaria —caldeirões e grelhas de ferro, pesados aparelhos de alumínio para processar nozes e amêndoas—emergiam de armários profundos. Grandes dunas sazonais de açúcar se erguiam, bem como torres de latinhas. Mais de um metro cúbico de manteiga natural era derretido com leite e açúcar (para o fudge de chocolate) ou só com açúcar (para os famosos caramelos toffee de Natal de Dorothy), ou transferido penosamente por Walter para o esquadrão de reserva de panelas e caçarolas rasas que sua mãe, ao longo dos anos, tinha comprado de gente que se mudava. Havia muita discussão sobre “bolhas duras”, “bolhas moles” e “rachaduras”. Gene, de avental, mexia os caldeirões com os gestos de um remador viking, fazendo o possível para manter a cinza dos cigarros fora da mistura. Tinha três antigos termômetros de doceiro, cujos envoltórios de metal tinham a forma de raquetes e cuja função natural era mostrar que a temperatura não aumentava em nada por várias horas, até que, de repente e ao mesmo tempo, todos registravam a temperatura à qual o fudge queima e o caramelo endurece como epóxi. Ele e Dorothy nunca funcionavam tão bem em equipe como quando trabalhavam contra o relógio para adicionar as nozes e castanhas na hora certa e verter os doces do caldeirão. E mais tarde vinha a faina brutal de cortar o caramelo já endurecido além da conta: a lâmina da faca se curvava debaixo da tremenda pressão exercida por Gene, o som desagradável (menos ouvido do que sentido na medula dos ossos, nos nervos dos dentes) de uma lâmina afiada que perdia o gume contra o fundo de uma panela de metal, as explosões de um âmbar castanho e pegajoso, os gritos paternos de Meu Deus puta merda, e as repreensões maternas que lhe pediam para não dizer palavrões.
Na última semana do Advento, quando oitenta ou cem latinhas já tinham sido forradas de papel-manteiga e abastecidas de pedaços de fudge e caramelos toffee, e guarnecidas com amêndoas confeitadas, Gene, Dorothy e Walter saíam distribuindo. Levavam um fim de semana inteiro, às vezes mais. O irmão mais velho de Walter, Mitch, ficava no motel com Brent que, embora mais tarde tenha se transformado em piloto da Força Aérea, quando criança enjoava muito no automóvel. Os doces eram entregues primeiro aos muitos amigos que Gene tinha em Hibbing, e depois, com muitas marchas a ré, erros de caminho e estradas sem saída, a parentes e amigos mais distantes, do Iron Range no nordeste do estado até Grand Rapids e ainda mais além. Era inconcebível deixar de aceitar um café ou um biscoito em cada casa que visitavam. Entre as paradas, Walter ficava sentado no banco de trás do carro lendo um livro, ou observando a mancha de sol da forma da janela a seu lado no banco que, quando o carro afinal chegava ao entroncamento onde precisava fazer uma curva de noventa graus, deslizava pelo cânion do piso e reaparecia, retorcida, nas costas do assento dianteiro. Do lado de fora, eram os eternos terrenos cobertos de árvores, a eterna lama coberta de neve, os anúncios de fertilizante impressos em círculos de metal pregados aos postes telefônicos, os gaviões envoltos nas asas dobradas e os corvos mais ousados. No banco a seu lado havia uma pilha crescente de presentes das casas já visitadas —bolos e tortas escandinavos, guloseimas finlandesas e croatas, garrafas de “agrado” dos amigos solteiros de Gene—e a pilha que lentamente diminuía das latinhas produzidas pelos Berglund. O maior mérito dessas latinhas era que continham os mesmos doces que Gene e Dorothy vinham distribuindo desde o casamento. Os doces tinham sofrido uma lenta mutação ao longo dos anos, que os transformara de guloseimas em lembranças de guloseimas do passado. Era o presente anual que os Berglund de poucos recursos ainda podiam distribuir à larga.
Walter estava terminando seu primeiro ano do colegial quando o pai de Dorothy morreu e deixou para ela a casinha do lago em que passavam os verões da infância. Na cabeça de Walter, a casa estava associada às dificuldades de sua mãe, pois fora lá, ainda menina, que ela suportara longos meses combatendo a artrite que prejudicara sua mão direita e deformara sua pélvis. Numa estante baixa ao lado da lareira ficavam os tristes velhos “brinquedos” com que ela costumava “se divertir” horas a fio—um instrumento que lembrava um quebra-nozes com molas de aço, um trompete de madeira com cinco válvulas—para tentar preservar e melhorar a mobilidade das juntas devastadas de seus dedos. Os Berglund sempre estiveram ocupados demais com o motel para desfrutar da casinha, mas Dorothy adorava o lugar, e sonhava que iria morar lá depois de se aposentar, se Gene conseguisse se livrar do motel, e por isso não concordou na mesma hora quando Gene propôs que a vendessem. A saúde de Gene ia mal, o motel estava hipotecado até o último prego, e todo pouco encanto de beira de estrada que possuíra um dia tinha sido completamente erodido pelos inclementes invernos de Hibbing. Embora Mitch tivesse deixado os estudos e trabalhasse numa oficina de lanternagem mas ainda morasse em casa, gastava todo o salário com mulheres, bebida, armas, equipamento de pesca e seu Thunderbird envenenado. Gene poderia ter outra opinião sobre a casa se o pequeno lago sem nome tivesse peixes mais merecedores de serem pescados do que percas e lambaris mas, como não tinha, ele não via nenhum sentido em manter-se apegado a uma casa de férias que não tinham tempo de usar. Dorothy, geralmente a suprema encarnação do pragmatismo, ficou tão triste que se recolhia cedo todo dia, queixando-se de dor de cabeça. E Walter, que não se incomodava em sofrer ele próprio, mas não aguentava ver a mãe sofrendo, interveio.
“Eu posso ir para lá e consertar a casa nas férias de verão, e depois quem sabe a gente passe a alugar”, disse aos pais.
“Mas precisamos de você ajudando aqui”, respondeu Dorothy.
“De qualquer maneira, daqui a um ano vou embora da cidade. Como vocês vão fazer depois que eu me mudar?”
“A gente resolve isso quando chegar a hora”, disse Gene.
“Mais cedo ou mais tarde vocês vão precisar contratar uma pessoa.”
“E é por isso que precisamos vender a casa do lago”, disse Gene.
“Ele tem razão, Walter”, completou Dorothy. “Eu não queria me desfazer da casa, mas ele tem razão.”
“Bom, e Mitch? Ele pelo menos podia pagar aluguel a vocês, e com esse dinheiro dava para vocês contratarem alguém.”
“Ele já é independente”, respondeu Gene.
“Mas ainda come aqui, e a mamãe lava a roupa dele! Por que ele não paga pelo menos alguma coisa de aluguel?”
“Não é da sua conta!”
“É da conta da mamãe! Você prefere vender a casa da mamãe a obrigar Mitch a se comportar como adulto.”
“O quarto é dele, e não vou botar meu filho para fora!”
“Você acha mesmo que podíamos alugar a casa?”, perguntou Dorothy esperançosa.
“Íamos precisar fazer faxina toda semana, e mandar lavar toda a roupa de cama”, disse Gene. “O trabalho não ia acabar nunca.”
“Eu posso ir até lá de carro uma vez por semana”, propôs Dorothy. “Nem é muito complicado.”
“Mas precisamos do dinheiro agora”, disse Gene.
“E se eu fizesse como o Mitch?”, perguntou Walter. “E se eu simplesmente me recusasse? Se eu simplesmente fosse para lá e passasse as férias consertando a casa do lago?”
“Você não é Jesus Cristo”, disse Gene. “Podemos nos virar aqui sem você.”
“Gene, podemos pelo menos tentar alugar a casa nas férias do verão que vem. Se não der certo, sempre podemos vender.”
“Eu vou nos fins de semana”, disse Walter. “Que tal assim? Mitch pode me cobrir nos fins de semana, não pode?”
“Se você quer tentar convencer Mitch disso, pode ir em frente”, respondeu Gene.
“Eu não sou pai dele!”
“Pois para mim já chega”, disse Gene, e retirou-se para o salão.
A razão de Gene deixar Mitch fazer o que quisesse era bem clara: ele enxergava em seu filho mais velho uma réplica quase exata de si mesmo, e não queria forçá-lo como se sentira forçado por Einar. Mas a passividade de Dorothy diante de Mitch era mais misteriosa para Walter. Talvez ela já estivesse tão desgastada pelo marido que simplesmente não tinha a energia necessária para combater também seu primeiro filho, ou talvez conseguisse ver o fracasso futuro de Mitch e desejasse a ele mais alguns anos de bons tratos em casa antes que o mundo o tratasse com a dureza costumeira. De qualquer maneira, foi a Walter que coube bater na porta de Mitch, coberta de adesivos de stp e Pennzoil, e tentar tratar seu irmão mais velho como a um filho.
Mitch estava deitado na cama, fumando um cigarro e ouvindo o Bachman-Turner Overdrive no aparelho de som que tinha comprado com seus ganhos na oficina de lanternagem. A expressão contrafeita com que sorriu para Walter era semelhante à do pai deles, mas com um desprezo mais acentuado. “O que você quer?”
“Quero que você comece a pagar aluguel nesta casa, trabalhe um pouco ou então vá embora.”
“E desde quando você manda aqui?”
“Papai me disse para falar com você.”
“Diga a ele que venha falar comigo pessoalmente.”
“Mamãe não quer vender a casa do lago, então alguma coisa precisa mudar.”
“Problema dela.”
“Meu Deus, Mitch. Você é o sujeito mais egoísta que eu já vi na vida.”
“Até parece. Você vai embora estudar em Harvard, ou coisa assim, e eu é que vou acabar tomando conta deste lugar. Mas eu é que sou o egoísta.”
“É mesmo!”
“Só estou economizando para o caso de Brenda e eu precisarmos, mas eu é que sou o egoísta.”
Brenda era a garota muito bonita que tinha sido quase deserdada pelos pais por namorar Mitch. “E qual é exatamente o seu plano de poupança?”, perguntou Walter. “Comprar um monte de coisas para depois botar no prego?”
“Eu trabalho muito. Você acha que eu devia fazer o quê, nunca comprar nada?”
“Eu também trabalho muito, e não tenho nada, porque não recebo salário nenhum.”
“E aquela câmera de filmar?”
“Foi minha escola que me emprestou, seu cretino. Não é minha.”
“Bem, pois ninguém me empresta nada, porque eu não sou um veadinho puxa-saco.”
“Mas nem por isso você precisa deixar de pagar algum aluguel, ou pelo menos ajudar no motel nos fins de semana.”
Mitch olhou para o seu cinzeiro como se contemplasse um pátio de penitenciária repleto de prisioneiros empoeirados, pensando na maneira de enfiar mais um no meio dos outros. “Quem foi que nomeou você o Jesus Cristo da área?”, disse ele, sem muita originalidade. “Não sou obrigado a negociar com você.”
Mas Dorothy se recusava a conversar com Mitch (“Prefiro simplesmente vender a casa”, disse ela), e Walter, ao final do ano letivo, que também era o início da estação mais movimentada do motel, se é que se pode falar de muito movimento, decidiu forçar a discussão, entrando em greve. Enquanto ele estava no motel, não tinha como deixar de fazer as coisas que precisavam ser feitas. A única maneira de forçar Mitch a assumir a responsabilidade era ir embora, e assim ele anunciou que passaria as férias consertando a casa do lago e fazendo um documentário experimental sobre a natureza. Seu pai disse que, se ele queria melhorar o estado da casa para vender, não tinha nada contra, mas que a casa ia ser vendida de qualquer maneira. A mãe implorou que ele deixasse de lado a história daquela casa. Disse que tinha sido egoísmo da parte dela criar tanto caso por causa daquilo, que nem gostava tanto assim da casa, só queria que todo mundo se desse bem, e quando Walter disse que ia de qualquer maneira, ela gritou que, se ele de fato se importasse com o que ela queria, não iria embora. Mas ele se sentia, pela primeira vez, realmente enfurecido com ela. Não fazia diferença saber o quanto ela o amava ou o quanto ele a compreendia—ficou com ódio por ela submeter-se de um jeito tão servil ao pai e ao irmão dele. Estava farto daquilo. Pediu que sua melhor amiga, Mary Siltala, o levasse de carro até a casa do lago com uma mochila de roupas, dez galões de tinta, sua velha bicicleta sem marchas, um exemplar de segunda mão de uma edição de bolso de Walden, a filmadora Super-8 que lhe tinha sido emprestada pelo departamento de áudio e vídeo de sua escola e oito caixas amarelas de negativo Super-8. Era de longe a atitude mais rebelde que já tinha tomado na vida.
A casa ainda estava cheia de cocô de rato e besouros mortos, e precisava, além da pintura, de um telhado novo e de novas telas para as janelas. No seu primeiro dia, Walter fez faxina e cortou mato por dez horas seguidas, e depois saiu para uma caminhada pelo bosque, à luz inalterável do fim da tarde, procurando o belo na natureza. Tinha apenas vinte e quatro minutos de negativo, e depois de desperdiçar três deles com esquilos percebeu que precisava de algo menos fácil de registrar. O lago era pequeno demais para receber marrecos, mas quando ele levou a canoa de lona do avô a seus recessos mais remotos, assustou uma ave que lembrava uma garça, uma espécie de socó, que tinha construído um ninho em meio aos juncos. Aquelas aves eram perfeitas—tão discretas que ele poderia vigiá-las ao longo de todo o verão sem gastar vinte e um minutos de negativo. Imaginou produzir um curta-metragem experimental intitulado “Socolidão”.
Acordava todo dia às cinco da manhã, cobria-se de repelente e remava muito devagar, no maior silêncio possível, na direção dos juncos, com a filmadora no colo. O costume daquelas aves era ficar paradas em meio aos caniços, camufladas pelas finas faixas verticais beges e marrons de sua plumagem, e trespassar peixes pequenos com o bico. Quando pressentiam o perigo, ficavam paralisadas, com o pescoço esticado e o bico apontando para o céu, confundindo-se com os talos secos de junco. Quando Walter se aproximava mais, na esperança de capturar uma parte maior da vida daquelas aves no visor da filmadora, elas em geral desapareciam mas às vezes preferiam alçar voo, o que o forçava a se inclinar loucamente para trás na tentativa de acompanhá-las com a câmera. Embora fossem simples máquinas de matar, ele as achava muito simpáticas, sobretudo pelo contraste entre suas penas de camuflagem, totalmente sem encantos, e o cinzento dramático e o negro de ardósia de suas asas estendidas quando pairavam no ar. Eram humildes e furtivas ao nível do solo, perto de seus ninhos pantanosos, mas muito majestosas no céu.
Dezessete anos de vida em aposentos apertados com sua família tinham deixado Walter com uma sede de solidão cuja inextinguibilidade ele só agora descobria. Ouvir apenas o vento, o canto das aves, o zumbido dos insetos, peixes pulando, galhos rangendo, o roçar das folhas de vidoeiro quando se entrechocavam: toda hora ele parava para saborear aquele silêncio de ruídos sutis enquanto raspava a tinta das paredes externas da casa. A viagem de ida e volta até a cooperativa que vendia comida em Fen City levava noventa minutos em sua bicicleta. Preparava panelas grandes de ensopado de lentilha e sopa de feijão, usando as receitas da mãe, e à noite jogava na máquina de pinball movida a mola mas ainda em bom funcionamento que a casa tinha desde sempre. Lia na cama até a meia-noite e mesmo depois disso não adormecia imediatamente, ficava deitado absorvendo o silêncio.
Num fim de tarde, uma sexta-feira, o décimo dia de sua estada à beira do lago, quando voltava na canoa de mais uma tentativa de captura de novas imagens insatisfatórias das aves do lago, ouviu o som de motores de automóvel, música alta, e depois motocicletas se aproximando pela estrada de acesso. Quando conseguiu tirar a canoa da água, Mitch, a bela Brenda e três outros casais—três idiotas das relações de Mitch e três garotas com calças de boca de sino e camisetas curtas sem mangas—descarregavam cerveja, barracas de acampamento e geladeiras de isopor no gramado atrás da casa. Uma caminhonete movida a diesel funcionava em ponto morto com uma tosse de fumante, alimentando de energia um sistema de som que só tocava Aerosmith. Um dos idiotas amigos de Mitch tinha trazido um rottweiller com uma coleira de tachas presa a uma corrente de reboque.
“E aí, amante da natureza?”, disse Mitch. “Espero que não se incomode de receber convidados.”
“Me incomodo sim”, disse Walter, corando contra a vontade ao ver como aquele grupo devia achá-lo tenso. “E me incomodo muito. Estou aqui sozinho. Não tem lugar para vocês.”
“Tem sim”, disse Mitch. “Na verdade, é você quem não devia estar aqui. Pode ficar hoje à noite, se quiser, mas agora eu estou aqui. E você está na minha propriedade.”
“A propriedade não é sua.”
“Eu aluguei. Você queria que eu pagasse aluguel, e aluguei a casa daqui.”
“E o seu emprego?”
“Eu me demiti. Saí de lá.”
Walter, quase às lágrimas, entrou na casa e escondeu a filmadora na cesta de roupa suja. Depois saiu de bicicleta num crepúsculo subitamente esvaziado de encantos e repleto de mosquitos e hostilidade, e ligou para casa do telefone público ao lado da cooperativa de Fen City. Sim, confirmou sua mãe, ela, Mitch e o pai deles tinham trocado palavras iradas e concluído que o melhor era manter a casa na família e deixar Mitch fazer os consertos e aprender a assumir mais responsabilidades.
“Ele vai ficar farreando o tempo todo, mãe. Vai acabar pondo fogo na casa.”
“Bom, mas eu me sinto melhor com você aqui e Mitch por conta própria”, disse ela. “Você tinha razão, querido. E agora pode voltar para casa. Estamos com saudade, e você ainda não tem idade para passar as férias inteiras sozinho.”
“Mas estou adorando a temporada aqui. Estou fazendo tanta coisa.”
“Desculpe, Walter. Mas foi assim que nós resolvemos.”
Pedalando de volta para casa no começo da noite, ele já ouvia o barulho a quase um quilômetro de distância. Solos másculos de guitarra, gritos de embriaguez, latidos do cachorro, bombinhas, o ronco e o canto alto de um motor de moto. Mitch e os amigos tinham armado barracas, feito uma enorme fogueira, e estavam tentando assar hambúrgueres direto nas chamas em meio a uma nuvem de fumaça de maconha. Nem olharam para Walter quando ele chegou e entrou na casa. Ele se trancou no quarto e ficou deitado na cama, deixando-se torturar pelo barulho. Por que eles não conseguiam ficar quietos? De onde vinha aquela voragem de conquista sônica de um mundo em que havia quem gostasse do silêncio? O tumulto nunca diminuía. Produzia uma febre à qual todas as demais pessoas pareciam imunes. Uma febre alienante de autocomiseração. Que, por ter acometido Walter naquela noite, lhe deixou como marca permanente o ódio pela vox populi que se manifestava aos berros e também, curiosamente, com uma aversão ao mundo natural. Ele viera ao encontro da natureza com o peito aberto, e a natureza, em sua passividade, que lembrava a fraqueza de sua mãe, cuidara de decepcioná-lo. Ele se deixara atropelar tão rapidamente por aqueles idiotas barulhentos. Amava a natureza, mas só num plano abstrato, não mais do que amava bons romances ou filmes estrangeiros, e menos do que viria a amar Patty e os filhos, e assim, pelos vinte anos seguintes, transformou-se numa criatura urbana. Mesmo quando se demitiu da 3M e se dedicou ao ambientalismo, seu interesse primário em trabalhar na Conservancy, e mais tarde no Fundo, era salvaguardar bolsões de natureza de caipiras invasores como o irmão. O amor que ele sentia pelas criaturas cujo hábitat protegia baseava-se na projeção: na identificação com seu próprio desejo de ser deixado em paz por seres humanos ruidosos.
Com a exceção de alguns meses de cadeia, quando Brenda ficou sozinha com suas filhinhas, Mitch morou continuamente na casa do lago até a morte de Gene, seis anos mais tarde. Trocou o telhado e deteve o declínio geral da propriedade, mas também derrubou algumas de suas árvores maiores e mais bonitas, e devastou a encosta à beira do lago, que transformou em playground para seus cachorros, além de abrir à força uma trilha para snowmobile que levava até a margem oposta do lago, onde os socós costumavam fazer seus ninhos. Até onde Walter soube, jamais pagou um centavo de aluguel a Gene e Dorothy.
Será que o criador dos Traumatics sequer sabia o que era um trauma? Eis o que era um trauma: descer para seu escritório no começo de uma manhã de domingo, cultivando pensamentos felizes sobre os filhos, que o tinham deixado muito orgulhoso nos últimos dois dias, e descobrir em sua mesa um longo texto, escrito por sua esposa, confirmando seus piores medos em relação a ela, você mesmo e seu melhor amigo. A única experiência vagamente semelhante da vida de Walter tinha sido a primeira vez que se masturbou, no Quarto 6 da Whispering Pines, seguindo as simpáticas instruções (“Use vaselina”) transmitidas por seu primo Leif. Ele tinha catorze anos, e o prazer havia reduzido todos os prazeres conhecidos até então a proporções tão minúsculas, com um resultado tão cataclísmico e espantoso, que ele se sentiu como um herói de ficção científica transportado através da quarta dimensão de um planeta em fim de declínio para outro, novinho em folha. E o texto de Patty era quase igualmente irresistível e transformador. A leitura que fez de suas muitas folhas lhe pareceu, como aquela primeira masturbação, durar um único instante. Ele se levantou uma só vez, bem no início, para trancar a porta do escritório, e logo estava lendo a última página, eram exatamente 10:12 da manhã, e o sol que batia nas janelas do escritório era diferente do sol que ele conhecia antes. Era uma estrela amarela e maligna em algum canto esquecido da galáxia, e sua cabeça ficara igualmente alterada pela distância interestelar que percorrera. Ele saiu com o texto do escritório e passou direto por Lalitha, que digitava em sua mesa.
“Bom dia, Walter.”
“Bom dia”, disse ele com um estremecimento ao perceber o excelente aroma matinal que ela exalava. Atravessou a cozinha e subiu a escada dos fundos até o quartinho onde o amor da sua vida ainda estava usando o pijama de flanela, refugiada no ninho de roupas de cama que armara em cima do sofá, com uma caneca de café com leite na mão, assistindo a um programa sobre a última rodada do campeonato universitário de basquete apresentada por algum canal de esportes. O sorriso que ela lhe dirigiu—um sorriso que lembrava os últimos fulgores do sol que ele acabara de perder—se transformou em horror assim que ela viu o que ele trazia nas mãos.
“Ah, merda”, disse ela, desligando a televisão. “Ah, que merda, Walter. Ah, ah, ah.” Sacudia a cabeça com veemência. “Não”, disse ela. “Não, não, não.”
Ele fechou a porta atrás de si e deslizou com as costas apoiadas nela até acabar sentado no chão. Patty tomou fôlego, depois tomou mais fôlego, e não disse nada. A luz que entrava pelas janelas parecia de outro mundo. Walter tornou a estremecer, com os molares batendo enquanto tentava controlar-se.
“Não sei onde você pegou esse texto”, disse Patty. “Mas não era para você. Eu dei a Richard na noite passada para me livrar dele. Queria Richard fora da nossa vida, Walter. Não sei por que ele fez isso! É tão horrível, o que ele fez!”
De uma distância de muitos parsecs, ele a ouviu começando a chorar.
“Nunca me passou pela cabeça deixar você ler isso, Walter”, disse ela com uma voz aguda de carpideira. “Juro por Deus, Walter. Juro por Deus. Passei a vida inteira tentando não magoar você. Você sempre me tratou tão bem, não merece nada disso.”
Ela chorou muito tempo depois disso, dez ou cem minutos. Toda a programação normal das manhãs de domingo foi suspensa devido à emergência, o curso normal do dia tão profundamente obliterado que ele nem tinha como ficar nostálgico. Por força do acaso, o ponto do chão bem à frente dele tinha sido cenário de uma emergência de tipo muito distinto só três dias antes, uma emergência benigna, um acasalamento prazerosamente traumático que, em retrospecto, parecia um prenúncio daquela emergência maligna. Ele tinha subido as escadas na noite de quinta e atacado Patty sexualmente. E executara, com o surpreso consentimento dela, os atos violentos que, sem o consentimento dela, teriam constituído um estupro: arrancou as calças pretas que ela usava no trabalho, puxou-a para o chão e a invadiu como um aríete. Se alguma vez, no passado, tivesse lhe ocorrido a ideia de fazer aquilo, ele jamais teria passado à ação, porque nunca seria capaz de esquecer que ela fora estuprada na juventude. Mas o dia tinha sido tão longo e desconcertante—sua quase infidelidade com Lalitha tão candente, o bloqueio da estrada no condado de Wyoming tão enfurecedor, a humildade da voz de Joey ao telefone tão inédita e gratificante— que Patty de repente lhe parecera, quando Walter entrou no quarto dela, um objeto seu. Seu objeto obstinado, sua mulher frustrante. E ele estava farto daquilo, farto de toda a racionalização e compreensão, a tal ponto que a derrubou no chão e comeu-a como um brutamontes. O ar de revelação no rosto dela naquele momento, que devia espelhar a expressão dele próprio, fez que ele parasse quase no mesmo instante em que começou. Parou, saiu dela, sentou-se em seu peito e esfregou seu pau ereto, que parecia ter o dobro do tamanho normal, no rosto dela. Para deixar bem claro quem ele estava se tornando. Ambos sorriam como loucos. E então ele tornou a penetrá-la, e em vez dos gemidos contidos e baixinhos de estímulo, dessa vez ela soltava gritos altos, que o deixaram ainda mais inflamado; e na manhã seguinte, quando ele desceu para o escritório, adivinhou pelo gélido silêncio de Lalitha que os gritos tinham se espalhado pelo casarão inteiro. Alguma coisa tinha começado na noite de quinta, ele não sabia bem o quê. Mas agora aquele texto dela mostrou do que se tratava. Do fim de tudo. Ela nunca o amara de verdade. Queria seu amigo malévolo. E tudo aquilo deixou Walter satisfeito por não ter quebrado a promessa que fizera a Joey no jantar em Alexandria na noite seguinte, a promessa de não contar para ninguém, sobretudo não para Patty, que ele se casara com Connie Monaghan. Esse segredo, além de vários outros mais alarmantes que Joey confiara ao pai, vinham pesando no espírito de Walter desde então, por todo o fim de semana, e ao longo de toda a longa reunião e do show que tinha ido assistir na noite anterior. Ele estava culpado por deixar Patty no escuro quanto ao casamento, sentindo que a atraiçoava. Mas agora percebia que, em matéria de traição, a sua era ridícula e insignificante. Insignificante a ponto de fazer chorar.
“Richard ainda está aqui?”, perguntou ela finalmente, enxugando o rosto com o lençol.
“Não. Ouvi quando ele saiu, antes de me levantar. Acho que não vai mais voltar.”
“Bom, Deus seja louvado pelas pequenas misericórdias.”
Como ele amava a voz dela! Agora, só de ouvi-la tinha vontade de morrer.
“Vocês dois treparam ontem à noite?”, perguntou ele. “Ouvi vozes na cozinha.”
Sua voz soava rouca como a de um corvo, e Patty respirou fundo, como que se preparando para prolongados maus-tratos. “Não”, disse ela. “Conversamos e depois fui para a cama. Já disse a você, está tudo acabado. Aconteceu um lance há alguns anos, mas já passou.”
“Todo mundo erra.”
“Você precisa acreditar em mim, Walter. Acabou de verdade.”
“Só que, fisicamente, você não sente comigo o mesmo que sente com o meu melhor amigo. Nunca sentiu, ao que tudo indica. Nem nunca vai sentir.”
“Ahhh”, disse ela, fechando os olhos como quem reza, “por favor não cite as coisas que eu escrevi. Pode me chamar de vagabunda, de puta, de pior pesadelo da sua vida, mas por favor, tente não citar o que escrevi. Tenha só esse pouco de piedade, se puder.”
“Ele pode jogar mal xadrez, mas sem dúvida ganha de longe na outra competição.”
“Está bem”, disse ela, fechando os olhos com mais força. “Você vai ficar citando o que eu escrevi. Está certo. Pode citar. Vá fundo. Faça o que tiver de fazer. Eu sei que não mereço compaixão. Mas só quero que você saiba que é a pior coisa que você poderia fazer.”
“Desculpe. Achei que você gostava de conversar sobre ele. Na verdade, achei que era por isso que você mais gostava de conversar comigo.”
“Isso mesmo. Era. Não vou mentir para você. Foi, durante uns três meses. Mas isso foi há vinte e cinco anos, antes de eu me apaixonar e construir uma vida em comum com você.”
“E que vida satisfatória, não é? ‘Nada de muito errado com ela’, acho que foram as suas palavras. Embora os acontecimentos concretos deem a impressão de que não era bem assim.”
Ela fez uma careta, os olhos ainda fechados. “Talvez você prefira ler tudo de novo em voz alta, e sublinhar as piores partes. Quer fazer assim, e acabar logo com isso?”
“Na verdade, o que eu queria fazer era enfiar essa papelada na sua garganta. E ver você morrer sufocada com essa merda toda.”
“Está bem. Pode ser. Vai ser até um alívio, comparado com o que estou sentindo agora.”
Ele vinha segurando as folhas com tanta força que ficou com cãibras na mão. Soltou o texto e deixou que escorregasse entre as suas pernas. “Na verdade não tenho mais nada a dizer”, disse ele. “Acho que já falamos tudo que precisava ser conversado.”
Ela assentiu com a cabeça. “Ótimo.”
“Só que eu nunca mais quero te ver. Nunca mais quero estar na mesma sala ou no mesmo quarto que você. Nunca mais quero ouvir o nome dessa pessoa. Não quero ter nada a ver com nenhum de vocês dois. Nunca mais. Só quero ficar sozinho para poder contemplar em paz o fato de que desperdicei minha vida inteira amando você.”
“Certo, está bem”, disse ela, assentindo de novo. “Mas de certa forma não? Não, eu não concordo com isso.”
“Estou pouco ligando.”
“Sei que não. Mas escute um pouco.” Ela fungou com força, tentando se recompor, e pousou a caneca de café no chão. Suas lágrimas tinham atenuado seus olhos, avermelhado seus lábios e a deixado muito bonita, se é que a beleza dela tinha alguma importância, o que no caso de Walter não se aplicava mais. “Nunca passou pela minha cabeça você ler essa história”, disse ela.
“Que porra esses papéis estão fazendo na minha casa, então, se você não queria que eu lesse?”
“Pode acreditar em mim ou não, mas é verdade. Foi só uma coisa que eu precisava escrever para mim mesma, para tentar melhorar. Foi uma ideia que surgiu na terapia, Walter. Eu só dei para Richard ler ontem à noite para tentar explicar por que eu fiquei com você. Eu sempre fiquei com você. E ainda quero ficar com você. Sei que deve ter sido horrível para você ler algumas das coisas escritas aí. Mal consigo imaginar como foi horrível, mas não é só isso que eu falei. Escrevi quando estava deprimida, e o texto ficou cheio das coisas ruins que eu estava sentindo. Mas ultimamente eu comecei a me sentir melhor. Sobretudo depois do que aconteceu na outra noite—eu estava me sentindo melhor! Parecia que a gente estava encontrando uma saída! Não foi o que você também sentiu?”
“Não sei mais o que eu estava sentindo.”
“Também escrevi coisas boas a seu respeito, não é? Muitas coisas, muito mais coisas boas do que ruins? Se você avaliar objetivamente? Sei que você não vai conseguir agora, mas mesmo assim, qualquer outra pessoa iria ver as coisas boas. Que você me tratava melhor do que eu achava que merecia ser tratada por qualquer pessoa. Que você, Joey e Jessie são toda a minha vida. Que foi só uma parte má e bem pequena de mim que procurou outra coisa, e só por pouco tempo, num momento muito ruim da minha vida.”
“Isso mesmo”, grasnou ele. “De algum modo, nada disso me passou pela cabeça.”
“Está escrito lá, Walter! Talvez, quando você pensar mais tarde, consiga se lembrar dessas partes.”
“Não pretendo pensar muito a respeito disso no futuro.”
“Não agora, mais tarde. Mesmo que continue sem querer falar comigo, talvez pelo menos consiga me perdoar um pouquinho.”
A claridade que entrava pelas janelas se atenuou de repente, a passagem de uma nuvem de primavera. “Você fez a pior coisa que podia fazer comigo”, disse ele. “A pior de todas, e você sabia perfeitamente que era a pior, mas mesmo assim não deixou de fazer. Sobre qual parte disso eu posso querer voltar a pensar?”
“Ah, sinto muito”, disse ela, recomeçando a chorar. “Sinto muito que você não consiga ver as coisas do mesmo jeito que eu. Sinto muito que tenha acontecido.”
“Não foi uma coisa que ‘aconteceu’. Foi uma coisa que você fez. Você deu para o tipo de filho da puta capaz de deixar essa porra na minha mesa para eu ler.”
“Mas pelo amor de Deus, Walter, foi só sexo.”
“Você deixou ele ler coisas sobre mim que não queria que eu lesse.”
“Só sexo, uma estupidez, faz quatro anos. Não é nada, comparado com toda a nossa vida!”