Liberdade
O lago de Canterbridge Estates
Existem várias maneiras de um gato doméstico morrer ao ar livre, entre elas o estraçalhamento por coiotes e o atropelamento por um carro, mas quando o adorado gato de estimação da família Hoffbauer, Bobby, deixou de voltar para casa num anoitecer do início de junho, e por mais que chamassem seu nome, procurassem por todo o perímetro dos Canterbridge Estates ou caminhassem de um lado para o outro pela estrada vicinal ou prendessem uma foto xerocada de Bobby nas árvores locais não encontraram nem sinal dele, todos em Canterbridge Court imaginaram que Bobby tivesse sido morto por Walter Berglund.
Canterbridge Estates era um novo condomínio, composto por doze casas de bom tamanho construídas com muitos banheiros ao estilo moderno, na margem sudoeste de um pequeno corpo aquático hoje oficialmente conhecido como o lago de Canterbridge Estates. Embora o lago não ficasse na verdade perto de lugar nenhum, o sistema financeiro do país vinha nos últimos tempos emprestando dinheiro praticamente de graça, e a construção do condomínio, bem como o alargamento e a pavimentação da estrada que levava até lá, tinha agitado por algum tempo a economia estagnada do condado de Itasca. As taxas de juros baixas também tinham permitido que vários aposentados das Cidades Gêmeas e jovens famílias locais, entre elas os Hoffbauer, comprassem uma casa de sonhos. Quando começaram a se instalar por lá, durante o outono de 2007, as ruas ainda pareciam muito precárias. Os jardins da frente e de trás das casas tinham um piso irregular e forrado de uma grama que não vingava, pelo qual se distribuíam pedras glaciais irremovíveis e os vidoeiros que tinham sido poupados da derrubada, e lembravam, no fim das contas, um projeto de terrário terminado às pressas por uma criança de escola. Os gatos da vizinhança, compreensivelmente, preferiam percorrer as matas e os arvoredos da propriedade próxima dos Berglund, onde havia muitas aves. E Walter, antes ainda que a última casa do condomínio fosse ocupada, tinha ido de porta em porta se apresentando e pedindo aos vizinhos que por favor mantivessem seus gatos dentro de casa.
Walter era um bom cidadão do estado de Minnesota, e razoavelmente simpático, mas transmitia alguma coisa, um tremor político na voz, uma barba grisalha de fanático por fazer, que despertava certo calafrio nas famílias do condomínio. Morava sozinho no meio de uma antiga casa de férias isolada e meio arruinada, e embora fosse sem dúvida mais agradável para as famílias ver sua pitoresca propriedade na outra margem do lago do que, para ele, contemplar seus quintais desnudos, e embora alguns deles pudessem imaginar como a construção de suas casas devia ter sido barulhenta, ninguém gosta de ser posto no papel de intruso do idílio alheio. Pagaram o preço, no fim das contas; tinham todo o direito de estar ali. Na verdade, as taxas das suas propriedades eram coletivamente mais altas que as de Walter, e a maioria deles estava diante de um crescimento explosivo das parcelas de suas hipotecas, vivendo de um salário fixo ou tentando poupar para a educação dos filhos. Quando Walter, que obviamente não tinha essas preocupações, veio reclamar com eles por causa dos seus gatos, sentiram que compreendiam bem mais a preocupação dele com os passarinhos do que ele entendia o quanto preocupar-se com eles era um privilégio hiper-refinado. Linda Hoffbauer, que era evangélica e a pessoa mais politicamente ativa do condomínio, ficou especialmente ofendida. “Quer dizer que Bobby mata passarinhos”, disse ela a Walter. “E daí?”
“Bom, acontece”, disse Walter, “que os gatos domésticos não são nativos da América do Norte, e por isso os passarinhos daqui nunca desenvolveram defesas contra eles. E por isso o confronto é muito desigual.”
“Os gatos sempre caçaram passarinhos”, disse Linda. “É assim que eles são, faz parte da natureza deles.”
“Verdade, mas os gatos são uma espécie do Velho Mundo”, respondeu Walter. “Não fazem parte da nossa natureza. Não estariam aqui se nós não tivéssemos trazido. O problema é esse.”
“Falando francamente”, disse Linda, “só me interessa fazer minhas crianças aprenderem a tomar conta de um bicho de estimação e ser responsáveis por ele. Está querendo me dizer que não podem?”
“Não, claro que não”, disse Walter. “Mas Bobby já fica dentro de casa no inverno. Só estou pedindo que mantenha o gato dentro de casa no verão também, pelo bem do ecossistema daqui. Moramos numa área usada para a reprodução de muitas espécies de aves que vêm declinando na América do Norte. E esses passarinhos também têm seus filhos. Quando Bobby mata um passarinho em junho ou julho, também está deixando abandonado um ninho cheio de filhotes condenados à morte.”
“Então os passarinhos precisam achar outro lugar para os ninhos deles. Bobby adora passear ao ar livre. Não é justo prender o gato em casa quando o tempo está bom.”
“Claro, sei. Compreendo que vocês adoram o gato da família. E se ele ficasse só no seu jardim, tudo bem. Mas toda esta terra já pertencia aos passarinhos antes de pertencer a nós. E não temos como dizer a eles que aqui não é um bom lugar para fazerem o ninho. Então eles continuam vindo, e sendo mortos. E o maior problema é que eles estão ficando sem espaço, porque cada vez mais terras são ocupadas. E por isso é importante que tentemos ser sentinelas responsáveis dessa terra maravilhosa que estamos ocupando.”
“Olhe, sinto muito”, disse Linda, “mas meus filhos contam mais para mim que os filhos de outro passarinho. E não acho que seja uma posição radical, comparada com a sua. Deus criou este mundo para os seres humanos, e no que me diz respeito, a conversa acaba aqui.”
“Eu também tenho filhos, e sei bem o que a senhora sente”, disse Walter. “Mas só estamos falando de deixar o gato dentro de casa. E a menos que a senhora consiga conversar com Bobby, não vejo como ele possa se incomodar de ficar dentro de casa.”
“Meu gato é um animal. Aos animais da Terra não foi dado o dom da fala. Só às pessoas. E essa é uma das maneiras de saber que fomos criados à imagem de Deus.”
“Certo, mas o que estou dizendo é, como a senhora sabe que ele quer sair andando solto por aí?”
“Os gatos adoram a vida ao ar livre. Todo mundo adora a vida ao ar livre. Sempre que o tempo fica mais quente, Bobby vai para junto da porta, pedindo para sair. E não preciso conversar com ele para entender isso.”
“Mas se Bobby é só um animal, quer dizer, não é um ser humano, por que a preferência que ele manifesta por andar ao ar livre deve prevalecer sobre o direito dos passarinhos de criar suas famílias?”
“Porque Bobby faz parte da nossa família. Meus filhos amam o bichinho, e queremos o melhor para ele. Se tivéssemos um passarinho de estimação, também iríamos querer o melhor para ele. Mas não temos um passarinho, temos um gato.”
“Bem, obrigado por conversar comigo”, disse Walter. “Espero que a senhora pense mais um pouco nisso e quem sabe mude de ideia.”
Linda ficou muito ofendida com a conversa. Na verdade Walter nem era propriamente vizinho, não fazia parte da associação de condôminos, e o fato de andar num carro híbrido japonês, no qual recentemente colara um adesivo dizendo obama, apontava, no entender dela, para o ateísmo e a indiferença em face das provações das famílias de trabalhadores, como a dela, que lutavam para pagar as contas no fim de cada mês e criar os filhos como bons cidadãos, com amor a seu país, num mundo cheio de perigos. Linda não era muito popular no Canterbridge Court, mas era temida por ser a pessoa que viria bater na sua porta caso você deixasse o barco em cima do reboque a noite inteira na rua, ao contrário do que prescrevia a convenção do condomínio, ou se um dos filhos dela visse um dos seus filhos acendendo um cigarro atrás da escola, ou se ela descobrisse um defeito ínfimo na construção da casa dela e quisesse saber se sua casa tinha o mesmo problema. Depois da visita de Walter à sua casa, este se tornou, em sua incessante peroração, o sujeito maluco por animais que tinha perguntado se por acaso ela conversava com o gato da casa.
Do outro lado do lago, em alguns fins de semanas daquele verão, os moradores dos Canterbridge Estates viram a chegada de visitantes na propriedade de Walter, um belo casal jovem que andava num Volvo preto novinho. O rapaz era louro e de corpo bem formado, sua mulher ou namorada, esbelta como as mulheres sem filhos das cidades grandes. Linda Hoffbauer decretou que o casal tinha um ar “arrogante”, mas a maior parte da comunidade ficou aliviada ao ver aqueles visitantes respeitáveis, pois Walter até então lhes parecia, apesar de toda a sua cortesia, um eremita potencialmente depravado. Alguns dos condôminos mais velhos, que faziam longos passeios matinais regulares, agora se arriscavam a uma conversinha com Walter quando passavam por ele na estrada. Ficaram sabendo que o jovem casal eram o filho e a nora dele, que tinham um negócio próspero em St. Paul, que ele tinha ainda uma filha solteira morando em Nova York. Fizeram-lhe algumas perguntas sobre seu estado civil, tentando esclarecer se era divorciado ou apenas viúvo, e quando ele se mostrou especialista em se desviar dessas indagações, um dos mais tecnologicamente hábeis do grupo foi procurar na internet e descobriu que Linda Hoffbauer tinha razão, no fim das contas, em desconfiar que Walter fosse meio doido e perigoso. Parece que ele tinha fundado uma organização ambientalista radical que deixara de existir depois da morte de sua cofundadora, uma jovem de nome diferente que certamente não podia ser a mãe de seus filhos. Depois que essa interessante informação se espalhou pela vizinhança, os caminhantes matutinos tornaram a deixar Walter em paz—menos, talvez, por seu extremismo do que pelo fato de que agora sua existência de eremita exalava um forte aroma de luto, o tipo terrível de luto de que é melhor manter-se à distância; o tipo duradouro de luto que, como todas as formas de loucura, parece ameaçador, talvez até contagioso.
No final do inverno seguinte, quando a neve começava a derreter, Walter tornou a aparecer no condomínio Canterbridge Court, dessa vez trazendo um caixote contendo coletes de neoprene em cores brilhantes que podiam ser presos aos gatos. Segundo ele, um gato trajando um desses coletes podia fazer o que quisesse ao ar livre, de subir nas árvores a tentar pegar mariposas no ar, menos dar botes eficazes em passarinhos. Disse que ficara provado que prender uma sineta à coleira do gato era inútil para avisar os passarinhos. Acrescentou ainda que a estimativa mais conservadora do número de passarinhos assassinados por gatos a cada dia nos Estados Unidos era de um milhão, ou seja: trezentos e sessenta e cinco milhões ao ano (e isso, enfatizava ele, era uma estimativa otimista, e não incluía os filhotes desamparados que morriam de fome). Embora ao que tudo indica Walter não conseguisse entender como era difícil amarrar aquele colete num gato toda vez que ele saía de casa, e como o gato ficaria ridículo com um colete de neoprene azul ou vermelho brilhante, os proprietários mais velhos de gatos do condomínio aceitaram com educação os coletes e prometeram que iam experimentá-los, para que Walter os deixasse em paz e eles pudessem jogar fora aquela joça. Só Linda Hoffbauer recusou terminantemente o colete. Walter lhe parecia um desses liberais favoráveis a um governo que toma conta de tudo, essas pessoas que tentam distribuir preservativos nas escolas, tirar as armas das pessoas e obrigar os cidadãos a andar com uma carteira nacional de identidade. Teve a inspiração de lhe perguntar se os passarinhos que circulavam por sua propriedade pertenciam a ele, e, caso contrário, o que ele tinha a ver com o fato de Bobby gostar de caçá-los. Walter respondeu com alguma coisa em burocratês sobre o Tratado de Proteção às Aves Migratórias Norte-Americanas, que supostamente proibia fazer mal a qualquer ave que não fosse definida como caça e entrasse no país pela fronteira do México ou do Canadá. Linda não gostou de ser lembrada do novo presidente do país, que queria entregar a soberania nacional à onu, e disse a Walter, com o máximo de civilidade que conseguiu reunir, que estava muito ocupada criando os filhos e preferia que ele não voltasse a bater na sua porta.
Do ponto de vista diplomático, Walter tinha escolhido um péssimo momento para começar a distribuir seus coletes coloridos. O país acabara de cair numa profunda recessão econômica, o mercado de capitais estava no fundo da latrina, e parecia quase obsceno da parte dele insistir em continuar obcecado com a salvação dos passarinhos. Até os casais de aposentados do condomínio estavam em apuros—a deflação de seus investimentos tinha forçado vários deles a cancelar suas viagens anuais de inverno à Flórida ou ao Arizona—e duas das famílias mais jovens da rua, os Dent e os Dolberg, não tinham conseguido manter em dia os pagamentos de suas hipotecas (que cresceram exatamente no momento errado) e ao que tudo indica iam perder suas casas. Enquanto Teagan Dolberg esperava a resposta de companhias de consolidação de crédito que pareciam mudar de telefone e endereço a cada semana, e de conselheiros federais de baixo custo sobre endividamentos que no fim das contas não tinham nada a ver com o governo federal e muito menos eram de baixo custo, os débitos incríveis em seus cartões Visa e MasterCard subiam em incrementos mensais de três ou quatro mil dólares, e as amigas e vizinhas para as quais ela havia vendido pacotes de dez sessões de manicure, no pequeno salão que tinha instalado em seu porão, continuavam a aparecer para fazer as unhas sem lhe aportar mais nenhum rendimento. Até Linda Hoffbauer, cujo marido tinha contratos seguros de manutenção de estradas com o condado de Itasca, decidiu baixar a regulagem de seu termostato e deixar seus filhos irem de ônibus para a escola, em vez de ir levá-los e buscá-los em seu imenso Suburban. As ansiedades pairavam como uma nuvem de mosquitos miúdos sobre o condomínio de Canterbridge Court; invadiam cada casa através dos canais noticiosos a cabo, dos programas de debate do rádio e da internet. Tuitava-se muito pelo Twitter, mas o mundo chilreante e adejante da natureza, que Walter invocava como se as pessoas ainda devessem se importar com ele, já era uma ansiedade além da conta.
Só se voltou a ouvir falar em Walter em setembro, quando panfletou a vizinhança na calada da noite. As casas dos Dent e dos Dolberg já estavam desocupadas, suas janelas escurecidas como as luzes dos telefones de pessoas que ligaram para os números de emergência mas finalmente desistiam depois de muitos minutos à espera, mas os demais residentes de Canterbridge despertaram todos uma bela manhã e encontraram junto à porta de entrada de suas casas uma carta muito polidamente redigida e dirigida aos “Caros Vizinhos”, repisando os argumentos antigatos que Walter já lhes apresentara duas vezes, e quatro páginas de fotos anexadas que eram o oposto exato da polidez. Aparentemente, Walter tinha passado o verão inteiro documentando a morte de passarinhos em sua propriedade. Cada foto (e havia mais de quarenta delas) trazia na legenda uma data e o nome de uma espécie. As famílias de Canterbridge que não tinham gatos ficaram ofendidas por terem sido incluídas na panfletagem, e as famílias que possuíam gatos ficaram ofendidas com a aparente certeza de Walter de que a morte de cada passarinho na sua propriedade era culpa de seus bichanos. Linda Hoffbauer ficou ainda mais irritada porque um panfleto foi deixado num lugar onde um de seus filhos pequenos facilmente poderia tê-lo aberto, expondo-se a imagens traumatizantes de andorinhas sem cabeça e entranhas sanguinolentas. Ligou para o xerife do condado, com quem seu marido tinha relações sociais, para ver se por acaso Walter não seria culpado de assédio ilegal. O xerife respondeu que não, mas concordou em passar pela casa dele e ter uma conversinha de advertência—visita que lhe rendeu a informação inesperada de que Walter era advogado formado e versado não apenas nos direitos assegurados pela Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos como ainda na convenção do condomínio de Canterbridge Estates, a qual continha uma cláusula exigindo que os animais de estimação estivessem sob controle permanente de seus donos; o xerife aconselhou Linda a rasgar o panfleto e seguir em frente.
E então veio um inverno muito branco, e os gatos da vizinhança se retiraram para dentro das casas (onde, como até Linda tinha de admitir, pareciam muito satisfeitos), e o marido de Linda cuidou de remover pessoalmente a neve da estrada vicinal de tal maneira que Walter foi obrigado a cavar por mais de uma hora para limpar o acesso à sua entrada de carros depois de cada nevasca. Com as folhas caídas, a vizinhança podia enxergar com clareza, do outro lado do lago gelado, a casinha dos Berglund em cujas janelas nenhuma televisão jamais bruxuleava. Era difícil imaginar o que Walter poderia estar fazendo lá, sozinho, no meio das noites de inverno, além de ruminar sua hostilidade e seus juízos morais. Sua casa ficou às escuras por uma semana inteira na época do Natal, o que devia indicar uma visita à família em St. Paul, o que também era difícil de imaginar—que um doido daqueles pudesse ainda assim ser amado por alguém. Linda, especialmente, ficou aliviada quando o período de festas chegou ao fim, o doido retomou sua vida de eremita e ela pôde dar continuidade a seu ódio cristalino pela ideia de que alguém pudesse gostar dele. Numa noite de fevereiro, seu marido lhe contou que Walter tinha dado queixa no condado do bloqueio deliberado da entrada de sua casa, o que ela de certo modo gostou de ouvir. Era bom saber que ele sabia que era odiado por eles.
No mesmo espírito perverso, quando a neve tornou a derreter, os bosques tornaram a verdejar e Bobby tornou a ser solto e imediatamente desapareceu, Linda sentiu como se um desejo profundo estivesse sendo atendido, o tipo de coceira profunda que coçar só faz piorar. Concluiu sem demora que era Walter o responsável pelo desaparecimento de Bobby, e sentiu-se intensamente gratificada por ele ter respondido à altura do ódio dela, dando-lhe motivos renovados e alimento fresco: por ele ter se disposto a disputar com ela o jogo do ódio, assumindo o papel de representante local de tudo que estava errado no mundo dela. Ao mesmo tempo que organizava a busca pelo bicho de estimação perdido de seus filhos, saboreava em segredo a angústia das crianças e extraía grande prazer em ensiná-las a odiar Walter pelo malfeito. Até gostava de Bobby, mas sabia que era pecado transformar um animal em falso ídolo. O pecado que ela odiava estava em seu suposto vizinho. Assim que ficou claro que Bobby nunca mais ia voltar, ela levou as crianças para o abrigo local de animais abandonados e deixou que escolhessem três novos gatos, que, ao voltarem para casa, soltou de seus caixotes de papelão e enxotou na direção da mata de Walter.
Walter nunca tinha gostado de gatos. Achava que eram os sociopatas do mundo dos bichos de estimação, uma espécie domesticada como um mal necessário para o controle dos roedores e em seguida fetichizada da maneira como nações desafortunadas fetichizam seus militares, saudando os uniformes dos matadores como os donos de gatos acariciam o pelo adorável de seus bichanos e lhes perdoam suas garras e presas. Nunca tinha visto na cara de um gato nada além de um desinteresse cínico e do mais profundo egoísmo; bastava agitar perto dele um camundongo de brinquedo para ver seu verdadeiro espírito. Até vir morar na casa da sua mãe, porém, tinha males bem piores a combater. Só agora, quando era responsável pela população selvagem de gatos que causavam grandes estragos nas propriedades da Nature Conservancy de que ele cuidava, e quando a ferida que o condomínio Canterbridge Estates tinha aberto em seu lago foi agravada pelo insulto da liberdade com que seus bichanos caçavam na área, seu antigo preconceito antifelino cresceu até assumir a forma de um incômodo e um agravo diários de que os homens depressivos da linhagem dos Berglund evidentemente precisavam para conferir sentido e substância às suas vidas. O incômodo que lhe servira pelos dois anos anteriores—o suplício das motosserras, das escavadeiras, das explosões e remoção de pedras, da erosão em pequena escala, dos martelos, dos cortadores de cerâmica e do rock clássico em aparelhos de som portáteis em volume altíssimo—tinha acabado, e ele precisava de alguma coisa nova.
Há gatos preguiçosos e ineptos como matadores, mas Bobby não era assim. Bobby tinha a esperteza de retornar para a casa dos Hoffbauer assim que anoitecia, quando os guaxinins e coiotes se transformavam num perigo para ele, mas toda manhã, nos meses sem neve, podia ser visto caminhando pela desfolhada margem sul do lago e entrando na propriedade de Walter a fim de matar tudo que pudesse. Andorinhas, tentilhões, tordos, toutinegras, azulões, pintassilgos e cambaxirras. As preferências de Bobby eram ortodoxas, sua concentração, ilimitada. Nunca se cansava de matar, e tinha a falha de caráter adicional da deslealdade ou da ingratidão, raras vezes se dando ao trabalho de levar as presas abatidas de volta para os donos. Encurralava, brincava e trucidava, e às vezes comia alguma coisinha, mas em geral se limitava a abandonar a carcaça. A mata mais aberta próxima à casa de Walter e o hábitat circundante da beira do lago eram especialmente atraentes para as aves e para Bobby. Walter sempre tinha à mão uma pilha de pedrinhas para atirar no gato, e certa vez o alvejara com um jato direto de água de sua mangueira do jardim, mas Bobby logo aprendeu a se manter na mata no início da manhã, esperando que Walter saísse para o trabalho. Parte das terras da Nature Conservancy de que Walter tomava conta ficavam longe a ponto de obrigá-lo muitas vezes a passar várias noites fora, e quase invariavelmente, quando voltava, encontrava uma nova carnificina na encosta atrás da casa. Se fosse uma coisa que acontecia apenas ali, ele até poderia aguentar, mas sabia que aquilo estava acontecendo em toda parte e ficava enlouquecido.
Ainda assim, ele era muito sentimental, respeitador da lei para matar o bicho de estimação de outra pessoa. Pensou em recorrer a seu irmão Mitch para cuidar do assunto, mas a ficha policial já existente de Mitch depunha contra esta escolha, e Walter vislumbrou que Linda Hoffbauer provavelmente responderia arranjando um outro gato. Foi só ao final de um segundo verão de esforços baldados de diplomacia e educação, e depois que o marido de Linda Hoffbauer bloqueou a entrada de sua casa com neve vezes sem conta, que ele decidiu que, muito embora Bobby fosse apenas um gato em meio aos setenta e cinco milhões existentes nos Estados Unidos, tinha chegado a hora de Bobby pagar pessoalmente por seu comportamento sociopata. Walter obteve uma armadilha e instruções detalhadas de um dos contratados para travar a guerra quase sem esperança contra os gatos fugidos à solta nas terras da Nature Conservancy, e antes do amanhecer de um dia de maio ele armou a armadilha, usando como isca fígados de frango e pedaços de toucinho, no caminho que Bobby costumava trilhar para chegar à sua propriedade. Sabia que, com um gato esperto, o caçador só tinha uma chance com uma armadilha. E foram doces a seus ouvidos os gritos felinos que chegaram à sua casa duas horas mais tarde. Ele carregou a armadilha sacolejante e cheirando a merda para o seu Prius e a trancou na mala. O fato de Linda Hoffbauer nunca ter posto uma coleira em Bobby—o que talvez restringisse além da conta a preciosa liberdade do seu gato—tornou bem mais fácil para Walter, depois de percorrer três horas de estrada, largar Bobby num abrigo para animais de Minneapolis que ou sacrificaria o gato ou daria um jeito de empurrá-lo para alguma família urbana que o mantivesse dentro de casa.
Mas ele não estava preparado para a depressão que o assolou na viagem para Minneapolis. A sensação de perda, desperdício e tristeza: o sentimento de que ele e Bobby tinham vivido uma espécie de casamento, e que mesmo um casamento horroroso era melhor que nenhum casamento. Contra a sua vontade, imaginou a terrível gaiola a que Bobby estaria agora confinado. Sabia que Bobby não estava fazendo falta pessoal ao casal Hoffbauer—os gatos é que usavam as pessoas—mas ainda assim havia algo de deplorável em seu aprisionamento.
Já fazia quase seis anos que ele vinha morando sozinho e procurando maneiras de pôr a ideia em prática. A divisão estadual da Nature Conservancy, que ele já tinha dirigido e cuja proximidade de empresas e milionários agora o deixava nervoso, atendera a seu pedido para ser recontratado como um dos responsáveis pelas propriedades da organização e, nos meses gelados, como assistente em tarefas administrativas especialmente tediosas e demoradas. Não vinha fazendo um bem estonteante às propriedades que supervisionava, mas também não fazia mal, e os dias que passava sozinho em meio às coníferas, aos mergulhões, às junças e aos pica-paus favoreciam piedosamente o esquecimento. Os demais trabalhos que fazia—redigir propostas de financiamento, passar em revista a produção de textos sobre a população da vida silvestre, dar telefonemas em defesa da criação de uma nova taxa sobre as vendas destinada a um Fundo Estadual de Conservação da Terra, que afinal atraiu mais votos nas eleições de 2008 que o próprio Obama—eram justamente corretos. Tarde da noite, ele preparava um dos cinco jantares simples a que agora se dava ao trabalho de fazer, e depois, como não conseguia mais ler romances ou escutar música, ou fazer qualquer coisa associada ao sentimento, dava-se ao luxo de uma partida de xadrez com o computador e, às vezes, de navegar em sites do tipo mais cru de pornografia, desprovido de qualquer relação com as emoções humanas.
Em momentos assim, sentia-se como um velho triste e idiota que morava no mato, e tomava o cuidado de não desligar o telefone, pois Jessica podia ligar para saber notícias dele. Com Joey ele ainda podia ser espontâneo, porque Joey não só era homem como ainda um homem da estirpe Berglund, com o cuidado e o comedimento devidos de nunca se intrometer, e embora Connie fosse um pouco mais difícil, porque o sexo sempre estava presente na voz de Connie, o sexo e uma sedução inocente, nunca era difícil fazê-la falar sobre Joey e ela, já que ela se sentia muito feliz. A verdadeira provação eram as conversas com Jessica. Sua voz estava cada vez mais parecida com a de Patty, e Walter muitas vezes suava abundantemente ao final das conversas com a filha, devido ao esforço para mantê-las focadas na vida dela ou, quando isso era impossível, no trabalho dele. Houve um momento, depois do acidente de carro que para todos os efeitos pusera fim à sua vida, em que Jessica se dispôs a cuidar desse pai mergulhado na dor. Em parte na expectativa de que ele melhorasse e, no momento em que percebeu que não iria melhorar, nem queria melhorar, ficou furiosa. E ele precisou de muitos anos difíceis antes de conseguir convencê-la, com frieza e severidade, a deixá-lo em paz e cuidar da própria vida. Toda vez que agora um silêncio se fazia entre os dois, ele sentia que ela se perguntava se devia tentar de novo seu ataque terapêutico, e ele achava profundamente exaustivo inventar novas manobras retóricas, semana após semana, para impedi-la de cumprir esse intento.
Quando por fim voltou para casa de sua viagem a Minneapolis, depois de uma produtiva visita de três dias a um grande terreno da Nature Conservancy no condado de Beltrami, encontrou uma folha de papel presa ao vidoeiro no começo do acesso de carro para sua casa. será que você me viu, perguntava o cartaz. meu nome é bobby e minha família está sentindo a minha falta. A cara preta de Bobby não saía bem reproduzida em fotocópia—seus olhos muito claros e nervosos pareciam espectrais e perdidos—mas Walter conseguiu ver, como nunca vira antes, como alguém poderia achar uma cara como aquela merecedora de proteção e carinho. Não se arrependia de ter removido uma ameaça ao ecossistema, salvando assim as vidas de muitas aves, mas a vulnerabilidade de animalzinho presente na cara de Bobby lhe trouxe a consciência de um defeito fatídico em sua conformação, o defeito de se compadecer até das criaturas que mais detestava. Continuou avançando pela entrada, tentando saborear a paz momentânea que recaíra sobre a sua propriedade, a ausência da ansiedade em torno de Bobby, a luz do anoitecer de primavera, as andorinhas de pescoço branco chilreando, mas teve a sensação de que envelhecera muitos anos nas quatro noites que tinha passado fora de casa.
Naquela mesma noite, enquanto fritava ovos e torrava fatias de pão, recebeu uma ligação de Jessica. E talvez ela tenha ligado para ele com alguma intenção especial, ou talvez tenha detectado alguma coisa na voz do pai, alguma perda de energia, mas assim que acabaram de percorrer as escassas novidades que a semana dela produzira até então, ele ficou calado por tanto tempo que ela se sentiu encorajada a renovar seu antigo assalto.
“Estive com a mamãe outro dia”, disse ela. “E ela me disse uma coisa interessante que você talvez queira saber. Posso contar?”
“Não”, respondeu ele em tom severo.
“E posso perguntar por que não?”
Do lado de fora, no lusco-fusco azul, pela janela aberta da cozinha, chegou o grito de uma criança chamando Bobby!
“Escute”, disse Walter. “Eu sei que você e ela são muito chegadas, e acho ótimo. Se não fossem, eu ficaria muito triste. Quero que você tenha pai e mãe, todos os dois. Mas se eu estivesse interessado em notícias dela, eu podia ligar para ela diretamente. Não quero você na posição de menina de recados.”
“Eu não me incomodo.”
“Estou dizendo que eu me incomodo. Não estou interessado em receber recados.”
“Mas não acho que o recado que ela quer mandar para você seja ruim.”
“Não quero saber que tipo de recado ela quer me mandar.”
“Então posso perguntar por que você simplesmente não se divorcia, se quer se livrar dela para sempre? Porque enquanto você não se divorciar, vai estar dando alguma esperança a ela.”
A voz de uma segunda criança se juntou à da primeira, chamando as duas juntas Bobbbby! Bobbbby! Walter fechou a janela e disse a Jessica. “Eu não quero saber”.
“Está bem, papai, certo, mas podia pelo menos responder a minha pergunta? Por que vocês não podem se divorciar?”
“Não quero pensar nesse assunto agora.”
“Mas se passaram seis anos! Já não era hora de começar a pensar no assunto? Pelo menos por simples justiça?”
“Se ela quiser se divorciar, pode me escrever uma carta. Pode pedir a um advogado para me mandar uma carta.”
“Mas o que eu quero saber é por que você não quer se divorciar.”
“Não quero ter de lidar com as coisas que iriam surgir a partir disso. Tenho o direito de não fazer uma coisa que eu não quero fazer.”
“O que iria surgir?”
“Dor. Já sofri demais. Ainda estou sofrendo.”
“Eu sei que está, papai. Mas Lalitha já se foi. Faz seis anos que ela morreu.”
Walter sacudiu a cabeça violentamente, como se tivessem jogado amônia no seu rosto. “Não quero pensar nisso. Só quero sair de casa todo dia de manhã e observar passarinhos que não têm nada a ver com essa história. Passarinhos que têm uma vida à parte, e os seus próprios problemas. E tentar fazer alguma coisa por eles. São a única coisa que eu ainda acho adorável. Quer dizer, além de você e Joey. E não quero dizer mais nada a respeito, e quero que você pare de me pedir que fale mais.”
“Bem, e você já pensou em fazer terapia? Quer dizer, para começar a levar a sua vida adiante? Você nem é tão velho assim.”
“Não quero mudar”, respondeu ele. “Todo dia de manhã passo um mau pedaço de alguns minutos, depois saio para me cansar, e se fico acordado por tempo suficiente eu consigo adormecer. A pessoa só vai fazer terapia quando quer mudar alguma coisa. Eu não tenho nada a dizer a nenhum terapeuta.”
“Mas antes você também era apaixonado pela mamãe, não era?”
“Não sei. Não me lembro. Só me lembro do que aconteceu depois que ela foi embora.”
“Pois na verdade ela está muito bonita, e adorável. Bem diferente do que era antes. Transformou-se na mãe praticamente perfeita, por mais inacreditável que pareça.”
“Como eu já disse, fico feliz por você. Ainda bem que você pode ter sua mãe na sua vida.”
“Mas você não quer a minha mãe na sua vida.”
“Escute, Jessica. Eu sei que é isso que você quer. Eu sei que você quer um final feliz. Mas não posso mudar os meus sentimentos só porque é isso que você quer.”
“E os seus sentimentos são de ódio.”
“Ela fez uma escolha. E não vou dizer mais nada.”
“Desculpe, papai, mas isso é de uma injustiça grotesca. Foi você que fez a escolha. Ela não queria ir embora.”
“Imagino que seja isso que ela conta para você. Você se encontra com ela toda semana, e tenho certeza de que ela convenceu você da versão dela, que com certeza é muito compassiva em relação ao que ela fez. Mas não era você quem estava tentando viver com ela nos últimos cinco anos antes de ela ir embora. Era um pesadelo, e eu me apaixonei por outra mulher. E eu sei que isso deixa você muito infeliz. Mas só aconteceu porque era impossível conviver com a sua mãe.”
“Bem, nesse caso você devia se divorciar dela. Não é o mínimo que você pode fazer, depois de tantos anos de casamento? Se você a queria bem a ponto de ficar com ela por todos os anos em que foi bom, não deve a ela pelo menos o respeito de divorciar-se honestamente dela?”
“Os anos não foram tão bons assim, Jessica. Ela mentia o tempo todo para mim —e eu não acho que deva tanta coisa assim a ela por isso. E, como eu já disse, se ela quer se divorciar, nem é difícil tomar a iniciativa.”
“Mas ela não quer se divorciar! Ela quer voltar com você!”
“Não posso imaginar ficar com ela nem um minuto sequer. Só de ver a imagem dela é uma dor insuportável.”
“Mas não será possível, papai, que o motivo de tanta dor seja você ainda ser apaixonado por ela?”
“Vamos falar de outra coisa, Jessica. Se você dá alguma importância aos meus sentimentos, por favor, não toque mais nesse assunto. Não quero ficar com o pé atrás quando atender seus telefonemas.”
Ficou sentado por muito tempo com o rosto enterrado nas mãos, sem tocar na comida, enquanto a casa escurecia muito devagar, o mundo do início da primavera dando lugar a um mundo celeste mais abstrato: farrapos rosados de estratosfera, o frio profundo do espaço cósmico, as primeiras estrelas. Era assim que a vida dele funcionava naquele momento: ele afastava Jessica de si e começava a sentir falta dela no momento em que ela se distanciava. Pensou em voltar para Minneapolis na manhã seguinte, pegar o gato de volta e devolvê-lo às crianças que sentiam falta do bichano, mas era tão incapaz disso quanto de ligar de volta para Jessica e pedir desculpas. O que estava feito estava feito. O que estava acabado estava acabado. No condado de Mingo, na Virgínia Ocidental, na manhã encoberta mais feia de toda a sua vida, ele tinha perguntado aos pais de Lalitha se eles se incomodavam se ele fosse ver o corpo da filha deles. Os pais dela eram pessoas frias e excêntricas, engenheiros, falando com um sotaque carregado. O pai tinha os olhos secos, mas a mãe irrompia toda hora, em voz alta, sem motivo aparente, num lamento alto e estrangeiro que era quase como um canto; soava estranhamente cerimonial e impessoal, como o lamento por uma ideia. Walter foi sozinho até o necrotério, sem nenhuma ideia. Seu amor estava estendido debaixo de um lençol numa padiola alta demais, tão alta que era impossível ajoelhar-se ao lado dela. Seu cabelo era o mesmo de sempre, sedoso, negro e espesso como sempre, mas havia algo de errado com seu queixo, um ferimento insuportavelmente cruel e imperdoável, e sua testa, quando ele a beijou, estava mais fria que qualquer universo justo poderia permitir que ficasse a testa de uma pessoa tão jovem. Aquele frio penetrou nele através dos lábios e nunca mais o deixou. O que estava acabado estava acabado. Seu encanto pelo mundo estava morto, e nada fazia sentido. Comunicar-se com sua mulher, como Jessica insistia em recomendar, significaria abrir mão de seus últimos momentos com Lalitha, e ele tinha o direito de não renunciar a eles. Tinha o direito, nesse universo tão injusto, de ser injusto com sua mulher, e tinha o direito de deixar os filhos da família Hoffbauer chamarem em vão por seu Bobby, porque nada fazia sentido.
Tirando força de suas recusas—força suficiente, sem dúvida, para fazê-lo levantar da cama todo dia de manhã e impeli-lo ao longo dos dias intermináveis de trabalho no campo e longas viagens de carro percorrendo estradas congestionadas por veranistas e ex-habitantes das cidades—, Walter sobreviveu a mais um verão, o mais solitário de toda a sua vida. Disse a Joey e Connie, com algum grau de verdade (mas não tanto), que estava ocupado demais para receber a visita deles, e desistiu da batalha contra os gatos que continuavam a invadir suas matas; não conseguia se imaginar vivendo mais um drama do tipo por que tinha passado com Bobby. Em agosto, recebeu um envelope grosso da mulher, algum texto provavelmente relacionado ao “recado” a que Jessica tinha se referido, e ele o enfiou, sem abrir, na gaveta de arquivo onde guardava suas antigas declarações conjuntas de imposto de renda, os extratos de sua antiga conta conjunta no banco e seu testamento, que ele jamais tinha alterado. Menos de três semanas mais tarde, recebeu um envelope acolchoado especial para cds, ostentando como remetente o nome katz, em Jersey City, e deu-lhe o mesmo destino do outro envelope que guardara sem abrir. Nessas duas peças de correspondência, como nas manchetes de jornal que não conseguia deixar de ler quando ia fazer suas compras em Fen City—novas crises nacionais e no estrangeiro, novos malucos de extrema-direita cuspindo mentiras, novos desastres ecológicos anunciando o fim de partida global—, sentiu que o mundo exterior fechava o cerco em torno dele, pedindo sua atenção, mas enquanto continuasse sozinho no mato conseguiria se manter fiel à sua recusa. Vinha de uma longa linhagem de praticantes da recusa, e tinha a constituição adequada ao seu exercício. Parecia não ter restado mais quase nada de Lalitha; ela se desmanchava diante dele da maneira como os passarinhos mortos se desfazem na floresta—eram impossivelmente leves ainda vivos, e, assim que seus pequenos corações paravam de bater, transformavam-se em pouco mais que tufos de penugem e ossos ocos, que o vento espalhava com facilidade—, mas isso só o deixava mais determinado a aferrar-se ao pouco dela que ainda possuía.
Motivo pelo qual, na manhã de outubro em que o mundo enfim chegou a ele, na forma de um Hyundai novo de quatro portas estacionado a meio caminho do acesso à sua casa, no espaço de manobra meio coberto de mato onde Mitch e Brenda guardavam seu barco, ele não parou para olhar quem estava dentro do carro. Tinha a maior pressa de chegar logo à estrada, a caminho de uma reunião da Nature Conservancy em Duluth, e só reduziu a velocidade o bastante para ver que o banco do motorista estava inclinado para trás, e o motorista, provavelmente adormecido. Não tinha nenhum motivo para esperar que o possível ocupante do carro ainda estivesse lá quando ele voltasse para casa, já que por qual outra razão não teria batido em sua porta? Mas o carro continuava no mesmo lugar, o plástico reflexivo de sua traseira rebatendo as luzes de seus faróis, quando ele deixou a estrada vicinal às oito daquela noite.
Desceu do carro, olhou pela janela do carro estacionado e viu que estava vazio, com o banco do motorista devolvido à posição vertical. Fazia frio na mata; no ar parado havia a possibilidade de neve; o único som que se ouvia era um tênue burburinho humano vindo da direção do condomínio Canterbridge Estates. Entrou de novo em seu carro e seguiu até a casa, onde uma mulher, Patty, estava sentada no degrau da porta, no escuro. Vestia jeans azuis e uma jaqueta leve de veludo. Suas pernas estavam encolhidas junto ao peito, o queixo apoiado nos joelhos.
Ele desligou o carro e esperou por um bom tempo, uns vinte ou trinta minutos, que ela se levantasse e viesse falar com ele, se era para isso que tinha vindo. Mas ela se recusava a se mexer, e finalmente ele reuniu a coragem para sair do carro e entrar em casa. Parou por alguns instantes na porta, a não mais que trinta centímetros dela, para lhe dar a chance de dizer alguma coisa. Mas ela continuava de cabeça baixa. Sua própria recusa em dirigir-se a ela era tão infantil que ele não pôde evitar um sorriso. Mas esse sorriso era uma confissão perigosa, e ele o sufocou com brutalidade, procurando resistir, entrou na casa e fechou a porta atrás de si.
Sua força, entretanto, não era infinita. Não conseguiu deixar de ficar esperando no escuro, junto à porta, por mais um longo período, talvez uma hora, e se esforçando para escutar se ela fazia algum movimento, fazendo o possível para não perder nem mesmo a mais débil batida na porta. O que ouviu, em lugar disso, na sua imaginação, foi a voz de Jessica a lhe dizer que ele devia ser justo: que devia à sua mulher pelo menos a cortesia de mandá-la embora. Ainda assim, ao cabo de seis anos de silêncio, sentia que dizer uma palavra que fosse seria retroceder—e desfaria toda a sua recusa, negando todo o significado que ele lhe conferia.
Depois de algum tempo, como se acordasse de algum sonho semidesperto, ele acendeu uma luz, tomou um copo d’água e sentiu-se atraído para seu arquivo vertical, a título de solução negociada; pelo menos podia dar uma olhada no que o mundo tinha a lhe declarar. Abriu primeiro o pacote de Jersey City, que não continha nenhum bilhete, só um cd envolvo em plástico impermeável. Parecia ser uma obra solo de Richard Katz num selo menor, com a foto de uma paisagem boreal na capa, em que vinha sobreposto o título Canções para Walter.
Ouviu um grito agudo de dor, emitido por ele mesmo, como se fosse dado por outra pessoa. O filho da puta, o filho da puta, que coisa mais injusta. Virou o cd com os dedos trêmulos e leu a lista das faixas. A primeira canção se chamava “Dois filhos é bom, nenhum é melhor”.
“Meu Deus, que sujeito mais escroto”, disse ele, sorrindo e chorando. “Que coisa mais injusta, seu filho da puta.”
Depois de ter chorado por algum tempo por aquela injustiça, e pela possibilidade de que Richard não fosse um sujeito totalmente sem coração, pôs o cd de volta dentro da embalagem do correio e abriu o envelope de Patty. Continha um original de que ele leu apenas um curto parágrafo antes de sair correndo para a porta da frente, abri-la e sacudir as páginas diante dos olhos dela.
“Não quero nada disso!”, gritou para ela. “Não quero ler o que você escreve! Quero que você pegue estes papéis, entre no seu carro e se aqueça, porque está fazendo um frio do caralho aqui fora!”
De fato, ela estava tomada por calafrios, mas parecia imobilizada em sua posição encolhida e nem levantou os olhos para ver o que ele trazia nas mãos. Na verdade, abaixou ainda mais a cabeça, como se ele estivesse batendo nela.
“Entre no seu carro! Vá se esquentar! Não convidei você para vir aqui!”
Pode ter sido só um calafrio especialmente violento, mas ela pareceu sacudir a cabeça em recusa às suas palavras, pelo menos um pouco.
“Prometo que telefono para você”, disse ele. “Prometo que converso pelo telefone com você se você for embora agora e cuidar de se aquecer.”
“Não”, respondeu ela com uma voz muito fraca.
“Então está certo! Pode congelar!”
Bateu a porta e saiu correndo pela casa, depois saiu pela porta dos fundos e caminhou até a beira do lago. Resolveu que também ficaria com frio, se ela estava decidida a sofrer uma hipotermia. De algum modo, ainda trazia o texto dela na mão. Do outro lado do lago viam-se as luzes fortes que desperdiçavam tanta energia no condomínio Canterbridge Estates, as televisões de tela gigante exibindo o que quer que o mundo julgasse que estava acontecendo naquela noite. Todos bem quentinhos em seus redutos, as termelétricas da área movidas a carvão injetando energia na rede local, o Ártico soprando um ar gélido na direção das florestas temperadas em outubro. Por menos que ele tenha sabido como devia viver, nunca soubera menos do que agora. Mas à medida que o ar frio ia ficando menos revigorante e mais assustador, fazendo-se sentir em seus ossos, começou a preocupar-se com Patty. Com os dentes batendo, subiu de volta a ladeira, deu a volta até o patamar da frente e a encontrou caída de lado, menos encolhida do que antes, com a cabeça na grama. De maneira preocupante, ela não tremia mais.
“Patty, você está bem”, disse ele, ajoelhando-se. “Assim não pode ser, está certo? Vou levar você para dentro.”
Ela se mexeu um pouco, enrijecida. Seus músculos pareciam rígidos e nenhum calor se fazia sentir através do veludo de sua jaqueta. Ele tentou fazê-la levantar-se, mas não deu certo, de modo que a carregou para dentro, deitou-a no sofá e empilhou cobertores em cima dela.
“Quanta estupidez”, disse ele, pondo uma chaleira no fogo. “Tem gente que morre dessas coisas. Patty? A temperatura não precisa estar em vinte abaixo de zero, a pessoa pode morrer a zero grau. Foi uma estupidez você ficar sentada do lado de fora tanto tempo. Quer dizer, quantos anos você morou em Minnesota? Não aprendeu nada? Puta merda, que estupidez a sua!”
Acendeu a fornalha, trouxe para ela uma caneca de água quente e a forçou a sentar-se para dar um gole, mas ela cuspiu tudo em cima do sofá. Quando ele tentou movê-la mais, ela abanou a cabeça e produziu sons débeis de resistência. Seus dedos estavam gelados, seus braços e ombros, anestesiados de frio.
“Porra, Patty, que estupidez. Onde você estava com a cabeça? É a coisa mais imbecil que você já fez comigo na vida.”
Ela adormeceu enquanto ele se despia, e acordou só um pouco enquanto ele tirava os cobertores de cima dela, tirava sua jaqueta e batalhava para puxar para baixo as suas calças antes de se deitar ao lado dela, só de cuecas, e voltar a empilhar os cobertores em cima deles dois. “Está bem, então fique acordada, certo?”, disse ele, pressionando o mais que podia da sua superfície contra a pele marmoreamente fria da mulher. “O que você podia fazer de mais imbecil agora era perder os sentidos. Entendeu?”
“Mm-m”, disse ela.
Ele a abraçou e começou a esfregar sua pele de leve, xingando-a o tempo todo, maldizendo a situação em que ela o tinha posto. Por muito tempo ela não se esquentou, adormecendo por segundos e depois mal conseguindo se manter acordada, mas finalmente alguma coisa se ligou dentro dela, e ela começou a tremer e a abraçá-lo com força. Ele continuava a esfregar sua pele e manter-se abraçado a ela, e então, de um instante para o outro, os olhos dela estavam bem abertos e ela o encarava.
Os olhos dela não piscavam. Ainda havia neles algo quase morto, alguma coisa muito distante. Ela dava a impressão de estar enxergando através do pescoço dele e muito mais além, através do frio espaço do futuro em que dali a pouco ambos haveriam de estar mortos, o vazio para onde Lalitha, sua mãe e seu pai já tinham partido, mas ainda assim estava olhando dentro dos olhos dele, e ele sentia Patty se aquecer mais a cada minuto. E então ele parou de olhar para os olhos dela e começou a olhar dentro deles, devolvendo seu olhar antes que fosse tarde demais, antes que essa conexão entre a vida e o que vinha depois da vida se perdesse, e deixou-a ver toda a vilania que havia dentro dele, todo o ódio de duas mil noites solitárias, enquanto os dois ainda estavam em contato com o vácuo em que a soma de tudo que ambos jamais disseram ou fizeram, de todo o sofrimento que causaram, de todas as alegrias que compartilharam, acabasse pesando menos que a mais leve das plumas levada pelo vento.
“Sou eu”, disse ela. “Só eu.”
“Eu sei”, respondeu Walter, e a beijou.
* * *
Quase no final da lista de desdobramentos imagináveis em relação a Walter para os residentes de Canterbridge Estates estava a possibilidade de que fossem sentir sua falta quando ele os deixasse. Ninguém, e muito menos Linda Hoffbauer, poderia ter antevisto a tarde de domingo de início de dezembro em que a mulher de Walter, Patty, estacionou o Prius na rua do condomínio e começou a tocar suas campainhas, apresentando-se rapidamente, de maneira nada invasiva, levando-lhes de presente pratos de papelão envoltos em plástico com biscoitos de Natal que ela tinha assado. Linda ficou numa posição desconfortável ao conhecer Patty, porque não havia nada de imediatamente detestável nela e era impossível recusar um presente de fim de ano como aquele. A curiosidade, sem falar do resto, a obrigou a convidar Patty a entrar, e antes que ela pudesse ter feito alguma coisa Patty já estava ajoelhada no chão de sua sala, convocando seus gatos para virem ser acariciados e perguntando como eles se chamavam. Parecia uma pessoa tão calorosa quanto era o marido frio. Quando Linda lhe perguntou por que nunca tinham se encontrado antes, Patty deu um riso cristalino e disse: “Ah, sabe, eu e Walter estávamos de férias um do outro”. Era uma explicação estranha mas ao mesmo tempo muito habilidosa, em que era difícil vislumbrar qualquer falha moral. Patty ficou um tempinho lá; o suficiente para admirar a casa e sua vista do lago coberto de neve, e, ao sair, convidou Linda e a família para a festa que ela e Walter iam dar no dia de ano-novo.
Linda não estava muito inclinada a entrar na casa do assassino de Bobby, mas, quando soube que todas as outras famílias do condomínio (exceto as duas que já tinham partido para a Flórida) iriam à festa, sucumbiu a uma combinação de curiosidade e tolerância cristã. Na verdade, Linda vinha vivendo certa crise de popularidade na área. Embora tivesse seu contingente fiel de amigas e aliadas na sua igreja, também acreditava profundamente na boa vizinhança, e ao adquirir três gatos para o lugar de Bobby, que certos vizinhos hesitantes ainda achavam que pudesse ter morrido de causas naturais, talvez tivesse pesado demais a mão; a sensação geral era de que tinha sido um pouco vingativa. E assim, embora tenha deixado o marido e os filhos em casa, ela dirigiu seu Suburban até a casa dos Berglund no ano-novo e ficou devidamente atordoada com a hospitalidade especial que Patty demonstrou com ela. Patty apresentou-a à filha e ao filho, e depois, sem sair do lado dela, levou-a para fora e até a beira do lago para comtemplar o panorama da própria casa ao longe. Ocorreu a Linda que estava sendo manipulada por uma especialista, e que tinha muito o que aprender com Patty em matéria de conquistar corações e mentes alheios; em menos de um mês, Patty já tinha conseguido seduzir até os vizinhos que nem abriam mais totalmente a porta quando Linda vinha queixar-se com eles: que a deixavam plantada de pé no frio. Ela deu várias estocadas, na tentativa de fazer Patty trair-se e revelar seu inaceitável liberalismo, perguntando se ela também amava os pássaros (“Não, mas amo Walter, então entendo mais ou menos o que ele sente”, respondeu Patty), e se estava resolvendo qual igreja local devia frequentar (“Acho que as opções são tantas”, rebateu Patty), antes de concluir que sua nova vizinha era uma adversária perigosa demais para abordar de frente. Como que para arrematar a vitória esmagadora, Patty tinha preparado uma mesa imensa forrada de comida de aparência muito saborosa, com a qual Linda, com uma sensação quase prazerosa de derrota, encheu um prato grande.
“Linda”, disse Walter, dirigindo-se à vizinha enquanto esta se servia pela segunda vez. “Muito obrigado por ter vindo.”
“Foi muita gentileza de sua mulher me convidar”, respondeu Linda.
Ao que tudo indica, Walter voltara a se barbear regularmente com a volta da mulher—e agora tinha um ar muito rosado. “Escute”, disse ele, “sinto muito pelo sumiço do seu gato.”
“É mesmo?”, disse ela. “Achei que você odiava Bobby.”
“É verdade, odiava mesmo. Ele era uma máquina de matar passarinhos. Mas eu sei que você amava aquele gato, e a perda de um animal de estimação é uma coisa muito difícil.”
“Bem, agora temos três gatos novos, então...”
Ele assentiu calmamente. “Só procure manter os três dentro de casa, se puder. Vai ser mais seguro para eles.”
“Desculpe—você está me ameaçando?”
“Não, ameaça nenhuma”, disse ele. “Mas é verdade. Este mundo é muito perigoso para animais pequenos. Posso lhe trazer mais uma bebida?”
Ficou claro para todos nesse dia, e nos meses que se seguiram, que o efeito mais caloroso da presença de Patty era sobre o próprio Walter. Agora, em vez de passar correndo irritado pelos vizinhos em seu Prius, ele parava, baixava as janelas e cumprimentava cada um. Nos fins de semana, trazia Patty até a extensão de gelo que os meninos conservavam liso para os jogos de hóquei e lhe dava aulas avançadas de patinação, que em muito pouco tempo ela dominou muito bem. Durante os curtos períodos menos frios, o casal era visto dando longas caminhadas a dois, às vezes quase até Fen City, e quando o degelo chegou, em abril, e Walter tornou a sair batendo de porta em porta no condomínio, não foi para ralhar com as pessoas por causa de seus gatos, mas para convidá-los a participar, com ele e um amigo cientista, de uma série de caminhadas pela floresta em maio e junho, a fim de conhecerem melhor as riquezas locais e ver, de perto, parte da vida maravilhosa que enchia aquelas matas. A essa altura, Linda Hoffbauer abandonou os últimos vestígios de resistência a Patty, admitindo espontaneamente que sua vizinha sabia cuidar do marido, e a vizinhança gostou desse novo tom de Linda, abrindo um pouco mais suas portas para ela.
E assim, foi totalmente inesperado e triste descobrir, no meio de um verão em que os Berglund deram vários churrascos e eram muito solicitados socialmente em retribuição, que iam mudar-se para Nova York no final de agosto. Patty explicou que tinha um ótimo emprego na área de educação, para o qual queria voltar, e que sua mãe, seus irmãos, sua filha e o melhor amigo de Walter moravam todos ou em Nova York ou nas proximidades, e que, embora a casa do lago tivesse significado muito para ela e Walter ao longo de tantos anos, nada durava para sempre. Quando lhe perguntaram se ainda pretendiam voltar para passar os feriados ou períodos de férias, seu rosto se anuviou e ela disse que não era o que Walter preferia. Tinha resolvido entregar a propriedade aos cuidados de uma organização local, transformando-a em santuário de aves.
Poucos dias depois da partida dos Berglund num grande caminhão de aluguel, cuja buzina Walter fazia soar enquanto Patty acenava em despedida, uma empresa especializada veio e ergueu uma cerca alta e à prova de gatos em torno de toda a propriedade (Linda Hoffbauer, agora que Patty tinha ido embora, ousou declarar que a cerca era meio feia), e em seguida outros operários chegaram e esvaziaram a casinha dos Berglund, deixando de pé apenas sua casca externa, para servir de abrigo a corujas ou andorinhas. Até hoje, o livre acesso à propriedade só é permitido às aves e aos habitantes de Canterbridge Estates, através de um portão fechado com um cadeado cujo segredo só eles sabem, debaixo de uma pequena placa de cerâmica com a imagem da bela jovem de pele escura cujo nome foi dado à reserva.
Você terminou Liberdade
Jonathan Franzen
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