Liberdade
Capítulo 2004
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Remoção do topo da montanha
Quando se tornou inevitável que Richard Katz voltasse ao estúdio com seus jovens e ansiosos companheiros de banda e começasse a gravar um segundo disco do Walnut Surprise—depois que ele esgotou todas as formas de procrastinação e fuga, primeiro tocando em qualquer cidade americana que o recebesse e depois fazendo turnês por países estrangeiros cada vez mais remotos, até seus companheiros de banda se revoltarem contra o acréscimo de Chipre à viagem pela Turquia, e depois de fraturar o indicador esquerdo aparando um exemplar do estudo seminal sobre o genocídio escrito por Samantha Power, atirado nele pelo baterista da banda, Tim, num quarto de hotel em Ankara, e depois partindo sozinho para uma cabana nos montes Adirondacks para fazer a trilha sonora de um filme de arte dinamarquês, absolutamente entediado com o projeto, procurando um traficante de pó em Pittsburgh e cheirando cinco mil euros do financiamento para as artes do governo dinamarquês, desaparecendo em seguida por um período de dispendiosa dissipação em Nova York e na Flórida que só foi acabar quando ele foi preso em Miami por dirigir drogado e portar drogas, internando-se depois na Clínica Gubser de Tallahassee para seis semanas de desintoxicação e resistência tenaz ao evangelho do recomeço, recuperando-se em seguida do herpes-zoster que não tomara o devido cuidado de evitar durante uma epidemia de catapora em Gubser, e depois cumprindo duzentas e cinquenta horas de trabalho comunitário agradavelmente braçal num parque do condado de Dade, e depois simplesmente se recusando a atender o telefone ou checar os e-mails enquanto lia um livro atrás do outro em seu apartamento a pretexto de mobilizar suas defesas contra as mulheres e as drogas que seus companheiros de banda pareciam capazes de consumir sem nenhum exagero mais sério—, enviou um cartão-postal a Tim e pediu-lhe que dissesse aos demais que estava sem um tostão e que ia recomeçar a construir deques de cobertura em tempo integral, e os demais integrantes do Walnut Surprise se sentiram verdadeiros idiotas por terem ficado à sua espera.
Não que isso fizesse diferença, mas Katz estava de fato sem dinheiro. A receita e as despesas tinham se equilibrado mais ou menos durante o ano e meio que a banda passara em turnê; sempre que havia o risco de um lucro excedente, ele procurava hotéis mais caros e pagava a bebida para todos os presentes em bares cheios de fãs e desconhecidos. Embora Lago Sem Nome e o renovado interesse dos consumidores pelos antigos discos dos Traumatics lhe tenham trazido mais dinheiro que todos os vinte anos anteriores somados, ele conseguira dissipar até o último centavo em sua busca de relocalizar a identidade que tinha perdido. Os acontecimentos mais traumáticos que já ocorreram ao solista de tantos anos dos Traumatics foram (1) ser indicado para um Grammy, (2) ouvir suas canções tocando na National Public Radio e (3) deduzir, a partir dos números das vendas de dezembro, que Lago Sem Nome tinha se tornado o presente de Natal perfeito para ser deixado ao pé de elegantes árvores de Natal decoradas com gosto nas casas de várias centenas de milhares de famílias ouvintes da npr. E a indicação ao Grammy foi um constrangimento especialmente desorientador.
Katz vinha lendo muito sobre sociobiologia popular, e sua visão da personalidade do tipo depressivo e de sua persistência aparentemente perversa na herança genética humana era de que se tratava de uma adaptação bem-sucedida a nossas dores e provações constantes. O pessimismo, a sensação de não valer nada e de não ter direito a nada, a incapacidade de extrair satisfação do prazer, uma consciência torturante da merda generalizada do mundo: para os antepassados judeus paternos de Katz, empurrados de shtetl para shtetl por antissemitas implacáveis, assim como para os antigos anglos e saxões do lado de sua mãe, que se esforçavam para cultivar cevada e centeio nos solos pobres e nos verões curtos do norte da Europa, sentir-se mal o tempo todo e sempre esperar pelo pior tinha sido uma forma natural de equilibrar-se diante da merda em que viviam. Poucas coisas agradam mais um depressivo, afinal de contas, que uma péssima notícia. Obviamente, não é a melhor maneira de se viver, mas tem lá suas vantagens do ponto de vista evolutivo. Em situações difíceis, os depressivos passavam seus genes adiante, enquanto os que procuravam melhorar se convertiam ao cristianismo ou emigravam para locais mais ensolarados. Situações difíceis eram o nicho de Katz, assim como águas lodosas são o hábitat da carpa. Seus melhores anos com os Traumatics coincidiram com Reagan i, Reagan ii e Bush i; Bill Clinton (pelo menos pré-Lewinsky) foi mais duro para ele. E agora vinha Bush ii, o pior regime de todos, e ele bem que podia ter recomeçado a compor, não fosse pelo acidente do sucesso. Ele rabeava na lama, como uma carpa pesada, suas guelras psíquicas se esforçando em vão para extrair o sustento sombrio de uma atmosfera de aprovação e plenitude. Ao mesmo tempo se sentia mais livre do que nunca desde a puberdade e mais próximo do que nunca do suicídio. Nos últimos dias de 2003, voltou ao trabalho de construção de deques.
Teve sorte com os primeiros dois clientes, dois rapazes do ramo de investimentos privados que curtiam os Chili Peppers e não sabiam a diferença entre Richard Katz e Ludwig van Beethoven. Ele serrava e enfiava pregos à máquina em suas coberturas numa relativa paz. Só em seu terceiro serviço, começado em fevereiro, ele foi ter a infelicidade de trabalhar para pessoas que sabiam quem ele era. O edifício ficava na White Street, entre Church e Broadway, e o cliente, um rico e independente editor de livros de arte, possuía toda a obra dos Traumatics em vinil e ficou aparentemente magoado quando Richard não se lembrou de tê-lo visto nas plateias esparsas do Maxwell’s, em Hoboken, por vários anos.
“É tanta gente”, disse Katz. “Sou péssimo fisionomista.”
“Na noite em que Molly caiu do palco, fomos todos beber juntos depois do show. Guardei o guardanapo ensanguentado, deve estar em algum lugar. Você não se lembra?”
“Nada. Desculpe.”
“Bom, de qualquer maneira, é ótimo ver você conseguindo parte da fama que sempre mereceu.”
“Prefiro não conversar sobre isso”, disse Katz. “Vamos falar da sua cobertura.”
“Simplificando, quero que você seja criativo e depois me mande a conta”, disse o cliente. “O que eu quero é ter um deque construído por Richard Katz. Imagino que você não vá ficar muito tempo fazendo isso. Não acreditei quando me disseram que você estava oferecendo esse serviço.”
“Alguma ideia aproximada da área e preferência por algum material podiam ajudar ainda assim.”
“Nada, no duro. Você pode ser criativo. Não faz diferença.”
“Mas ainda assim espere um pouco, e faça de conta que sim”, disse Katz. “Porque se realmente não fizer diferença, não sei se eu—”
“É só revestir o terraço. O.k.? Com um deque bem grande.” O cliente dava a impressão de estar aborrecido com ele. “Lucy quer dar festas na cobertura. Foi um dos motivos de termos comprado este apartamento.”
O cliente tinha um filho, Zachary, no último ano da escola secundária Stuyvesant e sujeito descolado em processo de autoinvenção, além de aparentemente guitarrista, que veio até o terraço depois da aula no primeiro dia de trabalho de Katz e, de uma distância segura, como se Katz fosse um leão preso a uma corrente, o bombardeou de perguntas calculadas para demonstrar seu profundo conhecimento de guitarras vintage, o que Katz considerava um fetiche particularmente cansativo em torno de um objeto. Declarou que pensava assim, e o garoto foi embora bastante chateado com ele.
No segundo dia de trabalho de Katz, enquanto transportava a madeira e os caibros cortados para o deque até a cobertura, a mãe de Zachary, Lucy, o obrigou a parar no patamar do terceiro piso e apresentou, sem que lhe pedissem, sua opinião sobre os Traumatics: era uma banda de garotos com o tipo de postura adolescente, dedicados a um esmiuçamento da angústia, que nunca despertara seu interesse. Depois ficou esperando, com a boca entreaberta e uma expressão de desafio nos olhos, para ver como a sua presença—o drama de ser quem era— estava sendo percebida. Como acontece com mulheres assim, ela parecia convencida da originalidade da sua provocação. Katz já tinha deparado— praticamente nas mesmas palavras—com a mesma provocação cem vezes antes, o que agora o deixava na posição ridícula de lamentar ser incapaz de fingir que se sentia provocado: de ter pena do ego miúdo mas intrépido de Lucy, à deriva num mar de insegurança feminina envelhecida. Duvidava que pudesse chegar a qualquer lugar com ela, mesmo que sentisse vontade de tentar, mas sabia que o orgulho dela ficaria ferido se ele não desse pelo menos um sinal de esforço para ser antipático.
“Eu sei”, disse ele, apoiando os caibros numa das paredes. “E é por isso que foi tanta novidade para mim produzir um disco com sentimentos genuinamente adultos, de que mulheres maduras também pudessem gostar.”
“O que faz você achar que eu gostei de Lago Sem Nome?”, perguntou Lucy.
“E o que faz você achar que eu estou ligando para isso?”, respondeu Katz de imediato. Ele vinha subindo e descendo as escadas a manhã inteira, mas o que o deixava realmente exausto era precisar fazer o papel de quem era.
“Eu até gostei”, disse ela. “Mas talvez tenha sido elogiado um pouco além da conta.”
“Não tenho como discordar de você”, disse Katz.
Ela foi embora chateada com ele.
Durante os anos 80 e 90, para evitar qualquer prejuízo à imagem que mais favorecia seu trabalho de construtor—a do músico dedicado a uma carreira impopular, e merecedor de apoio financeiro—, Katz era quase obrigado a se comportar antiprofissionalmente. Sua clientela básica era formada por artistas e gente de cinema que vivia em Tribeca e que lhe fornecia refeições e às vezes drogas e teria questionado seu envolvimento com a arte caso algum dia ele aparecesse para trabalhar antes do meio da tarde, deixasse de dar em cima de mulheres indisponíveis ou terminasse a obra na data prevista e dentro do orçamento. Agora que Tribeca tinha sido integralmente incorporada pela indústria financeira, e com Lucy passando a manhã inteira em sua cama sueca, sentada com as pernas cruzadas e usando uma camiseta sem mangas e calcinha transparente enquanto lia o Times ou conversava ao telefone, acenando para ele pela claraboia toda vez que ele passava, seus pelos quase descobertos e suas coxas impressionantes sempre à vista, ele se transformou num demônio do profissionalismo e da virtude protestante, chegando pontualmente às nove e trabalhando várias horas depois do cair da tarde, tentando reduzir o prazo do trabalho em um ou dois dias e desaparecer de uma vez daquele lugar.
Ele tinha voltado da Flórida se sentindo igualmente avesso ao sexo e à música. Esse tipo de aversão era novo para ele, e ele era racional o bastante para reconhecer que tinha tudo a ver com seu estado mental e pouco ou nada a ver com a realidade. Assim como a semelhança fundamental entre todos os corpos de mulher não exclui de modo algum uma variedade infinita, não havia nenhum motivo racional para perder toda esperança devido à semelhança fundamental entre os blocos que constituíam a música popular, os power chords maiores e menores, o 2/4 e o 4/4, o A-B-A-B-C. A cada hora do dia, na grande Nova York, algum jovem cheio de energia estava trabalhando numa canção que podia soar, pelo menos nas primeiras audições—ou até, talvez, em vinte ou trinta audições—, nova e inédita como a primeira manhã da Criação. Desde que recebera seus papéis de liberação do Departamento de Correções da Flórida e se despedira de sua supervisora de peitos incrivelmente grandes do Departamento de Parques, Marta Molina, Katz não conseguira ligar o aparelho de som, pegar seu instrumento ou imaginar nenhuma outra pessoa em sua cama, nunca mais. Raramente se passava um dia sem que ele ouvisse algum som novo e interessante vazando do porão onde alguém ensaiava ou mesmo (podia acontecer) das portas de uma loja Banana Republic ou Gap, e sem ver, nas ruas da parte sul de Manhattan, alguma gata jovem destinada a mudar a vida de alguém; mas deixara de acreditar que essa pessoa pudesse ser ele.
E então chegou uma tarde glacial de quinta-feira, um céu de um cinzento uniforme, uma neve ligeira que deixava o espaço negativo entre os arranha-céus da parte sul de Manhattan menos negativo, tornando indistintos os contornos do Woolworth Building e suas torres de contos de fadas, reclinando-se de leve aos tensores do clima na direção do Hudson e depois partindo para a vastidão do Atlântico, e distanciando Katz do bolo de pedestres e tráfego quatro andares abaixo. A neve meio derretida das ruas arredondava agradavelmente os agudos do tráfico sibilante e abafava a maior parte de seu zumbido. Sentiu-se duplamente abrigado, pela neve e por seu trabalho manual, enquanto serrava e encaixava os caibros do deque nos espaços trabalhosos em meio a três chaminés. O meio-dia se transformou em crepúsculo sem que ele pensasse nem uma vez em cigarros, e como o intervalo entre cigarros era sua maneira atual de dividir o dia em partes tragáveis, tinha a sensação de que não mais do que quinze minutos tinham se passado entre ele comer seu sanduíche da hora do almoço e a súbita e desagradável aparição de Zachary.
O garoto estava usando um casaco com capuz e o tipo de calça bem apertada e de cintura baixa que Katz tinha visto pela primeira vez em Londres. “O que você acha do Tutsi Picnic?”, perguntou ele. “Você curte?”
“Não sei quem são”, respondeu Katz.
“Fala sério! Não posso acreditar numa coisa dessas.”
“Pois é a verdade”, disse Katz.
“E os Flagrants? Não são sinistros? Aquela música deles que dura trinta e sete minutos?”
“Não tive o prazer.”
“Ei”, disse Zachary, sem desanimar, “e o que você acha das bandas psicodélicas de Houston que gravavam no Pink Pillow no final dos anos 60? Parte do som que eles faziam me lembra as primeiras músicas suas.”
“Preciso do material em que você está pisando”, disse Katz.
“Achei que alguns desses caras podiam ter tido alguma influência. Especialmente o Peshawar Rickshaw.”
“Se você pudesse levantar o pé esquerdo só um minutinho.”
“Ei, posso perguntar mais uma coisa?”
“E a serra agora vai fazer barulho.”
“Só mais uma.”
“Está bem.”
“Isto aqui faz parte do seu processo de criação? Voltar a trabalhar no seu antigo ofício?”
“Nunca tinha pensado nisso.”
“É porque meus colegas estão perguntando. Eu disse a eles que achava que fazia parte do seu processo. Talvez você estivesse, tipo, tornando a entender como pensa um trabalhador e acumular material para o próximo disco.”
“Posso pedir um favor?”, disse Katz. “Diga a seus colegas para pedir aos pais que me liguem se quiserem um deque. Eu trabalho em qualquer lugar ao sul da rua 14 e a oeste da Broadway.”
“É por isso que você está fazendo esse trabalho?”
“A serra faz muito barulho.”
“Está bem, mas só mais uma pergunta? Juro que dessa vez é a última. Posso entrevistar você?”
Katz acelerou a serra.
“Por favor”, disse Zachary. “Uma das meninas da minha turma é louca por Lago Sem Nome. Podia ajudar muito a fazer ela falar comigo, se eu pudesse gravar uma entrevista com você e postar na internet.”
Katz pousou a serra e olhou com ar grave para Zachary. “Você toca guitarra e está me dizendo que não consegue fazer as garotas se interessarem por você?”
“Bem, essa garota em especial, não. O gosto dela é mais tradicional. É um osso duro de roer.”
“E é dela que você precisa, sem ela você não vive.”
“Mais ou menos isso.”
“E ela está no último ano”, disse Katz fazendo um cálculo mental nascido por um antigo reflexo, antes de se lembrar que não era o caso. “Não pulou nenhuma série, nada disso.”
“Não que eu saiba.”
“O nome dela?”
“Caitlyn.”
“Traga a moça até aqui amanhã de tarde, depois da aula.”
“Mas ela não vai acreditar que você está aqui. É por isso que eu quero fazer a entrevista, para provar que você está aqui. Aí ela vai aceitar vir conhecer você.”
Katz estava a dois dias de completar oito semanas de celibato. Nas sete semanas anteriores, abjurar o sexo parecia o complemento natural a não consumir drogas nem álcool—um caso em que uma forma de virtude alimentava a outra. Menos de cinco horas antes, olhando pela claraboia para a mãe exibicionista de Zachary, ele se sentia desinteressado ao ponto de uma ligeira náusea. Mas agora, de repente, com uma clareza profética, viu que ficaria a um dia de atingir a marca de oito semanas: e se dedicaria à conquista meticulosa de Caitlyn, obliterando os incontáveis momentos de consciência entre aquele momento e a noite do dia seguinte com o exercício de imaginar os milhões de rostos e corpos sutilmente diversos que ela poderia possuir, e depois demonstrar sua perícia e degustar seus frutos, tudo ao serviço pretensamente nobre de esmagar Zachary e desiludir uma fã de dezoito anos dotada de um gosto “mais tradicional”. Viu que simplesmente se limitara a transformar o desinteresse pelo vício numa virtude.
“Vamos combinar o seguinte”, disse ele. “Você arma o equipamento, pensa nas perguntas e eu desço daqui a um tempo. Mas quero ver o resultado amanhã. Preciso saber que não é só cascata da sua parte.”
“Beleza”, disse Zachary.
“Mas você ouviu o que eu disse, não ouviu? Não quero mais saber de entrevistas. Se eu abri uma exceção, foi para você me apresentar resultados.”
“Garanto que ela vem. Sem dúvida vai querer te conhecer.”
“Bom, então vá refletir sobre o enorme favor que eu estou fazendo a você. Eu desço lá pelas sete.”
Anoitecera. A neve caía agora em flocos muito miúdos, e o pesadelo rotineiro do tráfego noturno do Holland Tunnel mal havia começado. Todas as linhas de metrô da cidade, menos duas, além da indispensável linha de trem para Nova Jersey, convergiam para trezentos metros de onde Katz se encontrava. Aquela área ainda era o lugar onde todas as pistas do mundo se transformavam numa só. Ali ficava a cicatriz feericamente iluminada do World Trade Center, ali ficava o lastro de ouro do Federal Reserve, ali ficava o antigo Complexo Penitenciário de Manhattan, conhecido como “As Tumbas”, a Bolsa, a sede da Prefeitura, ali ficavam o Morgan Stanley, a American Express e os monolitos sem janelas da Verizon, do outro lado os panoramas impressionantes do porto até a distante Liberdade com sua pele de azinhavre. As funcionárias cheias de corpo e os funcionários muito magros que compunham a burocracia responsável pelo funcionamento da cidade lotavam a Chambers Street com pequenos guarda-chuvas de cores vivas, tomando o rumo de casa no Queens e no Brooklyn. Por um instante, antes de acender suas luzes de trabalho, Katz sentiu-se quase feliz, quase novamente amigo de si mesmo; mas no momento em que guardava as ferramentas, duas horas mais tarde, já sabia de tudo que odiava em Caitlyn; que era estranho e cruel um universo em que ele sentia vontade de comer uma gata por sentir ódio dela, que aquele episódio todo ia acabar muito mal, e como transformaria num desperdício todo o tempo que tinha acumulado careta: e o desperdício fez que odiasse Caitlyn ainda mais.
No entanto, era importante que Zachary fosse esmagado. Tinham dado àquele garoto um quarto para tocar à vontade, um espaço cúbico forrado de espuma ondulada e ocupado por mais guitarras do que Katz tinha possuído em trinta anos de carreira. A essa altura, em matéria de pura técnica, a julgar pelo que Katz ouvira em suas andanças, o garoto já era um solista mais afiado do que Katz tinha sido ou jamais viria a ser. Mas o mesmo podia ser dito de cem mil outros secundaristas americanos. E daí? Em vez de contrariar as expectativas de roqueiro vicário de seu pai estudando entomologia ou se interessando pela compra e venda de derivativos, Zachary se comprazia em macaquear Jimi Hendrix. Em algum ponto dessa história, a imaginação tinha perdido feio.
O garoto estava esperando em sua sala de música, com um laptop da Apple e uma lista impressa de perguntas quando Katz entrou, com o nariz escorrendo e as mãos congeladas doendo no calor interno da casa. Zachary indicou a cadeira dobrável em que ele devia se instalar. “Eu queria saber”, disse ele, “se você podia começar tocando alguma coisa e quem sabe mais uma quando acabasse a entrevista.”
“Não, não vou tocar”, disse Katz.
“Uma música só. Ia ser muito legal se você tocasse.”
“Pode fazer as perguntas, está bom? A situação já é bem desagradável por si só.”
P: E então, Richard Katz, já se passaram três anos desde Lago Sem Nome, e
exatamente dois anos desde que o Walnut Surprise concorreu ao Grammy.
Pode falar um pouco sobre como a sua vida mudou depois disso?
R: Não tenho como responder essa pergunta. Você precisa me fazer
perguntas melhores.
P: Bem, talvez você possa falar um pouco sobre a sua decisão de voltar ao
trabalho braçal. Está por um bloqueio criativo?
R: A abordagem aqui precisa ser diferente.
P: Certo. O que você acha da revolução do mp3?
R: Ah, revolução, caramba. Que bom ouvir de novo a palavra “revolução”. É
muito bom que uma canção possa custar agora o mesmo que um pacote
de chiclete, e durar exatamente o mesmo tempo antes de perder o sabor e
obrigar você a gastar outro dólar. Essa era que finalmente acabou quando
mesmo, ontem—sabe, a era em que fazíamos de conta que o rock era o
flagelo do conformismo e do consumismo, e não sua dama de companhia
—, foi uma era que realmente me irritava. Acho bom para a honestidade
do rock and roll e para o país em geral conseguirmos ver Bob Dylan e Iggy
Pop como são na verdade: fabricantes de chicletes sem açúcar.
P: Está dizendo que o rock perdeu o lado subversivo?
R: Estou dizendo que nunca teve um lado subversivo. Sempre foi um
chiclete sem açúcar, nós é que preferíamos fingir que não.
P: E quando Dylan começou a tocar com instrumentos elétricos?
R: Se você quer mesmo falar de história antiga, vamos voltar até a
Revolução Francesa. Você se lembra quando aquele roqueiro, esqueci o
nome dele, que escreveu a Marselhesa, Jean-Jacques de Tal—lembra
quando a música dele começou a fazer um puta sucesso em 1792, e de
repente os camponeses se revoltaram e derrubaram a aristocracia? Essa
música, sim, mudou o mundo. A única coisa que faltava aos camponeses
era atitude. O resto todo eles já tinham—viviam numa servidão humilhante,
numa pobreza extrema, com dívidas que não tinham como pagar, em
condições de trabalho medonhas. Mas sem aquela música, cara, não tinha
dado em nada. Foi o estilo sans-culotte que realmente mudou o mundo.
P: E qual vai ser o próximo passo de Richard Katz?
R: Militar na política republicana.
P: Rá rá.
R: Falando sério. Ser indicado para o Grammy foi uma honra tão
inesperada que eu me sinto obrigado a me empenhar ao máximo neste ano
eleitoral. Tive a oportunidade de figurar na linha de frente da indústria da
música popular, fabricar meus chicletes e tentar convencer adolescentes de
catorze anos que a aparência e a funcionalidade dos produtos da Apple
Computers são uma indicação de que a Apple Computers está empenhada
em transformar o mundo num lugar melhor, porque os iPods são tão mais
bonitos que os outros aparelhos de mp3, motivo pelo qual são muito mais
caros e incompatíveis com programas de outras empresas, porque—bem,
na verdade não está muito claro por quê, num mundo melhor, os produtos
mais maneiros precisam render os lucros mais obscenos para um número
minúsculo de residentes desse mundo melhor. E aqui pode ser uma
situação em que a pessoa precisa dar um passo atrás e encarar as coisas
numa perspectiva de longo prazo, vendo que possuir seu próprio iPod é, em
si, a coisa que faz do mundo um lugar melhor. E é isso que eu acho tão
revigorante no Partido Republicano. Para eles, é o indivíduo quem deve
escolher como deve ser um mundo melhor. É o partido da liberdade, não
é? É por isso que não consigo entender por que esses moralistas cristãos
intolerantes têm tanta influência no partido. São pessoas muito contrárias a
qualquer escolha. Algumas delas chegam a ser contra o culto ao dinheiro e
aos bens materiais. Acho que o iPod é a verdadeira face da política
republicana, e sou a favor de que a indústria da música realmente saia na
frente dessa vez, e se torne mais ativa politicamente, proclamando alto e
bom som: Nós, da indústria que fabrica chicletes, não damos a mínima
para a justiça social, para a precisão ou a verificabilidade objetiva das
informações, para o trabalho significativo, para um conjunto coerente de
ideais nacionais, nem para a sensatez. Só somos a favor de que cada um
possa escolher o que quer escutar, e ignorar todo o resto. Somos a favor de
ridicularizar as pessoas que têm o mau costume de não querer ser
modernas como nós. Somos a favor de nos proporcionar uma recompensa
a cada cinco minutos para nos sentirmos um pouco melhor. Somos a favor
do respeito e da exploração permanentes de nossos direitos de propriedade
intelectual. Somos a favor de convencer crianças de dez anos a gastar vinte
e cinco dólares numa linda proteção de silicone para o seu iPod que uma
subsidiária licenciada pela Apple Computers gasta trinta e nove centavos
para fabricar.
P: Falando sério. A atmosfera da última entrega dos Grammys foi
claramente contra a guerra. Muitos dos indicados se manifestaram sem
rodeios. Você acha que os músicos de sucesso têm a responsabilidade de
servir de exemplo?
R: Eu eu eu, compre compre compre, festa festa festa. Você pode ficar
sentado no seu mundinho, balançando de olhos fechados. O que estou
tentando dizer é que já somos o exemplo perfeito de republicanos.
P: Nesse caso, por que havia um censor na entrega dos prêmios do ano
passado, vigiando para que ninguém falasse contra a guerra? Está querendo
me dizer que Sheryl Crow é republicana?
R: Espero que sim. Ela parece uma pessoa tão legal que eu detestaria ficar
sabendo que é democrata.
P: Ela se manifestou muito claramente contra a guerra.
R: Você acha que George Bush detesta de verdade quem é gay? Você acha
que pessoalmente ele dá alguma importância a essa questão do aborto?
Você acha que Dick Cheney acredita mesmo que Saddam Hussein
planejou o Onze de Setembro? Sheryl Crow é fabricante de goma de
mascar, e digo isso na condição de fabricante de goma de mascar, eu
também, há muitos anos. A pessoa que quer saber o que Sheryl Crow pensa
sobre a guerra no Iraque é a mesma que compra um aparelho de mp3 com
um preço absurdamente inflado porque Bono Vox aparece no anúncio.
P: Mas os líderes também têm seu lugar na sociedade, não é? O que as
empresas americanas estavam tentando reprimir na festa do Grammy? As
vozes dos possíveis líderes de um movimento contra a guerra?
R: Você quer que o presidente da fábrica de chicletes seja líder da luta
contra a cárie? Que use o mesmo método para vender chicletes e revelar
ao mundo que chiclete faz mal? Eu sei que acabei de dar uma alfinetada
em Bono, mas ele tem mais integridade que todo o resto do mundo da
música. Se você ganha uma fortuna vendendo chicletes, também pode
ganhar uma fortuna vendendo iPods de preço absurdamente inflado, ficar
mais rico ainda, e depois usar o dinheiro e seu prestígio para ser convidado
à Casa Branca e tentar meter a mão na massa em favor da África. Assim:
seja homem, aguente firme, admita que gosta de fazer parte da classe
dominante, que acredita na classe dominante e que fará o que for
necessário para consolidar a posição que conquistou nela.
P: Está me dizendo que é a favor da invasão do Iraque?
R: Estou dizendo que, se invadir o Iraque fosse o tipo de coisa que uma
pessoa como eu apoia, a invasão nunca teria acontecido.
P: Vamos voltar um minuto para a pessoa Richard Katz.
R: Não, vamos desligar a sua maquininha. Acho que já está de bom
tamanho.
“Foi ótimo,” disse Zachary, apontando um dedo e rindo. “Perfeito. Vou postar agora mesmo e mandar o link para Caitlyn.”
“Você tem o e-mail dela?”
“Não, mas sei quem tem.”
“Então eu vejo vocês dois amanhã depois da aula.”
Katz desceu a Church Street para tomar o trem para Nova Jersey debaixo de uma nuvem bem conhecida de arrependimento pós-entrevista. Não estava preocupado de ter sido ofensivo; a função dele era ser ofensivo. Estava preocupado de ter parecido patético—de maneira transparente demais o talento sem rumo cujo único recurso era falar mal de quem fazia mais sucesso. Sentia uma profunda antipatia pela pessoa que mais uma vez acabara de demonstrar que infelizmente era. E esta, claro, era a definição de depressão mais simples que ele conhecia: uma profunda antipatia por si mesmo.
Chegando a Jersey City, parou na lanchonete que vendia gyros onde comprava seu jantar três ou quatro vezes por semana, saiu de lá com uma sacola pesada e malcheirosa de carne de segunda e pão árabe, e subiu as escadas do seu apartamento, fora do qual passava tanto tempo nos últimos dois anos e meio que ele parecia ter se virado contra ele, não mais querendo ser a sua moradia. Um pouco de pó podia mudar o clima—restaurar o brilho perdido da amizade entre ele e o apartamento—, mas só por algumas horas, ou no máximo alguns dias, e depois tudo ficaria ainda pior. O único aposento de que ele ainda gostava um pouco era a cozinha, cuja crua iluminação fluorescente se adaptava melhor a seu estado de espírito. Sentou-se à sua antiga mesa esmaltada para distrair-se do sabor do jantar lendo Thomas Bernhard, seu novo escritor predileto.
Atrás dele, num balcão coberto de pratos sujos, o telefone fixo tocou. O mostrador dizia walter berglund.
“Walter, minha consciência”, disse Katz. “Por que resolveu me incomodar agora?”
Ficou tentado, apesar da resistência, a atender, porque ultimamente vinha sentindo falta de Walter, mas se lembrou, bem a tempo, que também podia ser Patty ligando de casa. Ele tinha aprendido, a partir de sua experiência com Molly Tremain, que nunca se deve salvar uma mulher que está se afogando, a menos que você mesmo também esteja disposto a se afogar, e por isso resolvera ficar parado olhando do cais enquanto Patty engasgava e pedia socorro. Qualquer coisa que ela estivesse sentindo agora era uma coisa que ele não queria saber. A grande vantagem de ter levado a turnê de Lago Sem Nome até o último limite—no final, ele já era capaz de fazer longos raciocínios enquanto se apresentava, passando em revista as finanças do conjunto, contemplando o consumo de novas drogas e sentindo remorso por sua última entrevista, sem perder o ritmo ou sem pular nenhuma palavra—era ter esgotado todo o sentido das letras, uma ruptura permanente entre suas canções e o estado de tristeza (por Molly, por Patty) em que ele as compusera. Chegara ao ponto de acreditar que as turnês tinham esgotado a própria tristeza. Mas não havia nada que fizesse Richard encostar naquele telefone enquanto ainda estivesse tocando.
Ainda assim, ouviu a mensagem na secretária eletrônica.
Richard? É Walter—Berglund. Não sei se você está em casa, talvez nem esteja no país, mas eu pensei se amanhã você não ia estar por aí. Vou a Nova York a negócios, e tenho uma proposta para você. Desculpe só avisar em cima da hora. No fundo, só liguei para dar um alô. Patty também manda um beijo. Espero que esteja tudo bem com você!
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Dois anos tinham se passado desde a última vez que Katz tivera notícias de Walter. À medida que o silêncio se prolongava, ele começara a pensar que Patty, num acesso de estupidez ou de sofrimento, tinha confessado ao marido o que acontecera no lago Sem Nome. Walter, com seu feminismo, seu duplo padrão irritantemente invertido, logo haveria de ter perdoado Patty e atribuído a Katz toda a culpa pela traição. Walter tinha isto de engraçado: as circunstâncias teimavam em conspirar para fazer Katz, que afora ele não tinha medo de ninguém, sentir-se diminuído e intimidado diante dele. Renunciando a Patty, sacrificando seu prazer e decepcionando-a brutalmente na intenção de preservar o casamento dela, ele se erguera por algum tempo ao nível de excelência de Walter, mas depois de tanto esforço só ficou sentindo inveja do amigo por sua posse inquestionada da própria mulher. Tentou fingir que estava fazendo um favor ao casal Berglund ao cortar a comunicação com eles, mas a verdade é que no fundo só não queria ficar sabendo que seguiam felizes e solidamente casados.
Katz não saberia dizer por que gostava de Walter. Sem dúvida esse afeto se devia em parte a um acidente de percurso: terem constituído um vínculo constituído uma ligação numa idade impressionável, antes que os contornos da sua personalidade se tivessem definido por completo. Walter se insinuara na vida dele antes que ele pudesse fechar a porta na cara do mundo das pessoas comuns e tentasse a sorte dos desajustados e marginais. Não que Walter fosse assim tão comum. Era ao mesmo tempo invariavelmente ingênuo, muito sagaz, obstinado e bem informado. E ainda havia a complicação de Patty, que, embora tivesse passado tanto tempo se esforçando, para fingir que achava o contrário, era ainda menos comum que Walter, e depois a complicação adicional de que Katz ficou tão atraído por Patty quanto Walter, e talvez mais atraído por Walter do que Patty. A situação era de fato muito estranha. Nenhum homem tinha aquecido a virilha de Katz como a visão de Walter depois de uma ausência prolongada. Esses aquecimentos do baixo-ventre não eram mais propriamente sexuais, mais propriamente homo, do que quando ele ficava de pau duro ao cheirar uma primeira carreira de pó depois de uma longa espera, mas não há dúvida de que havia ali algum componente de ordem da química profunda. Uma coisa que insistia em ser chamada de amor. Katz adorava visitar os Berglund enquanto a família crescia, adorava conhecer os dois, saber que moravam no Meio-Oeste, que tinham uma vida boa na qual ele podia mergulhar quando não se sentia muito bem. E então ele tinha estragado tudo por se permitir passar uma noite sozinho numa casa de veraneio com uma ex-jogadora de basquete especializada em navegar velozmente pelo mais estreito canal de oportunidade. O que antes era um desejo difuso que ele sentia pelo cálido mundo do refúgio doméstico tinha desabado, da noite para o dia, transformando-se no microcosmo quente e faminto da boceta de Patty. À qual ele ainda não conseguia acreditar ter tido um acesso tão cruelmente passageiro.
Patty também manda um beijo.
“Beijo é o caralho”, disse Katz, comendo seu gyro. Mas assim que trocou o apetite por um amplo desconforto gástrico com os meios que usou para satisfazê-lo, ligou de volta para Walter. Por sorte, foi o próprio que atendeu.
“E aí”, disse Katz.
“E aí com você?”, replicou Walter com uma gentileza vertiginosa. “Pelo que vi, você andou por toda parte.”
“É, cantando o corpo elétrico, como dizia o outro. O doce perfume do sucesso.”
“Na velocidade da luz.”
“Exatamente. Numa cadeia do condado de Dade.”
“É, eu vi a notícia. Mas que diabo você estava fazendo na Flórida, no fim das contas?”
“Uma garota sul-americana que me pareceu um ser humano.”
“Imaginei que tivesse a ver com essa história de fama”, disse Walter. “‘A fama requer todo tipo de excesso.’ Lembro que a gente costumava falar disso.”
“Bem, felizmente, já não preciso mais lidar com ela. Desci do ônibus.”
“Como assim?”
“Voltei a construir deques.”
“Deques? Está brincando? Que maluquice! Você devia estar destruindo quartos de hotel e gravando as suas canções mais repugnantes e agressivas de todos os tempos!”
“Eu me cansei, cara. Estou fazendo a única coisa digna que eu consigo imaginar.”
“Mas é um desperdício!”
“Cuidado com o que você diz. Posso ficar ofendido.”
“Sério, Richard, você é muito talentoso. Não pode simplesmente parar porque as pessoas por acaso gostaram de um dos seus discos.”
“‘Você é muito talentoso.’ É mais ou menos a mesma coisa de dizer que a pessoa é um gênio no jogo da velha. Estamos falando de música pop.”
“Epa, epa, epa”, disse Walter. “Não é isso que eu esperava escutar. Achei que você estaria acabando de gravar um disco e se preparando para mais uma turnê. Se eu soubesse que estava construindo deques, eu teria ligado antes. Só não estava querendo incomodar.”
“Você nunca precisa se preocupar com isso.”
“Bom, você não aparecia, achei que devia estar ocupado.”
“Mea-culpa”, disse Katz. “Como é que vocês estão? Tudo certo por aí?”
“Mais ou menos. Você sabe que a gente se mudou para Washington, não é?”
Katz fechou os olhos e chicoteou seus neurônios para produzir uma memória que confirmasse a informação. “Sei”, disse ele. “Acho que eu já sabia.”
“Bem, por aqui as coisas acabaram ficando um pouco mais complexas. Na verdade, é por isso que eu estou ligando. Tenho uma proposta para você. Você tem algum tempo amanhã depois do almoço? Mais para o fim da tarde.”
“No fim da tarde eu não posso. Que tal de manhã?”
Walter explicou que ia se encontrar com Robert Kennedy Jr. ao meio-dia e precisava voltar a Washington à noite para pegar um avião para o Texas no sábado de manhã. “Podemos conversar pelo telefone agora”, disse ele, “mas a minha assistente quer muito conhecer você. É com ela que você iria trabalhar. Prefiro não me adiantar dizendo alguma coisa agora.”
“Sua assistente”, disse Katz.
“Lalitha. Ela é jovem e incrivelmente brilhante. E na verdade mora no mesmo lugar que nós, bem em cima do nosso apartamento. Acho que você vai gostar muito dela.”
O brilho e a animação no tom de Walter, a sugestão de culpa ou excitação ao dizer “na verdade”, não escaparam à percepção de Katz.
“Lalitha”, disse ele. “O nome é diferente.”
“Indiano. De Bengala. Ela foi criada no Missouri. E na verdade é linda.”
“Entendi. E a proposta dela é sobre o quê?”
“Salvar o planeta.”
“Entendi.”
Katz desconfiou que Walter estivesse calculadamente lançando essa Lalitha como isca, e ficou irritado de que ele pudesse achá-lo tão fácil de manipular. Mas ainda assim—sabendo que Walter não era de dizer que uma mulher é linda sem bons motivos—ele se deixou manipular, e ficou intrigado.
“Vou ver se consigo transferir as coisas do fim da tarde de amanhã”, disse ele.
“Ótimo”, disse Walter.
O que será será, e o que não for não será. Na experiência de Katz, raramente as coisas pioravam quando deixava uma mulher à sua espera. Ligou para a White Street e informou Zachary que o encontro com Caitlyn precisava ser adiado.
Na tarde seguinte, às três e quinze, com apenas quinze minutos de atraso, ele entrou no Walker’s e viu Walter e a garota indiana à sua espera numa mesa de canto. Antes mesmo de chegar à mesa, ele percebeu que não tinha a menor chance com ela. Havia dezoito palavras de linguagem corporal que as mulheres usavam para indicar disponibilidade e submissão, e Lalitha estava usando pelo menos doze delas com Walter. Todas ao mesmo tempo. Parecia uma ilustração viva da expressão beber cada uma das suas palavras. Quando Walter se levantou da mesa para abraçar Katz, os olhos da garota permaneceram fixos em Walter; o que de fato era uma estranha mudança ocorrida no universo. Nunca antes Katz tinha visto em Walter esse desempenho de macho alfa, atraindo os olhares das moças bonitas. Vestia um terno escuro bom e ganhara mais corpo na meia-idade. Seus ombros tinham ficado mais largos, e seu peito, mais projetado. “Richard, Lalitha”, disse ele.
“Muito prazer em conhecê-lo”, disse Lalitha, apertando frouxamente a mão dele e sem acrescentar nada quanto a estar honrada ou entusiasmada, ou ser grande admiradora do trabalho dele.
Katz afundou numa cadeira sentindo-se nocauteado de surpresa por uma constatação terrível: ao contrário das mentiras que sempre contara a si mesmo, ele sempre desejava as mulheres de Walter não apesar da amizade entre eles, mas por causa dela. Fazia dois anos que as declarações de admiração dos fãs o deixavam oprimido, e agora, de repente, ficava decepcionado por não receber uma dessas declarações de Lalitha, por causa da maneira como ela olhava para Walter. Sua pele era escura e ela tinha uma silhueta complexa de curvas e esbelteza. Com olhos redondos, rosto redondo, seios redondos; braços e pescoço finos. Uma nota sete e meio que podia facilmente chegar a oito se ela se esforçasse nos trabalhos extraclasse. Katz passou uma das mãos pelo cabelo, espanando fragmentos de pó de madeira. Seu velho amigo e rival estava radiante de puro encantamento de estar com ele de novo.
“Então, quais são as últimas”, perguntou ele.
“Muita coisa”, disse Walter. “Por onde eu começo?”
“Bonito terno, aliás. Você está muito bem.”
“Ah, gostou?” Walter baixou os olhos para suas roupas. “Foi Lalitha quem me convenceu a comprar.”
“Eu vivia dizendo a ele que ele não tinha roupas boas”, disse a garota. “Fazia dez anos que não comprava um terno.”
Lalitha tinha um sotaque indiano muito sutil, percussivo, discreto, e falava de Walter com um tom de proprietária. Se o corpo dela não estivesse declarando tanta ansiedade em agradar, Katz acreditaria que já era dona dele.
“Você está muito bem também”, disse Walter.
“Obrigado pela mentira.”
“Não, é verdade, está com um ar assim de Keith Richards.”
“Ah, finalmente está sendo honesto. Keith Richards parece um lobo com a touca da vovó na cabeça. Aquela faixa na testa?”
Walter consultou Lalitha. “Você acha que Richard parece uma vovozinha?”
“Não”, respondeu ela secamente.
“Quer dizer que você se mudou para Washington”, disse Katz.
“É, uma situação meio estranha”, disse Walter. “Trabalho para um sujeito chamado Vin Haven, importante no mundo do petróleo e do gás. O pai da mulher dele era um republicano da velha guarda. Trabalhou com Nixon, Ford e Reagan. Deixou para ela uma mansão em Georgetown que a família quase nunca usava. Quando Vin criou o Fundo, instalou os escritórios no térreo e vendeu o segundo e o terceiro andares para nós, Patty e eu, por um preço abaixo do valor de mercado. E também temos uma espécie de apartamento de empregada no último andar, onde Lalitha mora.”
“Meu caminho até o trabalho é o terceiro mais fácil de Washington”, disse Lalitha. “O de Walter é melhor ainda que o do presidente. E usamos todos a mesma cozinha.”
“Muito confortável”, disse Katz, lançando a Walter um olhar significativo que este deu a impressão de não perceber. “E que Fundo é esse?”
“Acho que falei dele da última vez que conversamos.”
“Eu estava tomando tanta droga naquele tempo que você vai precisar me explicar tudo de novo pelo menos duas vezes.”
“É o Fundo da Montanha Azul”, disse Lalitha. “É uma forma totalmente nova de trabalhar pelo meio ambiente. Foi ideia de Walter.”
“Na verdade, a ideia foi de Vin, pelo menos no início.”
“Mas as ideias realmente originais foram todas de Walter”, garantiu Lalitha a Katz.
Uma garçonete (nada especial, que Katz já conhecia e nem merecia muita atenção) anotou os pedidos de café, e Walter pôs-a a falar do Fundo da Montanha Azul. Vin Haven, disse ele, era um homem muito incomum. Ele e a mulher, Kiki, eram amantes apaixonados das aves que por acaso também eram bons amigos de George e Laura Bush, de Dick e Lynne Cheney. Vin acumulara uma fortuna de centenas de milhões de dólares, que lucrara perdendo dinheiro com seus poços de petróleo e gás no Texas e em Oklahoma. Estava ficando mais velho, e, não tendo tido filhos com Kiki, decidiu gastar mais da metade do que tinha na preservação de uma única espécie de passarinho, a mariquita-azul, conhecida como reinita cerulea ou pijirita azulosa nos países de língua espanhola para onde emigra no inverno. A mariquita-azul era, disse Walter, não só uma criatura lindíssima como o pássaro canoro cuja população declinava mais depressa na América do Norte.
“O animal é este aqui”, disse Lalitha, tirando um folheto da pasta.
O passarinho na capa não pareceu nada de mais para Katz. Azul, pequenino, com ar pouco inteligente. “Estou vendo que é um passarinho azul.”
“Espere um pouco”, disse Lalitha. “A questão não é o passarinho. É muito mais do que isso. Espere até entender toda a visão de Walter.”
Visão! Katz estava começando a achar que a verdadeira finalidade de Walter ao marcar aquele encontro tinha sido simplesmente esfregar em sua cara o fato de que era adorado por uma bela garota de vinte e cinco anos.
A mariquita-azul, explicou Walter, se reproduzia exclusivamente em florestas temperadas maduras de árvores de madeira de lei, sobretudo na área central dos montes Apalaches. Havia uma população especialmente saudável ao sul da Virgínia Ocidental, e Vin Haven, tendo em vista sua ligação com a indústria de energia não renovável, tinha percebido uma oportunidade de formar uma parceria com empresas carvoeiras para criar uma reserva particular imensa e permanente para a mariquita e outras espécies ameaçadas que viviam naquele tipo de floresta. As companhias de carvão tinham motivo para temer que o passarinho fosse em pouco tempo incluído na Lista das Espécies Ameaçadas de Extinção, com efeitos potencialmente deletérios para sua liberdade de abater árvores das florestas e abrir crateras com explosivos em certas montanhas. Vin acreditava que elas podiam ser convencidas a ajudar a mariquita, mantendo o passarinho fora da lista das Espécies Ameaçadas e arrebanhando uma boa vontade mais que necessária da parte da imprensa, contanto que lhes permitissem continuar a extrair carvão. E foi assim que Walter conseguiu o emprego de diretor executivo do Fundo. Em Minnesota, trabalhando para o Nature Conservancy, ele estabelecera ótimas relações com as empresas mineradoras, e demonstrava uma abertura incomum para compromissos construtivos com os empresários da atividade carvoeira.
“O senhor Haven entrevistou meia dúzia de outros candidatos antes de Walter”, disse Lalitha. “Uma parte se levantou e foi embora no meio da entrevista. Era uma gente de visão muito estreita, com medo de ser criticada! Só Walter conseguiu ver o potencial para uma pessoa disposta a correr riscos, e que não desse muita importância as opiniões convencionais.”
Walter fez uma careta em resposta ao elogio, que o deixou porém visivelmente satisfeito. “Todos eles tinham empregos melhores que o meu. Tinham muito mais a perder.”
“Mas que tipo de ambientalista pensa antes em salvar seu emprego que em salvar uma região?”
“Muitos deles, infelizmente. Têm famílias e responsabilidades.”
“Mas você também!”
“Admita logo, rapaz, você é um sujeito formidável”, disse Katz, sem afeto. Ainda tinha alguma esperança de que Lalitha, quando se levantassem para ir embora, mostrasse ter uma bunda grande demais ou coxas grossíssimas.
Para ajudar a salvar a mariquita, disse Walter, o Fundo pretendia isolar uma área de vinte e cinco mil hectares não atravessada por nenhuma estrada— até agora apelidada de 25 Mil de Haven nos documentos—no condado de Wyoming, na Virgínia Ocidental, cercada por uma “zona de proteção” aberta à caça e passeios em veículos motorizados. Para conseguir comprar tanto as terras como os direitos de exploração mineral de uma extensão tão grande de terras contínuas, o Fundo primeiro precisaria permitir a extração de carvão em cerca de um terço de sua área, por meio de exploração a céu aberto. E era essa a perspectiva que afugentara os demais candidatos ao trabalho. A mineração a céu aberto, da forma como é praticada hoje, é ecologicamente deplorável—as rochas da crista da serra são removidas com explosivo para expor os veios subjacentes de carvão; os vales das redondezas ficam entupidos de entulho; cursos d’água de grande riqueza biológica são obstruídos. Walter, porém, acreditava que esforços de recuperação bem administrados podiam mitigar uma parte muito maior dos estragos que as pessoas costumavam perceber; e a grande vantagem de uma área já plenamente minerada é que nunca mais haveria um pretexto para escavá-la.