Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica

José Manoel Jansen · Capítulo 11 de 23

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Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica

Cronofarmacologia

 

Roberto Soares de Moura; Agnaldo José Lopes

 

Introdução

Os ritmos biológicos nos seres vivos são o resultado direto de fenômenos periódicos e recorrentes que influenciam todas as funções do organismo, sejam elas fisiológicas, bioquímicas ou psíquicas. Da investigação de padrões regulares da ritmicidade biológica e da interação desta com a ritmicidade ambiental surgiu um novo ramo da ciência, a Cronobiologia. Desta podem derivar várias aplicações médicas, como a Cronofarmacologia, que não só lida com fármacos que podem alterar a estrutura temporal endógena, como também com a melhoria da resposta de fármacos convencionais, ao serem administrados nos horários mais convenientes.

Do mesmo modo que as funções fisiológicas sofrem influências das variações cronológicas, é de se esperar que os efeitos dos medicamentos, os quais decorrem de alterações das funções normais e/ou patológicas, também possam ser modulados pelos ritmos circadianos (circa, 'em torno de' e diem, 'dia'). Paralelamente, é importante levar em consideração que, dependendo de certas condições, alguns medicamentos podem modificar os ritmos biológicos normais e assim alterar a homeostasia, gerando ou agravando doenças. Dessa forma, ao aplicarmos um medicamento em um paciente, devemos ter em mente que seu efeito pode variar de acordo com o momento, dentro do ciclo circadiano, em que este alcança o órgão para o qual tem afinidade. Em uma primeira aproximação, o efeito de determinado medicamento pode ser mais eficiente se aplicado no momento em que a disfunção se faz mais intensa. Dessa forma, é importante conhecer não só a variação rítmica dos efeitos dos medicamentos, mas também a das doenças. Apesar do conceito de que as funções biológicas podem obedecer a um ritmo temporal bem definido e ser um fato já descrito por Androsthencs na época de Alexandre Magno, só recentemente a importância da Cronofarmacologia tem chamado a atenção dos clínicos. Assim, diversos estudos demonstram que as respostas farmacológicas podem variar significativamente em função dos ritmos biológicos que governam o funcionamento dos diversos sistemas orgânicos. Nos Estados Unidos da América já existe quase uma centena de medicamentos que têm orientações cronofarmacológicas na bula, permitindo o ajuste das doses para que tenha efeito mais eficaz numa determinada hora e menos efeitos adversos em outra. Em breve, será possível que medicamentos com referências cronobiológicas tenham muito mais

competitividade no mercado. O Quadro 1 mostra alguns medicamentos que devem ser administrados sob orientações cronofarmacológicas.

Quadro 1 – Medicamentos que devem ser administrados sob

orientações cronofarmacológicas

 

► Melatonina

► Teofilina

► Beta-agonistas

► Corticosteróides

► Inibidores da cininase II

► Beta-bloqueadores

► Inibidores dos canais de cálcio

► Inibidores da síntese da HMGCoA redutase

► Carraginina

► Fenilbutazona

► Indometacina

► Antagonistas dos receptores H da histamina 2

► Inibidores da bomba de prótons

► Insulina

► Quimioterápicos

 

No presente artigo, vamos apontar alguns aspectos que possam ser úteis ao se escolher e prescrever medicamentos no tratamento de doenças que apresentam um reconhecido ritmo oscilatório na sua patogênese.

Insônia

Dados experimentais e observações clínicas confirmam que a melatonina, hormônio essencialmente liberado pela glândula pineal, exerce significativo papel na modulação do ciclo sono-vigília. Mesmo sabendo que animais, dos quais se retira cirurgicamente a pineal, continuam apresentando adequado ciclo sono-vigília, sabemos que a melatonina tem papel importantíssimo como facilitador deste ciclo. Em condições normais, os níveis plasmáticos de melatonina estão elevados durante o sono e baixos durante o período de vigília. Assim, o ritmo endógeno da melatonina corre paralelo com o ciclo circadiano sono-vigília.

A supressão da secreção de melatonina com antagonistas adrenérgicos não afeta notavelmente o sono. Entretanto, a sonolência, ou propensão a dormir, exibe ritmo circadiano positivamente correlacionado com a concentração de melatonina no plasma e negativamente correlacionado com medidas de atividade. Ao contrário de drogas hipnóticas – que induzem sono por depressão universal do sistema nervoso central, tais como barbitúricos e benzodiazepínicos –, a melatonina afeta a propensão ao sono, mas não o induz diretamente.

Tudo nos leva a acreditar que a melatonina seja um facilitador endógeno indireto do sono. Dessa maneira, seria adequada para corrigir certos distúrbios do sono como, por exemplo, induzir o sono quando os mecanismos fisiológicos são insuficientes, inibir as tendências para vigília oriundas dos marca passos circadianos e induzir fases circadianas para ciclo sono-vigília perante uma nova situação temporal. Outros dados indicam que a melatonina pode ter efeitos clínicos benéficos no tratamento da insônia provocada por estados de desordem temporal interna (como viagens transmeridianas), primariamente devido à sua ação sincronizadora. Segundo Cajochen, Kräuchi e Wirz-Justice (2003), a melatonina exógena pode ser considerada como um soporífero, um crono-hipnótico e/ou um cronobiótico.

Asma

Considerando que os parâmetros respiratórios, como volume-minuto, pico de fluxo expiratório (PFE), volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF ) e outros, variam ao longo do dia, sendo 1

altos por volta das 16h e baixos às 4h, é fácil depreender que os sintomas das doenças respiratórias devem seguir uma seqüência circadiana. Entre as doenças que têm seus sintomas modulados por um ritmo circadiano, a asma, sem dúvida alguma, é a mais estudada.

A maior ocorrência de asma durante a noite, a chamada asma noturna, já foi considerada há mais de 300 anos, quando John Floyer afirmou: "I have observed the fit always to happen after sleep in night". Os mecanismos que modulam a asma noturna ainda não estão totalmente esclarecidos, mas inúmeros trabalhos científicos demonstram que, na asma noturna, ocorre: menor tônus simpático e maior tônus parassimpático para a árvore brônquica, redução da afinidade dos receptores adrenérgicos, aumento dos mecanismos pró-inflamatórios, aumento da liberação de fatores que induzem broncoconstrição, aumento da hiperreatividade brônquica, elevação da concentração de óxido nítrico no ar alveolar, aumento dos leucotrienos no lavado brônquico, aumento da quantidade de eosinófilos na estrutura brônquica, aumento plasmático da proteína catiônica eosinofílica (ECP) e da proteína X eosinofílica (EPX), diminuição dos níveis plasmáticos de melatonina, redução da afinidade dos receptores de corticóides e, principalmente, redução da liberação de corticóides pela suprarrenal.

A observação de que a asma incide mais freqüentemente durante a noite e, ainda, de que 53% das mortes por asma ocorrem neste período, leva-nos a admitir que o tratamento farmacológico desta doença deva ser estabelecido em termos circadianos e de aspectos cronofarmacocinéticos de medicamentos empregados na sua terapêutica. Neste particular, a teofilina foi uma das primeiras substâncias estudadas. Neuenkirchen e colaboradores (1985) demonstraram que a C (concentração plasmática máxima) é max menor enquanto o t (tempo para se alcançar a concentração max

plasmática máxima) é maior nos pacientes asmáticos que receberam este composto no início da noite do que pela manhã. Além da teofilina, medicamentos antiasmáticos que atuam estimulando os receptores adrenérgicos do tipo beta também 2 obedecem a um ritmo circadiano. Dados farmacocinéticos mostram que, para duas doses de 7,5mg de terbutalina aplicadas às 7h30min e 19h30min, a C pela manhã é significativamente maior que a max

C noturna. Do mesmo modo, o tempo para se alcançar a C é max max muito menor quando a terbutalina é aplicada pela manhã do que no início da noite. Dessa forma, recomenda-se que a dose de teofilina ou de beta agonista deva ser aumentada à noite para se contornar 2-

a disfunção farmacocinética e ampliar a resposta farmacodinâmica broncodilatadora, ou, o que é mais adequado ainda, devemos dar preferência para aqueles produtos que liberam o princípio ativo principalmente à noite. Os antagonistas colinérgicos também seguem, à semelhança da teofilina e dos beta2 agonistas, o mesmo parâmetro circadiano.

Inúmeros trabalhos experimentais demonstram que a melatonina, substância importante na modulação do ritmo circadiano, pode ter uma significativa participação na fisiopatologia da asma noturna, na medida em que exerce uma ação imunomoduladora. A forma como a melatonina modula a reação inflamatória é ainda controversa, pois pode exercer um efeito pró ou antiinflamatório. Receptores para a melatonina foram encontrados nos linfócitos T e nos monócitos, onde este hormônio aumenta a liberação de TNF-α, IL-2, IL-6 e IL-12 pelos monócitos e linfócitos. O papel modulador da melatonina na asma noturna é sugerido pelo fato de terem sido encontrados receptores deste hormônio em pulmões de animais de experimentação e de a injeção venosa de melatonina causar broncodilatação em cães anestesiados.

 

Doenças do aparelho cardiovascular Como era de se esperar, as doenças cardiovasculares, responsáveis pela maior morbidade e mortalidade entre nossos doentes, são intensamente moduladas pelos ritmos biológicos. Hoje é sabido que infarto do miocárdio, morte súbita, ataques coronarianos transientes, acidente vascular encefálico isquêmico ou hemorrágico, edema agudo de pulmão, arritmias cardíacas, embolia pulmonar e ruptura de aneurismas aórticos não ocorrem randomicamente, mas seguem uma periodicidade cronobiológica, incidindo principalmente entre o acordar (± 6h) e o meio dia. Em uma primeira aproximação, estes eventos cardiovasculares decorrem principalmente de ativação do sistema adrenérgico, liberação de corticóides, aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca, da resistência vascular periférica, da atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona e da agregação plaquetária, dos níveis de fibrinogênio, dos fatores de coagulação (hipercoagulabilidade sanguínea), do hematócrito e da viscosidade sangüínea.

Vários estudos demonstram que a pressão arterial dos pacientes hipertensos varia ao longo das 24 horas, ocorrendo uma redução dos níveis tensionais durante a noite e uma elevação significativa pela manhã (cerca de 20 a 25mmHg e 10 a 15mmHg para pressão sistólica e pressão diastólica, respectivamente), após o acordar. Ao longo da tarde e início da noite, os valores tensionais tendem a decrescer, alcançando os menores níveis durante o sono. Se os pacientes com hipertensão arterial essencial apresentam grande redução da pressão durante a noite e elevada variação ao acordar, nos pacientes com hipertensão secundária estas variações tendem a ser menores. O mecanismo destas variações circadianas da pressão arterial ainda não está definido, mas possivelmente o óxido nítrico liberado pelo endotélio vascular deva participar deste fenômeno. Assim, Witte e colaboradores (1995) demonstraram em ratos que os menores níveis de pressão arterial que se observa durante a fase de sono desses animais coincide com a maior atividade do sistema NO-GMPc.

Levando-se em consideração que os eventos patológicos de origem cardiovascular ocorrem principalmente pela manhã, é lógico que qualquer esquema terapêutico que mantenha constante o nível plasmático do anti-hipertensivo pode não proteger adequadamente o paciente das complicações desta enfermidade. Desnecessário seria lembrar que a redução intensa da pressão arterial à noite (extreme dippers), principalmente nos pacientes idosos, pode aumentar a incidência de neurite óptica isquêmica e de acidentes vasculares cerebrais durante a noite. Dessa forma, devemos procurar o melhor momento para aplicar o medicamento anti-hipertensivo a fim de obter maior proteção cardiovascular.

Estudos realizados por Morgan e colaboradores (1997) mostram que o controle da pressão arterial ao longo das 24 horas com perindropil, um inibidor da cininase II, é mais eficiente se este medicamento é aplicado pela manhã do que quando aplicado à noite. Todavia, este trabalho mostra que, quando aplicado ao deitar, a redução dos níveis tensionais à noite é maior do que quando este medicamento é aplicado pela manhã. Os resultados de Palatini e colaboradores (1992) mostram que a aplicação de quimapril à noite causa maior descenso noturno e menor redução da elevação matutina da pressão arterial. Por outro lado, o estudo Heart Outcomes Prevention Evaluation (Hope), com ramipril, sugere que este composto deva ser preferencialmente aplicado ao deitar. Dessa forma, em relação aos inibidores da cininase II, o melhor momento para aplicar estes compostos pode depender das características farmacocinéticas de cada inibidor.

Em relação aos beta-bloqueadores e diuréticos, os estudos cronofarmacológicos ainda são discretos e conflitantes para afirmar com certeza qual seria o melhor momento de aplicar estes compostos. Dados clínicos mostram que os beta-bloqueadores, que significativamente reduzem a pressão arterial durante o dia, pouco modificam a pressão arterial durante a noite, e reduzem, menos intensamente, a elevação matutina da pressão arterial.

É fácil depreender que o sucesso da prevenção farmacológica das complicações cardiovasculares será tanto maior quanto mais adequada for a relação entre o nível plasmático do medicamento e o momento de maior incidência destas complicações. Quando se aplica um medicamento cuja meia-vida é curta, temos geralmente picos de elevada concentração plasmática partilhados com outros momentos nos quais o fármaco se encontra em concentrações plasmáticas ineficazes. Portanto, medicamento anti-hipertensivo que apresenta efeito rápido e fugaz deve ser evitado no tratamento crônico da hipertensão arterial. Em contrapartida, os medicamentos de absorção lenta, se de um lado mantêm um nível plasmático constante ao longo das 24 horas, podem não oferecer proteção no momento de maior risco e mesmo intensificar o descenso noturno da pressão arterial, o que é desaconselhável.

Um grande avanço no tópico cronocinética foi o desenvolvimento de uma preparação farmacotécnica contendo verapamil, um inibidor dos canais de cálcio, a qual foi idealizada em termos dos princípios da Cronofarmacologia, possibilitando maior liberação do princípio ativo no momento de maior necessidade fisiopatológica, isto é, pela manhã, ao acordar. Verelan-PM® foi desenvolvido tendo como base os preceitos tecnológicos chronotherapeutic oral drug absorption system (Codas). Esta técnica permite a liberação controlada de verapamil de tal forma que, ao lado de liberação contínua ao longo do dia que se inicia quatro horas após a aplicação do medicamento, ocorra maior disponibilidade de verapamil. Isto faz com que o pico plasmático do medicamento ocorra a partir de 11 horas da aplicação do produto, coincidindo, portanto, com o período de maior risco cardiovascular. Estudos clínicos evidenciaram que esta formulação de verapamil (Verelan-PM®) apresenta significativa atividade anti-hipertensiva, mas estudos multicêntricos não revelaram vantagens deste produto, quando comparado com atenolol e hidroclorotiazida. Evidentemente, novas pesquisas no campo da cronocinética deverão trazer compostos com adequada farmacocinética para o controle eficaz das complicações cardiovasculares.

 

Hipercolesterolemia Os níveis plasmáticos de colesterol flutuam dentro de um ritmo circadiano. Suas variações plasmáticas são principalmente decorrentes do ritmo bem definido em relação à síntese hepática. Todavia, este ritmo varia muito de indivíduo para indivíduo. Normalmente, a síntese hepática do colesterol é intensa durante a noite, sendo que somente cerca de 30 a 40% da substância é sintetizada no fígado durante o dia. Geralmente a produção máxima de colesterol ocorre nas primeiras horas da manhã, por volta de 12 horas após a última refeição. Levando-se em consideração o ritmo circadiano, é de se esperar que a proteção cardiovascular com medicamentos que reduzem as taxas plasmáticas de colesterol, ao inibir a HMG-CoA redutase, deva depender do momento da aplicação desses compostos. Inibidores que apresentam uma curta meia-vida de eliminação, como sinvastatina, devem ser aplicados de preferência ao deitar, ao passo que compostos com maior meia-vida de eliminação, como a atorvastatina, podem ser aplicados pela manhã ou ao deitar.

 

Inflamação

Inúmeros trabalhos em animais mostram que a reação inflamatória obedece não só a um ritmo circadiano como também a ritmos circasseptaneos (sete dias) e circanuais (doze meses). Experiências realizadas em ratos mostram que a reação inflamatória (índice de edema) induzida pela injeção de carragenina na pata deste animal é significativamente maior quando testada às 20h do que às 9h. Ritmos biológicos maiores do que 24 horas foram também demonstrados em animais de experimentação. Assim, Muir e Pownall (1983), pesquisando a reação inflamatória (índice de edema) induzida pela injeção de parafina na pata do rato, mostraram que o pico máximo da reação inflamatória repete-se a cada sete dias. Os dados de Labrecque e colaboradores (1982) mostraram ainda que a reação inflamatória induzida pela carragenina foi maior quando testada na primavera do que no verão. Os mecanismos que regulam estas variações cíclicas ainda não estão esclarecidos, mas possivelmente devem ser decorrentes da liberação cíclica de certos hormônios, visto que a adrenalectomia elimina a variação circadiana observada com a reação inflamatória induzida pela carragenina.

Estudos em humanos mostram que a reação inflamatória da artrite reumatóide oscila ao longo do dia, sendo que a dor é geralmente mais intensa ao acordar, pela manhã, do que no período da tarde. Portanto, a medicação antiinflamatória deve ser feita de tal forma a se obter níveis plasmáticos eficazes de antiinflamatórios sempre pela manhã. Contudo, estudos realizados em pacientes com osteoartrose mostram que o ritmo circadiano desta doença apresenta intensificação dos sintomas geralmente no período que antecede o sono. Dessa forma, a medicação antiinflamatória deve adequar-se a este ciclo. Inúmeros outros trabalhos confirmam a presença de ciclo circadiano para outras doenças, como as espondilartrites que exacerbam entre 9 e 12 horas e entre 18 e 21 horas, e ainda é mais intensa no inverno do que no verão.

Do mesmo modo que a reação inflamatória segue um ritmo biológico, o efeito dos antiinflamatórios não esteroidais também oscila dentro de determinados ritmos. Quando se testou a atividade antiinflamatória da indometacina em ratos, verificou-se que ela era muito maior por volta da 9 horas do que perto das 21 horas. Pesquisas realizadas com a fenilbutazona em ratos também mostraram variação complexa da atividade antiinflamatória deste composto. Assim, no ciclo de 24 horas, a atividade antiinflamatória é maior durante a noite, período de vigília destes animais, intensa quando testada no mês de julho, reduzida entre setembro e fevereiro e inexistente quando testada entre março e abril.

Os efeitos tóxicos e letais dos antiinflamatórios também seguem ritmos biológicos (cronotoxicidade). Trabalhos experimentais demonstram que a lesão gástrica induzida pela aspirina em ratos é máxima quando aplicada no início do período de vigília (noite) destes animais. Labrecque e colaboradores (1983) mostraram que, em ratos, o efeito letal da fenilbutazona varia de acordo com o momento em que este composto é aplicado, sendo que a dose letal é menor durante a noite do que durante o dia.

Os mecanismos que determinam a cronofarmacologia dos antiinflamatórios ainda não estão esclarecidos, mas possivelmente não se correlacionam com aspectos farmacocinéticos, inclusive efeitos mais intensos podem ocorrer quando os níveis plasmáticos desses compostos são menores.

Como era de se esperar, os resultados obtidos em animais de laboratório também foram observados em humanos. Estudos realizados em pacientes com artrite sob tratamento com antiinflamatório não esteroidal mostraram que a melhor resposta foi obtida quando este medicamento foi aplicado ao deitar. A tolerância dos pacientes, quanto aos efeitos colaterais dos antiinflamatórios, também depende do ritmo circadiano. Assim, efeitos colaterais gastrointestinais (náusea, queimação gástrica e diarréia) e neurológicos (vertigem, cefaléia e ansiedade) ocorrem com mais freqüência quando os antiinflamatórios são aplicados às 8 e às 12 horas, do que quando aplicados ao deitar.

 

Úlcera péptica

A função gástrica segue ritmo circadiano bem definido nos pacientes com úlcera péptica, em que a motilidade gastrointestinal está reduzida, o esvaziamento gástrico está deprimido e a secreção gástrica tende a ser mais intensa durante a noite, ocasião em que os sintomas se agravam.

Os agentes anti-histamínicos H são antagonistas específicos que 2 inibem a secreção ácida por bloquear, competitivamente e reversivelmente, os receptores H presentes na membrana 2 basocelular das células parietais gástricas. Tais agentes atuam em todas as fases da secreção do ácido gástrico, inibindo as ações produzidas pela histamina, antagonistas muscarínicos e gastrina, e reduzem também o volume e a concentração hidrogeniônica do suco gástrico. Esses medicamentos somente inibem parcialmente a secreção ácida estimulada por gastrina e são mais efetivos para inibir a acidez durante períodos de secreção ácida basal. Como um período longo de secreção ácida basal ocorre durante a noite, doses administradas após o jantar ou ao deitar-se são as mais indicadas para esses agentes. Dessa forma, a secreção gástrica em excesso estará significativamente reduzida.

No tratamento da úlcera péptica, outra classe de medicamentos bastante utilizada é a de inibidores da bomba de prótons. Dentre esses medicamentos, o mais potente e estudado é o omeprazol, uma base fraca absorvida pelo intestino delgado em ambiente alcalino. Na célula parietal, o omeprazol fica preso nos canalículos secretores, em ambiente fortemente ácido, onde se transforma na sua forma ativa, que, ou é convertida em um metabólito inativo, ou se liga à bomba de prótons. O metabólito ativo do omeprazol inativa, de forma irreversível, esta enzima, e assim inibe a secreção gástrica de ácido. Entretanto, ao contrário dos antagonistas dos receptores H da histamina, os inibidores da bomba de prótons podem ser 2

administrados pela manhã pois seu efeito se faz por longo período.

 

Diabetes

Há indicações de que os ritmos diários da insulinemia não são meras reações homeostáticas às variações da glicemia ou à ingesta alimentar. Ao invés de representar um fenômeno de retroalimentação, independente do tempo, a função desempenhada pela insulina, na regulação glicêmica, parece ser programada em base circadiana. Diversos pesquisadores confirmaram essas constatações, ao registrarem maiores respostas secretórias de insulina no período matutino, tanto no teste de tolerância à glicose oral quanto após refeições padronizadas. Tais constatações repetiram-se em humanos saudáveis, após administração de glucagon ou, ainda, em diabéticos tratados com diferentes hipoglicemiantes orais. Sugere-se que a hiperglicemia vespertina é o primeiro estágio no desenvolvimento da intolerância à glicose. Na seqüência de evolução da moléstia, ocorre perda do ritmo diário da secreção de insulina. Essa variação circadiana da secreção de insulina pode estar ligada a um ritmo endógeno da função da célula β ou a uma ritmicidade de receptores de insulina, bem como à ritmicidade da ligação desses hormônios.

Numerosos estudos também confirmaram que a secreção de insulina humana é um complexo processo oscilatório, que inclui pulsos rápidos, recorrentes a cada 10 a 15min, superpostos a oscilações ultradianas mais lentas, com períodos entre 90 e 120min. Não obstante, pulsos de maior freqüência, com recorrência a cada 5 a 7min, foram registrados por outros pesquisadores.

O marcapasso que controla a secreção de insulina humana parece ser notadamente estável. Sua periodicidade não é afetada quando a secreção de insulina é estimulada por glicose, tolbutamida ou bloqueadores alfa-adrenérgicos. É crença geral que as medidas dos níveis séricos de insulina refletem flutuações da secreção de insulina, e que o marcapasso dessas oscilações está localizado no próprio pâncreas, apresentando sensibilidade alterada em vários estados nutricionais. Constatou-se que ilhotas 'desligadas' do tecido pancreático continuam a secretar insulina de maneira pulsátil. Nesse sentido, observou-se que a geração dessa pulsatilidade não depende da inervação extrínseca, bem como, sugere-se, oscilações ultradianas podem ser independentemente geradas a partir de uma fonte insular. Essas conclusões são concordantes com resultados anteriores, sugestivos de que o marcapasso da secreção de insulina é intrínseco à ilhota.

Acredita-se que a perda da secreção oscilatória coordenada de insulina possa desempenhar um papel na fisiopatologia da diabetes. Em humanos acometidos de diabetes mellitus tipo 2, as oscilações ultradianas de alta freqüência da secreção basal de insulina, comparadas às dos controles saudáveis, são menos regulares e mais rápidas, sendo reduzida sua associação com alterações similares das concentrações de glicose, o que poderia contribuir para o desenvolvimento da resistência à insulina e para a intolerância à glicose. Em conseqüência, propôs-se que, nessa doença, a sincronização por glicose, da célula β anormal, é menos eficiente que em sujeitos normais. Um crescente corpo de dados experimentais sugere que a pulsatilidade aumenta a eficiência do acoplamento entre a secreção hormonal insular e a resposta ao hormônio. A perda, na diabetes tipo 2, do ciclo secretório de insulina é consistente com esse papel funcional postulado para a secreção hormonal insular. Assim, parte da resistência periférica à insulina poderia ser atribuída à qualidade temporal prejudicada da produção desse hormônio, em oposição à redução da quantidade total produzida.

Tem-se constatado maior eficiência da insulina administrada de maneira pulsátil, ao reduzir a glicemia de pacientes acometidos de diabetes tipo 1. A maior ação hipoglicemiante, durante administração pulsátil, está, provavelmente, relacionada com a expressão de receptores de insulina nos tecidos-alvo. Outro efeito benéfico da administração pulsátil de insulina parece ser a redução da hiperglucagonemia.

Na terapia farmacológica, diversos trabalhos mostraram que a glicazida aumenta a secreção pulsátil de insulina em pacientes com diabetes tipo 2. Administração aguda ou crônica dessa sulfoniluréia aumenta a massa dos surtos da secreção de insulina em cerca de 50%, sem interferir na periodicidade ou na regularidade dos pulsos. Outro hipoglicemiante oral, não pertencente à família das sulfoniluréias, a repaglinida, em administração aguda a voluntários normais, provocou efeitos semelhantes.

 

Câncer

Muitas pesquisas têm sido direcionadas para determinar o período em que os medicamentos antineoplásicos devem ser administrados, de forma que sejam mais eficientes nas células cancerígenas e atinjam menos as sadias. Com isso, as doses poderiam ser minimizadas, já que o efeito é mais potente, tornando o tratamento mais econômico.

A periodicidade circadiana na síntese de DNA e RNA, índice mitótico, atividade de numerosas enzimas e contagens de linfócitos T e B e de células natural killer tem sido bem documentada em trabalhos na área de Oncologia.

Estudos experimentais demonstraram que a atividade de proliferação celular está intimamente relacionada ao ritmo circadiano, e que a fase S da síntese de DNA reduz-se pela metade nas primeiras horas da madrugada. Este fato é de suma importância, sobretudo para os medicamentos antineoplásicos que atuam especificamente nesta fase do ciclo celular. Outros estudos comprovaram a influência do ritmo circadiano, interferindo no padrão e gravidade da toxidade das drogas, na dose máxima tolerada, na qualidade e freqüência da resposta tumoral e na sobrevida dos pacientes com câncer.

O trabalho pioneiro em cronoterapia antitumoral foi realizado por Haus e colaboradores (1972) que demonstraram a dependência da administração da citarabina ao ritmo circadiano, determinando tanto sua toxidade quanto a atividade da antiL1210. No início dos anos 80 do século XX, Popovic e colaboradores definiram a influência do ritmo circadiano na toxicologia do 5-fluorouracil. Este composto, utilizado principalmente no tratamento dos tumores sólidos, apresenta menor toxidade quando administrado durante o período do sono. Em contrapartida, no tratamento oncológico com adriamicina, estudo de metanálise mostrou taxas de mortalidade de 80%, quando o medicamento era administrado durante a noite, e de 30% quando este era infundido no período do dia. Mais tarde, Hrushesky e colaboradores estudando a combinação doxorrubicina/cisplatina ao câncer ovariano, também mostraram a cronofarmacodependência na aplicação dessas drogas, o que resultou em maior eficácia, maior segurança e maior sobrevida. Hoje, em mais de 30 agentes anticâncer, o índice terapêutico pode ser aumentado se a administração for feita em horas específicas do ciclo sono-vigília (entende-se por índice terapêutico a razão entre dose eficaz e dose tóxica de um medicamento).

Em estudo multicêntrico e comparativo, Lévi e colaboradores avaliaram o efeito da cronoterapia em 186 pacientes com diagnóstico de câncer de cólon metastático. Neste trabalho, randomizado, 93 pacientes receberam quimioterapia em infusão cronomodulada por períodos de 24h, e 93 receberam o mesmo esquema (oxiplatino, 5-fluorouracil e ácido fólico) em infusão contínua. Observaram resposta objetiva do tumor (redução da massa tumoral) em 51% do grupo em que a cronoterapia foi aplicada, mas em apenas 29% do grupo em que a infusão contínua foi utilizada. No grupo que recebeu cronoterapia, também foram observadas menores taxas de toxidade da mucosa (14% versus 76%) e de neuropatia periférica (16% versus 31%). O tempo médio de falência do tratamento foi de 6,4 meses para aqueles que receberam a cronoterapia e de 4,9 meses para os que utilizaram a infusão contínua. Dessa forma, os autores enfatizam a importância de considerar a seletividade temporal no momento de iniciar a quimioterapia para o câncer de cólon.

Na aplicação da radioterapia, especialmente nos casos de grandes tumores da cavidade oral, tem sido utilizado um marcador relativamente inespecífico (chamado de 'marcador da temperatura do câncer'), que sofre a influência do ritmo circadiano. Diversos estudos mostraram maiores taxas de regressão tumoral e maior sobrevida naqueles pacientes que receberam tratamento radioterápico durante as elevações de temperatura do tumor, conforme fornecidas pelo marcador.

No tratamento dos tumores oncológicos, não só a quimioterapia e a radioterapia, mas também a cirurgia sofrem a influência dos ritmos biológicos. Em trabalho realizado com 1.200 mulheres submetidas à cirurgia para o câncer de mama, a sobrevida no período de cinco anos foi significativamente maior naquelas operadas durante a segunda metade do ciclo menstrual. Segundo os investigadores, como conseqüência dos altos níveis de progesterona observados nesta fase do ciclo menstrual, ocorreria a inibição de certas enzimas que favorecem o crescimento do câncer de mama, o que implicaria a melhora do prognóstico.

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Sites recomendados

http://www.eortc.be/home/chrono/

http://www.blockmd.com/unique/Chronotherapy.html

http://www.aamcc.net/chronotherapy.htm

http://www.websciences.org/sltbr