Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica
Prefácio
Acordei... bom-dia! Adormeci... boa-noite!
Nesse ritmo, com esse binômio, a humanidade cumpre o ritual diário da vida cadenciado pelo movimento de rotação da Terra em torno do seu próprio eixo. Outra cadência, outro ritmo: mais longo, mais diversificado, mas determinante, para nós, de uma óbvia passagem do tempo – o movimento de translação do planeta em torno do Sol. Esse ritmo, com a inclinação relativa de seu eixo, caracteriza o nosso ano e suas quatro estações – a primavera, o verão, o outono e o inverno. Durante séculos da existência humana, esses fenômenos delimitam nossa percepção e compreensão dos fenômenos da vida na Terra.
No entanto, mesmo antes de nós, estes ritmos estão presentes – percebidos e utilizados, mas aparentemente, não verbalizados. No princípio, a Treva, o que para nós é abstração teórica, posto que o Tempo, maestro da vida, eclode no momento inicial da luz: o "Big Bang" criador, há bilhões de anos, que nos trouxe o conceito essencial e necessário da presença de um Espaço. Espaço-Tempo, duplo fundamental do Universo, traz na perspectiva humana da criação (evolução) o mito arquetípico do duplo-uno original, cindido pela ira de Zeus, transformando-nos em seres errantes e estéreis até que, providência salvadora da espécie, ele coloca a genitália em posição de procriação, o abraço fecundo, tão lindamente descrito no diálogo platônico O Banquete.
A natureza, a vida, a existência são dependentes de binômios: vida e morte, claro e escuro, seco e molhado, água e areia, sol e lua, dia e noite, homem e mulher... nosso duplo gerador! A humanidade surge e progride como a medida de todas as coisas e, com isso, pretende dominar o tempo e a vida. A simples observação de como medimos o tempo, desde os primórdios milenares da espécie até os dias de hoje, permite-nos deduzir um outro duplo determinante da ação e do conhecimento humano: o tempo externo e o tempo interno.
O tempo externo evolui na sua dinâmica desde apenas os solstícios e os equinócios das estações recorrentes (anos?) até o relógio atômico atual, com seus bilionésimos de segundo, instalado na redoma própria em Paris, França. Isso sem falar, para nós ocidentais de tradição judaico-cristã, da relação do tempo externo com as necessidades próprias da religião, emanadas do papado romano. Se estamos hoje no ano de 2007 depois de Cristo, e nesse número específico de anos, o devemos às mudanças da nossa maneira de contar nosso tempo externo efetuadas primeiro no século VI da nossa era pelo monge Dionysius Exiguus (Denis, o Baixinho), a pedido do papa João I, e em seguida, no século XVI, que perdura até hoje, aquela determinada pelo papa São Gregório XIII e que, inclusive, nomeia nosso calendário como gregoriano. A inspiração dessa última foi de natureza bem eclesiástica: facilitar o cálculo da Quaresma a cada ano e a data da Paixão de Cristo; ou, como dizem outros, dar mais simplicidade e precisão ao cálculo da melhor época da semeadura da safra de grãos para o ano em curso, na saída do inverno e início da primavera no hemisfério norte... Eureka! Precisão e aceleração! Flutua nesse novo duplo a seta do tempo externo, as necessidades da sua medida, como se a própria vida e suas circunstâncias estivessem a acontecer mais rápidas.
E o nosso tempo interior? Como percebemos a sua presença? Afora marcas óbvias tais como nosso crescimento, o ritmo da fome e da saciedade, o sono e a vigília, a libido, nossa consciência deste tempo é uma conquista da Ciência, em tempos históricos recentes. No século XVII, a cadeira metabólica de Sartório; no século XIX, o conceito de Meio Interno (Claude-Bernard); e, na primeira metade do século XX, tanto a descoberta da insulina por Banting e Best (1921) como a descrição das técnicas de radioimunoensaio, alguns
anos depois (1956), por Rosalyn Yallow* e Solomon Berson, curiosamente identificando anticorpos antiinsulina pela nova técnica, são, didaticamente, referenciais apropriados para o desenvolvimento do nosso conhecimento do tempo interior. Neste átimo de tempo que nos separa destes fatos, meio século e a virada do milênio, um verdadeiro salto quântico transformou o conhecimento, o comportamento e a representação social das ciências da vida: chegamos ao cromossoma, ao genoma, ao proteoma, à célula-tronco... manipulação da própria vida! Virchow não imaginou o alcance da famosa frase definidora da sua patologia microscópica: "Omnis cellula e cellula!".
Na Astrofísica, os pulsars marcam o ritmo das emissões de energia por corpos espaciais específicos e, na nossa Fisiologia, o domínio dos pulsos biológicos é marca indelével dos nossos tempos interiores. Para a maioria, o marcador-mor das nossas vidas ainda é o pulso decorrente do batimento cardíaco, mesmo reconhecendo o conceito técnico da morte cerebral – a cessação dos seus pulsos bioquímicos que nos mantém vivos. Nesse Espaço-Tempo da vida, como conseqüência específica dessa tênue síntese histórica de conceitos anteriormente apresentados, surge, no crepúsculo do século XX, o farol de uma nova Ciência – a Cronobiologia. De novo, um duplo-uno fundamental! Não mais como uma mitologia fundadora, platônica, e sim uma realidade científica transformadora. Transformadora, para nós médicos, do próprio entendimento do binômio saúde-doença tanto nos seus aspectos coletivos de prevenção e profilaxia como, mais ainda, na prática individualizada do atendimento ao sofrimento dos nossos pacientes individuais. Citando o exemplo da Cronofarmacologia, destacamos um dos campos em que se projetam transformações, diríamos mesmo, revolucionárias para a prática médica.
É de notar que Hipócrates nos seus aforismos sábios não se refere às enfermidades da noite. Vem, então, o professor José Manoel Jansen e colaboradores, dois e meio milênios depois, nos trazer Medicina da Noite, este primoroso volume com ampla, profunda e atualizada informação sobre o binômio transformador e desafiador do terceiro milênio – Medicina e Cronobiologia –, sob a perspectiva da noite, para o aprimoramento e deleite do médico atilado e sintonizado com os avanços da Ciência que podem repercutir, positivamente, na sua prática profissional. A noite, a insegurança, os temores, a escuridão, os sustos, os medos, freqüentemente alinham-se em dança eloqüente que se contrapõe às monótonas lamentações. "É noite; eis que se eleva mais alto a voz das fontes fervilhantes. E minha alma é também uma fonte fervilhante..., mas vivo encerrado na minha própria luz, reabsorvendo as chamas que jorram de mim". Assim falou Zaratustra!
Para muito além dos sonhos e dos terrores noturnos, aí incluídos as enureses, bruxismos e poluções, Jansen e colaboradores dissecam com maestria os assincronismos dos ritmos biológicos circadianos, hebdomadários e que tais. Nos seus vários capítulos ordenadamente organizados, desde os fundamentos teóricos desse conhecimento até as diversas situações específicas, nele tratados, conseguem os autores a façanha de trazer a todos nós, neófitos no assunto ou nem tanto, o estado-da-arte desta matéria.
"O tempo e o sono", primeiro capítulo, e "Cronobiologia e seus mecanismos", o segundo, são bases sólidas para entender o desenvolvimento do tema central – a Medicina da Noite. A seguir, rigor da clareza e da forma do livro, utilizam os ciclos biológicos da vida para apresentar as diferenças fisiológicas específicas entre crianças, adolescentes, adultos e gerontes, determinadas pela luz e a escuridão, o dia adrenérgico e a noite melatonínica. Hermann Hesse ensina que "não há dia, por mais quente e rigoroso, que a tarde não se compadeça dele e que, afinal, não o envolva nos braços da mãe noite".
De aí em diante, a patologia assume o protagonismo do texto iluminando a noite na prática médica. Não se recusa, inclusive, a dissecar as entranhas daquela que é a doença da velocidade do tempo, na modernidade: o jet lag. De outro modo, destaca as conseqüências negativas dos turnos prolongados de trabalho para os profissionais de saúde e sua relação direta com um maior número de erros de conduta a eles associados. No entanto, a noite não é só temor: por exemplo, na Medicina alegre, a Obstetrícia, poucos são os que se afastam da crença de que o badalar dos sinos biológicos prefira a noite para fazer-se escutar! Foi à noite que nasceu Jesus!
Pode ser que a noite até não alaparde mais enfermidades que o dia; que tudo o que se sugere não passe de artifícios dos autores para capturar a benevolência do sentimento dos crédulos. O deslinde é tarefa para quantos se venham dedicar às contraprovas estatísticas, que porventura socorram as dúvidas dos perplexos. Que não seja preterida contudo a lição bíblica que acalma a quantos, como nós, continuam a temer pelas doenças instaladas durante a noite: "Noli altum sapere, sed time!" (Não pretendas saber muito, mas teme!).
Não é nosso intento fazer a resenha do livro e não é essa a função do prefácio. A ele cabe fazer, ou melhor, pré-fazer a introdução do tema e do texto do livro, verdadeiro estimulante para o deleite que ele antecipa. A responsabilidade é enorme. Sêneca ensina-nos que "O excesso de livros é um peso para o homem que estuda; não o instrui; é muito melhor dedicar-se a poucos autores do que errar a esmo através de muitos". Uns mil e setecentos anos depois, Denis Diderot, em 1763, na sua "Carta Sobre o Comércio do Livro", ratifica o conceito ao afirmar que "antes destes dias de uma suntuosidade que se esvai com coisas de aparato, à custa das úteis, a maioria dos livros fazia parte das últimas." A Revolução Francesa que se seguiu ilumina o caminho definitivo do livro como instrumento essencial de conhecimento e cultura.
Este volume, Medicina da Noite, merece a dedicação que as coisas úteis demandam às pessoas em busca de conhecimento e cultura. Para nós, médicos com interesses gerais ou específicos na matéria, ele traz informação de qualidade, guia-nos pela noite periódica da vida demonstrando sua intensa atividade fisiológica e suas interrelações com a saúde dos dias subseqüentes. Das suas anomalias, estabelece os caminhos determinantes de fenômenos clínicos anormais, delas decorrentes, e que transformam as pessoas em doentes – indivíduos que sofrem, merecedores dos nossos melhores cuidados. Saber é poder, sintetiza esse parágrafo e toda a idéia central do prefácio.
Na tumba do faraó Tutmosis III (XVIII Dinastia, 1504-1450 a.C.), encontra-se o Livro de Amduat que é uma representação religiosa da viagem do deus Sol (Ra) através do mundo "Mais Além": são as ilustrações das doze horas que o deus, acompanhado na sua barca por outras divindades e gênios protetores, realiza a viagem de regresso da morte (a noite) para a vida (o amanhecer), ciclo que se repete a cada anoitecer – são as horas escuras do sol! Essa é a metáfora para Medicina da Noite. Ou como disse um dos colaboradores do livro "para sair da escuridão é preciso admitir a possibilidade da luz!" "Nox gubernatorem prudentem tenet" (A noite atemoriza o piloto prudente). Os autores, prudentes, não se atemorizaram e nos oferecem esses textos amenos e perspicazes que engrandecem a bibliografia nacional!
Bom-Dia, Boa-Noite, Boa Leitura!
José Augusto Messias Omar da Rosa Santos Professor titular de Clínica Professor titular de Médica da Universidade do Clínica Médica da Estado do Rio de Janeiro Universidade Federal (Uerj), diretor do Núcleo de do Estado do Rio de Estudos da Saúde do Janeiro (UniRio) e Adolescente (Nesa/Uerj) e membro titular da membro titular da Academia Academia Nacional de Nacional de Medicina. Medicina.
* Primeira mulher americana a ganhar um Prêmio Nobel em Ciências (1977) e a ser membro da Associação Médica Americana (AMA).