Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica

Parte I – Bases gerais, cronobiológicas e clínicas

Parte I – Bases gerais,

cronobiológicas e clínicas

 

O tempo e o sono na medicina da

noite

 

José Manoel Jansen; Agnaldo José Lopes; Ursula Jansen; Arnaldo Noronha; Gerson Magalhães

 

Introdução

A constatação de que todas as funções do organismo mudam à noite, incluindo as manifestações de numerosas doenças, justifica o estudo particularizado da Medicina da Noite.

Não apenas o ancestral medo do escuro, o silêncio e o isolamento explicam as alterações experimentadas pelo homem à noite. A Cronobiologia, que será a base de grande parte do estudo que ora iniciamos neste livro, está hoje estabelecida como ciência unificadora da Biologia e explica muitas e muitas das mudanças sofridas por todos os organismos vivos ao longo do binômio dia/noite ou de outros ciclos.

Ao falarmos de Medicina da Noite, ao fatiarmos o tempo em dia e noite, na verdade estamos pondo em destaque as diferenças que se expressam em momentos tão diferentes, que estamos acostumados a viver alertas e acordados, durante o dia, ou a viver dormindo e em repouso, durante a noite.

Essa alternância de duas fases nas 24 horas, que leva a grandes diferenças de fisiologia e comportamento, é considerada tão normal entre os humanos que só nos damos conta dela de forma marcante quando há alguma alteração que impeça de dormir à noite ou de não estarmos atuantes de dia.

De maneira geral, podemos imputar todos os eventos médicos da noite a três bases organizacionais, como resumido a seguir:

► Cronobiologia – A principal relação dos fenômenos

biológicos com o tempo é feita com base na oscilação dia-noite,

e esta participa da estruturação dos mecanismos da vida,

constituindo os ritmos circadianos. Outras bases temporais

existem com períodos mais longos como o ciclo menstrual,

além de outros ciclos mais rápidos. De qualquer forma, a noite

tem todas as conotações patológicas e de variações fisiológicas

que serão aqui revistas porque a organização biológica é

comumente oriunda do balanço das fases claro-escuro do

período de 24 horas.

► Efeitos do dormir – O sono é fundamental para a

manutenção da vida harmônica do homem. Suas

conseqüências mais importantes são a recuperação das

atividades física, intelectual e psíquica. O sono é tão importante

que passamos cerca de um terço de nossas vidas dormindo. A

importância do sono é tão destacada que comporta um capítulo

na parte I e outro na parte II, específica dos sistemas orgânicos

alterados à noite, descrevendo, este último, apenas uma de

suas doenças – a síndrome da apnéia-hipopnéia obstrutiva do

sono. Em muitos outros capítulos, o sono é destacado. Vários

efeitos do dormir também podem ter influência na Medicina da

Noite, como o decúbito, a temperatura ambiente que é mais fria

e certas posições do corpo que propiciam compressões de

nervos periféricos, por exemplo.

► Efeitos do não-dormir – Socialmente, a 'noite' é um apelativo

a certas atividades que levam ao gregarismo, à fantasia, ao

romantismo, ao divertimento, às artes, mas também à

extrapolação e práticas perigosas. Assim, é sabida a grande

incidência noturna de traumatismos como acidentes

automobilísticos ou decorrentes de disputas físicas. Também

são comuns as conseqüências de intoxicação exógena, como

os efeitos do alcoolismo e do uso de drogas ilícitas. A insônia e

os medos noturnos inscrevem-se também neste item.

Dessa forma, a Medicina da Noite pode ser resumida em duas facetas:

► o sono (ou também o não-dormir);

► o tempo (base do estudo da Cronobiologia).

 

O sono 1

Para efeito de marcação temporal da noite, consideramos, neste livro, o período que vai de 18h até 6h do dia seguinte. Não dormimos, portanto, durante toda a noite, mas o sono noturno é tão marcante e característico desse período que é considerado 'fundador' do conceito da noite. É praticamente impossível entender e definir a noite humana sem incluir a existência do sono.

O sono é fenômeno vital, tão necessário à manutenção da existência quanto o ato da alimentação, durante a fase de atividade. Sabendo das conseqüências do não-dormir sobre as funções psíquicas, intelectuais e orgânicas, podemos deduzir os múltiplos aspectos que são regulados durante o sono. Na verdade, nem conhecemos em toda sua extensão os mecanismos envolvidos no ato de dormir, sua indução, seu controle e seus mecanismos.

Na escala filogenética, é nítida a presença de alternância rítmica de períodos de atividade e de repouso. Mesmo nas plantas e em animais primitivos, em sua organização, observam-se fases de diminuição ou supressão das funções de alimentação e locomoção. Como se trata de um fenômeno tão uniforme e se correlaciona nitidamente com o sono, este é considerado, na sua dualidade com o estado alerta, igualmente necessário à sobrevivência dos organismos. É como se fosse necessária a alternância de um período de atividade (e gasto energético) com outro de repouso.

O sono é a fase em que se desligam ou atenuam mecanismos e sistemas, com vistas à prevenção da exaustão. Hoje sabe-se que também é a fase em que são executados processos de recuperação e compensação de defeitos energéticos ou bioquímicos surgidos no período de atividade.

Dessa forma, o sono deve ser entendido como alternância vegetativa com o estado desperto. Em conseqüência, ambas as fases desempenham importantes papéis na expressão e na sobrevida dos organismos. No estado desperto, o organismo alimenta-se e executa suas funções de relação, enquanto o sono propicia mecanismos reparadores dos defeitos decorrentes da atividade física e química do outro período. A alternância das duas fases, fica então claro, é a garantia de persistência da vida e de sua expressão. As funções de reparo celular executadas durante o sono são o selo de seu aspecto positivo e indispensável à vida, o que pode ser perfeitamente sentido quando ficamos prolongadamente sem dormir, com intensas repercussões sobre a saúde física, mental e intelectual.

Configura-se, assim, o sono como estado biologicamente ativo, contrariamente a concepções antigas que o tinham apenas como período passivo de repouso.

A seqüência sono-vigília exterioriza alternadamente a predominância ora do sistema nervoso simpático ora do parassimpático. No estado de sono não-REM predomina o parassimpático, com relaxamento do tônus muscular esquelético, queda da pressão arterial, diminuição da freqüência cardíaca, bradipnéia, rebaixamento de diversas funções metabólicas, diminuição do estado alerta até a perda da consciência. Ressalte-se que em alguns períodos do sono REM registram-se significativas descargas simpáticas. No estado alerta, há predominância do sistema nervoso simpático, que nos prepara para a alimentação, a deambulação, a resposta ao meio ambiente, a defesa e o ataque, quando se observam: vigília, músculos esqueléticos tônicos e ativos, aumento das freqüências cardíaca e respiratória, elevação da pressão arterial e aceleração do metabolismo em todos os aspectos.

O ciclo vigília-sono envolveria circuitos neurológicos moduladores capazes de agir difusamente sobre uma série de funções, assim aumentando ou diminuindo o estado alerta do organismo, propiciando o controle do nível de consciência, de uma série de atividades e do comportamento.

Em termos anatômicos, este controle difuso é realizado pela presença de neurônios com axônios extensos e com trajeto difuso e ramificado, possibilitando contato com número muito grande de outras células nervosas.

Dentre esses sistemas difusos há alguns que partem de neurônios localizados no tronco encefálico, geralmente sem formar núcleos (o locus coeruleus e a rafe mediana são exemplos de núcleos constituídos), mas ao contrário, com disposição frouxa e em todas as direções, constituindo, por exemplo, o que foi chamado de formação reticular, a qual se estende do bulbo até o mesencéfalo, com ramificações em direção ao tálamo e ao córtex cerebral. Outros sistemas partem do hipotálamo e do tálamo.

A identificação de neurotransmissores e do mecanismo bioquímico de sua produção foi um progresso muito importante porque mostrou haver diferentes grupos de células e sistemas moduladores, sendo alguns favorecedores da vigília e outros do sono. Como as substâncias são liberadas nos mesmos níveis de células efetoras, irá predominar sono ou vigília na dependência de qual é o neurotransmissor predominante naquele momento. Assim, surge o conceito de gradação do estado alerta (vigília, alerta exacerbado, sonolência, levemente adormecido, sono superficial e sono profundo), sendo este fato revelador de que o sistema não é sempre tudo-ou-nada, sempre traduzindo a expressão de qual microclima de neurotransmissor predomina naquele momento e em que intensidade. Então, o conceito é de modulação da excitabilidade dos neurônios, traduzindo-se no controle do estado de consciência, do grau de funcionamento de múltiplas funções orgânicas e da atividade comportamental. Há, hoje, um mapeamento muito preciso de todas as conexões da formação reticular e dos diversos núcleos do hipotálamo, do tálamo e do tronco cerebral com as diversas áreas do córtex e seus respectivos neurotransmissores (que são noradrenalina, serotonina, acetilcolina, histamina, adrenalina, dopamina, glicina, glutamato, ácido gama-aminobutírico – Gaba – e adenosina).

Muitos mecanismos de produção da vigília e do sono, bem como do balanço entre os dois, são atualmente conhecidos. Nesse sentido, a conceituação de vigília inclui a permanente (embora também cambiante) excitação das células corticais e de outros centros de expressão da vida de relação. Nesse particular, o sono pode ser entendido, em parte, como a depressão do estado geral de ativação do sistema nervoso.

Pelo menos dois sistemas de modulação neurológica podem, hoje, ser considerados, desde que se entendam todos esses mecanismos como expressão de sistemas complexos de controle oriundos de diversos núcleos e formações, como já relatamos, e agindo através de vários neuromoduladores produzidos nas regiões sinápticas pelas extremidades dos axônios.

 

Mecanismos indutores e controladores do ritmo

sono/vigília

Nos dias atuais, os progressos alcançados na compreensão da indução do sono e da vigília e de suas relações têm sido muito grandes. Sabemos, como já foi adiantado, com razoável detalhe e alto grau de comprovação experimental, sobre o jogo de transmissores oriundos de diferentes tipos celulares condensados sob a forma de núcleos ou difusamente distribuídos. É desse jogo cibernético de transmissores que dependem os estados de vigília e de sono e, dentro deste último, seus diversos estágios.

A Figura 1 é um diagrama das diversas regiões encefálicas

envolvidas nos mecanismos supracitados. Na Figura 2 estão esquematizadas as relações das diversas regiões anatômicas da relação sono/vigília.

Figura 1 – Esquema anatômico das regiões e estruturas

encefálicas envolvidas no ritmo circadiano sono-vigília

 

* Núcleo supraquiasmático

Fonte: Adaptado de Foster, R. & Kreitzman, L. Rhythms of Life.

London: Profile Book, 2004.

Figura 2 – Esquema das relações entre diversas regiões do

encéfalo envolvidas no ciclo sono-vigília

 

* Núcleo supraquiasmático

Fonte: Adaptado de Foster, R. & Kreitzman, L. Rhythms of Life.

London: Profile Book, 2004.

Em linhas gerais, a Figura 3 mostra a localização dos diversos núcleos e formações neurais envolvidos no ciclo dormir-despertar,

com os respectivos neurotransmissores. A Figura 4 ilustra os principais mecanismos de inter-relação envolvidos na geração do sono e da vigília.

Figura 3 – Núcleos do encéfalo e respectivos

neurotransmissores envolvidos no ciclo sono-vigília

 

FR = formação reticular; HL = hipotálamo lateral; NPOVL = núcleo

pré-óptico ventrolateral; NSQ = núcleo supraquiasmático; NTLD =

núcleo tegumentar laterodorsal; NTM = núcleo tuberomamilar; NTPP

= núcleo tegumentar pedunculopontino.

Fonte: Adaptado de Foster, R. & Kreitzman, L. Rhythms of Life.

London: Profile Book, 2004.

Figura 4 – Esquema dos mecanismos indutores e controladores

do ritmo sono-vigília

 

O núcleo supraquiasmático, como relógio biológico que é, induz e

controla os mecanismos envolvidos no ritmo sono-vigília. O

hipotálamo anterior induz o sono. O hipotálamo posterior e o tronco

cerebral promovem o despertar e a manutenção do estado alerta. O

tálamo, como 'estação intermediária', modula os estímulos de sono

e de estado alerta. A glândula pineal, através da produção de

melatonina, estimula o sono. Múltiplos estímulos neuroquímicos chegam ao córtex e, de seu balanço, resulta o estado de excitação

ou depressão cortical. A alternância do sono REM e não-REM é

resultado da interação de diversos núcleos do tronco cerebral.

Fonte: Adaptado de Foster, R. & Kreitzman, L. Rhythms of Life.

London: Profile Book, 2004.

De modo geral, podemos dizer que o hipotálamo contém estruturas capazes de promover tanto o sono como a vigília. A interação dessas estruturas com o tronco cerebral produz um sistema oscilante sono/vigília. Os sinais hipotalâmicos resultantes do balanço sono/vigília são transmitidos ao tálamo e daí ao córtex cerebral. Também pode haver conexão direta entre o hipotálamo e o córtex. O núcleo pré-óptico ventro-lateral (NPOVL) do hipotálamo 'promove o sono', liberando ácido gama-amino butírico (Gaba), que é um neutransmissor inibidor do sistema nervoso. Os neurônios do NPOVL projetam-se e inibem o sistema ascendente do despertar (SAD) e o hipotálamo posterior. Outra parte do hipotálamo, o hipotálamo posterior, 'promove a vigília' através da liberação de orexina ou hipocretina, um neurotransmissor excitatório.

O núcleo supra-quiasmático (NSQ), o 'relógio biológico hipotalâmico', mais detalhado adiante, participa de forma conspícua nesse alternar do estado adormecido com o estado desperto, em suas interferências no hipotálamo.

O sistema ascendente do despertar (SAD) 'promove a vigília'. Esse sistema encontra-se no tronco cerebral e é constituído por cinco regiões (núcleos e sistema reticular): núcleo tegumentar látero-dorsal (NTLD), núcleo tegumentar pedúnculopontino (NTPP), núcleo da rafe dorsal (NRD), locus coeruleus (LC) e núcleo túberomamilar (NTM), que liberam diversos neutransmissores excitatórios. Então, em linhas gerais, o tronco cerebral participa ativamente do despertar.

Os impulsos nervosos oriundos do tronco cerebral são dirigidos ao tálamo, que, da inter-relação com todas as outras informações, dirige a resultante ao córtex cerebral.

A oscilação sono REM/NREM é dependente da inter-relação dos núcleos do tronco cerebral e da formação reticular, também aí localizada. A interconexão entre neurônios REM e neurônios NREM gera um mecanismo oscilante de cerca de 90 minutos, que é o intervalo de alternância entre esses dois estados do sono.

A proximidade das diversas estruturas dos mecanismos sono/vigília com uma série de outros centros importantes permite inferir como se passam as diversas influências do sono em outras funções do organismo. Estas vão desde as funções controladas pela hipófise, ao psiquismo, ao controle de temperatura, aos mecanismos de saciedade e tantos outros.

 

Visão integrada do ritmo sono/vigília

A manutenção da 'vigília' ocorre pelos seguintes mecanismos:

► Vias ascendentes excitatórias, originadas no hipotálamo

posterior que se ramificam para diversas regiões do encéfalo,

inclusive o córtex cerebral e o tálamo. Dessa forma, ao

manterem o nível de atividade dos neurônios 'executores',

propiciam a vigília.

► O modo de funcionamento de neurônios-relé do tálamo, de

onde se originam as vias tálamo-corticais, é importante na

excitação cortical. Esses neurônios-relé têm seu modo de

funcionamento ligado a um canal de cálcio dependente de

voltagem, em sua parede celular. Durante a vigília, a situação

desse canal iônico é tal que a excitação cortical propiciada é

elevada.

► Na manutenção da vigília, é fundamental o constante

funcionamento da formação reticular e dos núcleos do tronco

cerebral, conforme já detalhado.

O 'sono' ocorre quando são alterados quaisquer dos mecanismos citados. Então, dormir é, pelo menos em parte, mas não exclusivamente, o desligamento, por efeito de modulação dos mecanismos da vigília, dependente de outros sistemas difusos, envolvendo circuitos específicos. Dessa forma, os mecanismos do sono não-REM são:

► As vias ascendentes excitatórias são inibidas por neurônios

do hipotálamo anterior. À medida que o dia transcorre e a noite

chega, o feixe retino-hipotalâmico sinaliza ao principal relógio

biológico que é representado pelo núcleo supra-quiasmático

(NSQ) no hipotálamo anterior. Axônios aí originados dirigem-se

para o hipotálamo posterior, bloqueando os núcleos túbero-

mamilares, aí localizados. Os núcleos túbero-mamilares são

importantes na manutenção da vigília, e este seria o

mecanismo pelo qual os anti-histamínicos que atravessam a

barreira hemato-encefálica atuariam, desencadeando

sonolência. Quando o sono não-REM se instala, a atividade

tônica dos neurônios mesopontinos na substância reticular e

dos núcleos túbero-mamilares é interrompida, desaparecendo

as oscilações corticais de alta freqüência e dando lugar a

descargas sincronizadas tálamo-corticais lentas e de alta

amplitude, que se apresentam no EEG como fusos do sono e

ondas teta e delta.

► Os neurônios-relé do tálamo mudam seu modo de

funcionamento, o que, em última análise, desliga ou atenua

intensamente a excitação do córtex, levando ao sono.

Já o sono REM depende do funcionamento do sistema modulador dos núcleos do tronco cerebral, que agem sobre o tálamo e, assim, propiciam mudança do funcionamento dos neurônios-relé com ativação do córtex visual e do sistema límbico relacionado às emoções. Daí a natureza quase sempre visual e muitas vezes emocional dos sonhos, característicos desta fase do sono. Também é bom acenar para a existência das vias descendentes para a medula que levam ao relaxamento muscular.

Periodicamente, 90 minutos aproximadamente depois do início do sono não-REM, descargas dos núcleos tegumentares pedúnculo-pontinos e dos núcleos tegumentares látero-dorsais dão início ao sono REM; estes núcleos são ativos durante o sono REM e na vigília, e têm sua atividade inibida pelas descargas do núcleo dorsal da rafe e do locus coeruleus. É por isto que anti-depressivos, através do aumento da disponibilidade de serotonina e norepinefrina, reduzem o sono REM.

Na integração normal entre sono não-REM e REM, tem grande importância um conjunto de células no hipotálamo lateral que secretam o polipeptídeo orexina; tais células, quando comprometidas, dão lugar à narcolepsia.

'Acordar' (sair do período de sono) pode depender de:

► Grande estímulo sensorial como sons intensos e luz, com

desligamento dos mecanismos do sono.

► Ação dos chamados neurônios do despertar do locus

coeruleus.

► Ação de neurônios das regiões basais do lobo frontal.

► Mecanismo de modulação ascendente que influi sobre o

tálamo, restaurando o pleno funcionamento do modo de

transmissão com volta da excitação cortical plena.

► Funcionamento das vias descendentes para excitação dos

mecanismos de ativação dos músculos esqueléticos.

Além de outras considerações, o sono tem duas características básicas: 1) é estado reversível, nisto diferindo da hibernação, do coma e da morte; 2) tem condições de responder a estímulos endógenos ou exógenos de modo limitado, mas, se tais estímulos se intensificam, o sono cessa e sobrevém o despertar. O sono apresenta-se como estado em que animais assumem determinadas posições: eqüinos dormem de pé, bovinos com olhos abertos, morcegos de cabeça para baixo, pássaros se fixam nos poleiros com seus pés e seres humanos preferem o decúbito para dormir. O tempo de sono varia, segundo as diversas espécies: duas horas na girafa, 20 nos morcegos e, quanto a nós adultos, dormimos em média 8 horas, nisto existindo variações individuais e conforme as diversas fases da vida; assim é que o feto dorme quase todo o tempo, o recém-nato 16 a 18 horas, caindo o tempo de sono para 14 horas no final do primeiro ano e para 12 horas aos três anos, chegando progressivamente ao padrão adulto.

Embora possamos ficar, em situações extremas, dias sem comer, tal fato não ocorre com o sono, não sendo possível manter-se o estado de vigília depois de dois ou três dias de privação de sono. Deste modo, é função biológica fundamental, envolvendo três processos básicos: 1) homeostático, determinado pela quantidade prévia de sono e vigília, da qual a necessidade imperiosa de dormir após prolongadas vigílias é característica para que, com o sono, o organismo se recomponha; 2) circadiano, repetindo-se sono e vigília nas 24 horas; 3) ultracircadiano, evidente na própria organização do sono, envolvendo os dois estados diferentes de sono que se sucedem a intervalos de aproximadamente 90 minutos, o sono não-REM e o REM, que têm proporções diversas conforme o grupo etário focalizado; deste modo, no primeiro ano de vida, 50% do sono é REM, caindo para 20% aos três anos e assim se mantendo ao longo da vida.

Tem sido muito enfatizada a busca de uma 'substância do sono', que teoricamente seria acumulada durante a vigília até um limiar que provocaria o sono. Nesse sentido, parecem ser importantes certos moderadores como colecistoquinina e o peptídeo delta-indutor do sono. Também devem ser destacadas, como provocadores do sono, a prostaglandina D2 e a interleucina 1, aumentadas em processos inflamatórios e estabelecendo base para a conhecida relação entre febre e sonolência. Outra substância recentemente muito discutida é a adenosina para a qual diversos receptores, A1, A2a, A2b e A3, têm sido descritos e que se contrapõem à dopamina e, por isto, têm merecido atenção na doença de Parkinson. Estes receptores são bloqueados pela cafeína, daí o possível papel que tem sido atribuído a esta substância para a prevenção da doença de Parkinson e o valor da xícara de café para dominar o sono nas estradas. À medida que o dia passa, os níveis de adenosina aumentam, desencadeando sono e mobilizando ATP; o sono, deste modo, diminuindo os níveis de adenosina, restauraria as reservas energéticas. Finalmente, a melatonina, produzida pela glândula pineal, talvez a mais importante destas substâncias e que será detalhada mais adiante, aumenta desde o início da escuridão da noite e participa na manutenção do sono.

O tempo

Como o tempo é a base da Cronobiologia, permitimos-nos algumas considerações sobre o mesmo.

O Tempo e o Senso Comum

A experiência humana generalizada é tal que nossa civilização ocidental contemporânea lida sem dificuldades com a introspecção do conceito de tempo, a ponto de as concepções de presente, passado e futuro serem consideradas truísmos. Todos temos como verdade desnecessária de demonstração o fato de que o tempo passa sem parar, transformando o presente em passado e sempre se aproximando do futuro. Esta é uma noção que faz parte do senso comum. O momento presente é sempre seguido por outros e assim sucessivamente, de tal forma que os fatos estão sempre ocorrendo numa seqüência de vários 'presentes' que não são percebidos como pontos separados, mas como um desencadear harmônico e inelutável. Não percebemos, inclusive, a brevidade do momento presente que mal acaba de acontecer e já é passado, avançando de forma irresistível para o futuro.

O passado é constituído por fatos que já aconteceram e, portanto, já deixaram de existir. O reliquat do passado é a memória. Mesmo acontecimentos muito recentes, do passado imediato, não perdem essa característica. Sobre eles não mais temos acesso, não podemos modificá-los, como atos perfeitos que são, e nosso alcance sobre eles só pode ser feito através da recordação.

O futuro é um conjunto de fatos que ainda não existe, embora saibamos que caminhamos celeremente para ele. Sobre o futuro, podemos ter apenas perspectivas, desejos ou planos.

Na verdade, o presente não é mais que uma fronteira entre passado e futuro, eternamente se deslocando. É um átimo entre o fato que acabou de acontecer e o que está por ocorrer. E nesse ponto móvel, equilibramos nossas vidas, sem maiores questionamentos, participando do desenrolar de um filme, que sabemos ter começo e fim, mas que é apenas ínfimo fragmento de uma imensidão chamada 'tempo', sobre a qual nada conhecemos, nem se teve início, nem se será finito.

O fugaz momento do presente é, por outro lado, a nossa realidade. A sucessão dos momentos presentes constitui a nossa vida, a oportunidade de intercâmbio com o mundo real. E, no entanto, o presente não é mais que a tênue interface entre passado e futuro.

O tempo é, pois, um conceito extremamente complexo, indefinível, perceptível apenas porque é fácil sentir que o agora já é passado imediatamente após ocorrer.

As visões da Física Teórica sobre o tempo tornaram, a partir do início do século XX, muito mais complexa a concepção do tempo. Espaço-tempo deformável no entendimento da Teoria da Relatividade pode levar a variações do sentido do tempo, quando passado e futuro podem até ser invertidos.

Há até a concepção de que o tempo não existe, quando se especula

que o 'tempo blocado' (Figura 5) faz na verdade parte de um bloco da realidade em que os acontecimentos constituem um conjunto sem separações ou seqüência e, então, o tempo é uma unidade desnecessária na descrição dos eventos (a vida, a História, o infinito). Embora difícil de incorporar, este entendimento é corrente nas teorias físicas modernas.

Figura 5 – Tempo blocado

 

Para a Física moderna, o conceito de passagem do tempo (seta do

tempo) baseado no senso comum é apenas uma ilusão. A Teoria da

Relatividade 'acabou com o tempo', no sentido de presente,

passado e futuro. O termo 'tempo blocado' introduz a concepção de

que toda a eternidade é constituída por um bloco delimitado pelas

três dimensões espaciais mais a temporal. Assim, o tempo em que

os fenômenos ocorrem é unitário. Nesta figura, estão representados

os movimentos da terra e da lua, esta última formando uma espiral

em torno da trajetória da terra. O bloco, dentro do qual ocorrem

todos os fenômenos espaciais e temporais, dá o conceito de que

tudo ocorre como um conjunto, excluindo a idéia de presente,

passado e futuro.

Fonte: Adaptado de Davies, P. That mysterious flow. Scientific

American, 16(1): 6-11, 2006.

Percepção do Tempo

Além de uma indefinida sensação do passar do tempo, o homem moderno conta com marcadores palpáveis que lhe dão uma mensuração concreta do tempo e, mais que isso, referenciais bem definidos: o relógio e o calendário. Esses dois sistemas, que nos parecem tão estabelecidos, são, no entanto, de aperfeiçoamento relativamente recente.

A medição mais precisa do tempo, tornada possível pelo relógio mecânico e pelo calendário gregoriano, permitiu o estabelecimento de padrões, comportamentos e critérios que redundaram numa verdadeira revolução nas categorias mentais do homem medieval, como bem observou Jacques Le Goff. A partir desse ponto, toda a vida humana passou a ser regulada mais estritamente pelos critérios horários, anuais, sazonais. Assim, o modo de vida, as rotinas, as trocas comerciais, as atitudes, os contratos, as viagens, as relações interpessoais e entre grupos e nações passaram a ser reguladas com mais precisão por esses critérios.

Os aperfeiçoamentos modernos dos relógios tornaram a medida do tempo menos sujeita a erros. O homem moderno usa o relógio eletrônico com a simplicidade das coisas do dia-a-dia. O relógio atômico é de grande precisão.

Embora as marcações temporais permitidas pelo relógio e pelo calendário pareçam ser tão estritas e precisas, não resistem a uma superficial análise no tocante aos seus princípios e à aplicação prática.

Com efeito, o dia terrestre é dependente da rotação da Terra sobre si própria. Essa medida não é precisa a ponto de ser absoluta. O acúmulo de erros ao longo dos séculos pode redundar em diferenças consideráveis. Além do mais, não sabemos a respeito de possíveis variações dessa rotação por força de variáveis astronômicas e terráqueas incontroláveis.

A definição de que o dia começa com o nascer do sol não passa de uma convenção. Em termos de contagem das horas, também por convenção, o dia começa à meia-noite ou zero hora. De acordo com a latitude e a estação do ano, os dias e as noites têm durações diferentes.

Na dependência da longitude, a marcação horária é diferente. Assim, os antípodas têm diferenças de 12 horas e quando é dia num dos lados da Terra é noite no outro. Isto, que é conceito introjetado em pessoas minimamente informadas, é difícil de entender fora da esfera intelectual, e pessoas não instruídas (como ainda há muitos milhões no mundo) absolutamente não compreendem o que lhes parece uma incongruência. Na prática moderna das viagens a jato, as conseqüências biológicas desagradáveis do jet-lag são a manifestação palpável dessas diferenças. Outro fato, mais marcante ainda, é o problema da Linha de Data Internacional traçada no oceano Pacífico e que, para respeitar determinadas unidades de arquipélagos e outros interesses, é traçada em zigue-zague. Aquém e além dessa linha, são contados dias diferentes, com um delta de 24 horas. Quem cruza a linha no sentido de Leste para Oeste perde um dia inteiro no calendário. Quem faz o trajeto inverso (Oeste para Leste) ganha um dia e aquela semana será de oito dias. Esse curioso fato foi aproveitado por Jules Verne como base para a contagem dos dias na aposta do personagem de A Volta ao Mundo em 80 Dias: parecia, ao viajante, que tinha levado 81 dias no seu périplo, mas descobriu, apenas na chegada, que cumprira o prazo, pois estava um dia atrás no calendário por ter ultrapassado a Linha de Data Internacional de Oeste para leste e completou a viagem dentro do prazo estabelecido (ganhara um dia, devido ao sentido de sua viagem).

Nosso sentimento de estabilidade em relação aos sistemas de mensuração e marcação do tempo é muito grande. Lembremos apenas os distúrbios causados na Inglaterra em 1916, quando, pela primeira vez, foi introduzido o horário de verão; o adiantamento de uma hora nos relógios sofreu grande oposição. Hoje, a providência de adotar o horário de verão é seguida por muitos países, inclusive o Brasil. Mesmo assim em nosso país, nos últimos anos, foi pleiteado e aceito que o horário de verão fosse medida adotada apenas em parte do território nacional. Lembre-se aqui que países de extensão continental como o Brasil, os Estados Unidos e alguns outros convivem o ano inteiro com horas locais diferentes por força de diferentes fusos horários.

Um outro problema a discutir é o nosso sentido interno de tempo. Ele certamente depende da sensação intrínseca da passagem do mesmo e tem correlação com o psiquismo e com as experiências externas em que o mundo exterior dá outras marcações. Dessas inter-relações com o ambiente, o sentido do tempo pode sofrer grandes mudanças. É da experiência humana geral o fato de que, quando estamos empenhados com muita atenção e geralmente com prazer num determinado ato, 'o tempo passa rápido' e que, ao contrário, quando o tédio e/ou desagrado comandam a ação, 'o tempo é longo'. Muitos fatores, além dos citados, interferem nessa percepção intrínseca do tempo, como: confinamento, fome, perigos, uso de drogas, ambiente desagradável, idade etc. Estudos recentes têm revelado um 'relógio de intervalo', mecanismo celular nervoso relacionado com essa sensação da passagem do tempo que envolve o corpo estriado, a substância nigra, o tálamo e um subconjunto especial de células corticais.

Não nascemos com o sentido do tempo. Ele parece ser adquirido pela criança nos primeiros três anos de vida e depende da demora em conseguir satisfazer suas necessidades mais básicas, como saciar a sede e a fome. Na verdade, o sentido de tempo parece ser uma construção intelectual muitas vezes relacionada com o espaço que deve ser vencido para satisfazer as necessidades e, aqui, pela primeira vez, é introduzida a relação entre espaço e tempo.

De qualquer forma, o conceito pleno de tempo demanda o desenvolvimento da capacidade de abstração que só vem a ocorrer bem mais tardiamente na vida. Aos oito anos, parece que já existem os conceitos de antes e depois.

No tocante a comunidades primitivas existentes nos dias de hoje, há múltiplos estudos mostrando a dificuldade de introjeção do sentido de tempo. Os hopis do Arizona, estudados por Lee Whor, falam uma língua sem qualquer referência ao tempo. Os azandes, povo do Sudão, estudados por Evans-Pritchard, compactam presente e futuro, propiciando intervenção atual sobre acontecimentos que ocorrerão no futuro, o que é decorrência de atitudes místicas e propicia a atuação de oráculos e curandeiros. Os nuers, outra tribo do Sudão, também estudada por Evans-Pritchard, não possuem uma categoria temporal comparável à ocidental. Pensam e relacionam os acontecimentos como uma sucessão de atividades, apresentando uma curiosa marcação externa que pode até evocar as possíveis posições do homem pré-histórico. Essas marcações são acontecimentos importantes para aquela comunidade, tais como fatos ocorridos com os rebanhos e catástrofes (doenças, enchentes, secas, guerras).

Com esses estudos, podemos sintetizar que não há uma única concepção de tempo entre os homens e concluímos que nossa visão do assunto é uma entre muitas, provavelmente melhor e mais desenvolvida, mas não exclusiva no sentido de perceber e explicar a sucessão de eventos que se passa ante a vista de toda a humanidade.

De qualquer forma, nossa civilização é a que mais consciência tem do tempo, o que fez com que ele mais influísse no nosso estilo de vida. Continuamente, pautamos nossas ações pela marcação do tempo feita pelo relógio e pelo calendário. Consultar o relógio portátil (atualmente, de pulso) e organizar uma agenda de atos futuros em função do calendário são rotinas do homem moderno.

Seta do Tempo-Ciclo do Tempo

Outro problema do nosso microcosmo é que o tempo passa, escoa em direção ao futuro (seta do tempo), mas recorre sempre, o dia termina e começa outro dia, o ano termina e outro inicia (ciclo do tempo).

Essas considerações foram motivo de discussão em todas as civilizações e em todos os tempos, ora predominando uma das concepções, ora outra.

As concepções heraclíticas de mudança permanente na história dos homens estão também presentes no pensamento da civilização ocidental contemporânea. Mas não apenas da vertente grega do pensamento herdamos essa concepção. A filosofia judaica de que Deus criou o mundo em seqüência e a certeza da próxima vinda do Messias são exemplos prototípicos do entendimento do tempo como seqüência, como seta que aponta para o futuro. Todas as revoluções sociais (americana, inglesa, francesa, marxista) e científicas (de Galileu, Darwin, Freud, Newton, Einstein) têm como base o conceito de progresso e como alvo o futuro. Qualquer entendimento de Evolução só tem sentido se mostrar mudança na comparação do agora com o antes e com o depois. Assim, nossa vida está incorporada ao conceito de seta do tempo. O conceito de 'novo' está intimamente ligado ao do tempo que avança na História.

Em contrapartida, o conceito de que o tempo recorre está muito evidente na constatação de que dia e noite se sucedem e o ano termina, recomeçando a seguir. É como se tudo fosse repetitivo. É a concepção de ciclo do tempo.

Grande polêmica sobre tempo-cíclico e tempo-contínuo sempre permeou as interpretações filosóficas, especialmente a grega, que é, sem dúvida, o começo dessa dualidade de pontos de vista que perdura até hoje.

Em várias e bem distintas civilizações foi constatada a repetibilidade periódica de fenômenos astronômicos. São exemplos a civilização

egípcia, a maia e a cristã, explicitadas nas figuras 6, 7 e 8, certamente devido à força dos fatos geofísicos que dominam a vida na Terra.

Figura 6 – A deusa do céu, Nut, e o ciclo solar na concepção da

civilização egípcia

 

Na cosmogonia da civilização egípcia, revela-se de maior

importância a Grande Enéade (nove deuses) de Heliópolis. No começo era o caos, constituído de líquido informe, escuridão e

silêncio. Atum ou Ra, o sol, emerge do silêncio para criar o mundo.

De suas mãos e de sua respiração saem o deus do ar, Shu, e a

deusa da chuva/umidade, Tepru. Estes últimos dão nascimento a

Geb, deus da terra, e a Nut, deusa do céu, e, então, o universo foi

criado. Geb e Nut uniram-se carnalmente, o que não era permitido

por Atum. Este, então, enviou Shu para separá-los, o que

possibilitou a vida sobre a terra e condenou Nut a não procriar em

todos os dias conhecidos. Ocorre que o calendário de então era constituído de 360 dias, 30 dias em cada um dos 12 meses. Thot, o deus da sabedoria, resolveu ajudar Nut e conseguiu criar cinco dias extras com empréstimo da luz da lua, totalizando 365 dias no ano, o que permitiu a Nut dar à luz cinco filhos, cinco deuses: Osíris, Hórus

(o velho), Set, Ísis e Nephthys, completando a Enéade. Nut, deusa

do céu, é representada nua e arqueada, conformando a abóbada

celeste. As extremidades de seus quatro membros que tocam a

Terra correspondem aos quatro pontos cardeais. Para representar o

ciclo solar e o recomeço a cada dia (ciclo do tempo), Nut é a peça

fundamental, explicando a alternância do dia com a noite. Ao fim da

tarde, quando o sol vermelho alcança o horizonte, ele é engolido por

Nut e passa a noite percorrendo o corpo da deusa até que, na

manhã seguinte, glorioso, é parido como sol nascente amarelo,

vivicador de todas as coisas e muitas vezes representado por Khepri, o escaravelho sagrado. Lembremos que Atum-Ra é o

criador de Nut, possivelmente seu marido enciumado que lhe lança

um vaticínio negativo e, de uma certa forma, seu filho, já que dela

nasce todas as manhãs.

Figura 7 – O ciclo solar na civilização maia

 

A concepção dos maias em relação ao universo descreve três

mundos: 1) o Mundo do Meio, que é a Terra, habitada pelos

homens, é constituído de um quadrado que flutua num imenso

oceano, fazendo limite com 2) o Inframundo, local dos mortos e de

deuses específicos, constituído de nove níveis; 3) o Mundo Superior,

constituído de 13 níveis, é o território dos deuses e dos astros. No

centro do universo e alcançando os três mundos encontra-se a

Árvore Cósmica, a seiba (Ceiba pentandra) sagrada justamente

porque representa o eixo do mundo e a conexão entre Mundo

Superior, Mundo do Meio e Inframundo. Os estudos astronômicos

maias eram tão precisos que obtinham resultados mais exatos que

os do calendário gregoriano atualmente vigente. Dentro dessa

perspectiva, o sol era muito estudado, como astro de luz e vida,

revelando uma das divindades mais potentes. Embora sem saber

explicar o ciclo solar, em que o astro mostra-se brilhante durante o

dia e está oculto durante a noite, a mitologia maia representava o

sol noturno como um deus específico, Gill da Tríade de Palenque.

Nesta figura, está representado todo o ciclo solar através de sua eclíptica, incorporando o trajeto diurno e o noturno (passagem pelo

Inframundo). O curso diurno é o símbolo dos fenômenos da vida

humana no período claro. À noite, a vida continua, porém o deus

Jaguar, metáfora do sol noturno, avança pelo Inframundo para

renascer no próximo dia e fechar o ciclo solar.

Figura 8 – Concepção cristã da seta do tempo associada ao

ciclo do tempo

 

Frontispício da primeira edição de Telluris Theoria Sacra ('Teoria Sagrada da Terra') –1690 – de Thomas Burnet. Nesta concepção, a

história da Terra é feita seguindo a seta do tempo, porém na

conformação de um círculo que termina por representar o ciclo do

tempo. Jesus, sob o lema "Eu sou o alfa e o ômega", assenta seus

pés sobre dois globos, que são acompanhados por cinco outros,

formando, o conjunto, um ciclo. Segundo a tradição da corporação

dos relojoeiros, devemos iniciar a interpretação no sentido horário, a

partir do globo sobre o qual está o pé esquerdo de Jesus, seguindo até o último globo, o que está sob o pé direito. O primeiro deles é o

da Terra original, caótico e amorfo, negro. A seguir, a Terra

organizada, lisa do Éden, antes da queda. O terceiro é o dilúvio, com a representação das águas sobre a superfície da Terra: nessa

representação, a pequena mancha escura acima da linha do

Equador é a arca de Noé. A próxima é a Terra pós-dilúvio, com a

crosta rachada em continentes: é o período que vivemos. A outra,

futura, é o período da consumação pelo fogo, talvez fruto de

hecatombe nuclear. A resolução ocorre na esfera seguinte, com a

Terra expiada de pecados, lisa como a primordial, reino da volta de

Cristo por mil anos. A última ocorrerá quando do Juízo Final, quando

os justos não mais habitarão a Terra, que se transformará em

estrela. Essa história é, sem dúvida, a seta do tempo, que mostra toda a história da Terra numa seqüência. Porém, os globos estão

dispostos em círculo, e o que inicia em Cristo a ele retorna,

fechando o ciclo.

Fonte: Figura e interpretação de Gould, S. J. Seta do tempo. Ciclo

do tempo -mito e metáfora da descoberta do tempo geológico. São

Paulo: Cia. das Letras, 1991.

Em múltiplas áreas das ciências, a constatação de repetição de fenômenos retoma o conceito de ciclo do tempo. No tocante à Medicina, as considerações sobre a seta do tempo são muito relacionadas às modificações orgânicas do evolver da vida e do envelhecimento, e aquelas sobre o ciclo do tempo têm conexão direta com a Cronobiologia e todo o desenrolar da matéria deste livro. A seta da idade e o ciclo dos fenômenos cronobiológicos não lutam entre si; são concepções humanas (e portanto interpretações da realidade) que causam tensão ao pensamento, mas sempre terminam por promover o melhor entendimento da vida. Podem servir para, juntas (e não separadas como aparentemente poderia acontecer), permitirem o avanço, a melhor compreensão dos fenômenos biológicos.

O conceito de ciclos que se repetem também está incluído na Bíblia: "O que foi é o que será; o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol" (Eclesiastes, Prólogo – vs. 9).

Na profundidade das realidades percebidas pelo homem moderno, há necessidade das duas concepções de tempo, pois, enquanto uma (a seta) torna inteligíveis os fenômenos irreversíveis e que fluem, a outra (o ciclo) torna compreensível uma série enorme de fenômenos recorrentes.

 

Bibliografia

BANTI, A. Galileu Galilei. Lisboa: Portugalia, 1966.

BARROW, J. D. A Origem do Universo. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

BRUTON, E. Histoire des Horloges, Montres et Pendules. Paris: Editions Atlas, 1983.

CIPOLLA, C. M. Clocks and Culture. London: Collins, 1967.

DAVIES, P. That mysterious flow. Scientific American, 16(1): 6-11, 2006.

DÍAZ-MUNÕZ, M. et al. Correlation between blood adenosine metabolism and sleep in humans. Sleep Res. Online, 2: 33-41, 1999.

ELIOT, T. S. Quatro Quartetos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

FILKIN, D. Stephen Hawking's Universe: the cosmos explained. New York: Horper Collins, 1997.

FONTOURA, W. Tempo fugaz. O Globo, Rio de Janeiro, 1 jan. 1996, p 7.

FOSTER, R. & KREITZMAN, L. Rhythms of Life. London: Profile Books, 2004.

GOULD, S. J. Seta do Tempo. Ciclo do Tempo – mito e metáfora da descoberta do tempo geológico. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

GRIBBIN, N. Tempo: o profundo mistério do universo. 2.ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1983.

HAGEN, R. M. & HAGEN, R. Egipto – Pessoas – Deuses – Faraós. Köln: Taschen, 2003.

HAWKING, S. W. Buracos Negros, Universos-Bebês e Outros Ensaios. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

HAWKING, S. W. Uma Breve História do Tempo: do Big-Bang aos buracos-negros. 27.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

INOUE, S. Biology of Sleep Substances. Boca Raton: CRC Press, 1989.

LENT, R. Cem Bilhões de Neurônios. São Paulo/Rio de Janeiro/BeloHorizonte: Atheneu, 2002.

LOUGHENA, M. L'Écriture Maya. Paris: Flammarion, 1999.

LOYN, H. R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.

MADALENA, J. C. O Sono: normal patológico, terapêutico. São Paulo: Fundo Editorial Byk-Procienx, 1979.

OATLEY, K. O Cérebro: computador humano. Lisboa: Editorial Verbo, 1972.

PONS, H. P. Patrimonio cultural de los grupos mayas: la ceiba. Arqueologia Mexicana, 28: 68-73, 1997.

PORTELLA-NUNES, E. Espaço, tempo e transformação em medicina. Rio de Janeiro: Memória ANM, 1983.

PRIGOGINE, I. & STENGERS I. Entre o Tempo e a Eternidade. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1992.

REIMÃO, R. Sono: aspectos atuais. Rio de Janeiro: Atheneu, 1990. ROSSI, P. Os Filósofos e as Máquinas. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1989.

SCHULZ, R. & SEIDEL, M. Egipto: o mundo dos faraós. Köln: Könemann, 2001.

SPREYER, E. Seis Caminhos a partir de Newton: as grandes descobertas na física. Rio de Janeiro: Campus, 1995.

TOYNBEE, A. Sobre o Ciclo do Tempo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

VERSIAN, M. Calendas e idos. O Globo, Rio de Janeiro, 17 set.1994, p. 7.

WHITROW, G. J. O Tempo na História: concepções sobre o tempo da pré-história aos nossos dias. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1993.

WRIGHT, K. Os tempos da nossa vida. Scientific American-Brasil, 1(5): 70-77, 2002.

ZUGER, A. Nighttime and fevers are rising. New York Times, Nova York, 28 set. 2004.

1 Para explicação das fases REM e não-REM do sono, ver artigo 7.