Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica
Cronobiologia e seus mecanismos
José Manoel Jansen; Agnaldo José Lopes; Ursula Jansen; Domenico Capone
Histórico e bases iniciais
A Cronobiologia é uma ciência que permeia toda a Biologia, influenciando praticamente todos os seres vivos em suas múltiplas funções. Os conceitos dessa nova ciência tendem a participar de todos os ramos do estudo dos seres vivos, inclusive na Medicina. Cada vez mais constatamos a importância dessas influências e nos perguntamos por que a Cronobiologia demorou tanto a se impor, já que muitos ciclos humanos e de outras naturezas são tão claros, como: ciclo menstrual, ciclos das plantas relacionados às estações, ciclos de movimentos das plantas em relação às horas dos dias, migrações de aves, hibernação etc.
A resposta a essa inquirição talvez passe por três pontos: a) a demora em constituir um corpo de doutrina que pudesse fazer suficiente pressão sobre o pensamento biológico; b) a dificuldade em desenvolver métodos convenientemente precisos para comprovar e explicar grande número de fenômenos temporais; c) a existência de conceitos biológicos de estabilidade incorporados à doutrina da homeostasia e que impediam o desenvolvimento das idéias de variação temporal.
Parece que Jean-Jacques De Mairan, astrônomo francês, foi quem fez o primeiro relato científico de um fenômeno temporal-cíclico observado em um ser vivo, em 1729, através de comunicação à Academia Real de Ciências de Paris. Um exemplar de Mimosa pudica (conhecida como sensitiva), existente num vaso da janela junto ao seu telescópio, apresentava movimentos de abrir e fechar as folhas, movimentos estes que pareceram ao astrônomo guardar relação com o dia e a noite. Curioso com o fato, De Mairan levou a planta para o porão do observatório e vedou toda a entrada de luz que pudesse dar a marcação da hora do dia. Observou, então, que os movimentos das folhas mantinham-se. Assim, esse foi o primeiro exemplo de fenômeno temporal observado em livre-curso. Como, na época, todos os fenômenos semelhantes eram dados por conta de influência direta das flutuações de luz ou calor do ambiente, foi julgado por muitos que o astrônomo não conseguira fazer o isolamento perfeito da planta e a persistência dos movimentos era devida a qualquer marcação externa que tivesse persistido. A partir daí, muitas discussões e experimentos acerca dos movimentos da Mimosa pudica ocorreram.
Trinta anos após a comunicação de De Mairan, Du Monceau demonstrou que os movimentos da sensitiva eram independentes de variações ambientais de temperatura. Em 1832, De Candolle demonstrou que o período de variações das folhas da sensitiva, quando em livre-curso, era de 22 a 23 horas e não de um dia certo (24 horas). A seguir, Pfeffer, inicialmente incrédulo quanto a influências do tempo na sensitiva, terminou por se convencer do contrário, após experimentos estritos. Sem dúvida, quando um cientista muda a sua hipótese perante a evidência extraída de investigação bem conduzida, isto representa um peso muito grande no tocante a suas conclusões.
No terreno médico, a primeira manifestação de fenômeno cronobiológico foi a tese de doutoramento de Virey, na França, sobre variações circadianas da temperatura em pessoas sãs e doentes.
Charles Darwin, em publicação de 1880, dizia que os movimentos das plantas se devem a propriedades inerentes a elas próprias.
Desses primeiros relatos, já fica clara a essência das variações biológicas relacionadas ao tempo: 'as alterações são dependentes de mecanismos próprios do organismo, guardam relação com o tempo (dia, ano, semana etc.), mas são independentes do mesmo'. Tudo se passa como se um mecanismo 'aprendido' e relacionado ao tempo se tornasse independente do mesmo e, por conseqüência,
autônomo (Figura 1). A luz e outros fatores externos guardam relação com esses fenômenos apenas como 'corretores' do período das variações apresentadas.
Figura 1 – Estudo em livre curso
Em A – Atividade de ratos obtida em ciclo claro/escuro de 24h. Em
B – Estudo em livre curso. Há uma deriva do ritmo que não é
espontaneamente de 24h.
Fonte: Adaptado de Cippola-Neto, J.; Marques, N. & Menna-Barreto, L. S. Introdução ao Estudo da Cronobiologia. São Paulo: Ícone/USP.
1998.
No decorrer da segunda metade do século XIX, de todo o século XX e deste início do XXI, milhares de experimentos em todos os ramos da Biologia documentaram sempre o mesmo: a existência de múltiplos ritmos alcançando praticamente toda a escala taxonômica e em múltiplas de suas funções.
Em 1935, Bünning introduziu um outro conceito fundamental que é a transmissão hereditária da marcação temporal. Estudando uma espécie de feijão, no tocante a movimentos do caule e das folhas, demonstrou a transmissão por hereditariedade dos períodos correspondentes aos movimentos.
A maioria dos autores concorda que a Cronobiologia veio a se impor como conceito definitivo e progressivo a partir de meados do século XX. Com efeito, hoje, compreendemos razoavelmente bem os mecanismos envolvidos e reconhecemos o fenômeno de forma ampla. Mesmo assim, ainda há necessidade de maior aceitação e, principalmente, de aplicação dos conceitos teóricos, especialmente na Medicina. Dois exemplos dessa necessidade premente de aplicação, que correspondem a campos inteiramente comprovados, são: a) valores de normalidade das constantes biológicas – sabe-se que os valores normais são variáveis nas 24 horas, em qualquer setor da economia humana e, no entanto, há poucas tabelas de normalidade que levem em conta esse fato; b) cronofarmacologia – sabe-se das variações de absorção e de outros parâmetros da farmacocinética de múltiplas drogas em relação ao tempo, e as prescrições continuam sendo feitas como se não houvesse esses fenômenos.
Os ciclos geológicos e astronômicos como
bases ancestrais da temporização biológica
Os ciclos geofísicos e astronômicos, muito marcados, são influência permanente sobre toda a Terra, principalmente sobre os seres vivos nela existentes. As condições diurnas e noturnas são variáveis e se repetem alternadamente durante toda a duração da vida de qualquer organismo. O dia solar exerce papel fundamental na possibilidade de sobrevivência. Se houver oportunidade de adaptação alternada às condições do dia e da noite, há, evidentemente, mais chance de vida e reprodução. A marcação do dia depende, todos nós sabemos, da rotação da Terra. O ano solar, outro marcador astronômico de suma importância, pode determinar invernos arrasadores, verões dificílimos, secas, inundações etc. Portanto, as condições ecológicas podem propiciar a sobrevida de animais adaptados a variações temporais, por comparação a outros, desprovidos desse equipamento.
A lua, ao influenciar a Terra através de seu efeito de atração e que se faz sentir mais pelo fenômeno das marés, mas que tem também outras conotações, permite marcação nítida através do mês lunar, cuja maior expressão é o mês sinódico ou lunação (diferença entre duas luas novas ou duas luas cheias), que é de 29,53 dias.
Mecanismos de antecipação: importância dos
ciclos temporais na adaptação dos seres vivos
É evidente que um ser vivo, com mecanismos capazes de adaptá-lo, quer morfológica, quer funcional, quer topograficamente, às variações cambiantes promovidas pelos ciclos geofísicos e de outra natureza, terá muito melhores chances de sobrevida que outros, desprovidos dessas vantagens. Esse conceito está embutido no princípio fundamental de persistência do mais apto, base de todo o discurso da Evolução. Embora essas considerações não façam parte do arrazoado inicial de Darwin nem dos primeiros estudos evolucionistas, hoje é perfeitamente assimilável à teoria da seleção das espécies, permitindo a sobrevida dos seres mais adaptados.
Os ciclos biológicos são de tal ordem que apresentam o fenômeno da 'antecipação'. Isto significa que as alterações ou mudanças necessárias ao enfrentamento de uma determinada situação relacionada ao tempo ocorrem independentemente de o fenômeno temporal se expressar. Assim, antes que uma variação da luminosidade ou da temperatura ambiente apareça, já o organismo mostra seus mecanismos adaptativos. É como se 'adivinhasse' o que vai ocorrer a seguir. É a esse fenômeno que se denomina antecipação e que é uma das características mais típicas desses ciclos. É por isso que a planta sensitiva continua a fechar e abrir suas folhas em plena escuridão, sem necessidade da marcação da luminosidade para os movimentos foliares.
Qual mecanismo é responsável por esse fenômeno? Aqui aparecem duas vertentes. A primeira é decorrente basicamente da publicação de Peter Anokhin em 1974, na qual é postulado que as variações espaciais e temporais ocorreram na Terra mesmo antes do aparecimento da vida, estando, portanto, inscritas na matéria orgânica não viva, da qual se originou a vida e mesmo na matéria inorgânica. A vida primitiva, ao aparecer, já possuiria características fundamentais, relacionadas a essas variações e a ciclos temporais. Esses conceitos são adotados por alguns cronobiologistas, porém o mais provável é que a segunda linha de hipóteses esteja mais em conformidade com os recentes conceitos de hereditariedade, mecanismos cromossômicos e evolução. Essa outra tendência diz respeito à aquisição de características por variação e seleção natural em face da adversidade. Seres vivos que apresentassem determinadas características com mudanças temporais de comportamento ou metabolismo seriam mais aptos e sobreviveriam, transmitindo suas características aos descendentes. Diversos estudos genéticos têm confirmado esses mecanismos de DNA-RNA, o que, no entanto, não é prova cabal e definitiva em favor dessa segunda possibilidade, pois pode também corresponder a mecanismos positivos não surgidos por seleção, mas inscritos na matéria viva desde os primórdios, sem significar, necessariamente, a sobrevivência de um mecanismo mais perfeito por comparação a outros. A discussão teórica é que pende para a seleção, que estará mais conforme com todo o conhecimento atual sobre Evolução. Sem dúvida, as técnicas genéticas modernas de hibridização, reação em cadeia da polimerase (PCR) e outras poderão trazer grandes esclarecimentos em futuro próximo.
Mesmo com essa disparidade interpretativa, uma coisa, no entanto, é certa: o aparecimento dos mecanismos relacionados ao DNA e resultantes em alteração ciclo-temporais é muito precoce na evolução da vida, uma vez que se manifesta mesmo em seres unicelulares e se mantém em toda a escala filogenética. É possível que a seqüência da evolução tenha reforçado certas peculiaridades ou feito aparecer novos caminhos, mas, desde precocemente, o fenômeno já era provavelmente presente.
Um exemplo genérico e muito ilustrativo de ritmos temporais diversos em animais ou plantas diferentes e que significa adaptação ao ambiente é o dos nichos temporais. Numa mesma floresta (nicho espacial), por exemplo, há animais que se locomovem e se alimentam à noite, outros de dia, outros ao amanhecer e ainda outros ao anoitecer. Cada um preserva seu nicho temporal, evita a competição desenfreada e se protege. Outro exemplo marcante de nicho temporal é o das flores de diversas espécies que se abrem em horas bem determinadas e diversas do dia, permitindo a polinização seletiva e garantida por parte de insetos como abelhas.
O tema dos nichos temporais mostra que as variações em relação ao tempo não são unívocas e devem, portanto, ter 'nascido' em momentos diferentes da evolução, sendo resultantes de diversas linhas desenvolvidas separadamente e não oriundas de um único e exclusivo fenômeno primitivo.
Sem dúvida, o tempo, como fator de seleção, é uma importante variável que se acrescenta ao edifício da Evolução e lhe traz nova significação e um desdobramento muito esclarecedor a respeito de miríades de fenômenos biológicos.
Um conceito genérico que aflora dos experimentos cronobiológicos é que o comportamento temporal dos seres vivos encontra-se ajustado às condições ambientais, permitindo-lhes relacionar-se com o 'meio externo' da forma mais adequada e nos horários corretos.
Características da ritmicidade dos seres vivos
Os ritmos biológicos são nitidamente o aparecimento recorrente e regular de eventos fisiológicos, morfológicos ou comportamentais, antecipando-se a fatos externos, por força de mecanismos genéticos selecionados ao longo da evolução.
O referencial temporal pode variar muito. Assim, podemos ter ritmos:
► circadianos (circa + diem), com período aproximado de um
dia. São considerados ritmos de 24 ± 4 horas;
► ultradianos, com período menor que 20 horas;
► infradianos, com período maior que 28 horas;
► circanuais, com período aproximado de um ano;
► circalunares, com período aproximado de uma lunação;
► circasseptanos, com período aproximado de uma semana;
► circamarés, com período aproximado de 12 horas.
Os ritmos circadianos são os mais estudados atualmente, até porque seguem uma freqüência relativamente alta e são muito relevantes na observação corrente. São exemplos marcantes os regimes repouso-atividade e sono-vigília. Estão relacionados à expressão clínica de um número muito grande de doenças, a variações de processos metabólicos e a componentes orgânicos.
Os ritmos ultradianos muitas vezes não apresentam marcadores conhecidos, na atualidade. Não obstante são muito importantes na fisiologia e na doença. São exemplos: eletroencefalograma, eletrocardiograma, freqüência respiratória. Recentemente, estudos eletrocardiográficos computadorizados têm demonstrado influências simpáticas, parassimpáticas e de outras naturezas sobre os fenômenos elétricos temporais do coração.
Os ritmos infradianos são todos os circanuais, circalunares e circasseptanos.
Como podemos notar, os ritmos são denominados com o prefixo 'circa', justamente para denotar sua proximidade dos marcadores externos. A esse propósito, vale, neste momento, introduzir um conceito fundamental em Cronobiologia e relacionado a este detalhe que estamos discutindo. Como a marcação horária interna raramente é precisa (e vamos aqui considerar fundamentalmente os ritmos circadianos) em relação ao dia (externo), há mecanismos de ajuste para permitir a sincronização do ritmo endógeno com os eventos ambientais. Esses mecanismos são fundamentais para manter uma adequação perfeita, de forma a permitir a expressão correta do fenômeno tempo-fisiologia. Sem que isso se realize, não ocorre a vantagem evolutiva da ritmicidade. A esse fenômeno de ajuste denomina-se 'arrastamento', e ele está perfeitamente comprovado. Ao fator externo que comanda esse ajuste, denomina-se zeitgeber, que, em alemão, significa 'aquele que impõe o tempo'. O sincronizador externo mais comumente envolvido nos ritmos circadianos é a luz. Com efeito, a luz solar, mas também a luz de laboratório em condições experimentais, pode provocar ajustes de fase, possibilitando que, por exemplo, um ritmo endógeno de 25 horas seja arrastado ou ajustado para 24 horas.
Quando dois fenômenos oscilatórios (ondas) unívocos ou de mesma direção apresentam os 'picos' no mesmo instante, diz-se que eles se encontram 'em fase'. O contrário, ou seja, quando ocorre dessincronização, é a condição 'fora de fase'. O que o zeitgeber provoca é o arrastamento da situação 'fora de fase' para 'em fase', permitindo o ajustamento de fase entre os dois fenômenos. Quando a fase ('pico') do marcador endógeno está adiantada em relação ao zeitgeber, diz-se que a diferença é positiva e, inversamente, é negativa se o ritmo endógeno estiver atrasado. Essa diferença pode ser expressa em ângulo de fase representado pela letra grega 'phi' (φ). O ângulo de fase é a diferença de fases expressa em ângulo correspondente à fração dos 360° que for ocupada por essa diferença, em relação ao período total de 24 horas que corresponde a toda a circunferência. Como exemplo: num ritmo circadiano, 24 horas correspondem a 360°; se houver uma diferença de fase de duas horas, diz-se que o ângulo de fase dessa diferença é de 30°, valor obtido por simples regra de três, em que se obtém o valor de 30° em relação a 360°, comparativamente à relação de duas para 24 horas.
A luz, como dissemos, é o principal ajustador externo. Dependendo do animal (ou planta, ou organismo inferior) e do tipo de ritmo, funcionam a luz propriamente dita ou a ausência da mesma, ou o crepúsculo, ou a intensidade da luz ou o período da mesma. Tome-se como exemplo um pequeno roedor da floresta com hábito noturno de vigília e atividade; o ajustador é o início do período escuro, quando ele inicia suas atividades, ajustando o período do ciclo endógeno. O inverso pode ser dito em relação ao homem, animal diurno, quando o zeitgeber é a luz e não o escuro.
O ajustamento pelo zeitgeber, como é fácil concluir, deve ser realizado a cada ciclo, quando é feita a correção da diferença de fase, e esse arrastamento dá-se por avanços ou atrasos da fase do ritmo endógeno. O zeitgeber funciona mais como a interface claro/escuro ou escuro/claro.
Se um ritmo circadiano é estudado em um animal (ou planta, ou organismo inferior) isolado de seu ambiente e, portanto, sem zeitgeber (em livre-curso, como é dito tecnicamente), o ritmo se manifesta com seu período primitivo, de 25 horas, por exemplo. Assim, há uma deriva constante e, a cada dia, o ritmo avança uma hora em relação ao dia solar. Ao final de 12 dias, o avanço terá sido de 12 horas, exatamente em oposição de fase. O 'pico' do fenômeno
ocorrerá exatamente quando deveria estar no seu mínimo (Figura
1).
Em geral, os ritmos circadianos são bem ajustados a uma curva sinusoidal com um período arrastado de 24 horas. Assim, a diferença entre dois 'picos' é de 24 horas e há uma perfeita seqüência de ondas que alternam altos e baixos a cada 12 horas. Embora nem todos os ritmos sigam uma curva tão regular, esse ajustamento é o geralmente utilizado, por questão de facilidade matemática, já que o modelo mais adequado a descrever realisticamente uma curva com características um pouco diferentes seria de extrema complexidade.
Uma curva sinusoidal permite a determinação de diversos
parâmetros que a definem (Figura 2).
Figura 2 – Curva sinusoidal e seus parâmetros
Esse tipo de curva é a ajustante da maioria dos ritmos circadianos.
Estão representados: acrofase, batifase, amplitude, mesor e
período.
► Acrofase – maior valor obtido na oscilação. É o 'pico'.
► Batifase – menor valor obtido na oscilação. É o nadir ou
mínimo.
► Amplitude – diferença entre acrofase e batifase.
► Período – diferença, em horas, entre duas acrofases.
► Fase – hora do dia em que ocorre a acrofase.
► Mesor – média dos valores de acrofase e batifase. Na
verdade, corresponde ao valor médio da função cosseno de
todos os valores da oscilação. Mesor é uma sigla de Midline
Estimating Statistic of Rhythm.
► Índice A/m – índice percentual para expressar a variação dos
valores reduzidos à curva sinusoidal. 'A' é a amplitude e 'm' é o
mesor.
O estudo matemático da série temporal que corresponde à oscilação dos valores medidos durante vários dias pode ser feito através de modelos que considerem os valores expressos em cosseno e seno.
Diferentemente dos ritmos expressos pela curva sinusoidal, existem
outras curvas de padrão francamente diverso (Figura 3). São exemplos, ondas quadradas e pulso único a cada 24 horas. Um exemplo de ritmo com onda quadrada é o da temperatura, em sua distribuição nas 24 horas: por volta das 23 horas, ocorre queda súbita com manutenção da mesma temperatura até por volta das seis horas, quando ela cresce abruptamente, mantendo-se quase a mesma no período que vai até as 23 horas. O pulso diário de produção de hormônio do crescimento, verificado no entorno de zero hora, é o exemplo de ritmo com pulso único.
Figura 3 – Tipos de ritmo circadiano
Homem sob ritmo claro/escuro (período claro de 7 a 23h).
Painel superior: sono – ritmo tudo ou nada.
Segundo painel: temperatura retal – ritmo de onda quadrada.
Terceiro painel: hormônio do crescimento – ritmo com curva do tipo pico único.
Quarto painel: cortisol – ritmo com onda sinusoidal.
Quinto painel: excreção urinária de potássio – ritmo do tipo onda sinusoidal.
Fonte: Cipolla-Neto, J.; Marques, N.; Menna-Barreto, L. S.
Introdução ao Estudo da Cronobiologia. São Paulo: Ícone Editora,
USP. 1998 – do original de Moore-Ede, M. C & Sulzman, F. M.
Internai temporal order. In: Aschoff, J. (Ed.) Handbook of Behavioral
Neurobiology: biological rhythms. New York: Plenum Press, 1981.
Ordem temporal interna: relógios biológicos
Há grandes vantagens em um organismo conseguir manter ritmos circadianos sincronizados internamente, de tal forma que fenômenos correlatos possam ser desencadeados com a relação temporal adequada. Essas relações internas são, geralmente, ajustadas com as condições externas pelos zeitgeber. A vantagem evolutiva dessa sincronização é evidente e propicia um ganho enorme não só na vida de relação como também na harmonia interna do organismo.
O mapa de fases de diversos fenômenos pode ser construído de forma a se perceber a ordem temporal interna daquele organismo. Desse modo, pode-se perceber as relações dos vários ritmos em sincronização com o ciclo de 24 horas, bem como entre si. Ficam, então, claras as relações de agregação de funções que precisam ocorrer em momentos muito próximos e, ao contrário, o afastamento de ritmos que devem ocorrer aproximadamente em oposição de fase.
É muito esclarecedor comparar os mapas de ordem temporal interna
de animais noturnos e diurnos (Figura 4), onde fica patente a organização dos ciclos que se manifestam em oposição de fase. No
exemplo mostrado na Figura 4, tanto o macaco (hábito diurno) quanto o rato (hábito noturno) apresentam o mesmo perfil de atividade, de comer, da temperatura corporal, do cortisol plasmático, da excreção urinária de potássio e do volume urinário; a única e fundamental distinção é que todos os ritmos têm uma diferença de fase de 12 horas ou aproximadamente. E isso ocorre devido ao antagonismo do hábito de atividade: diurna, para um, e noturna, para o outro.
Figura 4 – Comparação das acrofases de ritmos circadianos de
macaco de cheiro (Saimiri sciureus), no painel da esquerda, e
do rato (Rattus rattus), no painel da direita
Ritmo claro/escuro de 12/12h. O período escuro está representado
por barras escuras. A = atividade, C = comer, T = temperatura
central, CS = cortisol plasmático, K = excreção urinária de potássio,
V = volume urinário.
Fonte: Cipolla-Neto, J.; Marques, N. & Menna-Barreto, L. S.
Introdução ao Estudo da Cronobiologia. São Paulo: Ícone Editora,
USP. 1998 – do original de Moore-Ede, M. C. & Sulzman, F. M.
Internai temporal order. In: Aschoff, J. (Ed.) Handbook of Behavioral
Neurobiology: biological rhythms. New York: Plenum Press, 1981.
Na maioria dos casos, essas relações internas de fase dos diversos ritmos são estáveis e independentes de marcação externa. Animais deixados em livre-curso, afastados de qualquer zeitgeber, portanto, continuam a apresentar a mesma ordem temporal interna. Se ocorrer uma deriva, todas as fases comportam-se da mesma maneira, mantendo a sincronização interna. Esse acoplamento muito bem mantido denuncia a presença de um ou mais de um relógio interno que, na possível ocorrência de mais de um, funcionam muito ajustados.
Em algumas ocasiões, raras, após muito tempo em livre-curso, pode ocorrer que algumas variáveis rítmicas apresentem dessincronização interna, chamada de espontânea. Esse fenômeno é dito forçado quando os organismos são expostos a algum zeitgeber (geralmente a luz) com períodos anormais e/ou variáveis. Homens submetidos artificialmente, por zeitgeber sobre livre-curso, a ritmo claro/escuro de 26 horas apresentam ritmo de atividade/repouso arrastado para as 26 horas, mas tal não ocorre com o ritmo de temperatura corporal, levando, então, à dessincronização interna forçada.
Os vôos transmeridianos são outro exemplo desse fenômeno ao deslocarem a fase do zeitgeber, levando à necessidade de ressincronização de toda a ordem temporal interna. Sabemos que a dessincronização é transitória e demanda um certo tempo para ser ajustada.
O conhecimento de ordem temporal interna tão bem estruturada promoveu a demanda por relógios biológicos ou osciladores internos. A história dessa procura é de nossos dias e se desenvolveu nos últimos 50 anos. Por 'relógio biológico', entenda-se uma estrutura neurológica conectada a um órgão receptor de zeitgeber (nos animais, possivelmente os olhos, para receber a luz) e que promova ritmos oscilatórios, geralmente circadianos, através de hormônios, do sistema nervoso e do sistema imunológico.
Até os anos 60 do século passado, conhecia-se a transmissão do estímulo óptico pelo trato óptico principal (TOP) e pelo trato óptico acessório (TOA). A lesão pósquiasmática desses tratos era incapaz de interferir na ritmicidade orgânica, ao passo que a lesão pré-quiasmática eliminava a ordem temporal interna, alterando a amplitude dos ritmos e seu acoplamento. Daí, deduziu-se que deveria haver um núcleo nervoso com conexões com a retina através da porção pré-quiasmática e que este agiria como relógio biológico. Já nos anos 70 do século XX, essa terceira via era tida como certa e considerada como projeção para o núcleo ritmogênico. Através de técnicas sofisticadas, Moore, Lenn, Hendrickson e outros demonstraram a conexão das vias ópticas diretamente da retina para a região hipotalâmica anterior (feixe retino-hipotalâmico), especificamente para os núcleos supraquiasmáticos (NSQ), justamente a sede do relógio biológico principal.
Os NSQ são dois conglomerados celulares, com cerca de 10.000 células cada um e volume aproximado de 0,068 mm3. Localizam-se no hipotálamo ventral anterior. Experimentalmente, em animais, a lesão dos NSQ elimina a ritmicidade de múltiplas funções, mas não de todas elas. No final da década de 70 e início da de 80 do século XX, muitos investigadores comprovaram que com essa lesão ficam eliminadas não apenas a sincronização dos ritmos relacionados a seguir, mas também a própria existência dos mesmos: atividade/repouso, sono/vigília, comportamento exploratório, comportamento de autolimpeza, comer, beber, serotonina plasmática, temperatura cutânea, freqüência cardíaca e hormônio do crescimento.
Hoje, está bem claro que os NSQ são constituídos de células heterogêneas com diferentes funções, inclusive utilizando diferentes neurotransmissores. Influenciam o sistema endócrino, o sistema nervoso autônomo e o sistema imunológico.
Os NSQ também enviam fibras eferentes para outros locais do sistema nervoso central, como o núcleo geniculado lateral e a rafe, que podem veicular várias de suas funções.
Além disso, os NSQ demonstraram ritmo de atividade elétrica celular compatível com sua posição de relógio biológico.
Em 1985, Takahashi e colaboradores mostraram que, se um animal, que teve seus NSQ lesados com perda da ritmicidade endógena, receber transplante de células do NSQ de um feto, recupera vários ritmos circadianos fisiológicos e comportamentais.
A busca de um segundo relógio biológico vem da constatação de que não é a totalidade dos ritmos que se mostra sujeita ao NSQ. Nas aves, foi demonstrado que a pineal pode representar esse papel, através da secreção de melatonina, um hormônio produzido a partir da serotonina com intervenção das enzimas hidroxiindol-ortometil-transferase e N-acetil-transferase. Em ratos, a 'melatonina', administrada farmacologicamente, pode sincronizar ritmos circadianos em livre-curso. Lembre-se que, evolutivamente, a pineal é um 'olho', o 'terceiro olho', funcionando como fotorreceptor em peixes, anfíbios e répteis. Nos mamíferos, apesar de a melatonina não ser geradora da ritmicidade circadiana, desempenha importantes papéis, como surtos sazonais de atividade sexual e reprodução; regulação da produção de corticosteróides suprarrenais; ação do sistema imunológico; participação nos mecanismos do sono.
A melatonina é produzida à noite, atingindo os níveis máximos entre 2 e 4 horas da madrugada. A exposição de ratos à luz artificial intensa durante a noite induz inibição de sua produção. Esse hormônio (melatonina) pode agir também como possível sincronizador interno do sistema circadiano, constituindo-se como o agente de um segundo relógio biológico que poderia até agir diretamente sobre o NSQ diminuindo suas ações metabólicas durante a noite (obscuridade).
De qualquer forma, não se pode ainda tirar conclusões muito embasadas sobre o sistema pineal/melatonina e, no homem, a localização do segundo relógio ainda não está definitivamente determinada, sendo muitas as pesquisas direcionadas neste sentido.
Os relógios biológicos principais (provavelmente dois) interagem entre si, além de controlar e organizar a ação de outros osciladores secundários. Trata-se, pois, de um sistema hierarquizado, multioscilatório. Além disso, o esquema de retroalimentação é comprovado e difusamente presente, servindo para 'afinar' o funcionamento do sistema. A retroalimentação, aliás, já era sobejamente conhecida em Endocrinologia, há muitas décadas. A
Figura 5 resume esse sistema hierarquizado com retroalimentação.
Figura 5 – Organização do sistema de ordem temporal interna
NSQ= Núcleo Supraquiasmático
Trata-se de um sistema multi-oscilatório hierarquizado com mecanismos de retroalimentação reguladora. Dois relógios
biológicos centrais (NSQ e 2º relógio) comandam a ação de
diversos relógios periféricos de forma integrada.
No homem, com estudos em livre-curso e isolamento temporal, foi possível esquematizar uma relação entre os dois relógios biológicos
da forma como mostrada na Figura 5. À direita está o NSQ, que comanda o ritmo vigília/sono, vários ritmos comportamentais, a temperatura cutânea e o hormônio de crescimento. O segundo relógio pode, na verdade, vir a ser considerado o principal porque, em livre-curso, tem período de 25 horas e predomina sobre o NSQ quando em acoplamento normal com zeitgeber funcionante; tanto é que a maioria dos ritmos circadianos apresenta também o período de 25 horas. Como já foi exposto, a localização do segundo relógio não é conhecida, sabendo-se apenas que não está no hipotálamo anterior, pois processos destrutivos dessa região não alteram os ritmos controlados pelo segundo relógio.
Nos anos 90 e já no século XXI, foram descobertos quatro genes capazes de ordenar o ciclo circadiano em insetos, camundongos e no homem.
Hoje, já temos conhecimento acerca dos mecanismos moleculares e genéticos da temporização biológica. Os quatro genes envolvidos são:
► per (de period);
► clk (de clock);
► cyk (de cycle);
► tim (de timeless).
Funcionam em pares (clk/cyk e per/tim) de tal forma que, num sistema de indução de produção de proteínas específicas no citoplasma e entrada dessas proteínas no núcleo, cria-se um mecanismo de ativação e desativação dos genes que se cumpre respeitando intervalo de tempo 'circadiano'.
Detalhando esse mecanismo e explicando a Figura 6, podemos resumir as etapas da seguinte forma: os genes clk e cyk enviam seus RNA mensageiros que vão induzir a produção das respectivas proteínas no citoplasma. As duas proteínas acoplam-se, formando o complexo CLK-CYK. Este conjunto entra no núcleo e ativa o segmento genético de uma cadeia de DNA que atua como promoter ou indutor dos genes per e tim os quais vão produzir os RNA mensageiros que vão levar à produção das proteínas PER e TIM; estas, ao se acumularem lentamente, vão levar ao complexo molecular PER-TIM o qual, com o tempo, vai introduzir-se no núcleo. Aí, então, processa-se a essência da alça de controle circadiano quando, no tempo certo, PER-TIM passa a impedir a ativação dos genes per e tim pelo complexo CLK-CYK, havendo um retrocontrole da produção de PER e TIM. Com o passar do tempo, há degradação espontânea do complexo PER-TIM e, novamente, CLK-CYK passa a ativar os genes per e tim.
Figura 6 – Detalhamento do funcionamento dos mecanismos
genéticos do relógio biológico
Esquema do sistema de ativação/desativação de quatro genes e suas respectivas proteínas responsáveis pela marcação temporal do
funcionamento celular.
Fonte: Genes: clk/cyc/per/tim. Proteínas CLK/CYC/PER/TIM
Recentemente, ficou confirmada a hipótese dos osciladores múltiplos. Com efeito, foi demonstrado que existem variações circadianas cardíacas e hepáticas (em camundongos) com acrofases se manifestando em horários diferentes. Quase todas as células contêm seu próprio relógio de atividade com mecanismos oscilatórios.
Também nos últimos anos ficou demonstrada a influência de vários zeitgeber como modificadores de osciladores periféricos. Assim, Menaker mostrou que alterações no horário das refeições de ratos podem alterar o ritmo das funções hepáticas que passam a não obedecer ao ritmo claro/escuro orquestrado pelo NSQ. Como conclusão, e em acordo com o esquema apresentado anteriormente de sistema multioscilatório, os osciladores periféricos recebem influência de outros marcadores além da luz: alimentação, estresse, temperatura, exercícios físicos.
O aparente dilema da relação homeostasia-
cronobiologia: por uma nova homeostasia – a
cronobiologia inscreve-se entre as linhas
diretoras da biologia
Dentre os conceitos unificadores da Biologia, encontram-se: a Genética e a Evolução.
A publicação por Claude Bernard de seu célebre livro La Science Expérimentale foi fundamental em estabelecer os princípios da experimentação como base do conhecimento biológico. Avançava também ao introduzir o conceito de meio interno (milieu intérieur): os organismos mais organizados haviam criado um sistema constituído de sangue, linfa e líquidos intersticiais, capaz de preservá-los da mutabilidade do meio externo; seria um avanço evolucionista capaz de 'isolar' o organismo e, impedindo-o de sofrer as variações e intempéries externas, conferir um caráter de independência em relação ao meio ambiente.
Walter Cannon fez progredir a idéia do equilíbrio do meio interno, destacando os ajustes que o organismo promove nos seus sistemas para atenuar as influências externas. A manutenção das condições internas em limites estritos é a resultante desses ajustes e Homeostasia é o termo que traduz todos esses mecanismos. Para os animais superiores, a Homeostasia é, também, um conceito abrangente.
Milhares e milhares de experimentos, ao longo dos quase três séculos após De Mairan, mais freqüentes nas últimas décadas, deram o destaque merecido aos fenômenos ciclo-temporais de praticamente todos os seres vivos. A Cronobiologia, por força de todo o peso de sua doutrina, inscreve-se, hoje, no rol dos conceitos unificadores da Biologia, com a Genética, a Evolução e a Homeostasia.
O principal problema reside no aparente antagonismo entre Homeostasia e Cronobiologia. Enquanto a primeira postula pela estabilidade, a segunda reflete a mutabilidade relacionada ao tempo. Esta aparente incompatibilidade tem suscitado muita discussão. Vários autores fundamentais da Cronobiologia denunciam a incompatibilidade dos dois conceitos, enquanto outros os julgam complementares.
A diversidade de interpretação pode dever-se, pelo menos em parte, à necessidade de se impor, por parte da Cronobiologia: as lutas por causas importantes podem levar à radicalização (geralmente temporária), que, no caso em pauta, chama-se luta contra a Homeostasia.
A questão básica da Biologia é dada pelo binômio 'estabilidade x variação'. A estabilidade visa ao estabelecimento de boas condições para perpetuação da vida e poupança de energia. O problema básico da discussão do conceito de estabilidade não diz respeito à imutabilidade, e sim à manutenção de condições adequadas. No outro lado, está a mudança que gera a variação. É paradoxal e, no entanto, convivem lado a lado em toda a Biologia: estabilidade e variação. Há uma tendência à estabilidade e, no entanto, a variação explode periodicamente, sendo um incentivo ao aperfeiçoamento. Essa é a base da evolução. Num sentido realista, a evolução não impõe mudança, ela se aproveita da variação. Claramente, a evolução favorece a Variação adequada ao meio e à função'. A adaptação ao tempo-cíclico é um mecanismo evolutivo. Variar com os ciclos temporais é uma qualidade aproveitada pela evolução, com seleção do mais apto, permitindo melhor vida de relação. Por isso, a antecipação dos fenômenos temporais: eles são manifestações de mecanismos genéticos e, portanto, intrínsecos ao ser estudado.
Se a estabilidade pleiteada no início do século passado (primeiras três décadas) pela Homeostasia clássica não pode mais ser defendida no seu sentido ortodoxo, deve, pelo menos, ter preservada sua destinação de explicador da vertente de estabilidade da Biologia.
Se a organização temporal dos seres é uma realidade, nem por isso os ciclos podem prescindir de uma tendência à estabilidade dentro de suas variações temporais, mantendo em limites estreitos as características biológicas que seguem a inscrição de curvas com limites para mais e para menos. Isto é uma característica fisiológica.
Portanto, na seqüência de revisão que se impõe a todos os conceitos científicos, à medida que novos conhecimentos lhes são acrescidos, o conceito de Homeostasia pode ser mantido, desde que acrescido da característica de variação no tempo (Homeostasia rítmica). Aperfeiçoa-se o conceito, acrescentando-se a idéia de ciclo temporal. Não há necessidade de exclusão da Homeostasia. Seus mecanismos são apenas modificados no entendimento de variação com o tempo, mas os limites estreitos da curva temporal são perfeitamente compatíveis com o conceito fundamental.
Precisamos de uma nova Homeostasia, às luzes da Cronobiologia.
Aplicações médicas da cronobiologia
Ao introduzir o fator tempo no estudo do que é considerado normal nos fenômenos orgânicos, várias implicações podem decorrer para a prática médica. A seguir, descrevemos brevemente as mais relevantes:
Valores de Normalidade
Como muitos dados fisiológicos não são estáticos; pelo contrário,
apresentam variações temporais (Figuras 7 e 8), é necessário reinterpretá-los com essa nova perspectiva.
Figura 7 – Variações da freqüência cardíaca nas 24 horas
Figura 8 – Ritmo circadiano dos neutrófilos
O problema introduzido na interpretação de valores de normalidade é que não mais lidamos com uma faixa uniforme (horizontal em relação ao tempo) em que se leva em conta o intervalo de confiança de 95%, por exemplo. Agora, temos de traçar a curva sinusoidal correspondente à variação no tempo e marcar os correspondentes limites de normalidade que delineiam o mesmo intervalo de
confiança. A Figura 9 explica graficamente a situação antiga (clássica) e a de base cronobiológica. O avanço é que, agora, tem-se base para melhor interpretar as variáveis, inclusive evitando falsos positivos e falsos negativos. Sinais clínicos e laboratoriais passam a ser adequadamente interpretados, melhorando a avaliação clínica, o diagnóstico e a conduta.
Figura 9 – Representação esquemática comparativa dos limites
de normalidade na concepção clássica e na concepção
cronobiológica
A introdução da variação circadiana no conceito de normalidade
detecta falsos positivos e falsos negativos se for adotada a
concepção clássica.
O 'Tempo' das Doenças
Há uma série de doenças que apresentam horário preferencial de
manifestação. A Figura 10 é a demonstração de algumas delas. Esse fato não é aleatório ou mágico, depende simplesmente dos ritmos fisiopatológicos vinculados.
Figura 10 – 'Relógio das doenças' e de funções fisiológicas
Os momentos assinalados correspondem aos de maior incidência
de doença ou da acrofase das funções.
Fonte: Adaptado de Martin, R. J. Alterations in airways disease
during sleep: asthma and chronic obstructive pulmonary disease. In:
TIERNEY, D. F. (Ed.) Current Pulmonology. St. Louis: Mosby, 1995.
Assim como há o célebre 'relógio das flores' desenhado por Lineu em 1745 com a marcação das horas em que as flores de diversas plantas se abrem, também podemos desenhar o 'relógio das doenças'. Lineu dizia que um botânico experiente sem relógio e sem olhar para o sol, podia, apenas observando o abrir e fechar das flores, determinar a hora local corretamente. Um 'relógio das doenças' pode, também pretensamente, cooperar no diagnóstico das mesmas. Um exemplo marcante ocorre na Reumatologia, onde a artrite reumatóide manifesta-se mais no final da madrugada e começo da manhã e a osteoartrose mais no início da noite.
Cronofarmacologia
O reconhecimento de que a hora do dia altera as propriedades farmacocinéticas, permite modificar os esquemas terapêuticos para melhor efetividade e menor toxicidade. Muitas drogas já foram estudadas, mas este é um terreno amplo, quase virgem e aberto à pesquisa.
Medicina do Trabalho
A manutenção da ordem temporal interna faz parte das condições de saúde e sua alteração pode levar a distúrbios de variada natureza: comportamentais, do sono, psíquicos, metabólicos, gastrointestinais, cardíacos. Os vôos transmeridianos podem alterar a ordem temporal interna, e os problemas de dessincronização e ressincronização são importantes, cada vez mais estudados e compreendidos. Aqui, além dos problemas médicos há implicações jurídicas de reposição e aposentadoria. Os turnos de trabalho alternantes são outro problema importante; o simples trabalho noturno estável já se constitui um problema cronobiológico que motiva reparação; os turnos alternantes malbaratam qualquer tentativa de manutenção da ordem temporal interna e são de extrema gravidade, podendo, inclusive, diminuir a expectativa de vida; devem, portanto, ser condenados.
Bibliografia
ALBERTS, B. et al. Molecular Biology of the Cell 4.ed. Garland: Taylor & Francis, 2002.
AJURIAGUERRA, J. (Eds.) Cycles Biologiques et Psychiatric Paris: Masson, 1968.
ANOKHIN, P. K. Biology and Neurophysiology of the Conditioned Reflex and its Role in Adaptive Behavior. Oxford: Pergamon Press, 1974.
ARMESTO, F. F. Vinte e quatro horas por dia. In: ARMESTO, F. F. (Org.) Idéias que Mudaram o Mundo. São Paulo: Arx, 2004.
ASCHOFF, J. Circadian rhythm: general features and endocrinological aspects. In: KRIEGER, D. T. (Ed.) Endocrine Rhythms. New York: Raven Press, 1979.
ASCHOFF, J. (Ed.) Handbook of Behavioral Neurobiology: biological rhythms. New York: Plenum Press, 1981.
ASTON-JONES, G. et al. A neural circuit for circadian regulation of arousal. Nature Neuroscience, 4:732-778, 2001.
BERNARD, C. La Science Expérimentale. Paris: Librairie J.B. Bailliere et Fils, 1914.
BERSON, D. M.; DUN, F. A. & MOTOHARU, J. Phototransduction by Retinal ganglion cells that set the circadian clock. Science, 295: 1070-1073, 2002.
BLASK, D. E. et al. Light during darkness, melatonin suppression and cancer progression. Neurondocrinol, 23(Supl. 2): 52-56, 2002.
BUIJS, R. M. et al. Circadian and seasonal rhythms – the biological clock tunes the organs of the body: timing by hormones and the autonomic nervous system. J. Endocrinol, 117: 17-26, 2003.
BÜNNING, E. Zur physiologie der endognen jamresrhythmic in pflanzen, speziell in samen. Z. Naturforsch, 4: 167-176, 1949.
CANNON, W. B. Organization for physiological homeostasis. Physiol Rev., 9: 399-431, 1929.
CIPPOLA-NETO, J. et al. Cronobiologia do ciclo vigília-sono. In: REIMÃO, R. (Org.) Sono: aspectos atuais. Rio de Janeiro: Atheneu, 1990.
CIPPOLA-NETO, J.; MARQUES, N. & MENNA-BARRETO, L. S. Introdução ao Estudo da Cronobiologia. São Paulo: Ícone/USP, 1988.
COOPER, Z. A daily rhythm of cell division in neonates. J. Investigative Dermatology, 2: 289-300, 1939.
CZEISLER, C. Evidence for melatonin as a circadian phase-shifting agent. J. Biological Rhythms, 12: 618-623, 1998.
DARDENTE, H. et al. Daily and circadian expression of neuropeptides in the suprachiasmatic nuclei of nocturnal and diurnal rodents. Brain Res. Mol., 124(20): 143-151, 2004.
DEAN, S. & ASCHOFF, J. Circadian contribution to survival. In: ASCHOFF, J. & DEAN, S. & GROSS, G. (Eds.) Vertebrate Circadian System. Berlin: Springer Verlag, 1982.
DECOURSEY, P. et al. Circadian performance of suprachiasmatic nuclei (SCN) lesioned antelope ground squirrels in a desert enclosure. Physiology and Behavior, 62: 1099-1108, 1997.
DE LA IGLESIA H. O. et al. Forced desynchronization of dual circadian oscillators within the rat suprachiasmatic nucleus. Curr. Biol., 14(9): 796-800, 2004.
DUNLAP, J. Molecular bases for circadian clocks. Cell, 96: 271-290, 1999.
ERREN, T. C. & STEVENS, R. G. Light, melatonin and internal cancers: recent facts and research perspectives. Gesundhertswesen, 64(5): 278-283, 2000.
FOSTER, R. & KREITZMAN, L. Rhythms of Life. Londres: Profile Books, 2004.
GASTON, S. & MENAKER, M. Pineal function: the biological clock in the sparrow? Science, 160: 1125-1127, 1968.
GORMAN, C. Why we sleep? Time, 42-49, jan. 2005.
GRADISAR, M. & LACK, L. Relationships between the circadian rhythms of finger temperature, core temperature, sleep latency and subjective sleepiness. J. Biological Rhythms, 19(2): 157-163, 2004.
GREEN, C. How cells tell time. Trends in Cell Biology, 8: 224-230, 1998.
GUARDIOLA-LEMAATRE, B. Toxicology of melatonin. J. Biological Rhythms, 12: 697-706, 1998.
HALBERG, F. et al. Computer techniques in the study of biological rhythms. Ann. NY Acad. Sci., 115: 695-720, 1964.
HALBERG, F. et al. Spectral resolution of low frequency, small amplitude rhythm in excreted 17 betosteroids; probable androgen induced circaseptan desynchronization. Acta Endocrinol., 103: 1-54, 1965. (Suplemento)
HALBERG, F. Claude Bernard, referring to an "Extreme variability of the internal milieu". In: GRANDE, F. & VISSCHER, M. B. (Eds.) Claude Bernard and Experimental Medicine. Cambridge: Schenkman, 1967.
HONMA, K. et al. Period and phase adjustments of human circadian rhythms in real world. J. Biol. Rhytms, 18(3): 261-270, 2003.
HRUSHESKY, W. Circadian timing of cancer chemotherapy. Science, 228: 73-85, 1985.
KLEIN, D. et al. Suprachiasmatic Nucleus: the mind's clock. New York: Oxford University Press, 1991.
LABRECQUE, G. & BÉLANGER, P. M. Mécanismes fondamentaux de la chronopharmacologie. La Semaine des hôpitaux de Paris, 63: 3219-3225, 1987.
MARQUES, M. D. et al. Ritmos da vida. Ciência Hoje, 10: 43-49, 1989.
MARQUES, N. A genética dos ritmos biológicos. Ciência Hoje, 7: 16, 1988.
MARTIN, R. J. Alterations in airways disease during sleep: asthma and chronic obstructive pulmonary disease. In: TIERNEY, D. F. (Ed.) Current Pulmonology. St. Louis: Mosby, 1995.
MARTIN, R. J. & BANKS-SHLEGEL, S. Chronobiology of asthma. Am. J. Respir. Crit. Care Med., 158(3): 1002-1007, 1998.
MCFADDEN, E. R. Circadian rhythms. Am. J. Med., 85: 2-5, 1988.
MILLAR, A. J. Input signals to the plant circadian clock. J. Exp. Bot., 55(395): 277-283, 2004.
MISKIEWICZ, K.; PYZA, E. & SCHURMANN, F. W. Ultrastructural characteristics of circadian pacemaker neurons immunoreactive to an antibody against a pigment-dispersing hormone in the fly's brain. Neuroscience, 363(1): 73-77, 2004.
MISUNO, T. Plant response regulators implicated in signal transduction a circadian rhythm. Curr. Opin. Plant. Biol., 7(5): 499-505, 2004.
MOHIUDDIN, A. A. & MARTIN, R. J. Circadian basis of the late asthmatic response. Am. Rev. Respir. Dis., 142: 1153, 1990.
MONGRAIN, V. et al. Phase relationships between sleep-wake cycle and underlying circadian rhytms in morningness-eveningness. J. Biolog. Rhytms, 19(3): 248-257, 2004.
MOORE, R. Y. Entrainment pathways and the functional organization of the circadian system. Brain Res., 111: 103-119, 1996. MOORE, R. Y. Circadian rhythms: basis neurobiology and clinical applications. Ann. Rev. Med., 48: 253-266, 1997.
MOORE-EDE, M. C.; SULZMAN, F. M. & FULLER, C. A. The Clocks that Time Us: physiology of the circadian time system. Cambridge: Harvard University Press, 1982.
NAKAO, M. et al. Modeling interactions between photic and onphotic entrain mechanisms in transmeridian flights. Biol. Cybern, 2004.
NELSON, W. Methods for cosinor rhythmometry. Chronobiologia, 6: 305-323, 1979.
PALMER, J. The rhythm of the flowers. Natural History, 80(9): 64-73, 1971.
PALMER, J. The Biological Rhythms and Clocks of Intertidal Animals. New York: Oxford University Press, 1995.
PALMER, J. The clocks controlling the tide-associated rhythms of intertidal animals. BioEssays, 22: 32-37, 2000.
PALMER, J. The Living Clock: the orchestrater of biological rhythms. New York: Oxford University Press, 2002.
PINCUS, D. J.; DEAM, W. R. & MARTIN, R. J. Chronobiology and chronotherapy of asthma. Clin. Chest. Med., 16: 699, 1995.
PITTENDRIGH, C. S. Circadian rhythms and the circadian organization of living systems. Cold. Spring Harbor Symp. Quant. Biol., 25: 159-182, 1960.
REA, M. S. Light much more than vision, keynote address. In: The Fifth International LRO Lighting Research Symposium, Light and Human Health, Final report, nov. 3-5, 2002. Report n. 1009370. Palo Alto: The Electric Power Research Institute, 2004.
REINBERG, A. & SMOLENSKY, M. H. Biological Rhythms and Medicine. New York: Spring Verlag, 1983.
REINBERG, A. Des Rythmes Biologiques à la Chronobiologie. Paris: Bordas, 1977.
REITER, R. J. Melatonin: clinical revelance. Best Pract. Res. Clin. Endocrinol. Metab., 17(2): 273-285, 2003.
RICHARDSON, G. & TATE, B. Hormonal and pharmacological manipulation of the circadian clock: recent developments and future strategies. Sleep, 23 (Supl. 3): S77-85, 2000.
ROBERT, L. Les Horloges Biologiques. Paris: Flammarion, 1989.
ROSE, J. K. O Corpo Humano no Tempo. São Paulo: McGraw, 1990.
SMITH, R. E. L. Circadian variations in human thermoregulation responses. J. Appl. Physiol., 26: 554-559, 1969.
SMOLENSKY, M. & D'ALONZO, G. Medical chronobiology: concept and applications. Am. Rev. Resp. Dis., 147: 52-59, 1993.
SMOLENSKY, M. & D'ALONZO, G. Progress in the chronotherapy of nocturnal asthma. In: REDFERN, P. & LEMMER, B. (Eds.) Physiology and Pharmacology of Biological Rhythms. Heidelberg: Springer-Verlag, 1997.
SMOLENSKY, M. & LAMBERG, L. The Body Clock Guide to Better Health. New York: Henry Holt & Co., 2000.
SPENGLER, C. M. & SHEA, S. A. Endogenous circadian rhythm of pulmonary function in healthy humans. Am. J. Respir. Crit. Care Med., 162(3): 1038-1046, 2000.