Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica
Apresentação
Este livro tem como tema os fenômenos que ocorrem na vida humana em metade de todos os seus dias (as noites). Hoje, sabemos que há variações noturnas de todas as funções orgânicas, graças a fenômenos cronobiológicos que serão a base de quase a totalidade do estudo expresso nos capítulos a seguir.
Integra a formação de qualquer médico o treinamento de emergências. Os famosos plantões de pronto-socorro são também noturnos, quando o aluno aprende, na prática, que há doenças mais prevalentes à noite e que certas outras pioram nesse período. Da intensidade desse aprendizado, por força da ação profissional realista, os plantões noturnos são inesquecíveis e permanecem na história de todo médico. Quem não se recorda de múltiplas crises de asma brônquica, no profundo da madrugada, com o sofrimento agudo dos doentes, risco de vida para alguns, o acompanhamento bem próximo para ajustar o tratamento quase a cada minuto? Dessa dedicação, redunda a consolidação da solidariedade do médico ao seu paciente e o aprendizado de múltiplos aspectos semiológicos e terapêuticos. Não só a asma brônquica, mas muitas outras doenças também fazem parte dessa vivência.
Embora muitos aspectos da Fisiologia e da Nosologia noturnas sejam, portanto, constituintes do saber prático de todos os médicos desde os primórdios de seu aprendizado, há, nitidamente, falta de disseminação dos conhecimentos, hoje muito estabelecidos, da Cronobiologia e, mais do que isto, estamos carentes de fazer conhecer esta ciência capaz de clarear inúmeras situações.
Do ponto de vista rotineiro, este livro tem título incomum, inesperado: Medicina da Noite. Mas, pensando bem, não existe um conjunto de características noturnas das doenças? Um célebre autor (Eugene Robin) cunhou uma frase lapidar: "O paciente adormecido é, assim mesmo, um doente. Sua doença, além de continuar à noite, pode progredir de forma inteiramente diferente do que durante o dia".
A Medicina 'oficial' dos tempos correntes, expressa nos livros-texto e na grande maioria das revisões, consensos e artigos em geral, só se refere a fenômenos que ocorrem de dia. Quase nunca há descrição de fenômenos noturnos e, no entanto, continuamos a viver, a ser doentes e a sofrer também à noite, às vezes de forma diferente.
A concepção de Medicina da Noite não a afasta da Medicina, mas se incorpora a esta como parte constituinte, e só é destacada neste livro para ser compendiada como um todo e se mostrar importante – já que na atualidade é esquecida. Assim, desejamos afirmar que o conceito de Medicina da Noite é:
► uma realidade
► uma necessidade
► muito útil
Enfatizando: entender que o organismo humano modifica-se à noite e que certas doenças expressam-se mais ou preferentemente nesse período é um ganho do médico no trato com seus doentes, além de ser uma solidificação de seu aprendizado adquirido nos plantões de emergência ou na prática posterior.
Dos contatos que tivemos para explicar o conteúdo e a concepção deste livro a dezenas de colegas, extraímos uma reação quase uniforme. Inicialmente, certo espanto, buscando entender as motivações, mas, logo a seguir, compreensão integral da argumentação, seguida por entusiasmo de muitos. A impressão que sempre aflorou foi a de se acender uma lâmpada que já tinha o circuito preparado e que só esperava o clique do interruptor para incandescer-se. Foi o que ocorreu de forma uniforme com os autores dos diversos capítulos, todos eminentes especialistas em suas diversas áreas e que tiveram a gentileza de reunir suas vivências e pensamentos, além de rever seus temas com grande cuidado e, finalmente, oferecer-nos peças primorosas para compor este conjunto ímpar, o qual traz ao médico brasileiro um corpo teórico para sua reflexão.
Aos autores dos capítulos foi dada inteira liberdade nos seus trabalhos, aí incluídos a esquematização e o desdobramento dos mesmos.
O livro é dividido em duas partes, como são, comumente, os livros de Medicina que pretendem ser abrangentes: as bases e a aplicação na prática. Não se pode fugir desse esquema, mesmo que a alguns pareça que se deveria atacar logo a faceta clínica do assunto. 'Perdemos' oito capítulos para o embasamento do tema e julgamos que assim está bem 'armado'. Com essa arquitetura, o leitor poderá munir-se de muitas páginas que o preparam para o deleite da segunda parte. Com efeito, a prática médica é toda ela dependente de múltiplas ciências e amalgamada pela arte da sua aplicação.
Então, as 'Bases Gerais, Cronobiológicas e Clínicas' são distribuídas de forma a levar o leitor das considerações genéricas que falam da noite e do tempo até a Cronobiologia e sua aplicação. Tivemos o cuidado de oferecer até um capítulo de 'Mecanismos Celulares da Cronobiologia', tema que pode ser julgado excessivo por alguns, mas que dá a substância científica da certeza de que a Biologia é una, levando o homem a se comunicar com toda a escala da Evolução. Foi muito feliz a idéia de proporcionar capítulos com a visão de especialistas nas diversas idades do homem – crianças, adolescentes e gerontes. Têm um sabor agradável de prática médica com embasamento. O sono é, hoje, uma ciência e tem um espaço privilegiado no livro, embora até merecesse mais. E, finalmente, coroando esta primeira parte, uma aplicação que deverá progredir muito nos anos vindouros – a Cronofarmacologia. Saber quais são os ditames da Cronobiologia para melhorar a administração de tratamentos (medicamentosos ou outros) e, assim, melhor tratar os pacientes, é um ganho extraordinário que o médico do século XXI passa a ter.
A segunda parte lida com diversos sistemas orgânicos, algumas doenças e situações importantes (Medicina das Viagens e do Trabalho). Estamos certos de que será um deleite para todos os que se interessam pelo assunto e que, principalmente, tiveram o cuidado e a paciência de percorrer a primeira parte.
Há muitos anos, trabalho em conexão com os colegas Arnaldo Noronha, Teresinha Yoshiko Maeda, Domenico Capone, Agnaldo José Lopes e Ursula Jansen, estando todos incorporados numa linha de produção que, como este livro, pretende versar sobre temas úteis à Medicina brasileira. Assim, nada mais natural que estivessem junto comigo, com suas competências mais que comprovadas, coordenando e editando esta Medicina da Noite. O professor Gerson Magalhães, com sua inteligência clara e pragmática, foi colaborador interessado desde o primeiro momento e incorporou-se neste trabalho de organização.
Desejo prestar uma homenagem especial a um colega que, embora não participando do livro, foi grande incentivador, ao assumir a idéia-mãe, e com sua mente privilegiada foi sempre uma mola impulsora – o professor Eddy Bensoussan.
Outro grande apoiador foi o professor José Galvão Alves que, com suas qualidades de magnífico clínico e educador permanente, sempre quis que estes conceitos fossem desenvolvidos, amparando nossos esforços de maneira muito positiva.
O professor Luiz de Paula Castro esteve muito presente em todas as fases da preparação do livro, desde a confecção de um dos mais importantes artigos até os trabalhos efetivos de sua publicação.
A Fundação Oswaldo Cruz, de extensa e reconhecida atuação na área científica nacional, estende seus trabalhos para uma interface com a clínica, e o apoio que prestou à publicação deste livro é bem a tradução do espírito público e clarividente de seu presidente, o professor Paulo Buss, bem como do trabalho diligente e profícuo do Coordenador Executivo da Editora Fiocruz, João Carlos Canossa Mendes.
Em 1991, levado pelo meu interesse em torno do controle circadiano do calibre brônquico na asma que me consumia há mais de uma década, freqüentei em Manguinhos o VIII Curso de Verão de Cronobiologia ministrado pelo Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos (GMDRB) da Universidade de São Paulo (USP), e pude tomar contato com o amplo mundo da Cronobiologia. Aos denodados professores do GMDRB que constituem a vanguarda brasileira da Ciência que reúne o tempo à vida, as homenagens devidas aos pioneiros e desbravadores.
Convidamos para prefaciar o livro os professores José Augusto Messias e Omar da Rosa Santos, dois dos maiores clínicos das gerações vigentes. Razões? Primeiro, pela excelência de suas capacidades e atuações na prática e no ensino. Segundo, porque estamos precisando de penas abrangentes e brilhantes para consolidar o tema Medicina da Noite. Terceiro, porque são herdeiros legítimos da longa tradição da Clínica Médica no Rio de Janeiro, representada por Miguel Couto, Waldemar Berardinelli, Luiz Capriglioni, Aloysio de Castro, Miguel Pereira, Edgard Magalhães Gomes, Luiz Feijó, Aloysio de Salles Fonseca, Jayme Landmann, Jacques Houli, Clementino Fraga Filho, Américo Piquet Carneiro, Fioravanti di Piero, Hélion Póvoa, Aníbal Nogueira, José de Paula Lopes Pontes, Lafayette Pereira, Hélio de Castro Lobo, Stanislau Kaplan, Orlando Augusto Soares e tantos outros. Quarto, pela preocupação dos dois na recuperação do conceito de Medicina Interna e na busca da revitalização de sua aceitação pelos jovens médicos. Quinto, porque, em conjunto, poderão alavancar a disseminação dos conceitos aqui expressos. Assim como a Cronobiologia inclui a concepção dualista de dia e noite, sono e vigília, temos, nós também, dois prefaciadores, que nos incorporarão neste ciclo vital.
Uma palavra final de reforço sobre nosso tema central. A Cronobiologia não é uma hipótese ou uma tese. Ao contrário, é uma Ciência estabelecida que abrange todos os seres vivos, sendo tão presente e explicando uma série enorme de fenômenos cíclicos que, no início do século XXI, pode ser considerada uma das ciências integradoras dos seres vivos. A Medicina da noite é filha da Cronobiologia. Esta deve ser divulgada também no território da Medicina como uma doutrina moderna, agregadora de todas as especialidades em torno de seus princípios, basicamente clarificadora de muitos aspectos da prática, além de inspiradora do raciocínio clínico, orientando o diagnóstico e o tratamento.
Com o mundo biológico moderno, nós médicos devemos aprender a pensar 'cronobiologicamente' e a incorporar esses conceitos ao nosso dia-a-dia.
José Manoel Jansen