Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica
Medicina das viagens aéreas
Alberto José de Araújo
Introdução
Desde tempos ancestrais, o sonho de voar sempre fez parte do imaginário humano. Existem registros em pinturas rupestres e na mitologia grega (Ícaro usa asas para fugir dos labirintos de Creta). Em 400 a.C., os chineses criaram as pipas para o lazer, para rituais e para testar as condições do tempo. Hero de Alexandria desenvolveu o aerolipile. Leonardo da Vinci, em 1485, desenhou o ornithoptero a partir de estudos sobre asas e caudas de pássaros, inspirando a criação do helicóptero. Alberto Santos Dumont, em 1906, teve a primazia de descer em Paris no 14 bis, tornando 'real' o sonho acalentado há tanto tempo.
A tecnologia da aviação rapidamente progrediu no século XX, a partir dos grandes conflitos mundiais, com a aviação militar e, mais tarde, com a aviação civil. Esta última, ao transportar passageiros e cargas em um período de tempo relativamente rápido, passou a ocupar um espaço que não seria possível a qualquer outro meio de transporte, seja por terra ou por mar.
Esses avanços permitiram a redução das distâncias e do tempo de vôo sem escalas, bem como o aumento da capacidade de transporte de passageiros, elevando o número e a duração dos vôos transcontinentais. Dados da Associação Internacional de Transportes Aéreos (lata), revelam que o número anual de passageiros em vôo passou de 1.562 milhões, em 1999, para 1.647 milhões, em 2000.
O crescente número de viajantes a turismo, negócios ou estudos despertou o desenvolvimento da Medicina Aeroespacial ou Medicina das Viagens Aéreas (MVA). Esta é uma subárea da Medicina das Viagens (MV), que compreende também a Medicina das Altitudes e Medicina Barométrica. Para o seu estudo, concorrem disciplinas como Infectologia, Medicina Preventiva, Cardiologia, Pneumologia, Angiologia e Medicina de Emergência.
A evolução do conhecimento nesta área tem avançado de forma exponencial, desde as observações de balonistas no início do século XVIII aos experimentos com a câmara de altitude de Paul Bert, em 1878, e, ainda, com as investigações do trágico acidente com o ônibus espacial Columbia. Esta evolução acompanha o desenvolvimento de jatos e de vôos mais rápidos.
Apesar da segurança, conforto e rapidez, as viagens aéreas, especialmente as de longa distância, expõem os passageiros a vários fatores de risco que podem produzir efeitos adversos à saúde. Os principais fatores são a baixa pressão do ar, a redução na saturação de oxigênio, a baixa umidade relativa do ar e o aumento na concentração de ozônio e de radiação cósmica.
A progressiva elevação da altitude torna o ambiente da aeronave hostil a seres humanos. Além disso, os desgastes físico e psicológico das longas viagens e as oscilações do ritmo circadiano representam uma dimensão especial do problema.
As equipes de emergência, a cada dia, são confrontadas com as necessidades de transporte médico aéreo e ocasionalmente lidam com problemas médicos cada vez mais sofisticados. Ouvir o típico chamado de um comissário 'Existe algum doutor a bordo?', em alguma emergência no avião, é uma situação com a qual, mais cedo ou mais tarde, a maioria dos médicos que viaja em linhas aéreas, irá um dia se deparar.
Os passageiros que têm problemas de saúde preexistentes são mais suscetíveis a desenvolver quadros de hipobarismo, hipóxia, desconforto produzido pela expansão de gases, desidratação, trombose do viajante, fadiga da viagem e síndrome de dessincronização. Entretanto, esses riscos podem ser minimizados se o viajante fizer um cuidadoso plano de viagem e tomar precauções simples antes, durante e depois do vôo.
A ocorrência comum de problemas de saúde relacionados às viagens aéreas determina que haja uma certa familiaridade, entre os médicos, com os princípios da MVA, cuja missão é a de proteger a saúde de tripulantes, viajantes e pacientes antes, durante e depois do vôo.
Este artigo pretende discutir a MVA com ênfase na Cronobiologia. Deste modo, iremos abordar a síndrome de dessincronização ou jet lag que é, de longe, aquela que mais se relaciona aos objetivos da presente publicação.
Síndrome de dessincronização
Os primeiros navegadores, ao se deslocarem em direção ao Oriente e às terras do Novo Mundo, certamente não tiveram de se preocupar com as sensações de atordoamento que muitos viajantes experimentam quando os modernos jatos cruzam o céu e atravessam muitas zonas de tempo. Essas sensações fazem parte de uma cadeia de eventos relacionados à adaptação do corpo às mudanças de fusos horários.
O corpo tem um sistema de ritmos sincronizados que organizam suas funções em rígidos ciclos de 24 horas. Estes ritmos podem ser influenciados e ajustados a uma ampla faixa de fatores ambientais, como o horário no relógio de pulso, se está claro ou escuro e as
mudanças de temperatura (Gráfico 1).
Gráfico 1 – Curva de temperatura corporal
Jet lag é um termo usado para um conjunto de sintomas que resultam das mudanças nos padrões rítmicos naturais do corpo, quando são rapidamente cruzados muitos fusos horários. A rápida passagem pelos fusos rompe os ritmos naturais do corpo, ultrapassando a sua capacidade para reajustar-se às mudanças.
Este fenômeno é denominado dessincronização ou desorientação e até que o corpo consiga reajustar seu relógio interno para os novos fusos muitas pessoas irão sentir esses efeitos. O jet lag é um dos tipos de distúrbios do sono.
O organismo desenvolve um ciclo natural dormir-despertar, o qual se liga aos padrões de oferta de luz-escuridão no ambiente. As viagens entre os fusos alteram estes padrões, desregulando os ritmos corporais. Embora uma mudança de poucas horas não pareça significativa, pode ser o bastante para afetar este ciclo. Se um norte-americano, em Brasília, receber uma chamada para despertar às 7 horas da manhã, o corpo dele ainda estará girando no tempo de Nova Iorque, onde são somente 5 horas da manhã. Os efeitos do jet lag vão além do cansaço. Isto ocorre porque o rompimento do ciclo dormir-despertar afeta muitos processos orgânicos, incluindo a temperatura e a secreção de hormônios. O desequilíbrio desses processos pode levar a um amplo espectro de sintomas.
O ciclo circadiano
O ritmo vital
O corpo humano tem muitos ritmos que governam as nossas vidas. O próprio desabrochar da vida humana ocorre com maior freqüência à noite. Já os temidos ataques cardíacos têm o pico em torno das 10 horas da manhã. Assim, quase todo aspecto da vida humana é cronometrado.
O ser humano tem vários relógios biológicos internos. O funcionamento do organismo em um período de 24 horas é denominado ritmo circadiano.
O relógio circadiano localiza-se nos mamíferos no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, no sistema nervoso central (SNC). Este núcleo contém osciladores circadianos em múltiplas células autônomas e os seus mecanismos oscilatórios começam a ser desvendados. Ainda representa um desafio conhecer como células individuais do SNC criam um marca-passo tissular que produz uma leitura exterior coerente ao resto do organismo.
Estudos de gene-expressão, expondo ratos a ciclos de luz-escuridão por períodos próximos aos limites de sincronização do ritmo circadiano, sugerem que os dois ritmos de atividade motora refletem as atividades separadas de dois osciladores localizados nas regiões ventrolateral e dorsomedial do SNC.
O ritmo circadiano é a principal fonte de informações temporal e rítmica para todos os processos fisiológicos do organismo, inclusive a alternância do sono-vigília. Recentes estudos, em modelos animais e humanos, demonstram importante modulação do sono e vigília mediada pelo ritmo circadiano.
O ciclo dormir-despertar
A vantagem na adaptação dos comportamentos de sincronização dormir-despertar com as mudanças diárias no ambiente externo é clara. Porém, no mundo moderno, onde as restrições do tempo são menos importantes, o relógio circadiano ainda impõe limites rígidos na fronteira do sono e estado de vigília, os quais são crescentemente percebidos como limitações ao desempenho humano. Este conflito está ligado aos distúrbios do sono do jet lag e do trabalho em turnos e noturno, problemas que não são exatamente doenças, mas refletem a função normal do ritmo circadiano (RC) no contexto das demandas extraordinárias na programação do ciclo dormir-despertar. Independente de outros fatores, o relógio circadiano potencializa a insônia e o estado de vigília em uma fase do ciclo diurno, enquanto favorece o sono na fase oposta.
A presença de luz ou escuridão desencadeia o ciclo de dormir-despertar. O corpo vai se acostumando com a noite, à medida que declina o dia. A produção de melatonina é estimulada na escuridão, enquanto dormimos, e se reduz à medida que surge a luz do dia; a luz natural interrompe a produção do hormônio. Este hormônio é secretado pela hipófise, glândula conhecida como 'cronometrista do cérebro', por ajudar a dirigir o ciclo de dormir-despertar. Quando viajamos, nosso ritmo circadiano se desconecta do comando do ritmo diurno. O relógio biológico acelera (quando nos movemos no sentido Leste a Oeste) ou retrocede (quando nos movemos no sentido Oeste a Leste).
Período de adaptação
O corpo se adapta para as mudanças de fuso a uma taxa bruta de uma hora por dia. Então, após realizar uma viagem através de oito zonas de tempo, o passageiro pode levar cerca oito dias para ajustar-se completamente à nova hora local.
Muitas pessoas têm uma melhor tolerância para viajar em direção ao Oeste do que para o Leste: as viagens para o oeste resultam em um dia mais longo que beneficia aqueles cujo ritmo natural do corpo é maior do que um ciclo de 24 horas. Certamente, um vôo que não cruze zonas de tempo – viagem Norte para o Sul, por exemplo – não irá causar o jet lag.
Cuidados especiais com medicação de uso contínuo
Os viajantes que usam medicação contínua precisam ajustar as doses e horários, pois podem apresentar problemas de saúde ao passarem pelas zonas de tempo. Um paciente com diabetes insulino-dependente deve procurar o médico antes de viajar, para ajustar a dose e horário de aplicação da insulina às mudanças do fuso horário. Do mesmo modo, as mulheres que utilizam contraceptivos orais de baixa dose podem perder a proteção anticoncepcional se as doses são perdidas ou se há demora em tomá-las.
Para exemplificar, citamos o caso de um passageiro que atendemos com crise convulsiva, durante a decolagem de Nova Iorque para o Rio de Janeiro. Ele referiu que pela manhã havia reduzido, à metade, a dose habitual de fenobarbital e que não tinha crises epilépticas há mais de dez anos.
Epidemiologia
As crianças e adolescentes são menos afetados pelo jet lag do que os adultos. As pessoas com idade acima de 50 anos apresentam mais dificuldades para suportar os efeitos do jet lag. Os principais sintomas são insônia, fadiga e irritabilidade.
O jet lag é considerado uma maldição das viagens aéreas porque resulta em perda da eficiência no trabalho e no prazer de férias, freqüentemente por dias após a chegada.
Rogers e Reilly (2002) conduziram um estudo transversal com passageiros em viagem a negócios internacionais; o jet lag foi um dos problemas de saúde mais referidos, afetando cerca de 74% desta população.
Em 1994, na Nova Zelândia, foi aplicado um questionário a 228 comissários de vôo de rotas internacionais. Cerca de 96% responderam que sofriam jet lag, a despeito de estarem acostumados a longas e duras viagens. O relógio biológico acelera (quando nos movemos no sentido Leste a Oeste) ou retrocede (quando nos movemos no sentido Oeste a Leste).
Bourgeois-Bougrine e colaboradores (2003) realizaram estudo transversal com 739 pilotos, em vôos de curta e longa duração, sobre a percepção da fadiga. A fadiga foi percebida em (59%) deles, enquanto que 45% referiram padecer sintomas de jet lag.
Em ambos os tipos de vôos, os pilotos reportaram fadiga relacionada à privação do sono devido principalmente ao trabalho noturno: vôos noturnos, jet lag e despertar precoce. Esses fatores causais devem ser considerados e avaliados na investigação de acidentes.
Diagnóstico
O jet lag ou síndrome de dessincronização emergiu com o aumento das viagens aéreas de longa distância. Os sintomas incluem transtornos do sono, aumento da fadiga, perda da concentração e aumento da irritabilidade no dia seguinte ao vôo. O viajante pode ainda apresentar dificuldades para iniciar e manter o sono, à noite.
Os sintomas são devidos a um fenômeno de dessincronização entre os ritmos do corpo e os ritmos ambientais. O ritmo notoriamente afetado é o ciclo de sono e atividade (dormir-despertar), com as mudanças associadas ao desempenho físico e mental.
Se o viajante apresentar sintomas típicos, na maioria dos casos, não precisará buscar atenção médica. Se os sintomas durarem um tempo maior do que duas semanas, é possível que algum outro fator esteja gerando tais dificuldades. Ainda que não existam testes específicos para o diagnóstico do jet lag, o médico pode fazer o diagnóstico com base no reconhecimento dos sinais e sintomas do jet lag, anteriormente referidos, em pacientes que fizeram um vôo de longa duração.
O diagnóstico diferencial deverá ser feito com a fadiga de viagem, distúrbios do sono e as repercussões do trabalho em turnos e noturno (Capítulo 20).
A síndrome de fadiga de viagem ocorre também em vôos longos, por serem cansativos e desconfortáveis, e devido à desidratação provocada pelo ar seco da cabine. Seus efeitos devem ser diferenciados do jet lag comparando os vôos por zonas de tempo como, por exemplo, da Europa para a Ásia, com os vôos de duração semelhante ao longo do mesmo meridiano como, por exemplo, para a África do Sul, os quais causam fadiga de viagem, mas nenhum sintoma de dessincronização.
Sintomatologia
Os sintomas do jet lag ocorrem devido ao 'atraso' no relógio biológico produzido por longas viagens aéreas transmeridianas. Podem variar de leves a severos, dependendo do número de zonas de tempo cruzadas e da sensibilidade individual para tais mudanças. Os sintomas iniciam dentro de um ou dois dias após a viagem aérea, ao cruzar, pelo menos, dois fusos horários. Ocorre o rompimento do ciclo dormir-despertar e, à medida que mais zonas de tempo são cruzadas, o mais provável é que outros ritmos corporais sejam rompidos, o que pode levar a sintomas mais severos.
A insônia é um dos principais sintomas do jet lag; ela se caracteriza pela incapacidade em estabelecer um padrão de sono. Esta quebra do ciclo de vigília durante o dia gera sonolência diurna ou indisposição geral. A privação de sono leva à redução da atenção, bastante o suficiente para dificultar a condução de um automóvel.
Os distúrbios do sono, às vezes, podem levar, em médio prazo, a um colapso nervoso cujas razões podem passar despercebidas. No
Quadro 1 podemos observar uma sinopse dos sintomas.
Quadro 1 – Sintomas típicos do jet lag ou síndrome de
dessincronização
Sinopse dos Sinais e Sintomas
Insônia: sono inquieto Distúrbios do humor: com despertar freqüente; irritabilidade, instabilidade sonolência diurna. emocional. Indisposição geral: Cefaléia, dificuldade para sintomas mimetizam um concentrar-se, prejuízo no resfriado discernimento. Fadiga: sensação de Performance mental: cansaço por vários dias, redução da memória, redução da capacidade de dificuldade para aprendizagem e de concentrar-se, lapso de treinamento. atenção e desorientação. Distúrbios gastrintestinais: Alteração dos padrões do náusea, diarréia. apetite, alimentação e
hábitos intestinais.
Duração
Para cada fuso que o indivíduo cruza durante uma viagem, leva-se cerca de um dia para ajustar-se ao novo ambiente. Por exemplo, pode levar três dias para quem viaja da Califórnia para Nova Iorque sentir-se 'normal' novamente. Se a pessoa viajar de volta para a Califórnia, após ajustar-se ao tempo de Nova Iorque, pode levar outros três dias para ajustar-se ao tempo da Califórnia.
As pessoas idosas parecem ser mais duramente atingidas pelo jet lag e podem requerer um pouco mais de tempo para se ajustarem. A viagem do Oeste ao Leste pode produzir sintomas mais incômodos, desde que o organismo tem mais dificuldade em ajustar seu relógio para trás do que para adiante.
Tratamento
Todos os ritmos biológicos são regulados por fatores internos e externos que interagem. Assim, o ritmo circadiano controla a secreção de melatonina (fator interno), a qual aumenta enquanto a luz natural permanece 'desligada'. Com uma rápida mudança de fuso, vários dias são necessários para os fatores externos mudarem a fase do 'relógio do corpo' de um fuso horário para um novo fuso. Acelerar esta mudança adaptativa pode aliviar ou prevenir o jet lag.
A abordagem básica do tratamento do jet lag reside em uma adequada higiene do sono, terapias de ajustamento e na cronoterapia. Para minimizar seus efeitos, é preciso cuidados com exposição à luz, alimentação, ingestão de líquidos e exercícios. Os medicamentos devem ser usados com cautela, de modo complementar às outras medidas, nos casos de mais difícil controle ou com sintomas de maior duração.
Terapia de ajustamento comportamental
A terapia de ajustamento é um dos esteios no tratamento do jet lag, sendo parte importante no tratamento das desordens do ritmo circadiano. Ela maximiza as sugestões ambientais externas (ciclo luz-escuridão) para alcançar a fase circadiana no destino, sem muitas perturbações. Isto significa fazer uma tentativa para começar a sentir os efeitos da mudança de fuso antes da partida.
Os passageiros devem manter um quarto silencioso e escuro durante o período regular de sono e um quarto bem iluminado ao despertar. A sugestão mais importante é a luz: depois de um vôo para o Oeste, é melhor ficar acordado enquanto é dia no destino e tentar dormir quando escurece; depois de um vôo para o Leste, convém ficar acordado, porém evitar a luz natural pela manhã, e ficar ao ar livre, sempre que possível, à tarde.
Esses comportamentos ajustam a fase do relógio do corpo, e o comando para secretar a melatonina é acionado no momento certo. Outra sugestão seria uma gradual mudança nos horários das refeições. Os exercícios leves são aconselháveis se existe luz natural. É bem provável que o uso de álcool ou cafeína dificulte a adaptação e, por isso, deve ser evitado.
Terapia de exposição à luz
A exposição à luz, por inibir a secreção de melatonina, alivia os sintomas. As perturbações do ritmo circadiano respondem bem à terapia com luz brilhante (> 600lux); porém uma intensidade mais alta de luz (> 6000lux por 30-60min.) pode ser necessária para realizar as mudanças agudas de fuso.
O horário da terapia também é importante, pois afeta o grau e a direção da mudança do ritmo. A terapia aplicada no começo da noite irá retardar a fase do ciclo nas pessoas que apresentam a 'síndrome de fase de sono avançada' (SFSA).
Entretanto, se for aplicada no início da manhã, irá estimular a vigilância matutina e um horário mais cedo para dormir, ideal para os indivíduos que apresentam a 'síndrome de fase de sono tardia' (SFST).
Cronoterapia
Este tratamento consiste em uma gradual troca no tempo de sono conforme a tendência do paciente. Assim, para as pessoas que apresentam a SFST, é aconselhável um progressivo retardo de 3h/dia, seguido por uma manutenção a um horário regular para dormir até alcançar o horário desejado. Já para as pessoas que apresentam a SFSA, o foco da cronoterapia é avançar o horário de ir dormir em 2-3h/noite por uma semana até que se alcance o horário desejado.
Estilo de vida As pessoas podem responder às trocas nas fases ativas exibindo sinais de privação de sono. Os adolescentes podem ter dificuldades de se levantarem para aula e de se manterem acordados nas primeiras horas da manhã. É possível que os trabalhadores em turnos tenham dificuldades se as trocas ocorrerem muito rapidamente antes que eles tenham chance para ajustar-se.
Alimentação
O relógio da alimentação é um importante zeitgeber (fator externo que influencia o relógio do corpo em sua adaptação a um novo fuso horário). Assim, se a pessoa não tem hábito de fazer refeições pesadas à noite, deve evitar as refeições em vôo, pois é impróprio para o horário de seu destino. Os principais conselhos para reorientar os hábitos alimentares incluem limitar as refeições abundantes evitar o excesso de líquidos antes da hora de ir dormir e desencorajar a obesidade.
Atividade física
A modificação do comportamento nos pacientes com irregular ciclo dormir-despertar tem sido útil. Deve-se encorajar a prática de atividades durante o dia, mesmo na presença de fadiga. Uma sesta à tarde, dentro de uma programação diária regular, poderá ajudar a evitar múltiplos cochilos breves de dia e a consolidar o sono no tempo desejável. Deve-se enfatizar a realização de exercícios regulares pela manhã como um componente de promoção da higiene de sono. Os pacientes devem evitar exercícios fortes antes da hora de dormir.
Terapia farmacológica
Normalmente, não é necessário chamar um médico para tratar dos sintomas do jet lag. Porém, existem situações nas quais é aconselhável fazê-lo, especialmente quando os sintomas não melhoram dentro de duas semanas. As opções terapêuticas incluem o uso de soporíferos (benzodiazepínicos e imidazopiridinas) e de melatonina.
Os soporíferos reduzem a fadiga – um sintoma recorrente do jet lag – durante o ajuste para o novo fuso horário. Isto pode ajudar o passageiro a conseguir um pouco de sono quando ele precisa descansar em um momento que, para seu corpo, ainda é um horário impróprio, e também pode ajudá-lo a dormir à noite.
Ao prescrever uma droga para essas situações, o médico deve ser cauteloso e indicar a dose mais baixa dentro da faixa de segurança recomendada. É preferível sempre escolher uma droga de curta ação e que não leve à 'ressaca', bem como evitar o uso do álcool enquanto estiver tomando a droga. Os soporíferos só devem ser usados durante os vôos que sejam suficientemente longos para permitir, no mínimo, seis horas de sono.
Benzodiazepínicos (BZD)
São largamente utilizados no combate aos distúrbios do sono, por serem superiores aos barbitúricos e por sua melhor eficácia e baixa toxicidade. Entretanto, deve-se ter cautela com a sua prescrição, especialmente quanto à observância da abstinência ao álcool.
O uso do triazolam® (com freqüência associado ao álcool) em viagens transatlânticas nos anos 80 do século passado resultou em epidemia de 'amnésia de curta duração', na qual os viajantes sentiam-se incapazes de se lembrar de qualquer fato ocorrido nas primeiras horas após a partida.
Os BZD têm um rápido início de ação – um fator positivo em se tratando do jet lag –, porém a sua prescrição deve considerar os efeitos indesejáveis, tais como o fenômeno de insônia rebote, as ações residuais durante o dia e o potencial aditivo. Eles são classificados em 2-ceto, 3-hidroxi e triazolo. Os compostos 2-ceto têm meias-vidas longas (> 20h) e incluem o diazepam, o clordiazepóxido e o clonazepam. Os agentes 3-hidroxi, oxazepam e lorazepam têm meias-vidas de 12h. Os compostos triazolos incluem alprazolam, midazolam e triazolam e têm meias-vidas de 11-16h, 1,7-2,4h e 1,5-5,5h, respectivamente.
O triazolam®, um BZD de curta-ação, é a droga de escolha para a insônia de início precoce em conjunto com a terapia comportamental. Porém, é pouco efetivo na insônia crônica (pacientes com distúrbios de manutenção ou de início do sono). Nesses casos, é recomendável o uso de BZD de intermediária (estazolam®) ou de longa ação (quazepam®). Para os objetivos deste artigo, iremos nos reportar ao triazolam® que, junto com o estazolam®, se encontram disponíveis no mercado brasileiro.
A dose inicial recomendada de triazolam é de 0,25mg, reduzindo-se à metade em pacientes idosos. O seu uso não está estabelecido para crianças. Ele é contraindicado na gravidez, lactação e em pessoas com hipersensibilidade. As principais interações são com barbitúricos, fenotiazinas, inibidores da mono-amino-oxidase e álcool, os quais aumentam a toxicidade dos BZD para o sistema nervoso central (SNC). Seus efeitos colaterais incluem sedação diurna residual, prejuízo nas funções cognitivas e aumento do risco de quedas, especialmente em idosos. Deve ser administrado com cautela e monitorado em pacientes com doenças hepáticas, pulmonares e renais e na presença de hipoalbuminemia. Também é preciso cautela quando em uso concomitante com agentes depressores do SNC.
Imidazopiridinas
As imidazopiridinas são hipnóticos não-diazepínicos com boa aceitação no meio médico. Isto se deve a dois aspectos: não alteram a arquitetura do sono e não geram fenômeno de rebote (comumente observado com uso de BZD). O zolpidem tem demonstrado, em estudos duplos-cegos controlados com placebo, propriedades hipnóticas na maioria dos pacientes sem afetar o desempenho de modo significativo no dia seguinte, quando administrado em doses de 7,5-10mg.
É uma droga rapidamente absorvida, tem uma meia-vida de 2,5h e constitui-se em boa opção para os pacientes com insônia de início tardio. Por ser uma droga de curta-ação para induzir o sono, pode ser utilizada no tratamento do jet lag. Seu uso não está estabelecido para crianças e, na gravidez, os benefícios devem sempre ultrapassar os riscos.
As principais contra-indicações são hipersensibilidade e lactação. Os efeitos colaterais podem incluir: sonolência, vertigem, tontura e falta de coordenação motora; os pacientes devem ser aconselhados a evitar dirigir e operar máquinas pesadas. As pessoas idosas devem ser monitoradas quanto a eventuais prejuízos no desempenho motor ou cognitivo.
Melatonina
A melatonina é um hormônio secretado pela hipófise, em um rígido ciclo diário, o qual age no corpo como um poderoso sinal interno da aproximação da noite. A sua secreção é inibida na presença de luz brilhante. A melatonina tem um efeito hipnótico e leva o indivíduo a dormir em ambas as fases de mudança do ritmo circadiano, o que é apontado como a única explicação para alguma influência que este efeito possivelmente possa ter no jet lag.
Muitos viajantes a utilizam como tentativa de ressincronizar o relógio do corpo. Ela é comercializada em cápsulas, nos EUA, como suplemento alimentar e pode ser adquirida em lojas de importados, no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a exemplo da Food and Drugs Administration (FDA), também não aprovou o seu uso. A importância relativa de seus efeitos ainda não está bem estabelecida. A administração da melatonina para o jet lag deve sempre ser avaliadas pelo médico.
Herxheimer e Petrie, em 2003 (Cochrane Review), realizaram um estudo de meta-análise com dez estudos controlados randomizados que comparavam a melatonina com placebo em passageiros que viajavam longas distâncias.
Em uma das tentativas foi também incluída uma comparação com o hipnótico zolpidem®. Em oito de dez ensaios clínicos foi observada uma significativa redução nos sintomas do jet lag quando havia sido administrada a melatonina. Porém, esses ensaios utilizaram diferentes metodologias para avaliar o jet lag, e os efeitos adversos não foram procurados de forma sistemática.
A revisão Cochrane (2003) concluiu que 2-5mg de melatonina tomados na hora de dormir, após a chegada, é uma dose segura e eficaz e seria válido repetir a mesma posologia durante o período de adaptação ao novo fuso (2-4 dias), junto com as outras medidas já mencionadas (terapia de ajustamento, exposição à luz, cronoterapia etc.). Porém, as pessoas que não tiveram sintoma do jet lag em uma viagem prévia podem nunca precisar utilizar a melatonina.
A melatonina em geral não produz efeitos colaterais sérios, embora exista pouca informação sobre a segurança de sua utilização em longo prazo. Possíveis efeitos colaterais incluem edema das mamas, queda da temperatura e agravamento da depressão.
Alguns estudos da revisão Cochrane (2003) não recomendam o uso da melatonina em pessoas com epilepsia ou em uso de anticoagulantes orais, em virtude da possibilidade de ocorrerem interações medicamentosas.
Prevenção
Embora não exista nada que consiga prevenir completamente o jet lag, os viajantes podem tomar algumas medidas para limitar seus efeitos. Em qualquer abordagem sobre o problema, é bom que os
passageiros tenham em mente os conselhos mostrados no Quadro
2.
Quadro 2 – Conselhos úteis para reduzir os efeitos do jet lag
Conselho Justificativa Atitude a
tomar
Dar preferência Causam menos Planejar a
aos vôos fadiga e privação do viagem com
diurnos. sono, permitem que antecedência.
se chegue ao Escolher
destino em melhor roteiros que
forma (ainda que permitam viajar
não ajudem a com mais
ajustar-se à conforto.
diferença de fuso).
Reorganizar o Combinar o horário Dormir e
horário de casa, de casa com o do alimentar-se 5 a 7 dias antes destino. em tempos
da viagem. diferentes
(mais cedo ou
mais tarde) do
que aqueles a
que se está
acostumado;
Estar
descansado
antes da
partida e
manter-se
relaxado
durante o vôo.
Esforçar-se Condicionar-se às
para adquirir (ou Fazer uma mudanças de fuso
obter) um refeição leve horário durante os
período máximo antes do vôo; vôos noturnos na
de sono. direção Leste e nas
viagens Pedir à
transatlânticas. tripulação para
não incomodar;
Usar alguma
medicação leve
para pegar no
sono (indicação
médica);
Assegurar um
número total de
horas de sono
de sono
equivalente ao
horário de
casa.
Evitar o cochilo Voar em direção ao Evitar tirar um
durante e após Oeste tem o efeito simples
o vôo. de alongar o dia, cochilo.
sendo necessário Praticar leitura
prevenir a e caminhar a
sonolência. cada hora no
interior do jato.
Adotar o horário A própria pessoa local, ao chegar Reajustar o seu deve tomar medidas,
ao destino. relógio; o mais breve
possível, que
favoreçam uma Ficar acordado
melhor adaptação ao durante todo o
novo fuso horário. dia;
Dormir
somente à
noite;
Fazer as
refeições no
horário local;
Passar tempo
ao ar livre.
Expor-se à luz Adaptação mais Evitar ficar no
natural. rápida ao novo hotel;
ambiente.
Sair à luz do
dia no novo
fuso;
Caminhar à
tarde.
Evitar o uso de Levam à Evitar álcool,
bebidas desidratação, chá e café;
estimulantes, interferem no sono e
durante e após Preferir líquidos pioram os sintomas
o vôo. leves, sem teor do jet lag.
alcoólico.
Tomar bastante Evitar a Preferir água e
líquido antes, desidratação. sucos naturais.
durante e após
o vôo.
Elevar a Prevenir a sensação Tomar um
temperatura de frio durante o dia banho quente,
basal do corpo. (queda natural da ao chegar ao
temperatura do hotel e à tarde.
corpo, à noite).
Aceitar, com Prevenir o estresse e
naturalidade, Procurar a queda da
que o relaxar e performance física e
desempenho intelectua na entender que o
físico e mental chegada ao destino. organismo
estará quase precisa desse
sempre tempo para
reduzido, ao adequar-se à chegar a um nova realidade;
novo fuso.
Evitar dirigir na
chegada.
Evitar Favorecer uma Programar os
compromissos, melhor performance compromissos
reuniões de física e mental; para o dia negócios ou Manter-se alerta a seguinte à
conferências maior parte do chegada.
nas primeiras tempo.
24h após a
chegada.
Durante a primeira noite no novo fuso horário, os comprimidos para dormir podem ser úteis para ajudar a pegar no sono em um horário ao qual a pessoa não está acostumada. É preferível que o médico prescreva uma droga de ação curta, de uso estritamente eventual, que pode ser valiosa e não ocasionar nenhum dano ou dependência. Em geral, recomenda-se o uso de pequenas doses, suficientes para atingir este propósito, além de evitar o uso de álcool.
Claramente, só deveriam ser usadas pílulas para dormir em vôos que sejam suficientemente longos: é insensato que o indivíduo tome um comprimido que o deixará sonolento durante oito horas se já esteja em vôo há mais de duas horas. E nunca é demais alertar que o uso de álcool, pílulas para dormir, fadiga e jet lag não combinam com dirigir. Muitas pessoas cambaleiam depois de uma longa viagem aérea e de forma imprevidente tentam dirigir, quando elas com certeza ainda não estão ajustadas à nova situação.
Prognóstico
Jet lag é um distúrbio transitório que, na maioria dos casos, se resolve por si mesmo dentro de alguns dias. As pessoas idosas e aquelas com rotinas muito rígidas podem ter mais dificuldade para tolerar as mudanças nos seus respectivos ciclos de luz-escuridão, por isso é possível que venham a precisar de um tempo mais longo para se recuperarem. Porém, até mesmo para estas pessoas, espera-se que todos os sintomas desapareçam em duas semanas.
Não há dúvida de que, com o passar do tempo, as pessoas que viajam com certa freqüência desenvolvem as suas próprias estratégias de enfrentamento do jet lag.Esta é uma razão que dificulta a avaliação formal de cura para o jet lag. Decifrar a influência de outros fatores é o principal desafio, e um grande número de viajantes seria necessário para realizar um estudo científico.
Muitas das conseqüências dos distúrbios do sono relacionadas ao ritmo circadiano podem ser modificadas com o uso de cronoterapia. A educação em saúde pode desempenhar um papel crítico na resposta terapêutica; porém a educação na higiene do sono sem outras intervenções é freqüentemente insuficiente.
Conclusões
Os efeitos do jet lag no desempenho humano, ainda que sejam tipicamente passageiros, podem ser significativos e afetar desde os negócios até as atividades culturais, científicas e diplomáticas, e mesmo o resultado de competições esportivas. A prevenção completa do jet lag só se operaria em um cenário com regressão do atual modelo econômico global para um modelo agrário. A sociedade pós-industrial tem um modus operandi próprio, qual seja, o de funcionar 24 horas. Os ritmos da vida moderna interferem então com o singular equilíbrio interno do nosso relógio biológico. Na natureza lato sensu, um princípio básico é o do equilíbrio dinâmico dos ecossistemas. Quando ele se rompe, quase sempre pela ação predatória do homem, uma série de distúrbios climáticos ocorre.
Na natureza humana, este ponto de equilíbrio também se expressa em nossos ritmos internos biológicos. Para uma relação harmoniosa, necessitamos buscar este ponto de equilíbrio natural frente às exigências da vida moderna. É preciso considerar que existe sempre um preço a pagar pela privação do sono e pelo desequilíbrio gerado pelas rápidas mudanças de fuso horário. A limitação crônica do sono está associada com aumentos significativos de vários problemas de saúde e a sociopatias decorrentes do rompimento de vínculos sociais e afetivos. O ser humano é, por natureza, um ser de relação e, por isso, necessita estar internamente harmonizado com seus ritmos biológicos internos e com os ritmos externos – Zeitgeber.
O ritmo circadiano é um relógio da vida e a qualidade de vida que tanto buscamos na sociedade contemporânea está intimamente relacionada com o respeito aos nossos ritmos. A prevenção e tratamento do jet lag e outros distúrbios, durante e após as viagens aéreas, devem ser feitos com critérios e orientados por médicos, de modo a minimizar os efeitos e os riscos decorrentes das mudanças das zonas de tempo. Afinal, se viajar é preciso, é também necessário cuidar da saúde, um bem precioso demais para ficar oscilando em fusos.
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