Medicina da Noite: da Cronobiologia à Prática Clínica

A adolescência e a noite

 

José Henrique Withers Aquino

 

Introdução

A adolescência pode ser definida como o período da vida extra-uterina no qual ocorrem as mais intensas e extraordinárias transformações físicas, emocionais, comportamentais e sociais no ser humano. Em tempos passados, a adolescência era vista simplesmente como uma fase de transição entre a infância e a vida adulta. Modernamente, no entanto, compreendemos tratar-se de período completamente distinto, com particularidades próprias, haja vista os intensos fenômenos biológicos, aí incluídos as notáveis modificações físicas resultantes da puberdade, as mudanças do pensamento e das emoções características da segunda década da vida e o entendimento do impacto diferenciado causado pelas transformações na família, na economia, no trabalho, na tecnologia, enfim, pelas mudanças da sociedade sobre o adolescente.

De fato, do ponto de vista físico, este é o único período da vida extra-uterina onde há o aumento na velocidade de crescimento, ou seja, é a única fase na existência humana, após o nascimento, em que há, a cada período de tempo, um crescimento maior que no período anterior. Esta é uma das características próprias da puberdade, o principal fenômeno biológico da adolescência.

 

Alterações endocrinológicas

Na espécie humana, o sistema hipotálamo-hipófise-gônadas diferencia-se e funciona ativamente durante a vida fetal e no recém-nascido. Depois, durante quase uma década – a infância –, há diminuição de sua atividade para níveis muito baixos e, subitamente, sofre intensa reativação, comumente no início da segunda década de vida – a puberdade.

Sabemos que no período pré-púbere o hormônio luteinizante (LH) é secretado de maneira pulsátil. No entanto, é no início da puberdade que a influência do ritmo circadiano se acentua. A secreção máxima de LH – e também do hormônio folículo estimulante (FSH) – concentra-se no período da noite, especialmente entre as 22h e 4h da madrugada. Esta é a primeira interseção da adolescência com a noite.

O período da adolescência, mormente durante a puberdade, é caracterizado biologicamente por intenso crescimento pôndero-estatural e por grandes mudanças na composição corporal. A base hormonal para o crescimento físico é dependente primariamente dos hormônios tireoideanos, do cortisol, dos esteróides sexuais e do eixo hormônio do crescimento /insulinlike growth factor-1 (GH/IGF-1).

Durante a puberdade, os hormônios sexuais e o eixo GH/IGF-1 continuam a exercer influências independentes sobre o crescimento (como na infância), mas agora é a interação entre eles que subsidia o dramático crescimento linear e as mudanças na composição corporal típicos desta fase.

No início da puberdade, o eixo GH/ IGF-1 sofre intensa ativação. O hormônio do crescimento (GH) é liberado em pulsos durante o sono noturno, mais precocemente nas meninas, o que explica o estirão de crescimento também mais precoce no sexo feminino. É o 'tempo' da adolescência, com todas as suas repercussões não só físicas como também emocionais e sociais.

A partir da metade da puberdade o ritmo dia-noite da secreção do GH é atenuado, graças ao aumento da amplitude secretória diurna. Ao fim do desenvolvimento puberal, os níveis secretórios de GH e IGF-1 retornam aos níveis pré-puberais em ambos os sexos.

Sono

O próximo ponto de interseção entre a adolescência e a noite, sem dúvida alguma, é o sono. Embora inúmeros estudiosos tenham ao longo dos tempos se debruçado sobre este tema, a função específica do ato de dormir permanece até hoje como um grande mistério. Entretanto, hoje, sabemos que o sono não é simplesmente um descanso. Dormir é, antes de mais nada, um processo ativo em que algumas regiões do cérebro mostram as mesmas (e às vezes mais) atividades que durante o estado vígil. Sabemos também que há outros aspectos necessários ao sono, tais como a duração, a continuidade, o horário e a passagem por diversos estágios, ou fases diferentes, para que haja o restabelecimento adequado das funções orgânicas.

Esta função restauradora do sono é essencial não apenas para o ótimo funcionamento físico e mental, senão também para a própria sobrevivência. Estudos têm mostrado que animais privados do sono por longos períodos simplesmente morrem. Dormir é um ato presente e necessário em todas as criaturas vivas estudadas.

Recentemente algumas informações bastante relevantes têm surgido sobre o sono e a adolescência. A primeira delas mostra que, qualquer que seja sua função específica, o sono parece particularmente importante nos períodos de maturação cerebral. Em todas as espécies animais, mormente naquelas dotadas de cérebro, há necessidade maior de sono durante as fases de crescimento físico e maturação do que nos indivíduos adultos. Na espécie humana isto não é diferente. Muitos estudos, entre eles a clássica pesquisa desenvolvida na Universidade de Stanford, mostram aumento significativo da necessidade de sono durante as fases iniciais da adolescência.

Um segundo ponto de grande interesse sobre o ato de dormir e que tem particular relevância durante o desenvolvimento emocional próprio da adolescência é o elo estreito entre o sono e a percepção de ameaça e/ou segurança. Dormir significa restringir quase todas as informações sensoriais ao nível do tálamo, ou seja, abrir mão da percepção de ameaças potenciais ou reais e de suas correspondentes respostas comportamentais. Como conseqüência disto, é natural que a grande maioria das espécies animais busquem dormir em locais que acreditam ser seguros: tocas, árvores, nichos etc.

O homem dormiu, na maior parte de sua história, exposto aos seus predadores devido à sua incapacidade biológica de dormir em árvores ou frestas de penhascos, uma vez que perdemos completamente o tônus muscular durante o sono REM. A proteção individual sempre veio da busca de abrigo (caverna, choupana, casa) e da participação em um grupo social protetor. O cérebro humano evoluiu sob estas condições e, até hoje, o homem continua a manter esses elos ancestrais. Situações de estresse social ou ambiental evocam sentimentos poderosos de ameaça e, portanto, contribuem firmemente para os distúrbios do sono. Por outro lado, um ambiente acolhedor, com laços sociais sólidos, cria um sentimento de proteção e favorece o sono reparador.

Na adolescência, principalmente durante as primeiras etapas da puberdade, o desenvolvimento da percepção de ameaça e de seus sistemas de resposta sofre substancial incremento, possivelmente como antecipação e preparação para o exercício das funções sociais do adulto. Há, nesta fase, uma progressiva e sensível diminuição na quantidade de sono REM e também de estágios 3 e 4 (o sono mais profundo nos seres humanos) com aumento na quantidade de períodos de sono mais leve (estágios 1 e 2), ou seja, diminuição no limiar de vigília. Como resultado direto, incrementos na sonolência diurna tornam-se evidentes, com todas as suas conseqüências.

Entretanto, além da duração e da qualidade do sono, outras alterações têm sido demonstradas nesta fase do desenvolvimento humano.

Como vimos anteriormente, o ritmo circadiano torna-se cada vez mais presente e atuante no início da puberdade, com secreções hormonais noturnas cada vez mais acentuadas. Neste momento, devemos também lembrar de um princípio geral que rege o ciclo ou ritmo circadiano: ele se adapta lentamente às mudanças de horário sono/vigília, sendo mais fácil sua adaptação ao atraso que ao adiantamento.

Com o desaparecimento quase completo dos rituais de passagem à vida adulta em nossa sociedade industrial, possivelmente alguns comportamentos podem ter assumido este simbolismo como, por exemplo, poder fumar, poder beber, poder sair à noite e poder dormir mais tarde. Assim sendo, um adolescente que segue determinado horário de dormir e acordar durante a semana busca (e quase sempre consegue) permanecer acordado até muito mais tarde nos finais de semana (e geralmente fora de casa), compensando com um sono que avança pelas manhãs de sábado e domingo, voltando ao horário habitual no domingo à noite. Entretanto, o retorno ao horário escolar e, portanto, o adiantamento do ciclo circadiano requer alguns dias para a readaptação dos ritmos de secreção hormonal. Muitos adolescentes, conseqüentemente, podem apresentar sinais e sintomas de fadiga, de dificuldade de aprendizado (e mesmo de falência/abandono escolar), de conciliar o sono e de acordar para ir à escola. Quantas crises familiares não são provocadas por isto?

Alguns autores acreditam que, muito mais que um fenômeno social, a busca do adolescente por dormir mais tarde seria, de fato, biológica, uma vez que haveria uma tendência, durante a adolescência, ao retardamento do ciclo circadiano em direção ao padrão adulto. O dado importante é que, independente da base para estas mudanças – se psicossocial, biológica ou ambas –, boa parte dos adolescentes encontra-se no que poderíamos chamar de 'insuficiência de sono'.

Existe crescente evidência de que a deprivação do sono exerce grande influência sobre o controle do comportamento, das emoções e da atenção, além de uma interface significativa com o desenvolvimento social, acadêmico e com a adoção de comportamentos de risco. O trinômio noite-deprivação de sono-comportamentos de risco tem efeitos catastróficos sobre a juventude.

 

O adolescente e a noite

Estatísticas mundiais (o Brasil não foge à regra) mostram que as principais causas de morbimortalidade no adolescente e no adulto jovem são as chamadas 'causas externas'. No Brasil elas correspondem a mais de 50% dos óbitos na faixa entre 10 e 24 anos de idade. Nos Estados Unidos e Canadá, a mais de 75%. Estudando melhor estas causas, vemos que há uma grande predominância desses acontecimentos durante o período noturno. Por exemplo, pesquisa desenvolvida por Liu e colaboradores em New Hampshire, nos Estados Unidos, mostrou que quase dois terços dos acidentes de trânsito envolvendo adolescentes ao volante ocorreram entre 22h e 6h da manhã. Em 47% desses acidentes, houve a morte do motorista; em 55%, de um dos passageiros e em 20% havia envolvimento de álcool ou outras drogas.

Em trabalho desenvolvido na Espanha, ficou clara a associação entre a freqüência de saídas noturnas do adolescente e o consumo de álcool, tabaco e maconha. Inúmeras outras pesquisas têm demonstrado a relação direta entre a noite, o uso de álcool e outras drogas, o comportamento sexual de risco e a criminalidade em geral. Uma das pesquisas que procuram entender as razões para o uso de drogas psicoativas durante a adolescência, realizada por Boys, Mardsen e Strang, utilizou entrevistas com 364 jovens usuários de drogas em Londres. Dos entrevistados, 95,9% disseram que usavam drogas com o intuito de maior socialização e para permanecerem acordados à noite.

Outro estudo muito interessante mostra que quase 83% das adolescentes tiveram sua primeira experiência sexual no período noturno, sendo que aproximadamente 20% delas declaram ter feito sexo por razões relacionadas à diminuição do controle sobre seu comportamento habitual. É notório que o sexo feito por impulso, por curiosidade ou oportunidade traz uma chance sensivelmente maior para o não uso de proteção, ou seja, um risco maior de doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidez indesejada.

 

Considerações finais

Pelo que vimos, podemos compreender que, na adolescência, a necessidade de explorar novas fronteiras e a adoção de comportamentos de risco podem comprometer a saúde, o projeto de vida e mesmo a sobrevivência, própria ou de outros, e tem representado, nos últimos anos, preocupação crescente entre educadores, profissionais da área da saúde e formuladores de políticas públicas.

Destacam-se, entre estes comportamentos ou situações de risco, a falência e o abandono escolar, a gravidez precoce, o uso e o abuso de álcool ou outras drogas, os acidentes (especialmente os de trânsito), o suicídio e outras ações destrutivas.

Embora até hoje existam relativamente poucos estudos sobre o tema, certamente poderemos incluir, ao menos como agente potencializador para todos estes comportamentos ou situações, o período noturno.

É a noite exercendo seu fascínio, mas cobrando seu preço.

 

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Sites recomendados

http://pubs.ama_assn.org/cgi/colletion/adolescent_psychiatry

http://www.sleepfoundation.org/hottopics

http://www.chronobiology.ch