Memória de Elefante

António Lobo Antunes · Capítulo 8 de 14

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Memória de Elefante

Oculto pela arca frigorífica de gelados a…

Oculto pela arca frigorífica de gelados a ronronar sonolências de urso polar contra a m ontra de um a pastelaria, o psiquiatra, curvado, espiava o portão do colégio em atitude de pele-verm elha que aguarda, atrás do seu penedo, a chegada dos batedores brancos. Deixara o fiel cavalo preto trezentos ou quatrocentos m etros acim a, perto da m ata de Benfica e das suas rolas obesas, falcões reciclados pela necessidade de sobrevivência citadina que obriga o Grande Manitu a disfarçar-se, ele próprio, de Senhor dos Passos, e viera rastej ando de plátano em plátano, observado com espanto pelos vendedores am bulantes de porta-m oedas e de atacadores, irm ãos guerreiros cuj a actividade bélica se resum ia a fugas trôpegas à aproxim ação da polícia, em purrando adiante de si os tabuleiros de escalpes das bugigangas inúteis. Agora, ao abrigo dos Olás de chocolate, perscrutando o horizonte da rua com pupilas de águia m íope, o m édico lançava no ar da pradaria os sinais de fum o de um cigarro nervoso que traduzia, sílaba a sílaba, a dim ensão da sua ansiedade.

No prédio em frente daquele em que se escondia, m orava entre gatos e fotografias dedicadas de bispos em voga um a tia velha acolitada pela criada zarolha, veneráveis squaws da tribo fam iliar, visitadas no Natal por excursões de parentes incrédulos, surpreendidos pelas suas com bativas longevidades. Secretam ente o psiquiatra não lhes perdoava o facto de sobreviverem à avó que am ara m uito e cuj a recordação o enternecia ainda: quando se achava m ais em baixo ia a sua casa, entrava na sala, inform ava sem vergonha:

– Venho aqui para m e fazer festas.

E pousava-lhe a cabeça no colo para que os dedos dela, ao tocarem -lhe a nuca, lhe apaziguassem as raivas sem m otivo e o desej o sôfrego de ternura: dos dezasseis anos para cá as únicas alterações im portantes de que se dava conta consistiam na m orte das três ou quatro pessoas que nutriam por ele um afecto constante, à prova das guinadas dos seus caprichos. O seu egoísm o m edia a pulsação do m undo consoante a atenção que recebia: só tarde dem ais acordara para os outros, quando a m aior parte lhe havia voltado as costas enfastiados pela estupidez da sua arrogância e pelo sarcasm o desdenhoso em que cristalizava a tim idez e o m edo. Desprovido de generosidade, de tolerância e de doçura, apenas se preocupava em que se preocupassem consigo, fazendo de si m esm o o tem a único de um a sinfonia m onótona. Chegava a perguntar aos am igos com o conseguiam existir longe da sua órbita egocêntrica, de que os rom ances e poem as que perpetrava sem os escrever form avam com o que um prolongam ento narcísico sem conexão com a vida, arquitectura oca de palavras, design de frases esvaziadas de em oção. Espectador extasiado do próprio sofrim ento, proj ectava reform ular o passado quando não era capaz de lutar pelo presente. Cobarde e vaidoso, fugia de se olhar nos olhos, de entender a sua realidade de cadáver inútil, e de iniciar a angustiosa aprendizagem de estar vivo.

Cachos de m ães da sua idade (facto que continuava a surpreendê-lo por dificuldade em reconhecer que envelhecia) principiavam a agrupar-se ao portão do colégio em agitações de galinhas poedeiras, e o m édico pensou em subir ao andar da tia idosa onde, entrincheirado atrás do retrato do Cardeal Patriarca que se parecia com um palhaço rico, lograria observar a saída das aulas de um ângulo fácil de franco-atirador, disparando saudade pelos canos duplos das olheiras. Mas a órbita cega da criada, que o perseguiria im placavelm ente de gato em gato e de bispo em bispo, devassando-lhe o interior à luz leitosa das cataratas, obrigou-o a desistir do seu proj ecto de Oswald: sabia-se dem asiado frágil para suportar um interrogatório silencioso contrabalançado pelas m anifestações de j úbilo das velhas, que teim ariam decerto em repetir-lhe pela m ilionésim a vez a história torm entosa do seu nascim ento, criança roxa sufocada de secreções ao lado da progenitora com eclam psia. Resignado à trincheira da pastelaria, cuj a m áquina de café relinchava vapor pelas narinas im pacientes de puro-sangue de alum ínio, apoiou os cotovelos no icebergue eléctrico da geleira com o um esquim ó abraçado ao seu igloo, e continuou à espera ao lado de um m endigo sem pernas, pousado num a m anta, que estendia dois dedos à altura dos j oelhos alheios.

Com o em África, pensou ele, exactam ente com o em África, aguardando a chegada m iraculosa do crepúsculo no j ango de Marim ba, enquanto as nuvens escureciam o Cam bo e a Baixa do Cassanj e se povoava do eco dos trovões. A chegada do crepúsculo e a do correio que a coluna trazia, as tuas com pridas cartas húm idas de am or. Tu doente em Luanda, a m iúda longe de am bos, e o soldado que se suicidou em Mangando, deitou-se na cam arata, encostou a arm a ao queixo, disse Boa noite e havia pedaços de dentes e de osso cravados no zinco do tecto, m anchas de sangue, carne, cartilagens, a m etade inferior da cara transform ada num buraco horrível, agonizou quatro horas em sobressaltos de rã, estendido na m arquesa da enferm aria, o cabo segurava o petrom ax que lançava nas paredes grandes som bras confusas. Mangando e os latidos dos cabíris nas trevas, cães esqueléticos de orelhas de m orcego, m adrugadas de estrelas desconhecidas, a soba de Dala e os seus gém eos doentes, o povo para a consulta nos degraus do posto a tiritar de paludism o, picadas destruídas pela violência da chuva. Um a ocasião estávam os sentados a seguir ao alm oço perto do aram e, naquela espécie de lápide funerária com os escudos dos batalhões pintados, e eis que surgiu da estrada da Chiquita um espam panante carro am ericano coberto de pó com um senhor careca dentro, um civil sozinho, nem pide, nem adm inistrativo, nem caçador, nem brigada da lepra, m as um fotógrafo, um fotógrafo m unido dessas m áquinas de tripé das praias e das feiras, inverosím il de arcaica, propondo-se tirar o retrato a todos, isolados ou em grupo, presentes para enviar por carta à fam ília, recordações da guerra, sorrisos desbotados do exílio. Não havia com ida para bebés em Malanj e e a nossa filha tornou a Portugal m agra e pálida, com a cor am arelada dos brancos de Angola, ferrugenta de febre, um ano a dorm ir em cam a de bordão de palm eira j unto das nossas cam as de quartel, estava a fazer um a autópsia ao ar livre por via do cheiro quando m e cham aram porque desm aiaras, encontrei-te exausta num a cadeira feita de tábuas de barrica, fechei a porta, acocorei-m e a chorar ao pé de ti repetindo Até ao fim do m undo, até ao fim do m undo, até ao fim do m undo, certo da certeza de que nada nos podia separar, com o um a onda para a praia na tua direcção vai o m eu corpo, exclam ou o Neruda e era assim connosco, e é assim com igo só que não sou capaz de to dizer ou digo-to se não estás, digo-to sozinho tonto do am or que te tenho, dem ais nos ferim os, nos m agoám os, nos tentám os m atar dentro de cada um , e apesar disso, subterrânea e im ensa, a onda continua e com o para a praia na tua direcção o trigo do m eu corpo se inclina, espigas de dedos que te buscam , tentam tocar-te, se prendem na tua pele com força de unhas, as tuas pernas estreitas apertam -m e a cintura, subo a escada, bato ao trinco, entro, o colchão conhece ainda o j eito do m eu sono, penduro a roupa na cadeira, com o um a onda para a praia com o um a onda para a praia com o um a onda para a praia na tua direcção vai o m eu corpo.

A Teresa, a em pregada, surgiu da avenida Grão Vasco onde as folhas das am oreiras transform am o sol num a lâm pada verde de aquário, cintilante de reflexos tam isados, de tal m odo que as pessoas dão por vezes a sensação de flutuarem na luz em atitudes sem arestas de peixes, e passou por ele no seu passo lento de vaca sagrada, que o sorriso desprovido de crueldade adoçava. Se a Teresa não m e topou ninguém m e topa, pensou o m édico encostando-se m ais ao icebergue até sentir na barriga o contacto liso do esm alte: um pequeno esforço suplem entar e atravessaria a parede da geleira, casulo em que as larvas hum anas correm o risco de se m etam orfosearem em cassata: ser com ido à colher num j antar de fam ília afigurou-se-lhe de súbito um destino agradável. O m endigo da m anta, que contava os lucros, j ulgou adivinhar-lhe as intenções:

– Se vais palm ar saca tam bém aqui para o chichas. De baunilha que m e não fode a úlcera.

Um a senhora que abandonava a pastelaria com um em brulho suspenso de cada dedo considerou apavorada aquele esquisito par de crim inosos que tram avam um sinistro roubo de gelados, e afastou-se a correr no sentido da Dam aia tem endo talvez que a am eaçássem os com pistolas de rebuçado. O m endigo, em quem m orava um esteta, considerou-lhe com agrado a vastidão das coxas:

– Pandeiro de prim eira.

E autobiográfico:

– Antes do acidente com ungava um a todos os dom ingos. Gaj as do Arco do Cego pelo preço da uva m ij ona que as galdérias agora estão piores que o bacalhau.

Um rebuliço de crianças j unto ao portão da escola anunciou ao psiquiatra o fim das aulas: o m endigo rem exeu-se, zangado, na sua m anta:

– Sacanas dos putos roubam -m e m ais do que m e dão.

E o m édico ponderou se essa frase irritada não conteria em si os germ es de um a verdade universal, o que o levou a olhar para o seu sócio com um respeito novo: Rem brandt, por exem plo, não acabou m uito m ais próspero, e não se está livre de encontrar um Pascal no cobrador da água: António Aleixo vendia cautelas, Cam ões escrevia cartas na rua para os que não sabiam ler, Gom es Leal com punha alexandrinos no papel selado do notário onde trabalhava. Dezenas de prém ios Nobel em blue-j eans desafiam a polícia nas m anifestações m aoístas: nesta época estranha a inteligência parece estúpida e a estupidez inteligente, e torna-se salutar desconfiar de am bas por questão de prudência, tal com o, em garoto, o aconselhavam a afastar-se dos senhores excessivam ente am áveis que abordam os m eninos na cerca dos liceus com um brilho estranho nos óculos.

O passeio enchia-se de alunos pastoreados pelas m ães que os enxotavam para casa com o os vendedores de perus da Praça da Figueira na véspera do Natal, e o m édico pensou com m elancolia em com o é difícil educar os adultos, tão pouco atentos à im portância vital de um a pastilha elástica ou de um a caixa de plasticina, e tão preocupados com a ninharia idiota dos bons m odos à m esa, adorando escrever m ensagens obscenas no m árm ore dos urinóis e detestando inofensivos riscos a lápis na parede da sala. O m endigo, que entenderia decerto essas e outras elucubrações, guardava a receita no bolso do colete, a salvo das garras rapaces dos estudantes, e puxava de um atestado de tuberculose para dem over a seu favor os contribuintes indecisos.

Nisto avistou as filhas no m eio de um grupo de m eninas uniform izadas de saia de xadrez, os cabelos loiros e lisos da m ais velha, os caracóis castanhos da m ais nova, abrindo cam inho um a atrás da outra na direcção da Teresa, e os seus intestinos, de repente dem asiado grandes para o um bigo, incharam dos cogum elos da ternura. Apetecia-lhe correr para elas, segurar-lhes na m ão e partirem os três, com o no final do Grand Meaulnes, a cam inho de gloriosas aventuras. O futuro em panavision estendia-se-lhe adiante, real e irreal com o um a história de fadas atapetada pela voz de Paul Sim on:

We were m arried on a rainy day

The sky was y ellow

And the grass was gray

We signed the papers

And we drove away

I do it for y our love

The room s were m ustly

And the pipes were old

All that winter we shared a cold

Drank all the orange j uice

That we could hold

I do it for y our love

Found a rug

In an old j unk shop

And I brought it hom e to y ou

Along the way the colors ran

The orange bled the blue

The sting of reason

The splash of tears

The northern and the southern

Hem ispheres

Love em erges

And it disappears

I do it for y our love

I do it for y our love

A Teresa colocou na cabeça de cada um a delas um barrete verm elho e branco, e o psiquiatra notou que a m ais nova transportava a boneca favorita, criatura de pano de olhos desenhados ao acaso na esfera calva da cara, e cuj a boca se descerrava num esgar patético de rã: dorm iam j untas na cam a e m antinham relações de parentesco com plexas que deviam evoluir segundo o hum or da garota e das quais m e apercebia confusam ente por m isteriosas frases ocasionais que m e com peliam a perpétuos exercícios de im aginação. A m ais velha, que se caracterizava por um a visão angustiada da existência, sustentava com as coisas inanim adas o com bate de Charlot contra as rodas dentadas da vida, precocem ente prom etida a um a vitoriosa derrota. Torcido de cólicas de am or o m édico tinha a im pressão de haver feito a favor delas um seguro de sonho, de que pagava os j uros sob a form a dos gases da sua colite e dos proj ectos paralisados em que enlanguescia: a esperança de que chegassem m ais à frente do que ele anim ava-o do j úbilo dos pioneiros, crente de que as filhas aperfeiçoariam a pobre m arm ita de Papin dos seus desej os, espirrando pelas frinchas artesanais desilusões de fum o. A Teresa despediu-se de um a cam arada de arm as que aguentava nas canelas a agressão classista de um m iúdo em que se esboçava um gestor, e veio vindo com as m eninas na direcção da avenida, aquário de prédios trém ulos da som bra lum inosa das árvores.

The sting of reason

The splash of tears

The northern and the southern

Hem ispheres

Love em erges

And it disappears

I do it for y our love

I do it for y our love

Curvado com o o poeta Chiado no seu banco de bronze o m édico poderia ter-lhes tocado quando quase roçaram por ele a cam inho de casa, de olhos postos num pato de ferro à entrada de um a tabacaria, que por vinte e cinco tostões oscilava e abanava num galope epiléptico. Tossiu de em oção e o m endigo, sarcástico, voltou para ele o crânio hirsuto banhado num riso feroz:

– Dão-te tesão, ó m alacueco?

E pela segunda vez nesse dia o psiquiatra teve vontade de se vom itar a si próprio, longam ente, até ficar vazio de todo o lastro de m erda que tinha.