Memória de Elefante
Ao descer as escadas para o Banco…
Ao descer as escadas para o Banco distinguiu ao longe, perto da penum bra de sacristia a cheirar a verniz de unhas do gabinete das assistentes sociais, criaturas feias e tristes a necessitarem elas próprias de assistência urgente, um grupo de delegados de propaganda m édica estrategicam ente ocultos nas om breiras das portas vizinhas, prontos a assaltarem de enxurradas palavrosas e por vezes letais os esculápios desprevenidos ao alcance, vítim as inocentes da sua sim patia im positiva. O psiquiatra aparentava-os aos vendedores de autom óveis na loquacidade dem asiado delicada e bem vestida, irm ãos bastardos que se haviam desviado, na sequência de um obscuro acidente crom ossóm ico de percurso, da linhagem dos faróis de iodo para as pom adas contra o reum ático, sem contudo perderem a incansável vivacidade solícita original. Espantava-o que aqueles seres debitantes, sem pre-em -pés da boa educação, donos de pastas obesas que continham dentro de si o segredo capaz de transform ar corcundas raquíticas em cam peões de triplo salto, lhe dedicassem em chusm a atenções de Reis Magos portadores de preciosas ofertas de calendários de plástico a favor dos preservativos anti-sífilis Donald, o inim igo público núm ero um dos aum entos dem ográficos, suave ao tacto e com um a coroa de pelinhos afrodisíacos na base, de j ogos de xadrez em cartolina gabando discretam ente em todas as casas os m éritos do xarope para a m em ória Einstein (três sabores: m orango, ananás e bife de lom bo), e de pastilhas efervescentes que rolhavam as diarreias m as soltavam as rédeas da azia, obrigando os doentes dos intestinos a preocuparem -se com as fervuras do estôm ago, m anobra de diversão com que lucravam os quartos de água das Pedras bebidos a pequeninos goles terapêuticos nos balcões das pastelarias. Os doutores saíam -lhes das pinças ferozes a cam balearem sob o peso de folhetos e de am ostras, tontos de discursos eriçados de fórm ulas quím icas, de posologias e de efeitos secundários, e vários tom bavam exaustos trinta ou quarenta m etros percorridos, espalhando em redor os perdigotos de pílulas do últim o suspiro. Um em pregado indiferente varria-lhes os restos clínicos para a vala com um de um balde de lixo am olgado, resm ungando baladas fúnebres de coveiro.
Aproveitando a protecção de dois polícias que escoltavam um velhote digno com cara de aj udante de notário em brulhado nas lonas confusas de um a cam isola de forças, o m édico atravessou a salvo o bando am eaçador dos propagandistas a aliciá-lo com o canto de sereia dos sorrisos uníssonos, desdobrados com o acordeões nas bochechas obsequiosas: um a m anhã destas, pensou, afogam -m e num frasco de suspensão antibiótica am igdal do m esm o m odo que o m eu pai possuía, nunca entendi porquê, guardado no arm ário da estante, o troféu de caça do cadáver de um a escolopendra num tubo de álcool, e vender-m e-ão à Faculdade, encarquilhado com o um aborto, para figurar no m ostruário de horrores do Instituto de Anatom ia, talho científico atravessado de Castelo Fantasm a, com esqueletos pendurados de ferros verticais à m aneira de craveiros m urchos a am pararem o seu desânim o a pedaços de cana, olhando-se uns aos outros com órbitas vazias de m ilitares na reserva.
A coberto das dam as de honor do aj udante de notário, cuj os bigodes trem iam de tim idez autoritária, o psiquiatra ultrapassou ileso um internado alcoólico das suas relações que todas as m anhãs teim ava em narrar-lhe por m iúdo interm ináveis disputas conj ugais em que os argum entos eram substituídos por anim adíssim as batalhas cam pais de caçarolas (Chiça pá dei-lhe um a azevia no alto da piolhosa, doutorzeco de um a cana, que m e ficou oito dias a cuspir brilhantina), um a senhora m agrinha da secretaria que vivia no pânico do esperm a do m arido e usava interrogá-lo ansiosam ente acerca da eficácia com parativa de duzentos e vinte e sete anticoncepcionais diferentes, e um doente de barbas bíblicas de neptuno de lago que nutria por ele um a adm iração entusiástica feita de panegíricos vociferantes, todos m antidos a respeitosa distância pelas aias da cam isola de forças, com unicando ao ouvido peludo um do outro os respectivos hálitos de alho. Passou o gabinete do dentista despovoador de gengivas a lutar aos ganidos contra um m olar tenaz, e j ulgava-se j á m iraculosam ente intacto na Urgência, porta de vidro fosco que lhe acenava com o a bandeira de pano da chegada de um a corrida de bicicletas, quando um dedo perverso lhe tocou im perioso no intervalo das om oplatas, ossos salientes e triangulares que atestavam pela form a o seu passado de anj o oculto sob a fazenda do casaco num m odesto pudor de origens divinas, com o os bem -nascidos arrotam no fim do alm oço por benévola concessão social a um m undo de silvas.
– Meu caro, questionou um a voz nas costas dele, que m e diz à conspiração dos com unistas?
Os polícias, ocupados a transportarem o aj udante de notário num cuidado de m oços de fretes carregando um piano esquisito que tocava sem cessar a sonatina crivada de notas erradas do seu delírio de grandeza, abandonaram vilm ente o m édico j unto ao arquivo onde habitava um a dam a m íope, de óculos da espessura de pisa-papéis, que lhe aum entavam os olhos até às proporções de hirsutos insectos gigantescos cercados de enorm es patas de pestanas, à m ercê de um colega baixinho à deriva no lago de cheviote do sobretudo, de chapéu tirolês cravado na cabeça à m aneira de um a rolha num gargalo no intuito vão de im pedir a tem pestuosa fuga de bolhinhas gaseificadas das suas ideias. O colega trouxe à superfície o gancho de m ão e em vez de acenar por socorro dependurou-se-lhe da gravata com o um náufrago im paciente abraçado por engano a um a cobra de água azul com pintas brancas que se lhe desfazia no punho num a inércia m ole de atacador. O psiquiatra pensou que toda a gente nesse dia o queria separar de um dos últim os presentes que a m ulher lhe dera no desej o inútil de m elhorar a sua aparência de noivo de província congelado num a postura hirta de fotografia de feira: desde a adolescência que trazia consigo, colado à assim etria das feições, o ar postiço e triste dos m ortos de fam ília nos álbuns de retratos, de sorrisos diluídos pelo iodo do tem po. Meu am or, falou dentro de si m esm o apalpando a gravata, sei que isto não alivia nem aj uda m as de nós dois fui eu o que não soube lutar: e vieram -lhe à m em ória longas noites na praia desfeita dos lençóis, a sua língua desenhando devagar contornos de seios ilum inados de um a rede de veias pela prim eira luz da aurora, o poeta Robert Desnos a agonizar de tifo num cam po de prisioneiros alem ão m urm urando É a m inha m anhã m ais m atinal, a voz de John Cage a repetir Every som ething is an echo of nothing, e a form a com o o corpo dela se abria em concha para o receber, vibrando tal as folhas dos cum es dos pinheiros agitados por um vento invisível e tranquilo. O colega pequenino, com a plum a do chapéu tirolês a oscilar à laia de agulha de um contador Geiger que encontrasse m inério, obrigou-o a encalhar num a esquina de parede, caranguej o doente filado pela teim osia de um cam aroeiro tenaz. Os m em bros pulavam no sobretudo m ovim entos brownianos sem obj ectivo definido de m oscas na m ancha de sol de um a cave, as m angas m ultiplicavam -se em gestos consternados de orador sacro:
– Os gaj os avançam , hã, os com unistas?
Na sem ana anterior o m édico vira-o procurar de cócoras m icrofones do KGB ocultos sob o tam po da secretária, prontos a transm itirem para Moscovo as decisivas m ensagens dos seus diagnósticos.
– Avançam , garanto-lhe eu, balia o colega a rodopiar de inquietação. E esta choldra, a tropa, o zé-povinho, a igrej a, ninguém se m exe, borram -se de m edo, colaboram , consentem . Por m im (e a m inha esposa sabe) o que m e entrar em casa leva um tiro de caçadeira pelos cornos. Olarila. Você j á leu os cartazes que puseram no corredor com o retrato do Marx, o Catitinha da econom ia, a despej ar as suíças em cim a da gente?
E chegando-se m ais, confidencial:
– Eu topo que você anda lá por perto se é que não alinha com a cam bada, m as pelo m enos lava-se, é correcto, o seu pai é professor da Faculdade. Conte-m e cá: vê-se a com er à m esa com um carpinteiro?
Na m inha infância, pensou o psiquiatra, as pessoas escalavam -se em três categorias não m iscíveis rigorosam ente dem arcadas: a das criadas, dos j ardineiros e dos choferes, que alm oçavam na cozinha e se levantavam à sua passagem , a das costureiras e das senhoras de tom ar conta, com direito a m esa à parte e à consideração de um guardanapo de papel, e a da Fam ília, que ocupava a sala de j antar e velava cristãm ente pelos seus m uj iques (« pessoal» , cham ava-lhes a avó) oferecendo-lhes roupa usada, fardas, e um interesse distraído pela saúde dos filhos. Havia ainda um a quarta espécie, a das « criaturas» , que englobava cabeleireiras, m anicuras, dactilógrafas e enteadas de sargentos, as quais rondavam os hom ens da tribo tecendo à sua volta um a pecam inosa teia de soslaios m agnetizadores. As « criaturas» não se « casavam » : « registavam -se» , não iam à m issa, não se afligiam com o ingente problem a da conversão da Rússia: consagravam as suas existências dem oníacas a prazeres que eu entendia m al em terceiros andares sem elevador de onde os m eus tios regressavam à socapa risonhos de j uventude recuperada, enquanto as fêm eas do clã, na igrej a, se dirigiam para a com unhão de olhos fechados e língua de fora, cam aleões prontos a devorarem os m osquitos das hóstias num a gula m ística. De vez em quando, a m eio da refeição, se o psiquiatra, então garoto, m astigava de boca aberta ou pousava os cotovelos na toalha, o avô apontava para ele o indicador definitivo e profetizava cavernosam ente:
– Hás-de acabar nas m ãos da cozinheira com o o peru.
E o trem endo silêncio que se seguia avalizava com o seu selo branco a im inência dessa catástrofe.
– Responda, ordenou o colega. Vê-se a com er à m esa com um carpinteiro?
O m édico tornou a ele no esforço de quem aj usta a im agem de um m icroscópio desfocado: do alto de um a pirâm ide de preconceitos quarenta gerações burguesas contem plavam -no.
– Porque não?, disse ele desafiando os cavalheiros de pêra e as dam as de abundante busto boleado ao torno que se tinham trabalhosam ente cruzado entre si, num crochet com plexo, atrapalhados pelos suspensórios e pelas barbas do corpete, para produzirem , ao cabo de um século de deveres conj ugais, um descendente capaz de revoltas tão im pensáveis com o a de um a dentadura postiça que pulasse do copo de água em que sorria à noite para m order o próprio dono.
O colega recuou dois passos, siderado:
– Porque não? Porque não? Hom em , você é um anarquista, um m arginal, você pactua com o Leste, você aprova a entrega do Ultram ar aos pretos.
Que sabe este tipo de África, interrogou-se o psiquiatra à m edida que o outro, padeira de Alj ubarrota do patriotism o à Legião, se afastava em gritinhos indignados prom etendo reservar-lhe um candeeiro da avenida, que sabe este caram elo de cinquenta anos da guerra de África onde não m orreu nem viu m orrer, que sabe este cretino dos adm inistradores de posto que enterravam cubos de gelo no ânus dos negros que lhes desagradavam , que sabe este parvo da angústia de ter de escolher entre o exílio despaisado e a absurda estupidez dos tiros sem razão, que sabe este anim al das bom bas de napalm , das raparigas grávidas espancadas pela Pide, das m inas a florirem sob as rodas das cam ionetas em cogum elos de fogo, da saudade, do m edo, da raiva, da solidão, do desespero? Com o sem pre que se recordava de Angola um roldão de lem branças em desordem subiu-lhe das tripas à cabeça na veem ência das lágrim as contidas: o nascim ento da filha m ais velha silabado pelo rádio para o destacam ento onde se achava, prim eira m açãzinha de oiro do seu esperm a, longas vigílias na enferm aria im provisada debruçado para a agonia dos feridos, sair exausto a porta deixando o furriel acabar de coser os tecidos e encontrar cá fora um a repentina am plidão de estrelas desconhecidas, com a sua voz a repetir-lhe dentro – Este não é o m eu país, este não é o m eu país, este não é o m eu país, a chegada às quartas-feiras do avião do correio e da com ida fresca, a subtil e infinitam ente sábia paciência dos luchazes, o suor do paludism o a vestir os rins de cintas de hum idade pegaj osa, a m ulher vinda de Lisboa com o bebé de surpreendentes íris verdes para viaj ar com ele para o m ato, sua boca quase m ulata a sorrir com estível na alm ofada. Nom es m ágicos: Cuíto-Cuanavale, Zem za do Itom be, Narriquinha, a Baixa do Cassanj e coberta pelas altas pestanas dos girassóis em m anhãs lim pas com o ossos de luz, bailundos em purrados a pontapé para as fazendas do norte, São Paulo de Luanda im itando o Areeiro encostado à valva da baía. Que sabe este palerm a de África, interrogou-se o psiquiatra, para além dos cínicos e im becis argum entos obstinados da Acção Nacional Popular e dos discursos de sem inário das botas m entais do Salazar, virgem sem útero m ascarada de hom em , filho de dois cónegos explicou-m e um a ocasião um a doente, que sei eu que durante vinte e sete m eses m orei na angústia do aram e farpado por conta das m ultinacionais, vi a m inha m ulher a quase m orrer do falciparum , assisti ao vagaroso fluir do Dondo, fiz um a filha na Malanj e dos diam antes, contornei os m orros nus de Dala-Sam ba povoados no topo pelos tufos de palm eiras dos túm ulos dos reis Jingas, parti e regressei com a casca de um uniform e im posta no corpo, que sei eu de África? A im agem da m ulher à espera dele entre as m angueiras de Marim ba pej adas de m orcegos aguardando o crepúsculo apareceu-lhe num a guinada de saudade violentam ente física com o um a víscera que explode. Am o-te tanto que te não sei am ar, am o tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não com preendo porque nos perdem os se a cada passo te encontro, se sem pre ao beij ar-te beij ei m ais do que a carne de que és feita, se o nosso casam ento definhou de m ocidade com o outros de velhice, se depois de ti a m inha solidão incha do teu cheiro, do entusiasm o dos teus proj ectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste m om ento, am or, m e despeço e te cham o sabendo que não virás e desej ando que venhas do m esm o m odo que, com o diz Molero, um cego espera os olhos que encom endou pelo correio.