Memória de Elefante

António Lobo Antunes · Capítulo 11 de 14

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Memória de Elefante

Sozinho na noite da rua Augusto Gil,…

Sozinho na noite da rua Augusto Gil, sentado no carro de m otor desligado e luzes apagadas, o psiquiatra apoiou as m ãos no volante e com eçou a chorar: fazia os possíveis para não em itir nenhum som , de m odo que os om bros se lhe sacudiam com o os das actrizes do cinem a m udo, escondendo os caracóis e as lágrim as no abraço de um avô de barbas: Porra porra porra porra porra, dizia ele no interior de si m esm o, porque não achava dentro de m im outras palavras que não fossem essas, espécie de débil protesto contra a tristeza cerrada que m e enchia. Sentia-m e m uito indefeso e m uito só e sem vontade, agora, de cham ar por ninguém porque (sabia-o) há travessias que só se podem efectuar sozinho, sem aj udas, ainda que correndo riscos de ir a pique num a dessas m adrugadas de insónia que nos tornam Pedro e Inês em cripta de Alcobaça, j acentes de pedra até ao fim do m undo. E lem brei-m e de um a pessoa m e contar que em m iúda a m ãe a levava a fazer visitas num a época em que as criaturas se relacionavam um as com as outras em bicos de pés de delicadezas excessivas; e então ela entrava em casas hirtas povoadas de grandes relógios e de pianos com castiçais onde a m úsica se inclina a trem er na direcção do vento, escutava os lam entos das senhoras afogadas pelo dam asco dos reposteiros e os suspiros dos m ortos nos retratos da parede, e pensava: Com o esta casa deve ser triste às três horas da tarde. De form a que anos e anos volvidos vertia álcool das farm ácias nas j arras das flores para o beber às ocultas e conseguir desse j eito um m eio-dia perpétuo.

A noite das ruas e das praças, nessa sexta-feira, aparentava-se para o m édico às noites de infância quando, deitado, escutava, vindos do escritório, os tais duetos de ópera que lhe chegavam à cam a sob a form a de discussões apavorantes, o pai-tenor e a m ãe-soprano a insultarem -se aos gritos num fundo tétrico de orquestra que o escuro am pliava até um deles enforcar o outro no nó corredio de um dó sustenido, a que se seguia o terrível silêncio das tragédias consum adas: alguém j azia na carpete num a poça de colcheias, assassinado a golpes de bem óis, e m aestros gatos-pingados, vestidos de preto, subiriam em breve a escada carregando um caixão que se assem elhava a um estoj o de contrabaixo, com o crucifixo de duas batutas cruzadas no tam po. As criadas de crista e de avental engom ado entoavam o Coro dos Caçadores com sotaque da Beira, na sala de j antar. O padre, vestido de D. José, surgia num rem oinho espanhol de Filhas de Maria. E o pastor-alem ão da fábrica de curtum es lançava nas terras os uivos do cão dos Baskerville revisto por Saint-Saëns.

Na noite de Lisboa tem -se a im pressão de se m orar num rom ance de Eugene Süe com página para o Tej o, em que a rua Barão de Sabrosa é a fitinha desbotada de m arcar o lugar de leitura, apesar dos telhados onde florescem plantações de antenas de televisão idênticas a arbustos de Miró. O psiquiatra, que nunca usava lenço, lim pou ranho e lágrim as com o pano verde com que costum ava apagar do vidro do carro o seu bafo m orno de vaca de presépio, acendeu as luzes (o m ostrador ilum inado afigurava-se-lhe sem pre um a vila alentej ana em festa observada de longe) e ligou o m otor do pequeno autom óvel cuj o trabalhar se lhe transm itia ao corpo com o se ele fosse tam bém um a peça daquela engrenagem m acia que vibrava. Num vão de porta m esm o ao pé de si um a rapariga nova beij ava na boca um cavalheiro calvo: os rins dela possuíam a harm onia sensual de certos desenhos rápidos de Stuart, e o m édico invej ou intensam ente o hom enzinho feio que a afagava, rebolando olhos protuberantes de goraz cozido: o carro am ericano am arelo de vidros verdes estacionado pertencia-lhe sem dúvida: o esqueleto de plástico dependurado do espelho retrovisor situava-se no m esm o com prim ento de onda do anel que usava no dedo m ínim o, com um a libra em ouro segura por três dentinhos de prata. Se eu casasse com a filha da m inha lavadeira talvez fosse feliz, recitou o psiquiatra em voz alta, olhando o suj eito que em itia pela boca aberta os ruídos de fervura com que as pessoas de dentaduras postiças bebem o café dem asiado quente: Quando eu tiver a idade dele com erei beij os com o quem com e sopa, e palitarei as gengivas no fim para extrair dos m olares restos incóm odos de ternura; e talvez um a rapariga com o esta se interesse pela m inha graça de m enir.

Oh darkness darkness darkness: noite inform e aqui, escorrendo líquida das casas, nascida ao rés-do-chão, do asfalto, dos lagos, dos buxos, do silêncio im óvel do rio, das arcas e cóm odas dos corredores das casas antigas, repletas da roupa dos m ortos: o m édico alcançou a Defensores de Chaves e foi conduzindo devagar na esperança insensata de que o tem po rodasse m uito depressa e três quarteirões adiante se encontrasse, quarentão e feliz, num a vivenda no Estoril, rodeado de galgos com pedigree, boas encadernações e filhos louros, porque o que sabia à frente de si era um a tristeza inquieta, agitada, de que não descortinava o term o, se o houvesse. Norm alm ente costum ava com bater esses estados dorm indo de hotel em hotel (do Rex para o Im pala, do Im pala para o Penta, do Penta para o Im pala) e sofrendo de m anhã o im pacto esquisito de acordar em quarto im pessoal e estranho, aproxim ar-se da j anela e ver lá em baixo a cidade do costum e, o trânsito do costum e, a gente do costum e, e eu virado apátrida na m inha terra, a lavar os sovacos com um a am ostra de sabonete Feno de Portugal, oferta da gerência, e a deixar as chaves na recepção num a falsa desenvoltura de férias.

O psiquiatra rodeou a praça José Fontana, onde pela prim eira vez, vindo do liceu, vira dois cães em acto de am or perseguidos pela notável ira puritana da vendedora de castanhas que no verão tripulava um triciclo de gelados, exibindo desse m odo a invej ável m aleabilidade dos políticos nacionais; durante sete anos atravessara diariam ente as árvores desse j ardim povoado em doses equitativas de reform ados e de crianças, com o urinol subterrâneo debaixo do coreto guardado por um cérbero cam arário, a curtir desde a aurora os vapores oscilantes de um a bebedeira crónica: o m édico im aginava-o sem pre secretam ente casado com a m ulher das castanhas-gelados, a quem se unia num ruído de ventosa à aproxim ação do crepúsculo, m isturando os arrotos do álcool com o hálito polar da baunilha, na câm ara nupcial das retretes decoradas por desenhos explicativos, tal com o os cartazes dos postos de socorros elucidam as peripécias da respiração boca a boca. Um hom ossexual idoso, de bochechas m aquilhadas, passeava-se entre os bancos observando os alunos com olhares de rebuçado peganhento. E um senhor digno, de pasta, instalado j unto ao chafariz, negociava fotografias pornográficas com o espírito m issionário de quem im pinge, às portas das igrej as, pagelas de santinhos aos m eninos da prim eira com unhão.

Ao chegar à Duque de Loulé os anúncios lum inosos dos restaurantes chineses, caracteres cuneiform es culinários para uso dos parolos, fizeram -no hesitar, indeciso, tentado pelos nom es exóticos dos pratos, m as pensou im ediatam ente que j antar sem com panhia o faria sentir-se ainda m ais só, a equilibrar-se sem som brinha no aram e da sua aflição perante um público indiferente, de form a que deixou o carro m ais abaixo, quase encostado a um a cabine telefónica igual àquela cuj o retrato vira sem anas atrás num a revista, atulhada de corpos sorridentes, com a legenda: Novo Record Do Mundo: Trinta E Seis Estudantes Ingleses Num a Cabine Telefónica. O auscultador pousado no descanso deu-lhe gana de ligar para a m ulher (Am o-te, nunca deixei de te am ar, vam os lutar j untos por nós) e por isso afastou-se quase a galope e em barafustou pelas escadas do Noite e Dia a cam inho do snack-bar da cave, antecipando-se ao porteiro, que se parecia com o seu professor da quarta classe, no acto de em purrar a porta de vidro da entrada.

Nas m anj edouras de balcão corrido estabelecia-se um a espécie de solidariedade de Últim a Ceia que aj udava o psiquiatra a m anter-se de pé por dentro, com o se o cotovelo da esquerda e o cotovelo da direita funcionassem com o talas que aguentavam unidos os ossos estilhaçados do seu desespero e os im pediam de se espalhar no chão com o peças de m ikado. Instalou-se entre um rapazinho sério precocem ente vestido de bibliotecário triste e um casal em crise encrespado de silencioso ódio conj ugal, fum ando com raiva de olhos fixos num horizonte de divórcio litigioso, pediu ao em pregado um bife rápido e um copo com água, e ficou-se a observar os com ensais fronteiros, na m aior parte raparigas que alternavam num cabaré próxim o, im óveis sobre os seus cafés com o padres em eucaristias petrificadas. As m ãos delas, de enorm es unhas verm elhas, seguravam cigarros am ericanos de contrabando com cuj o fum o incensavam ritualm ente as chávenas, e o m édico entreteve-se a descobrir nos seus rostos, sob a pintura de m á qualidade e as expressões postiças aprendidas nos film es do Eden, as rugas que as infâncias de privação im prim em para sem pre nos cantos das bocas e nos ângulos das pálpebras, hieróglifos indeléveis da m iséria. Em solteiro frequentava às vezes os bares de prostitutas localizados nas franj as do Bairro Alto, em becos corcundas escuros com o órbitas vazadas, para as ouvir inventar com oventes adolescências virtuosas à Corin Tellado, diante de cervej as m ornas e de futuros de naufrágio próxim os, sem sobreviventes: Capitalism o do caralho, pensou ele, que nem destas desgraçadas te esqueceste; m orram os nós e viva o cabrão do sistem a, m ais as guerras m undiais com que resolves as tuas crises de agonia: baixe-se a taxa de desem prego à custa de m ilhões de vítim as, baralhem -se as cartas e recom ece-se o j ogo, j á que, com o rim a o outro, afinal o que im porta não é haver gente com fom e porque assim com o assim ainda há m uita gente que com e. Acontecia-lhe acom panhá-las de táxi aos quartos sem elevador onde m oravam , e espantava-se dos m óveis de caixotes, dos retratos em m olduras de aram e e das m alas de roupa de cartão, forradas de papel azul com estrelinhas com o o interior dos envelopes: estas tipas, surpreendia-se o psiquiatra, conservam intactos os gostos e as preferências das criadas de província que porventura terão sido, apesar do rím el de drogaria e dos perfum es tipo insecticida com que se disfarçam ; subsiste nelas um a autenticidade atávica que m e transcende, a m im educado entre m issas do sétim o dia e boas m aneiras, e quando lim pam a fronha no lavatório de esm alte e se deitam na cam a para dorm ir, a lâm pada do tecto, pendurada do fio, sem abaj ur, à m aneira de um globo ocular desorbitado, assem elha-se ao candeeiro da Guernica aclarando um a paisagem devastada. E eu estou aqui em pecado m ortal com o quem com unga sem se ter confessado. Mastigando o bife, de queixo no prato, o m édico sentia a tensão do casal à sua esquerda aproxim ar-se do estado gasoso de um a discussão furibunda, preia-m ar varrendo da areia do passado os detritos das recordações agradáveis, as dificuldades aguentadas em com um , as doenças dos filhos espiadas num sobressalto de desvelos.

O hom em triturava as chaves do autom óvel, de narinas m uito abertas, am assando-as nas m ãos que trem iam , a m ulher, de sorriso de desafio reteso nos lábios, batia a colher do café no copo de cervej a em ritm o de tam bor m ilitar: o seu perfil, contraído com o o de gato que prepara o salto, aparentava-se ao das carrancas dos chafarizes plasm adas em cóleras de pedra. O m enino-bibliotecário, do outro lado, explicava à senhora gorda que o acom panhava o enredo de O Prim o Basílio, com a digna auto-suficiência dos fortem ente estúpidos: adivinhava-se nele o j uiz do Suprem o ou o presidente de assem bleia geral de clube desportivo debitando com ar profundo inanidades pom posas, e o psiquiatra teve pela criatura o fluxo de pena sincera que dedicava aos que não se apercebiam da existência dos outros, m uralhados de irrem ediável im becilidade. Dois estrangeiros desceram as escadas e instalaram -se j unto das raparigas do cabaré, que com eçaram im ediatam ente a agitar-se à laia de perdigueiros na vizinhança da caça: um a loira de seios grandes cobertos por um a cam isola m uito j usta sorriu-lhes com descaro e o m édico sentiu distender-se nas calças um a erecção fraternal, enquanto os estrangeiros se consultavam em cochichos um ao outro sobre a estratégia a seguir: via-se claram ente que balançavam entre o em baraço e o desej o, divididos. A loira retirou um a boquilha de m eio m etro da carteira e pediu lum e a um deles, m irando-o sem desfitar: o peito cresceu na cam isola apertada à m aneira de um a pom ba com cio, e o estrangeiro recuou o tronco assustado por aquela planta carnívora que o am eaçava; vasculhando nos bolsos acabou por encontrar um a caixa de fósforos reclam e de um a com panhia de aviação; um a cham a aflita ondulou: ainda agora chegaste m eu sacrista, pensou o m édico iniciando a m ousse e observando o rosto atónito do estrangeiro, ainda agora chegaste e j á te vais vir com o nunca sonhaste que te pudesses vir na puta da vida, com o nunca te vieste nos coitos assépticos onde tens fraldicado. E lem brou-se do m om ento exacto antes da ej aculação, quando o corpo, transform ado num a vaga que sobe em sucessivos roldões de prazer, cada vez m ais forte, m ais pesada, m ais densa, estoira de súbito num a explosão de espum a do tam anho do m undo, em que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol, e adorm ecem os liquefeitos, num a m oleza sem cor, náufragos j ubilosos da ternura. Veio-lhe à ideia um fim -de-sem ana que passara com a m ulher, j á depois de separados, num a pequena estalagem do Guincho, alapada na escarpa contra o vento, as gaivotas e as bofetadas de areia na noite, e do quarto que ocuparam cara a cara com o m ar, com um a varanda estreita com o que planando acim a da água. Aí, estendidos lado a lado no colchão, tinham -se am ado com o m aravilham ento de se redescobrirem , poro após poro, em cada carícia, em cada longo beij o, em cada viagem de am or: e m ais um a vez fora ele que não tivera a coragem de continuar, que desistira, aterrado, de com bater pelos dois. Escuta, articulou o psiquiatra dentro de si, rapando a taça de m ousse, escuta: existes tão fundo em m im , com tão num erosas, e m usculadas, e violentas raízes que nada, nem eu m esm o, as poderá j am ais cortar; e quando eu conseguir vencer a m inha cobardia, o m eu egoísm o, esta lam a de m erda que m e im pede de dar-te e de m e dar, quando conseguir isso, quando conseguir de facto isso, voltarei.

A loira e um dos estrangeiros saíram de m ão dada para a Duque de Loulé, enquanto o outro era por seu turno assediado por um a m orena pequenina e m agrinha com aspecto de m osca do vinagre, a exprim ir-se em largos gestos de com édia dell’arte frenética. O casal desavindo retirou-se a bufar os seus rancores: deslocavam -se com cuidados de andor de procissão, de form a a não verterem nem um a gota da sua raiva m útua. A m ãe (ou esposa?) do m enino-bibliotecário pediu a conta. Os em pregados conversavam com o cozinheiro ao pé da m áquina do café. O últim o a sair apaga a luz, pensou o m édico lem brando-se do seu receio infantil do escuro. Se m e não ponho a m ilhas lixo-m e: não fica aqui m ais ninguém senão eu.

Todas as noites, aproxim adam ente àquela hora, o psiquiatra fazia o percurso da auto-estrada e da Marginal para voltar ao pequeno apartam ento desm obilado onde ninguém o esperava, em poleirado no Monte Estoril num prédio excessivam ente luxuoso para a sua tim idez. A secretária do porteiro, no átrio enorm e de vidro e de m etal, com um lago, plantas de Jardim Botânico e vários desníveis de pedra, possuía um painel de botões através dos quais um a voz sem corpo de Juízo Final ecoava nos diversos andares os seus m andam entos dom ésticos, com sonoridades divinas de balde roto ou de garagem à noite. O senhor Ferreira, dono dessa voz trem enda, habitava nos baixos do edifício protegido por um a porta estilo cofre-forte que o arquitecto devia ter achado adequada àquele cenário de bunker pretensioso: provavelm ente fora ele quem pintara o inesquecível galgo da loj a de m óveis, ou concebera o im aginoso lustre de alum ínio: essas três elucubrações notáveis possuíam um a centelha de génio com um . Não m enos notável, aliás, era a sala de estar do senhor Ferreira, de que o m édico se servia às vezes para cham adas telefónicas urgentes, e onde figurava, entre outras m aravilhas de m enor m onta (um estudante de Coim bra de loiça a tocar guitarra, um busto do papa Pio XII de olhos m aquilhados, um burro de baquelite com flores de plástico nos alforges) um a grande tapeçaria de parede representando um casal de tigres com o ar bonacheirão das vacas dos triângulos de queij o, a alm oçarem num a repugnância de vegetarianos um a gazela sem elhante a um coelho m agrinho, fitando um horizonte de azinheiras na esperança lânguida de um m ilagre. O m édico quedava-se sem pre de auscultador em punho, esquecido da cham ada, a exam inar estupefacto tão abracadabrante realização. A m ulher do senhor Ferreira, que nutria por ele a sim patia instintiva que despertam os órfãos, saía da cozinha a enxugar as m ãos ao avental:

– Muito gosta o senhor doutor dos tigrezinhos.

E postava-se ao lado do psiquiatra, de cabeça à banda, a contem plar orgulhosam ente os seus bichos, até o senhor Ferreira surgir por seu turno e debitar, na célebre voz divina, a frase que resum ia para ele o clím ax da adm iração artística:

– Esses sacanas até parece que falam .

E de facto o m édico aguardava a qualquer instante que um dos anim ais voltasse para ele os olhos de retrós para m urm urar Ai Jesus num gem ido de aflição.

Conduzindo o autom óvel pela auto-estrada fora, atento aos volum es de som bra que os faróis sucessivam ente descobriam e devoravam , árvores arrancadas do escuro num a irrealidade trágica, arbustos em aranhados, a faixa sinuosa e trém ula do pavim ento, o psiquiatra pensou que, exceptuando a tapeçaria do senhor Ferreira, o Estoril e ele não possuíam m ais nada que os aproxim asse: nascera num a m aternidade de pobres e crescera e vivera sem pre, até sair de casa m eses antes, num bairro de pobres sem luxo de vivendas com piscina e de hotéis internacionais. A cervej aria Estrela Brilhante era a sua pastelaria Garrett, com os bolos substituídos por pipis e trem oços, e as senhoras da Cruz Verm elha por condutores da Carris, que ao tirarem os bonés de pala para lim par a testa com o lenço davam a im pressão de ficar nus. No andar de baixo dos seus pais m orava a Maria Feij oca, proprietária da carvoaria, e na casa a seguir a Dona Maria José que negociava contrabandos obscuros. Conhecia os com erciantes pelo nom e e os vizinhos pelas alcunhas, e as suas avós saudavam as vendedoras da praça em cum prim entos de castelãs. O Florentino, m oço de fretes lendário perpetuam ente bêbado, cuj os fatos rasgados se lhe agitavam em torno do corpo com o penas soltas, advertia-o sem pre que o topava num a fam iliaridade decuplicada pelo tinto O seu paizinho é íntim o am igo m eu, acenando-lhe da taberna da rua do cem itério, de que o letreiro Na Volta Cá Os Espero conferia à m orte a im portância subalterna de um pretexto: a Agência Martelo (Para Que Teim a Vossa Excelência Em Viver Se Por Quinhentos Escudos Pode Ter Um Lindo Funeral?) exibia as urnas e as m ãozinhas de cera logo acim a, estrategicam ente a m eio cam inho entre a cam pa e o copo. O m édico sentia um a im ensa ternura pela Benfica da sua infância transform ada em Póvoa de Santo Adrião por via da cupidez dos construtores, a ternura que se dedica a um am igo velho desfigurado por m últiplas cicatrizes e em cuj o rosto se procuram em vão os traços cúm plices de outrora. Quando deitarem abaixo o prédio do Pires, disse ele pensando no enorm e e antigo edifício diante da casa dos pais, por que norte m agnético m e orientarei, eu que tão poucos pontos de referência conservo j á e tanta dificuldade possuo em m e fabricar novos? E im aginou-se à deriva na cidade, sem bússola, perdido num labirinto de travessas, porque o Estoril perm aneceria para sem pre um a ilha estrangeira a que se achava incapaz de se adaptar, longe dos ruídos e dos cheiros da sua floresta natal. Do apartam ento avistava-se Lisboa, e olhando a m ancha espraiada da cidade ele sentia-a ao m esm o tem po afastada e próxim a, dolorosam ente afastada e próxim a com o as filhas, a m ulher, e o sótão de tecto oblíquo em que m oravam (o Pátio das Cantigas, cham ava-lhe ela), pej ado de gravuras, de livros, e de brinquedos desarrum ados de crianças.

Desem bocou em Caxias com as ondas a pularem sobre a m uralha em cortinas verticais. Não havia lua e o rio confundia-se com o m ar no espaço negro à sua esquerda, gigantesco poço deserto de luzes de navios: os candeeiros verm elhos do Mónaco assem elhavam -se, atrás dos vidros húm idos do restaurante, a fanais aném icos na tem pestade: j antei aqui quando m e casei, pensou o psiquiatra, e nunca m ais houve um j antar m iraculoso assim : até da carne assada subia um gosto de surpresa; no fim do café descobri que não era necessário, pela prim eira vez, levar-te a casa, e isso disparou-m e nas tripas um a alegria form idável, com o se tivesse com eçado, a partir de então, a m inha vida de hom em , aberta apesar da im inência da guerra num a vigorosa perspectiva de esperança. Lem brou-se do autom óvel que a avó lhes em prestara para a lua-de-m el e que fora o últim o carro do m arido e do seu trabalhar ronceiro de berço, lem brou-se da im pressão esquisita da aliança no dedo, do fato que estreara nessa tarde e do seu cuidado patético com os vincos. Am o-te, repetia ele em voz alta agarrado ao volante com o a um lem e quebrado, am o-te am o-te am o-te am o-te am o-te, am o o teu corpo, as tuas pernas, as tuas m ãos, os teus olhos patéticos de bicho: e era com o um cego continuando a conversar com um a pessoa que saiu pé ante pé da sala, um cego aos berros para um a cadeira vazia, tacteando o ar, palpando com as narinas um odor que se evaporava. Se vou agora para casa fodo-m e, disse ele, não m e acho em condições de enfrentar o espelho do quarto de banho e aquele silêncio todo à m inha espera, a cam a fechada sobre si própria à m aneira de um m exilhão pegaj oso. E recordou-se da garrafa de aguardente da cozinha e que podia sem pre sentar-se no banco de m adeira da varanda, de copo na m ão, a ver o m odo com o os prédios desciam de cam bulhada para a praia, arrastando os seus terraços, as suas árvores, os seus j ardins torturados: acontecia-lhe adorm ecer ao relento, de cabeça encostada ao estore, com um barco que saía da barra a viaj ar-lhe dentro das pálpebras cansadas, e lograr desse j eito algum a espécie de sossego, até que um indício de claridade roxa, m isturada com pardais, o despertasse obrigando-o a tropeçar na direcção do colchão à laia de criança sonâm bula para o seu chichi nocturno. E ao banco da varanda aderiam excrem entos solidificados de pássaros, que arrancava com as unhas e sabiam ao cré da infância, devorado às ocultas no decurso das breves ausências da cozinheira, ditadora absoluta daquele principado de caçarolas.

Havia poucos carros no percurso e o psiquiatra guiava devagar, do lado direito da faixa, colado ao passeio, desde que num a m anhã da sem ana anterior um a gaivota tresm alhada batera contra o pára-brisas num ruído fofo de penas, e o m édico a vira, j á nas suas costas, a estrem ecer no asfalto a agonia das asas. O autom óvel que o seguia parara j unto ao bicho, e ele, afastando-se, notara pelo espelho que o condutor se apeara, dirigindo-se ao m ontinho branco nítido no alcatrão, a dim inuir na distância crescente. Um a onda de culpabilidade e de vergonha que não conseguia explicar (culpabilidade de quê? vergonha de quê?) inchou-lhe do estôm ago para a boca num refluxo de azia, e veio-lhe à ideia, sem m otivo aparente, um a severa frase de Tchekov: « aos hom ens oferece-lhes hom ens, não te ofereças a ti m esm o» ; na sequência o psiquiatra recordou-se de A Gaivota e da profunda im pressão que a leitura da peça lhe causara, dos personagens aparentem ente suaves à deriva num cenário aparentem ente suave e divertido (Tchekov considerava-se sinceram ente um autor de com édia) m as carregado da pavorosa angústia da vida que só talvez Fitzgerald soube m ais tarde reencontrar e que surge, a espaços, no saxofone de Charlie Parker, a crucificar-nos de súbito num solo desesperado que resum e toda a inocência e todo o sofrim ento do m undo no sopro lancinante de um a nota. Então o m édico pensou: Aquela gaivota sou eu e quem foge de eu é eu tam bém . E não tenho nem a coragem necessária de voltar atrás e aj udar-m e.

Na subida descida do Estoril, ao cruzar o volum e cinzento do Forte Velho com o seu enorm e e horroroso peixe de m etal suspenso sobre os pares que dançavam (Há quanto tem po não vou eu ali?) o psiquiatra tornou a visualizar o apartam ento deserto, o espelho do quarto de banho e a garrafa da cozinha ao lado do púcaro de m etal, únicas bóias de salvação no desolado silêncio da casa. Cá fora, à entrada do edifício, as folhas secas dos eucaliptos restolhavam constantem ente sopradas pelo vento alto, no rum or de dentaduras postiças que se entrechocam . Os autom óveis dos inquilinos, quase todos luxuosos e grandes, encostavam os narizes à parede à m aneira de crianças am uadas. Na sua caixa do correio, tirando um ou outro prospecto esquecido e a folha de propaganda sem anal do CDS que se apressava a introduzir, sem a ler, no cacifo da senhoria, declarando enfaticam ente, a César o que é de César, nunca havia nenhum a carta para ele: sentia-se com o o coronel de García Márquez, habitado pela solidão sem rem édio e pelos cogum elos fosforescentes das tripas, aguardando notícias que não chegavam , que não chegariam j am ais, e apodrecendo lentam ente nessa espera inútil alim entada de um vago m ilho de prom essas. De m odo que quando o sem áforo passou a verde num a súbita m udança de hum or, voltou à direita e dirigiu-se para o Casino.