Memória de Elefante
Com o de costum e vou chegar…
Com o de costum e vou chegar atrasado à sessão de análise, pensou o psiquiatra parado num sinal verm elho a quem atribuía de m om ento inteira responsabilidade por todos os infortúnios do m undo, os seus à cabeça da lista bem entendido. Estava na faixa lateral da avenida da República, atrás de um a cam ioneta de carga, e trepidava de im paciência olhando o trânsito que corria perpendicularm ente a si, vindo do Cam po Pequeno, desconform e m esquita de tij olos, catedral dos cornos. Duas raparigas m uito bonitas passaram j unto ao carro de conversa um a com a outra, e o m édico seguiu-lhes o m ovim ento das om oplatas e das coxas à m edida que andavam , a harm onia perfeita, de pássaro em voo, dos gestos, a form a com o um a delas afastava o cabelo com a m ão: quando eu era m ais novo, lem brou-se, tinha a certeza de que nunca nenhum a m ulher se interessaria por m im , pelo m eu queixo largo, pela m inha m agreza; encalhava sem pre de tim idez gaga se m e fitavam , a sentir-m e corar, lutando contra o desej o violento de desaparecer a galope: aos catorze-quinze anos levaram -m e pela prim eira vez ao cem da Rua do Mundo, eu nunca tinha estado no Bairro Alto à noite, naquela acum ulação de som bras estreitas e de vultos im óveis, e entrei na casa de passe ao m esm o tem po curioso e aterrado, com a vontade de fazer chichi dos exam es a em baraçar-m e a m archa. Sentei-m e num a sala de espelhos e de cadeiras ao lado de um a m ulher em com binação que fazia crochet e nem sequer levantou o queixo das agulhas e em frente de um suj eito idoso que aguardava vez de pasta nos j oelhos (e distinguia-se na pasta o relevo dos term os de café com leite do alm oço) e de repente vi-m e m ultiplicado até à náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos m irando-se uns aos outros em pasm o de pavor: claro que a pila se m e reduziu nas cuecas ao tam anho que ficava ao sair do banho de água fria, harm ónio de pele engelhada capaz quando m uito de m ij adela oblíquia, e desapareci corredor fora em trote hum ilde de cão expulso na direcção da porta onde a patroa, de varizes a sobrarem dos chinelos, discutia com um soldado bêbado que atravessara no um bral a bota coberta de um a geleia de vom itado.
O sinal passou a verde e im ediatam ente o táxi por trás dele buzinou, im perioso: porque raio é que os choferes de táxi, perguntou-se, são as criaturas m ais azedas do m undo? E tam bém hom ens sem rosto, reduzidos a nuca e om bros plantados com o pregos no banco da frente, e ocasionalm ente a um par de olhos vazios no quadradinho do retrovisor, órbitas de vidro inexpressivo com o os dos bichos das noras. Talvez que circular por Lisboa o dia inteiro atire as pessoas para um a espécie de epilepsia explosiva, talvez que esta cidade dê raiva e noj o a quem por obrigação a percorre em todos os sentidos, talvez que o próprio do indivíduo sej a a exaltação assassina em franj as e andem os por aqui, nós os com edidos, a fingir am abilidade que não tem os. Mandou caralhadas para o chofer que lhe respondeu com gigantesco m anguito com o dois escuteiros a fazerem -se sinais de bandeiras, e virou à direita para a João XXI, em cuj o início, do lado esquerdo, havia traseiras de prédios fuliginosos de que ele gostava, com as m arquises salientes com o verrugas de ninhos precários em que se adivinhavam tábuas de passar a ferro e m elancolias dom ésticas. Am igo Cesário, disse o psiquiatra com ternura, vi a sem ana passada qualquer coisa que te traria à boca alexandrinos de alegria: procurava eu sítio onde j antar e passando rente ao teu busto ilum inado na berm a de relva estefânica em que o puseram , dei com um a velha de preto sentada no degrau da estátua com um a alcofa aos pés, e com preendi então a diferença que vai de ti ao Eça e que é a m esm a que separa o abraço a um a virgem de pedra da vizinhança de um a criatura viva, arrancada à solidez de carne dos teus versos.
Atravessou um a rua de garagens e oficinas im ersas na escuridão do trabalho acabado, com o toldo am arelo de um bar de brasileiros na ponta (Os portugueses são estúpidos, inform ava o aguadeiro galego da história da m ãe, vim os para aqui vender-lhes a água deles) e estacionou j unto a um a loj a de m óveis que fazia esquina entre a avenida Óscar Monteiro Torres e a rua Augusto Gil, exibindo cóm odas detestáveis e óleos ovais de flores em m olduras de talha. Um pastel representando um galgo num fundo de infanta de Velázquez figurava na m ontra, e o cão parecia sorrir o sorriso sabido que escapa às vezes a um pintor aselha e através do qual a falta de talento troça, sem se dar conta, de si própria. Durante algum tem po exam inou estarrecido um lustre fenom enal de alum ínio, pensando em com o o m au gosto exigia, à sua m aneira, considerável dose de im aginação, e desej ou experim entar deitar-se num a cam a extraída dos pesadelos do Dr. Mabuse em noite de paragem digestiva, a ver que m etam orfoses delirantes sofreria o seu corpo, no espanto im enso da criada recém -chegada da província e que seu pai levara a visitar o Jardim Zoológico. Este é o elefante, explicava o pai, e a criada pasm ava a olhar o bicho, a estudar-lhe as patas, a cabeça, a trom ba; aqui é o rinoceronte, dizia o pai, aqui o hipopótam o, aqui o gorila, aqui o avestruz, e a criada ia de estupefacção em estupefacção, órbitas redondas, boca aberta, m ãos postas, até que chegaram ao recinto da girafa: aí a surpresa da rapariga atingiu o clím ax. Durante m inutos deslum brada, contem plou o longo pescoço picado de m anchas e a cabeça lá em cim a, até que se aproxim ou do pai do m édico e perguntou num sussurro:
– Senhor doutor com o se cham a este?
– É a girafa, anunciaram -lhe.
A criada m astigou longam ente a palavra, observando sem pre o anim al e m urm urou em suspiro de êxtase:
– Girafa… Que nom e tão bem posto.
Anoitecera por com pleto e no escuro de um a porta o psiquiatra distinguiu um grupo de cabo-verdianos de óculos defum ados discutindo com ardor, m ovendo em acenos vastos as m angas claras das cam isas. Um deles transportava sob um braço um rádio de pilhas que esguichou de supetão um j orro de m úsica altíssim a à m aneira de um autoclism o despej ando um vóm ito de fusas em desordem . Havia um a taberna um pouco adiante, com um aparelho de televisão num a prateleira j unto ao tecto, e os frequentadores da tasca, de copo em punho, torciam as cabeças em uníssono na direcção do écran que dim anava sobre eles um a luz azulada fluorescente de radioscopia, revelando-lhes o esqueleto dos sorrisos: pelo entusiasm o dialéctico dos cabo-verdianos o m édico calculou que teriam robustecido os seus hum ores vociferantes com o tónico do tinto, cuj a presença se pressentia em cada exclam ação ou gargalhada. Do rés-do-chão vizinho um a senhora gorda acom panhava a cena, interessadíssim a, derram ando os seios no peitoril: deve usar o retrato em esm alte do Padre Cruz ao pescoço, apostou o psiquiatra a subir as escadas a cam inho da análise, ter um cão roliço cham ado Benfica, um filho bancário e um a neta Sónia Marisa com pala de plástico na lente esquerda dos óculos por entortar a vista. Talvez, com pletou ele tocando a cam painha, que sej a m adrinha de casam ento da em pregada do dentista e conversem de renda aos dom ingos à tarde enquanto os cônj uges ouvem o relato de aposta do totobola nos j oelhos.
Inventa inventa que o tipo j á te casca, advertiu-se a cam inho da sala de grupo depois de a porta se abrir num estalo de tam pa, seco, do fecho: nos últim os tem pos, a seu ver, andava a com er porrada a m ais do analista com o quando em pequeno o castigavam por faltas que na sua opinião não lhe pertenciam , e crescia nele um grande ressentim ento contra o outro que parecia com prazer-se em destruir-lhe um a a um a as balofas (m as necessárias?) arquitecturas das suas quim eras: um gaj o anda aqui com o boi m anso no m atadouro, reflectiu o m édico, a levar alfinetadas nos guizos de m agarefes sádicos, e se aguenta é na única esperança de que depois a carne se lhe torne m ais tenra; um gaj o anda aqui a aprender a viver ou a ser dom esticado, capado, desm iolado, transform ado em Sãozinha laica por dois contos e tal ao m ês. Que porra de lavagem à cornadura é esta que saio daqui torcido com o um velho com reum ático, lum bago, ciática, bicos de papagaio e dor de dentes, alm a de rafeiro a ganir a cam inho de casa, e no entanto volto, volto pontualm ente dia sim dia não para receber m ais trolha ou um a indiferença total e nenhum a resposta às m inhas angústias concretas, nenhum a ideia acerca de com o sair deste poço ou pelo m enos visionar um nada de ar livre lá em cim a, nenhum gesto que m e m ostre a direcção de um a certa tranquilidade, de um a certa paz, de um a certa harm onia com igo: Freud da puta j udia que te pariu vai levar no cu do teu Édipo. Abriu a porta do grupo e em vez de declarar Merda para todos disse Boa tarde e foi sentar-se, disciplinadam ente, na única cadeira livre da sala.
O grupo estava com pleto: cinco m ulheres, três hom ens (com ele) e o grupanalista am esendado no lugar habitual, de olhos fechados, a brincar com o relógio de pulso pousado no braço da poltrona: m eu cabrão, pensou o psiquiatra, m eu cabrão do caralho um a sessão destas prego-te um pontapé nas partes para verificar se estás vivo e, com o se o tivesse entendido, o psicanalista levantou para ele a pálpebra sonâm bula e neutra que se desviou de im ediato para um quadro na parede da sala que representava aproxim adam ente um a paisagem de vila: telhados de várias cores, torre de igrej a, céu revolto: pela j anela aberta chegava, atenuada, a discussão dos cabo-verdianos na rua e a m úsica do rádio que atingira agora a intensidade de cruzeiro; através das cortinas percebiam -se os contornos dos prédios vizinhos, sinal que a vida prosseguia fora daquele com partim ento aparentem ente estanque, repositório de aflições concentradas.
Um a das m ulheres falava do pai e da sua dificuldade em se aproxim ar dele, e o m édico, que j á escutara a descrição dezenas de vezes e a achava especialm ente chata e m onocórdica, foi-se entretendo a observar as paredes a necessitarem de cam ada nova de pintura, os cadeirões pretos e brancos sem elhantes a pinguins obesos, um a m esa ao canto coberta por toalha verm elha de m á qualidade, com um telefone e duas listas esbeiçadas em cim a: era aí que o terapeuta colocava os envelopes dos honorários que continham dentro núm eros de 1 a 31 e círculos a esferográfica representando as datas das sessões. Um dos hom ens, que ele estim ava bastante, dorm itava de queixo na m ão: isto hoj e parece o parlam ento, pensou o psiquiatra que se sentia por seu turno tam bém invadido por um a espécie m uito leve de sono, película de indiferença lassa que lhe perturbava a atenção. A m ulher que falava do pai calou-se de repente e um a outra iniciou o longo relato da suspeita de m eningite do filho, que afinal não se confirm ara após dem orada via sacra por Bancos hospitalares e doutores de diagnósticos contraditórios, preocupadíssim os em desm entirem com desdém a opinião do colega anterior: o hom em que dorm itava acordou, espreguiçando-se e pediu-lhe um cigarro. À sua direita um a rapariga de aspecto órfão chupava pastilhas para as am ígdalas dando de quando em quando um pequeno estalo com a língua: possuía os cantos da boca descaídos e am argos com o as sobrancelhas das pessoas m uito tristes.
Venho aqui há não sei quantos anos, reflectiu o m édico observando os com panheiros de viagem , a m aior parte dos quais haviam com eçado a navegar em águas de análise antes dele, e ainda não vos conheço bem nem aprendi a conhecer-vos, a entender o que quereis da vida, o que esperais dela. Há alturas em que estou fora daqui e penso em vocês e sinto a vossa falta, e depois pergunto-m e o que representam para m im e não sei a resposta porque continuo sem saber a m aior parte das respostas e tropeço de pergunta em pergunta com o o Galileu antes de descobrir que a Terra se m exia e encontrar nessa explicação a chave das suas interrogativas. E acrescentou: que explicação acharei eu um dia, que Santo Ofício virá a condená-la, e quem m e obrigará a largar m ão das m inhas pequenas conquistas individuais, penosas vitórias de m erda sobre a m erda de que sou feito? Tirou um cinzeiro rachado da m esa central e acendeu um cigarro para si: o fum o entrou-lhe nos pulm ões com a avidez do ar por um balão vazio e inundou-lhe o corpo de um a espécie de entusiasm o calm o: o psiquiatra visionou o prim eiro tabaco clandestino, furtado à m ãe, chupado aos onze anos pela j anela da casa de banho num a volúpia de grande aventura. Chesterfield: a m ãe acendia-os no fim do alm oço, j unto ao tabuleiro da m áquina de café, cercada de filhos e m arido, e o m édico ficava olhando o fum o que se acum ulava em torno do candeeiro de ferro do tecto, form ando e desfazendo nuvens estiradas azuis, transparentes e vagarosas com o os cirros do verão. O pai batia o cachim bo no cinzeiro de prata com a inscrição O Fum o Voa A Am izade Fica ao centro, um a grande serenidade espalhava-se na sala de j antar, e o psiquiatra tinha a certeza reconfortante de que ninguém entre os que ali se encontravam m orreria nunca: dezasseis pares de olhos claros à volta da floreira de prata, unidos pela sem elhança das feições e por um breve-longo passado com um .
Alguns m em bros do grupo perguntaram à rapariga porm enores da doença do filho, e o m édico reparou que o analista, na aparência cataléptico, lim pava com a unha um a m ancha na gravata verm elha e preta, de ram agens: este caralho, pensou ele, além de ser feio veste-se cada vez pior: nem m eias de estrelinhas lhe faltam , ei-lo uniform izado a rigor para copo-de-água em pastelaria da avenida Paris, acom panhado pela senhora de gorduras apertadas em cetins am eixa e raposa de coelho com psoríase ao pescoço: no íntim o desej aria que o analista se vestisse segundo os seus próprios padrões de elegância, aliás discutíveis e vagos no que a si se referia: um dos irm ãos costum ava dizer-lhe que ele, psiquiatra, se assem elhava à fotografia à la m inuta de um noivo de província, espantado em j aquetão de riscas m al feitas. Enfarpelo-m e com o o Coelho Branco da Alice e exij o que aqueles que aprecio ingressem no uniform e do Chapeleiro Louco: talvez que assim possam os todos j ogar croquet com a Rainha de Copas, cortar de um só golpe o pescoço ao quotidiano do Quotidiano e saltar a pés j untos para o outro lado do espelho. E logo se advertiu a si próprio: Vossa Maj estade não deve rugir tão alto m as, de qualquer m odo, com o é a luz de um a vela quando está apagada?
O terceiro hom em do grupo, que usava óculos e se parecia com o Em ílio e os Detectives, explicou que lhe agradaria que a filha m orresse para receber m ais atenção da m ulher, o que provocou m urm úrios de indignação diversa na assistência.
– Foda-se foda-se, disse o que dorm itava, agitando-se na cadeira.
– A sério, insistia o prim eiro. Há instantes em que m e dá ganas de m e chegar ao berço e despej ar lá para dentro um a cafeteira a ferver.
– Credo, disse a da m eningite que procurava o lenço na carteira.
Seguiu-se um silêncio que o psiquiatra aproveitou para acender outro cigarro, e o parricida tirou os óculos e sugeriu baixinho:
– Se calhar tem os todos vontade de m atar as pessoas de quem gostam os.
O grupanalista principiou a dar corda ao relógio e o m édico sentiu-se com o a Alice na assem bleia dos anim ais presidida pelo Dódó: que estranha m ecânica interna rege isto tudo, pensou ele, e que subterrâneo fio condutor une frases desconexas e lhes confere um sentido e um a densidade que m e escapam ? Estarem os no lim iar do silêncio com o em certos poem as de Benn, em que as frases adquirem peso insuspeitado e a significação a um tem po m isteriosa e óbvia dos sonhos? Ou será que com o Alberti sinto esta noite, feridas de m orte, as palavras, e m e alim ento do que nos interstícios delas cintila e pulsa? Quando a carne se transform a em som aonde a carne e aonde o som ? E aonde a chave que possibilite descodificar este m orse, torná-lo concreto e sim ples com o a fom e, ou a vontade de urinar, ou a ânsia de um corpo?
Abriu a boca e disse:
– Tenho saudades da m inha m ulher.
Um a das raparigas, que não falara ainda, sorriu-lhe com sim patia e isso encoraj ou-o a continuar:
– Tenho saudades da m inha m ulher e não sou capaz de o dizer a ela nem a m ais ninguém a não ser a você.
– Porquê?, perguntou inesperadam ente o grupanalista com o se regressasse à socapa de longa travessia pelos gelos de si próprio. A voz dele abria com o que um espaço agradável à sua frente, onde apeteceu ao psiquiatra deitar-se.
– Não sei, respondeu rapidam ente no m edo de que a receptividade que conseguira desaparecesse e se achasse defronte de oito rostos aborrecidos ou hostis. Não sei ou sei, é conform e, acho que m e apavora um bocado o am or que os outros têm por m im e eu por eles e receio viver isso até ao fim , inteiram ente, entregar-m e às coisas e lutar por elas enquanto tiver força, e quando a força se acabar arranj ar m ais força para prosseguir o com bate.
E falou do im enso am or que unira durante quase cinquenta anos o avô e a avó paternos e no m odo com o os filhos e os netos m ais velhos tinham de bater com os pés no chão para avisarem da sua entrada em quarto em que eles estivessem sozinhos. Reviu-os de m ão dada à m esa da sala de j antar no decurso dos j antares de fam ília, e na form a com o o avô afagava a m ulher e lhe cham ava m inha Velha, e punha nesse cham am ento um a funda e quente e indestrutível ternura. Falou da m orte do avô e na coragem com que a avó aguentara doença, agonia e m orte, a pé firm e e de olhos secos, e se percebia o grande sofrim ento dela debaixo da sua tranquilidade absoluta, sem pieguices nem lam entos de qualquer espécie, e com o seguira, direita e sacudida, a urna do seu hom em para o j azigo, recebera com sorriso urbano as condolências do oficial que com andava a escolta do enterro m ilitar do m arido e, de regresso a casa, distribuíra pelos filhos os obj ectos pessoais do pai e organizara im ediatam ente a vida de tal j eito que tudo se m antivesse com o ela e nós sabíam os que o avô quereria, e à hora da refeição ocupou a cabeceira e aceitám os isso com o um facto natural e assim ficou sendo até que dezoito anos depois ela m orreu por seu turno e quis levar a fotografia que ele lhe dera pelas bodas de prata de casados no caixão. E falou do que o padre disse na m issa de corpo presente dela e que foi Perdem os todos um a m ãe, e o m édico pensou m uito nessa frase pronunciada a respeito da avó cuj a falta de ternura e cuj a dureza o irritavam , e acabou por concordar que era verdade e que em trinta anos da sua vida não soubera dar àquela m ulher o valor que realm ente ela tinha, e que m ais um a vez se enganara a m edir as pessoas e agora era tarde, com o de costum e, para em endar a m ão.
– Não se pode passar a lim po o passado m as pode-se viver m elhor o presente e o futuro e você tem cagaço disso que se pela, observou a rapariga do sorriso.
– Pelo m enos enquanto tiver necessidade de se continuar a punir, acrescentou o analista que estudava intensam ente a unha do polegar esquerdo, a que deviam estar coladas, em m icrofilm e, as obras com pletas de Melanie Klein.
O psiquiatra recostou-se para trás na cadeira e procurou no bolso o terceiro cigarro dessa sessão: será que m e castigo assim , m editou, e se o faço porque diabo o faço? e em nom e de que nebuloso e, para m im , inatingível pecado? Ou sim plesm ente faço-o por de m ais nada ser capaz e constituir esse o m eu peculiar m odo de m e sentir no m undo, com o um alcoólico tem de beber para se certificar que existe ou um m arialva tem de fornicar para se assegurar que é hom em ? E acabam os fatalm ente por desem bocar na pergunta essencial, que se encontra por detrás de todas as outras quando todas as outras se afastam ou foram afastadas e que é, se m e perm item , Quem Sou Eu? Interrogo-m e e a resposta consiste, obcecantem ente, invariavelm ente, assim : Um a Merda.
– Porque é que você se detesta, perguntou o parricida.
– Talvez pela m esm a razão que levava o tio José a entrar a cavalo pela cozinha do m eu avô, respondeu o m édico.
E contou que o tio José, que ele não chegara a conhecer, passava m eses em com pleta im obilidade sentado a um a j anela, sem falar com ninguém , até que de repente se erguia, punha um cravo no fraque, m ontava a égua e iniciava um período de actividade febril de negócios e cabarés, no intervalo dos quais entrava a trote, quixotesco de decrépita alegria, nas copas de sobrinhos e am igos.
– Nem o tio José sabia porque cavalgava entre tachos e gritos de cozinheiras indignadas nem eu porque m e não gram o, disse o psiquiatra.
E acrescentou baixinho, no tom de quem com pleta um qualquer percurso interior:
– O m eu bisavô m atou-se com duas pistolas ao descobrir que tinha um cancro.
– Você não é o seu bisavô, explicou o analista coçando o cotovelo, e esse seu Guerm antes é apenas um Guerm antes.
– Vive no m eio dos m ortos para não viver no m eio dos vivos, disse a rapariga dos problem as com o pai. Parece um a voz off a falar de um álbum de retratos.
– Porque não olha para nós que respiram os?, questionou o parricida.
– E para si com o um que respira, sugeriu a do sorriso. Você é com o os m iúdos na cam a, com m edo do escuro, a puxarem os cobertores para cim a da cabeça.
– Que catrino leva estes caretas a caírem -m e em cim a à um a?, disse-se o m édico.
– Os m atulões a arriarem no ceguinho inválido, queixou-se ele com o sorriso que pôde.
– Antes que o ceguinho inválido, que não é ceguinho nem inválido, tente enrolar os m atulões e enrolar-se a si próprio para continuar a ter vantagem em ser ceguinho e inválido, respondeu a m elancólica das anginas, m uito lesta. A gente não em barca no canto de sereia da sua auto-piedade, e se você gosta de levar no cu da alm a é consigo m as não nos obrigue a assistir ao espectáculo.
Fez-se um silêncio grande preenchido pelo ruído abafado do trânsito lá em baixo, trânsito nocturno, oblíquo deslizar de gato pela cidade ilum inada: dentro de m inutos estarei sozinho no néon, pensou o psiquiatra, a puxar pela m ona para escolher restaurante onde j antar; e cada um destes sacanas tem alguém à espera: esta últim a constatação fez subir dentro dele um a raiva enorm e contra os outros, que se defendiam m elhor do polvo gelatinoso da depressão.
– Cantar de galo de poleiro é fácil, berrou à roda acom panhando o grito de obscenidades a duas m ãos.
– Um quer m atar a filha, o outro m anda-nos àquela parte, protestou a rir um a das raparigas. Vocês são uns pontos do caneco a inventar angústias de papelão.
– Bichanos de telhado que em vez de cio m iam am eaços de tristeza, aperfeiçoou a da m eningite.
O analista assoou-se com estrépito e guardou o lenço em bola, sem o dobrar, no bolso das calças: dir-se-ia assistir à conversa num a indiferença absoluta, entregue à passividade de rum inações vegetais: o íntim o desse hom em gordo, ainda novo, constituía para o psiquiatra enigm a com pleto, em bora há anos se encontrassem três vezes por sem ana naquela sala tão descuidada com o o aspecto do dono, com reposteiro de sacristia à entrada e tecto castanho de inum eráveis cigarros, onde m uito da sua vida se j ogava. Disfarçadam ente olhou o relógio do hom em dos sonos ao seu lado: m ais uns m inutos e o analista apoiaria os dedos nos braços da cadeira e levantar-se-ia a dar por finda a sessão: descer as escadas, sair para a rua, recom eçar: subir o poço a pulso até à paisagem de ervas de cá de fora, torcer a roupa m olhada, partir: com o quando cheguei de África e não sabia o que fazer, e m e achava em corredor m uito com prido e sem nenhum a porta, e tinha um a filha e m ulher grávida e um vasto cansaço nos ossos chocalhados por dem asias de picadas. Reviu m entalm ente o túm ulo do Zé do Telhado em Dala e a casa com tecto de capim do senhor Gaspar no m eio das árvores altas em que pulava um enorm e m acaco dom esticado, de focinho branco, preso por um a trela a um poste de ferro, reviu a m orte do cabo Pereira no incêndio do unim ogue e o fantástico das queim adas noite fora: desde que m e levaram a Pádua a fazer a prim eira com unhão, pensou o m édico, j á andei um bom bocado.
– Desculpe aquilo das angústias de papelão, disse a rapariga que m om entos antes se tinha rido dele. Eu sei que você anda à brocha.
O psiquiatra tocou de raspão no braço dela enquanto o grupanalista iniciava o acto de se levantar, e lançou-lhe um soslaio de Calvário:
– Minha filha, garantiu ele, hoj e m esm o estarás com igo no Paraíso.