Memória de Elefante
Quando entrou no restaurante, quase a correr…
Quando entrou no restaurante, quase a correr porque o relógio da garagem vizinha m arcava um a e um quarto, o am igo j á o esperava do outro lado da porta de vidro, a exam inar os livros policiais que se acum ulavam num a espécie de estante rotativa de aram e, pinheiro de m etal adubado por um estrum e de j ornais de direita em pilhados no chão. A em pregada com cara de raposa da tabacaria, protegida por um a m uralha de revistas, ensaia va o seu inglês esquem ático para cam ones benévolos com um casal de m eia-idade a quem aquela gíria esquisita de que reconheciam nebulosam ente um a ou outra palavra ocasional surpreendia. A raposa com pletava o seu discurso com grande cópia de gestos exem plificativos de roberto de feira, os outros retorquiam -lhe num m orse de caretas, e o am igo, que abandonara os livros, assistia fascinado a esse ballet frenético de seres que perm aneceriam irrem ediavelm ente estranhos m au grado os seus esbracej ados esforços para se encontrarem num a linguagem com um . O psiquiatra desej ou com desespero um esperanto que abolisse as distâncias exteriores e interiores que separam as pessoas, aparelho verbal capaz de abrir j anelas de m anhã nas fundas noites de cada criatura com o certos poem as de Ezra Pound nos m ostram de súbito os sótãos de nós m esm os num m aravilham ento de revelação: a certeza de ter topado um com panheiro de viagem em banco à prim eira vista vazio e a alegria da partilha inesperada. Um a das coisas que m ais o aproxim ava da m ulher consistia precisam ente em conseguir isso com ela sem necessidade sequer de se vestir de frases, a capacidade de se entenderem num rápido soslaio e que nada tinha a ver com o conhecim ento um do outro porque desde a prim eira vez em que se encontraram fora assim , eram am bos então ainda m uito novos e haviam -se quedado siderados com a estranha força oculta daquele m ilagre que com m ais ninguém lhes sucedia, união tão perfeita e tão funda que, pensava, se as filhas a lograssem um dia teria valido a pena para ele o tê-las feito e para elas todos os saram pos da vida achariam razão. A m ais velha, principalm ente, assustava-o: receava a fragilidade das suas fúrias intem pestivas, os seus m últiplos m edos, os tensos e atentos olhos verdes no rosto de Cranach: por estar na guerra em África nunca a sentira m over-se no ventre da m ãe e ele representara para ela, durante m eses, um retrato na sala que lhe designavam com o dedo, desprovido de relevo e de espessura de carne. Nos beij os fugidios que trocavam m orava com o que um resto desse ressentim ento m útuo, contido a custo à beira da ternura.
O alm irante m elancólico que arrastava a reform a agaloada j unto à tabacaria do restaurante sonhando Índias trém ulas ao longe abriu a porta de vidro para deixar passar dois suj eitos de aspecto com petente, am bos de óculos, um dos quais afirm ava ao outro:
– Deixei-lhe a coisa em pratos lim pos, sabes com o eu sou. Fui-m e a trote ao gabinete do gaj o e disse logo: se você seu sacana não m e m anda de volta à m inha secção não lhe sobra um corno inteiro. Só queria que visses aquele caralho de m erda a borrar-se de cagaço.
O que leva os porteiros-alm irantes, pensou o m édico, a trocar o m ar por restaurantes e hotéis, de pontes de com ando reduzidas às proporções de capachos gastos, e estendendo a m ão curva na direcção das gorj etas com o o elefante do Jardim estica a trom ba para os m olhos de cenouras do tratador? Georges anda ver o m eu país de m arinheiros a navegar nas águas insonsas da subserviência resignada. Na berm a do passeio os suj eitos dos óculos acenavam para um táxi vazio com o náufragos para um barco indiferente. O casal de m eia-idade tentava, com o auxílio do catecism o de um a gram ática, exclam ações em zulu em que ecoavam , distorcidas, sem elhanças rem otas com português de Linguaphone do género O quintal do m eu tio é m aior do que o lápis do teu irm ão. O psiquiatra, que aproveitara a saída dos náufragos para se introduzir de perfil, tal os egípcios da História do Matoso, no vestíbulo das Galerias, correspondeu com um a continência aproxim ativa à vénia indefinida do alm irante e adm irou-se (com o sem pre lhe sucedia) que o m aruj o não depositasse um a gota de cuspo no m édio e o erguesse para estudar a direcção do vento, à m aneira dos corsários de órbita tapada dos film es da sua infância. Som os ele e eu Sandokans de m eia-idade, pensou o m édico, em que a aventura consiste em decifrar a página necrológica do j ornal na esperança de que a om issão do nosso nom e nos garanta estarm os vivos. E vam os entretanto partindo aos pedaços, por fracções, o cabelo, o apêndice, a vesícula, alguns dentes, com o encom endas desm ontáveis. Lá fora o vento m exia nos ram os dos plátanos com o ele tocara na cabeça do puto no hospital, e por detrás da Penitenciária acum ulava-se um cinzento espesso de am eaças. O am igo tocou-lhe de leve no cotovelo: era alto, j ovem , um pouco curvado, e os olhos possuíam um a serena suavidade vegetal.
– O m eu avô esteve ali um porradão de m eses, inform ou-o o psiquiatra indicando com o queixo o edifício da prisão e o m uro de cartolina ao longo da Marquês da Fronteira, agora som bria de chuva próxim a. Esteve ali um porradão de m eses depois da revolta de Monsanto, tropa m onárquico percebes, até ao fim assinou o Debate. O m eu pai costum ava contar-nos com o ia visitá-lo com a m inha avó à choça e subiam a avenida no verão, esm agados de calor, ele vestido à m aruj a com o m acaco de realej o, ela de chapéu e som brinha a em purrar a barriga grávida adiante de si com o o Florentino m oço de fretes carregava pianos por Benfica num carro de m ão descom unal. Não, a sério, repara no quadro: a alem ã de órbita azul cuj o pai se suicidou com duas pistolas sentou-se à secretária e trás, e o garoto apertado na farda de carnaval, dueto a cam inho de um capitão de bigodes que desceu do Forte com um tipo ferido às costas até encalhar nas espingardas dos carbonários. Nem se distinguem as feições nas fotografias ovais desse tem po ardente, e quando nós nascem os j á o Salazar transform ara o país num sem inário dom esticado.
– Quando eu andava na escola, disse o am igo, a professora, que cheirava m al dos pés aliás tortos, m andou-nos desenhar os bichos do Zoológico e eu fiz o cem itério dos cães, lem bras-te com o é? O Alto de São João dos caniches? Dá-m e ideia às vezes que Portugal todo é um pouco isso, o m au gosto da saudade em dim inutivo e latidos enterrados debaixo de lápides pífias.
– Ao nosso Mondego a eterna saudade da sua Leninha, declarou o m édico.
– Ao querido Bij ú dos donos que nunca o esquecem Milú e Fernando, respondeu o am igo.
– Agora, disse o psiquiatra, substituem os funerais dos rafeiros pelos agradecim entos ao Divino Espírito Santo ou ao Menino Jesus de Praga no Diário de Notícias. Terra do cam andro: se El-Rei D. Pedro voltasse ao m undo não achava em todo o reino quem capar. Já se nasce Inválido do Com ércio e reduzim os as am bições ao prim eiro prém io do sorteio da Liga de Cegos João de Deus, Ford Capri m anhoso em cim a de cam ioneta a tonitruar de altifalantes.
O am igo roçou a barba loira no om bro do m édico: parecia um ecologista que houvesse feito à burguesia a generosa concessão de um a gravata.
– Tens escrito?, interrogou.
De m ês a m ês desfechava de súbito esta pergunta aterradora, porque para o psiquiatra o m anuseio das palavras constituía um a espécie de vergonha secreta, obsessão eternam ente adiada.
– Enquanto o não fizer posso sem pre acreditar que se o fizer o faço bem , explicou ele, e com pensar-m e com isso das m inhas m uitas pernas m ancas de centopeia coxa, enxergas? Mas se com eçar um livro a sério e parir m erda que desculpa m e fica?
– Podes não parir m erda, argum entou o am igo.
– Tam bém posso ganhar a casa da Eva do Natal sem com prar a revista. Ou ser eleito papa. Ou m arcar livres em folha seca num estádio cheio. Deixa lá que depois de eu m orrer tu publicas os m eus inéditos com um prefácio elucidativo, Fulano, Tal Com o O Conheci. Cham ar-te-ás Max Brod e podes-m e tratar na intim idade do leito por Franz Kafka.
Tinham abandonado o alm irante a assoar-se tum ultuosam ente à vela do lenço e escolhido o andar do m eio, que o m édico preferia pela tonalidade de incubadora da luz, lâm padas escondidas em tubos de passadeira de latão. As pessoas com iam om bro a om bro com o os apóstolos na últim a Ceia e do outro lado das ferraduras dos balcões os em pregados agitavam -se num frenesim de insectos, fardados de branco, com andados por um tipo à paisana de m ãos atrás das costas que recordou ao psiquiatra os fiscais das obras a assistirem de palito nos dentes ao esforço de galés dos operários: nunca entendera a razão de ser dessas criaturas autoritárias e silenciosas observando o trabalho dos outros com pupilas de goraz, encostados a gigantescos Mercedes azul cueca. O am igo debruçou-se para colher a em enta pousada num a calha de m etal sobre frascos de m ostarda e de m olhos diversos (os produtos de beleza da culinária, pensou o m édico), abriu-a com unção cardinalícia, e com eçou a ler baixinho o nom e dos pratos num regalo fradesco: nunca concedera a ninguém a partilha dessa operação voluptuosa, ao passo que o psiquiatra se interessava preferencialm ente pelos preços, herança da casa dos pais onde a sopa se m ultiplicava, indefinida, refeição após refeição, num prodígio aguado. Um dia, era ele j á hom em , surgiu um a garrafa de vinho na m esa e a m ãe explicou repartindo os olhos claros pela descendência estupefacta:
– Agora, graças a Deus, podem os.
Minha velha, pensou ele, m inha velha-velha nunca soubem os entender-nos bem um com o outro: logo à nascença te quase m atei de eclam psia, tirado a ferros de ti, e segundo a tua perspectiva tenho cam inhado pelos anos de tram bolhão em tram bolhão a cam inho de um a qualquer m as certa desgraça derradeira. O m eu filho m ais velho é m aluco, anunciavas às visitas para desculpar as (para ti) bizarrias do m eu com portam ento, as m inhas inexplicáveis m elancolias, os versos que às ocultas segregava, casulos de sonetos para um a angústia inform e. A avó onde eu ia aos dom ingos com a ideia posta nas nádegas da criada, e que m orava à som bra da glória e das condecorações de dois generais defuntos, avisava-m e doridam ente à hora do bife:
– Tu m atas a tua m ãe.
E m ato-te ou m ato-m e m inha velha que durante tanto tem po pareceste m inha irm ã, pequena, bonita, frágil, pastorinha de vitral e brum a do Sardinha, de horário distribuído entre o Proust e o Paris-Match, parideira de herdeiros m achos que te deixaram intacta no enxuto das ancas e no aram e fino dos ossos? Herdei talvez de ti o gosto do silêncio, e as sucessivas barrigas não te consentiram o espaço de m e am ares com o eu necessitava, com o eu queria, até que ao darm os pela existência frente a frente um do outro, tu m inha m ãe e eu teu filho, era tarde dem ais para o que, na m inha form a de sentir, não tinha havido. O gosto do silêncio e o fitarm o-nos com o estranhos separados por distância im possível de abolir, que pensarás de facto de m im , da m inha vontade inform ulada de te reentrar no útero para um dem orado sono m ineral sem sonhos, pausa de pedra nesta corrida que m e apavora e que do exterior se m e diria im posta, enfrenesiado trote da angústia na direcção do repouso que não há. Mato-m e, m ãe, sem que ninguém ou quase ninguém o note, baloiço pendurado na corda de um sorriso, choro por dentro hum idades de gruta, suor de granito, secreto nevoeiro em que m e escondo. Silêncio até na m úsica de fundo do restaurante, pastilha rennie em clave de sol a aj udar digestões de engolir apressado para avestruzes que com ungam pizzas a contra-relógio, m úsica de fundo que m e recorda sem pre linguados de fusas a alaparem -se nas areias da pauta com olhinhos m elosos observando protuberantem ente o aquário, em balo de intestinos resignados. O am igo conseguiu por fim captar o interesse de um em pregado que vibrava de im paciência, esporeado por m últiplos cham am entos, com o um cavalo picado por ordens sim ultâneas e contraditórias, sacudindo as crinas ralas do cabelo de indecisão aflita.
– O que é que escolhes?, perguntou ao m édico que disputava o seu m etro de balcão a um a enorm e dam a obesa ocupada pela pirâm ide de um enorm e gelado obeso, barroco de frutas cristalizadas, com o qual com batia ferozm ente a grandes golpes de colher: não se entendia bem qual dos dois devoraria o outro.
– Ham burguer com arroz, disse o psiquiatra sem olhar o m issal dos peixes e das carnes em que o latim dera lugar a um francês de caçarolas ditado pela autoridade de prim a-dona do cozinheiro, pem ican, ó cara pálida m eu irm ão, antes de ingressar na Pradaria das Caçadas Eternas.
– Um ham burguer e um a perna de porco, traduziu o am igo para o em pregado quase a estalar de desespero. Mais um m inuto, pensou o m édico, e abrem -se-lhe fendas de terram oto nas bochechas e todo ele se desintegra no chão num fragor de derrocada.
– Síncope de prédio antigo, disse alto, síncope de Prém io Valm or atacado de lepra e de caruncho.
A senhora do sorvete guinou para ele soslaio de cão vadio prestes à refrega por recear am eaçada a sua vasculhação de lixo com estível: prim eiro o chantilly e a seguir a m etafísica, reflectiu o psiquiatra.
– O quê?, perguntou o am igo.
– O quê o quê?, perguntou o m édico.
– Mexias a boca e não ouvi um som , disse o am igo. Com o as beatas nas igrej as.
– Estava cá a m agicar que escrever é um bocado fazer respiração artificial ao
dicionário de Moraes, à gram ática da 4.a classe e aos restantes j azigos de palavras defuntas, e eu ora cheio ora vazio de oxigénio, aparvalhado de dúvidas.
Defronte deles um a rapariga vesga idêntica a um pardal com cio segredava risos confidenciais a um quadragenário encurvado em concha para lhe receber as gargalhadinhas saltitantes. O psiquiatra quase apostava que o hom em havia sido padre pela ausência de arestas dos seus gestos e pela curva m ole dos beiços em que introduzia pedaços de pão num ritm o certo de m etrónom o, ficando a m astigar dem oradam ente em vagares desdenhosos de cam elo. Das pálpebras desciam soslaios baços e lentos e a rapariga vesga, m aravilhada, m ordiscava-lhe com os dentes estragados um pedaço da orelha à laia de um a girafa estendendo a língua grossa, por cim a das grades, para as folhas dos eucaliptos.
Um segundo em pregado, parecido com Harpo Marx, em purrou para as toalhas de papel as fatias de porco assado e o ham burguer. De garfo em riste o m édico sentiu-se vitelo atrelado à m anj edoura que partilhava com m ais vitelos, aprisionados todos pela tirania dos em pregos, sem tem po para a alegria e para a esperança. Trabalho, o passeio de autom óvel aos dom ingos segundo o inevitável triângulo Casa-Sintra-Cascais, novam ente trabalho, novam ente o passeio de autom óvel, e isto até que um a carreta funerária nos colha de surpresa à esquina do enfarte e term ine o ciclo no ponto final dos Prazeres. Depressa por favor depressa, pediu ele com o corpo todo ao Deus da sua m eninice, barbudo papão am igo íntim o das tias, senhorio do sacristão coxo de Nelas, colum bófilo divino dono das caixas das esm olas e dos Santos Expeditos dos altares laterais, com quem m antinha a relação desiludida de am antes que pouco aguardam um do outro. Com o ninguém lhe respondesse com eu o único cogum elo que enfeitava o ham burguer e que se assem elhava a um m olar am arelecido à falta de dentífrico. Pelo silêncio do am igo notou que ele esperava a j ustificação do telefonem a da m anhã com a sua paciência habitual de árvore tranquila.
– Cheguei ao fundo, disse o psiquiatra com o cogum elo ainda na língua, lem brando-se de que em pequeno, na catequese, o haviam prevenido ser horrível pecado falar antes de engolir a hóstia. Ao fundo dos fundos, chiba. Ao fundo do fundo dos fundos.
Ao lado da vesga um cavalheiro idoso lia as Selecções à espera do alm oço: Eu Sou O Testículo De João. Para que quererá os testículos um suj eito de sessenta anos?
– Cheguei ao fundo dos fundos, continuou o psiquiatra, e não tenho a certeza de conseguir sair dos lim os onde estou. Não tenho m esm o a certeza de que haj a sequer saída para m im , percebes? Às vezes ouvia falar os doentes e pensava em com o aquele tipo ou aquela tipa se enfiavam no poço e eu não achava form a de os arrancar de lá devido ao curto com prim ento do m eu braço. Com o quando em estudantes nos m ostravam os cancerosos nas enferm arias agarrados ao m undo pelo um bigo da m orfina. Pensava na angústia daquele tipo ou daquela tipa, tirava rem édios e palavras de consolo do m eu espanto, m as nunca cuidei vir um dia a engrossar as tropas porque eu, porra, tinha força. Tinha força: tinha m ulher, tinha filhas, o proj ecto de escrever, coisas concretas, bóias de m e aguentar à superfície. Se a ansiedade m e picava um nada, à noite, sabes com o é, ia ao quarto das m iúdas, àquela desordem de tralha infantil, via-as dorm ir, serenava: sentia-m e escorado, hã, escorado e a salvo. E de repente, caralho, voltou-se-m e a vida do avesso, eis-m e barata de costas a espernear, sem apoios. A gente, entendes, quero dizer eu e ela, gostava m uito um do outro, continua a gostar m uito um do outro e os tom ates desta m erda é eu não conseguir pôr-m e outra vez direito, telefonar-lhe e dizer – Vam os lutar, porque se calhar perdi a gana de lutar, os braços não se m ovem , a voz não fala, os tendões do pescoço não seguram a cabeça. E foda-se, é só isso que eu quero. Acho que nós os dois tem os falhado por não saber perdoar, por não saber não ser com pletam ente aceite, e entrem entes, no ferir e no ser ferido, o nosso am or (é bom falar assim : o nosso am or) resiste e cresce sem que nenhum sopro até hoj e o apague. É com o se eu só pudesse am á-la longe dela com tanta vontade, catano, de a am ar de perto, corpo a corpo, conform e desde que nos conhecem os o nosso com bate tem sido. Dar-lhe o que até hoj e lhe não soube dar e há em m im , congelado em bora m as respirando sem pre, sem entinha escondida que aguarda. O que a partir do início lhe quis dar, lhe quero dar, a ternura, percebes, sem egoísm o, o quotidiano sem rotina, a entrega absoluta de um viver em partilha, total, quente e sim ples com o um pinto na m ão, anim al pequeno assustado e trém ulo, nosso.
Calou-se de garganta em brulhada enquanto o cavalheiro das Selecções, depois de dobrar um canto de página antes de fechar a revista, vertia o conteúdo de um pacote de açúcar, em piparotes cautelosos, na icterícia do chá de lim ão. A dam a obesa vencera definitivam ente o gelado e cabeceava de leve num saciam ento de j ibóia. Três adolescentes m íopes conferenciavam sobre os bifes respectivos, m irando de viés um a ruiva solitária de faca parada no ar com o a pata suspensa de um a cegonha, entregue a m editações indecifráveis.
– Nenhum de vocês arranj a um a pessoa com o o outro, disse o am igo afastanto o prato vazio com as costas da m ão, nenhum de vocês arranj a um a pessoa tão para o outro com o o outro, tão de acordo com o outro com o o outro, m as tu castigas-te e castigas-te num a culpabilidade de alcoólico, enfiaste-te na idiotice do Estoril, desapareceste, ninguém te vê, evaporaste-te no ar. Continuo à tua espera para acabarm os o trabalho sobre Acting-Out.
– Ando vazio de ideias, disse o m édico.
– Andas vazio de tudo, respondeu o am igo. Porque é que j á agora não enfias os cornos contra um m uro?
O psiquiatra recordou-se de um a frase da m ulher pouco antes de se separarem . Estavam sentados no sofá verm elho da sala, sob um a gravura do Bartolom eu que ele apreciava m uito, enquanto o gato buscava um espaço m orno entre os quadris de am bos, e nisto ela voltara para ele os grandes e decididos olhos castanhos e declarara:
– Não adm ito que com igo ou sem m im você desista porque eu acredito em si e apostei em si a pés j untos.
E lem brou-se de com o isso o aguilhoara e lhe doera e de com o enxotara o bicho para abraçar o corpo estreito e m oreno da m ulher, repetindo GTS, GTS, GTS, num a em oção aflita: fora ela a prim eira pessoa a am á-lo inteiro, com o peso enorm e dos seus defeitos dentro. E a prim eira (e a única) a encoraj á-lo a escrever, pagasse o preço que pagasse por essa quase tortura sem finalidade aparente de m eter um poem a ou um a história num quadrado de papel. E eu, perguntou-se, que fiz eu verdadeiram ente por ti, em que tentei, de facto, aj udar-te? Contrapondo o m eu egoísm o ao teu am or, o m eu desinteresse ao teu interesse, a m inha desistência ao teu com bate?
– Sou um cagado a pedir socorro, disse ele ao am igo, tão cagado que nem m e aguento nas canetas. A pedir m ais um a vez a atenção dos outros sem dar nada em troca. Choro lágrim as de crocodilo puto que nem a m im m e aj udam e se calhar é só em m im que penso.
– Experim enta ser hom em para variar, respondeu o am igo arpoando o irm ão Marx pela m anga para lhe pedir um café duplo. Experim enta ser hom em um bocadinho que sej a: pode ser que te aguentes no balanço.
O m édico olhou para baixo e reparou que não tocara no ham burguer. A vista da carne e do m olho coalhados e frios acendeu nele um a espécie de tontura agoniada que lhe trepou em torvelinho das tripas para a boca. Desceu do banco com o de um a sela difícil de repente excessivam ente m óvel, contendo o vóm ito a poder dos m úsculos da barriga, m ãos abertas adiante da boca, atarantado. Conseguiu ainda alcançar os lavabos e, dobrado para a frente, principiou a expulsar aos arrancos, no lavatório m ais próxim o da porta, restos confusos do j antar da véspera e do pequeno-alm oço m atinal, pedaços esbranquiçados e gelatinosos que escorregavam , repulsivos, para o ralo. Quando se conseguiu dom inar o suficiente para lavar a boca e as palm as viu no espelho que o am igo, por detrás dele, lhe olhava a cara escavada de palidez, torcida ainda pela sufocação e pelas cólicas.
– Eh pá, disse ele para a im agem reflectida, anj o tutelar da sua angústia im óvel sobre um fundo de azulej os, eh pá, cona da prim a, cu de velha ranhosa, tom ates do padre Inácio, é m esm o m uito fodido ser hom em . Não é?