Memória de Elefante

António Lobo Antunes · Capítulo 13 de 14

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Memória de Elefante

– Você tem m esm o a…

– Você tem m esm o a certeza de que é m édico?, perguntou-lhe o ofídio olhando-lhe com desconfiança os j eans rapados, a cam isola gasta, a desordem descuidada dos cabelos. Estavam am bos no pequeno autom óvel do psiquiatra (Não sei se caibo nesta coisa), j unto ao im pressionante autocarro de turistas que recebia de volta a sua carga de am ericanas velhas em vestidos de noite, de óculos suspensos do pescoço por fios de prata com o as chuchas dos bebés, acom panhadas de suj eitos rubicundos parecidos com o Hem ingway dos retratos finais.

– Eu não costum o desconfiar das pessoas m as nunca se sabe, acrescentou ela exam inando policialm ente a cédula profissional que o outro lhe estendia, e j á vou tendo a m inha conta de barretes. Acredita-se acredita-se e vai na volta truca: passa para cá a carteira ó ai ó linda e fica-se na estrada a ver navios. Você desculpe, não é nada consigo, paga o j usto pelo pecador com o dizem os padres e nunca é dem ais acautelar. Tenho um prim o por parte do m eu pai enferm eiro em São José, no Serviço Um , o Carregosa, conhece? Baixo, forte, careca, um bocado gago, m aluco pelo Atlético? Usa o em blem a por cim a da bata, j ogou nos j uniores, a m ulher dele entrevou-se, só diz raisparta raisparta? O senhor perdoe as m inhas prudências m as o Mendes dizia-m e sem pre: Dóri (cham o-m e Dóri) põe-te a pau com os estranhos que m ais vale prevenir do que rem ediar, até ouvi essa a um a senhora que tirou os peitos no instituto do cancro, apanhava m alhas, agora apanha balões de soro, está quase tão m al com o o Mendes, coitado, que depois da revolução teve de em igrar para o Brasil que rem édio, deixou-m e um a carta querida a garantir que m e m andava para ao pé dele, que nunca gostara de ninguém com o m e am ava a m im , era só um a questão de m eses até arrum ar a vida dele e pronto, m ulatas nem vê-las que cheiram m al. Mais m ês m enos m ês tom o o boingue para o Rio de Janeiro, ele é doutor de finanças e económ icas não vai secar sem sacar em prego que nunca vi com petência com o o Mendes, trabalha que nem cão o desgraçado apesar de fraquinho dos pulm ões e ao depois não é só isso, é a delicadeza, os m odos, a form a de tratar um a m ulher, adivinha o que a gente quer, nunca m e bateu, quase todas as sem anas eram flores, eram j óias, eram j antares no Com odoro, eram cinem as. Eu dizia-lhe, é claro, ó filhinho não é necessário tanto luxo m as o Mendes sabia que eu m e pelava, não fazia caso, era um santo de altar, estou a vê-lo com as patilhas m uito bem tratadas (dei-lhe um a filichaive no Natal), a cam isa rosa negra im pecável, o verniz das unhas a brilhar.

Pausa.

– Porque é que você não põe um a gravata de seda natural, um casaco piêdepule, fixador brilcrim e na cabeça? Nunca vi um m édico tão m al am anhado, tão à m ecânico, os doutores devem de ter representação, não é, quem é que se quer tratar com um psiquiatra pope esgadelhudo? Eu quando vou à caixa exij o respeito, seriedade, percebe-se logo pela cara das pessoas se são com petentes ou não, não achas, os especialistas com o deve de ser usam colete, têm bêém edablius prateados, casas com lustres, torneiras doiradas que são peixes a deitar água, entra-se lá nota-se o dinheiro que o quinane anda pela hora da m orte, diga-m e lá o que se faz hoj e na vida sem dinheiro, eu sem dinheiro sinto-m e a m orrer, é a m inha gasolina, topas, tirem -m e a m inha carteira de crocodilo e fico perdidinha da silva, estou habituada aos luxos que é que queres, talvez não acredites m as o m eu pai era professor de veterinários em Lam ego.

Tirou um Cam el de contrabando de um a horrorosa bolsa de cartão im itação de j acaré, acendeu-o com um isqueiro de baquelite a fingir tartaruga. O psiquiatra reparou que os sapatos dela, de tacões inacreditavelm ente altos, necessitavam de m eias solas, e que grandes vincos sem graxa estriavam o cabedal no peito do pé: saldos da Praça do Chile, diagnosticou ele. As raízes das m adeixas loiras nasciam grisalhas no local da risca, e o pó-de-arroz tentava sem sucesso m ascarar as m últiplas rugas fundas ao redor dos olhos e ao longo das bochechas m oles, pendentes do queixo em cortinas flácidas de carne. Devia trazer as fotografias dos netos (a Andreia Milena, o Paulo Alexandre, a Sónia Filipa) no porta-m oedas.

– Para a sem ana que vem faço trinta e cinco anos, inform ou ela com descaro. Se prom eteres pôr um sm oquingue e levar-m e a j antar a um restaurante decente o m ais longe possível dos Caracóis da Esperança, convido-te: desde que o Mendes se foi em bora tenho um vazio no coração.

E apalpando-m e o om bro:

– Sou um a pessoa m uito afectuosa, chiça, não sei viver sem am or. Tu não deves ganhar m al, hã, os m édicos esfolam , se te arranj asses, te penteasses, com prasses um fatinho na Avenida de Rom a talvez ficasses j eitoso em bora isso para m im , o dinheiro, o aspecto, não tenha im portância nenhum a, são os sentim entos que m e interessam , a beleza da alm a não é? Um hom em que m e trate bem , m e leve a passear a Sintra aos dom ingos e chega para eu andar feliz com o um canário. Sou m uito alegre percebes?, m uito sossegada, m uito caseira. Eu cá m eu filho pertenço ao género am or e um a cabana, o m eu banho de espum a, a m inha depilação das pernas, conta aberta na pastelaria, não exij o m ais. Tens aí duzentos escudos que m e em prestes para o táxi para Lisboa que com boios, com igo, santa paciência, tens duzentos escudos com certeza, deves ganhar bem , és um cavalheiro, não aguento caram elos que não sej am cavalheiros, olha que gandulos sem pre com a caralhada na boca puta que os pariu. Desculpa falar-te assim m as é que eu sou franca, não sou gaga, sei o que digo, a bem tudo a m al nada e ao depois sim patizo contigo, posso dar-te m uitos gozos se gostares de m im , m e com preenderes, m e pagares a renda da casa, eu quero é dedicar-m e, ter alguém que m e leve ao cinem a e ao café, m e pague a renda da casa, m e trate com o deve de ser, goste do m eu basset, m e aceite. Por acaso podíam os ser felizes os dois, tu e eu, não achas, quando é que deslizas os duzentos bagos? Tens m edo que isto sej a conversa da fiada? Ó filho eu paixões é a prim eira vista, não há nada a fazer, caíste-m e no goto, deixa cá pôr os óculos para te observar m elhor, te am ar ainda m ais.

Tirou prim eiro um estoj o, voltou a em purrá-lo para o fundo da carteira (Poça estes são os de longe) e extraiu de um a confusão de lenços de papel, de bilhetes de eléctrico e de docum entos am arrotados, um par de lentes grossas com o um caleidoscópio atrás das quais as pupilas desapareceram , dissolvidas na espessura do vidro: o psiquiatra sentiu-se exam inado por um m icroscópio de m á qualidade.

– Ai filho m as tu és novíssim o, exclam aram as dioptrias espantadas, tens para aí a m inha idade, trinta e três, trinta e quatro o m áxim o, não? Apostava duzentas e cinquenta de percebes que tens trinta e quatro, eu nisto de anos nunca m e engano, se fosse assim com o totobola j á tinha aberto um a butique no Areeiro há m ais de um colhão de séculos, o Mendes j urou-m e pelos ossos do irm ão que está debaixo da terra que m e punha um a na Penha de França e logo haviam de vir os com unistas a roubar a gente, a enrabar isto tudo, foi-se o proj ecto por água abaixo m as se pensas que desisti estás m ais enganado que um m arido, aqui a Dóri é teim osa dos cascos, no am or e nos negócios sou um cão de fila, não largo, tenho a dentuça afiada. Olha lá a propósito quanto é que tens no banco, para cim a de cem contos não, confessa-te aqui à Dóri, se quisesses abríam os um cabeleireiro de sociedade, Salão Dóri ficava giro não achas, letras lum inosas cá fora, decência, clientela rica, em pregadas escolhidas a dedo, m úsica de fundo, cadeiras de veludo, um a coisa com o no cinem a, eu ficava à caixa que o m eu forte é o com ércio, estive dez anos na capelista do Mendes e nunca dei prej uízo à Havaneza de Arroios, fechou porque tinha de fechar, os negócios gastam -se, topas, é com o a pila dos hom ens, a tua deve estar toda gastinha m eu m arau m as a Dóri com põe, é preciso é a gente saber tocar guitarra de um a corda só, e ao depois os fornecedores da Havaneza m etiam a unha com o o caneco e aconteceu-m e encontrar o Leal, um que cantava na rádio conheces com certeza, esteve vai não vai para ir à televisão, dedicou-m e m úsicas lindas, género rom ântico, até chorei j á vês, um a estam pa de m oço apessoado não desfazendo, chegaram a convidá-lo para um a fotonovela da Crónica, a história de um engenheiro filho de um a condessa que gosta da criada da m ãe que afinal é neta de um m arquês e não sabia, o m arquês m orava em Cam po de Ourique num a cadeira de rodas, eu bem que insisti com ele Ó Leal tu aceita-m e, tu aceita-m e o furo que andas aos caídos e tens cara de engenheiro m as o rapaz tinha orgulho e fodeu-se por isso, ainda se fosse um film e respondia-m e ele, ainda se fosse um film e ia pensar desde que m e deixassem dorm ir a sesta, um film e indiano, tinha aquela m ania dos film es indianos, quem o quisesse encontrar que o procurasse à saída do Aviz, parecia-se com o Arturo de Cordoba e com o Tony de Matos, a m esm a voz, os m esm os caracóis bem penteados, a cintura assim fininha, fazia pesos e halteres às terças e quintas no Ateneu, em Caxias e na praia era um a razia nas pequenas, o Mendes aceitou a coisa, perdoou-m e, ele sabia do m eu tem peram ento e perdoava, o Leal casou-se com a dona de um a ourivesaria da Am adora, um a cabra safada que nem m am as tinha viúva de um em barcadiço que chupou um as lecas da m erda no contrabando dos rádios, se calhar dava a cona da m ulher no porta a porta, eu andei a pastilhas para dorm ir um m ês, só suspirava, até o gosto pelo folhetim perdi, o Mendes fazia-m e chá de tília, pobrezinho, aconselhava-m e com bons m odos, ó Dóri se o m édico do coração deixar vou para a ginástica do Ateneu, sofria de angina do peito, coitado, para subir as escadas era um a desgraça, desatava logo a arfar, sei lá m ais de quantas vezes se m e ia ficando em cim a, ó Dóri deixa lá que tens aqui o teu Riquinho, o Mendes cham ava-se Reinaldo, Reinaldo da Conceição Mendes m as eu tratava-o por Riquinho porque ele gostava, em agreci cinco quilos com a infelicidade, ah conho que se pilhasse a ram elosa partia-lhe um chifre com os dentes, fressureira de um corno, puta esquentada, estoirou este outubro de um aneurism a abençoado, paguei um a m issa de acção de graças no Beato, fiquei com a rata aos saltos para o resto da vida, o padre a latinar no altar e eu a dizer de j oelhos Mal tu sabes pelo que é que rezas m eu m agano, viva o Benfica que j á cá não está quem m e enrabou.

O m édico alcançou a m arginal e voltou para o Monte Estoril: havia um a boîte no sopé da colina onde não corria grandes riscos de tropeçar em pessoas que o conhecessem : envergonhava-o ser visto na com panhia daquela m ulher dem asiado ruidosa, com pelo m enos o dobro da sua idade, lutando contra a decrepitude e a m iséria através de um a encenação absurda ao m esm o tem po ridícula e tocante, que o fez ter vergonha da sua vergonha: no fundo não eram diversos um do outro, e em certo sentido os seus frenéticos com bates aparentavam -se: fugiam am bos à m esm a solidão im possível de aguentar, e am bos, por falta de m eios e de coragem , se abandonavam sem um gesto de luta à angústia da aurora com o m ochos aterrados. O m édico lem brou-se de um a frase de Scott Fitzgerald, tripulante aflito do barco em que seguiam , deixado em terra num a viagem anterior, de coração exausto alim entado pelo oxigénio am argo do álcool: na noite m ais escura da alm a são sem pre três horas da m anhã. Estendeu a m ão e afagou a nuca do dinossauro num a ternura sincera: salve, m inha velha, atravessem os j untos estas trevas, declarava o seu polegar subindo e descendo ao longo do pescoço dela, atravessem os j untos estas trevas que só há saída pelo fundo consoante nos inform ou o Pavia antes de abraçar o seu com boio, só há saída pelo fundo e talvez que am parando-nos m utuam ente lá cheguem os, cegos de Brueghel a tactear, tu e eu, por este corredor cheio dos m edos da infância e dos lobos que povoam a insónia de am eaças.

– Ah ah, exclam ou a Dóri com um sorriso de triunfo, atrevidote, hã?

E apertou-m e os testículos com as falanges em quebra-nozes até m e fazer gritar de dor.

A boîte devia estar no term o da sua viagem dessa noite: os únicos habitantes para além do em pregado zarolho que nos serviu um gin e um prato de plástico de pipocas com m aus m odos evidentes, e da m enina dos discos que lia o Tio Patinhas na sua gaiola sonora, figura de caixa de m úsica curvada sobre si própria com o um feto, eram dois hom ens sonolentos apoiados ao balcão, de narizes equinos m ergulhados em alcofas de bagaço, e que m iraram a m ulher terciária, que rebolava à m inha frente as ancas gigantescas, com a atenção distraída que se confere a um a ruína sem interesse. As luzes do tecto, pulsando m olem ente ao com passo de um tango, aclaravam o palco pindérico da m inha execução: cadeiras de ferro de esplanada de café, um televisor apagado num a prateleira alta, cascas e pegadas circulares de copos no tam po das m esas: m orreu na m iséria, explicavam os livros de leitura acerca dos poetas defuntos, barbudos esqueléticos suspensos em atitudes pensativas, m editando provavelm ente no que em penhar a seguir, ou fabricando na cabeça alexandrinos preciosos. A Dóri que regressava com a aproxim ação da m adrugada a um a j uventude de criada de servir doirada pelas sólidas prom essas m atrim oniais de um prim o soldado, pediu um a sandes de paio com unto, de que ofereceu ao m édico, num a guinada de súbita delicadeza, a trincadela inaugural: m astigava de boca aberta com o as cam ionetas de cim ento, e dançaram trocando m eigam ente pedaços de côdea (Papa quido que tás m aguinho), à laia de náufragos repartindo, fraternais, a ração da j angada. O zarolho acotovelou os equinos do bagaço e ficaram -se os três a observá-los num a estupefacção im óvel, siderados pelo abracadabrante quadro de um adolescente envelhecido ao colo de um a baleia paleolítica de grande j uba frisada. Foda-se, pensou o m édico aterrado, inalando o perfum e sem elhante a gás de guerra de 14 que se soltava em rolos letais da nuca da m ulher, o que faria eu se estivesse no m eu lugar?