Memória de Elefante

António Lobo Antunes · Capítulo 6 de 14

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Memória de Elefante

As nuvens que form avam com o…

As nuvens que form avam com o que um boné de dorm ir sobre a silhueta de cartão recortado da Penitenciária estendiam a som bra escura até m eio do Parque enquanto o m édico se dirigia para o autom óvel que com o de costum e deixara estacionado não se lem brava bem onde, num qualquer ponto sob o verde doirado dos plátanos que bordej avam o enorm e espaço central aberto até ao rio num a am plidão sem m aj estade. Um grupo de ciganos acocorados no passeio discutia aos gritos a posse de um relógio de parede decrépito, cuj o pêndulo agónico oscilava com o um braço caído de um a m aca, soltando de quando em quando um tique-taque exausto de últim o suspiro. Não era ainda a hora de os hom ossexuais povoarem os intervalos entre as árvores com as suas silhuetas expectantes, afagados por carros que se roçavam languidam ente por eles à m aneira de grandes gatos ávidos, tripulados por senhores que envelheciam com o as violetas m urcham , num a doçura m agoada. O psiquiatra tivera ali o seu prim eiro encontro com um a prostituta que ocupava em grandes passadas proprietárias oito m etros de calcário, m aj estosa de pérolas falsas e de pavorosos anéis de vidro, enorm e padeira de Alj ubarrota que o salvara a golpes de m alinha de m ão dos sorrisos de sereia de um par de travestis apertados em cetins verm elhos, com botas de tropa nos pés, furriéis arredondando o pré com part-tim es de carnaval, a fim de o arrastar autoritariam ente para um quarto sem j anelas com gravuras de frades borrachos nas paredes e o retrato de Cary Grant no oval de crochet da cóm oda. Dividido entre a tim idez e o desej o o m édico assistira em peúgas, abraçado à roupa que não sabia onde pousar, à m etam orfose daquela Mata Hari de pacotilha num ser sem elhante ao m onstro de teta hercúlea a rasgar listas telefónicas no circo que passeava na praia, no verão, os tigres sarnosos da sua m iséria de lantej oulas sem brilho. A m ulher introduziu-se nos lençóis com o um a fatia de fiam bre entre duas m etades de um pão, e ele, atónito, aproxim ou-se até tocar a m edo na colcha à m aneira de quem palpa com os j oanetes, em atitude de ballet friorento, a tem peratura da piscina. A túlipa do tecto revelava o planisfério de continentes desconhecidos que a hum idade desenhava na caliça. O grito im paciente – É para hoj e ó necas?, atirou-o sobre a cam a com a veem ência sem réplica de um pontapé oportuno, e o psiquiatra perdeu a virgindade ao penetrar, todo ele, num grande túnel peludo, afogando o nariz na alm ofada sem eada de ganchos de cabelo com o um a árvore de Natal de flocos de algodão, a que aderiam placas de caspa idênticas a grandes lâm inas gordurosas. Dois dias depois, pingando nas cuecas um a estearina que ardia, obteve, através das inj ecções do farm acêutico, a certeza de que o am or é um a doença perigosa que se cura com um a caixa de am polas e lavagens de perm anganato m orno no bidé da criada, para furtar a veem ência das paixões à curiosidade questionante da m ãe.

Mas a essa hora inocente da tarde o Parque povoava-se apenas de j aponeses j oviais cum prim entando-se uns aos outros num a linguagem de periquitos, a quem os ciganos tentavam im pingir o relógio de parede com a determ inação de quem lança pazadas de farinha Maizena para a goela de crianças renitentes, e os j aponeses, surpresos, m iravam aquele estranho arm azém de m inutos de que o pêndulo pendia de um a portinha de vidro com o o coração cercado de espinhos dos Cristos das pagelas, com o se observassem , entre a curiosidade e o espanto, um antepassado de feições vagam ente sem elhantes às dos ovnis crom ados que lhes cintilavam m ensagens lum inosas nos pulsos estreitos. O psiquiatra sentiu-se de repente pré-histórico j unto desses seres cuj os olhos oblíquos eram lentes de Leika e cuj os estôm agos haviam sido substituídos por carburadores de Datsun, para sem pre libertos de guinadas de azia e de gases que hesitavam entre o suspiro e o arroto: não sei se é borborigm o se tristeza, pensava m uitas vezes quando lhe inchava o peito e lhe chegava à boca o balão de um a pastilha elástica sem pastilha a evaporar-se pelos lábios num assobiozinho de com eta, e atribuía por com odidade ao esófago o que de facto dizia respeito à confusão da sua angústia.

Encontrou o autom óvel com prim ido por duas stations enorm es, elefantes de m arfim de am parar livros de tia-avó sustentando a contragosto um folheto irrisório: Um dia destes com pro um cam ião de dezasseis rodas e transform o-m e assim num a pessoa decisiva, resolveu o m édico introduzindo-se no carro m inúsculo, de tablier repleto de cassetes que não tocavam e de em balagens de m edicam entos que haviam ultrapassado há m uito o prazo de validade: conservava tais inutilidades com o outros guardam na gaveta o frasco com as pedras da operação à vesícula, na esperança com ovente de balizar o passado daquilo que a vida abandona nas m argens do seu curso, e corria de tem pos a tem pos os dedos pelos rem édios com o os árabes afagam as suas contas m isteriosas. Eu sou um hom em de um a certa idade, citou ele em voz alta com o sem pre lhe acontecia quando Lisboa, num gesto m editativo de lagosta de viveiro, lhe apertava as pinças em torno dos tendões do pescoço, e casas, árvores, praças e ruas penetravam tum ultuosam ente na sua cabeça à m oda de um quadro de Soutine dançando um charleston carnívoro e frenético.

Girando o volante, para um e outro lado, com o um a roda de lem e, furtou-se aos hipopótam os adorm ecidos das stations a erguerem do rio do asfalto os olhos preguiçosos dos faróis, m am íferos tripulados por caixeiros-viaj antes loquazes que percorriam a província em safaris em que as aldeias indígenas cediam o lugar a coretos afligidos por psoríases de ferrugem , em torno dos quais velhos de bengala escarravam com autoridade entre as botas de carneira, e ingressou no carreiro de form igas soluçado do trânsito, com andado do fundo pelas piscadelas de olho sem sensualidade do sem áforo. O verde lum inoso aparentava-se à cor das íris da filha m ais crescida quando sorria de prazer sob os cabelos loiros em desordem , m inúscula feiticeira escarranchada na vassoura de zebra de pau do carrossel durante viagens de um a alegria exultante: o psiquiatra achava-a então m uito m ais velha do que na realidade era, e sentia-se, encostado à balaustrada de ferro, pagando m elancolicam ente ao em pregado, um cavalheiro idoso a tropeçar nas ceroulas na direcção da m eta próxim a do cancro da próstata e da últim a algália, pobres girândolas finais dos destinos anónim os.

Com o m otor do carro a gaguej ar segundo os arrancos de indigestão de um a longa fieira de capots, ia procurando nos Prém ios Valm or barrocos das esquinas, reduzidos Jerónim os que escondiam no interior dinastias de coronéis na reserva e de octogenárias m irabolantes, o consultório do dentista: não trabalhava nas tardes de sexta-feira e fazia o possível por m obilar o longo túnel oco dos fins-de-sem ana de pequenas actividades m arginais, tal com o as tias ocupavam o espaço confortável das m anhãs visitando, arm adas de terços, boas palavras e m oedas de cinco tostões o que denom inavam com orgulho proprietário de « os nossos pobrezinhos» , criaturas acom odatícias a quem o papão inquietante do Com unism o não assaltara ainda de perigosas dúvidas acerca da virtude da Sãozinha. O m édico acom panhara-as algum as vezes nesses raides sinistro-piedosos (Não se chegue m uito a eles por causa das doenças) de que conservava a recordação pungente do cheiro da fom e e da m iséria e de um paralítico que rastej ava na lam a entre as barracas, de m ão estendida para as tias que lhe garantiam , de m issal em riste, os faustos da eternidade na condição essencial de respeitar escrupulosam ente as pratas da nossa fam ília.

No regresso a casa o psiquiatra era por seu turno catequizado (O m enino reze para não haver um a revolução que esta gentinha é bem capaz de nos m atar a todos), enquanto lhe explicavam que Deus, ser conservador por excelência, assegurava o equilíbrio das instituições ofertando a quem não tinha criado óptim as tísicas galopantes que poupavam a m açada quotidiana dos trabalhos dom ésticos e dos calores da m enopausa, ondas escarlates que lhes vinham lem brar o facto vergonhoso de possuírem sob as saias as exigências, presentes ainda que m oribundas, de um sexo. E veio-lhe à ideia que quando principiara a m asturbar-se a m ãe, intrigada, fora m ostrar ao m arido um a m ancha nas cuecas, na sequência do que recebera convocatória form al para se apresentar no escritório, altar-m or da casa onde o pai estudava interm inavelm ente de cachim bo nas gengivas doenças estranhas em livros alem ães. Ser cham ado ao escritório constituía por si só o acto m ais solene e terrível da sua infância, e penetrava-se no augusto local de m ãos atrás das costas e língua a enrolar-se j á de desculpas, num a resignação de vitelo no m atadouro. O pai que escrevia sobre um a tábua nos j oelhos escorregou para ele um soslaio severo com o um vestido preto onde se entrevia a renda da saia de baixo de um a espécie de com preensão furtiva, e disse na bela voz profunda com que recitava os sonetos de Antero durante as anginas dos filhos, sentado na borda da cam a, de livro na m ão, solene com o se cum prisse um ritual iniciático:

– Vê se tens cuidado e se te lavas.

E fora a prim eira vez, pensou o m édico, em que se apercebera fisicam ente de que o pai houvera sido novo, e se confrontara, olhando-lhe a cara m agra e séria, lavrada de ossos, e as órbitas agudas de um pardo fosforescente, com a evidência angustiante de ter de por seu turno tropeçar de m etam orfose em m etam orfose na direcção do insecto perfeito que não alcançaria nunca. Não vou ser capaz não vou ser capaz não vou ser capaz repetia-se ele parado no tapete do escritório, fitando a silhueta de quaker do pai, inclinado para o papel em atenções de bordadeira. O futuro surgia-lhe sob a form a de um ralo escuro e sôfrego pronto a sugar-lhe o corpo pela garganta ferrugenta, traj ecto de cam bulhada de esgoto em esgoto rum o ao m ar intratável da velhice, deixando na areia da vazante os dentes e os cabelos das decrepitudes sem m aj estade. O retrato da m ãe sorria na estante brilhos m elancólicos de rosácea com o se a m anhã da sua alegria atravessasse a custo o vitral pálido dos lábios: tam bém ela não conseguira, oscilando indecisa entre a canasta e o Eça e perdendo-se sozinha num canto de sofá em m editações enigm áticas, e porventura com os outros, o resto da tribo, sucedera o m esm o, solitários ainda quando não sós, irrem ediavelm ente separados pelo infinito da desesperança. Reviu o avô na varanda da casa de Nelas, nessas tardes da Beira em que o crepúsculo alonga sobre a serra brum as lilases de film e bíblico, a observar os castanheiros na am argura de um alm irante no topo de um barco que naufraga, reviu a avó passeando para trás e para a frente no corredor a febre da energia inútil em cuj a cham a ardia, os tios que o quotidiano plastificara, a resignação m orna das visitas, o silêncio que cobria de súbito o rum or das conversas e durante o qual as pessoas se agitavam , aterradas, presas de m edos que se não exprim iam . Quem era capaz, interrogou-se o psiquiatra procurando lugar para o carro perto do consultório do dentista e arrum ando-o às arrecuas j unto a um a m ercearia leprosa assassinada no seu arroz e nas suas batatas por um superm ercado gigantesco que oferecia aos visitantes siderados com ida am ericana j á m astigada, em brulhada no celofane da voz de Andy William s a evaporar-se em hálitos sedutores de altifalantes sabiam ente distribuídos, quem era capaz de se oferecer a si próprio de si próprio o perfil perfeito de um ginasta rom eno im óvel no ar num exercício de argolas, soltando bafos de pó de talco dos sovacos de Tarzan? Talvez que eu estej a m orto, pensou, certam ente que m orri de m odo que nada de im portante m e pode j á acontecer, só a gangrena a roer o corpo por dentro, a cabeça oca de ideias, e lá em cim a, a superfície, a m ão m ole do vento a rem exer, à procura, as copas dos ciprestes, num frém ito de folhas de j ornal velho que se am arrota.

No corredor do consultório do dentista o zum bido da broca pairava invisível na penum bra em insistências de varej eira, buscando o torrão de açúcar de um m olar desprevenido. A em pregada m agra e pálida com o um a condessa hem ofílica estendeu-lhe os dedos transparentes do outro lado do balcão:

– Está m elhorzinho senhor doutor?

Pertencia à classe de portugueses que transform am os acontecim entos da vida num a arrepiante sucessão de dim inutivos: na sem ana anterior o m édico escutara esm agado o relato m inucioso da gripe do filho da funcionária, criança perversa que costum ava entreter-se com as cavilhas do PBX, desviando para Boston ou para o Nepal os uivos de dor dos abcessos lisboetas:

– Teve um sofrim entozinho na barriguinha, pus-lhe o term óm etro no bracinho, os olhinhos do m enino, coitadinho, andavam -m e tão inflam adinhos que nem calcula, levou um a sem ana a caldinhos de franguinho, ainda pensei em telefonar ao paizinho do senhor doutor, nunca se sabe naquelas idades se o cerebrozinho fica afectado, agora graças a Deus recuperou, prom eti um a velinha a Santa Filom ena, deixei-o sentadinho na cam inha, sossegadinho, a brincar aos recepcionistas, j á que não pode atender aqui finge que atende lá, ainda agora o engenheiro Godinho, aquele senhor forte m uito sim pático não desfazendo, que falou porque o incom odava o siso, estranhou não ouvir o m eu Edgarzinho, estava habituado a ele, até m e disse Ó Dona Delm ira então o rapaz?, Se Deus quiser para a sem ana j á o senhor engenheiro o tem aqui, disse eu, não é por ser m eu filho, que isso até m e ficava m al, m as o senhor doutor não calcula o j eito que ele tem para os auscultadores, em crescendo entra de certeza na Marconi, a m inha irm ã repete sem pre Nunca vi com o o Edgar Filipe, ela trata-o por Edgar Filipe que é o nom e dele, Edgar do pai e Filipe do padrinho, nunca vi com o o Edgar Filipe para os PBX, e é verdade, a m inha irm ã é casada com um electricista e essas coisas não lhe escapam , queira Nossa Senhora que a gripe lhe não atingisse os ouvidinhos. Eu nem quero pensar que m e dá logo um a tontura, ando a effortil j á vê, o m édico da Caixa avisou-m e A senhora acautele-se com a tensão, nos rins não tem nada m as acautele-se com a tensão, de m odos que fica a horinha do senhor doutor m arcada para sexta-feira.

Este tipo de conversa de caravela de filigrana, pensou o psiquiatra, provoca em m im a exaltação adm irativa que m e despertam os naperons de crochet e as pinturas de carrossel, am uletos de povo que agoniza num a paisagem conform ada de gatos em peitoris de rés-do-chão e de urinóis subterrâneos. O próprio rio vem suspirar no fundo das retretes a sua asm a sem grandeza: dobrado o cabo Boj ador o m ar tornou-se irrem ediavelm ente gordo e m anso com o os cães das porteiras, a roçarem -nos nos tornozelos a subm issão irritante dos lom bos de capados. Receando um a nova descrição de infortúnios de saúde o m édico sum iu-se na gruta da sala de espera à laia de caranguej o am eaçado por cam aroeiro tenaz. Aí, um a pilha de revistas m issionárias am ontoadas j unto ao candeeiro de ferro forj ado que difundia em torno um a luz coada de órbita vesga, garantia-lhe a paz inocente de um padre-nosso zulu. Arrum ando as ancas no sofá de cabedal preto gasto pelas incontáveis cáries que o haviam precedido, cavalo em balsam ado em form a de cadeira e porventura capaz de três ou quatro coices trôpegos, extraiu da pilha de j ornais virtuosos os restos de um sem anário com um a freira m estiça a rir na capa e em que um padre escocês narrava, num longo artigo ilustrado por fotografias de zebras, a frutuosa evangelização de um a tribo de pigm eus, dois dos quais, o diácono M’Fulum e o subdiácono T’Loclu, preparavam hoj e em Rom a a tese revolucionária que estabelecia a altura exacta da Arca de Noé a partir do cálculo do com prim ento m édio dos pescoços das girafas: a etno-teologia derrubava o catecism o. Dentro em breve um cónego da Arábia Saudita iria dem onstrar que Adão era um cam elo, a serpente um pipe-line e Deus Pai um xeique de óculos ray -ban com andando cardum es de anj os eunucos do Paraíso do seu Mercedes de seis portas. Por instantes o psiquiatra pensou que o Aga Kan constituía de facto a incarnação de Jesus Cristo, vingando-se dos aborrecim entos do Calvário ao descer de ski as m ontanhas suíças na com panhia da Miss Filipinas, e os verdadeiros santos os suj eitos bronzeados que anunciam m aços de Rothm an’s King Size em atitudes viris de post-coito triunfal. Com parou-se m entalm ente com eles, e a lem brança do vulto que entrevia de tem pos a tem pos, de surpresa, nos espelhos das pastelarias, m agro, frágil, e possuindo com o que um a espécie de graciosidade inacabada, fê-lo confrontar-se pela m ilionésim a vez com a am argura da sua origem terrena, prom etida a um futuro sem glória. Um a dor constante torcia-lhe o queixal. Sentia-se sozinho e desarm ado perante um xadrez insensato cuj as regras desconhecia. Necessitava com urgência de um a educadora infantil que o ensinasse a andar, debruçando para ele seios generosos e ardentes de loba rom ana contidos pelo tecido suave ao tacto de um soutien cor-de-rosa. Ninguém o esperava em parte algum a. Ninguém se preocupava em especial com ele. E o sofá de couro tornou-se a sua j angada de náufrago à deriva pela cidade deserta.

Esta vertiginosa certeza de vazio que o visitava com m ais frequência nas horas m atinais, quando se reagrupava penosam ente em torno de si próprio nos m ovim entos pastosos e engordurados de explorador que regressa de percursos estelares para se achar, ram eloso, em dois m etros de lençóis em desordem , dissolveu-se um pouco ao escutar passos aproxim arem -se no corredor do consultório saudados pela voz da hem ofílica (Boa tarde m enina Edite tem que esperar um bocadinho na sala) a sair do cubículo no m urm úrio de reza chorosa de quem debita o Corão de um a fresta de m esquita. Erguendo o queixo dos pigm eus ilum inados pelo exem plar percurso espiritual de São Luís Gonzaga, deu com um a rapariga ruiva que se foi sentar na cadeira gém ea da sua, do lado oposto do candeeiro, e que após um prim eiro soslaio avaliador, breve e atento com o a língua de um holofote, pousou nele os olhos claros no aceno de pestanas com que as rolas se anicham nos cotovelos das estátuas. No prédio fronteiro um a m ulher m uito gorda sacudia um tapete entre gerânios, enquanto o vizinho de cim a, em cam isola interior, lia o j ornal desportivo num banco de lona na varanda. Eram duas e um quarto da tarde. A rapariga ruiva tirou da carteira um livro da colecção Vam piro m arcado com um bilhete de m etropolitano, cruzou as pernas com o as lâm inas de um a tesoura sobrepondo-se, e a curva do peito do pé dela assem elhava-se ao das bailarinas de Degas suspensas em gestos a um tem po instantâneos e eternos, envoltos no vapor de algodão da ternura do pintor: há sem pre quem se extasie quando as pessoas voam .

– Olá, disse o m édico no tom em que Picasso se deve ter dirigido à sua pom ba.

As sobrancelhas da rapariga ruiva convergiram um a para a outra até form arem o acento circunflexo do telhado de um quiosque que os ram os de plátano das m adeixas soltas tocavam de leve:

– Era na época em que as dores de dentes falavam , disse ela. Possuía o tipo de tim bre que se im agina que Marlene Dietrich teria na j uventude.

– Não m e dói nenhum dente porque os uso todos postiços, inform ou o m édico. Venho só substituí-los por barbas de tubarão para engolir m elhor os peixes do aquário da m inha m adrinha.

– Eu estou aqui para assassinar o dentista, declarou a rapariga ruiva. Acabo de aprender a receita no Perry Mason.

Na altura do liceu resolvias de certeza num rufo as equações do segundo grau, pensou o psiquiatra a quem as m ulheres pragm áticas assustavam : o seu dom ínio fora sem pre o do sonho confuso e vagueante, sem tábua de logaritm os que o descodificasse, e acom odava-se a custo à ideia de um a ordenação geom étrica da vida, dentro da qual se sentia desorientado com o form iga sem bússola. Daí a sua sensação de existir apenas no passado e de os dias deslizarem às arrecuas com o os relógios antigos, cuj os ponteiros se deslocam ao contrário em busca dos defuntos dos retratos, lentam ente aclarados pelo ressuscitar das horas. Os avós do Brasil estendiam para fora do álbum as barbas am arelas, saias de balão inchavam nas gavetas das fotografias, prim os longínquos, de polainas, conversavam na sala, o senhor Barros e Castro recitava Gom es Leal num a entoação preciosa. Quantos anos tenho?, interrogou-se ele procedendo à periódica verificação de si próprio que lhe perm itia um entendim ento precário com a realidade exterior, substância viscosa em que os seus passos se afundavam , perplexos, sem destino. As filhas, o bilhete de identidade e o lugar no hospital ancoravam -no ainda ao quotidiano m as por tão finos fios que prosseguia pairando, sem entinha peluda de sopro em sopro, a hesitar. Desde que se separara da m ulher perdera lastro e sentido: as calças sobravam -lhe na cintura, faltavam -lhe botões nos colarinhos, principiava pouco a pouco a assem elhar-se a um vagabundo associal em cuj a barba cuidadosam ente feita se detectavam as cinzas de um pretérito decente. Ultim am ente, observando-se ao espelho, achava que as próprias feições se desabitavam , as pregas do sorriso davam lugar às rugas do desencoraj am ento. No seu rosto havia cada vez m ais testa: em breve faria a risca na orelha e cruzaria sobre a calva seis ou sete farripas pegaj osas de fixador, num a ilusão ridícula de m ocidade. Lem brou-se de súbito do suspiro saudoso da m ãe:

– Os m eus filhos são tão bonitos até aos trinta anos.

E desej ou desesperadam ente retornar à linha de partida, em que as prom essas de vitória são não apenas perm itidas m as obrigatoriam ente desej áveis: o cam po dos proj ectos que se não realizam nunca era um pouco a sua pátria, o seu bairro, a casa de que conhecia de cor os m ínim os recantos, as cadeiras coxas, os insectos, os cheiros íntim os, as tábuas que estalavam .

– Quer j antar com igo esta noite?, perguntou à rapariga ruiva que aperfeiçoava as suas intenções crim inosas através das m edíocres deduções de Perry Mason, alinhando no tribunal silogism os de im placável estupidez.

A hem ofílica cham ou-o do corredor: tom ou apressadam ente nota do núm ero de telefone num pedaço de papel arrancado da página da revista m issionária em que um grupo de sacristães canibais com ungavam sob espécies com evidente apetite (Às sete? Às sete e m eia? Chega do cabeleireiro às sete e m eia?) e dirigiu-se para o gabinete do dentista a im aginar coxas ruivas espalhadas nos lençóis no abandono contente de depois do am or, o púbis sardento, o odor da pele. Sentou-se na cadeira dos suplícios, cercada de tenebrosos instrum entos, brocas, ganchos, estiletes, ferros, um a gengiva num prato, entregue à excitante tarefa de fantasiar o apartam ento dela: alm ofadas no chão, livros do Círculo dos Leitores nas prateleiras, bibelots de m ulher só recuperando a inocência através de bichos de peluche, fotografias celebrando idílios defuntos, um a am iga de óculos e com m á pele a discutir a Esquerda entre fum aças antiburguesas de Três Vintes. Nos seus acessos de m isoginia o m édico costum ava classificar as m ulheres consoante o tabaco que usavam : a raça Marlboro-sem -ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d’Estaing e o príncipe Filipe m uito pêssegos e a inteligência um a m açada esquisita; o tipo Malboro-de-contrabando interessava-se por design, bridge e Agatha Christie (em inglês), frequentava a piscina do Muxaxo e considerava a cultura um fenóm eno vagam ente divertido quando acom panhado do am or do golfe; o género SG–Gigante apreciava Jean Ferrat, Truffaut e o Nouvel Observateur, votava Socialista e m antinha com os hom ens relações ao m esm o tem po em ancipadas e iconoclastas; a classe SG– Filtro tinha o poster de Che Guevara na parede do quarto, nutria-se espiritualm ente de Reich e de revistas de decoração, não conseguia dorm ir sem com prim idos e acam pava aos fins-de-sem ana na lagoa de Albufeira conspirando acerca da criação de um núcleo de estudos m arxistas; o estilo Português-Suave não se pintava, cortava as unhas rentes, estudava Anti-Psiquiatria e agonizava de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios, de cam isa da Nazaré desabotoada e noções sociais perem ptórias e esquem áticas; por fim , o lum pen do tabaco de m ortalha enlanguescia ao som dos Pink Floy d em gira-discos de pilhas j unto à Suzuki do am igo de ocasião, adolescentes fazendo reclam e aos am ortecedores Koni nas costas dos blusões de plástico. À m argem desta taxonom ia sim plificada situava-se o grupo da Boquilha, m enopáusicas donas de boutiques, de antiquários e de restaurantes em Alfam a, tilintantes de pulseiras m arroquinas, saídas directam ente dos esforços dos institutos de beleza para os braços de hom ens dem asiado novos ou dem asiado velhos, que lhes aj ardinavam as m elancolias e as exigências em duplexes a Cam po de Ourique, inundados da voz de Ferré e dos bonecos da Rosa Ram alho, e onde as lâm padas indirectas tingiam os seios gastos de um a penum bra púdica e favorável. Tu, pensou ele referindo-se à m ulher enquanto o dentista, espécie de Mefistófeles sarcástico, lhe apontava às pupilas um a trem enda luz de ringue de boxe, tu, pensou, escapaste sem pre à derisão e à ironia em que procuro esconder a ternura de que m e envergonho e o afecto que m e apavora, talvez porque desde o princípio tenhas topado que sob o desafio, a agressividade, a arrogância, se ocultava um apelo aflito, um grito de cego, a m irada lancinante de um surdo que não percebe e busca em vão decifrar, nos lábios dos outros, as palavras apaziguadoras de que necessita. Vieste sem pre sem que te cham asse, am paraste sem pre o m eu sofrim ento e o m eu pavor, crescem os ilharga a ilharga aprendendo um com o outro a com unhão do isolam ento partilhado, com o quando parti, sob a chuva, para Angola, e os teus olhos secos se despediram sem falar, pedras escuras guardando dentro com o que um sum o de am or. E recordou o corpo deitado na cam a nas tardes de Marim ba, sob as m angueiras enorm es pej adas de m orcegos que esperavam a noite pendurados pelos pés à m aneira de guarda-chuvas carnívoros (anj os dos ratos, cham ava-lhes um a am iga), e a filha m ais velha, que então com eçava a andar, tropeçando para eles agarrada às paredes. Não aguentam os m uitos desafios, achou o psiquiatra no instante em que o dentista lhe enganchava o aspirador no canto da boca, não aguentam os m uitos desafios e acabam os quase sem pre por fugir aterrados à prim eira dificuldade que aparece, vencidos sem com bate, cães m agros que rondam traseiras de hotel no trote m iúdo das fom es por saciar. O som da broca que se aproxim ava num a ferocidade de vespa despertou-o para a realidade da dor im inente quando aquele m inúsculo Black and Decker lhe tocasse o queixal. O m édico segurou os braços da cadeira a m ãos am bas, apertou os m úsculos da barriga, fechou as pálpebras com força, e tal com o costum ava fazer diante do sofrim ento, da angústia e da insónia, pôs-se a im aginar o m ar.